quarta-feira, dezembro 08, 2010

Masculino, feminino

Ontem eu estava pensando numa coisa: os escritores que compuseram uma escrita que conquistou uma maior identificação da minha parte são homens. Foi aí que eu me perguntei: por quê, por mais que eu adore Florbela Espanca, ela não me causa o que Fernando Pessoa causa? Por quê Clarice Lispector nunca me afetou tanto quanto Caio Fernando Abreu? Foi aí que eu retornei à minha dúvida anterior: será que eu tenho uma mente masculina?

Várias pessoas me disseram que eu tenho uma mente masculina. Já houve até quem dissesse que penso como um homem gay. Não sei direito o que é isso, mas enfim. Vamos lá. A única escritora feminina que realmente conseguiu quebrar minhas estruturas foi Virginia Woolf. E só. E mesmo assim, entre Sra. Dalloway e Orlando, eu fico com o segundo, que fala sobre a experiência da transformação de um nobre em mulher, trazendo assim uma ambiguidade entre masculino e feminino. Ou talvez fosse preciso ir além da questão dos gêneros? Será que sou afeita a esta ambiguidade? Mas se os gêneros existem na cultura e nós estamos inseridos na cultura, é possível falar para além dos gêneros, ou de fora dessa cultura? Dúvida. E mesmo numa obra como Madame Bovary, Flaubert se aventura pelo universo feminino, mas esse livro carrega o olhar do homem. Não é Madame Bovary quem nos fala, mesmo que Flaubert diga: "Madame Bovary c'est moi".

Mas os escritores que conseguiram provocar uma identificação mais forte em mim foram Fernando Pessoa, com seu heterônimo Álvaro de Campos, e Caio Fernando Abreu. Em Álvaro de Campos eu encontrei uma espécie de alma gêmea, identificando-me com a sua busca pelas paisagens, vadiando pelos lugares, seu cansaço por sentir sensações extremas, o tédio profundo no choque com o mundo, a insônia, a ânsia, o sarcasmo... E meu poema favorito é Passagem das horas, um trecho:

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Já Caio Fernando Abreu eu conheci recentemente, e digamos que ele foi meu companheiro de longas madrugadas de angústia. Digamos que Morangos mofados era a tradução literária do que estava acontecendo na minha vida. E quando li Os dragões não conhecem o paraíso e Triângulo das águas eu percebi que eu não lia Caio, não entendia, não racionalizava, eu simplesmente embarcava na loucura junto com ele. Uma escrita confessional que me levava, me puxava, me arrancava com palavras cruas. Caio parece querer dizer assim: não são apenas palavras, não são apenas emoções, não é apenas linguagem, é carne! Escrita do corpo! Foi quando eu encontrei no silêncio do apartamento, na tela do computador meio difusa pela madrugada, alguém que compartilhava de coisas que vivi. Trecho de Natureza viva, do livro Morangos mofados:

Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas.

Quando leio palavras como as de Fernando Pessoa ou de Caio Fernando Abreu, eu sinto algo diferente do que ao ler escritoras femininas. Talvez tudo não passe de imaginação minha. Mas é como se neles a delicadeza tivesse alguma brutalidade que não vejo nas mulheres. Na verdade não sei direito verbalizar isso. Pra terminar sem conclusão nenhuma, só questionando, eu recorro a uma canção de Chico Buarque, que conseguiu com maestria se aproximar dos sentidos de uma mulher:

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Do que ela precisa

Precisava de um menino como ele...
Bonitinho
Facilmente dominado
Gentil
E que sabe o que faz!

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Love is suicide

A cada dia que passa, eu me convenço mais e mais de que, não importa o que se convencionou chamar de paixão ou amor, o Billy Corgan, com sua voz rasgada, estava certo na música Bodies.

Love is suciiiiiiiide

Acho que vou tatuar isso. É, amiguinhos, o amor é suicídio. Amar é uma coisa arriscada pra cacete. Tem doido que se joga numa dessa. E não adianta tentar deixar bonitinho, achando que pode ser algo racional e maduro, nem dizer que não existe recorrendo à filosofia ou às suas experiências frustradas.

O amor dói ao mesmo tempo que consola. Em algum momento você vai chorar, você não vai entender o que porra está acontecendo, você vai querer aprender a arte da telepatia, você vai sentir tanto desejo que vai doer. E vai também experimentar o abandono num abraço duradouro, deitados sobre uma cama, enrolados em lençóis e noias, ou dividindo risos e histórias de uma vida inteira.

E aí eu recorro ao Billy Corgan de novo, com outra música linda do Smashing Pumpkins, Shame:

Love is good and love is kind
Love is drunk and love is blind
Love is good and love is mine
Love is drunk all the time

O amor é bom, é generoso, mas é bêbado o tempo todo! Falando em bêbado, lembrei da Amy Winehouse. Ela também está certíssima quando canta com a voz cortante:

Love is a losing game...

É, o amor é mesmo um jogo de azar. Aí depois ela canta aquele verso que usa uma expressão de jogo de pôker, quando sua mão no jogo tem tudo pra perder, mas isso vai depender da sua sorte ou mesmo do seu feeling pra coisa: Love is a losing hand.

