Amando assim, amor que se cria tão rápido quanto se mata
Não foi nem eu que o criei
Nem eu que o matei
Ele se criou como ervas daninhas
E se matou como um covarde
Mas todo suicida é covarde
Assim como todo amor nasce independente da nossa vontade.
sábado, agosto 07, 2010
sexta-feira, agosto 06, 2010
A agulha

Quando dá oito da noite eu só penso em dormir. Essa vida de trabalhar o dia inteiro me consome. E sempre que chego da rua é a mesma odisséia: a pilha de pratos enorme na cozinha. É tanta sujeira, e eu só penso em matar a fome e depois dormir. Agora aqui nesse edredom eu me sinto tão bem depois de um dia inteiro de labuta, entrevistando algumas pessoas mal educadas, outras bem simpáticas, empurrando repórteres em coletivas, escrevendo de olho no relógio. Eu preferia escrever poesias e com calma, mas fazer o quê?
- Amor, por favor, costure essa camisa. - ele me pede.
- Já já eu faço isso.
Que dias frios, que vontade de permanecer na cama para todo o sempre, que edredom gostoso, mas acho que vou adoecer. O corpo mole, a garganta dói um tanto, o corpo quente. Espero não ficar doente, o clima no trabalho não está bom, qualquer coisa poderia ser uma desculpa para me botar pra fora. E não quero ter que ir ao médico, eu odeio ir ao médico.
Brigitte me arranha o braço com os olhos pidões, e eu sei que ela quer carinho. Minha cachorra é assim, ela demonstra afeto ferindo. Há pessoas que agem desse jeito também. Quando eu coço a sua cabeça, uma hora ela dá mordidinhas na minha mão. E pula na cama, e se deita ao meu lado, e até sente quando estou triste e respira de modo ofegante.
Eu olho pra Brigitte e lembro que eu decidi dar o primeiro passo criando um cachorro para depois ter um filho. Na verdade tudo começou com orquídeas. Comprei orquídeas, queria saber se eu ia conseguir cuidar delas direitinho. Mas não demorou muito para elas ficarem murchas. Nesse dia eu chorei bastante. Como poderia educar uma criança se nem ao menos sabia tomar conta de orquídeas?
Foi aí que eu ganhei a Brigitte de uma amiga. No começo acontecia de eu esquecer de lhe dar comida, água. E percebia ao ver Brigitte lamber o chão do banheiro em busca de água. Até que me acostumei. E lembro logo de lhe dar alimento. Mas ainda acho que não dou atenção suficiente à Brigitte. Então também seria assim com meu filho?
Às vezes eu me perco fitando as janelas do prédio que fica em frente ao meu. Engraçado que sempre há alguém em alguma janela. Há uma garota muito exibida no terceiro andar. Ela sempre troca de roupa com o vidro fechado, mas com as cortinas abertas. Dá pra ver tudo. E ela se veste bem devagar, peça por peça. Demora mais colocando o sutiã, sempre de costas para a janela. Meu marido costuma vê-la.
Vou dormir. Amanhã costuro a camisa de Bernardo.
Sabe quando você sonha e tem consciência de que está sonhando? É isso o que está acontecendo comigo. Eu estou nua de bruços sobre uma mesa e um velho homem chinês coloca agulhas no meu corpo. Há agulhas nos meus braços, nas minhas pernas, muitas agulhas. Nunca fiz acupuntura e sempre considerei uma técnica estranha. Também não ficaria nua assim para um desconhecido, do mesmo modo que prefiro ginecologistas mulheres a homens, pois jamais permitira que um homem que não conheço ficasse no meio das minhas pernas bulindo na minha buceta. É por isso que tudo não passa de um sonho.
Abro os olhos. Vejo Bernardo enfiando no meu braço esquerdo a agulha que seria para eu costurar a sua camisa.
- Isso é pra você aprender a fazer logo o que eu mando você fazer.
Sarcasmo acadêmico

Há um teórico de cinema americano que me faz rir muito enquanto o leio. O nome dele é David Bordwell, e ele escreveu um texto sarcástico ao extremo, Estudos de cinema hoje e as vicissitudes da grande teoria, em que ele detona estruturalistas, culturalistas, pós-modernos, pós-estruturalistas, franceses, americanos, enfim, quase todo mundo. Ao final ele defende uma tal de "pesquisa nível médio" que valoriza o problema de pesquisa em lugar da aplicação de doutrinas, e vai de encontro às chamadas "grandes teorias" que almejam uma concepção totalizante da sociedade, da cultura, etc etc. Esse texto está no livro Teoria Contemporânea de Cinema I, organizado por Fernão Ramos. Confira algumas pérolas...
Será preciso lembrar que a vida intelectual francesa estimula suas celebridades a adotarem posições controversas, por vezes até mesmo caricatas, e sujeitas a imprevisíveis reviravoltas? De modo geral, o pensamento humanístico francês é muito mais dominado pelo modismo e pela celebrização de seus expoentes do que os países de língua inglesa. Sem nenhuma ironia aparente, um semanário parisiense dirigido a um público médio pode muito bem lançar uma edição especial intitulada "O pensamento francês hoje", estampando em sua capa uma foto do pensador de Rodin debruçado sobre a pirâmide do Louvre, e anunciando artigos como "As palavras-chave", "As escolas e os círculos", "Os novos temas", "Quem pensa o quê?" e "Quem é quem nos 45 nomes de ponta". Um sociólogo observou, certa vez, que essa pomposa e narcisística frivolidade é precisamente o resultado das circunstâncias sociais nas quais se realiza o trabalho intelectual na França.
O apelo tão frequente à teoria continental implica ainda o problema da incompetência involuntária. São poucos os acadêmicos da área de cinema a dominar as línguas européias em que esses teóricos escrevem, e por isso os estudos contemporâneos de cinema dependem enormemente de traduções. Mas a sociologia e a psicologia alemãs do cinema, a teoria do cinema do Leste Europeu, e as semiologias italiana e escandinava permanecem sem tradução, e por essa razão os estudos de cinema anglo-americanos contemporâneos pouco se detêm sobre elas. Comparados a outras disciplinas acadêmicas, os estudos de cinema se mostram extremamente provincianos.
(...)
Sejam quais forem as suas fontes, o pensamento atraído por doutrinas é um desestímulo à análise criteriosa de problemas e questões. Ao contrário, ele conduz a uma procura casual por ideias de segunda mão. É comum ouvir esse conselho de professores e seus alunos mais confusos: Por que você não usa 'fulano' nesta altura de sua análise?. Muitos acadêmicos da área de cinema acreditam ser mais conveniente recorrer à última tradução de um mestre francês (ou ao mais novo manual da Editora Rotledge) do que se envolver com pesquisa ou reflexão das questões em si mesmas.
(...)
Guy Rosolato, um teórico da psicanálise, conversa com Raymond Bellour, um teórico do cinema. Rosolato observa que, para falar em detalhe a respeito de um filme, seria preciso analisá-lo congelando a imagem. Bellour responde: "Quer dizer que, se não pudermos re-ver um filme dessa forma, na prática ele não existe?". Em seguida, Bellour comenta que certos processos formais do cinema despertam a emoção , apresentando o retrocesso como exemplo:
Pouco importa o que o retrocesso de fato reconta, é de sua natureza produzir um choque emocional extremamente violento, pelo simples fato de remeter ao passado. Um amigo meu, certa época, tin ha uma relação um pouco perturbada com o seu passado, e os retrocessos tinham sobre ele um efeito quase que automático, pode-se dizer que era a sua forma, em si, que o fazia chorar.
Presume-se que os interlocutores desse diálogo queriam ser levados a sériop. (Afinal de contas, publicaram o diálogo). Mas a discussão é ininteligível, porque as conexões entre as ideias não satisfazem a nenhum padrão de inferência razoável. Rosalato afirma que, para que se possa discutir um filme com precisão, ele deve ser estudado cuidadosamente: que elementos isso fornece para a estupenda conclusão de Bellour de que, portanto, talvez o filme não exista?
(...)
Sandy Flitterman-Lewis, por exemplo, em um relato recente da teoria da posição-subjetiva, afirma ser a metapsicologia de Freud um "modelo conceitual" que "resiste à verificação empírica". No entanto, Freud assim escreveu sobre sua metapsicologia:
Não se deve supor que estas ideias muito gerais sejam pressuposições das quais depende o trabalho da psicanálise. Pelo contrário, são suas conclusões mais recentes e estão abertas à revisão. A psicanálise está firmemente alicerçada na observação dos fatos da vida mental, e por essa mesma razão sua superestrutura teórica está incompleta e sujeita a constante alteração.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Inquietação de faca
Eu não queria ter você perto de mim durante tanto tempo. É simples. Talvez fosse a condição para eu apreciar mais a sua companhia. No entanto, talvez, quem sabe, se você se afastasse mais um pouco eu esqueceria da sua existência. Da sua às vezes interessante, às vezes entediante existência. Você está na justa medida entre eu não lembrar de você e eu enjoar de vez.
Percebo que o meu silêncio te incomoda. E posso ver que, quanto mais eu calo, mais nervosa você fica, buscando algum assunto, qualquer assunto, que possa despertar a minha atenção. Não adianta. E você continua fumando um cigarro após o outro, apertando a bituca acesa no cinzeiro e continua mesmo ela já apagada, pedindo mais doses de rum, bebendo pra me dizer... pra me dizer o quê?
Entre duas frases suas que eu capto, há verdadeiras odisséias, grandes arquitramas, livros de cabeceira e poemas recitados com tanta dedicação a me fazer conhecê-la. Mas eu, tão interessado na mosca que quer pousar no copo de chopp. Tão absorto na luz refletida no vidro que confunde a rua com o bar em imagem fugaz.
Não sei porque, mas em algum momento eu peguei essa mania de te beijar de olhos abertos. E, quando o mundo desaparece para você e vira o meu peito, as minhas costas, o meu pau e o meu lábio, eu posso ver você tão concentrada em mim e observo você para comigo, mas nunca eu para com você.
Talvez porque com o passar do tempo o beijo deixou de ser a véspera do sexo para se tornar um expressão de um gostar. E às vezes eu gosto da sua presença, mas em outras horas você me parece uma intrusa, e eu tenho essa vontade de lhe deixar falando sozinha pra ver se uma hora você vai embora sem se despedir.
Eu não gosto de te abraçar como antes. É que no seu abraço você vira gigante, é que o seu afeto é tão grande que me deixa constrangido e, se você insiste, me dá agonia, me afoga e eu preciso nadar sozinho neste mar.
Eu vejo a sua beleza e a sua tristeza, mas quanto mais você me aponta as suas feridas expostas, sem casca e em carne viva a espera dos abutres de Prometeu, mais eu reparo na sua fraqueza e você vai se tornando tão sem vida.
Sim, a grande contradição é essa, pois se a vida parece ter sido injetada por você mesma nas suas próprias veias, você parece não suportá-la e ceder cada vez mais e eu me preparo para uma hora ou outra te segurar num desmaio.
Eu não suportaria tanto amor. Mas não é amor o que por mim você sente. E eu sei lá que diabos você sente. O tempo inteiro você coloca o que há dentro de você pra fora como se fossem vísceras falsas. E eu nada tenho com isso tudo.
Só que quando você me deita e coça a minha nuca, ou quando me ouve falar das minhas vãs filosofias, eu me perco. Eu deixo de querer que você vá. O seu carinho então me deixa confortável em você. Descubro que você, apesar de tudo isso, carrega com você e também tem um pouco de paz pra me dar. Mas logo quero me livrar da sua presença. Eu não quero dividir o lençol. Está frio...
E ainda prefiro essa vida sem amor. Porque não estou sem amor - o sem pressupõe uma falta. E se um dia eu amar de novo depois de tanto tempo não vai ser alguém como você. Porque isso não é amor. Não é. Nem você mesma sabe o que é isso.
Percebo que o meu silêncio te incomoda. E posso ver que, quanto mais eu calo, mais nervosa você fica, buscando algum assunto, qualquer assunto, que possa despertar a minha atenção. Não adianta. E você continua fumando um cigarro após o outro, apertando a bituca acesa no cinzeiro e continua mesmo ela já apagada, pedindo mais doses de rum, bebendo pra me dizer... pra me dizer o quê?
Entre duas frases suas que eu capto, há verdadeiras odisséias, grandes arquitramas, livros de cabeceira e poemas recitados com tanta dedicação a me fazer conhecê-la. Mas eu, tão interessado na mosca que quer pousar no copo de chopp. Tão absorto na luz refletida no vidro que confunde a rua com o bar em imagem fugaz.
Não sei porque, mas em algum momento eu peguei essa mania de te beijar de olhos abertos. E, quando o mundo desaparece para você e vira o meu peito, as minhas costas, o meu pau e o meu lábio, eu posso ver você tão concentrada em mim e observo você para comigo, mas nunca eu para com você.
Talvez porque com o passar do tempo o beijo deixou de ser a véspera do sexo para se tornar um expressão de um gostar. E às vezes eu gosto da sua presença, mas em outras horas você me parece uma intrusa, e eu tenho essa vontade de lhe deixar falando sozinha pra ver se uma hora você vai embora sem se despedir.
Eu não gosto de te abraçar como antes. É que no seu abraço você vira gigante, é que o seu afeto é tão grande que me deixa constrangido e, se você insiste, me dá agonia, me afoga e eu preciso nadar sozinho neste mar.
Eu vejo a sua beleza e a sua tristeza, mas quanto mais você me aponta as suas feridas expostas, sem casca e em carne viva a espera dos abutres de Prometeu, mais eu reparo na sua fraqueza e você vai se tornando tão sem vida.
Sim, a grande contradição é essa, pois se a vida parece ter sido injetada por você mesma nas suas próprias veias, você parece não suportá-la e ceder cada vez mais e eu me preparo para uma hora ou outra te segurar num desmaio.
Eu não suportaria tanto amor. Mas não é amor o que por mim você sente. E eu sei lá que diabos você sente. O tempo inteiro você coloca o que há dentro de você pra fora como se fossem vísceras falsas. E eu nada tenho com isso tudo.
Só que quando você me deita e coça a minha nuca, ou quando me ouve falar das minhas vãs filosofias, eu me perco. Eu deixo de querer que você vá. O seu carinho então me deixa confortável em você. Descubro que você, apesar de tudo isso, carrega com você e também tem um pouco de paz pra me dar. Mas logo quero me livrar da sua presença. Eu não quero dividir o lençol. Está frio...
E ainda prefiro essa vida sem amor. Porque não estou sem amor - o sem pressupõe uma falta. E se um dia eu amar de novo depois de tanto tempo não vai ser alguém como você. Porque isso não é amor. Não é. Nem você mesma sabe o que é isso.
A beira do mar aberto
em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasse que deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste
Trecho de conto de Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio Fernando Abreu
Trecho de conto de Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio Fernando Abreu
terça-feira, agosto 03, 2010
Eu e o meu farol

