terça-feira, julho 18, 2006

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...


Uma religião pela qual tenho me interessado é o budismo. A busca pelo equilíbrio através do fim do desejo. Além disso, é uma religião em que não há deus. O próprio Sidarta negou a existência de um espírito universal.

Já fui católica apostólica romana. E já fui também daquelas pessoas que dizem que acreditam num Deus diferente do da Igreja. Continua sendo um deus, não adianta. Passei a me questionar sobre nós termos que adorar algo, e comecei a negar as divindades. Um deus que diz para ser adorado acima de todas as coisas é, no mínimo, muito vaidoso. E parecido com o homem.

Os deuses e paraísos são criados por culturas. Eles nada têm de sobrenatural, nós os fizemos à nossa imagem e semelhança. Os deuses gregos eram humanos, o paraíso dos homens do Oriente Médio tinha abundância e mulheres virgens, quando eles andavam num mundo de seca e burcas.

Por negar a superioridade, não adoro nenhum deus. No budismo, o interessante é que você não ora para adorar um deus, mas medita para encontrar a paz em contato com o universo.

Já pensei em ser espírita. Mas a idéia de que existe uma escala de evolução a partir dos seres brutos, depois os animais irracionais, então o homem, e finalmente Deus, incomodou-me bastante.

Os budistas não comem carne porque acreditam que os animais irracionais também teriam a mesma substância que nós, ocidentais, chamamos de alma. Para eles, nós não somos superiores aos animais irracionais. Concordo que não devíamos comer carne não porque os animais irracionais têm uma "alma", mas porque nós, seres humanos, nos colocamos acima da cadeia. Nós não estamos no meio do mato, mas em super-mercados onde a carne é disposta como se fosse diferente daquilo que veio.

Apesar da extrema perspicácia de Sidarta em alguns pontos, ele não deixou de sofrer influências da cultura em que vivia. O budismo exige uma série de rituais de submissão da mulher, apesar de não a considerá-la inferior ao homem.

Um ensinamento budista que me interessou muito foi a negação do desejo. Quanto mais queremos, mais nos frustramos. Num mundo repleto de pseudonecessidades, nossas angústias também são criadas. Negar o desejo, mas não se subtraindo do mundo.

Muito pelo contrário. Nós temos uma integração holística com o universo. Para os budistas, não existe alma, mas um impulso kármico, por isso eles falam em renascimento ao invés de reencarnação. Esse impulso kármico é algo como a vontade, de Schopenhauer, filósofo muito influenciado pelo budismo. Nós não somos uma substância imutável, mas tudo se modifica o tempo inteiro, e não existe um eu constituído, mas uma intersubjetividade.

Numa sociedade narcisista, em que vejo psicólogos dizendo para sempre olharmos pra dentro de nós, penso que os valores orientais são mais interessantes nesse sentido. Anatta, ou, a ausência de um "eu". Se percebêssemos que somos anatta, lutaríamos mais por justiça, quando não estaríamos procurando apenas nosso bem estar.

O budismo fala também em samsara, ou os mundos criados por nós. Costumamos cambalear pelo tempo e pelo espaço, regressando ao passado, e projetando futuros. Algumas lembranças que voltam para nos angustiar, ou medo de sair do lugar que parece seguro. Segundo a filosofia budista, nós devemos viver o presente, e extinguir o samsara.

Algo que me intriga é o nirvana. Para o budismo, diferente da filosofia espírita, não há uma alma migrando de um corpo para o outro, afinal, não há um "eu", mas o que permanece é o impulso kármico, a vontade de vida. Esse impulso seria extinto quando não houvesse o desejo, e então viria o estado de paz eterna, além do tempo e do espaço, uma espécie de não-ser.

No budismo, o tempo é concebido enquanto um ciclo. Não houve começo nem haverá fim. Mas o que seria esse nirvana? Parece-me a morte propriamente dita.

Não acredito em vida pós-morte. Se eu morrer não serei mais eu, que vivo numa determinada época e com determinadas pessoas que fazem parte de mim. Então seria outra.

Há muitas idéias que me agradam no budismo, mas não tenho religião. Prefiro não explicar as coisas, nem entender. Gosto de Alberto Caeiro. É apenas a Natureza.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Trecho de O meu olhar, Alberto Caeiro

segunda-feira, julho 17, 2006

Eu só não era feliz com você

Eu não sou triste, meu bem
Eu só não era feliz com você

Eu não estou só, meu bem
Eu só não estou com você

Eu não te odeio, meu bem
Eu só não faço questão de você

E você paga pra ver
E você paga pra ver
Não há como alguém como eu
Ser feliz, não dá pra crer

Você é quem dita o que é felicidade
Tem todas as verdades
Pois saiba que vaia de bêbado vale
Então bata o martelo
Vá ser feliz num castelo
E quem sabe
O mundo em volta adore a verdade
que você tem pra dizer

E você paga pra ver
E você paga pra ver
Não há como alguém como eu
Ser feliz, não dá pra crer

E você paga pra ver
E você paga pra ver
Eu não sou triste, meu bem
Eu só não era feliz com você

Quem nasceu pra ser malandro também quer ser doutor

Vou dizer, viu, uma pessoa que lê em inglês sabendo pouco de inglês.
Que lê em espanhol sabendo nada além de portunhol
sobre mercado cinematográfico na América Latina
um monte de dados
um orientador carrasco e mau-humorado
e mesmo assim
meu deus dos céus! eu amo pesquisa!
amo, amo, amo!
eu nasci pra isso, porra! =)

domingo, julho 16, 2006

Hostilidade é tensão sexual reprimida. (MAYNART, Henrique)

Balada do louco


Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

Arnaldo Baptista e Rita Lee

O Super Homem

Freud falava das três feridas narcísicas. A primeira foi quando Copérnico afirmou que a Terra não era o centro do universo, e sim um entre infinitos outros pontos perdidos além do tempo e do espaço. A segunda ferida foi provocada por Darwin a partir de sua teoria da evolução, segundo a qual o homem tinha os mesmos ancestrais dos macacos. A terceira teria sido aberta pelo próprio Freud quando ele questionou a razão dizendo que nossa consciência é apenas a ponta do iceberg, e o inconsciente e o subconsciente formariam o imenso resto do iceberg escondido no oceano.

Nós somos um animal como qualquer outro.

Nós não somos o centro de merda nenhuma.

Nós somos até fracos.

Eu já disse que eu amo Freud? :~

sexta-feira, julho 14, 2006

?

Percebi que o que eu quero me tornar é tudo que eu não quero ser.

quarta-feira, julho 12, 2006

Lady sings the blues

Entre tantas coisas espalhadas pela casa, ela procurava uma blusa, e não notou o CD caindo no chão depois de ela mexer na toalha da mesa. Pisou no CD, estava atrás de algo, o que era mesmo, ah, era a blusa. Não havia respondido aquela mensagem de celular. Como ele pôde mandar um recado às duas da manhã? Palavras hostis de quem sentia falta. Gostava do abraço encabulado dele, e do riso que fazia as bochechas rosadas contrastarem com os olhos verdilantes. Lembrava da sua camisa laranja, e que ele sempre coçava a nuca antes de lhe pedir um beijo como se fosse o primeiro. Já haviam estado juntos várias vezes, aquela noite nos banquinhos da praça quando eles não repararam nas estrelas, e sim nos postes, entreteram-se olhando os mosquitos se embebedando de luz. Ele queria sempre chegar mais perto, mas ela não o tocava enquanto falava, e ele ficava brincando com os dedos falantes dela. Buscava nela alguma coisa doida que desamarrasse os seus cadarços.

O interfone tocou, ela não queria visitas, e só atendeu porque não suportava mais o barulho. Mariana, não sei se lhe avisaram, do jeito que o seu irmão é, mas deixei um CD que um rapaz pediu para entregar a você aí. Ah tah, obrigada. A imagem do CD rolando pelo chão surgiu na sua mente, como uma coisa qualquer no meio de tantas coisas, mas que agora, com o aviso, lhe era percebida.

Ela havia dito que gostava da Billie Holiday no dia em que eles se conheceram, poucos dias depois eles se beijaram, a pedido dela, e poucos dias depois ela estava agora fitando aquele CD que se parecia com ela. Colocou no som, mas antes de ouvir foi resolver alguma rotina. Quando voltou pra casa, não se lembrou de ouvir, e foi ver algo na televisão.

Ele estava esperando o ônibus. Ela teve vergonha de ir até lá dizer como estava. Sabia que ele também a tinha visto, e teve certeza quando da janela do ônibus ele resolveu gritar Mariana, você gostou do CD? Que CD? O CD que eu lhe dei. Antes que ela repondesse, ele a olhou daquele jeito, e foi levado pela rua quente e apressada.

Já havia tido vários homens depois dele. Procurou o CD da Billie Holiday que ele havia lhe dado, mas não o encontrou. Lembrou que nunca o tinha ouvido.

Lady sings the blues
She's got them bad
She feels so sad
Wants the world to know
Just what the blues is all about...

domingo, julho 09, 2006

Perder o medo da chuva


Pensei em escrever esse texto depois de algumas idéias, alguns conceitos que ando questionando. Mas pra falar de amor, eu não quero parecer uma sábia, a dona da verdade. Todas as cartas de amor são ridículas, já dizia Fernando Pessoa, e sim, a única definição que tenho sobre o amor é de que ele é ridículo. Para além de tudo isso, andei pensando e conversando com vários amigos sobre o amor livre.

Algo que sempre me pareceu impossível de alcançar, considerando que nós, seres humanos, somos todos cheios de inseguranças e egoísmos, o amor livre agora me parece uma forma de amar muito sincera.

Quando falo em amor livre, alguns chamam de putaria ou coisa de quem está revoltado e não quer se envolver. Mas quem disse que uma pessoa num relacionamento aberto não se apaixona? Ama sim, com direito a todas as coisas bobas, os encantos, a poesia. Mas não o encanto do amor romãntico, da idealização, e sim a poesia de amar alguém honestamente, de se encantar não pelo que o outro tem de herói, mas, por exemplo, pelo jeito que ele mexe o cabelo.

