sexta-feira, dezembro 31, 2010

O fenômeno Lula


Às vésperas de entregar a faixa presidencial para a presidente eleita Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada, o presidente Luis Inácio Lula da Silva se vê diante da velha chacota da mídia que o considera autoritário, zombeteiro e vaidoso, e que detesta o seu modo de falar despojado e cheio de metáforas, mas claro que odeia muito mais o seu modo de governar. Mas, com mais de 80% de aprovação, Lula não se intimida, e toma uma medida impopular como a não extradição de Cesare Battista, integrante do grupo de esquerda envolvido na luta armada nos anos 70 na Itália denominado Proletários Armados para o Comunismo (PAC), fato que foi alarmado pela grande imprensa como a proteção a um terrorista, e, para completar, Lula soltou a piadinha de que Dilma deveria ter cuidado porque talvez ele saísse correndo para não entregar a faixa presidencial a ela.

Nos veículos como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Veja o que podemos ver é um clima de celebração pela saída de Lula. A revista Veja chegou a colocar um relógio no site contando o tempo para o fim do governo Lula. Mas não importa o quanto as viúvas de José Serra estejam amarguradas, Lula sapateia em cima da grande imprensa e tem uma popularidade tão alta que lhe concede a ousadia de maldizer os grandes veículos de comunicação sem temer retaliações.

O que me traz o questionamento: por que Lula é tão popular? Poderíamos citar os programas sociais, a exemplo do Bolsa Família. Mas o que me chama a atenção mesmo aqui é a arte de PARECER. Em que a imagem de Lula acerta para conseguir votos - e até transferi-los.

Primeiramente, por mais que a grande mídia reclame do modo bastante informal como Lula tece declarações públicas, isso conquista o eleitorado. Resumindo: Lula parece gente da gente. O fato de ele ter vindo do Nordeste, se instalado no Sudeste, mais tarde tornando-se metalúrgico, e até ter sofrido um acidente de trabalho que lhe custou um dedo, traz à tona uma biografia que conquista milhões de brasileiros que ainda vivem na miséria ou na pobreza. Além disso, setores de esqueda da classe média ovacionam a trajetória de Lula e seu modo de fazer política.

Mas por quê este homem perdeu tantas eleições até finalmente conquistar a vitória em 2002? O sucesso de Lula nas urnas tem nome: o publicitário Duda Mendonça. Antes Lula era o sindicalista barbudo com fala agressiva que clamava por mudanças radicais na sociedade. E, inclusive os mais pobres, muitas vezes defendem que a sociedade permaneça do jeito que ela está. Foi aí que Lula surgiu com a fala mansa, terno, Lulinha paz e amor, desbancando a Regina Duarte com o lema "não deixa a esperança vencer o medo". A propaganda fez seu milagre: transformou um rebelde em um self-made-man, expressão americana que quer dizer algo como um homem que se deu bem na vida, que conseguiu a ascensão social. Ou seja, ele continua bem bonitinho dentro dos valores do capitalismo. E sua imagem conquista todos aqueles brasileiros pobres que querem, igualmente, subir na vida.

Por outro lado, a campanha da reeleição de Lula e também a campanha de Dilma, apesar de apresentarem em grande parte um discurso conservador e gerencial, em certos momentos aderiram a ideologias de esquerda. Como no tocante à defesa do patrimônio nacional e crítica à gestão de Fernando Henrique Cardoso que realizou diversas privatizações. Na campanha de Dilma, o mote foi o pré-sal, e os eleitores foram alertados de que Serra esteve a frente de muitas privatizações durante o governo FHC e entregaria de mão beijada o "nosso petróleo" a empresas estrangeiras.

Diferente de Alckmin, que ficou acuado diante das acusações referentes às privatizações, Serra defendeu-as. No entanto, o discurso do PT terminou sendo bem mais forte. Por quê? Porque a propaganda do PT mexe muito bem com a identificação, desde a imagem de Lula até a valorização da identidade nacional. Sabemos que a identidade nacional, a ideia de um povo pertencente a uma comunidade imaginada, serviu desde sempre para o fortalecimento do Estado. Na propaganda petista, privatizar é tirar do Brasil. E todos somos Brasil, logo, não queremos entregar o nosso patrimônio. Essa é a lógica da campanha petista.

A lógica do elogio a Lula é também baseada na negação. FHC é o exemplo daquilo que foi negativo para o país. E o fantasma de FHC pairou sobre Serra nesta campanha. Votar em Serra seria votar no atraso. O Brasil pararia de avançar. Dois argumentos básicos que defendiam essa tese na última campanha, que consistiu basicamente no elogio à gestão de Lula para a continuidade com Dilma: 28 milhões saíram da miséria e a dívida do FMI foi liquidada. Assim, a campanha petista focou na crença de que o governo tucano seria caracterizado pela insensibilidade social, enquanto o PT governa pensando nas pessoas. Um valor da arte da propaganda: a preocupação com as pessoas. A humanização do cliente para conquistá-lo.

Se investigarmos mais a fundo as razões pelas quais a propaganda petista é bem sucedida, descobriremos que isso nada tem a ver com o fim do medo do comunismo, ou mesmo uma esquerdização no Brasil. Assim, muitos e muitos eleitores de Lula, e agora Dilma, desaprovam aliados históricos do PT, como o MST e até mesmo, veja que absurdo, os sindicatos. O que existe é uma extrema contradição ideológica - e, de um jeito ou de outro, a continuidade de uma mesma política econômica, inserida num mesmo sistema sócio-econômico, que afirma suas bases no discurso, na ideologia, na cultura de um modo bastante complexo e dialético, e até mesmo ambíguo.

Eis a hora do adeus

Ontem revi um grande amigo que está no Rio de Janeiro fazendo doutorado. Quando eu o conheci, a gente virava a noite na rua com a galera mesmo em tempo de estudar para o vestibular. E vejam só, agora ele não tem tempo pra outra coisa que não seja o doutorado e o emprego.

Não importa quanto tempo eu passe longe do meu amigo, ele é muito importante para mim. Eu sei que ele se preocupa. Eu me preocupo com ele. E a gente vai ter o que conversar mesmo ficando muito tempo distantes um do outro. Mesmo que muitas vezes nossos papos sejam muito nostálgicos, relembrando as estripulias da adolescência.

Mas o que me chamou a atenção mesmo no encontro de ontem foi quando, após me abraçar e se despedir de mim, ele ter olhado para mim e para os outros antigos amigos e dito, com um leve ar de chateação:

- Que coisa, né? Fico tanto tempo sem ver meus amigos e quando os revejo é assim, rápido.

Isso me deixou um pouquinho triste. Uma mistura de um tanto de tristeza com um tanto de saudade. E daí que eu conclui que nos próximos tempos eu vou me despedir assim como ele, que passa rápido e vai embora - Parto levando saudades e saudades deixando... E é aí que a voz do Lamartine Babo ressoa na minha mente... Uma hora essa cidade que tanto critiquei vai me dar o troco, como uma placa no limite do território dizendo: Aqui começa a saudade de Aracaju.

Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem
Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus
Levo na minha cantiga a imagem da serra
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem
Serra da Boa Esperança não tenhas receio
Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou-me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus

Booora 2011!

O que foi 2010? 2010 foi um mero projeto de 2011. Eu sabia desde o começo que 2010 não passava de uma preparação para 2011. Sempre. E foi mesmo.

Apesar de achar que 2011 vai ser um ano muito mais rico em termos de experiências (talvez o mais rico da minha vida, vamos ver), 2010 também bombou nesse sentido.

Foi um ano difícil, desesperador, com decepção seguida de decepção, cagada seguida de cagada, um ano em que eu achei que minha vida ia dar em merda, mas foi também um ano em que descobri o carnaval, em que aprendi o prazer de viajar (e viajei muito), e que fechou com chave de ouro com a notícia de que sim, eu vou viver coisas muito novas, muito diferentes do que estou vivendo e isso me dá tesão.

Que venha 2011!

BH, tô chegando!

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Ser alguém

Desde pequenina, eu, assim como todas as crianças do mundo, escutava essa frase: Estude para ser alguém na vida. Quando eu era guria, a frase nunca teve nenhum significado. Hoje em dia ela faz todo o sentido pra mim.

Essa frase começou a fazer sentido pra mim mais especificamente quando comecei a procurar pelo meu primeiro estágio. Levei muito tempo até conseguir um e descobri que não era nada fácil. E eu entendi realmente o significado dessa frase depois que recebi o meu diploma.

Quando você se forma, muita pressão cai em cima de você. Se quando você estava na graduação rolavam perguntinhas como "está gostando do curso?" ou "já começou a estagiar na área?", após a formatura você tem que dar um rumo a sua vida muito sério.

Foi quando o Poema em linha reta, do heterônimo Álvaro de Campos, traduziu o meu estado de espírito. Só havia semideuses ao meu redor. Todo mundo abafando trabalhando não sei onde e me perguntando o que eu estava fazendo, e eu merda nenhuma, e eu tinha que encarar o semblante de nojinho de familiares, ex-colegas de faculdade, etc.

Não foram poucos os comentários venenosos, gente me rotulando de incompetente, gente passando na cara que era o maioral, enfim, os semideuses...

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Não só eu, como outros colegas que não eram da turminha do governo, ou da turminha da imprensa, ou da turminha da academia, éramos os incompetentes e acabou-se. Hoje eu começo a achar o mundo meio escroto pelo fato de a gente ter que estudar pra ser alguém. A gente tem que saber pra ser alguém. Tem que ter dinheiro pra ser alguém. Tem que ter título, cargo, pra conseguir RESPEITO.