Talvez eu seja um pouco assim como ele... que vive sozinho numa "ilha", tem sua cabana, seu farol, a maré, a máquina de datilografar, os livros de poesias, as plantas, a solidão das águas que ressoam nas conchas e se esfregam na areia úmida, conversando sozinho, lembrando que já foi guerreiro, mas sabe que, apesar de consagrado certa vez, nunca foi herói de coisa nenhuma... quem sabe eu seja assim como ele, um velho doido falando sozinho, mandando bilhete por pombo correio, ouvindo uma música brega de noite com uma garrafa de cachaça na mão...
Sim, eu adorei o curta-metragem que vi hoje, O velho, o mar e o lago, do pernambucano Camilo Cavalcante.
Masculin, féminin

Ontem assisti a Masculin, féminin (1966), de Jean-Luc Godard, e logo de início o filme me chamou a atenção pela leitura feita por Paul, interpretado pelo (olha o comentário fútil) belíssimo Jean-Pierre Léaud. Ele, entre uma palavra e outra, acende o cigarro, dá baforadas, olha ao redor da cafeteria inquieto, em plano-sequência diante da câmera estática. Gostei do clima juvenil do filme, de Paul envolvido na militância contra a repressão ao comunismo mundo afora (presos políticos no Brasil, Guerra do Vietnã), e também determinado na conquista do corpo e da alma de Madeleine (ela me lembrou Je vous salue Marie (1985), outro filme do Godard). Também achei interessante a crítica a essa geração, que Godard aborda como ainda presa aos referenciais da indústria cultural (vide a cena em que Paul, Madeleine e suas amigas vão ao cinema e se decepcionam com a exibição de um filme diferente do esperado). Não pude deixar de me lembrar também de Les amants réguliers (2005), de Philppe Garrel. Também adorei aquelas boas e velhas "quebradas de eixo" kkk e elipses malucas do Godard - eu me surpreendi quando, após um corte brusco que me fez acreditar que Paul falava sozinho na lavanderia para depois o filme mostrá-lo conversando num sofá com seu amigo Robert, de repente ver a câmera sacaninha mostrar os dois de costas e as máquinas de lavar ao fundo (o velho Godard brincando com o espaço fílmico, o tempo inteiro Paul e Robert estavam no mesmo lugar). E também curti aqueles personagens que aparecem do nada na diegese e saem sem nenhuma explicação narrativa, como os dois momentos em que diferentes mulheres matam um homem na frente de Paul.
Enfim, voltando à cena inicial, eu não conheço a origem deste texto, inclusive gostaria de ter mais informações sobre, me fez lembrar de uma pessoa, mas enfim... segue...
Nunca dois olhares se encontram
Sem deixar nenhum vestígio
De vida, silêncio, vazio, chama
A luz ofusca...
Nenhum lugar tem o ambiente dessa história
Sem limite
Narrar a monotonia
Narrar o trabalho cotidiano...
Um garoto sem nome de Marseilles
Conta 24 horas por dia
Conta com os outros
Compartilhando a vida
Incapaz de estar sozinho
Sem vestígio de nenhum lugar
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segunda-feira, agosto 02, 2010
Ascese
Hoje eu senti a sensação de que minha alma estava passando por uma purificação. Não é clarividência, afinal, a lucidez chega a ser uma sensação? Igualmente não é preenchimento, porém um vazio acolhedor. Aquele vazio do copo cheio de ar. Pois nunca estaremos cheios, e se quisermos ficar cheios, conseguiremos apenas a fome mais mendiga. Também não encontrei nada que se possa chamar de divino - somente uma malemolência de rede. De índio que deita na rede e adora a deusa lua. E ainda diria que não é paz, porém um vento macio de coqueiros no fim de tarde no parque. Como se as buzinas não importassem - apenas o colorido do vermelho e do verde no semáforo.
domingo, agosto 01, 2010
Esse café...