Nós temos medo de perder as pessoas que amamos. Mas no amor livre você não terá como perder alguém, até porque essa pessoa não é sua. É a absoluta negação da posse. Ora, você vai ter alguém junto de você porque não lhe permitiu escolha, e não por ela realmente querer estar com você? E mais: no amor livre amar outras pessoas está permitido.

Todos sentimos atração por várias pessoas, queremos conversar e estar junto de tantas gentes interessantes, então não vejo o que haveria de errado em permitir essa aproximação, e sentir prazer, não sei onde está a traição.

Algo muito bonito no ser humano é a diversidade. Cada pessoa com quem a gente se relaciona tem um jeitinho todo seu, umas manias tão suas, e nos trazem experiências novas. No amor livre, nós nos permitimos ter essas experiências.

É difícil? É. Sempre é difícil romper com padrões sociais. Não digo que essa é a melhor maneira de amar para todos, mas cada um de nós precisa buscar a sua forma de bem estar. Só não quero ficar sem saber dos amores que a vida me trouxe e não pude viver.

sábado, julho 08, 2006

Eles passarão, eu passarinho

Ganhar é bom. Mas gostoso mesmo é dar a volta por cima.

Isso é só o começo...



*Post que foi apagado, mas publiquei de novo a pedido do Sr. Danilo =)

A escola da vida

Quando a gente erra alguém vem e diz: tá vendo, isso serviu pra você aprender alguma coisa. Com o tempo passamos a ter essa mesma idéia, e essa é uma forma inteligente de sempre ver algo de bom em qualquer acontecimento. Mas me pego perguntando se estamos na vida aprendendo pra quê. A gente passa a vida toda aprendendo pra depois morrer?

Esse aprendizado é visto como uma evolução espiritual, como se estivéssemos caminhando para a ascese. Não vejo o que há de tão evoluído nos aprendizados de nossa história. Percebo que um dia fomos crianças inocentes que estendiam as mãozinhas para os passantes, pra quem o dinheiro não tinha valor, e o tempo apenas girava no brinquedo pendurado no berço.

Agora, o que somos? Seres evoluídos espiritualmente? Gentes medrosas, contidas nos seus carros em sinais esperando o verde dizer que já pode seguir pra alguma coisa apressada do dia. Andamos com pressa, e estamos sempre buscando o outro dia, que será o mesmo.

Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens. Quero saber pra quê aprendemos tanto. Pra ter medo? Pra desconfiar? Pra não se fazer de ridículo e adorar? Pra deixar de ser mágico? Quero saber pra qual vida, se só tenha esta, eu tenho que aprender.

segunda-feira, julho 03, 2006

Proximidade das eleições gera discussão sobre voto nulo

Em um país imaginário, os fiscais de uma seção eleitoral aguardavam pelos eleitores que insistiam em não chegar. Às quatro horas da tarde, filas de eleitores davam a volta no quarteirão até se perderem de vista. Após a apuração dos votos, constatou-se que cerca de 70% deles eram em branco. Foi realizada outra eleição, e mais de 80% da população votou em branco. A capital do país foi sitiada, ou seja, foi declarado estado de emergência enquanto a ordem institucional se encontrava ameaçada. Toda essa situação e o seu desenrolar estão retratadas no livro Ensaio sobre a Lucidez, do escritor português José Saramago.

Na vida real, seja nas mesas de bar ou na Internet, há discussões sobre as eleições desse ano. Alguns falam em votar nulo ou em branco, gerando debates sobre o papel do cidadão e sobre a democracia. No Brasil, diferente do país de Saramago, o voto em branco não anula eleição nem vai mais para nenhuma legenda desde 1997, servindo apenas para fins de estatísticas.

Quando o eleitor digita na urna eletrônica um número que não existe, esse voto é considerado nulo. Segundo o artigo 224 do Código Eleitoral, se mais da metade dos eleitores votar nulo será declarada a nulidade da eleição e ela deverá ser preparada novamente no prazo de 20 a 40 dias. Os candidatos da eleição anulada poderão se candidatar de novo.

Mensagens em massa fazendo propaganda do voto nulo foram enviadas pelo Orkut por Andréa Nascimento, estudante de Biologia Bacharelado da Universidade Federal de Sergipe (UFS). “Meu recado dizia: imaginem se mais da metade da população votar nulo, o que aconteceria no Brasil? Mas não sei ainda se vou anular meu voto. Fico com a sensação de que vou votar nulo sozinha, acho que todo mundo sente isso”, afirmou Andréa.

Grandes fóruns de discussão, como o iniciado por Andréa, são formados na Internet. Há redes de mobilização para fazer manifestações acionadas em questão de horas. “As informações circulam de forma muito rápida. Mas é aquela velha história: o cara que está lá no canteiro de obras não tem acesso a isso”, disse o cientista político Ernesto Seidl.

Marineide dos Santos tem uma banca onde vende sorvete no Terminal D.I.A., em Aracaju. “Eu já votei nulo”, afirmou. “Foi um voto de protesto, pode não ter sido pro resto do mundo, mas pra mim foi”, disse depois de servir um sorvete a um menino com farda de escola. Marineide falou que ainda não sabe em quem vai votar nessas eleições. Ela é contra o voto obrigatório. “Se o voto fosse facultativo os políticos trabalhariam mais para conquistar confiança, e nem metade da população sairia de casa para votar”, opina a comerciante.

O voto é obrigatório no Brasil para indivíduos com idade de 18 a 65 anos. Segundo o cientista político Ernesto Seidl, provavelmente as taxas de participação ainda seriam elevadas se o voto não fosse obrigatório. “Em grande parte por causa da mitologia democrática difundida, segundo a qual o voto é um direito sagrado. Também pelo fato de o voto ser um instrumento de engrenagem do clientelismo, que pode trazer benefícios ao eleitor”, avalia.

Eleições anuladas em Sergipe

Mais de seis mil eleitores tiveram que ir às urnas de novo em dois municípios de Sergipe, Nossa Senhora de Lourdes e em Divina Pastora, em 2004 por conta do número de votos nulos no processo eleitoral. No primeiro caso, o desembargador Artêmio Barreto, presidente do Tribunal Regional Eleitoral, pediu que fossem enviadas tropas federais para a cidade a fim de garantir a segurança dos eleitores.

Em Nossa Senhora de Lourdes, o prefeito Laerte Gomes tentava se reeleger e foi o único candidato da primeira eleição. Seu candidato à vice, Cleomaston da Silva Costa, era menor de idade. Dos 4.316 eleitores, 2.220 votaram nulo. Na segunda eleição, Laerte se candidatou novamente, mas Péricles Barbosa de Matos, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi eleito com 51,20% dos votos.

Já no município de Divina Pastora, Carlos Augusto Cardoso Costa, Cabelinho, tentava seu terceiro mandato. Ele concorria com Paulo Mendonça, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Jorge Oliveira, do Partido Popular Socialista (PPS), e Antônio Carlos dos Santos, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Dos 2.402 eleitores, 1.493 votaram nulo, sendo que Antônio Carlos dos Santos não recebeu nenhum voto. Na segunda eleição, José Carlos de Souza, do PMDB, venceu com 56,1% dos votos.

Reportagem: Tatiana Hora

Edição: Carolina Amâncio

domingo, julho 02, 2006

Que timinho

Não acompanhei essa copa. Só vi o jogo contra França porque minha mãe deu uns berros "aaah, o Brasil, tá perdendo, aaah", e aí me interessei pra ver.

Ah, copa boa foi a de 1994. Aquele pênalti de Baggio? Inesquecível! As pernas de Leonardo? Vixe minha nossa senhora...

Chorei quando o Brasil perdeu pra França na final de 1998 (aí sabe ser paia), mas dessa vez eu fiz foi rir. Não porque estava torcendo contra, como algumas pessoas que conheço fizeram, afinal, minha torcida contra continuaria dando audiência pra Globo :P Apenas porque Galvão Bueno dizendo "é preciso chorar mesmo, mas a vida continua" foi engraçado.

E como é que Ronaldinho ganha tanto dinheiro só pra viver reclamando do joelho ein?

Agora sim começam as aulas!

sábado, julho 01, 2006

Coração vagabundo


Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meu sonho sem dizer adeus
E fez dos olhos meus um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim.

Caetano Veloso

Todos estes que estão aí atravancando meu caminho:

Eles passarão, eu passarinho!

Mário Quintana

Se eu quiser falar com Deus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil

sexta-feira, junho 30, 2006

Segure bem o vaso!

Tava estudando uma apostila da disciplina eletiva que peguei, Introdução à psicologia do desenvolvimento, e achei uma coisa muito interessante.

Nosso pensamento funciona através de imagens e de signos adquiridos socialmente. Imagine a seguinte situação, você tá segurando um vaso prestes a cair e eu quero evitar que isso aconteça. O que deve ser dito?

a- NÃO QUEBRE O VASO!

B- SEGURE BEM O VASO!

E aí, escolheu qual alternativa? Vamos lá.

Já que nossas representações mentais são imagens, quando eu digo Não quebre o vaso, você já imagina, de forma muito rápida, que está quebrando. Se eu digo, Segure bem o vaso, você pensa que está segurando o objeto com força, e que não vai deixá-lo cair de forma alguma.

Daí pensei uma coisa. Tá aí porque costumamos adorar o que é proibido. Quando uma mãe fica enchendo o saco, filha, não dê não, não fume maconha, a menina vai e... ram ram, enfim.

segunda-feira, junho 26, 2006

Impressões de um filme


Um condenado à morte escapou, Robert Bresson, 1956

Os guardas de uma prisão na França durante a ocupação nazista avisam que irão recolher os lápis dos prisioneiros, pois eles estariam usando-os para se comunicar através de bilhetes. Durante todo o tempo, eles tentam manter os prisioneiros afastados.

