
Assisti ontem ao programa Medical Detectives, do Universal Channel, e no episódio em questão uma garota havia sido assassinada pelo pai a facadas enquanto sua mãe a segurava pelo simples motivo de que a moça trabalhava numa lanchonete e tinha um namorado negro, o que era uma afronta à honra da conservadora família que morava nos Estados Unidos, mas era de origem palestina. O legista não comprovaria sua tese sobre o assassinato da moça, versão que parecia absurda ao lado do depoimento dos pais segundo o qual ela é que os havia ameaçado com uma faca após pedir cinco mil dólares para sair de casa, o que teria motivado o assassinato dela em legítima defesa pelo pai, não fosse a escuta que o FBI havia colocado bem antes do ocorrido em virtude de o pai da garota ser considerado um terrorista vinculado à OLP.
Na representação do programa, que já é apelativo, o caso adquire tons ainda mais sensacionalistas. Entenda-se sensacionalismo como atribuir o máximo de carga de emotividade a um fato chegando ao ponto de isolá-lo em sua singularidade, o que elimina o seu contexto sócio-histórico da construção da realidade.
O programa partiu de um pressuposto bastante simples para abordar o caso. A montagem paralela com imagens da Palestina em contraste com as imagens dos Estados Unidos é feita a partir de uma lógica que aponta para oposição Palestina/ barbárie e Estados Unidos/ civilização. Sabemos que tal discurso é o mesmo utilizado para justificar todo tipo de atrocidade que os Estados Unidos venham a cometer contra as populações do Oriente Médio motivadas por interesses político-econômicos. Essa é a mesma chave de compreensão para o caso da garota assassinada pelos pais.
Não que seja dito aqui que devemos inocentar o absurdo de um crime baseado numa tradição absolutamente machista segundo a qual o marido deve ser escolhido pelos familiares e a mulher não deve trabalhar, mas sim depender do marido. A questão aqui é a ética na representação do outro – o outro que, para boa parte dos estadunidenses, é atrasado e anti-democrático. Mas que democracia é a estadunidense? A democracia que gasta de trilhões de dólares na sua indústria de guerra? Falta auto-crítica.
Em uma determinada passagem do filme, uma mulher que escreveu um livro sobre o caso afirma que os pais da garota abusavam da receptividade dos estadunidenses, pois chegavam a dizer que gostavam dos Estados Unidos porque esse era um país fácil de enganar. Resta a pergunta: e todo o arsenal de vigilância para os imigrantes? E se os estadunidenses são tão ludibriáveis assim, como a escuta do FBI já estava na casa dos pais da garota?
No exato momento em que a voz over fala da relação do pai da vítima com o terrorismo surge a imagem de Yasser Arafat, e o locutor afirma que a organização em questão era a OLP. Através da imagem temos a elaboração de uma equação muito simples: terrorismo/ Yasser Arafat/ OLP. Podemos nem saber dos antecedentes históricos da OLP, mas de uma coisa estamos cientes: aqueles são terroristas, uma ameaça à democracia, aos países civilizados. Nós nunca somos uma ameaça a eles. O princípio no presente texto não é indicar mocinhos e vilões, mas tão somente lembrar que a realidade social é repleta de lutas de poder, de defesa dos próprios interesses tanto de um lado quanto do outro. A questão é que um dos lados é mais forte.
Na problemática da representação, a estética de Medical Detectives pode ser identificada como demasiadamente sensacionalista. Temos o uso de câmera na mão com teleobjetiva (com perda de profundidade de campo e acentuado tremor na imagem), a utilização de uma voz over, ou voz de Deus, típica do documentário expositivo que tem nessa voz um poder sobre a interpretação das imagens. Entretanto, a voz over de Medical Detectives apresenta um tom macabro, que ressalta o parentesco com o cinema policial presente nesses programas sobre crimes. A narrativa dos episódios traz essa herança do cinema policial, com ambigüidade dos personagens e pistas falsas a respeito da resolução do mistério. Entretanto, nesses programas há pouca sutileza, e somos levados de forma escancarada a desconfiar de um personagem ou de outro.
Os mínimos detalhes da perícia e da representação do crime levam o espectador a achar que desvendou toda a verdade. Não restam dúvidas a respeito do poder da ciência e da imagem. Ao final, o programa apela para uma enorme carga de emotividade, mostrando aqueles que sentem falta da vítima em prantos. Lamentamos a perda da vítima e ficamos indignados com o abuso de autoridade de valores de uma civilização do Oriente Médio. Já o abuso de autoridade vinculado a certos valores dos Estados Unidos, esses são mandados para debaixo do tapete.