Cada um com suas apostas...

Os catadores e a catadora (2000), Agnès Varda


Em Os catadores e a catadora, Agnès Varda consegue aliar debate sobre problemas sociais a uma reflexão estética sobre a arte cinematográfica, o que finda por deixar de lado um esteticismo abstrato e separado da vida cotidiana, como também segue para além da dicotomia forma e conteúdo.

Neste documentário, Agnès Varda vai em busca das pessoas que se dedicam a catar vestígios: sejam aqueles que coletam os restos da colheita no campo, sejam os mendigos que vasculham latas de lixo. E, nesse processo, a cineasta faz uma viagem sensível, afirmando-se como uma catadora - de imagens, de poesia, de afetos.

Tanto os catadores quanto a cineasta se posicionam num lugar situado na periferia do capitalismo. O que está no centro da discussão neste filme é justamente o que Alvin Toffler denominou sociedade do descartável, e, esteticamente falando, sociedade do espetáculo formulada por Guy Debord e estetização da vida cotidiana como propõe adversamente a Debord o teórico Michel Maffesoli.

O conceito de sociedade do descartável conclui que na contemporaneidade a economia capitalista é caracterizada por uma alta efemeridade, criando produtos para durarem cada vez menos tempo, para serem consumidos instantaneamente e por fim descartados. Toffler conclui que esta sociedade produz uma quantidade monumental de lixo, e o desperdício prevalece na esteira da desigualdade social. David Harvey vai além em Condição pós-moderna e formula que esse modo de lidar com as coisas promove alterações na própria subjetividade - estaríamos lidando com relações humanas, valores, ideologias também descartáveis. E não seria assim também na estética de filmes criados para serem consumidos e descartados?

Ora, se os catadores estão atrás da renovação, do aproveitamento daquilo que foi descartado pela sociedade, Agnès Varda procura pela imagem poética que igualmente se encontra em decadência nos tempos caracterizados pelo consumo excessivo de imagens. O filósofo Guy Debord postula que a imagem seria o fim último da acumulação capitalista ocorrida no decorrer da história - o capitalismo não produz apenas mercadorias, mas também e talvez o mais importante, imagens (como aquelas da publicidade). Numa opinião adversa à de Debord, Maffesoli não vê a estetização da realidade como um processo de alienação (alienação essa que se dá através da sacralização das mercadorias através da imagem), todavia crê na apropriação pelos indivíduos da cultura midiática constituindo as suas formas de sociabilidade (a exemplo das tribos urbanas que partilham apreciação em comum de determinados produtos midiáticos).

De todo modo, se os catadores coletam o que é desperdiçado pela sociedade do descartável, Agnès Varda cata imagens que ainda almejam preservar a poesia num universo marcado pela imagem que tem valor mercadológico acima de qualquer outro. E para isso ela assume uma estética amparada num equipamento bastante precário, posicionando-se à margem da produção cinematográfica das grandes produções milionárias. Assim, Varda parece querer ativar o nosso olhar para esta imagem que nos exige a contemplação: dispõe no último plano um quadro em que o movimento acontece no instante, em que o tempo se confunde com a imagem.

domingo, dezembro 05, 2010

Blasé

Descobri uma coisa muito engraçada hoje. Tem gente que finge que eu sou invisível, faz de conta que eu não existo, e bota toda uma banca de blasé pro meu lado. "Sou um ser misterioso e inatingível". E eu acreditava que era verdade, que ora bolas, não devo ter significado merda nenhuma pra essa pessoa - alguém que já entrou em contato tão íntimo comigo.

Mas aí eu tenho uma surpresa. Tudo não passa de uma grande fucking farsa. Essa pessoa se lembra de mim sim, e mais: busca meus rastros, informações sobre mim, tem interesse quanto à minha pessoa. E eu, que achava que nunca havia estado num cantinho da sua memória, me sinto agora viva na mente dele.

Não que ele me ame ou coisa parecida. Nem eu o amo. Nem que nós iremos ter qualquer coisa mais. Mas é importante para mim e me deixa feliz agora saber que ele me viu, que ele me vê... Mesmo que ele finja, que ele tenha ressentimento, ou até mesmo um certo desprezo por mim.

Meu caro, é de você mesmo que eu estou falando. Sim, isto é uma direta. Faça como eu: minta.

Change your heart, look around you...

Quem sou eu

Nesta semana, eu tive uma surpresa ao abrir meu orkut. Lá estava uma frase no meu perfil que eu não lembrava de ter escrito.

Quem sou eu: eu tenho o direito de ser assim.

Não lembro quando coloquei esta frase. Devia estar lá há tempos. Provavelmente cheguei em casa ébria, com minha mania de entrar no msn, twitter, orkut, e a escrevi. E só depois, quando resolvi fazer uma modificação no perfil, eu a encontrei.

Apesar de não tê-la escrito de modo racional, eu cá muito concordo com ela. E esses dizeres me trouxeram paz, e me proporcionaram um instante em que deixei de lado a minha culpa, minha tão grande culpa, ou qualquer auto-elogio e orgulho do meu modo de ser.

