quarta-feira, abril 26, 2006

Deus e o Diabo na terra do sol


Os grandes teóricos sociais, Marx, Weber, e Durkhéim, acreditavam na morte da religião com o desenvolvimento da modernidade. Segundo Durkhéim, havia algo de eterno na religião, ela seria um símbolo de preservação da unidade coletiva, mas isso poderia ser conseguido através de ideais políticos. Em plena alta modernidade, podemos perceber que a religião está ainda muito presente na vida das pessoas. E alguns dos acontecimentos mais drásticos da modernidade tardia têm relação intrínseca com a religião.

O iluminismo e a racionalidade burguesa edificada junto com o nascimento do capitalismo, numa negação ao mundo teocêntrico do medievo feudal, provavelmente provocaram as especulações sobre o fim da religião. Entretanto, vemos um homem que, semelhante àqueles da pré-história que cultuavam seus ancestrais, ainda vive encantado pelo sobrenatural.

Homens doam seu corpo ao sacrifício pela sua fé. Lançam-se contra estações de metrô, balneários, aviões, como os que dirimiram o World Trade Center, um dos ícones do capitalismo. É claro que eles não tinham intenções definidamente políticas, antes sonhavam com um suposto céu repleto de virgens, mas a sua fé tem um caráter de contestação por explorados. Eles, que vivem no mundo árido, de mulheres escondidas em burcas, e fome e desespero por toda a parte, querem destruir o Grande Satã.

Segundo Nietzche, a religião exalta o derramamento de sangue. Festas são feitas para imolar animais, cristãos têm nas suas casas o Cristo crucificado pendurado na parede. Deus pediu a Abraão que levasse seu filho Isaac para ser morto em sacrifício. Depois disse que Isaac não seria morto, tudo havia sido feito para testar a fé de Abraão.

A jihad precisaria do sangue de todos os infiéis, e quem não está a serviço do deus, está a serviço do mal. Esses guerreiros entendem o mundo pelo viés da religião, e vêem quem os explora como entidades terrenas malignas com áureas sobrenaturais. O ópio do povo é usado como arma de revolução, porque só do lado dos deuses seria possível destronar outros deuses, os dominadores.

A luta de classes motora da história é representada através dos ataques terroristas ao mundo ocidental. A religião, o ópio que acalmava os explorados, que os fazia crer num mundo póstumo de felicidade onde seria mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no paraíso, agora é usada para espalhar o terror em impérios e cria diversas especulações sobre o futuro da humanidade. Qual será?

terça-feira, abril 25, 2006

A vida é feita de músicas


Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido mas existem possibilidades

Tenho um sorriso bobo
Parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda calma do mundo

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

Vamos deixar as janelas abertas
E deixar o equilíbrio ir embora

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Os sonhos vêm e os sonhos vão
O resto é imperfeito

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há

E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
E só maldade então, deixar um Deus tão triste

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo!


Tudo passa, tudo passará...

domingo, abril 23, 2006

Casa no campo


Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
e nada mais


Composição: Zé Rodrix e Tavito
Cantada por Elis Regina, a cantora mais emocionada.

sábado, abril 22, 2006

O infinito

Deixe eu te abraçar pra ter certeza de que você existe.
De olhos fechados
Pra não saber que eu existo
Pra esquecer de mim
E você se esquecer de você

E a gente só ser
Os espaços
Vários espaços
Negros
Vácuos

Ser um pouco mais
Sendo você
Você ser um pouco mais
Sendo eu

E no fim de tudo
A gente vai só ser
Os espaços
Negros
E vácuos

sexta-feira, abril 21, 2006

Pobres poderes

Certa vez estava eu num ônibus de madrugada, e um menino de uns 14 anos entrou pela parte de trás do veículo. O cobrador mandou o rapaz descer, e ele simplesmente se sentou. O motorista parou o veículo sob ordem do cobrador, que se levantou de sua cadeira e foi até o menino gritando você não pagou a passagem, seu vagabundo, filho da puta, e o empurrou escada abaixo.

Eu me assustei com a cena, então olhei para trás e percebi que só havia eu de passageira. Ouvindo a música do silêncio do ônibus se movimentando na madrugada cheia de ventos vazios, comecei a pensar sobre o fato. O que levava um homem que recebe um salário de fome a lutar com unhas e dentes pela empresa para qual trabalha?

Pensei na ausência de consciência de classe. Ele não reconhecia que era explorado pela empresa e não via o menino como integrante de uma mesma classe dominada. Depois refleti melhor. O cobrador não lutava pela empresa, ele fazia um espetáculo para se sentir semelhante aos que o exploram.

Uma das formas que os dominados têm para uma quimérica insurreição é imitar o dominador. Essa é a maneira de eles se sentirem legítimos, e, assim, muitos negros querem ser brancos, muitos pobres se fingem de ricos. Eles não cogitam a possibilidade de lutar contra quem os explora, e a sua falsa sublevação ocorre através da imitação.

O que aquele cobrador queria era a sensação de poder. Naquele momento ele se sentia dono do ônibus, o meio no qual trabalha e não lhe pertence. E aquele era um dos raros momentos em que podia exercer sua autoridade e criar um dominado. Sim, ele poderia fazer uma inversão de papéis à custa de um menino negro e pobre.

É muito comum indivíduos da classe subordinada se travestirem de dominadores. Quando tomados por tal acesso histriônico eles só respeitam quem é da classe dominante, e se dirigem aos pares como subalternos. Assim acontece com alguns atendentes de lojas, por exemplo, que tratam as pessoas de acordo com a quantidade de dinheiro no cartão, mas são eles mesmos pobres.

Lembro-me da vez em que minha mãe levou Nide, uma amiga nossa de Boquim, ao hospital João Alves. A moça do atendimento tratava a todos na fila com imensa soberba, agindo como se fosse alguma autoridade do lugar, e disse para Nide e mamãe voltarem daqui a um mês. Minha mãe perguntou a ela:

-Você olhou a ficha?

-Não.

-Você sabe o que ela tem para mandar ela voltar daqui a um mês?

Os olhos da mulher saltaram ao auscultar a ficha.

-Ela tem câncer- disse mamãe, sancionando o assombro da moça.

É isso o que vejo tantas vezes. Indivíduos sem consciência de classe, e cada um no seu mundo tentando fazer outros de subordinados numa escala interminável. A busca de poder vai além da procura pelo bem comum. Um poder imaginário, sonhado através das miragens sedutoras da publicidade, ao teatro da dominação no dia a dia.

quinta-feira, abril 20, 2006

Malditos filmes edificantes!

Sou uma pessoa brega, sentimental, meu excesso de sensibilidade dá nojo, mas pra tudo tem limite. Eu detesto aqueles malditos filmes edificantes! Tá bem, gostei de alguns há anos atrás, mas hoje em dia eu pelo menos sei a diferença entre filme bom e filme que eu gosto. E quando revi Cidade dos Anjos me perguntei como diabos chorei vendo aquilo. Lamentável.

Enfim, a questão é que esses filmes edificantes são uma das desgraças do cinema. Acredito que os filmes ruins com certificado de ruindade assinado embaixo são mais sinceros do que eles, como Todo Mundo em Pânico (não sei como tanta gente ria na sala, pois eu não achava a menor graça), e Cruzeiro das loucas (vou ter de admitir que dei boas risadas).

As pessoas que assistem a essas películas sabem que estão ali para ver merda. Agora, quanto a filmes edificantes, não, eles se dão o estatuto de arte. Aí todo mundo fica achando que cinema de arte são filmes dramáticos, atores chorando, lições de moral. Mas não é, porra.

A arte não foi feita para ensinar as pessoas a viverem. E aqueles atores que ganham o Oscar, nossa, às vezes parece que o padrão ator de qualidade se refere à maior quantidade de lágrimas vertidas em cena. Ninguém se lembra do quanto é importante um ator fazer o papel de uma pessoa comum, e conseguir elaborar com maestria a singularidade do comum. De um ator não querer aparecer mais que o personagem e ser estrela.

É melhor ator quem chora mais, e são bons filmes os que conseguem arrancar mais lágrimas do espectador, e não os que ousam esteticamente e levam à reflexão. Esse é conceito de cinema de arte que existe na cabeça de muita gente graças aos filmes edificantes e ao Oscar.

segunda-feira, abril 17, 2006

Canção de Alguéns


Eu não sei quem sou
Talvez porque seja alma diferente
A cada vida minha
Toda essa gente
não sabe das fantasias

Eu sou alguéns sem nomes
Túmulos e partos
Saudades, boas vindas
Eu tenho puro tato
O silêncio dessa noite me lembra as rodovias

Não sei para onde vou
Eu vago pelo dia
Eu quero a madrugada
Não durmo por sonhar tanto
Eu quero demais, demais, demais
E ando flutuando

Meu peito vive aberto
Refém do que não quero
E de todos os quereres
Desejo ser a chuva
quando ela cai na terra
E dá de beber aos seres

Eu não sei quem sou
Eu sou a mentira
Todas as miragens
Quase tudo que eu quis
Esses rios no sangue
Que não têm margem
Levam até longe de mim

domingo, abril 16, 2006

Sexo dos Anjos

Um dia desses fiquei surpresa quando uma grande amiga minha me disse: Também, né, você não acredita em Deus! Depois de tantos anos de terços, procissões, missas sem fim, sacramentos, era normal me parecer estranho essa frase. Eu nunca disse que não acreditava em Deus, pelo contrário, entretanto, ninguém acredita na minha fé. E, realmente, ela não existe.

Mas o fato de eu não acreditar em Deus não me dá o título de ateísta. Claro, porque para ser ateísta é preciso ter fé na não existência de Deus. Fé, essa palavra mesmo, porque nem a Igreja nem a Ciência podem provar que Deus não existe.

Está certo, acreditar em Deus dá certa paz, certa segurança ontológica. Já tentei, mas não consigo, não mais. Não obstante, não tenho a fé dos ateus. Eu não acredito em Deus, mas também não acredito que ele não existe.

Eu me sinto indiferente a Deus. Raros são os momentos em que lembro dele, como agora, por exemplo. No mais, eu sou das coisas mundanas. E fico com o Leminski, que disse: Os deuses? Eles que cuidem dos seus assuntos, e eu cuido dos meus.

