sexta-feira, junho 16, 2006

Vapor barato


Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey

Minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu quero esquecê-la, eu preciso
Oh, minha grande
Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby, honey baby, ah


Trilha sonora de Terra estrangeira, de Walter Salles

quinta-feira, junho 15, 2006

Ser gente

Toda essa gente
Eu como gente
Eu quero gente
Odeio gente
Eu amo gente

Filosofia, antropologia, sociologia
Psicologia, a gia a gia
A ciência
E a crença
Prosa, poesia

Eu como gente
Eu quero gente

Olhar nos olhos, chegar mais perto
Tenho mãos feitas para o afeto
Gosto do que sente e é humano
Do que inventa e não sabe
Profano

Eu tenho amor fati
Amo tudo o que está vivo
Até mesmo a dor
Até mesmo a dor
E alegria, alegria
Porque mais do que ser contente
Eu sou gente
Eu vivo, eu vivo

Quando eu morrer
Que me façam outra
Pra cair na terra saindo debaixo do chão
Porque não vou pro céu

Eu ser
Um ser vivo
Ser bruta
Todo ser vivo homem
É ser bruto: agressivo, atrevido, cavalo, desaforado
Bruto
E vivo

São tantas emoções

Faz tanto tempo que não me apaixono por uma banda. Fazer declarações de amor absurdas e dizer, essa é a música da minha vida, é pra sempre, eu sei. E que seja infinito enquanto dure.

Cara, eu quero me apaixonar por uma banda!

Nunca mais

- Essa é a última vez que a gente vai ser ver. Tá ouvindo? A última! É a última vez que a gente se vê na vida!

Voltei os olhos para trás, e vi uma camisa laranja, mal perebi o rosto do homem, virei-me de novo, e permaneci esperando a minha amiga no terminal. A mulher nada disse. Que diálogo estranho de se ouvir. Coisas da vida.

terça-feira, junho 13, 2006

Radiohead


Estava pensando em como descobri o Radiohead e, veja só, não é uma história fabulosa. Eu simplesmente loquei The Bends na CD Club. Não, pior, a primeira vez que ouvi a banda foi num comercial, e quando a minha professora botou pra tocar na aula de inglês As long as you love me e Fake Plastic Trees, eu gostei mais da música dos Backstreet boys. Sim, eu me tornei fã dos Backstreet boys ouvindo a Jovem Pan, e tinha posters, vídeos, e sabia a comida preferida de cada um. Todo mundo já fez merda na vida, né?

Quando loquei The Bends, na época já começara a curtir rock graças a Jim Morrison, e me apaixonei de cara. Ouvir o dia inteiro, adormecia escutando Radiohead. Depois foi o Ok computer, e gostei mais ainda, prefiro a fase mais eletrônica da banda.

Dizem que Radiohead é "depressivo". As músicas podem até ser tristes, mas me sinto bem pra caramba quando escuto, e canto com os olhinhos brilhando.

Cinco anos depois, Radiohead ainda é minha banda favorita. E meu irmão só veio descobrir a banda agora, fuçando minhas MP3, mesmo ouvindo há anos a música deles aqui em casa.


Tom Cruise em Vanilla Sky, bota o CD pra tocar no carro e diz: "This is Radiohead". Everything is in its right place...

Lindo, gostoso! Tá, eu sou fútil :P

Top 11

*Let down
*Karma police
*Optimistic
*There there
*Exit music (for a film)
*How to desapear completely
*The National Anthem
*Paranoid android
*Nice dream
*Bullet proof... I wish I was
*You and whose army

De mulher pra mulher... Marisa!


Numa revista feminina da minha mãe...


“Venci o câncer duas vezes com cirurgias espirituais”
*
Você mede menos de 1,70m?
Corpo mais esbelto* Pernas mais longas* Auto-estima mais alta* Atreva-se a vencer nas melhores profissões* Vista com elegância* Conquiste a admiração e respeito das pessoas!

AUMENTE SUA ESTATURA

Se você não aumentar pelo menos 5 cm em 30 dias, eu devolvo seu dinheiro na hora.

Imagine-se com 15 cm a mais de estatura!
*
Solução definitiva para as rugas

Conheça a cirurgia que retira os músculos da testa e das laterais dos olhos.
*
SEDUÇÃO A FLOR DA PELE

Você sabia que a visão de uma imagem é o maior estímulo de um homem? E que eles não conseguem resistir a uma roupa sexy? Não deixe que ele VÁ BUSCAR EM OUTRA o que você já pode ter em sua casa. A linha de fantasias Mais Pimenta foi desenvolvida após anos de pesquisa em vários países.
*
FUI VÍTIMA DE UMA SUBSTÂNCIA MÁGICA

Veja estes depoimentos:

“Sentia que ele não me amava mais, e, apesar de todos os esforços que fiz, tinha a impressão de que ele era indiferente comigo, não percebia minhas novas roupas ou meu novo corte de cabelo. Uma amiga havia me dito desse perfume, quando recebi este perfume e coloquei algumas gotas em meu corpo... nunca pensei que um perfume fosse capaz de tal transformação, meu marido me desejava como em nossa lua de mel”.

Responsabilidade:

Você deve ser responsável pelo uso do perfume, nós não nos responsabilizamos por abusos ou violações pessoais, caso queira ter o poder da sedução.


Revista Malu, 8 de junho de 2006

segunda-feira, junho 12, 2006

A beleza do crime

Passo depois de passo ela desce rente aos meus olhos sem saber da vontade que me guarda. As escadas do meu prédio não têm fim ao meio dia, e ela, com seu corpo frágil deslizando na tarde quente, me parece um objeto inócuo perfeito para ser jogado escada abaixo. O meu pé nas suas costas, as coisas das suas mãos voando pro ar, e a saudade de toda a vida passando pelos olhos dela, que derramados no chão de sangue param de sonhar. Morte. Fim. Olá, boa tarde. De nada, não ia deixá-la com essas sacolas.

Não consigo entender esse meu desejo de matar. Nunca matei, homem covarde, reserva de peladas, menino protegido pela irmã, jamais me meti a espancar ninguém. Olhando para a faca que com o rapaz corta o coco, me dá uma gana de botar a cabeça dele na borda da mesa e corta-la como um coco, e ver sair água de sangue.

Sempre presto atenção quando as pessoas estão vulneráveis. Sabia que confiamos infinitas vezes uns nos outros todos os dias? Quando você entra num táxi, você confia no taxista, porque quem lhe garante que ele não vai estourar seus miolos e te deixar na casa de deus. Penso frequentemente sobre as minhas situações de vulnerabilidade. E imagino mil formas de matar.

O pânico guarda uma arma calibre 38 debaixo do meu travesseiro. Se for hora de acordar, eu me assusto com o despertador. Há tudo para temer. Só abro a porta olhando por entre a corrente. Talvez um dia me matem quando eu estiver desprevenido e aí vai ser a maior sacanagem da história.

A criança pequenininha me pede:

-Tio, dá pra você me ajudar - e me estende as mãozinhas enquanto a porta aberta do ônibus chama a rua para entrar.

Eu não poderia simplesmente empurrá-la escada abaixo?

domingo, junho 11, 2006

O senhor é meu pastor, nada me faltará...


- Se você está sentindo dores de cabeça, insônia, ansiedade, se nada na sua vida parece ter solução, ah, meu amigo, você está com encosto. Venha para a sessão do descarrego nesse domingo na igreja...

Quantas pessoas no Brasil vivem ansiosas e passam a noite em claro pensando nas contas a pagar, têm dor de cabeça de tanta preocupação, e às vezes se sentem como se estivessem num beco sem saída? Me diga vá?

Seu Zé fica esparramado no sofá depois de um dia inteiro dando duro no batente e andando em transportes coletivos cheios de sovacos, quer qualquer diversão o mais imbecil possível, ou quer que dinheiro caia do céu, ou ir logo pro céu porque isso aqui é um inferno, Seu Zé pensa: Eu só posso estar com encosto! Claro que nem todo mundo é besta, mas Seu Zé está realmente, eu digo realmente desesperado, eu digo a ponto de vender o cu por cinco reais e um passe.

O que não falta por aí é Seus Zés. Dona Josefina diz que no seu bairro o povo adora deixar dinheiro nessas igrejas sem vergonha, ela esfrega esfrega a roupa, e passa a mão cheia de calos no rosto suado de cansaço. É, minha fia, eles mandam ir pra fila, quem for doar 50 reais... quem for doar 10... e quando você não paga o dízimo eles botam um risco vermelho no seu nome. Minha avó dá boas risadas e diz, mas repare, hoje em dia é tudo coisa do demônio, coitado, nem sabe de nada.

Quer ficar rico
faça uma igreja
nesse mundo capitalista
até Deus
até Deus, meu Deus!
é empresa.

quarta-feira, junho 07, 2006

Mestre Tom Zé


Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?
*
De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói,
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de nada,
eu não sei de nada.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo apanhar,
querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.
Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até fraco,
eu sou até fraco.
*
Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.
*
Na vida, quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
*
Em muitos países do mundo a garota
Também não tem o direito de ser.
Alguns até costumam fazer
Aquela cruel clitorectomia.