Fountaine é um tenente da guarnição francesa, e recebe o aviso de um colega: Você é o único que pensa em escapar, veja esses muros, é impossível fugir daqui. Mas Fountaine não desiste, e está sempre tentando se comunicar com os prisioneiros para falar de liberdade.

Às vezes Fountaine escutava tiros e acreditava que um de seus colegas havia sido executado. Em alguns casos ele errava, e de uma hora para outra um companheiro seu nos surgia, e outras vezes ele acertava, e as imagens não nos davam explicações. Bresson nos deixa assim como Fountaine, que em determinado momento do filme diz, alguns desaparecem do nada, outros surgem do nada.

A prisão não comporta mais tantos prisioneiros, e alguns são aglomerados em dupla numa única cela. Não lembravam os opressores que aqueles homens deviam ser mantidos distantes uns dos outros?

No dia em que Fountaine recebe sua sentença de morte, Jost chega à sua cela. Fountaine o vê conversando com um dos guardas, e avisa a Jost que não é possível servir a dois mestres, e ele não deveria ficar do lado dos nazistas em troca de favores, pois no fim de tudo eles iriam perder. Fountaine se pergunta se deveria matá-lo para poder escapar, se Jost não seria um traidor. Mas aos poucos vai formando um laço com o menino de apenas 16 anos, que queria tanto voltar pra sua mãe e sua irmã. Assim como Fountaine, quando enquanto labora a corda com a qual vai fugir, percebe aqueles nós semelhantes às tranças que sua mãe fazia em sua irmã.

Fountaine e Jost se unem para tentar fugir, e cada passo dos dois é acompanhado pela nossa ânsia, mesmo que Bresson já nos tenha avisado de que Um condenado à morte escapou. E Bresson quer nos deixar claro de que o mais importante ali não é o suspense. Nós acompanhamos os passos de ambos pelos ruídos de seus pés sobre as pedras onde pisavam com todo o cuidado para não chamar a atenção dos guardas, ouvimos apitos, e Bresson prefere a sinfonia dos ruídos de uma realidade árdua à música extra diegética.

Alguns afirmam a extrema religiosidade de Bresson em seus filmes guiados pelo jansenismo, e que alguns de seus personagens são redimidos pelo amor, como em Pickpocket(1959). Apesar da influência da religiosidade do autor, não a vejo como um elemento central da obra. Bresson está muito mais para uma base materialista, há uma enorme perspicácia no seu tratamento das relações sociais. Em Um condenado à morte escapou, Bresson tece a consubstancialização entre Jost e Fountaine ( em Au hasard Balthazar(1966), Marie e o burrinho Balthazar também são consubstanciais), e há construção de laços entre os dois, mas Bresson não trata de redenção pelo amor. Ele nos fala de conflitos de classe, e da importância da união de uma classe em prol de uma insurreição.

Após pular os muros da prisão, Jost diz: Ah, como minha mãe iria se orgulhar de mim nessa hora! Os personagens de Bresson se conduzem para a ascese, ele que via o filme como um ritual sacro. Jost e Fountaine não podem correr, eles não nos parecem tão livres caminhando com medo das pedras e dos pés para fazer silêncio, pois a qualquer instante os guardas poderiam apanhá-los.

domingo, junho 25, 2006

Um pedido

Ando muito ocupada para essas coisas de poesia. Não, eu não queria isso. Mas veja só, ou vou viver no campo e plantar e matar bois com marteladas, ou fico por aqui, destinando tudo em volta de um doutorado. É, tudo agora é pesquisa, artigos, livros e papéis espalhados em cima da minha cara refletida na mesa. Acabaram as paixões infantis, a cachaça, a vagabundagem. É... Posso dizer que fantasticamente me sinto bem melhor assim. Adoro estar stressada. Ah, mas por tudo que há de mais profano: tirem tudo de mim, só não me tirem a poesia!

sábado, junho 24, 2006

Madonna


Sei que existe um consenso sobre o fato de que Madonna deveria voltar a ser puta. Há até comunidades no orkut dedicadas a isso. Mas eu só comecei a gostar da Madonna quando ela veio com aqueles papos de cabala, e lembro-me como hoje de que via infinitas vezes aquele clipe Frozen, em que ela parece uma águia num deserto de gelo (ui). Quando eu era criança, simplesmente achava a Madonna puta. Nem mais nem menos do que isso.

Eu me tornei fã dessa mulher. Não só porque ela é a rainha de grande parte dos gays, e toda hora muda de cabelo, e se contorce toda aos sei lá quantos anos. Mas porque ela canta Haven’t we met? You’re some kind of beautiful stranger, you could be good for me, I have a taste for a danger…

Sim, ela é um produto da indústria cultural estadunidense, mas adorei ver crianças mulçumanas num desfile de moda, o recanto da futilidade, e depois Madonna jogando uma bomba na cara de Bush, tudo isso num videoclipe da MTV. Madonna é a própria contradição, a mulher que critica a elite estadunidense e faz parte dela, que uma hora é devassa, e outra hora é mãe de família, tudo com muita sagacidade e estratégia de marketing.

Analise this...

Top 10

Beautiful stranger
Love profusion
American pie
Die another day
Like a prayer
The power of goodbye
Ray of light
Like a virgin
Holiday
Material girl

Ah, essa minha mania de querer a cereja no sorvete!

domingo, junho 18, 2006

Olando


O homem tem a mão livre para agarrar a espada; a mulher deve usá-la para impedir que as sedas escorreguem de seus ombros. O homem encara o mundo de frente como se ele fosse feito para seu uso e de acordo com o seu gosto. A mulher lança-lhe um olhar de esguelha, cheio de sutileza, e até de desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar tivesse vindo a ser a mesma.

Isso é a opinião de alguns filósofos e sábios, mas nós temos outra. A diferença entre os sexos tem, felizmente, um sentido mais profundo. As roupas são meros símbolos de alguma coisa profundamente oculta. Foi uma transformação do próprio Orlando que lhe ditou a escolha das roupas de mulher e do sexo feminino. E talvez nisso ela estivesse expressando apenas um pouco mais abertamente do que é usual- a franqueza, na verdade, era sua principal característica- algo que acontece a muita gente ser ser assim claramente expresso. Pois aqui de novo nos encontramos num dilema. Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; às vezes só as roupas conservam a aparência masculina ou feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. Cada um sabe por experiência as confusões e complicações que disso resultam; mas deixemos aqui o problema geral, e observemos somente o seu singular efeito particular de Orlando.

Porque a mistura e alternada preponderância de homem e mulher é que frequentemente davam à sua conduta um giro inesperado. As mulheres curiosas perguntariam, por exemplo: se Orlando era mulher, como não levava mais de dez minutos a vestir-se? E não eram suas roupas escolhidas mais ou menos ao acaso, e às vezes estavam até um pouco gastas? E diriam ainda que lhe faltava um certo formalismo masculino e o amor que os homens têm ao poder. Seu coração era excessivamente terno. Não podia ver espancar um burro nem afogar um gatinho. Embora observassem ainda que detestava assuntos domésticos, levantava-se de madrugada e saía pelos campos, no verão, antes de raiar o sol. Nenhum fazendeiro conhecia melhor do que ela as coisas da colheita. Podia beber com os mais fortes e jogar jogos de azar. Montava bem, e era capaz de dirigir seis cavalos a galope pela Ponte de Londres. Embora ainda, apesar de audaciosa e ativa como homem, se notasse a vista de alguém em perigo lhe produzia palpitações das mais femininas. Rebentava em lágrimas à mais leve provocação. Não era versada em geografia, achava matemática intolerável, e sustentava certos caprichos mais comuns nas mulheres do que nos homens, como, por exemplo, que viajar para o sul é descer uma encosta. No entanto, se Orlando era mais homem ou mulher, é coisa difícil de dizer e não pode ser resolvida agora.

Virginia Woolf

Sobre o nobre Orlando, que se transforma em mulher. Sobre nós, que homens ou mulheres, acima de tudo somos humanos.

sábado, junho 17, 2006


Eu não sou pessimista. O mundo é que é péssimo.

José Saramago

Cada um na sua

Já ouvi muita gente dizer ah, não tenho problema nenhum contra gays, eu só detesto aqueles gays escandalosos, eles não se dão ao respeito, se pelo menos fossem homens, uma coisa é ser bicha outra coisa é ser homossexual, homossexual eu respeito. À merda! É cada uma, e daí se o cara quer botar silicone, pintar as unhas de vermelho, e botar um tamanco plataforma com um salto enorme? Deixe o cara! Ele veste o que ele quiser, não é da sua conta. Por que ele não merece ser respeitado? Por que imbecis como você se sentem incomodados com a homossexualidade dele? Homossexual tem que se comportar igual a hetero pra ser respeitado, por quê? Porque eles dão o cu e isso é feio? Que é que você tem a ver com o cu dos outros? Cuide do seu cu, porra!

sexta-feira, junho 16, 2006

Minha honey baby

Hoje estava conversando com pessoas queridas e percebi que há uma crise comum em gente da nossa idade. Vinte e poucos anos, já não somos adolescentes. E eu achava que era só eu. Mas certamente é algo que traz uma evolução através de muitos questionamentos. Digo, na verdade, ou você afunda, ou evolui. No caso, escolhi lutar. Elas também. Estranho é perceber que idéias que tínhamos sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre nós, eram ilusões. Então relativizamos tudo, e aderimos ao ceticismo para, de certa forma, nos sentirmos pisando em chão seguro. Oh sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que não acredito mais em você... É isso, parece que se encaixa na música. "Você" é qualquer coisa em que deixamos de acreditar. Como os caras pintadas que cantavam essa canção por não acreditar mais num determinado governo. E você? Tem a sua "honey baby"?