E quem entende?

Fulana- Eu sou virgem ainda, mas já fiz umas coisinhas aí, tipo sexo oral...

Cicrana- Meu namorado quer que eu faça sexo oral nele, mas não faço de jeito nenhum. Não já basta coisar, não? Já disse, mesmo que eu passasse dez anos com um cara eu não ia chupar a pinta dele.

?

quinta-feira, abril 13, 2006

Teorema


Como pode fazer isso a um homem acostumado à ordem, ao amanhã, e, sobretudo, à posse?

Filme de Pier Paolo Pasolini

O desassossego


E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou de com quem eu falei. Assim, muitas vezes repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância- irmãos siameses que não estão pegados.

Livro do desassossego, Fernando Pessoa

coincidência?

quarta-feira, abril 12, 2006

E agora?

A metamorfose

Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de uma noite mal dormida, achou-se em sua cama transformado em monstruoso inseto. Estava deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e ao levantar um pouco a cabeça viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha mal podia agüentar, pois estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam aos seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência.

Franz Kafka

segunda-feira, abril 10, 2006

De alma aberta e o coração cantando


A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a magica presença das estrelas!

Da inquieta esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Trova

Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Canção da garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.


O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.


E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...


Da Felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os bem na ponta do nariz!

Das Idéias

Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro de ti se achava nua...

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Da discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

Mário Quintana

domingo, abril 09, 2006

Kika

Sempre tive medo de bichos. Quando era criança, sonhei inúmeras vezes com leões, cães me devorando. Ficava assombrada quando via algum cachorro na rua e me recusava a entrar em casas que tinham cachorros. Engraçado porque era um misto de admiração e medo. Ainda lembro da vez em que fiquei encantada pela pantera negra com suas formas se confundindo com as trevas e seus olhos chispando luz.

Tive uma gata, Pandora, mas morria de medo dela e minha mãe achou melhor levá-la embora. A pobre gata era ignorada por todos daqui de casa, e eu me afastava assim que ela se aproximava de mim. Mas vi na Discovery que gatos têm medo de pessoas que os adoram. Eles gostam daqueles que os temem, pois algo no olhar dos que lhe fazem carinhos é semelhante aos sinais de ataque entre os gatos. Descobri porque Pandora estava sempre me rondando.

Então, minha mãe resolveu um dia desses trazer uma cachorrinha. Ela me perguntou primeiro, com medo de que a cachorra também fosse deixada de lado. Kika veio pra nossa casa, e minha mãe a chamou assim após ter visto e adorado um filme homônimo de Almodóvar. Eu chamava-a Mademoiselle Kika, Lady Kika, e fazia mimo naquela bolinha de pêlo. Às vezes saía de casa e sentia saudades dela.

Pouco tempo depois os dentes de Kika começaram a crescer. Ela ficava o tempo todo me mordendo, e eu achava estranho, ah meu Deus, ela vai ficar grande e continuar me mordendo, poxa, cachorros não mordem os donos, mas é porque é filhote, tomara né. Eu me irritava com Kika, e passei um tempo sem lhe fazer carinhos.

Ela pula, rosna, e isso me dava medo antes. Aí percebi o quanto ela é bobona, então fazia cafuné, e fazia carícias na sua barriga, coisa que ela adora demais. E eu tinha tanta raiva quando ela me acordava de manhãzinha cedo com suas lambidas no meu rosto. Depois passei a gostar, porque ela era meu despertador.

Kika morre de medo da rua, e se agarra ao chão com os olhinhos angustiados quando a levo pra passear. Ela é azoada, faz tudo errado, caga no meio do corredor, destrói coisas, tão carente, e dá mordidinhas e arranha quem chega aqui em casa. Eu brinco “cuidado, ela morde... e dói!”. Sempre detestei aqueles benditos que dizem “ah, tenha medo não, ele não morde”, e o bicho pulando em cima de mim. Divirto-me um pouco com a cara de medo das pessoas, é fato.

Fui me acostumando com ela, e até comecei a gostar de suas mordidinhas. Era uma chateação ela me seguindo pra lá e pra cá. Hoje em dia se ela passa muito tempo sem andar logo atrás de mim, eu sinto falta, e grito, Kiiikaaaa, cadê Kika?

sexta-feira, abril 07, 2006

ondas

eu sempre soube que você ia chegar posso ter a certeza de que talvez não seja certeza ou qualquer coisa a se pensar sobre os pássaros mas estava falando sobre você e que sempre soube que você ia chegar porque você estava perdido no mundo ou não eu estava perdida no mundo mas quem não está alguns se acham em qualquer lugar mas não ter lar não é estar perdido é pertencer a qualquer lugar e você pertence a todos os lugares por onde passei e por onde irei passar porque a terra beija seus pés e as nuvens fazem o paraíso na minha vista quando te vejo eu adoro essa sua meia muito bonita mesmo e adoro também esse pequeno sinal que você tem no rosto não sei como será que você foi feito não acredito eu gosto mais dos detalhes entenda de onde você veio mas eu sempre soube que você ia chegar ah mas eu sei também que você vai partir não sei porque tudo é tão efêmero talvez eu só viva mesmo o que há no futuro porque agora meus sentidos estão vacilantes entre o agora como se já lembrasse do agora como se o guardasse como recordação agora o agora e será rememorado com vivência mais plena do que agora quando já o vivo como recordação e mais tarde será tudo mais real porque então não terei medo de perder o agora e ele será muito mais do que uma recordação eu te amo e não devia temer nada não é você me ama também não há porque duvidar se você me olha do mesmo jeito que olha para o mar e minha imagem refletida sob uma estrela nas suas pupilas

quinta-feira, abril 06, 2006

Os sentimentos sinceros

Gosto daqueles que têm os sentimentos sinceros. Que quando estão felizes sentem toda a plenitude da felicidade, e distribuem risos, abraços, e beijos. Que não têm vergonha de parecerem ridículos, e viram crianças às vezes. Que quando estão tristes estão tristes e pronto. Nada de fingir uma alegria daquelas de sorrisos forçados e gestos artificiais, ou de ficarem indiferentes à dor que corrói por dentro. Então choram, e reconhecem a perda, mas são lágrimas justas, que logo depois são enxugadas porque eles são fortes e gostam de viver. Caem da bicicleta, passam metiolate, e tentam de novo até aprender. Têm seus sentimentos tratados com desdém, mas nem por isso se tornam amargos. Não aprendem a desconfiar. Aprendem a acreditar nas pessoas certas.

E quem vive a vida como se tivesse o tempo inteiro seguindo um livro de auto-ajuda? Parecem querer a todo custo serem perfeitos porque são obcecados por agradar a todo mundo. Para tudo é “ah, como é lindo o pôr do sol”, “ah, estava hoje regando as minhas plantinhas”. Gosto de quem rega as plantinhas, acha bonito o pôr do sol, e fica em paz.

Gosto de quem expressa as emoções, que não tem um pingo de vergonha de dizer “eu te amo”. Mas não aqueles “eu te amo” banais, ditos ao vento para parecer uma pessoa adorável e carinhosa. Sabe aqueles “eu te amo” ditos quando você olha pra o outro e vê o quanto ele é especial por tantas coisas simples e bobas? Sim, é desse “eu te amo” que eu gosto.

Temo aqueles que sem conhecer já são todo amores. Gosto de quem chega devagarzinho, pergunta meu nome, fala de qualquer bobagem, e aos poucos vai me conquistando e sendo conquistado.

Gosto de quem ri só quando acha engraçado, quem fala quando quer falar, e quando quer ficar no canto se deleita no gozo de si mesmo, e não tem a necessidade de estar sempre rodeado de gente.

Gosto das pessoas simples. E gosto de quem sente tudo o que é merecido sentir.

terça-feira, abril 04, 2006

Lirismos nos dias

Penso sobre a poesia do mundo. Sabe, às vezes a rotina cartesiana despoetiza a vida. Mas a existência não foi feita para ser poetizada. Não há lirismo nos escritórios, nos semáforos. Minto. Há lirismo em todas as partes, mas saltando no ar ignorado pelas nossas almas inertes e quadradas. Vivemos o tempo dos relógios, e toda a nossa vida é regida pelos ponteiros das obrigações. Às vezes fico assim, sem poesia dentro de mim, e dá um vazio. Quando era criança, eu me perguntava. Ué, mas por que será que os adultos não ouvem música nem se beijam? E concluía: tomara que eu escute música e beije pra sempre.

sexta-feira, março 31, 2006

Palavras, palavras, palavras

No fluxo das horas chego atrasada para quase todos os momentos diários. Sobre passos, tudo volta e segue para a mesma rota, aonde eu vou parar. Trezentos e sessenta. Escrever coisas que não fazem muito sentido, porque para haver sentido é preciso haver um certo regimento das idéias, palavras acabam soltas, avulsas, e o dilema de não saber de nada além de que nada sabe. Perder-se nos rumos das palavras. As palavras e as coisas. Coisas e signos arbitrários, as palavras abstratas, nunca expressando tudo o que há. Não chamaria de imperfeição. Se as coisas fossem feitas para expressar palavras elas também não dariam conta de todo o sentido. De início havia o Verbo. Primeiro eram as palavras, como se tivessem um poder criador, eles acreditavam. Mas de início eram as coisas e o homem fez o verbo. Pensamentos seguindo um fluxo desnorteado, vai bater num poste, vai, vai. Postes e luzes. As moscas em volta da luz, insetos adoram luz. E eu odeio ruas com postes sem luz. Mas não sou um inseto. Isso não faz sentido, é o fluxo do pensamento desvairado. A lógica circular é a falta de lógica.

E de pensamentos idos


E lívida
Em organdi
Entre os escombros?
Indefinível como criatura.

Eternamente viva.
*

Sendo quem sou, em nada me pareço
Desloco-me no mundo ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Querer o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.
*

Amáveis
Mas indomáveis
O poeta e seu cavalo.
Um arcabouço pensado
Para limitar-se ao pouso
E do vôo alimentar-se.
Sente os espaços, mas sabe
Até onde irá seu passo
Sente a beleza do salto
Mas conhece sua lhaneza:
A própria, inerte beleza
De saber-se aprisionado
E contentar-se de sonhos
Maravilhar-se de achados.