- Eu nunca tomo o café inteiro. Só gosto de tomar café muito quente, então coloco na xícara e assopro...
- Você reparou que você demora muito a tomar o café?
- Sim, mas é por isso, porque está quente demais. Aí quando vai chegando no final, o café está frio. Então jogo fora o resto do café e tomo outra xícara.
- Já parou pra pensar em tomar um café não tão quente para consumi-lo inteiro?
Um instante qualquer
- Você tem tantos irmãos? Hum... Então nunca está sozinha, sua casa está sempre cheia de gente né?
Disse ele. Com os olhos que não verteriam nenhuma lágrima. Respirando uma dor com gosto de fel subjugada pelo orgulho. Ele sabia o que eu havia compreendido. E se calou diante do meu espanto sem nem ao menos tentar se explicar, pois não havia como.
Naquele instante, eu entendi que toda a sua fortaleza e satisfação em si mesmo não passavam de uma solidão de homem abandonado pela mãe.
"Você é encantada", comentou certa vez. E admirava esse encantamento na mesma medida em que considerava uma fraqueza.
Eu nunca soube quem ele era. Apesar de tê-lo amado um dia.
Disse ele. Com os olhos que não verteriam nenhuma lágrima. Respirando uma dor com gosto de fel subjugada pelo orgulho. Ele sabia o que eu havia compreendido. E se calou diante do meu espanto sem nem ao menos tentar se explicar, pois não havia como.
Naquele instante, eu entendi que toda a sua fortaleza e satisfação em si mesmo não passavam de uma solidão de homem abandonado pela mãe.
"Você é encantada", comentou certa vez. E admirava esse encantamento na mesma medida em que considerava uma fraqueza.
Eu nunca soube quem ele era. Apesar de tê-lo amado um dia.
Um jeito bonito de ser
E ele passa, com seus olhos tímidos escondidos por debaixo das lentes dos óculos e o sorriso ingênuo. Ele parece que ri de tudo - talvez esteja rindo de si mesmo por ser tão tímido, talvez esteja rindo para os outros verem e não o acharem blasé por quase não falar, ou talvez esteja rindo porque é do direito dele rir do que quiser.
Quando perguntei por ele, me disseram: "ele é de boa, na dele, tímido, fala pouco... mas é bem risonho, tá sempre de bom humor".
Não é bonito isso?
Quando perguntei por ele, me disseram: "ele é de boa, na dele, tímido, fala pouco... mas é bem risonho, tá sempre de bom humor".
Não é bonito isso?
sábado, julho 31, 2010
Ironias da vida
B.A.: seria uma ironia, mas só mais uma história de alguém que nunca pensou em vir pra Brasília e acabou vindo
eu: foi assim com vc?
B.A.: é quase sempre assim
sim
o pessoal fala que você não escolhe brasília, brasília escolhe você
eu: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
q onda isso
eu: e tem o que fazer aí, menino? isso é importante...
B.A.: opa, se tem
pra você ter uma idéia da diversidade
hoje eu vou num festival de cinema filipino no ccbb
eu: :-O
B.A.: depois numa quermesse num templo budista
eu: uaaaaii
B.A.: depois encher a cara em algum boteco pagão
hehehe
eu: hahahahahahahahahahahahahaha
adooooro
eu: foi assim com vc?
B.A.: é quase sempre assim
sim
o pessoal fala que você não escolhe brasília, brasília escolhe você
eu: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
q onda isso
eu: e tem o que fazer aí, menino? isso é importante...
B.A.: opa, se tem
pra você ter uma idéia da diversidade
hoje eu vou num festival de cinema filipino no ccbb
eu: :-O
B.A.: depois numa quermesse num templo budista
eu: uaaaaii
B.A.: depois encher a cara em algum boteco pagão
hehehe
eu: hahahahahahahahahahahahahaha
adooooro
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quinta-feira, julho 29, 2010
Serras da desordem (2006), Andrea Tonacci

O início de Serras da desordem, com suas imagens idílicas de uma família indígena brincando na floresta, pode nos remeter ao clássico documentário Nanook, o esquimó (1922), de Robert Flaherty, e também a tantos outros que se dedicaram, assim como a primeira antropologia, à alteridade. Nesses filmes, o outro parece ingênuo - mas são eles mesmos elaborados a partir de modos ingênuos de filmar.
No entanto, é claro que Serras da desordem passa muito longe disso. E vemos no instante em que a criança indígena aponta para o céu em direção a um avião o prenúncio das relações dialéticas entre natureza e progresso que são desenvolvidas no decorrer do filme.
Trata-se de um documentário que se propõe a narrar a história de um índio, Carapiru, separado de sua aldeia em luta com capangas. Mais tarde ele é recebido por trabalhadores nas redondezas, até que finalmente é levado por um funcionário da Funai com o objetivo de devolvê-lo à sua aldeia.
Contando assim parece tudo muito simples, mas não é. A cena em que um trem da Companhia Vale do Rio Doce surge no meio da mata avançando em direção à câmera que constrói um enquadramento vertoviano, para depois de um corte, um travelling mostrar o índio ao lado de uma placa dizendo algo como proibido, área indígena, é simplesmente magistral. Em dado momento, uma montagem com princípios eisensteinianos (excessos de planos, choque, metáfora na justaposição das imagens) discursa sobre o processo violento e dialético de modernização do país, com imagens da repressão da ditadura militar e inclusive uma citação de outro documentário que se aventurou pela Amazônia, Iracema - uma transa amazônica (1974), de Jorge Bodansky, numa crítica às promessas desenvolvimentistas do projeto da Rodovia Transamazônica, construída durante o governo Médici.
Imagens como essas mescladas com encenações que mostram a trajetória do índio elaboram um documentário que deixa o espectador embasbacado com a verdadeira bagunça que Tonacci faz com os limites entre documentário e ficção. O sujeito-da-câmera encenado pode ceder lugar ao sujeito-da-câmera participativo, por exemplo, quando vemos entrevistas com pessoas que conviveram com o índio Carapiru. Mas a entrevista mais marcante de todas certamente é aquela em que Carapiru está diante da câmera falando em sua própria língua. Tonacci revela esse limite que está entre tantos outros limites da linguagem - inclusive da cinematográfica - que impossibilitam um encontro com a verdade totalizante.
E quando Tonacci utiliza as imagens de arquivo jornalísticas é para evidenciar que, apesar de o Jornalismo geralmente ser vendido ao consumidor como verdade, são as narrativas jornalísticas repletas das maiores mentiras. Como aquela reportagem que apresenta Carapiru feliz finalmente retornando à sua aldeia. Enquanto a câmera jornalística mostra Carapiru tirando as roupas, a repórter afirma que agora ele estaria junto a pessoas como ele, que falavam a mesma língua e gostavam das mesmas coisas.
Essa visão apresentada pela repórter, que é a mesma de órgãos como a Funai, traz as marcas do que Stuart Hall denomina diáspora. A mitologia da diáspora parte de uma narrativa teleológica a respeito de povos afastados de sua terra de origem. Esses povos, assim como os judeus escravizados no Egito, sonham com o retumbante retorno à sua terra prometida. Mas, como aponta Stuart Hall, a identidade cultural é demasiadamente complexa, instável, para ser descrita em termos de um eu e de um outro unívocos.
É por isso que o índio Carapiru e outros índios não estão livres das influências das outras culturas. E Tonacci elabora uma genial brincadeira no final do filme quando, após mostrar Carapiru se desfazendo de suas roupas e indo em direção às grandes matas verdes virgens, apresenta uma equipe de filmagem aguardando por ele e o diretor dando ordens de que ele deveria acender uma fogueira. É nessa riqueza de documentário reflexivo que Tonacci não deixa nem o próprio cinema escapar de sua crítica. Afinal, o cinema, arte e tecnologia (e indústria cultural também) estava ali o tempo inteiro modificando o ambiente onde acontece a tomada.
E é por isso que Serras da desordem é, sem dúvida, um dos melhores filmes brasileiros que eu já vi.
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quarta-feira, julho 28, 2010
Flâneur