Mas no Brasil ocidental civilizado
Não extraímos uma unha sequer
Porém na psique da mulher
Destruímos a mulher.
*
Filha da prática
Filha da tática
Filha da máquina
Essa gruta sem-vergonha
Na entranha
Não estranha nada

Meta sua grandeza
No Banco da esquina
Vá tomar no Verbo
Seu filho da letra

Meta sua usura
Na multinacional
Vá tomar na virgem
Seu filho da cruz.

Meta sua moral
Regras e regulamentos
Escritórios e gravatas
Sua sessão solene.

Pegue, junte tudo
Passe vaselina
Enfie, soque, meta
No tanque de gasolina.
*
O amor é velho, velho, velho
e menina.
O amor é trilha
de lençóis e culpa
medo e maravilha.

O tempo a vida lida
andam pelo chão,
o amor aeroplanos
O amor zomba dos anos,
o amor anda nos tangos,
no rastro dos ciganos,
no vão dos oceanos.

O amor é poço
onde se despejam
lixo e brilhantes:
orações, sacrifícios, traições.
*
Esta noite não quero saber de conselho
esqueça, deixe pra lá
me arranja um pecado
quente pra me consolar
pense bem que depois
tem o ano inteiro pra gente pagar

Cinqüenta gramas de amor
veja lá, é um bocadinho
vinte gramas até,
venha cá, é tão pouquinho.
Eu vou morrer se você
não quiser
me arranjar um pecadinho.

segunda-feira, junho 05, 2006

O amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis Vaz de Camões

O homem faminto

O poeta disse ao morador de rua
Que ia lhe escrever um poema
E lhe perguntou se tinha uma história de amor pra contar
O morador de rua disse que tinha fome

O jornalista disse ao morador de rua
Que estava fazendo uma matéria
E perguntou se foi ele quem roubou gente de bem, séria
Ele que vivia embaixo da ponte
O morador de rua disse que tinha fome

E ao ser preso o morador de rua pensou que não sabia
Não entendia esses homens
De letras, de armas, de bens
E disse que tinha fome
Todas as fomes.

sábado, junho 03, 2006

Toda unanimidade é burra?

Na aula de redação na oitava série, a professora explica:

- Senso comum é o que todo mundo diz, é clichê, afirmação generalista e sem embasamento. Um exemplo é aquela velha frase "Políticos são todos ladrões". Para escrever uma boa dissertação, vocês devem fugir do senso comum, procurar se embasar para levantar argumentos fortes.

Depois de anos e anos de estudo, eu regresso à sabedoria popular.

Políticos são todos ladrões.

sexta-feira, junho 02, 2006

Penso, logo, existo

Eu me cansei da ciência,
e dos seus títulos, seu método,
e dos seus méritos.

Talvez não fosse necessário escrever.
Talvez.
Nem ler, nem ser nada além da paisagem.
Nada que se volte para dentro.
Nem pensar sobre as coisas do mundo.

Expressar todo o inconformismo contra as relações de poder em palavras escritas não é contraditório?
Bradar contra a racionalidade através da filosofia não é contraditório?
E o que tem o cão, a vaca, a rã, com a filosofia?
E como quer o homem melhorar o mundo com seu conhecimento
se o conhecimento é o câncer da humanidade e o que tornou a humanidade o câncer do mundo?
O conhecimento, com que nós edificamos o progresso, sim, nosso belo progresso,
Da alquimia que transformou o sangue em ouro

Esse conhecimento para nós, pequenos burgueses,
acharmos que fazemos alguma coisa.
Essa tal sabedoria, que se volta contra a falsa consciência,
mas não é ela mesma falsa consciência quando confunde o saber com agir?
Ela não se deita sobre um livro e dorme comida pelas traças?

Mas como destruir a razão usando a razão?
E o que estou fazendo dizendo essas palavras?

Queria ser bicho, coisa misturada à Natureza.
Mas já nasci homem.
No masculino é a espécie
E só sei de que nada sei
mas não seria preciso não saber de que nada sabe?
o rato não sabe de que nada sabe
a ele não interessa.

quinta-feira, junho 01, 2006

Lisbon revisited

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

quarta-feira, maio 31, 2006

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

sábado, maio 27, 2006

Tem dias que eu fico pensando na vida

Hoje eu me fiz umas perguntas estranhas andando pela cidade. Sabe, aquele clima estou num clipe dos Rolling Stones, e bate até uma vontade de fumar um cigarro. É, mas eu fumo raramente, e a cidade não era feia ao ponto de ser underground, nem era bela para dar o ar de elegância. Era apenas Aracaju, e Aracaju é sem graça.

Enquanto fitava o meu sorvete de graviola com cobertura de chocolate, combinação estranha por sinal, eu me lembrei de um filme. Em Pierrot le fou, um homem pergunta a Ferdinand se ele estava ouvindo uma música. Ferdinand diz que não. Ele insiste, como é possível!, e manda Ferdinand chamá-lo de louco se não ouvia nada mesmo. Ferdinad diz que ele era louco. O homem se exalta, ergue os braços, até colocar as mãos na cabeça como um vencido. Ele havia ouvido aquela música durante a vida inteira e ela simplesmente não existia?

E você, já se sentiu alguma vez assim? A gente vive de crenças, há pessoas que se matam porque não acreditam em mais nada, há aqueles que se vestem com bombas porque crêem num céu cheio de virgens. Então imagine você acreditar numa coisa e, pá, ela não passa de uma mentira, ou coisa que ninguém aceita, ou algo impossível de se realizar. Pô, como eu sou idiota, ah, mas eu devo ser muito, muito idiota mesmo!

Depois eu me lembrei do Mefistófeles, o demo. Ele fez a seguinte proposta a Fausto: se em algum instante Fausto se sentisse plenamente feliz ao ponto de querer que ele fosse eternizado, Mefistófeles tomaria a sua alma. Eu fiquei matutando no ônibus, hum, me deixe ver, tem algum momento que eu faria pára, pára tudo, aqui tá bom, eu quero ficar assim pra sempre? Lembrei de coisas muito boas, e é incrível como a idéia de eternidade não me incomodava, eu não pensava poxa, saco isso, tá, eu tô feliz, mas dá pra mudar o disco? Eu aceitaria ter aquelas coisas eternizadas, só não prometeria a minha alma a ninguém por isso.

Sei lá, coisas da vida. É nessa hora em que a gente deixa a conversa pra lá e volta a falar de qualquer coisa. Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão...

sexta-feira, maio 26, 2006

Cinema e sonho


Freud trata o sonho como um lugar do desejo, da identificação, e da projeção. O cinema também é. No sonho, a projeção se dá no fato de todos os personagens terem relação intrínseca com o indivíduo que sonha, pois é ele quem elabora as ações deles por processos psíquicos inconscientes. Na situação fílmica, o espectador se projeta nos personagens do filme, e às vezes torce por eles. Se no cinema o espectador se projeta e se identifica com personagens representados na tela, no sonho o indivíduo se projeta e se identifica com personagens criados por ele mesmo.

A situação fílmica tem um caráter de narcisismo e de voyeurismo. O espectador se coloca enquanto personagem principal e sujeito daquelas imagens, como se o olhar na tela fosse o seu olhar, e não o da câmera. Ele é voyeur, pois contempla o filme como se espiasse uma realidade com sua lente onipresente. Binóculos a postos, o espectador se mete em todas as situações e sabe o que o assassino está tramando, mesmo que os personagens do filme não façam a mínima idéia.

A sucessão das imagens na tela se assemelha à forma como as representações do pensamento fluem. Um olhar no interior sobre fantasias, lembranças, idéias, se desenvolve como um filme elaborado pela psique. Um filme que nós inventamos com nossa memória, recriando os acontecimentos de acordo com nossa subjetividade, ou quando realizamos desejos que não estão ao nosso alcance na realidade imediata. A diferença entre o olhar do sonho e o do cinema é que na situação fílmica o indivíduo entra em contato com um material perceptivo real, enquanto no sonho ele desenvolve representações mentais. No cinema ele olha para a tela, no sonho ele vê de olhos fechados as figuras do seu inconsciente.

Tanto no sonho quanto na situação fílmica, os indivíduos podem vir a confundir realidade e fantasia. Parafraseando Guy Debord, o espetáculo é real, e o real é espetáculo. Alguns fecham os olhos por não suportar ver o sangue, outros gritam de medo, há aqueles que choram na sala do cinema. Saber que está vendo uma película não impede que o espectador confunda o real com o imaginário no momento em que ele se encontra envolvido com o filme. Seria como quando um indivíduo de repente descobre que está sonhando, mas se deixa levar pelos seus desejos, fenômeno chamado por Freud de sonho dentro do sonho.

Por mais que um filme apresente imagens absurdas, ele sempre terá mais lógica do que um sonho. Em Um cão andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dali, as seqüências que pareciam ter alguma lógica eram refeitas para que as imagens tivessem um caráter onírico. Buñuel e Dali eram surrealistas e, portanto, tinham intenções claras de promover a libertação do homem reprimido pelos ditames da civilização, e buscavam a contestação da racionalidade e exaltação da irracionalidade. Mas essa busca pela falta de lógica não seria uma outra forma de lógica ao invés da ausência dela?

Ver um filme é algo semelhante a sonhar acordado. Sonhos são espécies de filmes produzidos pela nossa inconsciência, e filmes são como sonhos exteriores a nós. Então acaba o filme, as luzes se acendem, demoramos um tempo para nos recuperarmos da hipnose das imagens, e saímos da sala como se estivéssemos acordando.