O poeta- e seu vocábulo.
O cavalo- e seu pedaço de terra
Mais nas alturas,
De brisa, de solidão e hortaliça.
Entrelaçadas aspiram
Respiram juntos

E vistos em direção
As cordilheiras do espanto
Quase sempre se confundem.
Sonhando reter no flanco
Exaltação e delírio,
Nas noites de grande lua
(entre cipestres e lírios)
O cavalo me acompanha
À profundezas guardadas
Onde flutuam palavras
E lá mergulho e anoiteço.
E encontro coisas do medo
Mandalas de cor, rosáceas
E malmequeres antigos
Sobre algum livro encantado
De pergaminho, de prata
E de pensamentos idos.
*

Eu caminhava alegre entre os pastores
E tatuada de infância repetia
Qie é melhor em verdade ter amores
E rima transitória para o verso.
Para cantar mais alto é Até preciso
Desdobrar-se em afetos e amar
Seja o que for, luares e desertos
E cantigas de roda e ditirambos.

Entre o amarelo e o rosa, a lua nova
Na vida também nova, ressurgia.

Hilda Hilst.

quinta-feira, março 30, 2006

Deixe Cibele com os livros

Quando abri a porta do quarto dos fundos, Cibele fez um estranho movimento de susto, e ao fitar suas mãos desajeitadas descobri um dos livros da estante. Cibele fica sem graça quando acha que está fazendo coisas que não lhe pertencem ou se acha mal educada. Ela tem vergonha de só saber comer usando uma colher de sopa, e se recusa a almoçar ao meu lado, sempre aguardando a hora em que vou me retirar da mesa. Quando eu chego à mesa e ela já está comendo, Cibele fica fazendo círculos com a colher enquanto fita a comida, e às vezes olha para mim de soslaio. Peguei minhas roupas para ir tomar banho, e saí de fininho como se não tivesse visto nada.

quarta-feira, março 29, 2006

A televisão


Rosa Maria Mateo, uma das figuras mais populares da televisão espanhola, me contou esta história.

Uma mulher tinha escrito uma carta para ela, de algum lugarzinho perdido, pedindo que por favor contasse a verdade:

-Quando eu olho para a senhora, a senhora está olhando para mim?

Rosa Maria disse que não sabia o que responder.

Eduardo Galeano.

terça-feira, março 28, 2006

As cores dos sonhos


Vou inventar uma nova cor dessas que aparecem nos sonhos.
Dizem que sonhamos em preto e branco, mas não creio.
Quem irá tirar fotografias para mostrar que sonho em branco e preto?
Lembro de perguntas que me fazia na infância
Como alguém que nunca viu sonha?
Onde é o fim do arco-íris?
O vermelho que eu vejo é o mesmo para minha mãe ou ela está vendo verde?
Será que existe um mundo onde todas as cores são diferentes dessas que vejo?
Até hoje só descobri que o arco-íris não tem fim nem começo.
Mas tive um sonho em que eu chegava ao fim do arco-íris.

sábado, março 25, 2006


- E sabe, é como naquela velha piada do tipo que vai ao psiquiatra. Ele diz, doutor, meu irmão é louco, ele acha que é uma galinha. E o médico pergunta, então por que você não o interna? Eu até o internaria, mas é que preciso dos ovos. É o que sinto sobre as relações humanas, são totalmente loucas, absurdas, e irracionais, mas nós vamos aguentando, porque precisamos dos ovos.
Alvy Singer em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen, interpretado pelo próprio diretor.

Estar no olhar


Percebi que sou fascinada pelo olhar.
Sempre busco no olhar o que faltou nas palavras,
fico tentando descobrir o outro.
Porque gosto de sentir as pessoas,
e me aproximo um pouco mais no fluxo da alma vertendo-se nas pupilas.
Elucidar os signos que os seus olhos espalham de forma simplória.
Não é para saber de algum segredo.
Muito mais do que saber o que alguém sente,
é estar onde o outro está.

quinta-feira, março 23, 2006

Lucas

Ele se matou logo depois de saber que minha mãe o havia traído. A gente era uma família perfeita. Meu pai era louco pela minha mãe, nunca faltou dinheiro, a gente viajava muito, sempre fui bom aluno e trabalhador. Aí minha mãe arranja esse caso.

Não sei o que se passava pela cabeça dela. Mas ela era assim. Se estava tudo arrumadinho nos seus devidos lugares, ela vinha e deixava a bolsa em cima da mesa logo que chegava do trabalho. Tomava todas as noites alguns cálices de vinho e ficava rindo como uma qualquer. Ela cuidava de mim como se brincasse, estava mais preocupada em me divertir do que em me dar alguma lição. E meu pai, sempre meu pai, o homem metido no meio dos papéis aperreado com as contas. Minha mãe vinha e beijava seu pescoço.

Por que você me traiu? Não sei. Pra tudo tem resposta. Pra certas coisas não. Por quê? Acho que não conseguia aceitar que a nossa vida era perfeita.

Minha mãe não tinha coragem de ir até o quarto deitar na cama que eles dividiram por tanto tempo, e ficar ao lado do corpo dele cheio de mágoa a noite inteira. Ela ficou na sala vendo televisão, estática, e com os olhos pairando nas imagens em pensamentos distantes.

Silêncio à mesa. Ela dizia meias palavras, mas meu ódio, ah meu ódio era tanto que ela sabia que era melhor se calar e tomar o café. Passou o tempo, e nada do meu pai sair do quarto. A porta, a vasta poça de sangue, os pulsos cortados, o meu pai estava morto. Morto, sim.

Lucas? Júnior? Às vezes você fica perdido pensando na morte da bezerra. É, desculpe. Tão gostoso ficar na rede aqui na varanda, Lucas.

Estava pensando no trabalho, tem gente querendo me passar a perna. Deixe de ser assim, preocupado, menino. Que pescoço gostoso, meu Deus, me deixe morder, vá. Você deixou as meias em cima da cama, eita você bagunçada, meu amor. Sempre que dorme aqui, deixa alguma coisa, faz uma baguncinha. Tá bom, depois eu vou lá pegar. Pescoço gostoso!

Às vezes os amantes ficam assim, em silêncio, e às vezes esse é o momento mais bonito, o do aconchego.

De repente, Lucas agarrou o pescoço de Laís, e depois a jogou no chão. Ele dizia coisas ininteligíveis, e com uma voz que não parecia ser a sua. Eu vou matar aquela puta, cadê ela? E foi correndo pela casa atrás de Carlota.

Carlota gritou, se debateu, segurou a faca de cozinha com as mãos trêmulas, mas Lucas lhe deu um tapa, e lá se foi a faca e seu corpo no chão. Puxou-a pelos cabelos, depois agarrou os seus braços e a conduziu até a varanda.

O que você tá fazendo, Lucas? Vai matar sua mãe? Você tá louco? Meu Deus, pare com isso! E seguiu-se uma luta de Laís puxando Lucas com todas as suas forças, e ele tentando empurrar a mãe pela janela. Até ele desmaiar no chão.

Lucas era muito religioso, e foi ao centro espírita junto com Laís perguntar ao médium alguma explicação para o que havia se passado. O médium colocou a mão sobre a cabeça de Laís e disse: Você é médium, pode sentir a presença de pessoas do outro mundo, saiba usar esse dom.

O médium explicou que o pai de Lucas era uma alma perturbada. Lucas não conseguia descansar em paz porque ainda estava preso ao seu passado, e queria a todo custo se vingar usando o corpo do filho para matar Carlota. Era preciso orar pela alma de Lucas.

Lucas foi morar sozinho, e aos poucos foi se afastando de Laís. Não suportava a presença da mãe. E orava todos os dias pela alma do pai.

segunda-feira, março 20, 2006

Caçador de mim

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Milton Nascimento

domingo, março 19, 2006

Na estrada

Então essa é a estrada. As árvores dançam a música, sem lenço sem documento, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo. Não podia ficar olhando a estrada, depois de um tempo começava a ter vertigens, às vezes descia do carro esperando o vômito, mas nada. Tudo sempre ficou nas sensações. Rasgava com as pequenas roídas unhas o limão, e cheirava porque a avó dizia que o odor do limão fazia parar as náuseas. Não olhe a estrada, menina, pare de olhar e você vai ver que melhora. Ela ficava ouvindo as árvores dançarem e sempre com o limão de junto do nariz.

Saltava quando via o morro onde estava antiga igreja dos jesuítas. Lembrava das aulas de História, e ficava imaginando como seriam aquelas terras naquela época, sem a estrada, mato pra tudo que era lado, os padres ensinando aos índios que era pecado ficar nu. Aquela igrejinha lá em cima, esquecida no tempo, como pode ela não cair? Sentia uma vontade danada de subir no morro, entrar lá pra imaginar os índios e os jesuítas, e ficar mais perto do passado.

O terço se balançando no espelho do carro. Sob a cabeça os aviões, sob os meus pés os caminhões, aponta contra os chapadões meu nariz. Adriana! Adriana? O quê, vó? Adoro ouvir as fitas da mamãe. Diga, eu tô ouvindo. Ah, minha neta, os índio andavam nus, mas eles eram inocentes, não sabiam que era pecado. Eles são igual bicho.

Quando era pequena, ela andava pela casa vestindo nada mais que calcinhas bordadas. Um dia desses quando se arrumava pra ir à missa, a tia mandou mudar a blusa, essa blusa mostra a barriga, menina, vá botar outra, você vai pra casa de Deus. Ela trocou a roupa com os olhos atônitos. Olhava para o padre como se prestasse muita atenção às suas palavras. Por que essa é a casa de Deus? Adão e Eva andavam nus e Deus os expulsou do paraíso quando sentiram vergonha. E não era para eles sentirem não?

Todas essas histórias de pecado, inferno davam um nó na sua cabeça. Está certo que havia pecados que levariam direto para o inferno. Mas a partir de quantos pecados menores uma pessoa ia para o inferno? Como devem ser os castigos? Deve ser muito ruim ficar sofrendo pra sempre. Mas o céu, sei lá, tudo perfeito. Pensou que talvez ficasse enjoada do céu. E não conseguia imaginar como seria o purgatório, mas falam pouco dele, ele nunca apareceu na televisão, só falam de céu e inferno.