Eu tenho o direito de ser assim. Apenas isso.

Realidade e fantasia

Certa vez eu critiquei minha mãe por estar assistindo a uma novela. Ao que ela me respondeu:

- Deixa eu ver minha novela em paz. Eu já aguento um monte de coisa ruim o dia todo, quando chego em casa quero mais é descansar.

Foi aí que eu pensei: que direito tinha eu de falar aquilo? Nenhum. Comentei o episódio com dois amigos ontem à noite, e então, entre doses de vinho, meu amigo disse assim:

- Mas é isso mesmo. Quem tá na realidade precisa de um pouco de fantasia.

E eu respondi:

- O mundo funciona assim: realidade para quem vive na fantasia, e fantasia para quem vive na realidade.

Falei em termos bem simplistas, deixando pra lá toda a discussão sobre o real, a fantasia e as relações entre eles. E me lembrei do semblante de minha mãe assistindo a uma cena bastante evasiva de novela: os olhos brilhando com tanta ingenuidade, olhos esses que eu nunca vi nela em qualquer ocasião da realidade.

sábado, dezembro 04, 2010

I am the highway



Tá aí uma banda que eu gosto pra caralho: Audioslave. E não, não é por achar o vocalista, Chris Cornell, um gato kkkk. Mas é porque eu considero uma banda que consegue trazer o peso do bom e velho rock and roll (mesclando vários tipos de rock) com letras muito bem elaboradas. Porque francamente, se tem uma coisa que falta no mundo do rock em inglês são boas letras. Boa música tem de sobra, mas letras? Difícil achar. E essa música em especial fala muito sobre meu atual momento...

Dá até vontade de aprender a dirigir só pra sair por aí com um carro sozinha pela estrada sem fim, de óculos escuros pra dar um charme a mais kkkk, e ouvindo Audioslave! ;)

Pearls and swine bereft of me
Long and weary my road has been
I was lost in the cities
Alone in the hills
No sorrow or pity
for leaving
I feel

I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky

Friends and liars
don't wait for me
Cause I'll get on
all by myself

I put millions of miles
Under my heels
And still too close to you
I feel

I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky
I am not your blowing wind
I am the lightining
I am not your autumn moon
I am the night
The night

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Meu pequenino

Meu pequenino estava na praça do condomínio
sentado, sozinho
de oclinhos
gordinho
lendo...

Meu pequenino encontra na praça do condomínio a sua liberdade
é a rua onde pode passear
sem precisar de ninguém que tome conta
e ele fica grande, que nem gente grande!

Mas meu pequenino sozinho não queria estar
lendo Harry Potter...
olha para as outras crianças no balanço
correndo, brincando,
disfarça...

Meu pequenino não fala de abstrações
mas de ações, coisas, lugares
não fala com verbo conjugado,
mas no infinitivo
ou mesmo substantivo:
"Eu amor você"

Meu pequenino não sabe dizer
"estou sofrendo muito"
mas ele diz
"triste eu sim"
ou seus olhos se desmancham em lágrimas
"eu escola não hoje por favor não gosta"

E meu pequenino não diz
"tenho medo da solidão"
mas tão somente escreve
"Sozinho".

E assim, sentado na praça, com o livro aberto em mãos
Ele deve estar lendo alguma história
escrita por alguém que usa o verbo conjugado
e que ele lê com o verbo no infinitivo
assim como quando ele vê TV sem áudio
e faz seus próprios barulhinhos.

Isn't amazing?


Hoje quando fui tocar violão, eu me encuquei: que música tocar? Pensei, pensei diante da tela do computador com o site de cifras aberto na minha frente. Hummm. Aerosmith! Cryin'! E comecei:

There was a time
when I was so broken-hearted

love wasn't much of a friend of mine.


Estava atrás de uma banda nova pra ouvir. Ultimamente só estava ouvindo as mesmas músicas.

E não é que eu estou descobrindo uma banda que já ouvia há tempos aleatoriamente por aí e nunca tinha pensando em fazer o download das músicas deles? Muito bom!

Aquela voz rasgada do James Tyler, adoooro! ;)

I kept the right ones out
And let the wrong ones in
Had an angel of mercy to see me through all my sins

There were times in my life
When I was goin' insane
Tryin' to walk through
The pain

When I lost my grip
And I hit the floor
Yeah, I thought I could leave, but couldn't get out the door

I was so sick and tired
Of livin' a lie
I was wishin' that I
Would die

It's amazing
With the blink of an eye you finally see the light
It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
It's amazing
And I'm sayin' a prayer for the desperate hearts tonight

That one last shot's a permanent vacation
And how high can you fly with broken wings?
Life's a journey not a destination
And I just can't tell just what tomorrow brings

You have to learn to crawl
Before you learn to walk
But I just couldn't listen to all that righteous talk

I was out on the street
Just tryin' to survive
Scratchin' to stay alive

It's amazing
With the blink of an eye you finally see the light
It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
It's amazing
And I'm sayin' a prayer for the desperate hearts tonight

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ah, look at all the lonely people


All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Nesta madrugada estava com essa música na cabeça. É Eleanor rigby, dos Beatles. Mais especificamente esses versos...