Imagem: Um cão andaluz, 1929.

quinta-feira, maio 25, 2006

E eles descansaram

Eu procurei os espaços nas estrelas
Pra eu caber dentro de mim
Você entrando no meu corpo
E a grama arranhando meu corpo
Com a ardência sutil da terra
Eu sou da terra
A mulher de barro
Sou seu peito, seus braços, muito mais que sua costela
Você sendo arranhado como um desgraçado pelas minhas mãos
Para no big bang do orgasmo
Explodirmos numa nova criação

quarta-feira, maio 24, 2006

Uma canção que parece lembrança da infância

Quando você precisar
Ligue pra mim pra conversar
E se eu algo te machucar
Vê se toca um violão
E toque aquela canção
Que parece com lembrança da infância

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

Quando parecer que não há
Faça um cafuné em quem você ama
Não pense em você
Olhe pro mundo
Veja que o mundo é bonito e injusto
Então faça alguma coisa pelo mundo

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

terça-feira, maio 23, 2006

Aula de Português

Diga se quando você era guri não fez isso...

A professora- Cê a, ca, cê e, ce, cê i, ci...

Guris- hihihi

A professora- cê o, co, cê u...

Guris- Cuuuu!!!

segunda-feira, maio 22, 2006

Da História

Ele deu um passo à frente e parou junto à mesa. Seu maxilar inferior pendeu um pouco para o lado em dúvida. É isso a velha sabedoria? Ele espera ouvir alguma coisa de mim.

- A história- disse Stephen – é um pesadelo do qual estou tentando despertar.

Do campo de esporte dos meninos ouviu-se um grito. Um apito estridente: gol. O que aconteceria se esse pesadelo desse um pontapé de volta na gente?

- Os caminhos de Deus são os nossos- disse o Sr. Deasy.- Toda a história da humanidade se move em direção a um grande alvo, a manifestação de Deus.

Stephen sacudiu seu polegar em direção à janela, dizendo:

- Isso é Deus.

Hurra! Ai! Rrhiiiii!

- O quê?- o Sr. Deasy perguntou.

- Um grito na rua- respondeu Stephen, sacudindo os ombros.


Do capítulo Nestor, de Ulisses, de James Joyce.

Essa é, certamente, uma das passagens mais bonitas do livro. Não se trata para mim de um livro difícil e grande que esnobo ter lido. Mas de uma obra que me fez rir (sim, rir, há coisas engraçadas!), chorar, que me emocionou como nenhuma outra. E não acredito que só uns poucos privilegiados “intelectuais” possam lê-la. Basta ter sensibilidade e se envolver com um narrador que brinca com você. Porque assim como a história não é feita somente pelos grandes personagens, pela classe dominante, mas é feita por todos nós, como afirma Stephen, a arte não pertence a uma elite, senão não é arte, é propriedade. A arte é libertação. Recomendo.

domingo, maio 21, 2006

Mesmo que seja bizarro

Quando eu era mais novinha, uma amiga que eu achava o máximo vivia dizendo pra eu ser mais falante, pra marcar presença, pra eu ser mais legal, porque eu era uma pessoa bacana, mas não tinha muitos amigos.

No começo eu concordava com esse modelinho idiota. Mas, mesmo tendo em mente como eu deveria agir, eu simplesmente travava. Tinha aquele impulso de falar e... sabe? Chegava numa festa e não conseguia me entrosar com os amigos dela porque não fazia a mínima idéia do que eles estavam falando. Era tão dissonante que eu não tinha referência nenhuma sobre um assunto pra tratar. Também não era interessante, pelo menos pra mim. Então eu me encostava num canto e começava a conversar com alguma pessoa que também estivesse sozinha olhando pro horizonte segurando um copo de bebida e encostada na parede mais próxima. Conheci pessoas maravilhosas assim.

Minha amiga ficava com os carinhas mamãe-sou-bonitinho-veja-só-que-fofo-toco-numa-banda-sou-cabeludo-e-tenho-carro, e eu ficava na minha. Ela dizia que pra ficar com um cara “massa” era pra eu rir do que ele falava. Oxe, minha fia, ria, o cara se liga quando a menina fica rindo demais, ah, sabe, isso quer dizer alguma coisa. Às vezes eu a via rindo o tempo todo enquanto conversava com um carinha que ela mesma dizia que era paia. E depois fiquei me perguntando como é possível achar que só porque eu tô rindo eu tô a fim de alguma coisa? Também fiquei preocupada, afinal, eu vivo rindo. Pelo menos a minha forma de rir é escrota o suficiente para ser broxante.

Aí um dia eu mandei pra tonga da mironga do kabuletê. Sabe de uma coisa? Quem disse que uma pessoa tem que viver falando com todo mundo? Sabia que existem pessoas tímidas quietinhas no seu canto e com poucos amigos que são muito legais? Caramba, eu sempre fui amiga dos gordinhos, dos feios, dos gays encubados com vergonha de si mesmos, dos negros isolados na escola que só tem branco, e os adorava. E, não sei, mas a idéia de rir forçado de qualquer merda que um imbecil metido a besta fala pra mim me incomoda bastante.

Comecei a achar paias as pessoas que ela dizia que eram legais. Depois refleti melhor e pensei que eles também deviam me achar paia, então, quem tava com a razão? Sei lá, paia é um conceito relativo. Cada um na sua, e o importante é que você seja você mesmo, mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro, que nem naquela música insuportável da Pitty.

Moral da história:
Pessoas excluídas são mais legais?
Pessoas pops são paias?
No mundo só tem gente paia?

Não tem moral. Todos somos bizarros.

Pensamento do dia:

Feliz aquele que fala muita merda e joga dominó.

sábado, maio 20, 2006

Compre batom, compre batom

Eu no supermercado quando tinha uns seis anos...

- Paaaiii, eu quero essa Barbie!

- Não vai dar, filha.

- Por quê?

- Tô sem dinheiro.

- Tem cheque?

quinta-feira, maio 18, 2006

Um corpo que cai


Isso pode parecer loucura ou seja o que for, mas eu sempre sonho que estou caindo. Sempre. É uma coisa que me incomoda muito, porque fico assustada e acordo completamente desnorteada.

Eu acordo com a sensação de que ia cair de algum lugar, mesmo que esse lugar simplesmente não exista. Eu fico "caindo sobre a cama", mas já estava nela. Dizem que essa sensação é provocada por um estranho fenômeno. A minha alma teria ido passear e, quando retorna, provoca a sensação de uma queda no momento em que está entrando no meu corpo. Estranho né?

Realmente sinto algo parecido com isso. Sim, apesar de como é possível dizer que tal coisa parece uma alma entrando no corpo? (sem piadinhas infames, hehe, alma não tem pau, suponho). É como quando a gente come alguma coisa ruim e diz que tem gosto de merda, mesmo sem nunca ter comido merda.

Eu não acredito nessa história da alma não, mas vou fingir que acredito porque assim é mais divertido.

quarta-feira, maio 17, 2006

Life is not a party

Chega um tempo em que tudo na vida é suado e só se consegue as coisas com muito esforço.

Por que as pessoas têm que construir alguma coisa?

Isso é uma merda. Eu quero mais é dormir.

Sabe de quem eu sou fã? Dos poetas vagabundos, dos jecas que deitam na rede, dos índios, dos hippies. E daí se você lutou pra caramba pra construir o seu império? Foda-se.

Tudo que eu quero é sossego!
Tudo que eu quero é é sossego!

Senhor cidadão


Emily - O que as pessoas vão pensar?

Kane - O que eu quiser que elas pensem.


Diálogo entre Charles Kane, dono de um império de meios de comunicação de massa, e sua esposa, Emily, sobrinha do presidente dos EUA, em Cidadão Kane, de Orson Welles.

terça-feira, maio 16, 2006

Ser e sentir

Às vezes por sentir demais
Eu não existo
A vasta distância entre mim e tudo mais
É a aproximação intensa dos sentidos

Ser não é sentir
Sentir não é ser
Ser é estar no mundo
Sentir é ser o mundo
O meu mundo
Que vive das mortes do meu ser

Esse ser que é muito mais do que existir
Mas não está
Apenas é qualquer lugar que não existe

segunda-feira, maio 15, 2006

Algum lugar

Não me venha fazer promessa
Que história é essa?
De dizer que não há vida sem mim
Você sabe que quando uma história começa
Com muita pressa
Num instante chega ao fim

Cada coisa no seu lugar
Cada palavra no seu tempo
Esteja agora onde você está
Não vá procurando outros momentos

Não venha falar que me ama
Você só ama
A mulher com vontade de existir
Pode brincar com os lençóis da cama
E os travesseiros
Só não pode me olhar assim

Eu nunca esperei você chegar
Você apareceu como se sempre fizesse falta por aqui
Estou indo embora pra onde você não está
Mas em todo lugar
Tem algo de que você gosta e que te fazia rir

Nos sinais
Nas árvores
No outro lado da rua
Nos braços
No toque
No outro lado da lua

sexta-feira, maio 12, 2006

Com a palavra, Vinícius de Moraes


A tonga da mironga do cabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
*
A terra prometida

Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz
*
Em algum lugar

Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz

segunda-feira, maio 08, 2006

Amor- pois que é palavra essencial


Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clítoris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, maio 07, 2006

Saló


Não há volúpia mais lisonjeante do que o privilégio de classe.