Baudelaire amava a solidão, mas a queria na multidão. (...) Uma embriaguez acomete aquele que longamente vagou sem rumo pelas ruas. A cada passo, o andar ganha uma potência crescente: sempre menor se torna a sedução das lojas, dos bistrôs, das mulheres sorridentes e sempre mais irresistível o magnetismo da próxima esquina, de uma massa de folhas distantes, de um nome de rua. Então vem a fome. Mas ele não quer saber das mil e uma maneiras de aplacá-la. Como um animal ascético, vagueia através de bairros desconhecidos até que, no mais profundo esgotamento, afunda em seu quarto, que o recebe estranho e frio. (...) Paisagem - eis no que se transforma a cidade para o flâneur. Melhor ainda, para ele, a cidade se cinde em seus pólos dialéticos. Abre-se para ele como paisagem e, como quarto, cinge-o.
Walter Benjamin em Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo
Junto a ti esquecerei...
Então lá vou eu fuçar os tais primeiros poemas escritos por João Cabral de Melo Neto que se encontram na Obra Completa. Eu esperava por algumas palavras mais ingênuas, alguns versos menos bem elaborados. Para minha surpresa, o meu querido poeta escreveu em 1937, com apenas 17 anos - calma que eu vou repetir, DEZESSETE ANOS- esta obra-prima. Um poema como este não estaria entre meus últimos, quanto mais entre os primeiros! Impressionante a genialidade do poeta assim desde cedo, e também algo de ingênuo em comparação aos poemas da sua maturidade... E eu, como sempre, me derreto toda ao lê-lo...
Junto a ti esquecerei...
I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.
II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu advinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombra,
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.
III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas desconhecidas.
IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transatlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrosel,
indefinidamente estarás comigo.
Junto a ti esquecerei...
I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.
II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu advinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombra,
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.
III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas desconhecidas.
IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transatlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrosel,
indefinidamente estarás comigo.
terça-feira, julho 27, 2010
Meu caso é mais um, é banal
Sempre que ele come meu cu, logo se levanta para ir ao banheiro e me deixa largado no colchão cheio de afetos negados. Ouço a água do chuveiro. Ele se lava, se lava, se lava pra tirar toda a sujeira de bicha que ele pegou de mim. Mas não é porque eu sou bicha que eu mereço ser tratado desse jeito. Meu bem, não são apenas as mulheres que precisam de um abraço após a foda.
Ele diz que só come, não me deixa penetrá-lo. Mas diabos, em nenhum sentido ele me deixa penetrá-lo. Ele está sempre lá com suas poucas palavras, suas baforadas de cigarro, seu olhar que não diz (quer apenas descobrir), sua impaciência diante da minha tagarelice inoportuna e o seu cinto de grande fivela que coloca na calça com a força de homem matuto. Tenho sempre medo do cinto, de um dia ele ter raiva do meu cu e me machucar com o cinto, mas ele de uma forma ou de outra não já está me machucando?
Eu queria muito que ele me deixasse comer o cu dele. Nunca fui bicha passiva, sempre preferi comer a dar. É que às vezes, por paixão, a gente se vira - literalmente. E não lembro de ter tido nojo desse amor que mistura suor e merda. Talvez um pouquito de culpa, mas minha safadeza sempre superou tudo isso.
Na verdade, quando bebê, certa vez minha mãe me encontrou me lambuzando com minha própria merda. Ela contava a todo mundo essa história dando muitas risadas, que havia ido em busca de uma fralda e quando voltou lá estava eu, com um sorriso maroto de dentes defecados e bosta nas pequeninas mãos. Até que eu "virei gay" e ela parou de comentar sobre esse dia.
Ele desliga o chuveiro. Agora que se banhou nas águas do Rio Nilo deixou de ser viado. Haha! E me olha como se não cagasse, como se fosse um ser supremo em sua conduta misteriosa, e eu o ÓBVIO, o sincero demais, o emotivo demais, o que de tão evidente provoca desprezo.
Eu sei que eu não posso dormir aqui, que eu tenho que ir embora logo porque dormir juntos é coisas de viado (trepar não). Mas não trepamos - ele trepa sozinho. E se faz de educado oferecendo o dinheiro do táxi. Eu aceito. E me sinto a grande puta barata. Eu não mereço o cheiro dele, seus lençóis, o seu corpo nu adormecido, a sua distração de quando está sonhando. Eu mereço algumas lapadas de pica e o dinheiro do táxi. Uma vez ele me disse a mesma coisa que um amigo viado também falou.
- Dois homens não se amam... isso não existe. É muito estranho.
Passo pelo porteiro e eu sei que ele sabe, porteiros sabem da vida de todo mundo. Nesta noite, o taxista é o mesmo de ontem. E novamente ele pergunta se estou achando ruim aquela música do Reginaldo Rossi, e eu digo de novo que não, pode ouvir.
- O senhor é corno? - pergunto.
- Sim.
O taxista virou-se para o banco de trás e deu gaitadas. Depois mexeu no crucifixo sobre o espelho do carro e, olhando para mim através do espelho, disse:
- Sou corno sim e o senhor é viado.
Rimos.
- Eu sou corno e viado.
Ele diz que só come, não me deixa penetrá-lo. Mas diabos, em nenhum sentido ele me deixa penetrá-lo. Ele está sempre lá com suas poucas palavras, suas baforadas de cigarro, seu olhar que não diz (quer apenas descobrir), sua impaciência diante da minha tagarelice inoportuna e o seu cinto de grande fivela que coloca na calça com a força de homem matuto. Tenho sempre medo do cinto, de um dia ele ter raiva do meu cu e me machucar com o cinto, mas ele de uma forma ou de outra não já está me machucando?
Eu queria muito que ele me deixasse comer o cu dele. Nunca fui bicha passiva, sempre preferi comer a dar. É que às vezes, por paixão, a gente se vira - literalmente. E não lembro de ter tido nojo desse amor que mistura suor e merda. Talvez um pouquito de culpa, mas minha safadeza sempre superou tudo isso.
Na verdade, quando bebê, certa vez minha mãe me encontrou me lambuzando com minha própria merda. Ela contava a todo mundo essa história dando muitas risadas, que havia ido em busca de uma fralda e quando voltou lá estava eu, com um sorriso maroto de dentes defecados e bosta nas pequeninas mãos. Até que eu "virei gay" e ela parou de comentar sobre esse dia.
Ele desliga o chuveiro. Agora que se banhou nas águas do Rio Nilo deixou de ser viado. Haha! E me olha como se não cagasse, como se fosse um ser supremo em sua conduta misteriosa, e eu o ÓBVIO, o sincero demais, o emotivo demais, o que de tão evidente provoca desprezo.
Eu sei que eu não posso dormir aqui, que eu tenho que ir embora logo porque dormir juntos é coisas de viado (trepar não). Mas não trepamos - ele trepa sozinho. E se faz de educado oferecendo o dinheiro do táxi. Eu aceito. E me sinto a grande puta barata. Eu não mereço o cheiro dele, seus lençóis, o seu corpo nu adormecido, a sua distração de quando está sonhando. Eu mereço algumas lapadas de pica e o dinheiro do táxi. Uma vez ele me disse a mesma coisa que um amigo viado também falou.
- Dois homens não se amam... isso não existe. É muito estranho.
Passo pelo porteiro e eu sei que ele sabe, porteiros sabem da vida de todo mundo. Nesta noite, o taxista é o mesmo de ontem. E novamente ele pergunta se estou achando ruim aquela música do Reginaldo Rossi, e eu digo de novo que não, pode ouvir.
- O senhor é corno? - pergunto.
- Sim.
O taxista virou-se para o banco de trás e deu gaitadas. Depois mexeu no crucifixo sobre o espelho do carro e, olhando para mim através do espelho, disse:
- Sou corno sim e o senhor é viado.
Rimos.
- Eu sou corno e viado.
domingo, julho 25, 2010
Novos olhos
sábado, julho 24, 2010
Salvador, aqui vou eu! :D
Bom, durante muito tempo falei mal de Salvador, mas também pudera: fui pra lá uma vez só e com as pessoas erradas. Tirando algumas valiosas exceções, eram coleguinhas de faculdade que adoravam passeios como shoppings e boates frequentadas pelos descendentes de Antônio Carlos Magalhães. Ou seja, não rolou meeeesmo. Mas dessa vez eu vou pra essa terra de tanta malemolência junto com amigos para participar de nada mais nada menos que o SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CINEMA. E o homenageado da vez é o meu querido Pier Paolo Pasolini, autor de um dos meus filmes favoritos: Teorema.
Muitas palestras legais, muitos filmes interessantes pra ver. Uma verdadeira overdose de uma das minhas maiores paixões (como mainha disse, vai, minha filha, você gosta tanto desse negócio de cinema kkk). Fora a oportunidade de conhecer pessoas novas, lugares novos e reencontrar pessoas de lá.
Pois é. Eu li uma vez no meu livro do cachorrinho (um livrinho com fotos de cachorros e frases de Nietzsche e outros filósofos apropriadas em termos de auto-ajuda) que dizia assim: O segredo não está em ver novas paisagens, mas em ter novos olhos.
Mas é com novos olhos que estou indo agora atrás de novas paisagens... (ui)
Muitas palestras legais, muitos filmes interessantes pra ver. Uma verdadeira overdose de uma das minhas maiores paixões (como mainha disse, vai, minha filha, você gosta tanto desse negócio de cinema kkk). Fora a oportunidade de conhecer pessoas novas, lugares novos e reencontrar pessoas de lá.
Pois é. Eu li uma vez no meu livro do cachorrinho (um livrinho com fotos de cachorros e frases de Nietzsche e outros filósofos apropriadas em termos de auto-ajuda) que dizia assim: O segredo não está em ver novas paisagens, mas em ter novos olhos.
Mas é com novos olhos que estou indo agora atrás de novas paisagens... (ui)
A hora da estrela de cinema

Embora minha pele cáqui
Sem rosa ou verde, sem destaque
E minha condição mofina, jururu, panema
Embora, embora
Há uma certeza em mim, uma indecência:
Que toda fêmea é bela
Toda mulher tem sua hora
Tem sua hora da estrela
Sua hora da estrela de cinema
Capibaribe, Beberibe, Subaé, Francisco
Tudo é um risco só, e o mar é o mar
E eu quase, quase não existo e sei
Eu não sou cega
O mundo me navega e eu não sei navegar
Existe um homem que há nos homens
Um diamante em minhas fomes
Rosa claríssima na minha prosa sem poema
E fora, e fora de mim
De dentro afora uma ciência:
Que toda fêmea é bela
Toda mulher tem sua hora
Tem sua hora da estrela
Sua hora da estrela de cinema
Caetano Veloso
Imagem: Lola (1981), Rainer Werner Fassbinder
sexta-feira, julho 23, 2010
Caretas e risos

Minha querida A. enviou um recado no orkut muito fofo que apresenta uma concepção de amor bastante peculiar...
- Então, Charlie Brown, o que é o amor pra você?
- Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
- Mas o que isso tem a ver com o amor?
- Bom, acontece que todos os dias ele dava
carona para uma moça. Ele saía do carro,
abria a porta pra ela, quando ela entrava
ele fechava a porta, dava a volta pelo carro,
e quando ele ia abrir a porta pra entrar,
ela apertava a tranca. Ela fazia caretas e
os dois morriam de rir. Acho que isso é amor.
(Peanuts, 1999)
Um deus humano

Tenho comentando com os mais diversos amigos que ando sentindo falta de uma religião. Vontade se iludir? Necessidade de ter algo em que acreditar? Em que me apoiar? Quem sabe...
Mas o fato é que ontem eu me peguei proferindo as seguintes palavras: Só acreditaria num deus que fosse humano! Que sentisse o que eu sinto! Que soubesse a dor e a delícia de ter esta carne, este corpo, esta vida pulsante nas veias da alma! Não um deus que me olhasse de cima com piedade e superioridade...
Ué, mas quem é o deus que se fez homem? JESUS CRISTO! E ele teve o seu martírio, como todos nós, e foi incompreendido, e amado, e traído, e bebeu vinho, e trabalhou, e até amou uma pros-ti-tu-ta.
Esta é a minha alienação. Eu só poderia crer num deus que usasse sandálias...
E é como aquela musiquinha melosa que a Jean Osbourne canta: What if God was one of us? Assim como esta misteriosa mulher que olha para a câmera...
Imagem: Sans soleil (1983), Chris Marker.
quinta-feira, julho 22, 2010
Olinda revisited

