terça-feira, dezembro 05, 2006

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

No pátio da escola, antes repleto de crianças correndo em todas as direções, mas que haviam sido levadas pelos carros dos pais, eu aguardava ansiosamente pela chegada da minha mãe, pois sentia fome e já passava de meio-dia. Às vezes chorava quando ela demorava demais com medo de ela me deixar na escola e nunca mais voltar. Aos seis anos, eu era uma bolinha, e só pensava em comer e brincar de Barbie. Quando minha mãe chegou, apontei para minha colega e disse:

- Veja só, mãe, ah, como eu queria ser como ela.

- Pra quê, minha filha? Você é tão bonita.

- Não, ela sim é bonita. Ela é loira. Eu queria ser loira.

Às vezes eu ficava me auscultando no espelho e desejava que meus cabelos fossem amarelos, meus olhos, azuis. Queria tirar aquela negritude dos meus aspectos, queria que meu nariz fosse empinadinho, que meus lábios fossem finos. Eu me achava feia porque precisava ser mais branca, e arrancar de mim toda aquela mestiçagem. Queria ser como as bonecas e as atrizes da TV.

De minha avó recebia elogios por ser branca. Ela dizia que suspirou de alívio ao me ver recém-nascida nos braços de minha mãe. Deus me livre você nascer preta, dizia ela. Vovó mora nos confis do sertão de Sergipe, é descendente de índios e tem marido negro. Mas ela queria que eu puxasse ao outro lado da família, o lado da minha mãe, dos brancos.

Certa vez, ela veio me visitar depois de anos sem me ver. Chorou tanto, que cambaleava sem aguentar tamanha emoção. Queria-me assim, crescida e estudando na Universidade, distante das plantações, da seca, do sol que aperta os olhos de quem olha pro céu.

E ao me ver brincar com uma menina de cabelos encaracolados, uma prima que ela levara para me apresentar, vovó pediu para a menina ficar quieta. Disse que ela, diferente de mim, era pretinha, e pediu para a doce mocinha dos cabelos encaracolados parar de me incomodar. A menina mergulhou nos braços dela, e depois correu e foi brincar com meus irmãos, que corriam e gritavam, como livres, pela casa. E não adiantava minha mãe reclamar do barulho e que a roupa ia ficar suja.

Percebi, então, que os cabelos daquela menina lembravam os cabelos que eu tinha na infância. Logo ao vê-la andetrar na sala, reparei feito boba nos cachinhos e tive saudade dos meus caracóis. Como eu adorava meus caracóis e brincava com eles! Eles eram feitos pelo carinho da minha mãe, que enrolva meus cabelos com uma escova até formar os meus queridos cachinhos.

Isso foi engraçado. A menina que queria ser loira dos olhos azuis, vivia pedindo à mãe para fazer cachos nos seus cabelos. O que me chamou a atenção, o que me fez ter certo carinho por aquela mocinha, foram seus caracóis moldados pela sua negritude. Os caracóis que eu tanto cantava na infância, debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante! E ela corria com meus irmãos pela casa, e ali não havia nem negro nem branco, nem raça alguma. Só havia gente, bichos até.

3 comentários:

Tudo disse...

parece que muitas meninas sentem isto ... ontem eu e vc, hoje minha filha ...
minha avó tb era índia e meu avô negro ... hj adoro meu cachos e minha pele morena cor de jambo!
:-)

Anônimo disse...

Essa Tati...





(impressionante... :)

tatiana hora disse...

fah, fofíssima!!! tempão né?

ah, e quanto ao outro post, não, eu não li a reportagem da Época. Fiquei sabendo pela internet mesmo, não lembro agora qual site especificamente.

bjão

=)