Vapor barato


Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey

Minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu quero esquecê-la, eu preciso
Oh, minha grande
Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby, honey baby, ah


Trilha sonora de Terra estrangeira, de Walter Salles

quinta-feira, junho 15, 2006

Ser gente

Toda essa gente
Eu como gente
Eu quero gente
Odeio gente
Eu amo gente

Filosofia, antropologia, sociologia
Psicologia, a gia a gia
A ciência
E a crença
Prosa, poesia

Eu como gente
Eu quero gente

Olhar nos olhos, chegar mais perto
Tenho mãos feitas para o afeto
Gosto do que sente e é humano
Do que inventa e não sabe
Profano

Eu tenho amor fati
Amo tudo o que está vivo
Até mesmo a dor
Até mesmo a dor
E alegria, alegria
Porque mais do que ser contente
Eu sou gente
Eu vivo, eu vivo

Quando eu morrer
Que me façam outra
Pra cair na terra saindo debaixo do chão
Porque não vou pro céu

Eu ser
Um ser vivo
Ser bruta
Todo ser vivo homem
É ser bruto: agressivo, atrevido, cavalo, desaforado
Bruto
E vivo

São tantas emoções

Faz tanto tempo que não me apaixono por uma banda. Fazer declarações de amor absurdas e dizer, essa é a música da minha vida, é pra sempre, eu sei. E que seja infinito enquanto dure.

Cara, eu quero me apaixonar por uma banda!

Nunca mais

- Essa é a última vez que a gente vai ser ver. Tá ouvindo? A última! É a última vez que a gente se vê na vida!

Voltei os olhos para trás, e vi uma camisa laranja, mal perebi o rosto do homem, virei-me de novo, e permaneci esperando a minha amiga no terminal. A mulher nada disse. Que diálogo estranho de se ouvir. Coisas da vida.

terça-feira, junho 13, 2006

Radiohead


Estava pensando em como descobri o Radiohead e, veja só, não é uma história fabulosa. Eu simplesmente loquei The Bends na CD Club. Não, pior, a primeira vez que ouvi a banda foi num comercial, e quando a minha professora botou pra tocar na aula de inglês As long as you love me e Fake Plastic Trees, eu gostei mais da música dos Backstreet boys. Sim, eu me tornei fã dos Backstreet boys ouvindo a Jovem Pan, e tinha posters, vídeos, e sabia a comida preferida de cada um. Todo mundo já fez merda na vida, né?

Quando loquei The Bends, na época já começara a curtir rock graças a Jim Morrison, e me apaixonei de cara. Ouvir o dia inteiro, adormecia escutando Radiohead. Depois foi o Ok computer, e gostei mais ainda, prefiro a fase mais eletrônica da banda.

Dizem que Radiohead é "depressivo". As músicas podem até ser tristes, mas me sinto bem pra caramba quando escuto, e canto com os olhinhos brilhando.

Cinco anos depois, Radiohead ainda é minha banda favorita. E meu irmão só veio descobrir a banda agora, fuçando minhas MP3, mesmo ouvindo há anos a música deles aqui em casa.


Tom Cruise em Vanilla Sky, bota o CD pra tocar no carro e diz: "This is Radiohead". Everything is in its right place...

Lindo, gostoso! Tá, eu sou fútil :P

Top 11

*Let down
*Karma police
*Optimistic
*There there
*Exit music (for a film)
*How to desapear completely
*The National Anthem
*Paranoid android
*Nice dream
*Bullet proof... I wish I was
*You and whose army

De mulher pra mulher... Marisa!


Numa revista feminina da minha mãe...


“Venci o câncer duas vezes com cirurgias espirituais”
*
Você mede menos de 1,70m?
Corpo mais esbelto* Pernas mais longas* Auto-estima mais alta* Atreva-se a vencer nas melhores profissões* Vista com elegância* Conquiste a admiração e respeito das pessoas!

AUMENTE SUA ESTATURA

Se você não aumentar pelo menos 5 cm em 30 dias, eu devolvo seu dinheiro na hora.

Imagine-se com 15 cm a mais de estatura!
*
Solução definitiva para as rugas

Conheça a cirurgia que retira os músculos da testa e das laterais dos olhos.
*
SEDUÇÃO A FLOR DA PELE

Você sabia que a visão de uma imagem é o maior estímulo de um homem? E que eles não conseguem resistir a uma roupa sexy? Não deixe que ele VÁ BUSCAR EM OUTRA o que você já pode ter em sua casa. A linha de fantasias Mais Pimenta foi desenvolvida após anos de pesquisa em vários países.
*
FUI VÍTIMA DE UMA SUBSTÂNCIA MÁGICA

Veja estes depoimentos:

“Sentia que ele não me amava mais, e, apesar de todos os esforços que fiz, tinha a impressão de que ele era indiferente comigo, não percebia minhas novas roupas ou meu novo corte de cabelo. Uma amiga havia me dito desse perfume, quando recebi este perfume e coloquei algumas gotas em meu corpo... nunca pensei que um perfume fosse capaz de tal transformação, meu marido me desejava como em nossa lua de mel”.

Responsabilidade:

Você deve ser responsável pelo uso do perfume, nós não nos responsabilizamos por abusos ou violações pessoais, caso queira ter o poder da sedução.


Revista Malu, 8 de junho de 2006

segunda-feira, junho 12, 2006

A beleza do crime

Passo depois de passo ela desce rente aos meus olhos sem saber da vontade que me guarda. As escadas do meu prédio não têm fim ao meio dia, e ela, com seu corpo frágil deslizando na tarde quente, me parece um objeto inócuo perfeito para ser jogado escada abaixo. O meu pé nas suas costas, as coisas das suas mãos voando pro ar, e a saudade de toda a vida passando pelos olhos dela, que derramados no chão de sangue param de sonhar. Morte. Fim. Olá, boa tarde. De nada, não ia deixá-la com essas sacolas.

Não consigo entender esse meu desejo de matar. Nunca matei, homem covarde, reserva de peladas, menino protegido pela irmã, jamais me meti a espancar ninguém. Olhando para a faca que com o rapaz corta o coco, me dá uma gana de botar a cabeça dele na borda da mesa e corta-la como um coco, e ver sair água de sangue.

Sempre presto atenção quando as pessoas estão vulneráveis. Sabia que confiamos infinitas vezes uns nos outros todos os dias? Quando você entra num táxi, você confia no taxista, porque quem lhe garante que ele não vai estourar seus miolos e te deixar na casa de deus. Penso frequentemente sobre as minhas situações de vulnerabilidade. E imagino mil formas de matar.

O pânico guarda uma arma calibre 38 debaixo do meu travesseiro. Se for hora de acordar, eu me assusto com o despertador. Há tudo para temer. Só abro a porta olhando por entre a corrente. Talvez um dia me matem quando eu estiver desprevenido e aí vai ser a maior sacanagem da história.

A criança pequenininha me pede:

-Tio, dá pra você me ajudar - e me estende as mãozinhas enquanto a porta aberta do ônibus chama a rua para entrar.

Eu não poderia simplesmente empurrá-la escada abaixo?

domingo, junho 11, 2006

O senhor é meu pastor, nada me faltará...


- Se você está sentindo dores de cabeça, insônia, ansiedade, se nada na sua vida parece ter solução, ah, meu amigo, você está com encosto. Venha para a sessão do descarrego nesse domingo na igreja...

Quantas pessoas no Brasil vivem ansiosas e passam a noite em claro pensando nas contas a pagar, têm dor de cabeça de tanta preocupação, e às vezes se sentem como se estivessem num beco sem saída? Me diga vá?

Seu Zé fica esparramado no sofá depois de um dia inteiro dando duro no batente e andando em transportes coletivos cheios de sovacos, quer qualquer diversão o mais imbecil possível, ou quer que dinheiro caia do céu, ou ir logo pro céu porque isso aqui é um inferno, Seu Zé pensa: Eu só posso estar com encosto! Claro que nem todo mundo é besta, mas Seu Zé está realmente, eu digo realmente desesperado, eu digo a ponto de vender o cu por cinco reais e um passe.

O que não falta por aí é Seus Zés. Dona Josefina diz que no seu bairro o povo adora deixar dinheiro nessas igrejas sem vergonha, ela esfrega esfrega a roupa, e passa a mão cheia de calos no rosto suado de cansaço. É, minha fia, eles mandam ir pra fila, quem for doar 50 reais... quem for doar 10... e quando você não paga o dízimo eles botam um risco vermelho no seu nome. Minha avó dá boas risadas e diz, mas repare, hoje em dia é tudo coisa do demônio, coitado, nem sabe de nada.

Quer ficar rico
faça uma igreja
nesse mundo capitalista
até Deus
até Deus, meu Deus!
é empresa.

quarta-feira, junho 07, 2006

Mestre Tom Zé


Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?
*
De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói,
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de nada,
eu não sei de nada.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo apanhar,
querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.
Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até fraco,
eu sou até fraco.
*
Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.
*
Na vida, quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
*
Em muitos países do mundo a garota
Também não tem o direito de ser.
Alguns até costumam fazer
Aquela cruel clitorectomia.

Mas no Brasil ocidental civilizado
Não extraímos uma unha sequer
Porém na psique da mulher
Destruímos a mulher.
*
Filha da prática
Filha da tática
Filha da máquina
Essa gruta sem-vergonha
Na entranha
Não estranha nada

Meta sua grandeza
No Banco da esquina
Vá tomar no Verbo
Seu filho da letra

Meta sua usura
Na multinacional
Vá tomar na virgem
Seu filho da cruz.

Meta sua moral
Regras e regulamentos
Escritórios e gravatas
Sua sessão solene.

Pegue, junte tudo
Passe vaselina
Enfie, soque, meta
No tanque de gasolina.
*
O amor é velho, velho, velho
e menina.
O amor é trilha
de lençóis e culpa
medo e maravilha.