Ela não entendia nada. Mas quando olhava pra estrada, percebia que adorava a vida e todas as suas alegrias, dores, emoções, enfim. Contemplava as pessoas, queria descobrir as coisas do mundo, mas tudo isso ela só sentia, não entendia nada. Amava a estrada e o vento.

sexta-feira, março 17, 2006

Poetar com Leminski


Estava um dia desses precisando do aconchego de um poeminha. Grande poeta pra me emocionar e ser um pouco mais, Paulo Leminski.


Objeto
Do meu mais desesperado desejo
Não seja aquilo
Por quem ardo e não vejo

Seja a estrela que me beija
Oriente que me reja
Azul amor beleza

Faça qualquer coisa
Mas pelo amor de deus
Ou de nós dois
Seja.
*

Minha amiga
Indecisa
Lida com coisas
Semifusas

Quando confusas
Mesmo as exatas
Medusas
Se transmudam
Em musas
*

Entre a dívida externa
E a dúvida interna
Meu coração
Comercial
Alterna
*

Não possa tanta distância
Deixar entre nós
Este sol
Que se põe
Entre uma onda
E outra onda
No oceano dos lençóis
*

O novo
Não me choca mais
Nada de novo
Sob o sol
*


Minhas sete quedas

Minha primeira queda
Não abriu o pára-quedas

Daí passei feito uma pedra
Pra minha segunda queda

Da segunda à terceira queda
Foi um pulo que é um seda

Nisso uma quinta queda
Pega a quarta e arremeda

Na sexta continuei caindo
Agora com licença
Mais um abismo vem vindo
*

Aqui

Nesta pedra

Alguém sentou
Olhando o mar

O mar não parou
Pra ser olhado

Foi mar
Pra tudo quanto é lado
*

Dois loucos no bairro

Um passa os dias
Chutando postes para ver se acendem

O outro as noites
Apagando palavras
Contra um papel em branco
Todo bairro tem um louco
Que o bairro trata bem
Só falta mais um pouco
Pra eu ser tratado também
*

Dia
Dai-me
A sabedoria de Caetano
Nunca ler jornais
A loucura de Glauber
Tem sempre uma cabeça cortada a mais
A fúria de décio
Nunca fazer versinhos normais
*

Apagar-me
Diluir-me
Desmanchar-me
Até que depois
De mim
De nós
De tudo
Não reste mais
Que o charme
*

Coração
PRA CIMA
Escrito embaixo
FRÁGIL
*

A noite
Me pinga uma estrela no olho
E passa
*

Em la lucha de classes
Todas las armas son buenas
Piedras
Noches
Poemas
*

Não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino
*

acordei bemol
tudo estava sustenido

sol fazia
só não fazia sentido
*

você me amava
disse a margarida

a margarida
é doce
amarga a vida
*

pra quê cara feia?
Na vida
Ninguém paga meia
*

O amor, esse sufoco
Agora a pouco era muito,
Agora, apenas um sopro

Ah, troço de louco
Corações trocando rosas,
E socos
*

Podem ficar com a realidade
Esse baixo astral
Em que tudo entra pelo cano

Eu quero viver de verdade
Eu fico com o cinema americano
*

Eu ontem tive a impressão
Que deus queria falar comigo
Não lhe dei ouvidos

Quem sou eu para falar com deuses?
Ele que cuide dos seus assuntos
Eu cuido dos meus
*

Incenso fosse música

Isso de querer
Ser exatamente aquilo
Que a gente é
Ainda vai
Nos levar além
*

Enfim,
Nu,
Como vim
*

Viu-me
E passou
Como um filme
*

Temporal

Fazia tempo
Que eu não me sentia
Tão sentimental
*

Você está tão longe
Que às vezes penso
Que nem existo

Nem fale de amor
Que amor é isto
*

Saber é pouco
Como é que a água do mar
Entra dentro do coco?
*

Vazio agudo

Ando meio

Cheio de tudo
*

Amor é um elo
Entre o azul
E o amarelo
*

Esta vida é uma viagem
Pena eu estar
Só de passagem
*


A noite- enorme
Tudo dorme
Menos teu nome
*

terça-feira, março 14, 2006

Respirar sutilmente


Sempre achei sedutor o ato de fumar. O ar altivo, as baforadas, o olhar flutuando no horizonte. Volúpia.

Lembro-me ainda de Laurinha, a romântica gordinha de Carrosel, dizendo que achava sexy os homens que fumam. Estranho, não, uma menina de uns nove anos dizendo isso na Tv. Quando era criança, eu usava um palito de pirulito para simular um cigarro. E inventava baforadas com gosto na frente do espelho.

O cigarro é muito sedutor, não só porque dá um ar de beleza ao ato de tragá-lo, como alivia a ansiedade, o grande mal de que todos queremos nos livrar, seja lendo, ouvindo música, seja passando horas na internet. E assim os fumantes transpiram com ânsia um pouco de calma. De quê adianta?

Será que eles encontram algum sossego naquela fumaça? Pois o que vejo nos cafés é o desassossego de cigarros deixados na metade em cima do cinzeiro porque a ânsia quer o próximo cigarro. E de cigarro em cigarro nunca se chega à paz.

Fumar? Evito. Às vezes incomodo estranhos quando estou embriagada pedindo “um cigarrinho, por favor”, mas nem ao menos sei usar o isqueiro.Tenho uma vontade de ser que não se saciaria em duas carteiras por dia.

Mário Quintana até dizia, “fumar é respirar sutilmente”. Aparentemente sim, posso dizer até que é uma forma elegante de respirar. Pena que fatal. E os cinzeiros cheios das cinzas da angústia fazem a calma?

segunda-feira, março 13, 2006

Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

domingo, março 12, 2006

O belo amor


Sempre busquei o amor
nos pequenos gestos
A alquimia do outro
palavras, movimentos

Agora eu só encontro o amor nos versos
o amor virou pura poesia
e se perdeu na rima
não tem toque nem querer

Meu amor tem o sentimento do mundo
Desconhece a adoração de um
Aprecia as canções, as poesias de amor
como quem reza
mas não acredita em Deus.

sábado, março 11, 2006

A minha casa



Eu me encontro inacabada
Depois de me construir tantas vezes
Eu não tenho uma casa

A minha casa é a estrada
Longe de tudo
E perto dos viajantes.

sexta-feira, março 10, 2006

Blow up


Toda forma de arte é absolutamente inútil

Oscar Wilde

quinta-feira, março 09, 2006

Cortinas vermelhas


O sorriso esvoaçante, cabelos, vestido ao vento. Meus pais são tão lindos! Eles se amam tanto, sabe. Acredita que até hoje meu pai sente ciúme da minha mãe, e ela às vezes pergunta se ele o ama? Depois de tantos anos...

Ainda me lembro daquela noite. Viemos de mãos dadas rezando no carro, e ele correndo o carro, porque era tanto ódio que o carro precisava voar. Ela chorava com a boca, com as rugas, menos com os olhos. Não quero que eles se assustem, não, não, nada de choro.

Logo ao descer do carro, minha mãe recebe um tapa bem de junto do portão verde. Seus cabelos brancos esconderam a vergonha. Ela nunca pintou os cabelos, ele não queria que ela parecesse mais jovem. Os cacos de vidro misturados com whisky e a porta do banheiro quebrada. De nada adiantou se esconder no banheiro.

Ah, eles são lindos. É tão romântico. Minha irmã e seus dentes e bochechas sorridentes. Não acredito que ela está dizendo isso para essas pessoas. Não é, Aline? Sim, sim, respondo.

Minha irmã, a mulher forte, joga baldes de água no meu pai. Seu alcoólatra. E provocava com o cigarro no canto da boca aos 13 anos. Você não fuma? Então posso fumar também. Meu pai é todo beijos e lágrimas de junto da cama, envolto pelo cortinado e pela luz lânguida do quarto.

Ela diz que quer tomar banho de chuva, porque ama a chuva, a natureza, e gira no meio do mundo. Seus gestos são expansivos, sua voz quer falar para o público.

A chuva cai para ela como no cinema.

terça-feira, março 07, 2006

O Filho de Deus

Toc, toc, toc. Hoje é noite de natal. Passou uma estrela cadente. Eu sou o menino Jesus, filho de José com a virgem Maria, concebido pelo Espírito Santo. Eu voltei. Jesus está morto, menino, morreu numa cruz. Deus não está morto, senhora, eu prometi que ia voltar, aqui estou. Tenho fome e sede, a senhora vai negar pão e água ao Filho de Deus? Pare de me fazer rir, menino, você está delirando. Eu me lembro de você, vive pedindo na porta da igreja, pois andou vendo missas demais. Vá pra casa, vá. Boa noite. A porta.

O reino de Deus não é desta terra. Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem. O Filho de Deus não nasce em berço de ouro. Eu que estou sempre com as mãos estendidas para receber as moedinhas na porta da igreja sou o Filho de Deus.

Você não é filho de José, Jesus. Ela botou gaia no seu pai com o seu tio Horácio. Todo mundo sabe, até o trouxa do seu pai. Nesse dia eu rumei uma pedra na cabeça de Vinícius. Foi pra abrir mesmo a testa do desgraçado que manchou o nome da minha santa mãe. Olho por olho, dente por dente.

De manhã cedo, quando com a fome do outro dia, tenho vontade de fazer os pães multiplicar. Ainda não é chegada hora. E às vezes sinto que estou caminhando sobre as águas do mar, mas ainda não é chegada a hora.

Qual o meu calvário e meu Judas? Pai faça-se a sua vontade. Um dia acharão as minhas vestes no túmulo, e eu haverei ressuscitado. Então separarei o joio do trigo, e finalmente sentarei à direita do Pai no reino dos céus.

segunda-feira, março 06, 2006

Os bichinhos


Seguro Bruninha com medo de ela quebrar. As mãos pequeninas, essa criatura não é uma miniatura minha, mas tem um modo de ser tão seu abandonada aos meus braços e boiando os olhos nos brinquedos do berço. Ela com a boca no meu peito se alimentando de mim, ela que surgiu dentro de mim e veio a mundo atravessando o meu corpo, para encontrar o mundo e chorar de espanto, enfim nos meus braços se acalmar.