Muitas pessoas simplesmente não te respeitam quando você não é ninguém na concepção delas (que é ter o que eu falei antes). E daí eu fico imaginando o quanto pessoas que trabalham recolhendo lixo, por exemplo, são diariamente humilhadas porque, ora bolas, não estudaram, não são NINGUÉM. E quantas vezes eu vi um homem servindo cafezinho no trabalho, e as pessoas podiam até dar um boa tarde e serem simpáticas, mas elas se levantavam mesmo e faziam reverências para o dono da empresa...

Para todo lugar aonde você vai as pessoas perguntam o que você está fazendo e exigem que você esteja alavancando na sua carreira profissional. E boa parte dessas pessoas só te consideram inteligentes se você tiver o bendito cargo ou sei lá o quê da peste. Você tem que ter um carimbo na sua testa. É impressionante.

Quando eu entrei na faculdade, as pessoas valiam pelo que elas eram. Se eram engraçadas, se eram legais, se eram divetidas, se eram interessantes, se tinham um papo bacana. Depois elas começaram a valer pelo que elas tem. Pessoas, no fim de tudo, viram contatos. E se você não é um contato, você não é ninguém. Isso sua família não lhe ensinou quando criança.

Assim meio Cléo



Ao ver Cléo, de 5 a 7 (1962), de Agnés Varda, a primeira cena me deu vontade de ir à cartomante.
*
Acho que sou tão fútil quanto Cléo.
*
Também tão sensível quanto Cléo.
*
O rádio anuncia no meio do filme que Édith Piaf ainda sobrevivia à doença. Cléo é meio assim, Édith Piaf. Gosto de Édith Piaf.
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Sinto-me meio sick and tired às vezes, como Cléo.
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Gosto de andar pela cidade, como Cléo.
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Gosto de cantar também.
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Se encontrasse Antoine num parque, provavelmente ia agir como Cléo: tentaria ignorá-lo, mas gostaria da sua cara de pau.
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Também quebrei meu espelho.
*

Crítica da internet - parte 2

Em tempos de muita exposição, é possível observar que existe de um modo geral um excessivo culto à felicidade, como também à sua outra face: a tristeza. De um lado, há internautas que afirmam estar constantemente muito tristes, e do outro pessoas que querem aparentar ter uma vida perfeita.

Já vi um blog em que uma garota colocou uma foto de uma mulher com os pulsos cortados num post em que dizia que iria se suicidar muito em breve. A garota curtia Doom metal, modalidade do metal que mescla o canto lírico ao vocal gutural entoando canções depressivas e que envolvem temas etéreos. Era possível notar um forte instinto de morte, masoquismo e certo repúdio pela vida.

Enquanto pessoas como essa garota tecem um elogio à tristeza, há também aqueles que vivem a postar fotos em que estão sentados na beira da praia, ou imagens de uma família feliz, insistem em colocar sempre fotografias em que estão rodeados de dezenas de amigos para simular uma popularidade, e juntam a isso dizeres clichê com definições sobre o que é ser feliz e lá lá lá. Vendo assim, até parece que essas pessoas nunca tiveram problemas, nunca ficam tristes, mas na real isso me parece uma big big farsa.

Mas afinal, o que querem aqueles que acreditam que a vida é feita de extremos: ou se é super hiper feliz ou se afunda na depressão? O que existe são valores totalmente adversos situados numa mesma sociedade que prega que temos que ter o corpo perfeito, o marido (ou esposa) perfeito (a), enfim, a família perfeita, uma carreira promissora e, o mais importante: muito dinheiro no bolso.

Uns aderem a esses valores e querem mostrar a todo custo que estão bem inseridos na sociedade. Outros vêem no culto à tristeza uma forma de rebeldia diante de uma sociedade consumista e moralista. Mas, no fim das contas, para ambos os lados o capitalismo produz os seus produtos: seja a música emo, seja o revéillon em Miami. Também existe a versão alternativa dos pseudo-felizes, que andam saltitantes com suas roupas hippies compradas no shopping e adoram dizer que amam todo mundo, insistindo em colocar fotos da sua felicidade no orkut com legendas contendo letras de Novos Baianos (e não, eles nunca, em nenhum momento, dizem estar tristes).

No meio desse bolo todo, eu, como voyeur, admiro mais as pessoas que parecem de carne e osso. Que às vezes estão felizes, às vezes tristes. Mas eu ainda acho que a tristeza tenha que ficar mais bem guardada: e a felicidade também. Todavia eu, assim como todos eles (os "alegres o tempo inteiro", os suicidas, os "meio termo"), não sei esconder certos sentimentos. Talvez, igualmente como todos eles, eu fantasie minha alegria e minha tristeza. Ao extremo.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Introibo ad altare dei...


Nessa época de nada pra fazer, decidi reler Ulisses, de James Joyce. Sim, é um clássico da literatura, sim, muitos dizem que é o melhor livro da literatura moderna (mas quem sou eu pra falar em literatura moderna, haja livro pra conhecê-la), sim, é um livro muito mais comentado do que lido, sim, dizem que é ininteligível. É aí onde eu entro pra discordar. Está certo que estou lendo a tradução de Bernadina, que dizem que é a mais fácil, mas concordo com ela na hora de achar que o livro é inteligível sim e bem gostoso. É difícil, mas, já dizia minha mãe, as coisas difíceis são as melhores (ou não).

Acho que era muito nova quando li pela primeira vez e estou relendo porque gostei muito (perhaps meu livro favorito). E acredito que ainda vou reler outras vezes no decorrer da vida. Lembro de ter chorado horrores numa determinada parte do livro, mas faz tanto tempo que eu o li que simplesmente não recordo que parte foi.

É muito prazeroso ler Ulisses. E não, eu não li a Odisséia, nem Shakespeare. E inclusive discordo de quem acha que ler Ulisses é basicamente sair catando as referências que James Joyce faz nessa obra magistral. É sentir e compreender a obra pelo que ela é e pelo modo como ela se relaciona com a minha vida e as minhas leituras. Mas quem sabe um dia poderei reler Ulisses ainda outra vez já tendo lido a obra de Shakespeare e também a Odisséia e isso seja bem mais interessante.

Por isso, vou narrar aqui no blog a experiência de reler Ulisses. Quero manter acesa na minha memória através do blog o que é esse livro para mim. Aviso: eu sei que isso NÃO É crítica literária. Introibo ad altare dei...
*

Hoje li o primeiro e o segundo capítulo, Telêmaco e Nestor, respectivamente. Uma das primeiras frases de Ulisses é Introibo ad altare dei, que em latim quer dizer algo como Entrarei no altar do senhor (não sei latim, mas procurei saber sobre isso). Essa frase ficou marcada na minha memória, e foi dita por Buck Mulligan no alto da Torre do Martelo, enquanto segurava um espelho e uma navalha.

Buck Mulligan é estudante de Medicina, colega do professor e poeta Stephen Dedalus, nosso protagonista e famoso alter-ego de James Joyce. Dedalus, assim como Joyce, é um literato, irlandês e também teve uma educação católica repressora na infância - ambos servem a dois senhores, o Estado inglês e a Igreja Católica Apostólica Romana. Já a relação de Dedalus com o personagem de Mulligan é marcada pela mágoa que Stephen Dedalus guarda de Buck Mulligan pelo fato de ele ter se referido a Stephen como "aquele cuja mãe morreu como um animal".

Diante do pedido da mãe para que ele se ajoelhesse junto ao seu leito e orasse por ela, Stephen Dedalus se recusa a obedecê-la. E Mulligan insiste em zombar da atitude de Dedalus. No entanto, Stephen Dedalus não convive bem com a atitude que tomou no passado.

O mais marcante no capítulo Telêmaco é o sentimento de culpa que Stephen carrega consigo. Ele é atormentado pelo fantasma da sua mãe - não no sentido de ver assombrações, mas ele constantemente se depara com a lembrança do seu "odor de cinzas molhadas", entre outras lembranças do momento da morte dela, bem como da infância.

Stephen Dedalus dorme num quarto junto com Haines, que à noite, enquanto dormia, proferiu gritos de espanto e esbravejou que mataria a balas uma onça. Dedalus, apesar de ter medo de Haines, também está atormentado, só que pela imagem da mãe.

Buck Mulligan conta a Haines que Stephen Dedalus diz ser capaz de provar por álgebra que Hamlet era o avô de Shakespeare e que ele é atormentado pelo fantasma de seu próprio pai. Trata-se de uma intrigante pista deixada por James Joyce para seus leitores. Assim como Shakespeare é o criador de Hamlet, personagem atormentado pelo personagem do pai, Joyce é o criador de Stephen Dedalus, que sofre do mesmo mal.

Ao saber da tese de Dedalus, Haines lembra da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. A consubstancialidade entre pai e filho. Há em Ulisses não só a consubstancialidade entre Stephen Dedalus e seu pai, como também entre o próprio James Joyce e Stephen Dedalus, personagem que surge no livro Retrato de um artista quando jovem.

Já no segundo capítulo, intitulado Nestor, nós acompanhamos a rotina de Stephen Dedalus enquanto professor e sua relação com o diretor da escola, o sr.Deasy. Os comentadores da obra de Joyce afirmam que Deasy seria um oráculo, presente na Odisséia, às avessas: uma crítica à "antiga sabedoria".

O Sr.Deasy cita uma frase de Iago, personagem de Otelo, de Shakespeare: O dinheiro é para ser guardado na carteira. Acredita na redenção através do trabalho e do dinheiro economizado para o futuro, detesta os judeus, e defende um modo repressor de educar as crianças.