E aí eu me perguntei: de onde eu vim? pertenço a qual lugar?

Ah, olhe para as pessoas solitárias...

Imagem: Paris, Texas (1984), de Wim Wenders

E Deus?


(...) o grande anjo de braço erguido, mármore frio segurando a espada reluzente de chuva, a igreja recortada contra o céu, nenhuma estrela, uma vontade de benzer-se pedindo proteção, afasta de mim, Deus, mas Deus tinha morrido em Auschwitz, talvez no Vietnã, fazia tempo.

Trecho da novela Pela noite, do livro Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu.

Imagem: Nuit et brouillard (1955), Alain Resnais

Le fils (2002), Luc e Jean-Pierre Dardenne


O que eu considero mais impressionante no cinema dos irmãos Dardenne é o completo domínio do roteiro - o desenvolvimento do conflito de seus personagens traz toda a contradição humana e se conduz a fios inextrincáveis. A excelente elaboração do roteiro se dá também em virtude da construção dos personagens a partir de gestos demasiado simbólicos. E uma constante no cinema dos Dardenne é o fato de o clímax apresentar uma dolorosa revelação aos seus personagens e a conclusão da trama representar uma ascese deles.

Tomemos um exemplo: nesta madrugada assisti a Le fils (2002), que narra a história de um homem que resolve ensinar a arte da carpintaria ao rapaz que, com apenas 11 anos de idade, estrangulou o seu filho durante um assalto. Temos neste filme uma fórmula inversa a outro filme dos Dardenne, L'enfant. Pois L'enfant fala de um pai ausente que decide abandonar o seu bebê vendendo-o num momento de aperto financeiro, enquanto Le fils aborda a vida de um pai desamparado com a morte do filho, e que busca no seu assassino um novo filho.

E a encenação proposta pelos Dardenne chega à excelência através dos detalhes, dos tais gestos simbólicos. Olivier, o pai que perdeu o filho, pergunta para o rapaz que matou a criança, Francis, o que ele havia feito para permanecer preso durante cinco anos. Nesse momento, os dois estão jogando totó. E durante o jogo é possível observar a agressividade que remonta ao rancor que Olivier carrega de Francis, mas também vemos a infantilidade do assassino.

Após Olivier revelar que era pai do menino que Francis havia matado, o garoto corre com medo de Olivier. A perseguição termina com Olivier sentado em cima de Francis e com as mãos sobre o seu pescoço - numa clara referência à morte do filho de Olivier, por estrangulamento. Mais parece que as relações humanas são perpassadas por imagens carregadas de passado e por ações que se repetem.

Além do domínio de roteiro pelos Dardenne, os atores que interpretam Olivier e Francis agraciam a narrativa com uma atuação maravilhosa. O ator que representa Olivier, Olivier Gourmet, estava impecável, trazendo a solidão no semblante austero de bom pai. E Morgan Marine, que interpretou Francis, apresenta gestos sutis de uma agressividade infantil que cede a uma igual solidão profunda - o que une Francis e Olivier.

E será que Olivier acredita que tem uma missão divina ao cuidar de Francis? Afinal, não é a toa que ele é carpinteiro, assim como José, que ensinou a Jesus Cristo, filho de Deus e não seu, a arte da carpintaria.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Saudades de Pernambuco




Essa foto minha com a bandeira de Pernambuco na verdade foi tirada em Alagoas kkkkkk.

A outra foi no carnaval de Olinda. "Olinda inteira vai descer ladeira...". Aliás, saudade dessa galera gente boa que estava comigo (tive sorte de conhecer uma galerona massa no carnaval). Principalmente saudade desse baiano anjinho de camisa quadriculada.

"Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão..."

Saudades de Alagoas


Eu podia chamar este post também de "saudades de Bárbara". Essa foto é de um dia lindo que a gente passou juntas num paraíso chamado praia do Francês. A gente se divertiu muuuuito!!! :D Né, nega?

O viajante



Eu sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...

Mario Quintana
Apontamentos de história sobrenatural

Imagem: O céu de Suely, de Karim Aïnouz.

.


Decisão

Perguntei a um amigo hoje se eu estava tomando decisões drásticas na minha vida:

- Você está passando por uma nova fase - disse ele.

Ele falou como se dissesse "não adianta reprimir isso, você está mudando mesmo e nesse processo algumas coisas ficam pra trás". E é verdade. Eu estou passando por uma nova fase.

terça-feira, novembro 30, 2010

Belo Horizonte


Eu brinquei tantas vezes com o nome dessa cidade, sempre dizendo que trazia já na denominação um Belo Horizonte. E não é que é mesmo? Belo Horizonte trouxe novas perspectivas para minha vida. Na verdade, trouxe uma perspectiva para quem não tinha nenhuma. Cidade que me deu esperança!