Filme de Pier Paolo Pasolini

Boa viagem

Ela jogou o lenço
Disse adeus
Ergueu os braços
Chorou segurando o terço

Há tanta gente
Toda essa gente que veio
Olhavam para ela
Ela sentiu que eram desejos de felicidade
E boa viagem!

Ali meu marido
Minha mãe
Meu pai
Meu filho
De quem se despede
Moça de vermelho?

De todos, não está vendo?

sábado, maio 06, 2006

Não é fácil

não é fácil
nunca foi fácil
entregar as coisas que revestem os sonhos da gente
procurando as partes em volta do mundo
como fragmentos perdidos nas causas sem rumo
não é fácil
nunca foi fácil
ser o outro e ser alguém mais
e ter certeza de que tudo isso já trás
tanta felicidade

e bem, não é verdade
mas isso a gente só descobre quando tudo se desfaz
mas é que a gente se desfaz
porque antes havia na gente mais outra pessoa
mas ela agora vive à toa
e a gente fica à toa
sem saber o que é andar
eu que nunca soube o que era o certo
fico com o destino incerto
nunca sei o que me traz

talvez a vida seja boa
entre afetos e desafetos
entre afagos e lágrimas tolas
mas assim olhar pra trás
e ver a frente como o vasto túnel
onde a gente teme o que não conhece
e uma luz dá medo do que virá

não sei, não sei
mas não é nada fácil
construir tantos afetos que depois são desafetos
e desvanecem como o sol por cima dos tetos da manhã
quando não quero ficar acordada
e puxo o lençol por cima da casa

porque pra ter amor
a gente tem sempre uma dor
e alguns se abraçam entre amor e dor
e as feridas têm que cicatrizar
ah não é fácil, amar nunca foi fácil
porque todos os outros são infernos
e a gente quer manter o céu certo
mas à custa do inferno de não ser capaz

e de céu e inferno a gente vive
e acaba no abraço do amor e da dor
de amar sempre um pouco a menos ou um pouco a mais.

quarta-feira, maio 03, 2006


Nada vos oferto
Além destas mortes
De que me alimento

Caminhos não há
Mas os pés na grama
Os inventarão

Aqui se inicia
Uma viagem clara
Para a encantação

Fonte, flor em fogo,
Que é que nos espera
Por detrás da noite?

Nada vos sovino:
Com a minha incerteza
vos ilumino

Ferreira Gullar

segunda-feira, maio 01, 2006

O novo mundo


E no primeiro dia, ela disse:

-Faça-se o amor.

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos

Dalton Trevisan

sábado, abril 29, 2006


E até quem me vê
lendo jornal na fila do pão
sabe que eu te encontrei...

Rodrigo Amarante

quinta-feira, abril 27, 2006


Longelongelonge...

Let it be, let it be

Sabe, para mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo - deixa o vento soprar, let it be, fique pelo menos com o gostinho de
ter brilhado um pouco.

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, abril 26, 2006

Deus e o Diabo na terra do sol


Os grandes teóricos sociais, Marx, Weber, e Durkhéim, acreditavam na morte da religião com o desenvolvimento da modernidade. Segundo Durkhéim, havia algo de eterno na religião, ela seria um símbolo de preservação da unidade coletiva, mas isso poderia ser conseguido através de ideais políticos. Em plena alta modernidade, podemos perceber que a religião está ainda muito presente na vida das pessoas. E alguns dos acontecimentos mais drásticos da modernidade tardia têm relação intrínseca com a religião.

O iluminismo e a racionalidade burguesa edificada junto com o nascimento do capitalismo, numa negação ao mundo teocêntrico do medievo feudal, provavelmente provocaram as especulações sobre o fim da religião. Entretanto, vemos um homem que, semelhante àqueles da pré-história que cultuavam seus ancestrais, ainda vive encantado pelo sobrenatural.

Homens doam seu corpo ao sacrifício pela sua fé. Lançam-se contra estações de metrô, balneários, aviões, como os que dirimiram o World Trade Center, um dos ícones do capitalismo. É claro que eles não tinham intenções definidamente políticas, antes sonhavam com um suposto céu repleto de virgens, mas a sua fé tem um caráter de contestação por explorados. Eles, que vivem no mundo árido, de mulheres escondidas em burcas, e fome e desespero por toda a parte, querem destruir o Grande Satã.

Segundo Nietzche, a religião exalta o derramamento de sangue. Festas são feitas para imolar animais, cristãos têm nas suas casas o Cristo crucificado pendurado na parede. Deus pediu a Abraão que levasse seu filho Isaac para ser morto em sacrifício. Depois disse que Isaac não seria morto, tudo havia sido feito para testar a fé de Abraão.

A jihad precisaria do sangue de todos os infiéis, e quem não está a serviço do deus, está a serviço do mal. Esses guerreiros entendem o mundo pelo viés da religião, e vêem quem os explora como entidades terrenas malignas com áureas sobrenaturais. O ópio do povo é usado como arma de revolução, porque só do lado dos deuses seria possível destronar outros deuses, os dominadores.

A luta de classes motora da história é representada através dos ataques terroristas ao mundo ocidental. A religião, o ópio que acalmava os explorados, que os fazia crer num mundo póstumo de felicidade onde seria mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no paraíso, agora é usada para espalhar o terror em impérios e cria diversas especulações sobre o futuro da humanidade. Qual será?

terça-feira, abril 25, 2006

A vida é feita de músicas


Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido mas existem possibilidades

Tenho um sorriso bobo
Parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda calma do mundo

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

Vamos deixar as janelas abertas
E deixar o equilíbrio ir embora

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Os sonhos vêm e os sonhos vão
O resto é imperfeito

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há

E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
E só maldade então, deixar um Deus tão triste

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo!


Tudo passa, tudo passará...

domingo, abril 23, 2006

Casa no campo


Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
e nada mais


Composição: Zé Rodrix e Tavito
Cantada por Elis Regina, a cantora mais emocionada.

sábado, abril 22, 2006

O infinito

Deixe eu te abraçar pra ter certeza de que você existe.
De olhos fechados
Pra não saber que eu existo
Pra esquecer de mim
E você se esquecer de você

E a gente só ser
Os espaços
Vários espaços
Negros
Vácuos

Ser um pouco mais
Sendo você
Você ser um pouco mais
Sendo eu

E no fim de tudo
A gente vai só ser
Os espaços
Negros
E vácuos

sexta-feira, abril 21, 2006

Pobres poderes

Certa vez estava eu num ônibus de madrugada, e um menino de uns 14 anos entrou pela parte de trás do veículo. O cobrador mandou o rapaz descer, e ele simplesmente se sentou. O motorista parou o veículo sob ordem do cobrador, que se levantou de sua cadeira e foi até o menino gritando você não pagou a passagem, seu vagabundo, filho da puta, e o empurrou escada abaixo.

Eu me assustei com a cena, então olhei para trás e percebi que só havia eu de passageira. Ouvindo a música do silêncio do ônibus se movimentando na madrugada cheia de ventos vazios, comecei a pensar sobre o fato. O que levava um homem que recebe um salário de fome a lutar com unhas e dentes pela empresa para qual trabalha?

Pensei na ausência de consciência de classe. Ele não reconhecia que era explorado pela empresa e não via o menino como integrante de uma mesma classe dominada. Depois refleti melhor. O cobrador não lutava pela empresa, ele fazia um espetáculo para se sentir semelhante aos que o exploram.

Uma das formas que os dominados têm para uma quimérica insurreição é imitar o dominador. Essa é a maneira de eles se sentirem legítimos, e, assim, muitos negros querem ser brancos, muitos pobres se fingem de ricos. Eles não cogitam a possibilidade de lutar contra quem os explora, e a sua falsa sublevação ocorre através da imitação.

O que aquele cobrador queria era a sensação de poder. Naquele momento ele se sentia dono do ônibus, o meio no qual trabalha e não lhe pertence. E aquele era um dos raros momentos em que podia exercer sua autoridade e criar um dominado. Sim, ele poderia fazer uma inversão de papéis à custa de um menino negro e pobre.

É muito comum indivíduos da classe subordinada se travestirem de dominadores. Quando tomados por tal acesso histriônico eles só respeitam quem é da classe dominante, e se dirigem aos pares como subalternos. Assim acontece com alguns atendentes de lojas, por exemplo, que tratam as pessoas de acordo com a quantidade de dinheiro no cartão, mas são eles mesmos pobres.

Lembro-me da vez em que minha mãe levou Nide, uma amiga nossa de Boquim, ao hospital João Alves. A moça do atendimento tratava a todos na fila com imensa soberba, agindo como se fosse alguma autoridade do lugar, e disse para Nide e mamãe voltarem daqui a um mês. Minha mãe perguntou a ela:

-Você olhou a ficha?

-Não.

-Você sabe o que ela tem para mandar ela voltar daqui a um mês?

Os olhos da mulher saltaram ao auscultar a ficha.

-Ela tem câncer- disse mamãe, sancionando o assombro da moça.

É isso o que vejo tantas vezes. Indivíduos sem consciência de classe, e cada um no seu mundo tentando fazer outros de subordinados numa escala interminável. A busca de poder vai além da procura pelo bem comum. Um poder imaginário, sonhado através das miragens sedutoras da publicidade, ao teatro da dominação no dia a dia.

quinta-feira, abril 20, 2006

Malditos filmes edificantes!