Durante a aula de Stephen Dedalus, acomoanhamos ao modo da técnica do fluxo de consciência as reflexões de Dedalus. Uma passagem que me marcou muito e que tão logo reconheci ao ler: O pensamento é o pensamento do pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certa forma tudo o que existe: a alma é a forma das formas. Tranquilidade, súbita, vasta, candente: forma das formas. Acredito que nessa passagem James Joyce vai além das vertentes materialista e idealista, e propõe um encontro entre a alma e o mundo, a imagem e a matéria. Será ao modo bergsoniano, como conclui Matéria e memória?

Após a aula, em que Stephen Dedalus estava entre o tédio das lições e suas reflexões, os alunos correm para brincar no recreio, como uma espécie de libertação. É quando ocorre o encontro entre o Sr. Deasy e Stephen Dedalus.

O Sr.Deasy lhe paga o seu parco salário e pede para que Dedalus providencie a publicação em algum jornal de um texto seu sobre a febre aftosa. Dedalus e Deasy iniciam uma discussão sobre o que é a história, uma das passagens mais belas do livro.

É quando o Sr.Deasy afirma que a história da humanidade caminha em direção à manifestação da vontade divina. Ao que Stephen Dedalus responde: "isto é Deus, um grito na rua", apontando para os meninos que brincavam no recreio. Gostei muito dessa passagem, pelo modo como Joyce propõe uma visão da história não guiada por uma essência de uma grande personalidade, mas sim pelos diversos sujeitos envolvidos no processo histórico.

O Sr.Deasy entende isso como um insulto e afirma que Stephen Dedalus não duraria muito naquela escola. Antes de sair da sala, o Sr.Deasy pergunta a Dedalus, um irlandês, o porquê de a Irlanda ser conhecida por nunca ter perseguido os judeus. E responde: "porque a Irlanda nunca os deixou entrar". Para o Sr.Deasy, os judeus cometeram um grande pecado e por isso pagam vagando pelo mundo sem um lar...

Interessante que Ulisses foi publicado no contexto pós-Primeira Guerra Mundial, em 1922, e mais tarde, na Segunda Guerra Mundial haveria o Holocausto realizado pelo governo nazista alemão sob a égide de Adolf Hitler. Esse capítulo termina com uma metáfora genial, quando Deasy segue andando e é descrito assim por Joyce:

Sobre seus ombros sábios o sol lançou lantejoulas e moedas dançantes através da marchetaria das folhas.

Descrevendo-o como tendo "ombros sábios" e poetizando a luz relacionando-a a "moedas dançantes", Joyce enfatiza o conservadorismo de seu personagem.

De um modo geral, me lembro muito bem que os capítulos Telêmaco e Nestor são os mais simples de Ulisses, que se torna mais difícil de digerir a cada capítulo. Então vamos lá...

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Nem tudo são flores

Contrariando a reflexão do post anterior, lá vou eu falar das minhas estripulias. Bem, vou me mudar para outra cidade - de Aracaju direto para Belo Horizonte (digo, com vôo conexão) - e tudo está sendo muito, mas muito difícil mesmo. Difícil achar um lugar que preste, fique perto da UFMG, não seja caro, que já tenha mobília e com três quartos pra dividir com mais duas meninas.

Nessa vida de estudante, sem muito dinheiro no bolso, a gente não tem muito o que escolher. Às vezes temos que nos dobrar a condições nada ideiais: como dividir um lar com muita gente. E aí adeus privacidade, adeus "minhas vontades". Ou seja, muito provavelmente o apê que descrevi no primeiro parágrafo não vai rolar e eu vou morar numa pousada onde vivem trocentos estudantes.

Está sendo um trabalho muito árduo encontrar um lugar bacana, e nessa hora há diversos sentimentos envolvidos: ansiedade, excesso de expectativa... Também é preciso uma certa dose de cuidado para não tomar decisões precipitadas.

Sinceramente, nunca tive tanta vontade de ser burguesinha pra comprar assim como se fosse nada um apartamento com mobília em Belo Horizonte que ficasse bem perto da universidade. Mas "a vida é dura", e talvez no fim de tudo a graça seja essa. Não duvidem se eu mandar uma carta pro Luciano Huck pedindo um apartamento pra mim.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Crítica da internet - parte 1


Lá vou eu com mais uma proposta de série, mas será que vou dar continuidade? Enfim, tenho refletido sobre algumas problemáticas do ciberespaço e logo me lembrei de O show do eu, da Paula Sibilia. Em suma, o que Paula Sibilia afirma em seu estudo é que no tempo da ascenção da burguesia, paralelamente ao desenvolvimento da esfera pública enquanto prática do debate político essencial para a democracia, que ocorreu em locais como os cafés de Paris, houve também o incremento da subjetividade com a formação da família nuclear burguesa e a existência de espaços como o quarto individual, onde era possível estar a sós consigo mesmo, e ainda o enriquecimento dessa mesma subjetividade através da popularização da prática da escrita e da leitura.

No entanto, na esteira de Richard Sennett, Paula Sibilia fala sobre "o declínio do homem público". Digamos que vivemos numa época que valoriza demais a dimensão subjetiva e na qual a participação ativa na vida política é muito pequena. E essa subjetividade, antes vivida na dimensão única do espaço-tempo da intimidade do quarto e restrita a um diário escrito a sete chaves, agora perambula na amplitude e incerteza do tempo e do espaço da internet, bem como está em evidência numa vitrine virtual para qualquer um ver - num blog, por exemplo.

E é aí onde eu começo a me questionar a respeito do meu próprio blog. Dia desses estava em crise pensando na possibilidade de fechar minha conta. Não é a primeira vez que isso acontece, mas ao contrário do orkut, que eu cancelei váaarias vezes, nunca tive coragem de fechar meu blog. Mas ando repensando sobre ele.

Até que ponto é saudável expor a intimidade dessa forma? Quais são os olhos punidores que estão nos olhando? E mais: enquanto a internet apresenta um imenso potencial de mobilização social, nós nos perdemos submergindo na nossa intimidade e nos trazendo à exibição pública. Onde está a política nisso tudo?

Submetendo-nos à exibição, nós aprimoramos os mecanismos de poder, de acordo com Foucault, que é citado por Paula Sibilia. Segundo Foucault, a confissão pode ser uma técnica de vigilância que torna as micro-relações de poder ainda mais sutis e aperfeiçoadas - como no confessionário na igreja, por exemplo. E é assim que diversas empresas analisam o que os candidatos a vagas de emprego dizem na internet: em blog, orkut, twitter, facebook, etc. Como vi um cara dizer no twitter: "a moça disse que eu era competente, mas que não ia me contratar porque eu falava muita besteira no twitter".

Pois é. Por desejar tomar cada vez mais cuidado com o que digo seja para as pessoas com as quais me relaciono, seja com o que é publicado na internet, é que ando me questionando sobre os caminhos desse blog.

Desasossego

A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do Destino. Repugno a vida real como uma condenação; repugno o sonho como uma libertação ignóbil. Mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho. Sou como um escravo que se embebeda à sesta — duas misérias em um corpo só.
(...)

Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio porque, sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou. E o sonho, a vergonha de fugir para mim, a covardia de ter como vida aquele lixo da alma que os outros têm só no sono, na figura da morte com que ressonam, na calma com que parecem vegetais progredidos!

Não poder ter um gesto nobre que não seja de portas a
dentro, nem um desejo inútil que não seja deveras inútil!

Definiu César toda a figura da ambição quando disse aquelas palavras: "Antes o primeiro na aldeia do que o segundo em Roma!'' Eu não sou nada nem na aldeia nem em Roma nenhuma. Ao menos, o merceeiro da esquina é respeitado na Rua da Assunção até à Rua da Vitória; é o César de um quarteirão. Eu superior a ele? Em quê, se o nada não comporta superioridade, nem inferioridade, nem comparação? É César de todo um quarteirão e as mulheres gostam dele condignamente.

E assim arrasto a fazer o que não quero, e a sonhar o que não posso ter, a minha vida (...), absurda como um relógio público parado.

Aquela sensibilidade tênue, mas firme, o sonho longo mas consciente (...) que forma no seu conjunto o meu privilégio de penumbra.

Fernando Pessoa, em O livro do desasossego.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Tristeza sem motivo

Não há tristeza mais difícil de ser enfrentada do que aquela em que a única responsável sou eu. De ontem pra hoje estou assim, triste sem qualquer motivo aparente. E é tão difícil, porque acho tudo isso um saco. E não, isso não tem nada a ver com TPM, estou longe do período menstrual.

Quando minha tristeza tem motivo, eu vou até o fundo do poço pra depois voltar. Mas quando eu não tenho do que reclamar, tenho vontade de me auto-flagelar, porque acho que é um sentimento ridículo. E aí tenho que lutar contra esse lado que tenta me punir. Como também tento arrumar forças pra parar de besteira. No entanto, talvez eu nem queira saber o que me fez ficar assim, quem sabe seja pior descobrir...

Eu sei que daqui a pouco passa, daqui a pouco passa...

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Quem precisa de Foucault?