O tempo a vida lida
andam pelo chão,
o amor aeroplanos
O amor zomba dos anos,
o amor anda nos tangos,
no rastro dos ciganos,
no vão dos oceanos.

O amor é poço
onde se despejam
lixo e brilhantes:
orações, sacrifícios, traições.
*
Esta noite não quero saber de conselho
esqueça, deixe pra lá
me arranja um pecado
quente pra me consolar
pense bem que depois
tem o ano inteiro pra gente pagar

Cinqüenta gramas de amor
veja lá, é um bocadinho
vinte gramas até,
venha cá, é tão pouquinho.
Eu vou morrer se você
não quiser
me arranjar um pecadinho.

segunda-feira, junho 05, 2006

O amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis Vaz de Camões

O homem faminto

O poeta disse ao morador de rua
Que ia lhe escrever um poema
E lhe perguntou se tinha uma história de amor pra contar
O morador de rua disse que tinha fome

O jornalista disse ao morador de rua
Que estava fazendo uma matéria
E perguntou se foi ele quem roubou gente de bem, séria
Ele que vivia embaixo da ponte
O morador de rua disse que tinha fome

E ao ser preso o morador de rua pensou que não sabia
Não entendia esses homens
De letras, de armas, de bens
E disse que tinha fome
Todas as fomes.

sábado, junho 03, 2006

Toda unanimidade é burra?

Na aula de redação na oitava série, a professora explica:

- Senso comum é o que todo mundo diz, é clichê, afirmação generalista e sem embasamento. Um exemplo é aquela velha frase "Políticos são todos ladrões". Para escrever uma boa dissertação, vocês devem fugir do senso comum, procurar se embasar para levantar argumentos fortes.

Depois de anos e anos de estudo, eu regresso à sabedoria popular.

Políticos são todos ladrões.

sexta-feira, junho 02, 2006

Penso, logo, existo

Eu me cansei da ciência,
e dos seus títulos, seu método,
e dos seus méritos.

Talvez não fosse necessário escrever.
Talvez.
Nem ler, nem ser nada além da paisagem.
Nada que se volte para dentro.
Nem pensar sobre as coisas do mundo.

Expressar todo o inconformismo contra as relações de poder em palavras escritas não é contraditório?
Bradar contra a racionalidade através da filosofia não é contraditório?
E o que tem o cão, a vaca, a rã, com a filosofia?
E como quer o homem melhorar o mundo com seu conhecimento
se o conhecimento é o câncer da humanidade e o que tornou a humanidade o câncer do mundo?
O conhecimento, com que nós edificamos o progresso, sim, nosso belo progresso,
Da alquimia que transformou o sangue em ouro

Esse conhecimento para nós, pequenos burgueses,
acharmos que fazemos alguma coisa.
Essa tal sabedoria, que se volta contra a falsa consciência,
mas não é ela mesma falsa consciência quando confunde o saber com agir?
Ela não se deita sobre um livro e dorme comida pelas traças?

Mas como destruir a razão usando a razão?
E o que estou fazendo dizendo essas palavras?

Queria ser bicho, coisa misturada à Natureza.
Mas já nasci homem.
No masculino é a espécie
E só sei de que nada sei
mas não seria preciso não saber de que nada sabe?
o rato não sabe de que nada sabe
a ele não interessa.

quinta-feira, junho 01, 2006

Lisbon revisited

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

quarta-feira, maio 31, 2006

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

sábado, maio 27, 2006

Tem dias que eu fico pensando na vida

Hoje eu me fiz umas perguntas estranhas andando pela cidade. Sabe, aquele clima estou num clipe dos Rolling Stones, e bate até uma vontade de fumar um cigarro. É, mas eu fumo raramente, e a cidade não era feia ao ponto de ser underground, nem era bela para dar o ar de elegância. Era apenas Aracaju, e Aracaju é sem graça.

Enquanto fitava o meu sorvete de graviola com cobertura de chocolate, combinação estranha por sinal, eu me lembrei de um filme. Em Pierrot le fou, um homem pergunta a Ferdinand se ele estava ouvindo uma música. Ferdinand diz que não. Ele insiste, como é possível!, e manda Ferdinand chamá-lo de louco se não ouvia nada mesmo. Ferdinad diz que ele era louco. O homem se exalta, ergue os braços, até colocar as mãos na cabeça como um vencido. Ele havia ouvido aquela música durante a vida inteira e ela simplesmente não existia?

E você, já se sentiu alguma vez assim? A gente vive de crenças, há pessoas que se matam porque não acreditam em mais nada, há aqueles que se vestem com bombas porque crêem num céu cheio de virgens. Então imagine você acreditar numa coisa e, pá, ela não passa de uma mentira, ou coisa que ninguém aceita, ou algo impossível de se realizar. Pô, como eu sou idiota, ah, mas eu devo ser muito, muito idiota mesmo!

Depois eu me lembrei do Mefistófeles, o demo. Ele fez a seguinte proposta a Fausto: se em algum instante Fausto se sentisse plenamente feliz ao ponto de querer que ele fosse eternizado, Mefistófeles tomaria a sua alma. Eu fiquei matutando no ônibus, hum, me deixe ver, tem algum momento que eu faria pára, pára tudo, aqui tá bom, eu quero ficar assim pra sempre? Lembrei de coisas muito boas, e é incrível como a idéia de eternidade não me incomodava, eu não pensava poxa, saco isso, tá, eu tô feliz, mas dá pra mudar o disco? Eu aceitaria ter aquelas coisas eternizadas, só não prometeria a minha alma a ninguém por isso.

Sei lá, coisas da vida. É nessa hora em que a gente deixa a conversa pra lá e volta a falar de qualquer coisa. Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão...

sexta-feira, maio 26, 2006

Cinema e sonho


Freud trata o sonho como um lugar do desejo, da identificação, e da projeção. O cinema também é. No sonho, a projeção se dá no fato de todos os personagens terem relação intrínseca com o indivíduo que sonha, pois é ele quem elabora as ações deles por processos psíquicos inconscientes. Na situação fílmica, o espectador se projeta nos personagens do filme, e às vezes torce por eles. Se no cinema o espectador se projeta e se identifica com personagens representados na tela, no sonho o indivíduo se projeta e se identifica com personagens criados por ele mesmo.

A situação fílmica tem um caráter de narcisismo e de voyeurismo. O espectador se coloca enquanto personagem principal e sujeito daquelas imagens, como se o olhar na tela fosse o seu olhar, e não o da câmera. Ele é voyeur, pois contempla o filme como se espiasse uma realidade com sua lente onipresente. Binóculos a postos, o espectador se mete em todas as situações e sabe o que o assassino está tramando, mesmo que os personagens do filme não façam a mínima idéia.

A sucessão das imagens na tela se assemelha à forma como as representações do pensamento fluem. Um olhar no interior sobre fantasias, lembranças, idéias, se desenvolve como um filme elaborado pela psique. Um filme que nós inventamos com nossa memória, recriando os acontecimentos de acordo com nossa subjetividade, ou quando realizamos desejos que não estão ao nosso alcance na realidade imediata. A diferença entre o olhar do sonho e o do cinema é que na situação fílmica o indivíduo entra em contato com um material perceptivo real, enquanto no sonho ele desenvolve representações mentais. No cinema ele olha para a tela, no sonho ele vê de olhos fechados as figuras do seu inconsciente.

Tanto no sonho quanto na situação fílmica, os indivíduos podem vir a confundir realidade e fantasia. Parafraseando Guy Debord, o espetáculo é real, e o real é espetáculo. Alguns fecham os olhos por não suportar ver o sangue, outros gritam de medo, há aqueles que choram na sala do cinema. Saber que está vendo uma película não impede que o espectador confunda o real com o imaginário no momento em que ele se encontra envolvido com o filme. Seria como quando um indivíduo de repente descobre que está sonhando, mas se deixa levar pelos seus desejos, fenômeno chamado por Freud de sonho dentro do sonho.

Por mais que um filme apresente imagens absurdas, ele sempre terá mais lógica do que um sonho. Em Um cão andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dali, as seqüências que pareciam ter alguma lógica eram refeitas para que as imagens tivessem um caráter onírico. Buñuel e Dali eram surrealistas e, portanto, tinham intenções claras de promover a libertação do homem reprimido pelos ditames da civilização, e buscavam a contestação da racionalidade e exaltação da irracionalidade. Mas essa busca pela falta de lógica não seria uma outra forma de lógica ao invés da ausência dela?

Ver um filme é algo semelhante a sonhar acordado. Sonhos são espécies de filmes produzidos pela nossa inconsciência, e filmes são como sonhos exteriores a nós. Então acaba o filme, as luzes se acendem, demoramos um tempo para nos recuperarmos da hipnose das imagens, e saímos da sala como se estivéssemos acordando.

Imagem: Um cão andaluz, 1929.

quinta-feira, maio 25, 2006

E eles descansaram

Eu procurei os espaços nas estrelas
Pra eu caber dentro de mim
Você entrando no meu corpo
E a grama arranhando meu corpo
Com a ardência sutil da terra
Eu sou da terra
A mulher de barro
Sou seu peito, seus braços, muito mais que sua costela
Você sendo arranhado como um desgraçado pelas minhas mãos
Para no big bang do orgasmo
Explodirmos numa nova criação

quarta-feira, maio 24, 2006

Uma canção que parece lembrança da infância

Quando você precisar
Ligue pra mim pra conversar
E se eu algo te machucar
Vê se toca um violão
E toque aquela canção
Que parece com lembrança da infância

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

Quando parecer que não há
Faça um cafuné em quem você ama
Não pense em você
Olhe pro mundo
Veja que o mundo é bonito e injusto
Então faça alguma coisa pelo mundo

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

terça-feira, maio 23, 2006

Aula de Português

Diga se quando você era guri não fez isso...

A professora- Cê a, ca, cê e, ce, cê i, ci...

Guris- hihihi

A professora- cê o, co, cê u...