Sou uma pessoa brega, sentimental, meu excesso de sensibilidade dá nojo, mas pra tudo tem limite. Eu detesto aqueles malditos filmes edificantes! Tá bem, gostei de alguns há anos atrás, mas hoje em dia eu pelo menos sei a diferença entre filme bom e filme que eu gosto. E quando revi Cidade dos Anjos me perguntei como diabos chorei vendo aquilo. Lamentável.

Enfim, a questão é que esses filmes edificantes são uma das desgraças do cinema. Acredito que os filmes ruins com certificado de ruindade assinado embaixo são mais sinceros do que eles, como Todo Mundo em Pânico (não sei como tanta gente ria na sala, pois eu não achava a menor graça), e Cruzeiro das loucas (vou ter de admitir que dei boas risadas).

As pessoas que assistem a essas películas sabem que estão ali para ver merda. Agora, quanto a filmes edificantes, não, eles se dão o estatuto de arte. Aí todo mundo fica achando que cinema de arte são filmes dramáticos, atores chorando, lições de moral. Mas não é, porra.

A arte não foi feita para ensinar as pessoas a viverem. E aqueles atores que ganham o Oscar, nossa, às vezes parece que o padrão ator de qualidade se refere à maior quantidade de lágrimas vertidas em cena. Ninguém se lembra do quanto é importante um ator fazer o papel de uma pessoa comum, e conseguir elaborar com maestria a singularidade do comum. De um ator não querer aparecer mais que o personagem e ser estrela.

É melhor ator quem chora mais, e são bons filmes os que conseguem arrancar mais lágrimas do espectador, e não os que ousam esteticamente e levam à reflexão. Esse é conceito de cinema de arte que existe na cabeça de muita gente graças aos filmes edificantes e ao Oscar.

segunda-feira, abril 17, 2006

Canção de Alguéns


Eu não sei quem sou
Talvez porque seja alma diferente
A cada vida minha
Toda essa gente
não sabe das fantasias

Eu sou alguéns sem nomes
Túmulos e partos
Saudades, boas vindas
Eu tenho puro tato
O silêncio dessa noite me lembra as rodovias

Não sei para onde vou
Eu vago pelo dia
Eu quero a madrugada
Não durmo por sonhar tanto
Eu quero demais, demais, demais
E ando flutuando

Meu peito vive aberto
Refém do que não quero
E de todos os quereres
Desejo ser a chuva
quando ela cai na terra
E dá de beber aos seres

Eu não sei quem sou
Eu sou a mentira
Todas as miragens
Quase tudo que eu quis
Esses rios no sangue
Que não têm margem
Levam até longe de mim

domingo, abril 16, 2006

Sexo dos Anjos

Um dia desses fiquei surpresa quando uma grande amiga minha me disse: Também, né, você não acredita em Deus! Depois de tantos anos de terços, procissões, missas sem fim, sacramentos, era normal me parecer estranho essa frase. Eu nunca disse que não acreditava em Deus, pelo contrário, entretanto, ninguém acredita na minha fé. E, realmente, ela não existe.

Mas o fato de eu não acreditar em Deus não me dá o título de ateísta. Claro, porque para ser ateísta é preciso ter fé na não existência de Deus. Fé, essa palavra mesmo, porque nem a Igreja nem a Ciência podem provar que Deus não existe.

Está certo, acreditar em Deus dá certa paz, certa segurança ontológica. Já tentei, mas não consigo, não mais. Não obstante, não tenho a fé dos ateus. Eu não acredito em Deus, mas também não acredito que ele não existe.

Eu me sinto indiferente a Deus. Raros são os momentos em que lembro dele, como agora, por exemplo. No mais, eu sou das coisas mundanas. E fico com o Leminski, que disse: Os deuses? Eles que cuidem dos seus assuntos, e eu cuido dos meus.

E quem entende?

Fulana- Eu sou virgem ainda, mas já fiz umas coisinhas aí, tipo sexo oral...

Cicrana- Meu namorado quer que eu faça sexo oral nele, mas não faço de jeito nenhum. Não já basta coisar, não? Já disse, mesmo que eu passasse dez anos com um cara eu não ia chupar a pinta dele.

?

quinta-feira, abril 13, 2006

Teorema


Como pode fazer isso a um homem acostumado à ordem, ao amanhã, e, sobretudo, à posse?

Filme de Pier Paolo Pasolini

O desassossego


E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou de com quem eu falei. Assim, muitas vezes repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância- irmãos siameses que não estão pegados.

Livro do desassossego, Fernando Pessoa

coincidência?

quarta-feira, abril 12, 2006

E agora?

A metamorfose

Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de uma noite mal dormida, achou-se em sua cama transformado em monstruoso inseto. Estava deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e ao levantar um pouco a cabeça viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha mal podia agüentar, pois estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam aos seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência.

Franz Kafka

segunda-feira, abril 10, 2006

De alma aberta e o coração cantando


A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a magica presença das estrelas!

Da inquieta esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Trova

Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Canção da garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.


O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.


E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...


Da Felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os bem na ponta do nariz!

Das Idéias

Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro de ti se achava nua...

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Da discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

Mário Quintana

domingo, abril 09, 2006

Kika

Sempre tive medo de bichos. Quando era criança, sonhei inúmeras vezes com leões, cães me devorando. Ficava assombrada quando via algum cachorro na rua e me recusava a entrar em casas que tinham cachorros. Engraçado porque era um misto de admiração e medo. Ainda lembro da vez em que fiquei encantada pela pantera negra com suas formas se confundindo com as trevas e seus olhos chispando luz.

Tive uma gata, Pandora, mas morria de medo dela e minha mãe achou melhor levá-la embora. A pobre gata era ignorada por todos daqui de casa, e eu me afastava assim que ela se aproximava de mim. Mas vi na Discovery que gatos têm medo de pessoas que os adoram. Eles gostam daqueles que os temem, pois algo no olhar dos que lhe fazem carinhos é semelhante aos sinais de ataque entre os gatos. Descobri porque Pandora estava sempre me rondando.

Então, minha mãe resolveu um dia desses trazer uma cachorrinha. Ela me perguntou primeiro, com medo de que a cachorra também fosse deixada de lado. Kika veio pra nossa casa, e minha mãe a chamou assim após ter visto e adorado um filme homônimo de Almodóvar. Eu chamava-a Mademoiselle Kika, Lady Kika, e fazia mimo naquela bolinha de pêlo. Às vezes saía de casa e sentia saudades dela.

Pouco tempo depois os dentes de Kika começaram a crescer. Ela ficava o tempo todo me mordendo, e eu achava estranho, ah meu Deus, ela vai ficar grande e continuar me mordendo, poxa, cachorros não mordem os donos, mas é porque é filhote, tomara né. Eu me irritava com Kika, e passei um tempo sem lhe fazer carinhos.

Ela pula, rosna, e isso me dava medo antes. Aí percebi o quanto ela é bobona, então fazia cafuné, e fazia carícias na sua barriga, coisa que ela adora demais. E eu tinha tanta raiva quando ela me acordava de manhãzinha cedo com suas lambidas no meu rosto. Depois passei a gostar, porque ela era meu despertador.

Kika morre de medo da rua, e se agarra ao chão com os olhinhos angustiados quando a levo pra passear. Ela é azoada, faz tudo errado, caga no meio do corredor, destrói coisas, tão carente, e dá mordidinhas e arranha quem chega aqui em casa. Eu brinco “cuidado, ela morde... e dói!”. Sempre detestei aqueles benditos que dizem “ah, tenha medo não, ele não morde”, e o bicho pulando em cima de mim. Divirto-me um pouco com a cara de medo das pessoas, é fato.

Fui me acostumando com ela, e até comecei a gostar de suas mordidinhas. Era uma chateação ela me seguindo pra lá e pra cá. Hoje em dia se ela passa muito tempo sem andar logo atrás de mim, eu sinto falta, e grito, Kiiikaaaa, cadê Kika?

sexta-feira, abril 07, 2006

ondas

eu sempre soube que você ia chegar posso ter a certeza de que talvez não seja certeza ou qualquer coisa a se pensar sobre os pássaros mas estava falando sobre você e que sempre soube que você ia chegar porque você estava perdido no mundo ou não eu estava perdida no mundo mas quem não está alguns se acham em qualquer lugar mas não ter lar não é estar perdido é pertencer a qualquer lugar e você pertence a todos os lugares por onde passei e por onde irei passar porque a terra beija seus pés e as nuvens fazem o paraíso na minha vista quando te vejo eu adoro essa sua meia muito bonita mesmo e adoro também esse pequeno sinal que você tem no rosto não sei como será que você foi feito não acredito eu gosto mais dos detalhes entenda de onde você veio mas eu sempre soube que você ia chegar ah mas eu sei também que você vai partir não sei porque tudo é tão efêmero talvez eu só viva mesmo o que há no futuro porque agora meus sentidos estão vacilantes entre o agora como se já lembrasse do agora como se o guardasse como recordação agora o agora e será rememorado com vivência mais plena do que agora quando já o vivo como recordação e mais tarde será tudo mais real porque então não terei medo de perder o agora e ele será muito mais do que uma recordação eu te amo e não devia temer nada não é você me ama também não há porque duvidar se você me olha do mesmo jeito que olha para o mar e minha imagem refletida sob uma estrela nas suas pupilas

quinta-feira, abril 06, 2006

Os sentimentos sinceros

Gosto daqueles que têm os sentimentos sinceros. Que quando estão felizes sentem toda a plenitude da felicidade, e distribuem risos, abraços, e beijos. Que não têm vergonha de parecerem ridículos, e viram crianças às vezes. Que quando estão tristes estão tristes e pronto. Nada de fingir uma alegria daquelas de sorrisos forçados e gestos artificiais, ou de ficarem indiferentes à dor que corrói por dentro. Então choram, e reconhecem a perda, mas são lágrimas justas, que logo depois são enxugadas porque eles são fortes e gostam de viver. Caem da bicicleta, passam metiolate, e tentam de novo até aprender. Têm seus sentimentos tratados com desdém, mas nem por isso se tornam amargos. Não aprendem a desconfiar. Aprendem a acreditar nas pessoas certas.