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
Essa é uma famosa carta que meu queridíssimo poeta João Cabral de Melo Neto escreveu a outro gênio, Carlos Drummond de Andrade. Iniciar um post sobre Olinda com esse poema pode ser aparentemente sem sentido, mas o fato é que, quando saí fugida de Aracaju em direção ao carnaval de Pernambuco após intensos dias de trabalho era exatamente assim que eu me sentia. Não que eu trabalhasse num serviço burocrático em alguma repartição pública. Mas compartilhava desse desconsolo de Cabral diante de uma máquina que nunca escreve cartas, e parindo tantas palavras funcionárias, sem amor, enquanto lá fora o dia com seus cinemas, avenidas e outros não-fazeres. E quando eu entrei no ônibus pra Pernambuco eu só pensava: céus, terei dias da mais pura a-li-e-na-ção e verei Olinda inteira descer ladeira. Disseram-me que carnaval era coisa de gente alienada. Que importa? Era disso mesmo que eu precisava! E mandei meu serviço à merda. Brincadeirinha. Pedi folga.
Quando cheguei lá, Recife já era por mim conhecida. A grande novidade era Olinda. E tive a sorte de encontrar meninos muito legais amigos do meu amigo anfitrião que embarcaram comigo nesta aventura. CDU/Rio Doce - aqui vamos nós!
Assim que eu botei meus pés em Olinda, eu me encantei com aquele mar de gente. Era um povo feliz, embriagado, comportando-se igual criança, to-tal-men-te alienado. Finalmente eu havia chegado ao meu querido paraíso do álcool, do maracatu, do frevo, das ladeiras, das gentes que se esbarram umas nas outras, dos bonecos gigantes, enfim, de tudo que não era cobrança, disputa, bater ponto, pauta. Eu imaginava: o mundo podia ser só carnaval!
Então veio a quarta-feira de cinzas. Enquanto para muitos ela é ó, quarta-feira ingrata, para mim ela foi a oportunidade de ficar mais perto de OLINDA. Sabe como é? Antes eu só era uma anônima sendo levada aos trancos e barrancos pela multidão. Mal conseguia ver a arquitetura nostálgica da cidade. E se na quarta-feira de cinzas ainda havia a festa daqueles que não queriam deixar o carnaval acabar, existiam também ruas por onde a gente podia passear tranquilamente contemplando a cidade.
Foi neste dia que eu vi emocionada Alceu Valença surgir na sacada de uma casa em Olinda e cantar Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço e também Olinda, quero cantar a ti esta canção. No coro, parecia que eu estava junto com todos sentindo o mesmo encanto, a mesma vontade de que o mundo inteiro parasse e fosse só carnaval.
Após a boa surpresa do Alceu, resolvemos subir até o Alto da Sé. Aquela ladeira parecia não ter fim... Eu imaginava quantos bêbados já haviam rolado por ali... Eu estava pagando algum tipo de promessa... Até que, quando finalmente chegamos ao topo, eu compreendi. De lá de cima dava pra ver duas paixões: Recife e Olinda. E fiquei parada lá, olhando o contraste entre os grandes edifícios ao longe e o mar e as construções arcaicas de Olinda. Enquanto isso, um cantador veio, e cantou dessas canções que dizem algo sobre uma moça bonita, e moça bonita pra lá, moça bonita pra cá. Eu só fazia corar de rir. Um amigo lhe deu alguns trocados.
Não demorou muito para eu me despedir da cidade. Partiria naquela mesma noite, às 23h10. No ônibus, eu misturava as paisagens da janela com as paisagens de Olinda. Prometi que ela seria a musa de todos os meus carnavais. E já cantava em silêncio no escurinho do ônibus, na estrada fria, entre meus lençóis, aquele verso Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar...
E foi disso tudo que eu me lembrei ontem quando li este poema de João Cabral de Melo Neto, contido na obra A escola das facas...
Olinda Revisited
Poucas cidades ainda
(sem falar nas igrejas
e úteros matriarcais
e bacias maternas)
podem dar a quem passa
a intimidade aquela
de quem vive uma casa
como outra matriz terna,
habitando paredes,
chãos de tijolo, telhas,
rebocos que respiram
anchuras, estreitezas,
mais a porosidade
das quartinhas de terra
que à água dão o gosto
do barro que nos era.
De fora de uma casa
de uma cidade dessas,
o estranho-de-mais-longe
sente a morna franqueza
que expressa sua fachada
(mesmo quando se fecha).
Hoje-em-dia em Olinda,
e não só nas igrejas,
viver-se de alma e corpo,
se pode quem se veja:
se pode em qualquer casa
e contemplando-a apenas;
quem visita tal casa
não só passeia nela:
geralmente se casa
com ela, ou se amanceba.
PS: foto que encontrei numa comunidade do orkut, deste tal de João Andrade que a assina. Infelizmente não levei comigo máquina fotográfica. Alto da Sé :)
quarta-feira, julho 21, 2010
Crepúsculo
De repente a luz crepuscular invade a sala e me toca o corpo. Aceno com os olhos para a janela e vejo que a luz do sol é refletida pelas janelas do condomínio em frente, o Jardim América. Não sei porque, mas o tortuoso fio da memória me leva da luz crepuscular que adentra a varanda e impregna o apartamento com cores encarnadas, para algum canto da lembrança onde meu querido e falecido avô está na varanda da casa de minha infância. Vovô tinha essa mania de se sentar na varanda aos fins de tarde, e no justo momento em que os carros passavam pra lá e pra cá tão atrasados, tão apressados, lá se encontrava vovô, de acordo com o tempo, confortável com o passar das horas, contemplando o horizonte como se não houvesse aquela confusão toda no mundo. O que interessava a ele era o crepúsculo e não a "vida útil".
Essa luz... É como se meu avô tivesse vindo me visitar. Mas veio, nem que seja na lembrança. Saudades imensas!
Essa luz... É como se meu avô tivesse vindo me visitar. Mas veio, nem que seja na lembrança. Saudades imensas!
terça-feira, julho 20, 2010
Não! Só quero a liberdade!
Eu ainda vou tatuar alguma frase desse cara...
Não! Só quero a liberdade!
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjetivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos
Poema lido nesta madrugada. Finalmente pus as mãos neste livro que reúne poemas de Álvaro de Campos... Havia colocado na mochila de um querido amigo e esquecido de pegar de volta. Dia desses ele me entregou enrolado em papel de presente, como se tivesse comprado para mim, o desgraçado! kkkkkk
Não! Só quero a liberdade!
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjetivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos
Poema lido nesta madrugada. Finalmente pus as mãos neste livro que reúne poemas de Álvaro de Campos... Havia colocado na mochila de um querido amigo e esquecido de pegar de volta. Dia desses ele me entregou enrolado em papel de presente, como se tivesse comprado para mim, o desgraçado! kkkkkk
O tempo
Hoje meu caro T.P. me mostrou um video em que Raul Cortez, que interpreta o personagem do pai na adaptação de Luis Fernando Carvalho, recita uma passagem de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, que fala sobre o tempo. Este livro é simplesmente fantástico e essa parte então...
O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; (...)
rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;(...)
pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas (...)
O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; (...)
rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;(...)
pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas (...)
Cafuné
Desde quando pequenina
a minha mãe botava a mão na minha cabeça
e enrolava os dedos nos meus cabelos
e enrolava, enrolava, enrolava
Então depois coçava, coçava, coçava
Hoje já grandinha
eu ainda quero o cafuné
e faço cafuné
Porque "happiness is a warm gun"
e com o cafuné
eu caçôo da solidão
eu caçôo do que é triste
eu caçôo do medo
eu caçôo de tudo que não é meninice
eu caçôo até da poesia difícil
e da vida difícil também
Há tanto afeto num cafuné
e um carinho desmedido
que a gente se rende a um gostoso mimo
dessas aventuras de um reconfortante cochilo
dessa poesia de deixar de ser grande e atenta
e se tornar pequena e sonolenta
Vem cá, chega mais
eu vou te fazer um cafuné
porque happiness is a warm gun... yes it is...
a minha mãe botava a mão na minha cabeça
e enrolava os dedos nos meus cabelos
e enrolava, enrolava, enrolava
Então depois coçava, coçava, coçava
Hoje já grandinha
eu ainda quero o cafuné
e faço cafuné
Porque "happiness is a warm gun"
e com o cafuné
eu caçôo da solidão
eu caçôo do que é triste
eu caçôo do medo
eu caçôo de tudo que não é meninice
eu caçôo até da poesia difícil
e da vida difícil também
Há tanto afeto num cafuné
e um carinho desmedido
que a gente se rende a um gostoso mimo
dessas aventuras de um reconfortante cochilo
dessa poesia de deixar de ser grande e atenta
e se tornar pequena e sonolenta
Vem cá, chega mais
eu vou te fazer um cafuné
porque happiness is a warm gun... yes it is...
sábado, julho 17, 2010
Simultaneidade
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
Mario Quintana
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
Mario Quintana
O mar não é de todos

Era um dia nublado e mesmo assim eu havia ido à praia com um queridíssimo amigo. Interessante que quase sempre que marcávamos de ir à praia, o céu se fechava contra nós. Mas mesmo assim nós seguiamos em frente. A praia com o céu nublado tinha um jeito diferente. Nada como conversar com pés aconchegados na areia macia, banhar-se na água gélida que estremece e desordena o corpo, abraçar-se na toalha para proteger-se do vento frio, e ao mesmo tempo senti-lo com ainda maior intensidade.
Até que o céu finalmente se torna crepuscular. Colocamos nossas sandálias e andamos em direção ao terminal. Somos daqueles banhistas proletários. Metemo-nos no ônibus repleto de suor, de hálitos de álcool e de batucada. Ao chegarmos na entrada do terminal, um mendigo se aproxima de mim.
- Moça, me dá um trocado pelo amor de deus!
Paro. Olho para ele por alguns segundos.
- Não tenho nada, moço. Tô quebrada.
- Pelo amor de deus!
- É sério, moço. Não devia nem ter vindo hoje... Gastar grana que nem tenho... Agora só tenho o dinheiro da passagem.
- Que vida ruim. Eu não tenho nada. Eu não posso me divertir.
Fiquei surpresa. Nunca esperava ouvir isso de um mendigo. Sempre esperei por "uns trocados, por favor". Não que eu achasse que mendigos não tinham alma. É que acreditava que eles sempre seriam um personagem mecanicamente interpretado quando pedem esmolas, como aqueles que eu costumava ver por aí. Mas aquela era uma grande revelação, o seu desabafo. E eu, que estava tão contente naquele dia, disse...
- O senhor tem o mar. O mar é de todos. Tome um banho de mar. O mar é a coisa mais linda que fizeram no mundo.
O mendigo sorriu entre os dentes que lhe faltavam e no meio de uma dor imensa cravada no seu rosto. O sorriso que, consumado no mais puro desespero, chegava a doer ao sair.
Eu queria terminar esta história contando que o mendigo foi correndo em direção ao mar. E que ele se banhou nas águas purificadoras do mar, num sublime momento de catarse. Mas não. Ele apenas me disse "vá com Deus", e seguiu com seu passo arrastado, a mão erguida com insistência lânguida, e a mesma e repetida fala, a mesma e repetida voz.
sexta-feira, julho 16, 2010
Pessoas comuns
- Você me odeia? Tudo o que a gente passou foi horrível assim?
- Não. Houve momentos bons. Não te odeio. Você é apenas um homem comum. Eu, uma mulher comum.
- Não. Houve momentos bons. Não te odeio. Você é apenas um homem comum. Eu, uma mulher comum.
Le mépris

