quarta-feira, setembro 29, 2010

Eleição no domingo...


Minha posição inicial a respeito das eleições 2010 era muito clara: nulo para todas as categorias. Tudo isso devido a um ceticismo tremendo na democracia representativa e também nos próprios representantes. Só que durante a campanha acabei simpatizando com um candidato em particular: Plínio de Arruda Sampaio.

Plínio foi um dos formuladores de uma das reformas de base do governo de João Goulart, a Reforma Agrária, governo esse que sofreu o golpe de 64. Um dos fundadores do PT, mas com a chegada do partido ao poder muitas coisas mudaram. Ao invés do assentamento de mais de um milhão de famílias em quatro anos, como indicava o Plano de Reforma Agrária coordenado por Plínio, o governo Lula assentou somente pouco mais de 150 mil famílias em oito anos. Plínio então vai para o Psol. Todavia também observo um porém: apesar de defender o socialismo, Plínio é um homem rico, com bens avaliados em cerca de dois milhões de reais. Difícil resistir às delícias do capitalismo, não?

Mas por quê votar no Plínio? Primeiramente, eu acho as propostas dele extremamente utópicas: 10% do PIB para a Educação, aumento dos impostos dos ricos em 45%, desapropriação das propriedades com mais de mil hectares (produtivas ou não), auditoria da dívida interna, reestatização da Vale, etc. Outra coisa: não vejo o Psol como um partido ainda capacitado para a administração da máquina pública. É um partido que ainda está amadurecendo, e que comete alguns equívocos a exemplo da candidatura de Avilete para o governo do estado de Sergipe. Avilete afirmou em entrevista que é contra a legalização do aborto (uma das bandeiras nacionais do Psol), e mais: chegou ao cúmulo de chamar Dilma de terrorista e assaltante, devido ao seu passado de militante contra a ditadura militar.

No entanto, o meu voto não é acreditando que o Psol será eleito. Afinal, é evidente que não será. Também não acredito que um dia o Brasil será socialista. Tenho até minhas dúvidas quanto ao socialismo e seus problemas com governos autoritários... No entanto, o meu voto no Psol é uma forma de fortalecer discursos radicais, que não falam de números de casas a serem construídas, mas sim debatem as enormes desigualdes no país como um problema social e colocam em pauta a cumplicidade do Estado com uma política econômica que tende a favorecer os mais ricos. Adoro quando ele fala: "o problema do país não é a falta de dinheiro. O problema do país é a bolsa banqueiro".

Afinal, o PT tem adotado constantemente posturas bastante conservadoras. Lula dizer no comício dessa semana em Aracaju que Dilma será uma mãe para o Brasil me envergonha pelo machismo imbutido em tais palavras. Ainda mais grave o fato de Dilma de uma hora para outra, para não perder votos, negar que é a favor da legalização do aborto.

Que tipo de mudanças sociais pode realizar um partido que sacrifica ideologias em prol de votos? Que veste os valores arcaicos de uma sociedade para permanecer no poder?

Eu quero que discursos como o de Plínio continuem sendo propagandeados por aí. Que tenham espaço na mídia - mesmo que tantas vezes suas falas sejam motivo de piada, não importa. Outro ponto muito positivo é que Plínio apresenta suas declarações nos debates televisivos carregadas de ideologia, enquanto os discursos dos outros candidatos querem aparentar serem não-ideológicos, meramente gerenciais. O que é uma falácia. Escolher entre investir mais em agronegócio do que em agricultura familiar não é uma questão meramente técnica.

E enquanto a campanha do PT é recheada de conservadorismos, já o Psol escancara no seu horário eleitoral o beijo de dois homens. "Você tem opção", afirma o slogan. E Plínio chega a fazer declarações polêmicas na televisão, como quando afirmou ser a favor da legalização da maconha. Coisas que ninguém jamais veria o PT fazer.

É por isso eu vou votar não no Plínio enquanto herói e líder da nossa salvação, mas voto sim no fortalecimento de propostas mais radicais, com discursos que mostrem que política não é só questão de gerenciamento, mas também de ideologia, que abordem a política a partir das lutas sociais envolvidas, e por fim levantem bandeiras que combatam certos conservadorismos.

2 comentários:

Fábio Barros disse...

pô, vc matou alguma esperança fajuta que eu tinha na vitória dele...

sua realista.

Gomorra disse...

Glupt!

Puxa, tua sensatez me impressiona - e olha que eu já esperava uma postura destas de tua parte.

De fato, para além de todo "utopismo" do candidato, fiquei positivamente impressionado com a insistência dele em frisar que ele era o único que diferenciava efetivamente dos demais, logo: IDEOLOGIA.

Bom isso, um avanço, um pequeno, mas bom.

Quanto ao resultado...
Que venha!

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