Durante esta semana, acompanhei a Mostra Cinema e Direitos Humanos. E aconteceu o que eu esperava: filmes que abordam temas interessantíssimos, mas que no entanto não apresentam ousadia estética. Ontem eu morri de sono quando a segunda parte do documentário Claudia (2010), de Marcel Gonnet, mostrava um monte de entrevistas com pessoas que trabalham com o sistema penitenciário afirmando coisas muito clichês e citando Foucault. Nada contra Foucault, mas daí a citá-lo num documentário? Pelo amor de deus!!! E se no começo o filme parecia se aproximar de uma perspectiva mais pessoal da presa Claudia, logo depois virou uma espécie de mistura de documentário sociológico com reality show.

A casa dos mortos (2009), Débora Diniz, tinha a pretensão de ser algo mais poético (inclusive se baseia no poema de um ex-interno), e mesmo dialoga com a narrativa de ficção (dividindo o filme em cenas), porém se perde num modo de representar os doentes mentais que cometeram crimes através de uma perspectiva que enfatiza o bizarro. A casa dos mortos (2009) está muito longe de um O prisioneiro da grade de ferro (2003), de Paulo Sacramento, que consegue fugir dos clichês que rondam a elaboração de um filme numa prisão e recorre a procedimentos como produção de imagens feitas pelos próprios presos, imagens da solidão, do tédio, da passagem do tempo aflitiva, da tentativa de prosseguir a vida, e também da violência.

Não vi nenhum documentário a la o genial Serras da desordem (2006), do Andrea Tonacci, só clichê por cima de clichê. Documentários como A verdade soterrada (2009), de Miguel Vassy, Rosita não se desloca (2009), de Alessandro Acito e Leonardo Valderrama, Defensa 1404 (2010), de David Rubio, valeram a pena para mim no sentido de conhecer um pouco sobre a história e a atualidade de países como Uruguai, Argentina e Colômbia. Mas isso se resolve vendo reportagens. Ah! E achei bem bolado o Hércules 56 (2006), do Silvio-da-Rin, por colocar os ex-presos políticos envolvidos no sequestro do embaixador Charles Elbrick para confrontar suas memórias de modo descontraído sentados a uma mesa.

Na real, o documentário que mais me chamou a atenção mesmo foi o Bailão (2009), Marcelo Caetano. Trata-se de uma imersão no imaginário urbano dos homossexuais idosos acostumados a viverem na margem, na noite, na penumbra, nos esconderijos em esquinas escuras e cinemas pornôs. Um belo documentário que traz à tona os afetos dos personagens do documentário na sua relação com o espaço urbano. O filme tem algo da novela Pela noite, do Caio Fernando Abreu, que traz esse mesmo universo marginal dos homossexuais que perambulam noturnamente pela metrópole.

Dos filmes de ficção que eu vi, O filho da noiva (2001), Juan José Campanella, Abutres (2010), Pablo Trapero, Carreto (2009), Marília Hughes e Claudio Marques, e Eu não quero voltar sozinho (2010), Daniel Ribeiro, no fim das contas eu curti mais o último. Gostei de todos, mas pelo curta Eu não quero voltar sozinho eu tive um carinho especial. Por mais que para uns possa parecer um curta bobo e infantil, eu gostei justamente disso, do teor ingênuo do filme. O curta narra a história de Leo, um garoto cego que conta com a ajuda de uma colega de classe, a Gi, nas atividades e que o leva todos os dias até a sua casa, garota apaixonada por ele, mas cujo amor não é correspondido, dado que Leo se encanta por um novato na classe, Gabriel. Uma coisa interessante na exibição foi ver algumas pessoas se espantarem com o selinho de Gabriel e Leo e exclamarem algo como "oxeee", "que é isso?". Também vi um casal se retirar da sala de projeção logo após o selinho.

Enfim, mas eu curti mais o Eu não quero voltar sozinho pelo fato de ele ter trazido como nenhum outro filme dos que eu vi na mostra esse lado afetivo, emotivo, sentimental dos personagens, e de modo tão singelo. Mas, de um modo geral, acho que ainda falta a percepção de que um bom tema não faz um bom filme.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Mistério

Por que eu ando me sentindo uma adolescente nos últimos dias? Logo eu, que "odeio" (palavra comum no meu vocabulário tolo) os tais adolescentes?

Mas que regressão gostosa!

Porque mistério sempre há de pintar por aí...

terça-feira, dezembro 14, 2010

Porque odeio o Movimento Estudantil


Desde que entrei na universidade, eu falo mal do Movimento Estudantil. Perdoem-me os amigos militantes, mas não poderia deixar de expressar o porquê de eu considerar o ME um movimento patético, risível e inexpressivo.

1- Se você não pensar como eles, você é de direita - Para esse tipo de gente, se você não concorda com suas práticas ou suas ideias, você é uma pessoa reacionária, enquanto ó, eles são os progressistas e revolucionários. Já vi gente se espantar quando me viu defendendo movimentos como o MST. Acham que porque eu não me inscrevo pra falar nem preencho atas eu sou pró-DEM/PSDB.

2- Falta de autocrítica - Como a moda do Movimento Estudantil é atirar pedra e não ser vidraça, eles se acham no direito de disparar as críticas mais severas contra tudo e todos (muitas das vezes estão certos), mas... Mas lhes falta bom senso para fazerem uma autocrítica e, desse modo, suas práticas pouco ou nada evoluem.

3- Falta de pragmatismo - Os militantes do ME são nefelibatas. Não no sentido bom de ser utópico e "desejar o impossível e fazer o possível". Nada disso. São nefelibatas no sentido de desorganizados, indisciplinados, e assim lhes falta consistência, união e objetivos práticos a cumprir. Resumindo: numa reunião do centro acadêmico de Comunicação você vai ouvir falar muito da necessidade de um observatório de mídia e também que "a Globo é manipuladora", porém ninguém vai se pronunciar para começar a botar a mão na massa. Assim, não demora muito para você ver um desses militantes em alguma emissora de comunicação que os "alternativos" repudiam.

4- Incomunicabilidade - Os militantes do Movimento Estudantil acreditam piamente que são pessoas iluminadas e conscientes e que aqueles estudantes mais interessados em estudar e arrumar um emprego são alienados. É por isso que um dos pontos mais críticos desse movimento é a comunicação. É péssima. Lembro-me como hoje de, durante uma greve dos estudantes na UFS, ir a uma reunião, pois acreditava que a greve era um oportunidade de lutar e não férias, e aí, como eu não era da galera militante trololó, ninguém nem me deu boa tarde e eu só fiquei aguentando os leninistas, trotskistas, caralhoistas falarem abobrinha. Enfim, a comunicação desse povo se resume a dar uma de pentelho nas aulas, falar meio mundo de merda e depois pedir o voto pra chapa que leva o nome de alguma música contra a ditadura militar. No mais, não existe um canal efetivo de comunicação com os estudantes, professores, técnicos e, não menos importante, com a imprensa.

5- Vivem no passado - Eu tenho sérias críticas a pessoas que vivem exaltando a atualidade e criticando pessoas que falam de eventos históricos um tanto distantes do universo contemporâneo. É simples: eu acredito na história e na força da memória. Mas... Mas daí a viver falando da ditadura militar são outros quinhentos. Pior: em certos papos que eu tive com militantes parecia que estávamos na Rússia de 1917 prestes a acontecer a revolução. Haja paciência. Enquanto isso, há uns poucos militantes por dentro da cena política contemporânea e do encaminhamento de determinadas políticas públicas: a grande maioria só fala clichê!

6- Dissimulam sua veia partidária - Não é novidade pra seu ninguém que muitos militantes usam o Movimento Estudantil como trampolim político. As chapas universitárias são identificadas de acordo com o partido com o qual tem ligação: Psol, PC do B, PT... Porém, os militantes sempre fingem que não é com eles quando os acusam de partidarismo. Dizem que praticam militância num movimento social a-partidário. Ok. Historinha pra boi dormir. Não seria muito mais digno assumir o vínculo com a política partidária? Sim, pois eu acredito que seja extremamente necessário haver partidos políticos na Câmara dos Deputados, no Senado, na Assembléia Legistativa, na Câmara dos Vereadores, que defendam os interesses dos movimentos sociais. Então que tenham a dignidade de assumir o partidarismo!

Por último, eu gostaria de destacar um aspecto bem a la "opinião pessoal". Eu odeio aqueles cartazes horrorosos espalhados pela universidade repletos de dizeres batidíssimos, detesto aquelas místicas que não levam ninguém a lugar nenhum (lembram-me dinâmicas de grupo de psicólogos de empresas, e eu igualmente não suporto psicologia organizacional), acho os gritos de guerra entoados pelos militantes tão chatinhos e grudentos quanto Chiclete com Banana, e ainda mais ridículo é quando eles passam o ano inteiro sem se comunicar com os estudantes "alienados" e de repente surgem nos corredores berrando e usando nariz de palhaço em nome da "revolução".

Palhaços são os outros, que tem que aguentar vocês!

sábado, dezembro 11, 2010

Vida nova

Estou começando a formar uma rede de relações sociais pela internet com pessoas que moram ou vão morar em BH e são da pós. Isso me deixa muito feliz, pois andava angustiada com essa história de ir de mala e cuia para uma cidade grande assim sozinha, ao deus dará. Começo a me acostumar com a ideia de que nos próximos anos serei uma pessoa mais solitária, porém rodeada de gente. Como assim? Eu vou estar longe da família, dos amigos íntimos de anos, distante de tudo o que eu considerava um porto seguro. Serei eu por mim mesma, enfrentando as adversidades da vida by myself. Mas vou entrar em contato com lugares, sotaques novos... Pessoas que vem e vão, gente com o mesmo destino de viver longe e sem saber ao certo indo pra onde. E penso que devo ser uma persona nova, uma nova personagem em outro capítulo da história da minha vida.. Devo criar minha própria fortaleza, não permitir que nenhuma vulnerabilidade seja alvo fácil de uma desconstrução. Acho que agora a minha vida vai a mil por hora. E isso me emociona, me deixa ansiosa e feliz também, pois adoro mudanças. E é por isso que estou na espera tic tac tic tac pela despedida!

