Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Basta um dia

Quando ela abriu os olhos, ele roncava. Não que roncar fosse algo atraente ou belo, mas naquele momento para ela o ronco dele soava como intimidade. Deteve-se por vários minutos olhando-o e ouvindo o seu ronco. O amor não é sagrado, o amor é profano - ela tinha certeza disso. Entretanto, havia uma profunda dialética que fazia do profano, sagrado e do sagrado, profano através do amor. Porque o ronco naquele instante era sagrado. Então ele abriu os olhos e moveu a mão direita como quem tenta capturar uma mosca no ar, mosca que não existia.

- Mas você ronca viu! - havia um encanto nesses dizeres que mais pareciam uma reclamação.

Ele não compreendeu. Mostrou-se irritado com a observação dela. Ela já percebera que ele com muito pouco se afetava.

Olhou para o corpo dele, vestido com uma calça jeans surrada, sem camisa, os colares no pescoço. A respiração fazia o corpo dele exalar volúpia, como se todo todos os órgãos dele fossem sensuais e respiratórios. Lá onde a calça começava, era onde o seu sexo se escondia, como se todo o resto do corpo fosse caminho para lá.

Ele era todo sexo, desejo, erotismo. Mas, muito mais do que isso, ele era todo carinho, afeição. Como se ele visse no sexo algo muito sagrado que despertasse nele um homem e um menino. Era homem quando metia a mão por entre as pernas dela. Era menino quando se contorcia se enroscando no corpo dela fazendo gemidos de gato, dizendo que era um gato, enfim. Era homem quando erguia o corpo dela e colocava as pernas dela em volta do corpo dele. Era menino quando, ao acordar, dava beijos e mais beijos na mão dela com devoção. Era homem quando a comia com força e olhando nos olhos dela. Era menino quando, depois que ela disse que estava com frio, ele a puxou para si, abraçou-a e prometeu que assim o frio ia passar.

Ele inteiro estava contido no sorriso. Um sorriso com brilho nos olhos, aquele brilho de menino, e a boca carnuda e maliciosa de homem.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Descobri um interesse muito grande pela cultura oriental recentemente. O budismo tem um pensamento interessante sobre a renúncia ao desejo como forma de evitar a dor e do bem estar através da disciplina - apesar de eu não acreditar em karma e etc e tal. Comecei a fazer yoga e acho fantástica a superação dos limites do corpo, o ganho de elasticidade, a busca pelo equilíbrio, respiração correta, pensamento correto. Quero também ver mais Mizoguchi e mais Kiarostami. Até aqueles filmes de ação japoneses que eu curtia quando criança. Espero conhecer mais sobre todas essas coisas tão legais...

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Uma amiga comentava sobre um rapaz que sempre mexeu e ainda mexe com ela, e a faz pensar que nunca deixará de sentir essa quedinha por ele.

Eu disse algo de supetão a ela que fez eu mesma refletir depois - que o único amor eterno é o amor mal resolvido.

Será?

Sábado, Outubro 31, 2009

Bye

Enjoei de Aracaju. O povo fala, mas ah, Aracaju é tranquila, e até tem coisas legais pra fazer ao contrário do que as pessoas falam lalalalalala.

Não importa. Enjoei. Talvez eu seja nômade!

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

O que aconteceu com uma pessoa que não consegue mais escrever poesia? =/

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Saudade do tempo em que eu escrevia poesia (boa ou ruim).

Tô precisando de mais Manoel de Barros, mais Fernando Pessoa, Drummond, Vinicius de Moraes, Mário Quintana, Manoel Bandeira, tô precisando mais de todos eles na minha vida!

Música que ficou insistentemente na minha cabeça hoje: Somewhere only we know, Keane (a única música legal dessa banda).

Ah! E também Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo. Música pra quem sabe que está chegando a hora de partir...

O vento nos levará!


Ontem vi um filme fabuloso: O vento nos levará (1999), do diretor iraniano Abbas Kiarostami. O tema da dialética entre a morte e a vida, a reflexão sobre o dispositivo cinematográfico, as paisagens encantadoras permanecem nesse filme assim como ocorre em O gosto da cereja. Não estou num bom momento agora para organizar as minhas ideias. Sei que esse é um filme que me lembra o quanto a arte, especialmente o cinema, é importante na minha vida. Aquele filme que fica na cabeça da gente durante dias, que não se encerra quando o filme acaba, cujo tempo se dilata através da imaginação e da rememoração. É um filme que eu sinto, muito mais do que entendo - de maneira que o sentir se torna mais interessante do que compreender. A imagem fixa dos campos quando o herói passa na garupa da bicicleta do médico velhinho - é a imagem do próprio paraíso superando a morte que o cinema torna possível. Só me faz querer ver mais filmes do Kiarostami. Genial.