Guris- Cuuuu!!!

segunda-feira, maio 22, 2006

Da História

Ele deu um passo à frente e parou junto à mesa. Seu maxilar inferior pendeu um pouco para o lado em dúvida. É isso a velha sabedoria? Ele espera ouvir alguma coisa de mim.

- A história- disse Stephen – é um pesadelo do qual estou tentando despertar.

Do campo de esporte dos meninos ouviu-se um grito. Um apito estridente: gol. O que aconteceria se esse pesadelo desse um pontapé de volta na gente?

- Os caminhos de Deus são os nossos- disse o Sr. Deasy.- Toda a história da humanidade se move em direção a um grande alvo, a manifestação de Deus.

Stephen sacudiu seu polegar em direção à janela, dizendo:

- Isso é Deus.

Hurra! Ai! Rrhiiiii!

- O quê?- o Sr. Deasy perguntou.

- Um grito na rua- respondeu Stephen, sacudindo os ombros.


Do capítulo Nestor, de Ulisses, de James Joyce.

Essa é, certamente, uma das passagens mais bonitas do livro. Não se trata para mim de um livro difícil e grande que esnobo ter lido. Mas de uma obra que me fez rir (sim, rir, há coisas engraçadas!), chorar, que me emocionou como nenhuma outra. E não acredito que só uns poucos privilegiados “intelectuais” possam lê-la. Basta ter sensibilidade e se envolver com um narrador que brinca com você. Porque assim como a história não é feita somente pelos grandes personagens, pela classe dominante, mas é feita por todos nós, como afirma Stephen, a arte não pertence a uma elite, senão não é arte, é propriedade. A arte é libertação. Recomendo.

domingo, maio 21, 2006

Mesmo que seja bizarro

Quando eu era mais novinha, uma amiga que eu achava o máximo vivia dizendo pra eu ser mais falante, pra marcar presença, pra eu ser mais legal, porque eu era uma pessoa bacana, mas não tinha muitos amigos.

No começo eu concordava com esse modelinho idiota. Mas, mesmo tendo em mente como eu deveria agir, eu simplesmente travava. Tinha aquele impulso de falar e... sabe? Chegava numa festa e não conseguia me entrosar com os amigos dela porque não fazia a mínima idéia do que eles estavam falando. Era tão dissonante que eu não tinha referência nenhuma sobre um assunto pra tratar. Também não era interessante, pelo menos pra mim. Então eu me encostava num canto e começava a conversar com alguma pessoa que também estivesse sozinha olhando pro horizonte segurando um copo de bebida e encostada na parede mais próxima. Conheci pessoas maravilhosas assim.

Minha amiga ficava com os carinhas mamãe-sou-bonitinho-veja-só-que-fofo-toco-numa-banda-sou-cabeludo-e-tenho-carro, e eu ficava na minha. Ela dizia que pra ficar com um cara “massa” era pra eu rir do que ele falava. Oxe, minha fia, ria, o cara se liga quando a menina fica rindo demais, ah, sabe, isso quer dizer alguma coisa. Às vezes eu a via rindo o tempo todo enquanto conversava com um carinha que ela mesma dizia que era paia. E depois fiquei me perguntando como é possível achar que só porque eu tô rindo eu tô a fim de alguma coisa? Também fiquei preocupada, afinal, eu vivo rindo. Pelo menos a minha forma de rir é escrota o suficiente para ser broxante.

Aí um dia eu mandei pra tonga da mironga do kabuletê. Sabe de uma coisa? Quem disse que uma pessoa tem que viver falando com todo mundo? Sabia que existem pessoas tímidas quietinhas no seu canto e com poucos amigos que são muito legais? Caramba, eu sempre fui amiga dos gordinhos, dos feios, dos gays encubados com vergonha de si mesmos, dos negros isolados na escola que só tem branco, e os adorava. E, não sei, mas a idéia de rir forçado de qualquer merda que um imbecil metido a besta fala pra mim me incomoda bastante.

Comecei a achar paias as pessoas que ela dizia que eram legais. Depois refleti melhor e pensei que eles também deviam me achar paia, então, quem tava com a razão? Sei lá, paia é um conceito relativo. Cada um na sua, e o importante é que você seja você mesmo, mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro, que nem naquela música insuportável da Pitty.

Moral da história:
Pessoas excluídas são mais legais?
Pessoas pops são paias?
No mundo só tem gente paia?

Não tem moral. Todos somos bizarros.

Pensamento do dia:

Feliz aquele que fala muita merda e joga dominó.

sábado, maio 20, 2006

Compre batom, compre batom

Eu no supermercado quando tinha uns seis anos...

- Paaaiii, eu quero essa Barbie!

- Não vai dar, filha.

- Por quê?

- Tô sem dinheiro.

- Tem cheque?

quinta-feira, maio 18, 2006

Um corpo que cai


Isso pode parecer loucura ou seja o que for, mas eu sempre sonho que estou caindo. Sempre. É uma coisa que me incomoda muito, porque fico assustada e acordo completamente desnorteada.

Eu acordo com a sensação de que ia cair de algum lugar, mesmo que esse lugar simplesmente não exista. Eu fico "caindo sobre a cama", mas já estava nela. Dizem que essa sensação é provocada por um estranho fenômeno. A minha alma teria ido passear e, quando retorna, provoca a sensação de uma queda no momento em que está entrando no meu corpo. Estranho né?

Realmente sinto algo parecido com isso. Sim, apesar de como é possível dizer que tal coisa parece uma alma entrando no corpo? (sem piadinhas infames, hehe, alma não tem pau, suponho). É como quando a gente come alguma coisa ruim e diz que tem gosto de merda, mesmo sem nunca ter comido merda.

Eu não acredito nessa história da alma não, mas vou fingir que acredito porque assim é mais divertido.

quarta-feira, maio 17, 2006

Life is not a party

Chega um tempo em que tudo na vida é suado e só se consegue as coisas com muito esforço.

Por que as pessoas têm que construir alguma coisa?

Isso é uma merda. Eu quero mais é dormir.

Sabe de quem eu sou fã? Dos poetas vagabundos, dos jecas que deitam na rede, dos índios, dos hippies. E daí se você lutou pra caramba pra construir o seu império? Foda-se.

Tudo que eu quero é sossego!
Tudo que eu quero é é sossego!

Senhor cidadão


Emily - O que as pessoas vão pensar?

Kane - O que eu quiser que elas pensem.


Diálogo entre Charles Kane, dono de um império de meios de comunicação de massa, e sua esposa, Emily, sobrinha do presidente dos EUA, em Cidadão Kane, de Orson Welles.

terça-feira, maio 16, 2006

Ser e sentir

Às vezes por sentir demais
Eu não existo
A vasta distância entre mim e tudo mais
É a aproximação intensa dos sentidos

Ser não é sentir
Sentir não é ser
Ser é estar no mundo
Sentir é ser o mundo
O meu mundo
Que vive das mortes do meu ser

Esse ser que é muito mais do que existir
Mas não está
Apenas é qualquer lugar que não existe

segunda-feira, maio 15, 2006

Algum lugar

Não me venha fazer promessa
Que história é essa?
De dizer que não há vida sem mim
Você sabe que quando uma história começa
Com muita pressa
Num instante chega ao fim

Cada coisa no seu lugar
Cada palavra no seu tempo
Esteja agora onde você está
Não vá procurando outros momentos

Não venha falar que me ama
Você só ama
A mulher com vontade de existir
Pode brincar com os lençóis da cama
E os travesseiros
Só não pode me olhar assim

Eu nunca esperei você chegar
Você apareceu como se sempre fizesse falta por aqui
Estou indo embora pra onde você não está
Mas em todo lugar
Tem algo de que você gosta e que te fazia rir

Nos sinais
Nas árvores
No outro lado da rua
Nos braços
No toque
No outro lado da lua

sexta-feira, maio 12, 2006

Com a palavra, Vinícius de Moraes


A tonga da mironga do cabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
*
A terra prometida

Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz
*
Em algum lugar

Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz

segunda-feira, maio 08, 2006

Amor- pois que é palavra essencial


Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clítoris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, maio 07, 2006

Saló


Não há volúpia mais lisonjeante do que o privilégio de classe.

Filme de Pier Paolo Pasolini

Boa viagem

Ela jogou o lenço
Disse adeus
Ergueu os braços
Chorou segurando o terço

Há tanta gente
Toda essa gente que veio
Olhavam para ela
Ela sentiu que eram desejos de felicidade
E boa viagem!

Ali meu marido
Minha mãe
Meu pai
Meu filho
De quem se despede
Moça de vermelho?

De todos, não está vendo?

sábado, maio 06, 2006

Não é fácil

não é fácil
nunca foi fácil
entregar as coisas que revestem os sonhos da gente
procurando as partes em volta do mundo
como fragmentos perdidos nas causas sem rumo
não é fácil
nunca foi fácil
ser o outro e ser alguém mais
e ter certeza de que tudo isso já trás
tanta felicidade

e bem, não é verdade
mas isso a gente só descobre quando tudo se desfaz
mas é que a gente se desfaz
porque antes havia na gente mais outra pessoa
mas ela agora vive à toa
e a gente fica à toa
sem saber o que é andar
eu que nunca soube o que era o certo
fico com o destino incerto
nunca sei o que me traz

talvez a vida seja boa
entre afetos e desafetos
entre afagos e lágrimas tolas
mas assim olhar pra trás
e ver a frente como o vasto túnel
onde a gente teme o que não conhece
e uma luz dá medo do que virá

não sei, não sei
mas não é nada fácil
construir tantos afetos que depois são desafetos
e desvanecem como o sol por cima dos tetos da manhã
quando não quero ficar acordada
e puxo o lençol por cima da casa

porque pra ter amor
a gente tem sempre uma dor
e alguns se abraçam entre amor e dor
e as feridas têm que cicatrizar
ah não é fácil, amar nunca foi fácil
porque todos os outros são infernos
e a gente quer manter o céu certo
mas à custa do inferno de não ser capaz

e de céu e inferno a gente vive
e acaba no abraço do amor e da dor
de amar sempre um pouco a menos ou um pouco a mais.

quarta-feira, maio 03, 2006


Nada vos oferto
Além destas mortes
De que me alimento

Caminhos não há
Mas os pés na grama
Os inventarão

Aqui se inicia
Uma viagem clara
Para a encantação

Fonte, flor em fogo,
Que é que nos espera
Por detrás da noite?