Bruninha pega toda a luz da lâmpada da sala com os olhos. Nada entende do que vê. Lâmpada, luz, o que será para ela? Algo que não se encontra numa linguagem. Quem sou eu com meu peito que ela suga com tanta vontade. Ma-mãe, ma-mãe, eu digo acariciando nariz com nariz. Bruninha responde quando a deixo em outros braços e seus olhinhos pedem para ela voltar aos meus.

Fita os desenhos coloridos do lençol e os captura com a mãozinha. Ela acredita que aqueles desenhos têm vida? Não, nada de lençóis brancos. Deixe-me colocar esse lençol cheio de bichinhos.

Eu vi meu reflexo no seu olhar, mas seu olhar não se encontra no meu. Ele se perde ao infinito e se torna um brilho singelo.

Uma música para Bruninha ouvir. Eu que guardo as palavras e as levo para tantas coisas que vivi. Bruninha ouve a música, ela sente a cadência do mundo para dar um sorriso bobo. Bobo como meu olhar diante dela, sem entender o que se faz da luz da lâmpada.

domingo, março 05, 2006

Ser desejo

Gosto de sentir o sabor da carne.
Sal, salgada,
o toque que cristaliza as sensações no arrepio da pele em pêlos elétricos.
Lamber a sua carne
e comer os seus gestos puros e vastos
para não ser mais do que estar no seu corpo e acender a vontade.

Quero, quero muito mais do que tudo ou nada
e saber das ilusões guardadas nos seus sonhos sonhados no olhar flutuando em mim agora.
Quero, quero sempre mais um pedaço de mim contido no seu corpo e nos seus olhos para chegar ao meu fim.
Que não tem fim.

quarta-feira, março 01, 2006

Nada como começar o dia ouvindo Beatles


“Good day sunshine
Good day sunshine
Good day sunshine

I need to laugh, and when the sun is out
I've got something I can laugh about…”

“Life is very short and there’s no time for fussing and fighting my friend…”

“Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love

There's nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that can't be sung
Nothing you can say but you can learn how the play the game
It's easy

There's nothing you can make that can't me made
No on you can save that can't be saved
Nothing you can do but you can learn how to be you in time
It's easy

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need…”

Apenas tomar o sorvete


Eu preciso arrumar um jeito de sentir as coisas pelo que elas são
e largar essa lente gigante em algum lugar.
Porque com a minha tristeza eu tenho que afundar,
e com a minha alegria ser mais do que posso?
Eu preciso saber viver, deixar levar.
Entender que o tédio quando bem vivido
É melhor do que sempre voar e ser anjo caído
Ver que nas coisas simples eu posso realizada estar.

O mundo inteiro está repleto de fealdade e beleza,
talvez eu deva ignorar.
Não para ficar contida em mim mesma,
porque aí vou me perder na tristeza de ser só eu e nada mais.

Hoje estava olhando a moça tomando o sorvete.
Imagine que delícia aquele macio nevando na língua o gosto.
E havia tantas pessoas na sorveteria, tantas pessoas tomando aquele sorvete delicioso. Naquele momento eu vi beleza no mundo. Mas não era para ser.
Era só para eu ficar tomando meu sorvete.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Sexo


Corpos flutuantes num encontro perfeito exalando romantismo por todos os poros

É tudo bicho copulando num ataque epiléptico.

Chico tem amor pra todos os momentos


Qualquer canção de amor é uma canção de amor. Não faz brotar amor e amantes, porém se esta canção nos toca o coração, o amor nasce melhor e antes.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem

Eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus... juro que não acreditei. Eu te estranhei... me debrucei sobre teu corpo e duvidei.

Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu. Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade, na saideira muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde.

Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.

Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Quando chorar


Há um tipo de choro bom e outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconhecer sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.

Clarice Lispector


Foto: Ana Karina em Viver a vida, do Godard.

sábado, fevereiro 25, 2006

Fausto e a felicidade


Doutor Fausto é um homem que depois de adquirir um vasto conhecimento entrega-se aos prazeres e à irracionalidade. Ele fica tão atormentado ao ponto de quase se envenenar. Deus permite a Mefistófeles tentar Fausto, contanto que não leve a sua alma. Fausto promete entregar sua alma a Mefistófeles caso ele lhe proporcione a felicidade. O que nunca acontece.

A felicidade não existe. É um mito. O que existe são variações de bons e maus momentos, nada mais. A euforia plena nunca é alcançada, e há um limite indeterminado de satisfação. Mas por que o homem nunca é feliz?

Schopenhauer falava que os animais irracionais são movidos unicamente por instintos, e sua memória é instantânea. As necessidades dos animais irracionais se restringem à sobrevivência. Um cão quer comida, ele tem comida, pronto, está satisfeito.

Já os homens são impelidos por desejos, e têm noção de passado, presente e futuro, assim como conhecem a morte. Isso os faz ter medo do futuro, saudade do passado, e se angustiar com o presente. Devido a tanta aflição, suas alegrias são efêmeras. Após a conquista, o tédio e o medo da perda. E o temor da morte é não querer vir a não-ser. Assim fantasiam com um tempo póstumo onde se terá tudo o que não se tem agora, como o descanso eterno depois do mundo do trabalho.

Mefistófeles é a própria serpente. Adão e Eva se encontravam no paraíso, e quando seduzidos pela serpente, acabam provando da Árvore do Conhecimento que os tira para sempre do Paraíso. Lá não havia felicidade, havia paz. Adão e Eva não sabiam, eles só viviam como animais irracionais.

A dialética entre razão e irracionalidade se forma. À medida que o homem conhece, assim como Doutor Fausto, ele tem necessidade de “um algo mais”. Ele inventa e se perde nos vícios, na irracionalidade. Veja as sociedades modernas, tão desenvolvidas cientificamente. A razão e o cientificismo sustentam essas sociedades, mas olhe para os produtos de consumo e observe as pessoas procurando saciar a ansiedade em vestidos, carros, álcool... A felicidade que Fausto nunca alcançou.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Hoje eu queria ser invisível


Eu não sei, eu não sei. Você já teve algum dia em que quis ser invisível? Hoje é um desses pra mim. Não compreendo ao certo essa minha vontade de ser invisível. Talvez seja vergonha, alguma espécie de vazio, quem sabe. Há dias em que quero estar só comigo, não trancada no meu quarto, mas flutuando pelo mundo no ar quente da tarde seca e pesada entre rostos confusos. Sem ninguém me ver, e sem eu me notar também, estar assim abandonada. Queria passar pelo mundo, mas sem deixá-lo me ver, porque alguma coisa em mim quer se esconder; algo que não se acha em palavras e foge dos olhares procurando uma casa.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Nas entranhas


O mundo lhe parecia pequeno
Qual se guardasse amor nas entranhas!

Fausto, Goethe.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Lula cola


A visibilidade nos meios de comunicação de massa é fundamental para a comunicação política, sendo assim, os líderes focam os mídias como a principal forma de conquistar eleitores. Os meios de comunicação de massa são essenciais para a formação da esfera pública nas sociedades modernas. Um equívoco da comunicação política é a espetacularização com o empobrecimento do debate em nome do marketing político.

Diante da propaganda eleitoral não há cidadãos, há eleitores. A política veste a roupagem de um produto qualquer, e a batalha pela conquista de votos é regida pela publicidade. Ganha quem é mais carismático, com as palavras mais sedutoras, a roupa mais fina. A apresentação de propostas para enriquecer a escolha dos cidadãos torna-se irrelevante.

Os programas eleitorais não informam o espectador. Eles às vezes podem se tornar verdadeiros circos, com batalhas entre os candidatos que costumam partir para a ofensa pessoal. Até os debates são permeados por acusações e injúrias as mais infundadas. É o vale tudo na busca do poder.

A grande maioria da população fica refém dos circos armados pelo horário eleitoral. Os eleitores brasileiros geralmente se guiam pelo programa eleitoral e pelos telejornais. Os jornais impressos, se comparados à televisão, ficam entregues às traças. Poucos são os meios que o eleitor brasileiro tem para se informar sobre a política, vasto é o poder da publicidade diante de “consumidores” tão ingênuos.

A emoção e o humor são os maiores apelos. O Lula sindicalista, barbado, de repente surge elegante com a barba feita entre mulheres grávidas. Tudo isso para conquistar o eleitorado feminino. São tantos os candidatos que reconhecem o espetáculo da política, e fazem dele a sua piada para angariar votos: “Rola”, “Xana”. E eles ganham muitos votos de eleitores descrentes que também acham eleição uma grande palhaçada.

A comunicação política se converge com o próprio marketing político. O candidato é um produto qualquer do modo de produção capitalista, reificado, fetichizado, e estandardizado. Reificado enquanto o valor do político é dado pela imagem vendável. Fetichizado quando as discussões não valorizam a cidadania, mas a sedução de eleitores. E a estandardização a gente vê caminhando pelas ruas repletas de panfletos, outdoors, com a sutil onipresença de certos candidatos.

Os líderes estão à venda. O voto é o preço. Um preço muito caro, que os cidadãos pagam durante anos e anos.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Blusa bonita de rosas e seda

Eu adoro chão de tacos, eles têm um brilho bonito demais, dá pra ver um pouco da cara da gente, e o cheiro de cera? Gosto. Mamãe inventou de tirar os tacos pra colocar lajotas brancas, disse que dava menos trabalho.

Carolina? Oi tia. Venha. Minha tia sempre teve esse rosto assim cheio de dureza. È daquelas amarguras que não são sofridas. São agressivas.

Essa blusa vai ficar curta, não é não? Não, tia, que é isso. As partituras de Raul Seixas, engraçado ela gostar tanto de Raul, o violão, faz quanto tempo que ela não toca? Eu já disse que não vou à missa mais, por que insiste em perguntar, as intrigas de sempre.

- Oi Carolina.

Eu não gosto do meu tio, sabe. Ele sempre me toca demais, odeio pessoas que ficam bulindo no meu corpo pra falar. Presto muita atenção nos caminhos das mãos, eu desconfio dele, ele tem um tato lascivo. Tudo na brincadeira, parece meu tio ingênuo e eu a menininha, mas ele é homem sem vergonha, e eu mulher com curvas. Eu não tenho culpa de ter seios, não mereço o olhar severo da tia. Ela se embrutece, mas finge que não vê, talvez ela nem saiba do ódio que sua pupilas chispam.