E quem vive a vida como se tivesse o tempo inteiro seguindo um livro de auto-ajuda? Parecem querer a todo custo serem perfeitos porque são obcecados por agradar a todo mundo. Para tudo é “ah, como é lindo o pôr do sol”, “ah, estava hoje regando as minhas plantinhas”. Gosto de quem rega as plantinhas, acha bonito o pôr do sol, e fica em paz.

Gosto de quem expressa as emoções, que não tem um pingo de vergonha de dizer “eu te amo”. Mas não aqueles “eu te amo” banais, ditos ao vento para parecer uma pessoa adorável e carinhosa. Sabe aqueles “eu te amo” ditos quando você olha pra o outro e vê o quanto ele é especial por tantas coisas simples e bobas? Sim, é desse “eu te amo” que eu gosto.

Temo aqueles que sem conhecer já são todo amores. Gosto de quem chega devagarzinho, pergunta meu nome, fala de qualquer bobagem, e aos poucos vai me conquistando e sendo conquistado.

Gosto de quem ri só quando acha engraçado, quem fala quando quer falar, e quando quer ficar no canto se deleita no gozo de si mesmo, e não tem a necessidade de estar sempre rodeado de gente.

Gosto das pessoas simples. E gosto de quem sente tudo o que é merecido sentir.

terça-feira, abril 04, 2006

Lirismos nos dias

Penso sobre a poesia do mundo. Sabe, às vezes a rotina cartesiana despoetiza a vida. Mas a existência não foi feita para ser poetizada. Não há lirismo nos escritórios, nos semáforos. Minto. Há lirismo em todas as partes, mas saltando no ar ignorado pelas nossas almas inertes e quadradas. Vivemos o tempo dos relógios, e toda a nossa vida é regida pelos ponteiros das obrigações. Às vezes fico assim, sem poesia dentro de mim, e dá um vazio. Quando era criança, eu me perguntava. Ué, mas por que será que os adultos não ouvem música nem se beijam? E concluía: tomara que eu escute música e beije pra sempre.

sexta-feira, março 31, 2006

Palavras, palavras, palavras

No fluxo das horas chego atrasada para quase todos os momentos diários. Sobre passos, tudo volta e segue para a mesma rota, aonde eu vou parar. Trezentos e sessenta. Escrever coisas que não fazem muito sentido, porque para haver sentido é preciso haver um certo regimento das idéias, palavras acabam soltas, avulsas, e o dilema de não saber de nada além de que nada sabe. Perder-se nos rumos das palavras. As palavras e as coisas. Coisas e signos arbitrários, as palavras abstratas, nunca expressando tudo o que há. Não chamaria de imperfeição. Se as coisas fossem feitas para expressar palavras elas também não dariam conta de todo o sentido. De início havia o Verbo. Primeiro eram as palavras, como se tivessem um poder criador, eles acreditavam. Mas de início eram as coisas e o homem fez o verbo. Pensamentos seguindo um fluxo desnorteado, vai bater num poste, vai, vai. Postes e luzes. As moscas em volta da luz, insetos adoram luz. E eu odeio ruas com postes sem luz. Mas não sou um inseto. Isso não faz sentido, é o fluxo do pensamento desvairado. A lógica circular é a falta de lógica.

E de pensamentos idos


E lívida
Em organdi
Entre os escombros?
Indefinível como criatura.

Eternamente viva.
*

Sendo quem sou, em nada me pareço
Desloco-me no mundo ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Querer o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.
*

Amáveis
Mas indomáveis
O poeta e seu cavalo.
Um arcabouço pensado
Para limitar-se ao pouso
E do vôo alimentar-se.
Sente os espaços, mas sabe
Até onde irá seu passo
Sente a beleza do salto
Mas conhece sua lhaneza:
A própria, inerte beleza
De saber-se aprisionado
E contentar-se de sonhos
Maravilhar-se de achados.

O poeta- e seu vocábulo.
O cavalo- e seu pedaço de terra
Mais nas alturas,
De brisa, de solidão e hortaliça.
Entrelaçadas aspiram
Respiram juntos

E vistos em direção
As cordilheiras do espanto
Quase sempre se confundem.
Sonhando reter no flanco
Exaltação e delírio,
Nas noites de grande lua
(entre cipestres e lírios)
O cavalo me acompanha
À profundezas guardadas
Onde flutuam palavras
E lá mergulho e anoiteço.
E encontro coisas do medo
Mandalas de cor, rosáceas
E malmequeres antigos
Sobre algum livro encantado
De pergaminho, de prata
E de pensamentos idos.
*

Eu caminhava alegre entre os pastores
E tatuada de infância repetia
Qie é melhor em verdade ter amores
E rima transitória para o verso.
Para cantar mais alto é Até preciso
Desdobrar-se em afetos e amar
Seja o que for, luares e desertos
E cantigas de roda e ditirambos.

Entre o amarelo e o rosa, a lua nova
Na vida também nova, ressurgia.

Hilda Hilst.

quinta-feira, março 30, 2006

Deixe Cibele com os livros

Quando abri a porta do quarto dos fundos, Cibele fez um estranho movimento de susto, e ao fitar suas mãos desajeitadas descobri um dos livros da estante. Cibele fica sem graça quando acha que está fazendo coisas que não lhe pertencem ou se acha mal educada. Ela tem vergonha de só saber comer usando uma colher de sopa, e se recusa a almoçar ao meu lado, sempre aguardando a hora em que vou me retirar da mesa. Quando eu chego à mesa e ela já está comendo, Cibele fica fazendo círculos com a colher enquanto fita a comida, e às vezes olha para mim de soslaio. Peguei minhas roupas para ir tomar banho, e saí de fininho como se não tivesse visto nada.

quarta-feira, março 29, 2006

A televisão


Rosa Maria Mateo, uma das figuras mais populares da televisão espanhola, me contou esta história.

Uma mulher tinha escrito uma carta para ela, de algum lugarzinho perdido, pedindo que por favor contasse a verdade:

-Quando eu olho para a senhora, a senhora está olhando para mim?

Rosa Maria disse que não sabia o que responder.

Eduardo Galeano.

terça-feira, março 28, 2006

As cores dos sonhos


Vou inventar uma nova cor dessas que aparecem nos sonhos.
Dizem que sonhamos em preto e branco, mas não creio.
Quem irá tirar fotografias para mostrar que sonho em branco e preto?
Lembro de perguntas que me fazia na infância
Como alguém que nunca viu sonha?
Onde é o fim do arco-íris?
O vermelho que eu vejo é o mesmo para minha mãe ou ela está vendo verde?
Será que existe um mundo onde todas as cores são diferentes dessas que vejo?
Até hoje só descobri que o arco-íris não tem fim nem começo.
Mas tive um sonho em que eu chegava ao fim do arco-íris.

sábado, março 25, 2006


- E sabe, é como naquela velha piada do tipo que vai ao psiquiatra. Ele diz, doutor, meu irmão é louco, ele acha que é uma galinha. E o médico pergunta, então por que você não o interna? Eu até o internaria, mas é que preciso dos ovos. É o que sinto sobre as relações humanas, são totalmente loucas, absurdas, e irracionais, mas nós vamos aguentando, porque precisamos dos ovos.
Alvy Singer em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen, interpretado pelo próprio diretor.

Estar no olhar


Percebi que sou fascinada pelo olhar.
Sempre busco no olhar o que faltou nas palavras,
fico tentando descobrir o outro.
Porque gosto de sentir as pessoas,
e me aproximo um pouco mais no fluxo da alma vertendo-se nas pupilas.
Elucidar os signos que os seus olhos espalham de forma simplória.
Não é para saber de algum segredo.
Muito mais do que saber o que alguém sente,
é estar onde o outro está.

quinta-feira, março 23, 2006

Lucas

Ele se matou logo depois de saber que minha mãe o havia traído. A gente era uma família perfeita. Meu pai era louco pela minha mãe, nunca faltou dinheiro, a gente viajava muito, sempre fui bom aluno e trabalhador. Aí minha mãe arranja esse caso.

Não sei o que se passava pela cabeça dela. Mas ela era assim. Se estava tudo arrumadinho nos seus devidos lugares, ela vinha e deixava a bolsa em cima da mesa logo que chegava do trabalho. Tomava todas as noites alguns cálices de vinho e ficava rindo como uma qualquer. Ela cuidava de mim como se brincasse, estava mais preocupada em me divertir do que em me dar alguma lição. E meu pai, sempre meu pai, o homem metido no meio dos papéis aperreado com as contas. Minha mãe vinha e beijava seu pescoço.

Por que você me traiu? Não sei. Pra tudo tem resposta. Pra certas coisas não. Por quê? Acho que não conseguia aceitar que a nossa vida era perfeita.