Le mépris ou O desprezo (1963) é um dos filmes de Jean-Luc Godard que mais gosto. E esta obra-prima apresenta uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema. Trata-se daquele momento esplendoroso em que a belíssima Brigitte Bardot está nua deitada na cama. Ela interpreta Camille Javal, esposa de Paul Javal, um roteirista de cinema. Mas a história desse filme não me interessa agora, e sim esta cena em particular. Nunca vi o corpo feminino representado com tamanha delicadeza pelos olhos de uma câmera. Pois se como afirma Laura Mulvey em seu célebre ensaio Prazer visual e cinema narrativo, o cinema costantemente representa o corpo feminino como objeto subjugado ao olho do poder masculino, neste filme o corpo da mulher deixa de ser objeto para se tornar uma verdadeira obra de arte a ser contemplada. Os travellings flutuam sobre o corpo de Brigitte Bardot, a música é como uma adoração a ela, a variação de cores nos atenta para uma certa impermeabilidade e inconstância da relação dos dois. O diálogo entre eles é simplesmente inesquecível. Ela então pergunta...
- Você vê meus pés no espelho?
- Sim.
- Acha que são bonitos?
- Sim, muito.
- E das minhas pernas, você gosta?
-Sim.
- E você gosta dos meus joelhos também?
- Sim. Realmente gosto muito dos seus joelhos.
- E minhas coxas?
- Também.
- Me vê pelas costas no espelho?
- Sim.
- Acha que minha bunda é bonita?
- Sim, muito.
- Quer que me ajoelhe?
- Não é necessário.
- E dos meus seios, você gosta?
- Sim, muitíssimo.
- Suavemente, Paul, não assim tão brusco.
- O que você prefere, meus seios ou meus mamilos?
- Não sei. Gosto igual.
- Gosta dos meus ombros?
- Sim.
- Acho que poderiam ser mais arredondados. E meus braços?
- Sim.
- E meu rosto?
- Também.
- Todo ele?
- Minha boca, meus olhos, meu nariz, minhas orelhas?
- Sim, tudo.
- Então me ama totalmente.
- Sim.
- Te amo totalmente, ternamente e tragicamente.
- Eu também, Paul.
quinta-feira, julho 15, 2010
A mulher de verdade
Hoje, enquanto estava preparando meu almoço (macarronada feita com molho parmegiana, sardinha, ervilha e queijo), coloquei a banda Cachorro Grande pra tocar. É de lei. Só cozinho ouvindo música pra começar bem o dia. Cachorro Grande, a mesma banda que certa vez eu fui a um show, tombei no chão e fui pisoteada por alguns segundos kkkkk. Aí o meu irmão chama a atenção para a letra da música.
- Olha só, Tati, mulher de verdade é essa aqui: E quando pensa em aprontar, ela vai e apronta antes.
Achei engraçado meu irmão dizendo isso. E prestei mais atenção na letra. Letra engraçada, como todas de Cachorro Grande.
Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove
Fina flor te disse, você é um amor
E disse algo que me entedia
E era isso que eu sentia
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes
E eu realmente não creio
Que de fina flor
O cangalho esteja cheio
E me disse esquisitices
E que também vai se guardar
Para quando o carnaval chegar
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes
Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove
- Olha só, Tati, mulher de verdade é essa aqui: E quando pensa em aprontar, ela vai e apronta antes.
Achei engraçado meu irmão dizendo isso. E prestei mais atenção na letra. Letra engraçada, como todas de Cachorro Grande.
Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove
Fina flor te disse, você é um amor
E disse algo que me entedia
E era isso que eu sentia
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes
E eu realmente não creio
Que de fina flor
O cangalho esteja cheio
E me disse esquisitices
E que também vai se guardar
Para quando o carnaval chegar
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes
Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove
Espetáculo em torno da barbárie ou Por um jornalismo atrasado

Certa vez uma queridíssima amiga jornalista me contou que um colega seu todos os dias ia fazer a ronda e, "quando não encontrava nenhum presunto", voltava triste pra redação. A ronda é o jargão jornalístico que significa sair passeando pelo IML, Delegacia Plantonista, etc, em busca de cadáveres donos de histórias horrorizantes. Quanto mais bizarro o crime, melhor. Quanto mais requintes de crueldade, melhor. Rende uma manchete bombástica.
Mas o que eu quero aqui é chamar a atenção para o lado do jornalista, um trabalhador como qualquer outro. Inclusive muitas vezes mal pago, explorado pelo patrão. Esse jornalista certamente não deve gostar de viver num mundo repleto de violência. Mas nem por isso ele deixa de vibrar com uma boa manchete. Esse é o seu trabalho sujo. E é aquela coisa. Se ele não fizer, outros farão. Há uma fila de jornalistas desempregados logo ali na porta.
Nessas horas eu me pergunto por que diabos tanto interesse em torno da desgraça humana. Temos medo e queremos saber sobre a violência que nos ronda? Isso nos deixa mais seguros? Ou temos um prazer sádico diante do grotesco?
Quando eu estava trabalhando como repórter, eu sempre me perguntava em que porra eu estava contribuindo para um mundo melhor escrevendo que fulano deu mais de 60 facadas numa mulher. Ou até que ponto eu estava fazendo um desserviço.
Vi em certa entrevista coletiva cinegrafistas de uma TV local filmando bandidos acocorados de costas para a parede. Observei policiais humilhando criminosos. Jornalistas chamando-os de filhos da puta. E, por mais que eu não quisesse me bater com um bandido daqueles, eu não achava bonita a cena. Em verdade considerava totalmente desnecessária.
Mas aí estão todos correndo pra dar sua manchete. Tem que mostrar serviço. E mostrar serviço é dar o furo jornalístico, a informação quentinha, oferecer a desgraça maior. Com riqueza de detalhes. Em tempo real.
Por isso nessas horas eu defendo o jornalismo atrasado. Sim, isso mesmo. Não o jornalismo que informa minuto a minuto sobre as bombas no Oriente Médio e os números de mortos. E sim o jornalismo que apresenta informações aprofundadas e uma análise consistente, por exemplo, da ameaça dos Estados Unidos ao Irã. Não matérias de última hora sobre os desabrigados da chuva, como se a chuva fosse uma catástrofe natural, e as vidas de gente pobre colocadas em risco não fosse uma problemática social.
Reportagens mais consistentes são produzidas sim, inclusive na imprensa sergipana, mesmo que raramente. Às vezes nos espaços mais sujos de sangue. Mas eu, que gosto do jornalismo atrasado, não estou a fim de saber quantos corpos foram registrados no IML hoje. Essa informação pura e simples não contribui EM NADA para a minha formação humana.
quarta-feira, julho 14, 2010
Cegueira partidária

Observando o comportamento de muita gente, eu percebo que grande parte das pessoas que entram para um partido político sofre do que eu chamaria de "cegueira partidária". Defendem com unhas e dentes o seu candidato. Não suportam ver um jornalista falando mal do governo. Se uma matéria critica Fulano de Tal é manipuladora, está querendo eleger o outro da oposição. Se eu falo mal da esquerda, eu sou da direita. Perdi meu direito de criticar.
Nunca fui cega por essas coisas. Aliás, eu sou uma pessoa extremamante crítica. Comigo mesma inclusive. Por isso é que não vou colocar bandeira na minha janela, não vou pintar minha cara, não vou enfeitar meu orkut, meu twitter, meu msn, sei lá o que mais, com o número de um candidato. Jamás.
Eu já trabalhei num lugar, no tempo em que o DEM era PFL e mandava aqui em Sergipe, que queria me obrigar a participar de carreatas de campanha do candidato do PFL. Pediram até para eu ser fiscal do PFL no dia da eleição. Eu recusei TODAS as vezes que exigiram que eu fizesse isso ou aquilo pelo partido. E sabia que se eles ganhassem eu nunca teria as regalias que aqueles que o fizeram teriam. E até entendo quem se submete a essas coisas em tempos como esse, quando é tão difícil ter seu ganha pão.
No fim das contas eles perderam. Agora o governo aqui é PT. E por mais que odeie a direita, e especialmente o DEM, eu não morro de amores pelo PT. Eu critico sim senhor o governo do meu estado. E não vou de jeito nenhum fazer presepada defendendo o partido.
Não gosto da política feita como se fosse Copa do Mundo. Não gosto de falar de política do mesmo jeito que se fala de futebol. Política é coisa séria. Política trata da coletividade, lida com a vida, com a miséria, com o futuro de muita gente. Por isso deve ser discutida com seriedade e crítica, e não como se fosse Argentina X Brasil na Copa.
terça-feira, julho 13, 2010
Morangos mofados
Desta vez a minha querida madrugada de insônia não é regada a filmes. Nestas horas solitárias ao som dos grilos e com a janela da varanda fechada, pois o tempo é frio (frio como às vezes a vida pode ser), eu estou cá com Caio Fernando Abreu e seu Morangos mofados. Acho que vou até de manhã com o Caio. Como demorei tanto para lê-lo,meu deus? Há tanto tempo Morangos mofados estava aqui neste computador esperando para ser lido. Aí o Caio me diz para ler ouvindo Erik Satie. Coloco pra tocar. É lindo demais sentir o que estou sentindo agora. Um escritor visceral. Eu gosto disso. Muito. Olha só o trecho que estava lendo agora...
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai- ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos. Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades,feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai- ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos. Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades,feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.
Une femme est une femme
Eu podia amar essa mulher. Sim, tenho certeza disso. A sua beleza, desenvoltura, o seu sorriso de quem está de braços abertos pra me receber. Eu podia amar essa mulher. Estranho, achava que para mim só era possível amar um homem. Mas não. Eu a admiro não de uma forma fraterna, amigável, mas admiro com desejo e afeição. Porque ela parece estar explodindo o tempo inteiro diante dos meus olhos. Ela sai detrás das cortinas vermelhas e me mostra um mundo espetacular. Por ela eu nunca sentiria esse sentimento mesquinho que algumas mulheres sentem umas pelas outras. Mas adorava justamente o que fazia dela uma mulher, uma mulher como eu. Que podia chorar convulsivamente e dizer que queria morrer, mas não muito tempo depois já estava dando um riso debochado para a vida, e lutando pela vida, e dizendo na cara da vida que a ama assim cretina e ordinária do jeito que ela é. Eu podia amar essa mulher. Por que ela é assim? Por que diabos ela não ama ninguém e mesmo assim escreve e canta canções de amor? Eu podia amar essa mulher. Sim, e eu lembro dela quando escuto aquela música da Billie Holiday.
Me, myself and I
Are all in love with you
We all think you're wonderful
We do
Me, myself and I
Are all in love with you
We all think you're wonderful
We do
Bom dia, dia!
Veja só que dia feio. Quanta chuva. Mas faz um frio gostoso.
Bem, amiguinhos, é hora de ir à luta. Chega de viagens, adeus farras homéricas. Agora só tenho olhos pra Deleuze, Certeau, Jameson, Stuart Hall, Jacques Aumont, Nelson Brissac Peixoto, etc etc. E já estava com saudade deles.
Na expectativa pelo dia de estudo de Matéria e memória, de Bergson, com minha querida amiga...
Bem, amiguinhos, é hora de ir à luta. Chega de viagens, adeus farras homéricas. Agora só tenho olhos pra Deleuze, Certeau, Jameson, Stuart Hall, Jacques Aumont, Nelson Brissac Peixoto, etc etc. E já estava com saudade deles.
Na expectativa pelo dia de estudo de Matéria e memória, de Bergson, com minha querida amiga...
segunda-feira, julho 12, 2010
Num dia parti
Num dia parti sentindo saudade
No outro, náusea
Num dia a estrada parecia me levar para esquecer o inesquecível
No outro os quilômetros de distância me confortavam
Mas um dia eu ainda volto
Porque eu não amo o homem, e sim a cidade.
No outro, náusea
Num dia a estrada parecia me levar para esquecer o inesquecível
No outro os quilômetros de distância me confortavam
Mas um dia eu ainda volto
Porque eu não amo o homem, e sim a cidade.
Olhos de ressaca
O célebre personagem Bentinho em Dom Casmurro em certo momento afirma que Capitu tinha "olhos de ressaca". Bentinho nunca conseguiu entender Capitu. Lembrei-me hoje que meus olhos de ressaca já deram muito o que falar. Olhos disso, olhos daquilo... Será que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, meu olhar está nos olhos de quem vê? Será que meu olhar muda de acordo com contextos específicos? A definição mais peculiar de todas foi essa aqui...
- Tati, você está sempre com o olhar de quem acabou de gozar.
- Tati, você está sempre com o olhar de quem acabou de gozar.
terça-feira, julho 06, 2010
Ausência