Tia Eduarda saiu pra fechar as janelas e a porta. Experimente, Carolina. Eu assim de peitos, ela ficava fitando as partituras com pudor. As rosas vermelhas, adoro, que blusa bonita de seda e rosas.

- Opa.

Não me caibo em vergonha, nem na blusa, fecha a blusa, fecha a janela.

- Eu não avisei a você que ela ia trocar de roupa?

Deus!
Como a arte é longa, e tão breve é a vida!

Wagner, em Fausto, de Goethe.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Essa paixão eu fiz com palavras

Toda essa vontade imensa de palavrear
Ah que eu preciso versar minha paixão todos os dias
E as palavras escritas são mais apaixonadas

Eu fico todo instante a me apaixonar
Pela canção, pelo olhar
Pelo brilhante do negro café que tomo toda manhãzinha

Ah que eu preciso muito poetar
Eu sou amante dessa vida

domingo, fevereiro 19, 2006

A torre


Veja só as estrelas. Vamos construir uma torre, meu amor, pra gente chegar até o céu? De lá vai dar pra ver o mundo, e a gente vai poder ficar olhando o mundo que nem Deus. Mas eu não quero ser Deus. E de que adianta só contemplar as coisas, quero sentir tudo, e os deuses não sentem, só julgam.

Vamos construir uma torre pra chegar ao céu. Lá seremos grandes, e saberemos de tudo. Eu não quero saber, às vezes eu queria ser um cachorro, sabia? Deixe-me lamber o seu pé. O seu pé é tão bonito, ele é tão bonito porque faz parte de você, porque senão seria comum, mas esse pé, esse pé eu reconheceria mesmo sem te ver. Eu te amo. Você consegue ver um relógio desenhado nas nuvens?

Não, eu não consigo. Eu te amo. Mas veja, há um relógio desenhado nas nuvens. Não, sabe o que eu vejo? Hum. Uma árvore. Uma árvore? Sim, ah que saudade da infância, quando eu subia na árvore pra voar, e voava, sabia? Não, na verdade é um relógio marcando o tempo da nossa vida, são horas de acordar, de ir pro trabalho.

Quando chegássemos ao céu, seríamos donos dos relógios. O quê? Pois eu quebraria todos os relógios. Então não haveria mais tempo? Não, então haveria o tempo dos sonhos. Não, mas, para haver tempo é preciso haver relógio. Quem disse? O tempo dos sonhos é livre.

Vamos construir a nossa torre? Como você vai mexer nos relógios sem chegar até a torre? Mas você quer ser dono dos relógios, e eu quero quebrá-los. Já te disse que te amo e adoro beijar teus pés? Vamos construir a nossa torre?

Let down


Transport, motorways and tramlines,
starting and then stopping,
taking off and landing,
the emptiest of feelings,
disappointed people, clinging on to bottles,
and when it comes it's so, so, disappointing.

Let down and hanging around,
crushed like a bug in the ground.
Let down and hanging around.

Shell smashed, juices flowing
wings twitch, legs are going,
don't get sentimental, it always ends up drivel.
One day, I'm gonna grow wings,
a chemical reaction,
hysterical and useless
hysterical and

let down and hanging around,
crushed like a bug in the ground.
Let down and hanging around.

Let down,
Let down,
Let down.

You know, you know where you are with,
you know where you are with,
floor collapsing, falling, bouncing back
and one day, I'm gonna grow wings,
a chemical reaction, [You know where you are,]
hysterical and useless [you know where you are,]
hysterical and [you know where you are,]

essa música me emociona tanto! às vezes olho pro mundo e me sinto assim. mas sabe, não escuto essas músicas pra exaltar tristeza, como muitos fazem. escuto pra ficar em paz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Solaris


Hoje vi Solaris, de Tarkovsky, pela terceira vez. E essa foi a vez mais bonita. É daqueles filmes que nos surpreendem sempre, porque não se trata de imagens que contam uma narrativa em prosa, mas de uma poesia espectral que figura um pensamento, e com ela criamos, sempre mais e mais.

A estação espacial Solaris foi enviada ao planeta Oceano. E um cientista volta à terra contando sobre coisas impressionantes que viu. Uma neblina cobriu toda a estação, até surgir um jardim, e das nuvens sair um menino.

O mar no inconsciente coletivo está relacionado às profundezas do pensamento. E nessa obra, é na estação Solaris, no planeta Oceano, que os personagens vão mergulhar em si mesmos, trazendo à tona lembranças e fantasias. Eles partem da Terra, o planeta dominado pela civilização, para no Oceano, quando procuravam o progresso da humanidade, descobrirem a si mesmos.

Ao chegar a Solaris, o psicólogo Kris Kelvin encontra dois cientistas transtornados, e um deles já havia cometido suicídio. Sua ex-esposa Hary, que tinha se suicidado por envenenamento, lhe surge na estação. Hary pergunta quem é a mulher do retrato guardado na mala de Kelvin, e ao se contemplar diante do espelho descobre que é ela mesma.

Kelvin percorre os escombros da sua alma, onde havia deixado algo que o padecia tanto, a morte de sua ex-esposa. Hary fala aos integrantes da estação que as visitas que recebiam eram produtos de suas próprias mentes. Mas Hary não aparece só a Kelvin, ela surge aos outros cientistas, palpável, ela não era uma mera alucinação, a dicotomia entre realidade e fantasia é quebrada por Tarkovsky na sua crítica à racionalidade.

Quando Kelvin pisa no planeta Oceano, ele encontra dentro de uma bucólica casa o seu pai. Na última cena do filme, Kelvin o abraça num grande encontro, assim como o de Odisseu e Telêmaco. Kelvin, Telêmaco, havia partido da sua terra natal, e não o Odisseu, o pai de Kelvin. Kelvin por fim volta à sua Ítaca, que em Solaris é distante da terra natal, para reencontrar o pai. E os sonhos.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

A nave fantasma


Como termina um amor?- O quê? Termina? Em suma ninguém-exceto os outros- nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou poeta (o recitante) apenas do começo; o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros, eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica.

Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Queria uma poesia

Estou só e precisando de um poeta
Procuro pedaços da minha alma em alguma poesia, mas não encontro
Queria uma poesia que me dissesse tudo que preciso saber sobre mim agora
Versos que achassem no vão das palavras o sentido de tudo a me invadir
Queria uma poesia agora, uma poesia que falasse de mim...
Dessas que falam das coisas do mundo,
porque eu me entreguei ao mundo e me esqueci.

...

- Isso é tudo que você tem pra me dizer?

- ...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

domingo, fevereiro 12, 2006

A bosta que veio do céu. É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Nas minhas andanças em Aracaju City...

Gritos ininteligíveis no caos do pensamento. Bosta no chão do ônibus. Fecha, fecha tudo, fechem as janelas, eles podem mandar mais. Impactos de janelas se fechando. Como é que pode uma coisa dessa, ein? Tem que pegar um safado desse, quebrar os dentes, e fazer ele engolir a bosta. É bosta de gente, fede demais. O cara cagou na sacola e jogou pela janela de cima do ônibus.

Um homem esquálido, negro, com a feição extenuada, ergueu os braços se livrando da camisa azul melada de merda. Uma mulher chora depois de se contorcer e ver que suas costas estavam todas sujas de bosta. Olho mais atentamente, e percebo que era uma professora do CCPA, colégio onde estudei na infância. Sua filha estava no colo de uma amiga que estava sentada. Meu Deus, e se tivesse pegado na criança?

Alguns passageiros saltam no próximo ponto. E os que ficam aos poucos vão passando da indignação às pilhérias. Ah, tô na merda mermu! Ai caraio, que fedor, eu não agüento isso não! Todos já estavam rindo daquela insólita situação e achando tudo uma grande piada. Até que um homem tirou a bolsa cheia de merda do ônibus, e o fedor diminuiu, e as risadas diminuíram também.

Estava eu com Wenna e Ícaro esperando o Circular Shopping’s num ponto de ônibus lá no Augusto Franco. Dois homens segurando enormes pedaços de pau, dois homens segurando enormes pedaços de pau, eles correm, dois homens segurando enormes pedaços de pau vindo pra cá, o que eles querem? , pedaços de pau.

- Cadê o viadinho que tava aqui?- um homem negro, a boca cortada escorrendo sangue.

- Eu não vi, não- respondeu Ícaro.

- Não viu o quê, rapaz?

- Foi ele!- disse o homem branco que também segurava um pedaço de pau.

- Foi ele foi? Foi você o viadinho?- ele se aproximou de Ícaro erguendo o pedaço de pau, ele não vai bater em Ícaro, nós não vamos tomar uma surra, será que ele é tão imbecil? Ele está bêbado. Ícaro tá com medo, deu um passo pra trás, subiu na calçada.

- Eu não sei de nada, não, eu tava aqui- ele não consegue arranjar muitas palavras.

Encaro o homem branco que segurava o pedaço de pau. Um olhar que não era nem de ameaça nem de medo. Era uma ira plácida que intimida. Eu estava tranqüila, fria, porque não conseguia assimilar a cena que presenciava. O homem que acusou Ícaro percebeu que Wenna e eu éramos amigas dele, e sim, ele estava com a gente o tempo inteiro.

E se Ícaro estivesse sozinho naquele ponto de ônibus? E se Wenna e eu não estivéssemos lá? O que seria de Ícaro no meio de dois homens bêbados doidos pra bater no primeiro preto que aparecesse na frente? E daí se eles não sabem se é ele mesmo? Tome porrada!

Eles correm até se perderem da nossa vista. Tiros. Uns homens ao longe segurando pedaços de pau. Quem sabe?