Minha mãe não tinha coragem de ir até o quarto deitar na cama que eles dividiram por tanto tempo, e ficar ao lado do corpo dele cheio de mágoa a noite inteira. Ela ficou na sala vendo televisão, estática, e com os olhos pairando nas imagens em pensamentos distantes.

Silêncio à mesa. Ela dizia meias palavras, mas meu ódio, ah meu ódio era tanto que ela sabia que era melhor se calar e tomar o café. Passou o tempo, e nada do meu pai sair do quarto. A porta, a vasta poça de sangue, os pulsos cortados, o meu pai estava morto. Morto, sim.

Lucas? Júnior? Às vezes você fica perdido pensando na morte da bezerra. É, desculpe. Tão gostoso ficar na rede aqui na varanda, Lucas.

Estava pensando no trabalho, tem gente querendo me passar a perna. Deixe de ser assim, preocupado, menino. Que pescoço gostoso, meu Deus, me deixe morder, vá. Você deixou as meias em cima da cama, eita você bagunçada, meu amor. Sempre que dorme aqui, deixa alguma coisa, faz uma baguncinha. Tá bom, depois eu vou lá pegar. Pescoço gostoso!

Às vezes os amantes ficam assim, em silêncio, e às vezes esse é o momento mais bonito, o do aconchego.

De repente, Lucas agarrou o pescoço de Laís, e depois a jogou no chão. Ele dizia coisas ininteligíveis, e com uma voz que não parecia ser a sua. Eu vou matar aquela puta, cadê ela? E foi correndo pela casa atrás de Carlota.

Carlota gritou, se debateu, segurou a faca de cozinha com as mãos trêmulas, mas Lucas lhe deu um tapa, e lá se foi a faca e seu corpo no chão. Puxou-a pelos cabelos, depois agarrou os seus braços e a conduziu até a varanda.

O que você tá fazendo, Lucas? Vai matar sua mãe? Você tá louco? Meu Deus, pare com isso! E seguiu-se uma luta de Laís puxando Lucas com todas as suas forças, e ele tentando empurrar a mãe pela janela. Até ele desmaiar no chão.

Lucas era muito religioso, e foi ao centro espírita junto com Laís perguntar ao médium alguma explicação para o que havia se passado. O médium colocou a mão sobre a cabeça de Laís e disse: Você é médium, pode sentir a presença de pessoas do outro mundo, saiba usar esse dom.

O médium explicou que o pai de Lucas era uma alma perturbada. Lucas não conseguia descansar em paz porque ainda estava preso ao seu passado, e queria a todo custo se vingar usando o corpo do filho para matar Carlota. Era preciso orar pela alma de Lucas.

Lucas foi morar sozinho, e aos poucos foi se afastando de Laís. Não suportava a presença da mãe. E orava todos os dias pela alma do pai.

segunda-feira, março 20, 2006

Caçador de mim

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Milton Nascimento

domingo, março 19, 2006

Na estrada

Então essa é a estrada. As árvores dançam a música, sem lenço sem documento, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo. Não podia ficar olhando a estrada, depois de um tempo começava a ter vertigens, às vezes descia do carro esperando o vômito, mas nada. Tudo sempre ficou nas sensações. Rasgava com as pequenas roídas unhas o limão, e cheirava porque a avó dizia que o odor do limão fazia parar as náuseas. Não olhe a estrada, menina, pare de olhar e você vai ver que melhora. Ela ficava ouvindo as árvores dançarem e sempre com o limão de junto do nariz.

Saltava quando via o morro onde estava antiga igreja dos jesuítas. Lembrava das aulas de História, e ficava imaginando como seriam aquelas terras naquela época, sem a estrada, mato pra tudo que era lado, os padres ensinando aos índios que era pecado ficar nu. Aquela igrejinha lá em cima, esquecida no tempo, como pode ela não cair? Sentia uma vontade danada de subir no morro, entrar lá pra imaginar os índios e os jesuítas, e ficar mais perto do passado.

O terço se balançando no espelho do carro. Sob a cabeça os aviões, sob os meus pés os caminhões, aponta contra os chapadões meu nariz. Adriana! Adriana? O quê, vó? Adoro ouvir as fitas da mamãe. Diga, eu tô ouvindo. Ah, minha neta, os índio andavam nus, mas eles eram inocentes, não sabiam que era pecado. Eles são igual bicho.

Quando era pequena, ela andava pela casa vestindo nada mais que calcinhas bordadas. Um dia desses quando se arrumava pra ir à missa, a tia mandou mudar a blusa, essa blusa mostra a barriga, menina, vá botar outra, você vai pra casa de Deus. Ela trocou a roupa com os olhos atônitos. Olhava para o padre como se prestasse muita atenção às suas palavras. Por que essa é a casa de Deus? Adão e Eva andavam nus e Deus os expulsou do paraíso quando sentiram vergonha. E não era para eles sentirem não?

Todas essas histórias de pecado, inferno davam um nó na sua cabeça. Está certo que havia pecados que levariam direto para o inferno. Mas a partir de quantos pecados menores uma pessoa ia para o inferno? Como devem ser os castigos? Deve ser muito ruim ficar sofrendo pra sempre. Mas o céu, sei lá, tudo perfeito. Pensou que talvez ficasse enjoada do céu. E não conseguia imaginar como seria o purgatório, mas falam pouco dele, ele nunca apareceu na televisão, só falam de céu e inferno.

Ela não entendia nada. Mas quando olhava pra estrada, percebia que adorava a vida e todas as suas alegrias, dores, emoções, enfim. Contemplava as pessoas, queria descobrir as coisas do mundo, mas tudo isso ela só sentia, não entendia nada. Amava a estrada e o vento.

sexta-feira, março 17, 2006

Poetar com Leminski


Estava um dia desses precisando do aconchego de um poeminha. Grande poeta pra me emocionar e ser um pouco mais, Paulo Leminski.


Objeto
Do meu mais desesperado desejo
Não seja aquilo
Por quem ardo e não vejo

Seja a estrela que me beija
Oriente que me reja
Azul amor beleza

Faça qualquer coisa
Mas pelo amor de deus
Ou de nós dois
Seja.
*

Minha amiga
Indecisa
Lida com coisas
Semifusas

Quando confusas
Mesmo as exatas
Medusas
Se transmudam
Em musas
*

Entre a dívida externa
E a dúvida interna
Meu coração
Comercial
Alterna
*

Não possa tanta distância
Deixar entre nós
Este sol
Que se põe
Entre uma onda
E outra onda
No oceano dos lençóis
*

O novo
Não me choca mais
Nada de novo
Sob o sol
*


Minhas sete quedas

Minha primeira queda
Não abriu o pára-quedas

Daí passei feito uma pedra
Pra minha segunda queda

Da segunda à terceira queda
Foi um pulo que é um seda

Nisso uma quinta queda
Pega a quarta e arremeda

Na sexta continuei caindo
Agora com licença
Mais um abismo vem vindo
*

Aqui

Nesta pedra

Alguém sentou
Olhando o mar

O mar não parou
Pra ser olhado

Foi mar
Pra tudo quanto é lado
*

Dois loucos no bairro

Um passa os dias
Chutando postes para ver se acendem

O outro as noites
Apagando palavras
Contra um papel em branco
Todo bairro tem um louco
Que o bairro trata bem
Só falta mais um pouco
Pra eu ser tratado também
*

Dia
Dai-me
A sabedoria de Caetano
Nunca ler jornais
A loucura de Glauber
Tem sempre uma cabeça cortada a mais
A fúria de décio
Nunca fazer versinhos normais
*

Apagar-me
Diluir-me
Desmanchar-me
Até que depois
De mim
De nós
De tudo
Não reste mais
Que o charme
*

Coração
PRA CIMA
Escrito embaixo
FRÁGIL
*

A noite
Me pinga uma estrela no olho
E passa
*

Em la lucha de classes
Todas las armas son buenas
Piedras
Noches
Poemas
*

Não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino
*

acordei bemol
tudo estava sustenido

sol fazia
só não fazia sentido
*

você me amava
disse a margarida

a margarida
é doce
amarga a vida
*

pra quê cara feia?
Na vida
Ninguém paga meia
*

O amor, esse sufoco
Agora a pouco era muito,
Agora, apenas um sopro

Ah, troço de louco
Corações trocando rosas,
E socos
*

Podem ficar com a realidade
Esse baixo astral
Em que tudo entra pelo cano

Eu quero viver de verdade
Eu fico com o cinema americano
*

Eu ontem tive a impressão
Que deus queria falar comigo
Não lhe dei ouvidos

Quem sou eu para falar com deuses?
Ele que cuide dos seus assuntos
Eu cuido dos meus
*

Incenso fosse música

Isso de querer
Ser exatamente aquilo
Que a gente é
Ainda vai
Nos levar além
*

Enfim,
Nu,
Como vim
*

Viu-me
E passou
Como um filme
*

Temporal

Fazia tempo
Que eu não me sentia
Tão sentimental
*

Você está tão longe
Que às vezes penso
Que nem existo

Nem fale de amor
Que amor é isto
*

Saber é pouco
Como é que a água do mar
Entra dentro do coco?
*

Vazio agudo

Ando meio

Cheio de tudo
*

Amor é um elo
Entre o azul
E o amarelo
*

Esta vida é uma viagem
Pena eu estar
Só de passagem
*


A noite- enorme
Tudo dorme
Menos teu nome
*

terça-feira, março 14, 2006

Respirar sutilmente


Sempre achei sedutor o ato de fumar. O ar altivo, as baforadas, o olhar flutuando no horizonte. Volúpia.