Nada vos sovino:
Com a minha incerteza
vos ilumino

Ferreira Gullar

segunda-feira, maio 01, 2006

O novo mundo


E no primeiro dia, ela disse:

-Faça-se o amor.

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos

Dalton Trevisan

sábado, abril 29, 2006


E até quem me vê
lendo jornal na fila do pão
sabe que eu te encontrei...

Rodrigo Amarante

quinta-feira, abril 27, 2006


Longelongelonge...

Let it be, let it be

Sabe, para mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo - deixa o vento soprar, let it be, fique pelo menos com o gostinho de
ter brilhado um pouco.

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, abril 26, 2006

Deus e o Diabo na terra do sol


Os grandes teóricos sociais, Marx, Weber, e Durkhéim, acreditavam na morte da religião com o desenvolvimento da modernidade. Segundo Durkhéim, havia algo de eterno na religião, ela seria um símbolo de preservação da unidade coletiva, mas isso poderia ser conseguido através de ideais políticos. Em plena alta modernidade, podemos perceber que a religião está ainda muito presente na vida das pessoas. E alguns dos acontecimentos mais drásticos da modernidade tardia têm relação intrínseca com a religião.

O iluminismo e a racionalidade burguesa edificada junto com o nascimento do capitalismo, numa negação ao mundo teocêntrico do medievo feudal, provavelmente provocaram as especulações sobre o fim da religião. Entretanto, vemos um homem que, semelhante àqueles da pré-história que cultuavam seus ancestrais, ainda vive encantado pelo sobrenatural.

Homens doam seu corpo ao sacrifício pela sua fé. Lançam-se contra estações de metrô, balneários, aviões, como os que dirimiram o World Trade Center, um dos ícones do capitalismo. É claro que eles não tinham intenções definidamente políticas, antes sonhavam com um suposto céu repleto de virgens, mas a sua fé tem um caráter de contestação por explorados. Eles, que vivem no mundo árido, de mulheres escondidas em burcas, e fome e desespero por toda a parte, querem destruir o Grande Satã.

Segundo Nietzche, a religião exalta o derramamento de sangue. Festas são feitas para imolar animais, cristãos têm nas suas casas o Cristo crucificado pendurado na parede. Deus pediu a Abraão que levasse seu filho Isaac para ser morto em sacrifício. Depois disse que Isaac não seria morto, tudo havia sido feito para testar a fé de Abraão.

A jihad precisaria do sangue de todos os infiéis, e quem não está a serviço do deus, está a serviço do mal. Esses guerreiros entendem o mundo pelo viés da religião, e vêem quem os explora como entidades terrenas malignas com áureas sobrenaturais. O ópio do povo é usado como arma de revolução, porque só do lado dos deuses seria possível destronar outros deuses, os dominadores.

A luta de classes motora da história é representada através dos ataques terroristas ao mundo ocidental. A religião, o ópio que acalmava os explorados, que os fazia crer num mundo póstumo de felicidade onde seria mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no paraíso, agora é usada para espalhar o terror em impérios e cria diversas especulações sobre o futuro da humanidade. Qual será?

terça-feira, abril 25, 2006

A vida é feita de músicas


Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido mas existem possibilidades

Tenho um sorriso bobo
Parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda calma do mundo

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

Vamos deixar as janelas abertas
E deixar o equilíbrio ir embora

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Os sonhos vêm e os sonhos vão
O resto é imperfeito

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há

E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
E só maldade então, deixar um Deus tão triste

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo!


Tudo passa, tudo passará...

domingo, abril 23, 2006

Casa no campo


Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
e nada mais


Composição: Zé Rodrix e Tavito
Cantada por Elis Regina, a cantora mais emocionada.

sábado, abril 22, 2006

O infinito

Deixe eu te abraçar pra ter certeza de que você existe.
De olhos fechados
Pra não saber que eu existo
Pra esquecer de mim
E você se esquecer de você

E a gente só ser
Os espaços
Vários espaços
Negros
Vácuos

Ser um pouco mais
Sendo você
Você ser um pouco mais
Sendo eu

E no fim de tudo
A gente vai só ser
Os espaços
Negros
E vácuos

sexta-feira, abril 21, 2006

Pobres poderes

Certa vez estava eu num ônibus de madrugada, e um menino de uns 14 anos entrou pela parte de trás do veículo. O cobrador mandou o rapaz descer, e ele simplesmente se sentou. O motorista parou o veículo sob ordem do cobrador, que se levantou de sua cadeira e foi até o menino gritando você não pagou a passagem, seu vagabundo, filho da puta, e o empurrou escada abaixo.

Eu me assustei com a cena, então olhei para trás e percebi que só havia eu de passageira. Ouvindo a música do silêncio do ônibus se movimentando na madrugada cheia de ventos vazios, comecei a pensar sobre o fato. O que levava um homem que recebe um salário de fome a lutar com unhas e dentes pela empresa para qual trabalha?

Pensei na ausência de consciência de classe. Ele não reconhecia que era explorado pela empresa e não via o menino como integrante de uma mesma classe dominada. Depois refleti melhor. O cobrador não lutava pela empresa, ele fazia um espetáculo para se sentir semelhante aos que o exploram.

Uma das formas que os dominados têm para uma quimérica insurreição é imitar o dominador. Essa é a maneira de eles se sentirem legítimos, e, assim, muitos negros querem ser brancos, muitos pobres se fingem de ricos. Eles não cogitam a possibilidade de lutar contra quem os explora, e a sua falsa sublevação ocorre através da imitação.

O que aquele cobrador queria era a sensação de poder. Naquele momento ele se sentia dono do ônibus, o meio no qual trabalha e não lhe pertence. E aquele era um dos raros momentos em que podia exercer sua autoridade e criar um dominado. Sim, ele poderia fazer uma inversão de papéis à custa de um menino negro e pobre.

É muito comum indivíduos da classe subordinada se travestirem de dominadores. Quando tomados por tal acesso histriônico eles só respeitam quem é da classe dominante, e se dirigem aos pares como subalternos. Assim acontece com alguns atendentes de lojas, por exemplo, que tratam as pessoas de acordo com a quantidade de dinheiro no cartão, mas são eles mesmos pobres.

Lembro-me da vez em que minha mãe levou Nide, uma amiga nossa de Boquim, ao hospital João Alves. A moça do atendimento tratava a todos na fila com imensa soberba, agindo como se fosse alguma autoridade do lugar, e disse para Nide e mamãe voltarem daqui a um mês. Minha mãe perguntou a ela:

-Você olhou a ficha?

-Não.

-Você sabe o que ela tem para mandar ela voltar daqui a um mês?

Os olhos da mulher saltaram ao auscultar a ficha.

-Ela tem câncer- disse mamãe, sancionando o assombro da moça.

É isso o que vejo tantas vezes. Indivíduos sem consciência de classe, e cada um no seu mundo tentando fazer outros de subordinados numa escala interminável. A busca de poder vai além da procura pelo bem comum. Um poder imaginário, sonhado através das miragens sedutoras da publicidade, ao teatro da dominação no dia a dia.

quinta-feira, abril 20, 2006

Malditos filmes edificantes!

Sou uma pessoa brega, sentimental, meu excesso de sensibilidade dá nojo, mas pra tudo tem limite. Eu detesto aqueles malditos filmes edificantes! Tá bem, gostei de alguns há anos atrás, mas hoje em dia eu pelo menos sei a diferença entre filme bom e filme que eu gosto. E quando revi Cidade dos Anjos me perguntei como diabos chorei vendo aquilo. Lamentável.

Enfim, a questão é que esses filmes edificantes são uma das desgraças do cinema. Acredito que os filmes ruins com certificado de ruindade assinado embaixo são mais sinceros do que eles, como Todo Mundo em Pânico (não sei como tanta gente ria na sala, pois eu não achava a menor graça), e Cruzeiro das loucas (vou ter de admitir que dei boas risadas).

As pessoas que assistem a essas películas sabem que estão ali para ver merda. Agora, quanto a filmes edificantes, não, eles se dão o estatuto de arte. Aí todo mundo fica achando que cinema de arte são filmes dramáticos, atores chorando, lições de moral. Mas não é, porra.

A arte não foi feita para ensinar as pessoas a viverem. E aqueles atores que ganham o Oscar, nossa, às vezes parece que o padrão ator de qualidade se refere à maior quantidade de lágrimas vertidas em cena. Ninguém se lembra do quanto é importante um ator fazer o papel de uma pessoa comum, e conseguir elaborar com maestria a singularidade do comum. De um ator não querer aparecer mais que o personagem e ser estrela.

É melhor ator quem chora mais, e são bons filmes os que conseguem arrancar mais lágrimas do espectador, e não os que ousam esteticamente e levam à reflexão. Esse é conceito de cinema de arte que existe na cabeça de muita gente graças aos filmes edificantes e ao Oscar.

segunda-feira, abril 17, 2006

Canção de Alguéns


Eu não sei quem sou
Talvez porque seja alma diferente
A cada vida minha
Toda essa gente
não sabe das fantasias

Eu sou alguéns sem nomes
Túmulos e partos
Saudades, boas vindas
Eu tenho puro tato
O silêncio dessa noite me lembra as rodovias

Não sei para onde vou
Eu vago pelo dia
Eu quero a madrugada
Não durmo por sonhar tanto
Eu quero demais, demais, demais
E ando flutuando

Meu peito vive aberto
Refém do que não quero
E de todos os quereres
Desejo ser a chuva
quando ela cai na terra
E dá de beber aos seres

Eu não sei quem sou
Eu sou a mentira
Todas as miragens
Quase tudo que eu quis
Esses rios no sangue
Que não têm margem
Levam até longe de mim

domingo, abril 16, 2006

Sexo dos Anjos

Um dia desses fiquei surpresa quando uma grande amiga minha me disse: Também, né, você não acredita em Deus! Depois de tantos anos de terços, procissões, missas sem fim, sacramentos, era normal me parecer estranho essa frase. Eu nunca disse que não acreditava em Deus, pelo contrário, entretanto, ninguém acredita na minha fé. E, realmente, ela não existe.