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Porque o mundo "alternativo" me cansa - parte 1

Eu poderia citar inúmeros motivos pelos quais o universo "alternativo" me cansa e é por isso que cito este post como um capítulo de uma série, mas nem sei se vou dar prosseguimento. Bom, o fato é que há tempos eu falo mal do meio "alternativo". Pelos mais diversos motivos, e desta vez eu vou citar um: homens pseudo-feministas.

Como o pessoal "alternativo" é muito "libertário", o que não falta são homens que se dizem sensíveis ao ponto de compreender as preocupações femininas, que afirmam que mulher tem mais é que trepar com quem quiser, enfim, que acham um absurdo essa sociedade machista, opressora e blá blá blá. Ok.

Certa vez um amigo meu disse uma coisa muito certa: "não existe homem feminista. Há os machistas esclarecidos. Eu sou um machista esclarecido". Correto. E francamente, até hoje eu não encontrei um homem feminista mesmo. Então acho que está na hora de assumir o machismo ensinado desde pequenininho (inclusive pela própria mãe) para fazer uma auto-crítica, pois sem ter consciência e avaliar o próprio machismo, o cara se perde na sua auto-imagem bonitinha de feminista leitor de Virginia Woolf, e pensa que está abafando no feminismo, quando na verdade está tendo diversas atitudes machistas.

Não foram poucas as vezes em que eu vi homens que se intitulam feministas pronunciando barbaridades extremamente machistas. Como afirmar que uma garota que bebe faz por onde ser mal falada, ou que uma mulher é uma "qualquer" porque transou logo. Mas eles dizem isso e logo depois tocam violão ou falam de Simone Beauvoir.

Alguns dizem que é possível "ser uma mulher". Perdoem-me os pós-modernos, mas pra mim esse papo de identidades fluidas é balela. Tudo bem que identidade fixa é algo muito simplista, mas também ôba ôba não. Não venha você, "alternativo", dizer que sabe o que é ser mulher porque você não tem corpo de mulher, você não é olhado como uma mulher, você não foi educado como mulher. Você não sabe o que é ter sangue escorrendo por entre suas pernas todo mês, nem o que é alguém mandar você lavar os pratos porque você é mulher. Então esse papinho todo é ba-le-la.

Agora falando sério, tudo não passa de desculpa pra comer mulher. Nos mais diversos meios, os homens usam máscara para conquistar mulheres. E se nos shows de pagode eles usam uma corrente ridícula no pescoço, blusas que mostram os músculos enormes, no meio "alternativo" rola essa historinha do eu sou sensível e feminista.

Tudo uma grande farsa. São tão machistas ou mais que os pagodeiros. E tem o mesmo medo de ser corno, os mesmos ciúmes, as mesmas desconfianças diante de comportamentos femininos que consideram típicos de "puta".

É por isso que o meio "alternativo" me cansa. O povo se acha muito especial, mas é "tudo a mesma merda".

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Masculino, feminino

Ontem eu estava pensando numa coisa: os escritores que compuseram uma escrita que conquistou uma maior identificação da minha parte são homens. Foi aí que eu me perguntei: por quê, por mais que eu adore Florbela Espanca, ela não me causa o que Fernando Pessoa causa? Por quê Clarice Lispector nunca me afetou tanto quanto Caio Fernando Abreu? Foi aí que eu retornei à minha dúvida anterior: será que eu tenho uma mente masculina?

Várias pessoas me disseram que eu tenho uma mente masculina. Já houve até quem dissesse que penso como um homem gay. Não sei direito o que é isso, mas enfim. Vamos lá. A única escritora feminina que realmente conseguiu quebrar minhas estruturas foi Virginia Woolf. E só. E mesmo assim, entre Sra. Dalloway e Orlando, eu fico com o segundo, que fala sobre a experiência da transformação de um nobre em mulher, trazendo assim uma ambiguidade entre masculino e feminino. Ou talvez fosse preciso ir além da questão dos gêneros? Será que sou afeita a esta ambiguidade? Mas se os gêneros existem na cultura e nós estamos inseridos na cultura, é possível falar para além dos gêneros, ou de fora dessa cultura? Dúvida. E mesmo numa obra como Madame Bovary, Flaubert se aventura pelo universo feminino, mas esse livro carrega o olhar do homem. Não é Madame Bovary quem nos fala, mesmo que Flaubert diga: "Madame Bovary c'est moi".

Mas os escritores que conseguiram provocar uma identificação mais forte em mim foram Fernando Pessoa, com seu heterônimo Álvaro de Campos, e Caio Fernando Abreu. Em Álvaro de Campos eu encontrei uma espécie de alma gêmea, identificando-me com a sua busca pelas paisagens, vadiando pelos lugares, seu cansaço por sentir sensações extremas, o tédio profundo no choque com o mundo, a insônia, a ânsia, o sarcasmo... E meu poema favorito é Passagem das horas, um trecho:

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Já Caio Fernando Abreu eu conheci recentemente, e digamos que ele foi meu companheiro de longas madrugadas de angústia. Digamos que Morangos mofados era a tradução literária do que estava acontecendo na minha vida. E quando li Os dragões não conhecem o paraíso e Triângulo das águas eu percebi que eu não lia Caio, não entendia, não racionalizava, eu simplesmente embarcava na loucura junto com ele. Uma escrita confessional que me levava, me puxava, me arrancava com palavras cruas. Caio parece querer dizer assim: não são apenas palavras, não são apenas emoções, não é apenas linguagem, é carne! Escrita do corpo! Foi quando eu encontrei no silêncio do apartamento, na tela do computador meio difusa pela madrugada, alguém que compartilhava de coisas que vivi. Trecho de Natureza viva, do livro Morangos mofados:

Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas.

Quando leio palavras como as de Fernando Pessoa ou de Caio Fernando Abreu, eu sinto algo diferente do que ao ler escritoras femininas. Talvez tudo não passe de imaginação minha. Mas é como se neles a delicadeza tivesse alguma brutalidade que não vejo nas mulheres. Na verdade não sei direito verbalizar isso. Pra terminar sem conclusão nenhuma, só questionando, eu recorro a uma canção de Chico Buarque, que conseguiu com maestria se aproximar dos sentidos de uma mulher:

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Do que ela precisa

Precisava de um menino como ele...
Bonitinho
Facilmente dominado
Gentil
E que sabe o que faz!

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Love is suicide

A cada dia que passa, eu me convenço mais e mais de que, não importa o que se convencionou chamar de paixão ou amor, o Billy Corgan, com sua voz rasgada, estava certo na música Bodies.

Love is suciiiiiiiide

Acho que vou tatuar isso. É, amiguinhos, o amor é suicídio. Amar é uma coisa arriscada pra cacete. Tem doido que se joga numa dessa. E não adianta tentar deixar bonitinho, achando que pode ser algo racional e maduro, nem dizer que não existe recorrendo à filosofia ou às suas experiências frustradas.

O amor dói ao mesmo tempo que consola. Em algum momento você vai chorar, você não vai entender o que porra está acontecendo, você vai querer aprender a arte da telepatia, você vai sentir tanto desejo que vai doer. E vai também experimentar o abandono num abraço duradouro, deitados sobre uma cama, enrolados em lençóis e noias, ou dividindo risos e histórias de uma vida inteira.

E aí eu recorro ao Billy Corgan de novo, com outra música linda do Smashing Pumpkins, Shame:

Love is good and love is kind
Love is drunk and love is blind
Love is good and love is mine
Love is drunk all the time

O amor é bom, é generoso, mas é bêbado o tempo todo! Falando em bêbado, lembrei da Amy Winehouse. Ela também está certíssima quando canta com a voz cortante:

Love is a losing game...

É, o amor é mesmo um jogo de azar. Aí depois ela canta aquele verso que usa uma expressão de jogo de pôker, quando sua mão no jogo tem tudo pra perder, mas isso vai depender da sua sorte ou mesmo do seu feeling pra coisa: Love is a losing hand.

Cada um com suas apostas...

Os catadores e a catadora (2000), Agnès Varda


Em Os catadores e a catadora, Agnès Varda consegue aliar debate sobre problemas sociais a uma reflexão estética sobre a arte cinematográfica, o que finda por deixar de lado um esteticismo abstrato e separado da vida cotidiana, como também segue para além da dicotomia forma e conteúdo.

Neste documentário, Agnès Varda vai em busca das pessoas que se dedicam a catar vestígios: sejam aqueles que coletam os restos da colheita no campo, sejam os mendigos que vasculham latas de lixo. E, nesse processo, a cineasta faz uma viagem sensível, afirmando-se como uma catadora - de imagens, de poesia, de afetos.

Tanto os catadores quanto a cineasta se posicionam num lugar situado na periferia do capitalismo. O que está no centro da discussão neste filme é justamente o que Alvin Toffler denominou sociedade do descartável, e, esteticamente falando, sociedade do espetáculo formulada por Guy Debord e estetização da vida cotidiana como propõe adversamente a Debord o teórico Michel Maffesoli.