Dardenne


Os filmes dos irmãos Dardenne são, acima de tudo, humanos. Até a câmera fica colada nos seus personagens num corpo a corpo como se fosse gente. É uma identificação cortante, que faz a gente sofrer junto com eles - não no sentido melancólico, mas no sentido cru da palavra. Filmes que abordam os problemas sociais a partir das pessoas - os problemas sociais perpassam as suas vidas, mas seus personagens tem vida própria e escolhas próprias no meio disso tudo. Há pausas para a gente ficar mais perto deles. Há violência pra gente se revoltar com eles. Há também um mundo cruel. E pessoas cruéis. E pessoas que mudam. Sim, principalmente isso, que mudam. Os Dardenne, assim como um cineasta como Bresson, acreditam na ascese de seus personagens. E assim, no final do filme eu sinto aquela dor no peito de quem mudou um pouco também - pra quem sabe ser mais feliz.

Imagem: L'enfant (2005).

segunda-feira, novembro 29, 2010

Em crise

Tinha deixado um texto aqui pra completar depois e publicar. Fui ler agora e não concordo com quase nada do que eu disse.

A pós-modernidade me deixou doida, muito doida, muito doida demais?

quinta-feira, novembro 25, 2010

Minha opinião sobre filhos

Não terei filhos, não transmitirei a nenhuma criatura o legado da nossa miséria

Brás Cubas, por Machado de Assis

domingo, novembro 21, 2010

A solidão não existe

Oitavo fragmento da décima terceira voz

Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão seus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de Iemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem não conheço. Por um momento, cede. Não sejas assim implacável, incorruptível. Não paires, esquece as asas. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

Dodecaedro, novela do livro Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu.

sábado, novembro 20, 2010

Outra página

Já olhava para tudo como se estivesse se despedindo. Como quando lemos um livro com medo de esquecer e cada frase, cada verso é lido como obstáculo e se torna pedra da memória. Ou quando lemos uma página duas vezes com medo de que ela escape de nós. Amor ela tinha ali. E muito. Mas será que ia encontrar amor em outro lugar?

quarta-feira, novembro 17, 2010

Fragmentos sobre um filme de Tarkovsky


Hoje revi Nostalgia (1983), de Tarkovsky. Trata-se de um daqueles filmes que se tornam mais prazerosos da segunda vez, dado que passam a ser mais compreensíveis. Alguns pensamentos que tive a respeito do filme...

#
Um filme que aborda a relação nostálgica de seus personagens com a sua "terra de origem", trazendo à tona uma espécie de diáspora. Lembremos que estamos na fase de exílio de Tarkovsky, pois esse diretor não tinha boas relações com o estado soviético, portanto, existe uma clara identificação entre a trajetória do cineasta e a dos seus personagens. O poeta Andrei Gorchakov vai à Itália em busca de dados biográficos de um músico russo, Sosnovsky, que passou uma temporada em Bolonha, e acabou retornando à Rússia por amor a uma escrava russa, mesmo sabendo que chegando lá se tornaria um escravo. Temos também Eugenia, que diante das paisagens italianas por diversas vezes relembra a cidade de Moscou. Eugenia conta também a história de uma serva que matou os senhores e se suicidou pelo ódio que tinha por não poder regressar à Calábria.

#
As escolhas estéticas de Tarkovsky, como era de se esperar, divergem absolutamente da linguagem clássica. Em nenhum momento do filme ele se vale do manjadíssimo campo/contracampo. Para filmar uma conversação, em lugar do campo/contracampo, a câmera mostra apenas um dos personagens envolvidos num diálogo, ou se detém em plano geral enquadrando ambos.

Outra ousadia estética de Tarkovsky seria a temporalidade e a montagem que por vezes segue de modo cinematográfico os princípios da técnica literária do fluxo de consciência, adotada por autores como James Joyce e Virginia Woolf. Afinal, Tarkovsky vai além de mostrar o passado dos personagens - sua estética sugere que estamos em contato com o inconsciente dos personagens, ou da sua memória involuntária. Além disso, o diretor se utiliza de variações cromáticas ao adentrar no universo do sonho ou da lembrança, recorrendo a tons acobreados ou ao preto-e-branco. De repente, nós vemos a encenação do momento em que o filho de Domenico foge dos seus braços, e finalmente se senta numa escada para contemplar o mundo. Câmera lenta, preto-e-branco. O menino olha para o pai. A imagem fica colorida. Diante da paisagem, ele pergunta: "é o fim do mundo, papai?". Domenico havia prendido a família durante sete anos acreditando que o fim do mundo estava próximo...

#
Domenico encena um dos momentos mais arrebatadores do filme. É quando ele sobe numa suntuosa estátua de algum herói sobre um cavalo para se suicidar em público. A câmera realiza um travelling vertical para cima, assenta diante da imagem de Domenico de costas tendo ao fundo enormes estátuas de deuses. Em plongée é possível ver pessoas na escada, hipnotizadas, que vieram presenciar o espetáculo. Antes de atear fogo ao próprio corpo, Domenico brada: "Vocês nos chamam de loucos e nos isolam dos sãos.. mas foram vocês, sãos, que levaram o mundo à catástrofe". Por fim, Domenico, que tanto temia o fim do mundo, realiza o seu apocalipse. E vemos os policiais avançando sobre as escadas cheias de pessoas - do ponto de vista inverso ao da célebre cena da escadaria de Odessa, realizada por outro cineasta russo, Eisenstein, em O encouraçado Potenkim. Não por acaso essa cena de Nostalgia é realizada na antiga capital de um dos maiores impérios da história da humanidade: Roma, capital do império romano. Uma cena mítica, que está ali para destronar impérios...