Mas o fato de eu não acreditar em Deus não me dá o título de ateísta. Claro, porque para ser ateísta é preciso ter fé na não existência de Deus. Fé, essa palavra mesmo, porque nem a Igreja nem a Ciência podem provar que Deus não existe.

Está certo, acreditar em Deus dá certa paz, certa segurança ontológica. Já tentei, mas não consigo, não mais. Não obstante, não tenho a fé dos ateus. Eu não acredito em Deus, mas também não acredito que ele não existe.

Eu me sinto indiferente a Deus. Raros são os momentos em que lembro dele, como agora, por exemplo. No mais, eu sou das coisas mundanas. E fico com o Leminski, que disse: Os deuses? Eles que cuidem dos seus assuntos, e eu cuido dos meus.

E quem entende?

Fulana- Eu sou virgem ainda, mas já fiz umas coisinhas aí, tipo sexo oral...

Cicrana- Meu namorado quer que eu faça sexo oral nele, mas não faço de jeito nenhum. Não já basta coisar, não? Já disse, mesmo que eu passasse dez anos com um cara eu não ia chupar a pinta dele.

?

quinta-feira, abril 13, 2006

Teorema


Como pode fazer isso a um homem acostumado à ordem, ao amanhã, e, sobretudo, à posse?

Filme de Pier Paolo Pasolini

O desassossego


E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou de com quem eu falei. Assim, muitas vezes repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância- irmãos siameses que não estão pegados.

Livro do desassossego, Fernando Pessoa

coincidência?

quarta-feira, abril 12, 2006

E agora?

A metamorfose

Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de uma noite mal dormida, achou-se em sua cama transformado em monstruoso inseto. Estava deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e ao levantar um pouco a cabeça viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha mal podia agüentar, pois estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam aos seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência.

Franz Kafka

segunda-feira, abril 10, 2006

De alma aberta e o coração cantando


A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a magica presença das estrelas!

Da inquieta esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Trova

Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Canção da garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.


O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.


E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...


Da Felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os bem na ponta do nariz!

Das Idéias

Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro de ti se achava nua...

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Da discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

Mário Quintana

domingo, abril 09, 2006

Kika

Sempre tive medo de bichos. Quando era criança, sonhei inúmeras vezes com leões, cães me devorando. Ficava assombrada quando via algum cachorro na rua e me recusava a entrar em casas que tinham cachorros. Engraçado porque era um misto de admiração e medo. Ainda lembro da vez em que fiquei encantada pela pantera negra com suas formas se confundindo com as trevas e seus olhos chispando luz.

Tive uma gata, Pandora, mas morria de medo dela e minha mãe achou melhor levá-la embora. A pobre gata era ignorada por todos daqui de casa, e eu me afastava assim que ela se aproximava de mim. Mas vi na Discovery que gatos têm medo de pessoas que os adoram. Eles gostam daqueles que os temem, pois algo no olhar dos que lhe fazem carinhos é semelhante aos sinais de ataque entre os gatos. Descobri porque Pandora estava sempre me rondando.

Então, minha mãe resolveu um dia desses trazer uma cachorrinha. Ela me perguntou primeiro, com medo de que a cachorra também fosse deixada de lado. Kika veio pra nossa casa, e minha mãe a chamou assim após ter visto e adorado um filme homônimo de Almodóvar. Eu chamava-a Mademoiselle Kika, Lady Kika, e fazia mimo naquela bolinha de pêlo. Às vezes saía de casa e sentia saudades dela.

Pouco tempo depois os dentes de Kika começaram a crescer. Ela ficava o tempo todo me mordendo, e eu achava estranho, ah meu Deus, ela vai ficar grande e continuar me mordendo, poxa, cachorros não mordem os donos, mas é porque é filhote, tomara né. Eu me irritava com Kika, e passei um tempo sem lhe fazer carinhos.

Ela pula, rosna, e isso me dava medo antes. Aí percebi o quanto ela é bobona, então fazia cafuné, e fazia carícias na sua barriga, coisa que ela adora demais. E eu tinha tanta raiva quando ela me acordava de manhãzinha cedo com suas lambidas no meu rosto. Depois passei a gostar, porque ela era meu despertador.

Kika morre de medo da rua, e se agarra ao chão com os olhinhos angustiados quando a levo pra passear. Ela é azoada, faz tudo errado, caga no meio do corredor, destrói coisas, tão carente, e dá mordidinhas e arranha quem chega aqui em casa. Eu brinco “cuidado, ela morde... e dói!”. Sempre detestei aqueles benditos que dizem “ah, tenha medo não, ele não morde”, e o bicho pulando em cima de mim. Divirto-me um pouco com a cara de medo das pessoas, é fato.

Fui me acostumando com ela, e até comecei a gostar de suas mordidinhas. Era uma chateação ela me seguindo pra lá e pra cá. Hoje em dia se ela passa muito tempo sem andar logo atrás de mim, eu sinto falta, e grito, Kiiikaaaa, cadê Kika?

sexta-feira, abril 07, 2006

ondas

eu sempre soube que você ia chegar posso ter a certeza de que talvez não seja certeza ou qualquer coisa a se pensar sobre os pássaros mas estava falando sobre você e que sempre soube que você ia chegar porque você estava perdido no mundo ou não eu estava perdida no mundo mas quem não está alguns se acham em qualquer lugar mas não ter lar não é estar perdido é pertencer a qualquer lugar e você pertence a todos os lugares por onde passei e por onde irei passar porque a terra beija seus pés e as nuvens fazem o paraíso na minha vista quando te vejo eu adoro essa sua meia muito bonita mesmo e adoro também esse pequeno sinal que você tem no rosto não sei como será que você foi feito não acredito eu gosto mais dos detalhes entenda de onde você veio mas eu sempre soube que você ia chegar ah mas eu sei também que você vai partir não sei porque tudo é tão efêmero talvez eu só viva mesmo o que há no futuro porque agora meus sentidos estão vacilantes entre o agora como se já lembrasse do agora como se o guardasse como recordação agora o agora e será rememorado com vivência mais plena do que agora quando já o vivo como recordação e mais tarde será tudo mais real porque então não terei medo de perder o agora e ele será muito mais do que uma recordação eu te amo e não devia temer nada não é você me ama também não há porque duvidar se você me olha do mesmo jeito que olha para o mar e minha imagem refletida sob uma estrela nas suas pupilas

quinta-feira, abril 06, 2006

Os sentimentos sinceros

Gosto daqueles que têm os sentimentos sinceros. Que quando estão felizes sentem toda a plenitude da felicidade, e distribuem risos, abraços, e beijos. Que não têm vergonha de parecerem ridículos, e viram crianças às vezes. Que quando estão tristes estão tristes e pronto. Nada de fingir uma alegria daquelas de sorrisos forçados e gestos artificiais, ou de ficarem indiferentes à dor que corrói por dentro. Então choram, e reconhecem a perda, mas são lágrimas justas, que logo depois são enxugadas porque eles são fortes e gostam de viver. Caem da bicicleta, passam metiolate, e tentam de novo até aprender. Têm seus sentimentos tratados com desdém, mas nem por isso se tornam amargos. Não aprendem a desconfiar. Aprendem a acreditar nas pessoas certas.

E quem vive a vida como se tivesse o tempo inteiro seguindo um livro de auto-ajuda? Parecem querer a todo custo serem perfeitos porque são obcecados por agradar a todo mundo. Para tudo é “ah, como é lindo o pôr do sol”, “ah, estava hoje regando as minhas plantinhas”. Gosto de quem rega as plantinhas, acha bonito o pôr do sol, e fica em paz.

Gosto de quem expressa as emoções, que não tem um pingo de vergonha de dizer “eu te amo”. Mas não aqueles “eu te amo” banais, ditos ao vento para parecer uma pessoa adorável e carinhosa. Sabe aqueles “eu te amo” ditos quando você olha pra o outro e vê o quanto ele é especial por tantas coisas simples e bobas? Sim, é desse “eu te amo” que eu gosto.

Temo aqueles que sem conhecer já são todo amores. Gosto de quem chega devagarzinho, pergunta meu nome, fala de qualquer bobagem, e aos poucos vai me conquistando e sendo conquistado.

Gosto de quem ri só quando acha engraçado, quem fala quando quer falar, e quando quer ficar no canto se deleita no gozo de si mesmo, e não tem a necessidade de estar sempre rodeado de gente.

Gosto das pessoas simples. E gosto de quem sente tudo o que é merecido sentir.

terça-feira, abril 04, 2006

Lirismos nos dias

Penso sobre a poesia do mundo. Sabe, às vezes a rotina cartesiana despoetiza a vida. Mas a existência não foi feita para ser poetizada. Não há lirismo nos escritórios, nos semáforos. Minto. Há lirismo em todas as partes, mas saltando no ar ignorado pelas nossas almas inertes e quadradas. Vivemos o tempo dos relógios, e toda a nossa vida é regida pelos ponteiros das obrigações. Às vezes fico assim, sem poesia dentro de mim, e dá um vazio. Quando era criança, eu me perguntava. Ué, mas por que será que os adultos não ouvem música nem se beijam? E concluía: tomara que eu escute música e beije pra sempre.