O conceito de sociedade do descartável conclui que na contemporaneidade a economia capitalista é caracterizada por uma alta efemeridade, criando produtos para durarem cada vez menos tempo, para serem consumidos instantaneamente e por fim descartados. Toffler conclui que esta sociedade produz uma quantidade monumental de lixo, e o desperdício prevalece na esteira da desigualdade social. David Harvey vai além em Condição pós-moderna e formula que esse modo de lidar com as coisas promove alterações na própria subjetividade - estaríamos lidando com relações humanas, valores, ideologias também descartáveis. E não seria assim também na estética de filmes criados para serem consumidos e descartados?

Ora, se os catadores estão atrás da renovação, do aproveitamento daquilo que foi descartado pela sociedade, Agnès Varda procura pela imagem poética que igualmente se encontra em decadência nos tempos caracterizados pelo consumo excessivo de imagens. O filósofo Guy Debord postula que a imagem seria o fim último da acumulação capitalista ocorrida no decorrer da história - o capitalismo não produz apenas mercadorias, mas também e talvez o mais importante, imagens (como aquelas da publicidade). Numa opinião adversa à de Debord, Maffesoli não vê a estetização da realidade como um processo de alienação (alienação essa que se dá através da sacralização das mercadorias através da imagem), todavia crê na apropriação pelos indivíduos da cultura midiática constituindo as suas formas de sociabilidade (a exemplo das tribos urbanas que partilham apreciação em comum de determinados produtos midiáticos).

De todo modo, se os catadores coletam o que é desperdiçado pela sociedade do descartável, Agnès Varda cata imagens que ainda almejam preservar a poesia num universo marcado pela imagem que tem valor mercadológico acima de qualquer outro. E para isso ela assume uma estética amparada num equipamento bastante precário, posicionando-se à margem da produção cinematográfica das grandes produções milionárias. Assim, Varda parece querer ativar o nosso olhar para esta imagem que nos exige a contemplação: dispõe no último plano um quadro em que o movimento acontece no instante, em que o tempo se confunde com a imagem.

domingo, dezembro 05, 2010

Blasé

Descobri uma coisa muito engraçada hoje. Tem gente que finge que eu sou invisível, faz de conta que eu não existo, e bota toda uma banca de blasé pro meu lado. "Sou um ser misterioso e inatingível". E eu acreditava que era verdade, que ora bolas, não devo ter significado merda nenhuma pra essa pessoa - alguém que já entrou em contato tão íntimo comigo.

Mas aí eu tenho uma surpresa. Tudo não passa de uma grande fucking farsa. Essa pessoa se lembra de mim sim, e mais: busca meus rastros, informações sobre mim, tem interesse quanto à minha pessoa. E eu, que achava que nunca havia estado num cantinho da sua memória, me sinto agora viva na mente dele.

Não que ele me ame ou coisa parecida. Nem eu o amo. Nem que nós iremos ter qualquer coisa mais. Mas é importante para mim e me deixa feliz agora saber que ele me viu, que ele me vê... Mesmo que ele finja, que ele tenha ressentimento, ou até mesmo um certo desprezo por mim.

Meu caro, é de você mesmo que eu estou falando. Sim, isto é uma direta. Faça como eu: minta.

Change your heart, look around you...

Quem sou eu

Nesta semana, eu tive uma surpresa ao abrir meu orkut. Lá estava uma frase no meu perfil que eu não lembrava de ter escrito.

Quem sou eu: eu tenho o direito de ser assim.

Não lembro quando coloquei esta frase. Devia estar lá há tempos. Provavelmente cheguei em casa ébria, com minha mania de entrar no msn, twitter, orkut, e a escrevi. E só depois, quando resolvi fazer uma modificação no perfil, eu a encontrei.

Apesar de não tê-la escrito de modo racional, eu cá muito concordo com ela. E esses dizeres me trouxeram paz, e me proporcionaram um instante em que deixei de lado a minha culpa, minha tão grande culpa, ou qualquer auto-elogio e orgulho do meu modo de ser.

Eu tenho o direito de ser assim. Apenas isso.

Realidade e fantasia

Certa vez eu critiquei minha mãe por estar assistindo a uma novela. Ao que ela me respondeu:

- Deixa eu ver minha novela em paz. Eu já aguento um monte de coisa ruim o dia todo, quando chego em casa quero mais é descansar.

Foi aí que eu pensei: que direito tinha eu de falar aquilo? Nenhum. Comentei o episódio com dois amigos ontem à noite, e então, entre doses de vinho, meu amigo disse assim:

- Mas é isso mesmo. Quem tá na realidade precisa de um pouco de fantasia.

E eu respondi:

- O mundo funciona assim: realidade para quem vive na fantasia, e fantasia para quem vive na realidade.

Falei em termos bem simplistas, deixando pra lá toda a discussão sobre o real, a fantasia e as relações entre eles. E me lembrei do semblante de minha mãe assistindo a uma cena bastante evasiva de novela: os olhos brilhando com tanta ingenuidade, olhos esses que eu nunca vi nela em qualquer ocasião da realidade.

sábado, dezembro 04, 2010

I am the highway



Tá aí uma banda que eu gosto pra caralho: Audioslave. E não, não é por achar o vocalista, Chris Cornell, um gato kkkk. Mas é porque eu considero uma banda que consegue trazer o peso do bom e velho rock and roll (mesclando vários tipos de rock) com letras muito bem elaboradas. Porque francamente, se tem uma coisa que falta no mundo do rock em inglês são boas letras. Boa música tem de sobra, mas letras? Difícil achar. E essa música em especial fala muito sobre meu atual momento...

Dá até vontade de aprender a dirigir só pra sair por aí com um carro sozinha pela estrada sem fim, de óculos escuros pra dar um charme a mais kkkk, e ouvindo Audioslave! ;)

Pearls and swine bereft of me
Long and weary my road has been
I was lost in the cities
Alone in the hills
No sorrow or pity
for leaving
I feel

I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky

Friends and liars
don't wait for me
Cause I'll get on
all by myself

I put millions of miles
Under my heels
And still too close to you
I feel

I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky
I am not your blowing wind
I am the lightining
I am not your autumn moon
I am the night
The night

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Meu pequenino

Meu pequenino estava na praça do condomínio
sentado, sozinho
de oclinhos
gordinho
lendo...

Meu pequenino encontra na praça do condomínio a sua liberdade
é a rua onde pode passear
sem precisar de ninguém que tome conta
e ele fica grande, que nem gente grande!

Mas meu pequenino sozinho não queria estar
lendo Harry Potter...
olha para as outras crianças no balanço
correndo, brincando,
disfarça...

Meu pequenino não fala de abstrações
mas de ações, coisas, lugares
não fala com verbo conjugado,
mas no infinitivo
ou mesmo substantivo:
"Eu amor você"

Meu pequenino não sabe dizer
"estou sofrendo muito"
mas ele diz
"triste eu sim"
ou seus olhos se desmancham em lágrimas
"eu escola não hoje por favor não gosta"

E meu pequenino não diz
"tenho medo da solidão"
mas tão somente escreve
"Sozinho".

E assim, sentado na praça, com o livro aberto em mãos
Ele deve estar lendo alguma história
escrita por alguém que usa o verbo conjugado
e que ele lê com o verbo no infinitivo
assim como quando ele vê TV sem áudio
e faz seus próprios barulhinhos.

Isn't amazing?


Hoje quando fui tocar violão, eu me encuquei: que música tocar? Pensei, pensei diante da tela do computador com o site de cifras aberto na minha frente. Hummm. Aerosmith! Cryin'! E comecei:

There was a time
when I was so broken-hearted

love wasn't much of a friend of mine.


Estava atrás de uma banda nova pra ouvir. Ultimamente só estava ouvindo as mesmas músicas.

E não é que eu estou descobrindo uma banda que já ouvia há tempos aleatoriamente por aí e nunca tinha pensando em fazer o download das músicas deles? Muito bom!

Aquela voz rasgada do James Tyler, adoooro! ;)

I kept the right ones out
And let the wrong ones in
Had an angel of mercy to see me through all my sins

There were times in my life
When I was goin' insane
Tryin' to walk through
The pain

When I lost my grip
And I hit the floor
Yeah, I thought I could leave, but couldn't get out the door

I was so sick and tired
Of livin' a lie
I was wishin' that I
Would die

It's amazing
With the blink of an eye you finally see the light
It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
It's amazing
And I'm sayin' a prayer for the desperate hearts tonight

That one last shot's a permanent vacation
And how high can you fly with broken wings?
Life's a journey not a destination
And I just can't tell just what tomorrow brings

You have to learn to crawl
Before you learn to walk
But I just couldn't listen to all that righteous talk

I was out on the street
Just tryin' to survive
Scratchin' to stay alive

It's amazing
With the blink of an eye you finally see the light
It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
It's amazing
And I'm sayin' a prayer for the desperate hearts tonight

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ah, look at all the lonely people


All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Nesta madrugada estava com essa música na cabeça. É Eleanor rigby, dos Beatles. Mais especificamente esses versos...

E aí eu me perguntei: de onde eu vim? pertenço a qual lugar?

Ah, olhe para as pessoas solitárias...

Imagem: Paris, Texas (1984), de Wim Wenders

E Deus?


(...) o grande anjo de braço erguido, mármore frio segurando a espada reluzente de chuva, a igreja recortada contra o céu, nenhuma estrela, uma vontade de benzer-se pedindo proteção, afasta de mim, Deus, mas Deus tinha morrido em Auschwitz, talvez no Vietnã, fazia tempo.

Trecho da novela Pela noite, do livro Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu.