Domingo, Outubro 11, 2009

Bastardos inglórios (2009), Quentin Tarantino


A obra Guerra e cinema, de Paul Virilio, muito mais do que um livro sobre filmes que têm como temática a guerra, trata-se de um tese sobre a estreita relação entre o cinema e a guerra através de uma logística da percepção militar e a experiência cinematográfica. O autor fala da invenção de tecnologias como o fuzil cronotográfico por Étienne-Jules Marey, anterior ao cinematógrafo, e das estratégias de visão no campo de batalha, até o cinema de propaganda da guerra, como foi o cinema nazista, ou mesmo o cinema de Griffith e seu O nascimento de uma nação (1915), com sua defesa do Sul escravista da guerra civil americana, além de Rambo (1982), a vingança reaganista da Guerra do Vietnã, e a montagem de atrações do cinema de Eisenstein no clássico Outubro (1927), que apresenta a Revolução Russa de 1917. Cinema e guerra estiveram sempre muito próximos. E Tarantino tem consciência disso. E brinca com isso.

Quem estivesse esperando relatos verídicos sobre algum grupo que espalhava medo entre os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial certamente sairá decepcionado. Afinal, Tarantino faz questão de matar Hitler justo onde? No cinema!

Filme de pura metalinguagem, Bastardos inglórios fala sobre um grupo que queria dar fim ao alto escalão do Terceiro Reich durante a projeção do filme Orgulho da nação. O filme é sobre Frederick Zoller, herói de guerra que estrela seu próprio filme. Todo o encanto sobre a guerra, toda a áurea que envolve aqueles que morrem pela nação nos campos de batalha estão lá no filme do Tarantino, e nisso ele me lembra Tempo de guerra (1963), do Jean-Luc Godard. Nessa obra, Godard faz uma crítica feroz à ideologia divulgada pela propaganda de guerra, segundo a qual os vencedores serão todos os soldados que dão suas vidas por ela- mas que morrem em função dos interesses políticos e econômicos de outrem. Lembro-me de uma cena do clássico documentário de Leni Riefenstahl, O triunfo da vontade (1934), em que a cineasta apresenta um congresso do Partido Nacional Socialista, quando um soldado nazi grita diante da câmera com os olhos hipnoticamente esbugalhados, que, caso morresse, não estaria morto, mas vivo no futuro da pátria.

Mas muito mais do que morrer pela pátria, o coronel Hans Landa quer entrar para a história. É por isso que ele, conhecido como "O caçador de judeus", ao tomar consciência da Operação Niko, que daria fim ao Terceiro Reich numa sala de projeção, ao invés de acabar com a operação, decide entrar para a história como o homem que traiu os nazistas e foi responsável pelo término da Segunda Guerra Mundial. Só que além da operação, havia a judia, Shosanna Dreyfus, sob sua falsa identidade Emmanuelle Mimieux, que era dona do cinema onde seria exibido a estréia do filme de Goebbels, e que já havia armado um plano para incendiar o cinema usando nada menos do que filmes 35mm feitos de nitrato - altamente inflamáveis. É Marcel, seu amado companheiro negro, quem deveria lançar chamas aos rolos de filme. Marcel e Shosanna, o primeiro, representante dos povos colonizados, a segunda, do Holocausto.

A imagem extremamente metafórica de Shosanna na tela do cinema interrompendo a projeção do filme que estava divertindo Hitler e emocionando Gobbels diante dos elogios do füher, fala da voz dos que querem tomar de vez os rumos da história, e nenhum meio melhor do que o cinema para ser herói.

O novo filme do Tarantino é exemplar do chamado boom da memória na cultura contemporânea de que fala Andreas Huyssen, em que multiplicam-se museus, filmes e literatura de testemunho sobre o Holocausto, que levantam discussões sobre o porquê de nos voltarmos para um passado tão obscuro que parece nos falar sobre o fracasso do projeto iluminista da modernidade, no qual o desenvolvimento técnico findou não num progesso da "humanidade", mas em milhões e milhões de mortes. Alguns dos personagens de Bastardos inglórios, aliás, são representantes típicos dessa tal cultura contemporânea que desafia as fronteiras nacionais e a identidade nacional, com alemães que matam nazistas e fazem parte dos Bastardos inglórios. Mas não se enganem aqueles que ignoram a diferença cultural em nome de um tal descentramento do sujeito - vide a judia e o negro que incendiam o cinema cheio de nazistas pelo ódio àqueles que fizeram mal ao seu povo.

Hans pode até ter entrado para a história, mas o final dela não é nada ilustre, isso Tarantino faz questão de ressaltar. Na última cena, ele sofre nas mãos do bastardo inglório Aldo do mesmo jeito que todos os nazistas que passaram por ele - Aldo fixa o símbolo nazista em sua testa (haveria marca melhor de sua identidade?), e tira o seu escalpe. Esse fim inglório me lembra aquela historinha de que Dom Pedro I estava era montado num burro, com diarréia e foi cagar na moita no momento da nossa "independência". Porque a história, meus claros, a história é inglória.