-

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Quando eu for canção

Às vezes queria poder ser só uma canção
Porque ouvir não dá jeito
Hei de ser verso e melodia

No meio de tanto caos
Encontro uma pequena pausa pra ser canção
E viver mais do que posso
Enfim ser um sol
Fá ré mi sol

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Invocação a Joyce

Dispersos em dispersas capitais,
Solitários e muitos
Brincávamos de ser o primeiro Adão
Que nomeou as coisas.
Pelos vastos declives da noite
Que lindam com a aurora
Buscamos (lembro ainda) as palavras
Da lua, da morte, da manhã
E dos outros hábitos do homem
Fomos o imagismo, o cubismo,
Os conventículos e seitas
Que as crédulas universalidades veneram
Inventamos a falta de pontuação,
A omissão de maiúsculas,
As estrofes em forma de pomba
Dos bibliotecários de Alexandria.
Cinza, a faina de nossas mãos
E um fogo ardente nossa fé.
Tu, enquanto,
Nas cidades do desterro,
Naquele desterro que foi
Teu aborrecido e eleito instrumento,
A arma de tua arte,
Construídas teus árduos labirintos,
Infinitesimais e infinitos,
Admiravelmente mesquinhos,
Mais populosos que a história.
Teremos morrido sem haver divisado
A biforme fera ou a rosa
Que são o centro de teu dédalo,
Mas a memória tem seus talismãs,
Seus ecos de Virgílio,
E assim nas ruas da noite perduram
Teus infernos esplêndidos,
Tantas cadências e metáforas tuas,
Os ouros de tua sombra,
Que importa nossa covardia se há na terra
Um só homem valente,
Que importa a tristeza se houve no tempo
Alguém que disse feliz,
Que importa minha perdida geração,
Esse vago espelho,
Se teus livros a justificam
Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles que teu rigor obstinado resgatou.
Sou os que não conheces e os que salvas.

Poema retirado de Elogio da sombra, de Jorge Luis Borges

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Os desvairados

Ontem estava indo para a universidade na odisséia de mais um dia ordinário. Eu e o terminal, o terminal e eu. Esse é um ambiente tão sórdido, um ar de decadência, odores de comidas imundas e banheiros que a gente passa bem longe, o sol derretendo os miolos e fazendo ondas no chão. Tudo parece um fardo.

De repente, os gritos de um homem dão tapas na sucessão dos meus pensamentos. Você tome cuidado que eu sou doido, óoooi, não mexa comigo, não. Olhei pra um lado, pro outro, e nada, não havia ninguém o insultando ou ameaçando lhe dar uma surra. Aquele homem negro, com roupas sujas, as veias iradas saltando do pescoço, os passos dançando pra frente e pra trás num ritmo ameaçador, aquele homem erguia os braços e apontava para um inimigo imaginário. Diante da doidice do homem, alguns viravam o rosto para não ver, outros baixavam a cabeça com medo, e eu o observava pensando: quem é o inimigo dele?

Não podia parar de contemplar os seus delírios. A bestialidade dos seus movimentos, os olhos tinham certeza no seu olhar, não eram perdidos, eles se fixaram em alguma entidade que só o tal homem era capaz de perceber. Queria saber o que ele via, por que tinha tanto ódio da tal criatura.

Quantas vezes eu vi gente pobre que nem ele agarradas a alucinações e provocando o medo, o asco, a pena dos espectadores. Lembro-me de uma vez em que estava num ponto de ônibus perto do trabalho da minha mãe, ali na avenida Beira Mar, quando vi surgir uma mulher com os braços estendidos e os olhos desorientados no céu. Ela era um sacrifício ao deus-céu. Entregava-se à infinitude azulada, pra onde levava a sua alma e a deixava lá. Os carros indo e vindo, ela no meio da pista, mas só havia o deus-céu, e aquele abandono era um ritual que brincava com sua vida, talvez não lembrasse que havia vida. As buzinas a trouxeram de volta à pista dos homens xingando e da dor de viver as migalhas.

E aqueles que fazem pregações nos ônibus, no centro da cidade? Falam de um Deus bondoso que ama a todos nós, gritam a sua dor misturada com fé numa catarse, e fecham os olhos diante do mundo para encontrar um Deus que guarda para eles um céu com belos campos e felicidade eterna. Deus irá nos salvar. É só segurar na mão de Deus que ele vai te ajudar. Irmãos, grande e poderoso é o Senhor!

Alucinados bêbados de uma realidade atroz, quais serão os seus mundos?Quem são seus inimigos, seus deuses? Qual sua fé, sua falta de fé, seu suicídio? Novos mundos fantasiados diante de um mesmo mundo.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O gosto simples da paz

Abandonada ao sofá vermelho, diante da janela cheia de nuvens, o tempo está cinza, e há neve no meu peito. Encontro o prazer tão sutil e o mais nobre. O prazer das coisas simples. Em tempos assim, descubro que o bom da vida está em cantar na mente uma música suave, em fazer carinho na minha cadela, em dizer palavras bobas ou abraçar quem se gosta no silêncio da paz. Ah, como gosto dessa tarde que se vai escapando das minhas forças como uma leve brisa, a me furtar todas as coisas, deixando um vazio que me faz dormir igual criança.

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Palavras do Demo

Não diga palavrões, minha neta, essas palavras chamam o Diabo. O Demo gosta de quem fala essas coisas feias, ah, eu bem me lembro de uma história que Ninha Daria me contou...

Havia um velho que vivia xingando. Era porra pra lá, caraio, cabrunco, esses nomes feios. Sempre que ele tava com raiva, gritava palavrões. Você sabe, minha neta, que o Demo gosta de ódio, aí quando ele sente a ira crescendo no seu coração, ele chega mais perto pra ver se pega a sua alma e guarda no quinto dos infernos.

Então de noite, quando o Velho foi dormir, ele apagou todas as luzes e caminhou como um cego até a sua cama. O Velho não rezou, era desse povo que dorme feito bicho, parece não ter Deus. E você sabe, minha neta, que nesse mundo a gente só vive e é feliz de verdade com Deus no coração. Não confio nesse povo que diz que Deus é coisa inventada, oxe, gente assim faz mal aos outros e nem se preocupa, porque acha que não existe Deus nem o Diabo.

Ah sim, então o homem viu uma luz vindo de lá do corredor e invadindo o quarto. Ele sentiu uma tremedeira atravessar todo o seu corpo, não cabia em si de tanto medo, e não se mexia porque não havia tempo pra pensar, só pra temer. O que era aquilo, diacho? Mas se não era o Demo, o Tinhoso, o Coisa Ruim! Era um monstro enorme e peludo com dois chifres, e seus pêlos se misturavam com o brilho da luz que saía do seu corpo. Os olhos em brasa, chispando um ódio calmo, e fitando sem piscar o velho xingão. A coisa não se movia, minha neta, ficava lá parada com todo seu movimento de terror expelido pelo seu olhar perdido nos rumos desvãos. E assim mesmo metia um medo danado no Velho, que também parado se mantinha.

Mas Deus salva, minha neta. Sim, Jesus é muito bom e generoso. O Velho fez com as mãos trêmulas e com olhos mirando o céu o sinal da cruz. Quando ele voltou os olhos pro chão, a criatura não estava mais lá. Tinha rumado quem sabe pra onde, talvez pra o lugar que ela fitava, e o velho disse não ser o norte, nem oeste, não tinha direção, nunca viu um olhar daqueles.

Desde aquele dia, nunca mais o velho disse palavrão nenhum.

terça-feira, janeiro 31, 2006

A reestruturação dos limites entre o público e o privado e as saídas para o amplo debate nas democracias modernas

A atual conjuntura dos meios de comunicação de massa tem reconstituído os espaços público e privado nas sociedades modernas. Acontecimentos pertencentes à esfera privada podem vir a adquirir uma projeção pública nos mídias, assim como fatos de caráter público assumem uma midiação privatizada.

Os debates no discurso social e político atribuem dois significados aos conceitos de público e privado. Numa primeira instância, entende-se como domínio público o âmbito das empresas e organizações estatais. Na esfera privada estariam as empresas situadas numa economia de mercado e visando o lucro, como também o círculo das relações sociais. Em outro sentido, o público seria entendido como o que diz respeito a toda a sociedade, e o privado como concernente à atmosfera das relações pessoais.

Se antes os debates acerca das decisões que regiam a sociedade ficavam restritos aos governantes, desde a formação da esfera pública nos primórdios do capitalismo, os assuntos políticos transcenderam as dimensões do palácio e chegaram até a sociedade civil. A esfera pública é basicamente um ambiente privado de discussões públicas, e surgiu nas democracias modernas no ambiente dos cafés e das praças de Paris.

A esfera pública é essencial para a constituição das democracias modernas, envolvendo a sociedade civil nas decisões políticas. Alguns teóricos afirmam que os meios de comunicação de massa acabaram com a esfera pública, porque segundo essa vertente os mídias não realizam uma comunicação dialógica, sendo o fluxo de informação unidirecional, e os indivíduos estariam isolados no espaço recebendo as informações da mídia, ao contrário do que havia nos cafés, quando se encontravam num ambiente de debate de comunicação face a face. Entretanto, não é verdade que ocorreu o fim da esfera pública, pois os receptores promovem discussões acerca dos acontecimentos mediados pelos meios de comunicação de massa no âmbito das relações pessoais.

Há uma problemática na publicidade de fatos públicos nos meios de comunicação de massa. A exibição de assembléias, por exemplo, poderia impelir os políticos a um maior comprometimento com suas obrigações, já que estariam sendo submetidos à vigilância. Entretanto, um problema da midiação dos acontecimentos políticos é a espetacularização promovida pelos meios, e o mau uso que certos homens públicos fazem da publicidade midiática, usufruindo da visibilidade dos mídias em proveito próprio.

Os meios de comunicação de massa proporcionam uma grande visibilidade aos líderes políticos. A questão é que essa visibilidade pode tanto ajudar na ascensão de um líder, como no seu fracasso. O gerenciamento da projeção da imagem de um homem público pode fugir ao seu controle, e a publicidade dos mídias tem tido conseqüências incontroláveis para o exercício do poder político.

Outra questão é a midiação de fatos de caráter privado no ambiente público. É importante trazer à tona discussões antes restritas ao ambiente familiar, como a violência doméstica, para promover debates acerca dos direitos humanos. Entretanto, a exposição de acontecimentos privados no âmbito público pode servir como espetáculo que entrete as audiências usando o voyeurismo inerente às mesmas.