Imagem: Nuit et brouillard (1955), Alain Resnais

Le fils (2002), Luc e Jean-Pierre Dardenne


O que eu considero mais impressionante no cinema dos irmãos Dardenne é o completo domínio do roteiro - o desenvolvimento do conflito de seus personagens traz toda a contradição humana e se conduz a fios inextrincáveis. A excelente elaboração do roteiro se dá também em virtude da construção dos personagens a partir de gestos demasiado simbólicos. E uma constante no cinema dos Dardenne é o fato de o clímax apresentar uma dolorosa revelação aos seus personagens e a conclusão da trama representar uma ascese deles.

Tomemos um exemplo: nesta madrugada assisti a Le fils (2002), que narra a história de um homem que resolve ensinar a arte da carpintaria ao rapaz que, com apenas 11 anos de idade, estrangulou o seu filho durante um assalto. Temos neste filme uma fórmula inversa a outro filme dos Dardenne, L'enfant. Pois L'enfant fala de um pai ausente que decide abandonar o seu bebê vendendo-o num momento de aperto financeiro, enquanto Le fils aborda a vida de um pai desamparado com a morte do filho, e que busca no seu assassino um novo filho.

E a encenação proposta pelos Dardenne chega à excelência através dos detalhes, dos tais gestos simbólicos. Olivier, o pai que perdeu o filho, pergunta para o rapaz que matou a criança, Francis, o que ele havia feito para permanecer preso durante cinco anos. Nesse momento, os dois estão jogando totó. E durante o jogo é possível observar a agressividade que remonta ao rancor que Olivier carrega de Francis, mas também vemos a infantilidade do assassino.

Após Olivier revelar que era pai do menino que Francis havia matado, o garoto corre com medo de Olivier. A perseguição termina com Olivier sentado em cima de Francis e com as mãos sobre o seu pescoço - numa clara referência à morte do filho de Olivier, por estrangulamento. Mais parece que as relações humanas são perpassadas por imagens carregadas de passado e por ações que se repetem.

Além do domínio de roteiro pelos Dardenne, os atores que interpretam Olivier e Francis agraciam a narrativa com uma atuação maravilhosa. O ator que representa Olivier, Olivier Gourmet, estava impecável, trazendo a solidão no semblante austero de bom pai. E Morgan Marine, que interpretou Francis, apresenta gestos sutis de uma agressividade infantil que cede a uma igual solidão profunda - o que une Francis e Olivier.

E será que Olivier acredita que tem uma missão divina ao cuidar de Francis? Afinal, não é a toa que ele é carpinteiro, assim como José, que ensinou a Jesus Cristo, filho de Deus e não seu, a arte da carpintaria.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Saudades de Pernambuco




Essa foto minha com a bandeira de Pernambuco na verdade foi tirada em Alagoas kkkkkk.

A outra foi no carnaval de Olinda. "Olinda inteira vai descer ladeira...". Aliás, saudade dessa galera gente boa que estava comigo (tive sorte de conhecer uma galerona massa no carnaval). Principalmente saudade desse baiano anjinho de camisa quadriculada.

"Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão..."

Saudades de Alagoas


Eu podia chamar este post também de "saudades de Bárbara". Essa foto é de um dia lindo que a gente passou juntas num paraíso chamado praia do Francês. A gente se divertiu muuuuito!!! :D Né, nega?

O viajante



Eu sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...

Mario Quintana
Apontamentos de história sobrenatural

Imagem: O céu de Suely, de Karim Aïnouz.

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Decisão

Perguntei a um amigo hoje se eu estava tomando decisões drásticas na minha vida:

- Você está passando por uma nova fase - disse ele.

Ele falou como se dissesse "não adianta reprimir isso, você está mudando mesmo e nesse processo algumas coisas ficam pra trás". E é verdade. Eu estou passando por uma nova fase.

terça-feira, novembro 30, 2010

Belo Horizonte


Eu brinquei tantas vezes com o nome dessa cidade, sempre dizendo que trazia já na denominação um Belo Horizonte. E não é que é mesmo? Belo Horizonte trouxe novas perspectivas para minha vida. Na verdade, trouxe uma perspectiva para quem não tinha nenhuma. Cidade que me deu esperança!

Dardenne


Os filmes dos irmãos Dardenne são, acima de tudo, humanos. Até a câmera fica colada nos seus personagens num corpo a corpo como se fosse gente. É uma identificação cortante, que faz a gente sofrer junto com eles - não no sentido melancólico, mas no sentido cru da palavra. Filmes que abordam os problemas sociais a partir das pessoas - os problemas sociais perpassam as suas vidas, mas seus personagens tem vida própria e escolhas próprias no meio disso tudo. Há pausas para a gente ficar mais perto deles. Há violência pra gente se revoltar com eles. Há também um mundo cruel. E pessoas cruéis. E pessoas que mudam. Sim, principalmente isso, que mudam. Os Dardenne, assim como um cineasta como Bresson, acreditam na ascese de seus personagens. E assim, no final do filme eu sinto aquela dor no peito de quem mudou um pouco também - pra quem sabe ser mais feliz.

Imagem: L'enfant (2005).

segunda-feira, novembro 29, 2010

Em crise

Tinha deixado um texto aqui pra completar depois e publicar. Fui ler agora e não concordo com quase nada do que eu disse.

A pós-modernidade me deixou doida, muito doida, muito doida demais?

quinta-feira, novembro 25, 2010

Minha opinião sobre filhos

Não terei filhos, não transmitirei a nenhuma criatura o legado da nossa miséria

Brás Cubas, por Machado de Assis

domingo, novembro 21, 2010

A solidão não existe

Oitavo fragmento da décima terceira voz

Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão seus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de Iemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem não conheço. Por um momento, cede. Não sejas assim implacável, incorruptível. Não paires, esquece as asas. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

Dodecaedro, novela do livro Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu.

sábado, novembro 20, 2010

Outra página

Já olhava para tudo como se estivesse se despedindo. Como quando lemos um livro com medo de esquecer e cada frase, cada verso é lido como obstáculo e se torna pedra da memória. Ou quando lemos uma página duas vezes com medo de que ela escape de nós. Amor ela tinha ali. E muito. Mas será que ia encontrar amor em outro lugar?

quarta-feira, novembro 17, 2010

Fragmentos sobre um filme de Tarkovsky


Hoje revi Nostalgia (1983), de Tarkovsky. Trata-se de um daqueles filmes que se tornam mais prazerosos da segunda vez, dado que passam a ser mais compreensíveis. Alguns pensamentos que tive a respeito do filme...

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Um filme que aborda a relação nostálgica de seus personagens com a sua "terra de origem", trazendo à tona uma espécie de diáspora. Lembremos que estamos na fase de exílio de Tarkovsky, pois esse diretor não tinha boas relações com o estado soviético, portanto, existe uma clara identificação entre a trajetória do cineasta e a dos seus personagens. O poeta Andrei Gorchakov vai à Itália em busca de dados biográficos de um músico russo, Sosnovsky, que passou uma temporada em Bolonha, e acabou retornando à Rússia por amor a uma escrava russa, mesmo sabendo que chegando lá se tornaria um escravo. Temos também Eugenia, que diante das paisagens italianas por diversas vezes relembra a cidade de Moscou. Eugenia conta também a história de uma serva que matou os senhores e se suicidou pelo ódio que tinha por não poder regressar à Calábria.

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As escolhas estéticas de Tarkovsky, como era de se esperar, divergem absolutamente da linguagem clássica. Em nenhum momento do filme ele se vale do manjadíssimo campo/contracampo. Para filmar uma conversação, em lugar do campo/contracampo, a câmera mostra apenas um dos personagens envolvidos num diálogo, ou se detém em plano geral enquadrando ambos.

Outra ousadia estética de Tarkovsky seria a temporalidade e a montagem que por vezes segue de modo cinematográfico os princípios da técnica literária do fluxo de consciência, adotada por autores como James Joyce e Virginia Woolf. Afinal, Tarkovsky vai além de mostrar o passado dos personagens - sua estética sugere que estamos em contato com o inconsciente dos personagens, ou da sua memória involuntária. Além disso, o diretor se utiliza de variações cromáticas ao adentrar no universo do sonho ou da lembrança, recorrendo a tons acobreados ou ao preto-e-branco. De repente, nós vemos a encenação do momento em que o filho de Domenico foge dos seus braços, e finalmente se senta numa escada para contemplar o mundo. Câmera lenta, preto-e-branco. O menino olha para o pai. A imagem fica colorida. Diante da paisagem, ele pergunta: "é o fim do mundo, papai?". Domenico havia prendido a família durante sete anos acreditando que o fim do mundo estava próximo...

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Domenico encena um dos momentos mais arrebatadores do filme. É quando ele sobe numa suntuosa estátua de algum herói sobre um cavalo para se suicidar em público. A câmera realiza um travelling vertical para cima, assenta diante da imagem de Domenico de costas tendo ao fundo enormes estátuas de deuses. Em plongée é possível ver pessoas na escada, hipnotizadas, que vieram presenciar o espetáculo. Antes de atear fogo ao próprio corpo, Domenico brada: "Vocês nos chamam de loucos e nos isolam dos sãos.. mas foram vocês, sãos, que levaram o mundo à catástrofe". Por fim, Domenico, que tanto temia o fim do mundo, realiza o seu apocalipse. E vemos os policiais avançando sobre as escadas cheias de pessoas - do ponto de vista inverso ao da célebre cena da escadaria de Odessa, realizada por outro cineasta russo, Eisenstein, em O encouraçado Potenkim. Não por acaso essa cena de Nostalgia é realizada na antiga capital de um dos maiores impérios da história da humanidade: Roma, capital do império romano. Uma cena mítica, que está ali para destronar impérios...