#
O historiador Eric Hobsbawn se refere ao século XXI como "a era das catástrofes". Não por acaso: Primeira e Segunda Guerra Mundial, holocausto, Guerra Fria... "Mas foram vocês, sãos, que levaram o mundo à catástrofe!", grita Domenico.

Assim como constataram Adorno e Horkheimer em A dialética do esclarecimento, a grande contradição do iluminismo consiste no projeto da modernidade baseado na razão e tendo o progresso tecnológico como impulso que conduziria a humanidade a um futuro melhor. Mas a razão instrumental levou o conhecimento a servir a fins econômicos, e a tecnologia de produção em massa encontrou o seu auge na produção industrial durante a guerra. A catástrofe da modernidade! O progresso conduziu à guerra pelo novo império, o império no tempo do capitalismo...

#
O plano final, de Andrei estático situado ao centro do quadro tendo uma paisagem bucólica como fundo, demonstra um diálogo com a pintura. A busca pela imagem na duração, no transcorrer do tempo. Como nas fotografias descritas por Walter Benjamin, aquelas antigas fotografias em que o modelo vivia o instante, inseria-se na duração, dado que as películas tinham pouca sensibilidade à luz e as fotos demoravam a ser tiradas. Essas primeiras fotografias obrigavam os modelos a viver aquela duração típica da pintura, quando eles aguardavam os pintores pintarem a sua imagem durante horas...

#
No começo do filme, Eugenia sai em busca da paisagem que a lembra Moscou. Andrei afirma se irritar com a busca incessante de Eugenia pela beleza.

#
Diante da disseminação generalizada da imagem pela publicidade, um retorno à beleza kantiana. As imagens que esperam. É também isso o que sugerem, no diálogo com a pintura, filmes como L'Hypothese du tableau volé (1979), Raoul Ruiz, e Caravaggio (1986), de Derek Jarman, analisados por Fredric Jameson em As transformações da imagem na pós-modernidade. Jameson defende nesse ensaio a necessidade de uma arte utópica, indo de encontro à noção de "fim da história".

Mas o que vemos é o suicídio de Domenico e de Andrei, o desespero concretizado. E o paraíso é o belo "quadro" de Andrei imerso no cenário idílico da sua infância. O sonho do retorno ao seu "lugar de origem".

#
Todavia, será que Eugenia está no filme para se rebelar diante da arte aurática? Eugenia defende a impureza da arte: ela afirma que um tradutor é um poeta, um criador, enquanto Andrei recomenda que ela leia apenas o original. E ela se revolta diante de Andrei: "você não quer mulheres como eu! você só quer Nossas Senhoras!". A quebra da aura é, afinal, uma profanação!

segunda-feira, novembro 15, 2010

Ela foi passear... com a cabeça em todos os lugares...

Certa vez, eu estava num show de Orquestra Contemporânea de Olinda na cidade da banda, quando, no intervalo, ouvi tocar Naurêa. Na mesma hora eu disse ao anfitrião: "É música da minha terra!". Naquele momento, eu me dei conta de que, onde quer que eu estivesse, e mesmo tendo uma relação de amor e ódio com o lugar onde nasci, eu sempre vou carregar algo daqui comigo para onde quer que eu vá.

Assim como trouxe na bagagem, depois dessas três vezes em que fui a Pernambuco, tantas coisas de lá. Não são posses, não é uma camisa onde há escrito "Saudades do Recife", mas há uma saudade no meu peito. Levo comigo daquele lugar as lembranças do carnaval mais bonito da minha vida, das ruas onde o arcaico e o novo convivem lado a lado, dos "rios, pontes e overdrives". E lá também eu encontrei um bocado de dor minha e de miséria alheia.

Por isso muita gente me chama de metida a pernambucana. Dizem que só gosto do manguebeat porque fui ao Recife. Afinal, vangloriam-se de ser fãs de Nação Zumbi, Otto, Eddie, etc, desde muito antes de mim. Disputinha PIMBA besta. E ironizam afirmando que quando eu chegar em BH vai ser a mesma coisa, vou começar a gostar de música mineira e não sei o que lá. Ao ouvir isso, só consigo lembrar daqueles rockeiros da adolescência vinho-do-frei-13-de-julho, que tinham mania de chamar de "posers" aqueles que eles achavam que não curtiam rock de verdade, mas ouviam só para aparecer. Quem chamava os outros do "posers" sim era rockeiro de verdade! (risos).