Todo autor tem suas manias. E o cineasta japonês Yasujiro Ozu não poderia deixar de também ter as suas. É por isso que vi finais semelhantes em Viagem à Tóquio e Primavera tardia. O mesmo ator interpretando personagens diferentes e vivendo situações semelhantes: a velhice, a perda de sua única companhia, a experiência da solidão. Essa solidão Ozu nos transmite através da passagem de tempo no cinema. Em Viagem à Tóquio, com um personagem que contempla o horizonte após o falecimento da esposa, e em Primavera Tardia através de um senhor descascando uma maçã apresentando o semblante desértico depois da partida da filha que havia se casado. Porque o tempo, quando estamos sós, passa de um jeito diferente. E talvez Ozu esteja tentando nos fazer sentir sozinhos quando assistimos a um filme dele...
Amém
Durante muitos anos eu fui católica, muito católica. De rezar o terço todo dia, de ir à procissão, de passar a semana santa orando. Hoje em dia não me reconheço mais em nada disso. Mas estava pensando nesta madrugada, logo que terminei de assistir a Primavera Tardia (1949), do Yasujiro Ozu, (um desses filmes que me provoca uma sensibilidade tão sublime), que tantas orações que repeti com devoção fervorosa nada me dizem atualmente.
Lembrei da Ave Maria... algumas passagens me incomodam... "rogai por nós pecadores"... não gosto do dilema da culpa cristã, mesmo vivendo-o tantas e tantas vezes ainda hoje. E o Pai Nosso? "Não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal"... Também não aprecio referências a um mal externo...
Não obstante, recordei-me de uma oração em particular que até os dias atuais me emociona! A oração anônima atribuída a São Francisco de Assis, que sempre foi o meu santo predileto! Como é bela...
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!
Lembrei da Ave Maria... algumas passagens me incomodam... "rogai por nós pecadores"... não gosto do dilema da culpa cristã, mesmo vivendo-o tantas e tantas vezes ainda hoje. E o Pai Nosso? "Não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal"... Também não aprecio referências a um mal externo...
Não obstante, recordei-me de uma oração em particular que até os dias atuais me emociona! A oração anônima atribuída a São Francisco de Assis, que sempre foi o meu santo predileto! Como é bela...
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!
segunda-feira, julho 05, 2010
Impacto fulminante (1983), Clint Eastwood

Esta madrugada está daquelas de vento frio, vento que faz zoadinhas sombrias na varanda. É mais uma madrugada em que permaneço acordada com insônia e a solução... Mooooovies!!! :D:D:D Aí hoje eu vi um filme do Clint Eastwood, Impacto fulminante, no canal TCM.
Quando olhei a sinopse da Sky e soube que se tratava de um filme sobre uma garota, Jennifer Spencer, que sai por aí matando um por um os homens que estupraram ela e sua irmã há 10 anos atrás, eu pensei logo: ADORO filme de vingança! E me lembrei de um dos meus filmes prediletos, Kill Bill 1 e 2, do genial Quentin Tarantino.
Certamente Tarantino bebeu da fonte desse filme pra realizar o Kill Bill. Há muito dos trejeitos de Jennifer Spencer em Beatrix Kiddo, protagonista do Kill Bill. Só que o filme de Eastwood não tem a maestria do Tarantino na condução da narrativa e apresenta flashbacks extremamente toscos e personagens malvados risíveis. Quando o Tarantino vai fazer um flashback tosco, ele brinca com isso e dialoga com linguagens como a dos quadrinhos. E seus personagens perversos são risíveis não por serem patéticos, e sim porque são muito sarcásticos.
Mas tanto Tarantino quanto Clint Eastwood se inspiraram e muito no mestre do faroeste, o John Ford. E o tira Hanry, de Impacto Fulminante, tem uma postura e uma visão de mundo de justiceiro do Velho Oeste, algo que lembra o querido ator de John Ford, o John Wayne. Ele não é um tira como qualquer outro, ele é um policial marginal. Mas ao contrário dos protagonistas de O homem que matou o facínora (1962), de John Ford, que buscam estabelecer os valores da Lei e a afirmação do poder do Estado na selva do Oeste, o tira Hanry costuma passar por cima das regras da sua profissão, agindo como justiceiro, e é um inconformado com a impunidade da Justiça. Esse sistema para Hanry é falido. Por isso ele é marginalizado entre os colegas de profissão. E perseguido pelos criminosos impunes.
Só que Hanry acaba sendo incubido de investigar o caso que envolve o assassinato de vários homens que receberam tiros nas bolas. A assassina? Ela, Jennifer Spencer. Aí está uma boa sacada de roteiro cinematográfico: tanto Hanry quanto Jennifer são revoltados com a impunidade e gostam de fazer justiça com as próprias mãos, mas estão em lados contrários da mesa.
Não obstante, eu fiquei com uma dúvida. Por que diabos uma mulher bissexual com jeito masculinizado foi a responsável por levar Jennifer e a irmã para serem estupradas por vários marmanjos num parque de diversões? Seria essa mulher a encarnação de uma fantasia do imaginário machista? Fica a pergunta.
Necessária solidão
Às vezes parece que ninguém entende. Sou constantemente criticada por ser uma pessoa afeita à solidão. Chamam isso de mania de instrospecção, medo de gente, esnobismo, egoísmo até.
Quantas e quantas vezes acharam que eu estava triste, quando em verdade só queria ficar no meu canto. Afinal, apesar de gostar muito da companhia de pessoas bacanas, eu também adoro estar só comigo. Porque sozinha eu sinto o mundo de um outro jeito e preciso deixar meus pensamentos irem longelongelonge...
É por isso que amo tanto este poema do Drummond...
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Quantas e quantas vezes acharam que eu estava triste, quando em verdade só queria ficar no meu canto. Afinal, apesar de gostar muito da companhia de pessoas bacanas, eu também adoro estar só comigo. Porque sozinha eu sinto o mundo de um outro jeito e preciso deixar meus pensamentos irem longelongelonge...
É por isso que amo tanto este poema do Drummond...
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
domingo, julho 04, 2010
Pulp Fiction!

Perdoem-me os politicamente corretos, mas o meu humor negro desgraçado me faz vibrar quando assisto a Pulp fiction (1994), do Tarantino, um dos meus diretores favoritos, e vejo o Jules Winnfield, interpretado por Samuel L. Jackson, recitar o seguinte salmo antes de dar fim a alguém:
Ezequiel 25:17
"O caminho do homem justo esta bloqueado por todos os lados pelas iniquïdades dos egoístas e a tirania dos perversos. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, é pastor dos humildes pelo vale das sombras. Pois ele é o verdadeiro guardião de seus irmãos e salvador dos filhos perdidos. Exercerei sobre eles vingança terrível, furiosos castigos, aos que tentarem destruir meus irmãos. E ficarão sabendo que eu sou o Senhor quando eu executar sobre eles a minha vingança."
Desassossego
Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a
minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade
repugna; ou a ação, para que não nasci ou o sonho, para
que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum;
mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo
uma coisa com outra.
Fernando Pessoa em Livro do Desassossego.
minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade
repugna; ou a ação, para que não nasci ou o sonho, para
que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum;
mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo
uma coisa com outra.
Fernando Pessoa em Livro do Desassossego.
Domingo
Tomar um café. Acender um cigarro. Ter aqueles pensamentos que a gente só tem quando está sozinha. Um domingo de vento gostoso que afaga a alma.
Hoje estive pensando no quanto a minha alma está quieta. E inquieta também. Mais quieta do que em outros tempos. Nessas horas eu só queria uma rede pra me balançar.
Andei refletindo sobre algumas atitudes que tomei. E eu nunca as entendi. Parece que eu estava fungindo de alguma coisa. Às vezes acho que sou uma eterna fugitiva.
Uma fugitiva que espera, espera, espera na sala de embarque. E que no desembarque sai às pressas toda atrapalhada com as malas nas mãos. Que não vê a hora de chegar em casa. E quando chega em casa se consola com as paredes de casa. Mas me inquieto de novo com as paredes de casa.
Agora, temporariamente, sinto-me bem com esta varanda, este vento, esta tarde de domingo...
Hoje estive pensando no quanto a minha alma está quieta. E inquieta também. Mais quieta do que em outros tempos. Nessas horas eu só queria uma rede pra me balançar.
Andei refletindo sobre algumas atitudes que tomei. E eu nunca as entendi. Parece que eu estava fungindo de alguma coisa. Às vezes acho que sou uma eterna fugitiva.
Uma fugitiva que espera, espera, espera na sala de embarque. E que no desembarque sai às pressas toda atrapalhada com as malas nas mãos. Que não vê a hora de chegar em casa. E quando chega em casa se consola com as paredes de casa. Mas me inquieto de novo com as paredes de casa.
Agora, temporariamente, sinto-me bem com esta varanda, este vento, esta tarde de domingo...
quinta-feira, julho 01, 2010
Amor na tarde (1957), Billy Wilder