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O historiador Eric Hobsbawn se refere ao século XXI como "a era das catástrofes". Não por acaso: Primeira e Segunda Guerra Mundial, holocausto, Guerra Fria... "Mas foram vocês, sãos, que levaram o mundo à catástrofe!", grita Domenico.

Assim como constataram Adorno e Horkheimer em A dialética do esclarecimento, a grande contradição do iluminismo consiste no projeto da modernidade baseado na razão e tendo o progresso tecnológico como impulso que conduziria a humanidade a um futuro melhor. Mas a razão instrumental levou o conhecimento a servir a fins econômicos, e a tecnologia de produção em massa encontrou o seu auge na produção industrial durante a guerra. A catástrofe da modernidade! O progresso conduziu à guerra pelo novo império, o império no tempo do capitalismo...

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O plano final, de Andrei estático situado ao centro do quadro tendo uma paisagem bucólica como fundo, demonstra um diálogo com a pintura. A busca pela imagem na duração, no transcorrer do tempo. Como nas fotografias descritas por Walter Benjamin, aquelas antigas fotografias em que o modelo vivia o instante, inseria-se na duração, dado que as películas tinham pouca sensibilidade à luz e as fotos demoravam a ser tiradas. Essas primeiras fotografias obrigavam os modelos a viver aquela duração típica da pintura, quando eles aguardavam os pintores pintarem a sua imagem durante horas...

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No começo do filme, Eugenia sai em busca da paisagem que a lembra Moscou. Andrei afirma se irritar com a busca incessante de Eugenia pela beleza.

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Diante da disseminação generalizada da imagem pela publicidade, um retorno à beleza kantiana. As imagens que esperam. É também isso o que sugerem, no diálogo com a pintura, filmes como L'Hypothese du tableau volé (1979), Raoul Ruiz, e Caravaggio (1986), de Derek Jarman, analisados por Fredric Jameson em As transformações da imagem na pós-modernidade. Jameson defende nesse ensaio a necessidade de uma arte utópica, indo de encontro à noção de "fim da história".

Mas o que vemos é o suicídio de Domenico e de Andrei, o desespero concretizado. E o paraíso é o belo "quadro" de Andrei imerso no cenário idílico da sua infância. O sonho do retorno ao seu "lugar de origem".

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Todavia, será que Eugenia está no filme para se rebelar diante da arte aurática? Eugenia defende a impureza da arte: ela afirma que um tradutor é um poeta, um criador, enquanto Andrei recomenda que ela leia apenas o original. E ela se revolta diante de Andrei: "você não quer mulheres como eu! você só quer Nossas Senhoras!". A quebra da aura é, afinal, uma profanação!

segunda-feira, novembro 15, 2010

Ela foi passear... com a cabeça em todos os lugares...

Certa vez, eu estava num show de Orquestra Contemporânea de Olinda na cidade da banda, quando, no intervalo, ouvi tocar Naurêa. Na mesma hora eu disse ao anfitrião: "É música da minha terra!". Naquele momento, eu me dei conta de que, onde quer que eu estivesse, e mesmo tendo uma relação de amor e ódio com o lugar onde nasci, eu sempre vou carregar algo daqui comigo para onde quer que eu vá.

Assim como trouxe na bagagem, depois dessas três vezes em que fui a Pernambuco, tantas coisas de lá. Não são posses, não é uma camisa onde há escrito "Saudades do Recife", mas há uma saudade no meu peito. Levo comigo daquele lugar as lembranças do carnaval mais bonito da minha vida, das ruas onde o arcaico e o novo convivem lado a lado, dos "rios, pontes e overdrives". E lá também eu encontrei um bocado de dor minha e de miséria alheia.

Por isso muita gente me chama de metida a pernambucana. Dizem que só gosto do manguebeat porque fui ao Recife. Afinal, vangloriam-se de ser fãs de Nação Zumbi, Otto, Eddie, etc, desde muito antes de mim. Disputinha PIMBA besta. E ironizam afirmando que quando eu chegar em BH vai ser a mesma coisa, vou começar a gostar de música mineira e não sei o que lá. Ao ouvir isso, só consigo lembrar daqueles rockeiros da adolescência vinho-do-frei-13-de-julho, que tinham mania de chamar de "posers" aqueles que eles achavam que não curtiam rock de verdade, mas ouviam só para aparecer. Quem chamava os outros do "posers" sim era rockeiro de verdade! (risos).

Pois. Que bom que já aqui em Aracaju, eu me apaixonei pela poesia do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Ele começou a escrever sobre o Recife quando estava na Espanha: o material de sua poesia é a memória. Do mesmo jeito, meu carinho imenso pela sua obra vem da saudade. E até das imagens que crio da Espanha, de Angola, dos países que ele visitou na diplomacia e sobre os quais carinhosamente e criticamente escreveu. Agora vou fazer uma pesquisa de mestrado sobre dois filmes que abordam o imaginário urbano de Cabral. Vou estudar filmes que falam, entre outras coisas, sobre o Recife, lembrando que sou de Aracaju e estarei morando em Belo Horizonte durante a pesquisa.

E desejo muito, mas muito mesmo, que assim como aconteceu em Pernambuco, eu também me apaixone pela cultura mineira, que eu seja uma "metida a mineira", como quiserem chamar. Espero que essa praga pegue. Mas mesmo antes de ir pra Minas eu já sou admiradora de Carlos Drummond de Andrade, mas ainda tenho muito o que ler dele, pois li apenas uma pequena antologia, e devo ler Guimarães Rosa, como também conhecer melhor a música de Milton Nascimento, entre tantas outras maravilhas. Mas ainda há tanto, mas tanto para conhecer, Minas Gerais, de seus lugares, sua literatura, sua música, seu cinema... E quem sabe eu goste, mas talvez também não me encante tanto e a tal praga não pegue...

Levo daqui de Sergipe a saudade do sertão onde fui criada até os cinco anos, em Porto da Folha, a lembrança das águas mais gostosas do mundo, as águas do Velho Chico por ali em Gararu, e uma música como "se vira com o próprio nariz, quebra prato se está com raiva, ela não consegue sair da sua casa". Inclusive quando estava no Recife fui ao show dessa banda que eu vi se apresentar um trilhão de vezes em Aracaju, e também mostrei a uns amigos de outro anfitrião as músicas da Plástico Lunar. E mais: levo também a dívida de ler Antônio Carlos Viana. Não porque ele é daqui, nem porque eu tenha obrigação de dar valor ao que é da minha terra, mas porque me parece ser um bom escritor. No mais, infelizmente, tenho de admitir que este não é o meu lugar, nem é o que achei mais interessante.

Amando ou não os lugares por onde ainda vou passar na minha vida, uma coisa é certa: não quero ir a canto nenhum desse mundo sem que as ruas, as pessoas, os sons, as imagens deixem vestígios em mim. E não posso negar que o meio em que fui criada deixará sempre uma marca em mim. Mas não tenho raízes. Quem tem raízes é árvore. E as árvores estão lá para deixar o lugar mais bonito. Já eu... eu sou uma desertora mesmo!

Lembrei de uma música cantada por um mineirinho bão, Milton Nascimento, veja só, olha a praga aí...

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

domingo, novembro 14, 2010

Dorzinha

Sinto essa pequena dor
e tudo que eu quero é adormecer
para não adoecer de tanto prever o futuro
quero acordar só na hora em que a vida de verdade começa
minha vida não é esta
já me separei deste mundo.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Mallarmé

Stéphane Mallarmé, chamado por alguns de "inventor da poesia moderna", é um desses autores que acusam de ser demasiado hermético. E dizem da sua leitura difícil um trabalho antes do que prazer. Alguns de seus textos com os quais comecei a entrar em contato me pareceram difíceis de compreender sim - duas lidas para um poema e ainda a sensação de tanta incerteza. Porém, será que não é tão simples entender o que ele tem a dizer com o seguinte poema em prosa?

Pobre menino pálido

Pobre menino pálido, para quê gritar na rua a plena voz tua canção aguda e insolente, que se perde em meio aos gatos, senhores dos telhados? pois ela não há de atravessar os postigos dos primeiros pisos, por detrás dos quais desconheces pesadas cortinas de seda avermelhada.

Entretanto, cantas fatalmente, com a segurança tenaz de um homenzinho que vai só pela vida e, não contando com ninguém, trabalha para si. Tiveste algum dia um pai? Não tens sequer uma velha que te faça, surrando-te, esquecer da fome, quando chegas sem tostão.

Mas trabalhas para ti: em pé nas ruas, coberto com roupas desbotadas de homem, uma magreza prematura e tão alto para a idade, cantas para comer, com obstinação, sem baixar teus olhos maus para os outros meninos que brincam na calçada.

E teu lamento é tão alto, tão alto, que tua cabeça descoberta a erguer-se no ar à medida que sobe tua voz parece querer-se ir dos teus ombros miúdos.

Homenzinho, quem sabe ela não irá embora um dia, quando, depois de muito gritar pelas cidades, terás efetuado um crime? um crime não é muito difícil de efetuar, basta ter coragem depois do desejo, e tais, que... Teu rosto miúdo é enérgico.

Nenhum tostão desce ao cesto de vime que seguras na mão comprida suspensa sem esperança em tuas calças: hão de tornar-te mau e cometerás um crime um dia.

Tua cabeça se ergue sempre e quer deixar-te, como se de antemão soubesse, enquanto vais cantando de um jeito que se torna ameaçador.