Para além das discussões acerca da reestruturação dos espaços público e privado, forma-se um debate sobre a constituição dos mídias, e se os meios de comunicação de massa devem ser estatais ou regidos por empresas privadas. A teoria liberal foi desenvolvida por teóricos como John Stuart Mill, James Mill, e Jeremy Bentham, e seus pressupostos se baseiam na defesa de uma imprensa livre das influências do estado para que haja múltiplos pontos de vista. Os meios de comunicação de massa seriam uma espécie de Quarto Poder capaz de vigiar as decisões dos líderes políticos e mediadores da relação entre o Estado e a sociedade civil. Para isso, os meios de comunicação de massa deveriam ser privados.

Thompson estabelece os limites da teoria liberal. Segundo o autor, há três problemas nessa teoria. Primeiro, ela não considera o perigo da comercialização e crescente concentração dos meios de comunicação de massa. Além disso, a teoria liberal foi pensada no contexto histórico do século XIX, e não abarca devidamente a conjuntura das novas tecnologias. Há também a problemática dos limites da liberdade de expressão nos meios.

As empresas de comunicação de massa se situam numa economia de mercado e são regidas pela busca do lucro. Essas empresas carregam os atributos de qualquer empresa situada dentro do modo de produção capitalista. A informação é oferecida como produto, e o receptor é consumidor desse produto. Tanto que o feedback dos receptores se restringe à esfera do mercado, na valorização da audiência enquanto consumidores potenciais. Os mídias perdem assim o compromisso com indivíduos enquanto cidadãos, e com a informação enquanto direito dos cidadãos situados nas democracias modernas.

A tendência atual das empresas é a oligopolização no contexto do capitalismo tardio. Se um dos pilares do modo de produção capitalista é a livre concorrência, ele vem sendo destronado, levando em conta a formação de holdings na economia global. Essa realidade não é diferente nos meios de comunicação de massa, que apresentam uma crescente concentração, adquirindo dimensões até globais.

Thompson entende que os meios de comunicação de massa devem se manter afastados do Estado para se constituírem enquanto vigias do exercício do poder. Entretanto, a comercialização dos mídias não permite que haja um compromisso com os receptores enquanto cidadãos, e, além disso, muitas empresas de comunicação de massa estão nas mãos de líderes políticos.

Outro problema da teoria liberal é que ela foi pensada no século XIX, e não abarca as novas tecnologias da comunicação, como a televisão e a internet. Além disso, ela não considera o problema da liberdade de expressão nas empresas de comunicação, levando-se em conta que boa parte dos meios são ligados a políticos. Os pensadores liberais acreditavam que as restrições aos meios deviam ocorrer só quando veiculassem informações de conteúdo danoso para os receptores. Entretanto, essa teoria não considera que muitas vezes informações de cunho político são censuradas em nome da defesa da moral e dos bons princípios.

O autor trata do serviço público de difusão, trazendo como foco principal o exemplo da BBC de Londres. Segundo Thompson, o problema da estatização dos meios de comunicação encontra-se na concentração dos mídias nas mãos de uma elite burocrática, na dificuldade em estabelecer cobranças quanto á administração dos governantes, e o obsoletismo que o serviço público de difusão pode adquirir em face das novas tecnologias da mídia.

No caso da BBC, a rádio era controlada por um pequeno grupo da elite do país. A programação era formada por programas ditos de alta qualidade, o que implica um certo paternalismo cultural. É oferecido à população o que a elite, o que o Estado considera como produtos culturais de alta qualidade. Além disso, o serviço de público de difusão implica certa cumplicidade dos meios perante o Estado.

O serviço público de difusão apresenta dificuldades de se manter no contexto da globalização. No caso da BBC, o governo não pôde impedir as transmissões de rádios piratas. Outro problema desse serviço, é que ele é voltado para todo o território nacional, ignorando muitas vezes questões locais em nome de questões nacionais.

A saída para a formação de um debate comprometido com os cidadãos e livre das interferências do Estado seria, segundo Thompson, o pluralismo regulado. Os meios de comunicação de massa devem pertencer ao domínio privado, entretanto, é preciso haver uma regulamentação que evite a grande concentração das empresas de comunicação. O que o autor defende não é a livre-concorrência, e sim a multiplicidade de idéias. Não é a oferta de diversos produtos ao consumidor, e sim de diferentes pontos de vista para o cidadão que tem direito de saber sobre as decisões do exercício político, na formação da esfera pública essencial na constituição das democracias nas sociedades modernas.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Eu não sou jornalista

No dia de hoje, a tristeza me invade
Não há lirismo nas páginas de um jornal
Eu que não sei ser objetiva, neutra, imparcial

Sei que na poesia não há verdade
A verdade do jornal

Na poesia há liberdade

domingo, janeiro 29, 2006

A dança do universo

Guardem os seus relógios
Que agora é hora de sonhar

Povos antigos em volta da fogueira
Não usavam relógio para o tempo contar
Olhavam a lua e o sol
Para ver o universo dançar

A areia do tempo
Cai no deserto
Das miragens do vento

Onde tudo volta
Para o mesmo lugar

Banharemos-nos no rio dos imortais
E a água que vem é a água que sai

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A menina descendo as escadas

Ana corre pelas escadas e vai até o carro. Aquele homem gordo de cabelos brancos era seu pai. Ele a esperava com os braços cruzados e o semblante confuso e medroso. Quem era aquela mulher de vestido esvoaçante que lhe surgia das escadas? Por onde ela andava?

Um abraço meio sem jeito. Filhota, que saudades, seis anos, como você cresceu! Vamos ao shopping?

Tá vendo, Marcos? Essa aqui é minha filhona, não é bonita? Leve a gente ao shopping. Ana descobre a fuga na janela do carro, tudo menos os olhos do pai, por que ele me abraça, eu não o conheço, pare de fingir que esteve o tempo todo comigo, você estava longe. Um estranho, meu Deus, como é possível ter um laço tão forte com um estranho, e eu tenho o mesmo nariz, mas quem é ele?

Ele caminha pelo shopping abraçado a ela, mostra para os conhecidos, vejam, essa é minha filha, não é bonita? Ele a mostrava como uma boneca, e ela se comportava como uma boneca nos braços dele. Deixava-se levar, com sua graça exposta em risos sem vida e olhares sublimes repletos de ausência.

Tantas recordações ele trazia. Às vezes você ficava insistindo pra que eu comprasse um brinquedo, você sempre foi muito teimosa. Ainda é assim, né? Eu dizia, filha, não tenho dinheiro não. Aí você perguntava, mas tem cheque? O riso suado na face gorda, a mão batendo na barriga. Ele sempre teve essa barriga enorme, às vezes eu subia nela quando era pequena e dizia que era uma montanha, como adorava fazer isso.

Ele só fala de coisas do passado, e com tanta intimidade, como se me conhecesse muito bem, mas você não sabe quem eu sou, você só conhece o meu passado, onde estava durante todos esses anos? Onde estava quando vomitei por toda a madrugada no balde de junto da cama, e minha mãe não dormiu cuidando de mim? E quando passei no vestibular? Você nem ligou para dar parabéns, e mamãe, ah, mamãe chorou de felicidade com aqueles olhos de eu lhe quero tanto bem. Não me conhece, não sabe quem é essa mulher que pega e abraça como se amasse, mas o amor não cabe num abraço. Eu sou só lembrança, uma criança que se esvaiu pai, ela não existe mais.

- Olhe só, essa é minha filha, não é bonita?

quinta-feira, janeiro 26, 2006

As profundezas

Você já mergulhou nas profundezas dos mares que habitam a alma, e depois subiu seguindo uma luz distante?

O sol penetra o vidro vermelho da janela, o sol vermelho das frestas envolve o corpo de Cristo pendurado na parede. Posso sentir a minha respiração ofegante cantar para o Cristo de prata.

As pratas da minha avó, guardadas todas em seus devidos lugares. E as panelas? Eu nunca sabia onde colocar as panelas, e odiava lavá-las, cheias de sujeiras difíceis de tirar.

A sujeira. Tudo em mim parecia sujo. O corpo prateado de Jesus. Minha neta, leia este livro sobre um santo, você vai ser uma santa, Deus lhe faça uma santa, sim.

As portas se fechavam na noite e eu delirante em meus pensamentos, as imagens espectrais da casa escura me enfeitiçando. Angústia. Não posso dormir sozinha, e essa escuridão, acenda a luz do corredor pra mim, por favor? O corredor iluminado, e a sala lá longe onde a visão falecia pela lâmpada apagada.

O vento canta em sussurros a ânsia. Uma janela e tantas estrelas.

O enterro de um homem, eu nunca vi esse homem na minha vida. Eu, Roberta, Tiago, todos choramos a morte do homem azul, todos os mortos são azuis.

De repente, o homem se acorda. Vocês vão para o inferno, aguardem Roberta, Tiago, e Maria. Queimarão no fogo do inferno para todo sempre, eu guardo as suas almas em potes de prata num depósito de almas fechado por vidros vermelhos.

Minha mãe aparece no enterro. Maria, o demo se apossou do corpo do Zé, filha, é o demo!

Não, eu não vou arder nas profundezas do inferno, não, não!

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Palavras de um rosto anônimo dedicadas a um homem e seu cigarro

O que você vê quando se perde no horizonte
É você mesmo
E você está indo pra onde?

Caminhando a passos largos
Esses passos inseguros
Você não olha para os lados
Mas seu andar é tão confuso
A quem você quer enganar?

Respirando um cigarro
Porque o ar está te matando
Quando dá baforadas
Parece o dono do mundo
Deus tem medo do mundo?

Você tem medo de quê?
Por que mexe tanto as mãos?

Você dá risada de tudo
Mas parece nem ouvir
No que você está pensando
Que te faz rir assim?
Esse riso amargo

Tão angustiado
Quando fala sem parar de qualquer coisa
Por que somos tão banais e poesia é futilidade
Deus não existe e não há verdade
Você é o seu herói
E os anti-heróis são imortais

Quando vou passar por você nas ruas da cidade?
Andando a ignorar
Rostos desconhecidos e paisagens sem sentido
Só há você perdido num mundo vazio e ninguém mais
Ou há um mundo perdido com você vazio e tudo o mais?