Aproveitei a perseguidora insônia para assistir nesta madrugada a Love in the afternoon , exibido no canal TCM. E tenho a impressão de que a protagonista Ariane está mais para Norma Desmond em Crepúsculo dos deuses (1950) do que para Phyllis Dietrichson em Pacto de sangue (1944), outros filmes de Wilder.
Explico. Em Crepúsculo dos deuses, Norma Desmond é uma atriz decadente de Hollywood que, no entanto, não deixou de viver a fantasia das estrelas do cinema. É uma mulher capturada pelo sonho da sétima arte. Já em Pacto de sangue, Phyllis é uma típica femme fatale: ela usa o amante, agente de seguros, para dar um golpe no marido.
Apesar de representar o papel de típica femme fatale para o Sr. Frank Flannagan , um milionário boa-vida que gasta seu tempo viajando por aí e tendo relações efêmeras com muitas mulheres, Ariane não passa de uma garota ingênua. E ela usa casaco de femme fatale, imita tais personagens do cinema noir no modo de falar, na postura, nos gestos, mente sobre casos e mais casos que teria tido com homens, tudo para ludibriar e conquistar o mulherengo rico.
Todas as histórias que ela narra são de casos investigados pelo seu pai, Sr. Chavasse, que é detetive em Paris. Temos a figura do detetive enquanto narrador, tão presente no cinema noir. Alguns podem classificar esse filme como comédia romântica, mas acredito que é uma visão equivocada da obra. Trata-se, em minha opinião, de um filme que revela tamanha maturidade de Billy Wilder na incursão pelo cinema noir, que ele chega a reverter os papéis típicos desse gênero cinematográfico.
Afinal, temos uma falsa femme fatale. Se a femme fatale é geralmente a mulher que engana os homens para mais tarde se revelar adúltera, interesseira, promíscua, Ariane faz o milionário crer que ela é tudo isso, para depois Flannagan descobrir que ela era apenas uma jovem sonhadora que toca violoncelo.
É por isso que acho que o filme de Wilder é sobre as espectadoras do cinema noir, aquelas "mulheres comuns" que viviam numa sociedade machista e encontravam na figura da femme fatale uma espécie de libertação. É como se Ariane fosse o equivalente cinematográfico de uma Madame Bovary, de Flaubert. E ela se encantou por essa personagem da mulher que desafia as convenções sociais perscrutando nada mais nada menos do que o arquivo do seu pai. Mas não seria o seu verdadeiro pai o próprio Billy Wilder?
quarta-feira, junho 30, 2010
Mãe

Um dos filmes mais belos que já vi é Vida (1993), de Artavazd Pelechian. O curta dura apenas seis minutos, e foram seis minutos que me fizeram chorar todas as vezes que vi esse curta-metragem. É um belíssimo documentário que representa um parto. Ao vê-lo lembrei da ligação muito forte que tenho com minha mãe, e esse filme me faz atentar para o fato de esse vínculo existir desde a simbiose da gravidez. Fui sua primeira filha e imagino o quão belo deve ter sido para ela a experiência, dolorosa inclusive, de dar à luz. Ela fantasiou sobre como seria sua filha, e agora sou eu quem devaneia sobre como foi para ela ter se tornado mãe. E eu, mesmo não pensando em ser mãe, não deixo de ver tamanha beleza, posto que o seu amor é o lugar mais aconchegante do mundo. São emoções que um diretor como Pelechian proporcionam. É de emocionar mesmo.
terça-feira, junho 29, 2010
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero

Eu me identifico com diversos lugares por onde passo. Dia desse estava olhando as fotos da praia do Francês e sentindo tanta saudade, tanta vontade de ir lá de novo. É como se eu fosse da mesma essência desses lugares, mesmo que de matéria distinta. Como é bom viajar! E sempre peço para ficar na poltrona de número ímpar, que é do lado da janela.
Lembro-me de que quando eu era pequena sentia enjôos ao observar as paisagens, e isso me chateava muito. É que eu queria tanto ver o mundo por aí... Levava comigo o limão para cheirá-lo, que segundo minha avó faria minha náusea passar. Concentrava-me em não olhar através da janela do carro. Mas ainda bem que esses enjôos passaram e hoje posso contemplar as paisagens à vontade.
Por isso que digo: só preciso de uma casa simples, não importa onde estou, importa sim aonde vou. Pois não sou de lugar algum. E me identifico muito com Passagem das horas, poema do heterônimo Álvaro de Campos... Alguns trechos...
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
(...)
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
segunda-feira, junho 28, 2010
Viagem à Tóquio (1953), Yasujiro Ozu

Não faz muito tempo desde que eu comecei a achar a velhice uma bela fase da vida. Tempo de contemplar, de rememorar... Mas é claro que é também um período delicado, de lidar com a espera da morte, a solidão, as mudanças muito grandes no mundo à sua volta, além de uma certa condição de "inutilidade" ou até mesmo "fardo" para outras pessoas. E é sobre tudo isso o filme Viagem à Tóquio, do diretor japonês Yasujiro Ozu.
Filmes como Morangos silvestres (1957), de Ingmar Bergman, e Umberto D.(1952), de Luchino Visconti, abordam também o universo da velhice, só que eles se detém sobre a solidão de um personagem, enquanto o filme de Ozu é sobre a solidão de um casal de idosos. No filme de Ozu acompanhamos um casal que parte de uma cidade localizada próxima à Hiroshima e seguem à Tóquio para ver seus filhos.
Lá eles encontram filhos envolvidos em tantos afazeres, e terminam se sentindo como se fossem um incômodo. Eles ficam admirados com a grandiosidade e a vida atribulada em Tóquio. A viagem de um lugar tranquilo até uma capital é também uma viagem que eles fazem ao mundo conturbado que choca com a percepção deles. Só que o diretor está atento à visão de mundo do casal e a ação prossegue a passos lentos, com cenas que privilegiam uma temporalidade letárgica.
Esse universo de progresso que eles encontram na cidade de Tóquio nem por isso conseguiu apagar as marcas da Segunda Guerra Mundial, que findou oito anos antes do período da diegese do filme. Não é à toa que o casal de velhos residia próximo à Hiroshima, uma das cidades destruídas pela bomba atômica. E Noriko, viúva de Seiji, filho do casal de anciãos, é uma mulher que perdeu o amor de sua vida para a guerra.
E a relação do casal é muito mais afetuosa com Noriko do que com os filhos. Não por acaso, afinal, Noriko é uma mulher que, após ter perdido o marido, contempla a vida como se já fosse também uma idosa. Sua vida passou a ser, como a de uma anciã, feita de memórias.
Mas o casal de velhinhos é também separado pela morte. É emocionante a cena em que o velhinho observa o nascer do sol enquanto seus filhos choram a morte da sua esposa - como se ele acreditasse na eternidade da alma da amada. Alguns dias depois, uma mulher na janela pergunta a ele como está, e ele diz que agora que sua mulher havia morrido o tempo passava mais devagar. Assim como o tempo da viúva Noriko, a quem o velhinho havia dado o relógio de sua falecida esposa.
domingo, junho 27, 2010
O amor que fere
Hoje uma pessoa que eu havia acusado de não me amar me surpreendeu. Um certo dia eu estava sem paciência e lhe disparei uma série de mágoas. Disse que durante toda a minha vida tentei agradá-la, mas tudo em vão. O que sempre recebi foram críticas muito negativas, até mesmo nos momentos de vitória. Falta de carinho, rigidez e a reprovação constante do que faço e do que sou.
Eu jurava que essa pessoa nunca mais ia querer ver minha cara. Que ia falecer sem me dizer uma palavra. Mas, para minha surpresa, ela me enviou um presente no meu aniversário e me pediu desculpas ao telefone. Ela susurrou "desculpe" como se fosse um segredo entre nós. E naquele momento eu a perdoei. Eu também havia cometido erros, pasmen.
Hoje ela me recebeu com muito carinho e um sorriso afetuoso. Perguntou se eu precisava de alguma coisa, ofereceu-me comida. Disse que eu devia me sentir à vontade. E, estranhamente, eu percebi que algumas pessoas têm um jeito esquisito de amar a gente. E o que nos resta é o rancor eterno ou quem sabe apenas aceitar esse amor. Seja lá como ele for.
Eu jurava que essa pessoa nunca mais ia querer ver minha cara. Que ia falecer sem me dizer uma palavra. Mas, para minha surpresa, ela me enviou um presente no meu aniversário e me pediu desculpas ao telefone. Ela susurrou "desculpe" como se fosse um segredo entre nós. E naquele momento eu a perdoei. Eu também havia cometido erros, pasmen.
Hoje ela me recebeu com muito carinho e um sorriso afetuoso. Perguntou se eu precisava de alguma coisa, ofereceu-me comida. Disse que eu devia me sentir à vontade. E, estranhamente, eu percebi que algumas pessoas têm um jeito esquisito de amar a gente. E o que nos resta é o rancor eterno ou quem sabe apenas aceitar esse amor. Seja lá como ele for.
Corpo e imagem
O seu corpo se tornou imagem
“A visão é o mais espiritual dos sentidos”
Os outros sentidos são por demais sensuais
Mas eu, como o poeta, sou incapaz de transcendência
- Vontade de ter o corpo saqueado
“A visão é o mais espiritual dos sentidos”
Os outros sentidos são por demais sensuais
Mas eu, como o poeta, sou incapaz de transcendência
- Vontade de ter o corpo saqueado
sábado, junho 26, 2010
Um sábado

Hoje foi um dos raros sábados em que fiquei em casa. E posso dizer que aproveitei bastante. Assisti a um belíssimo filme do genial Mizoguchi, Contos da lua vaga (1953), li poemas de João Cabral de Melo Neto e de Manoel de Barros, estudei... Um dia pra ficar quietinha! Sinto-me bem por passar um sábado de clima tão frio assim, mas agora depois das dez da noite (não posso deixar de lembrar de um amigo querido que mora no Recife e sempre marca as coisas dizendo 'só se for depois das deix'), e eu queria tanto sair, tomar um bom vinho pra esquentar, bater um papo legal. Mas enfim, já é tarde, e o que me resta é dormir, já que meus patéticos irmãos estão em casa e não me deixam ver mais filmes em paz. Ah, como preciso morar só. Com urgência!
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