Pois. Que bom que já aqui em Aracaju, eu me apaixonei pela poesia do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Ele começou a escrever sobre o Recife quando estava na Espanha: o material de sua poesia é a memória. Do mesmo jeito, meu carinho imenso pela sua obra vem da saudade. E até das imagens que crio da Espanha, de Angola, dos países que ele visitou na diplomacia e sobre os quais carinhosamente e criticamente escreveu. Agora vou fazer uma pesquisa de mestrado sobre dois filmes que abordam o imaginário urbano de Cabral. Vou estudar filmes que falam, entre outras coisas, sobre o Recife, lembrando que sou de Aracaju e estarei morando em Belo Horizonte durante a pesquisa.

E desejo muito, mas muito mesmo, que assim como aconteceu em Pernambuco, eu também me apaixone pela cultura mineira, que eu seja uma "metida a mineira", como quiserem chamar. Espero que essa praga pegue. Mas mesmo antes de ir pra Minas eu já sou admiradora de Carlos Drummond de Andrade, mas ainda tenho muito o que ler dele, pois li apenas uma pequena antologia, e devo ler Guimarães Rosa, como também conhecer melhor a música de Milton Nascimento, entre tantas outras maravilhas. Mas ainda há tanto, mas tanto para conhecer, Minas Gerais, de seus lugares, sua literatura, sua música, seu cinema... E quem sabe eu goste, mas talvez também não me encante tanto e a tal praga não pegue...

Levo daqui de Sergipe a saudade do sertão onde fui criada até os cinco anos, em Porto da Folha, a lembrança das águas mais gostosas do mundo, as águas do Velho Chico por ali em Gararu, e uma música como "se vira com o próprio nariz, quebra prato se está com raiva, ela não consegue sair da sua casa". Inclusive quando estava no Recife fui ao show dessa banda que eu vi se apresentar um trilhão de vezes em Aracaju, e também mostrei a uns amigos de outro anfitrião as músicas da Plástico Lunar. E mais: levo também a dívida de ler Antônio Carlos Viana. Não porque ele é daqui, nem porque eu tenha obrigação de dar valor ao que é da minha terra, mas porque me parece ser um bom escritor. No mais, infelizmente, tenho de admitir que este não é o meu lugar, nem é o que achei mais interessante.

Amando ou não os lugares por onde ainda vou passar na minha vida, uma coisa é certa: não quero ir a canto nenhum desse mundo sem que as ruas, as pessoas, os sons, as imagens deixem vestígios em mim. E não posso negar que o meio em que fui criada deixará sempre uma marca em mim. Mas não tenho raízes. Quem tem raízes é árvore. E as árvores estão lá para deixar o lugar mais bonito. Já eu... eu sou uma desertora mesmo!

Lembrei de uma música cantada por um mineirinho bão, Milton Nascimento, veja só, olha a praga aí...

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

domingo, novembro 14, 2010

Dorzinha

Sinto essa pequena dor
e tudo que eu quero é adormecer
para não adoecer de tanto prever o futuro
quero acordar só na hora em que a vida de verdade começa
minha vida não é esta
já me separei deste mundo.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Mallarmé

Stéphane Mallarmé, chamado por alguns de "inventor da poesia moderna", é um desses autores que acusam de ser demasiado hermético. E dizem da sua leitura difícil um trabalho antes do que prazer. Alguns de seus textos com os quais comecei a entrar em contato me pareceram difíceis de compreender sim - duas lidas para um poema e ainda a sensação de tanta incerteza. Porém, será que não é tão simples entender o que ele tem a dizer com o seguinte poema em prosa?

Pobre menino pálido

Pobre menino pálido, para quê gritar na rua a plena voz tua canção aguda e insolente, que se perde em meio aos gatos, senhores dos telhados? pois ela não há de atravessar os postigos dos primeiros pisos, por detrás dos quais desconheces pesadas cortinas de seda avermelhada.

Entretanto, cantas fatalmente, com a segurança tenaz de um homenzinho que vai só pela vida e, não contando com ninguém, trabalha para si. Tiveste algum dia um pai? Não tens sequer uma velha que te faça, surrando-te, esquecer da fome, quando chegas sem tostão.

Mas trabalhas para ti: em pé nas ruas, coberto com roupas desbotadas de homem, uma magreza prematura e tão alto para a idade, cantas para comer, com obstinação, sem baixar teus olhos maus para os outros meninos que brincam na calçada.

E teu lamento é tão alto, tão alto, que tua cabeça descoberta a erguer-se no ar à medida que sobe tua voz parece querer-se ir dos teus ombros miúdos.

Homenzinho, quem sabe ela não irá embora um dia, quando, depois de muito gritar pelas cidades, terás efetuado um crime? um crime não é muito difícil de efetuar, basta ter coragem depois do desejo, e tais, que... Teu rosto miúdo é enérgico.

Nenhum tostão desce ao cesto de vime que seguras na mão comprida suspensa sem esperança em tuas calças: hão de tornar-te mau e cometerás um crime um dia.

Tua cabeça se ergue sempre e quer deixar-te, como se de antemão soubesse, enquanto vais cantando de um jeito que se torna ameaçador.

sábado, novembro 06, 2010

Desculpe

- Nunca na minha vida alguém fez eu me sentir tão mal comigo mesmo. Não tanto pelo que eu fiz, mas pelo jeito que você ficou. Desculpe.