Lembro-me ainda de Laurinha, a romântica gordinha de Carrosel, dizendo que achava sexy os homens que fumam. Estranho, não, uma menina de uns nove anos dizendo isso na Tv. Quando era criança, eu usava um palito de pirulito para simular um cigarro. E inventava baforadas com gosto na frente do espelho.

O cigarro é muito sedutor, não só porque dá um ar de beleza ao ato de tragá-lo, como alivia a ansiedade, o grande mal de que todos queremos nos livrar, seja lendo, ouvindo música, seja passando horas na internet. E assim os fumantes transpiram com ânsia um pouco de calma. De quê adianta?

Será que eles encontram algum sossego naquela fumaça? Pois o que vejo nos cafés é o desassossego de cigarros deixados na metade em cima do cinzeiro porque a ânsia quer o próximo cigarro. E de cigarro em cigarro nunca se chega à paz.

Fumar? Evito. Às vezes incomodo estranhos quando estou embriagada pedindo “um cigarrinho, por favor”, mas nem ao menos sei usar o isqueiro.Tenho uma vontade de ser que não se saciaria em duas carteiras por dia.

Mário Quintana até dizia, “fumar é respirar sutilmente”. Aparentemente sim, posso dizer até que é uma forma elegante de respirar. Pena que fatal. E os cinzeiros cheios das cinzas da angústia fazem a calma?

segunda-feira, março 13, 2006

Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

domingo, março 12, 2006

O belo amor


Sempre busquei o amor
nos pequenos gestos
A alquimia do outro
palavras, movimentos

Agora eu só encontro o amor nos versos
o amor virou pura poesia
e se perdeu na rima
não tem toque nem querer

Meu amor tem o sentimento do mundo
Desconhece a adoração de um
Aprecia as canções, as poesias de amor
como quem reza
mas não acredita em Deus.

sábado, março 11, 2006

A minha casa



Eu me encontro inacabada
Depois de me construir tantas vezes
Eu não tenho uma casa

A minha casa é a estrada
Longe de tudo
E perto dos viajantes.

sexta-feira, março 10, 2006

Blow up


Toda forma de arte é absolutamente inútil

Oscar Wilde

quinta-feira, março 09, 2006

Cortinas vermelhas


O sorriso esvoaçante, cabelos, vestido ao vento. Meus pais são tão lindos! Eles se amam tanto, sabe. Acredita que até hoje meu pai sente ciúme da minha mãe, e ela às vezes pergunta se ele o ama? Depois de tantos anos...

Ainda me lembro daquela noite. Viemos de mãos dadas rezando no carro, e ele correndo o carro, porque era tanto ódio que o carro precisava voar. Ela chorava com a boca, com as rugas, menos com os olhos. Não quero que eles se assustem, não, não, nada de choro.

Logo ao descer do carro, minha mãe recebe um tapa bem de junto do portão verde. Seus cabelos brancos esconderam a vergonha. Ela nunca pintou os cabelos, ele não queria que ela parecesse mais jovem. Os cacos de vidro misturados com whisky e a porta do banheiro quebrada. De nada adiantou se esconder no banheiro.

Ah, eles são lindos. É tão romântico. Minha irmã e seus dentes e bochechas sorridentes. Não acredito que ela está dizendo isso para essas pessoas. Não é, Aline? Sim, sim, respondo.

Minha irmã, a mulher forte, joga baldes de água no meu pai. Seu alcoólatra. E provocava com o cigarro no canto da boca aos 13 anos. Você não fuma? Então posso fumar também. Meu pai é todo beijos e lágrimas de junto da cama, envolto pelo cortinado e pela luz lânguida do quarto.

Ela diz que quer tomar banho de chuva, porque ama a chuva, a natureza, e gira no meio do mundo. Seus gestos são expansivos, sua voz quer falar para o público.

A chuva cai para ela como no cinema.

terça-feira, março 07, 2006

O Filho de Deus

Toc, toc, toc. Hoje é noite de natal. Passou uma estrela cadente. Eu sou o menino Jesus, filho de José com a virgem Maria, concebido pelo Espírito Santo. Eu voltei. Jesus está morto, menino, morreu numa cruz. Deus não está morto, senhora, eu prometi que ia voltar, aqui estou. Tenho fome e sede, a senhora vai negar pão e água ao Filho de Deus? Pare de me fazer rir, menino, você está delirando. Eu me lembro de você, vive pedindo na porta da igreja, pois andou vendo missas demais. Vá pra casa, vá. Boa noite. A porta.

O reino de Deus não é desta terra. Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem. O Filho de Deus não nasce em berço de ouro. Eu que estou sempre com as mãos estendidas para receber as moedinhas na porta da igreja sou o Filho de Deus.

Você não é filho de José, Jesus. Ela botou gaia no seu pai com o seu tio Horácio. Todo mundo sabe, até o trouxa do seu pai. Nesse dia eu rumei uma pedra na cabeça de Vinícius. Foi pra abrir mesmo a testa do desgraçado que manchou o nome da minha santa mãe. Olho por olho, dente por dente.

De manhã cedo, quando com a fome do outro dia, tenho vontade de fazer os pães multiplicar. Ainda não é chegada hora. E às vezes sinto que estou caminhando sobre as águas do mar, mas ainda não é chegada a hora.

Qual o meu calvário e meu Judas? Pai faça-se a sua vontade. Um dia acharão as minhas vestes no túmulo, e eu haverei ressuscitado. Então separarei o joio do trigo, e finalmente sentarei à direita do Pai no reino dos céus.

segunda-feira, março 06, 2006

Os bichinhos


Seguro Bruninha com medo de ela quebrar. As mãos pequeninas, essa criatura não é uma miniatura minha, mas tem um modo de ser tão seu abandonada aos meus braços e boiando os olhos nos brinquedos do berço. Ela com a boca no meu peito se alimentando de mim, ela que surgiu dentro de mim e veio a mundo atravessando o meu corpo, para encontrar o mundo e chorar de espanto, enfim nos meus braços se acalmar.

Bruninha pega toda a luz da lâmpada da sala com os olhos. Nada entende do que vê. Lâmpada, luz, o que será para ela? Algo que não se encontra numa linguagem. Quem sou eu com meu peito que ela suga com tanta vontade. Ma-mãe, ma-mãe, eu digo acariciando nariz com nariz. Bruninha responde quando a deixo em outros braços e seus olhinhos pedem para ela voltar aos meus.

Fita os desenhos coloridos do lençol e os captura com a mãozinha. Ela acredita que aqueles desenhos têm vida? Não, nada de lençóis brancos. Deixe-me colocar esse lençol cheio de bichinhos.

Eu vi meu reflexo no seu olhar, mas seu olhar não se encontra no meu. Ele se perde ao infinito e se torna um brilho singelo.

Uma música para Bruninha ouvir. Eu que guardo as palavras e as levo para tantas coisas que vivi. Bruninha ouve a música, ela sente a cadência do mundo para dar um sorriso bobo. Bobo como meu olhar diante dela, sem entender o que se faz da luz da lâmpada.

domingo, março 05, 2006

Ser desejo

Gosto de sentir o sabor da carne.
Sal, salgada,
o toque que cristaliza as sensações no arrepio da pele em pêlos elétricos.
Lamber a sua carne
e comer os seus gestos puros e vastos
para não ser mais do que estar no seu corpo e acender a vontade.

Quero, quero muito mais do que tudo ou nada
e saber das ilusões guardadas nos seus sonhos sonhados no olhar flutuando em mim agora.
Quero, quero sempre mais um pedaço de mim contido no seu corpo e nos seus olhos para chegar ao meu fim.
Que não tem fim.

quarta-feira, março 01, 2006

Nada como começar o dia ouvindo Beatles


“Good day sunshine
Good day sunshine
Good day sunshine

I need to laugh, and when the sun is out
I've got something I can laugh about…”

“Life is very short and there’s no time for fussing and fighting my friend…”

“Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love

There's nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that can't be sung
Nothing you can say but you can learn how the play the game
It's easy

There's nothing you can make that can't me made
No on you can save that can't be saved
Nothing you can do but you can learn how to be you in time
It's easy

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need…”

Apenas tomar o sorvete


Eu preciso arrumar um jeito de sentir as coisas pelo que elas são
e largar essa lente gigante em algum lugar.
Porque com a minha tristeza eu tenho que afundar,
e com a minha alegria ser mais do que posso?
Eu preciso saber viver, deixar levar.
Entender que o tédio quando bem vivido
É melhor do que sempre voar e ser anjo caído
Ver que nas coisas simples eu posso realizada estar.

O mundo inteiro está repleto de fealdade e beleza,
talvez eu deva ignorar.
Não para ficar contida em mim mesma,
porque aí vou me perder na tristeza de ser só eu e nada mais.

Hoje estava olhando a moça tomando o sorvete.
Imagine que delícia aquele macio nevando na língua o gosto.
E havia tantas pessoas na sorveteria, tantas pessoas tomando aquele sorvete delicioso. Naquele momento eu vi beleza no mundo. Mas não era para ser.
Era só para eu ficar tomando meu sorvete.