quarta-feira, novembro 08, 2017

O pássaro das plumas de cristal (1970), Dario Argento


Um serial killer (um homem? Uma mulher? apenas uma pessoa?) mata mulheres com golpes de faca e canivete. A sua primeira vítima teria sido atacada logo após vender um quadro que representava um homem vestindo uma capa preta e esfaqueando uma mulher numa praça. Essa imagem é a obsessão do assassino. E se torna também a obsessão de um jornalista americano, Sam Dalmas, que, numa viagem à Itália, acaba sendo surpreendido ao ver um homem vestindo capa preta golpear uma mulher numa galeria – o cenário é composto por esculturas monstruosas, a trilha apresenta uivos de lobos, variações do ponto de escuta entre o interior da galeria e o exterior, onde Sam observa tudo através do vidro e preso entre dois portões, tornam a cena angustiante. No decorrer da investigação, o inspetor pede para que Sam rememore a cena. Ele diz que não consegue se lembrar de mais nada. No entanto, a cena se repete em vários momentos do filme sob o ponto de vista de Sam, trazendo novos enquadramentos, zooms, congelamento da imagem, como se as imagens fossem a expressão do inconsciente de Sam (agora consciente), como se fossem o exercício da busca por um inconsciente óptico do narrador numa temporalidade da cena estendida (quem sabe infinita). O pássaro das plumas de cristal (1970), de Dario Argento – que tem esse nome numa alusão ao ruído das plumas de cristal de um pássaro típico da Sibéria que aparecia nas gravações com ameaças às vítimas- joga com a identificação com a vítima e o algoz de modo bastante ambíguo, e transforma a imagem da cena do trauma que se repete infinitamente no próprio centro da narrativa e do estilo.

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