Mal sabia ele que o que ele havia me dito fez eu me sentir tão mal como nunca antes.

quarta-feira, novembro 03, 2010

A poesia em pânico


Indo atrás das influências do poeta João Cabral de Melo Neto, comecei a ler o poeta Murilo Mendes ontem à noite. Cabral se inspirou em Murilo Mendes na busca por uma poesia concreta, visual, que fala através da matéria. Não li nenhuma análise da obra de Mendes, mas a partir da obra pela qual me inicio, A poesia em pânico (1938), percebo que há nele uma espiritualidade muito forte, que no entanto está num processo dialético com o seu materialismo.

Por vezes ele acredita estar tomado pelo demônio, e chega a afirmar no poema O exilado, "Os sentidos em alarme gritam/o demônio tem mais poder que Deus" - reconhece sua humanidade, e por ser tão humano se encontra geralmente mais próximo do diabo. É atormentado pelo amor platônico por Berenice, e ele diz no poema A usurpadora, "o violento amor que eu deveria consagrar à Igreja" - parece que não se conforma em dedicar a Berenice maior adoração do que ao próprio Deus e à religião. Em toda parte Murilo Mendes observa a profanação do sagrado, própria da forma de sua poesia, que se comunica através das coisas, em A condenação ele declara: "Ai de mim! ai de mim! que vi sempre as constelações em maiô/ que nunca vi Maria na sua glória de imaculada/ que vida toda a verdade por imagens".

Mas Murilo Mendes, como bom cristão, carrega também consigo a culpa - por todas as suas fulgurosas emoções, pelo seu desejo de consumação no amor, pelos erros que possa ter cometido.

O resgate

Vós que pensais atacar as igrejas, vinde a mim, incendiai-me.
Eu sou uma igreja em ruínas que vai submergir

- Não há água do batismo e da graça-
Apontai para o meu corpo, altar e sacrifício,

Para minha cabeça que guarda todas as imagens,

Para meu coração ansioso de se consumir em outros.
Ó filhos transviados do meu Pai celeste,

Aqui estou eu... perdôo a todos e não me perdôo.

Queimai-me.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Tropa de elite 2 (2010), José Padilha


Após O nascimento de uma nação (1915), o diretor americano D.W.Griffith foi muito criticado pelo teor racista de seu filme, que curiosamente é considerado por alguns como o filme que "criou" a linguagem cinematográfica - ou mais especificamente a linguagem clássica. Para se redimir do filme reacionário em termos ideológicos e revolucionário em questão de linguagem, Griffith realizou Intolerância, que trazia uma crítica às mais diversas formas de intolerância na humanidade. Assim como Griffith, o diretor José Padilha parece também buscar se desculpar em relação ao seu outro filme.

Alguns me avisaram que Tropa de elite 2 era um filme mais maduro. Concordo. Porém considero o primeiro se não melhor, todavia mais instigante. O primeiro Tropa de elite era mais problemático: no bom e no mal sentido. Ele contribuía para fomentar ideologias fascistas entre os brasileiros por apostar numa identificação perigosa com um personagem envolvido até o pescoço com a violência urbana: o Capitão Nascimento. E por vezes ironizava os intelectuais da universidade que apontam conclusões fáceis diante de problemas extremamente complexos (vide a simplificação da obra de Michel Foucault por um professor numa aula de Direito). Por fim, o primeiro Tropa de elite causava polêmica, dividia opiniões, atraía ódio e admiração pela escolha de um narrador de ética bastante duvidosa. Mas ele não passava de uma mímesis levada ao extremo dos sentimentos dos habitantes das metrópoles envolvidos pelo medo e pela revolta.

Dessa vez não é assim que a banda toca. Por mais que o Capitão Nascimento continue a ser o narrador e herói, o Padilha não deixa a ambiguidade fazer com que o filme fuja ao seu controle. Aliás, até mesmo em termos de distribuição esse filme é mais controlador. O diretor procurou combater a pirataria, e foi criado todo um arsenal para evitar que o filme invadisse as barraquinhas de camelô pelo país. Afinal, sabemos que não era só a redenção o que o Padilha buscava com uma continuação, mas também e principalmemte notoriedade e muito dinheiro.

Nesta edição, Tropa de elite busca se auto-afirmar como um filme de esquerda. Traz inclusive o personagem do deputado Fraga baseado no deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), do Rio de Janeiro, que realizou uma CPI contra as milícias e hoje em dia é ameaçado de morte, mas também foi reeleito e teve como cabo eleitoral Wagner Moura nesta eleição. O nome que Marcelo Freixo recebeu na ficção é baseado no deputado do DEM, Alberto Fraga, que se empenhou contra o desarmamento. Trata-se daquele velho trocadilho que o Padilha gosta de fazer, como colocar o sobrenome de Sandro do Nascimento no capitão do BOPE.

Mas se no primeiro filme os inimigos de Nascimento são os traficantes, agora ele se dá conta de que existe uma rede muito maior de relações de poder envolvidas, abordando essencialmente o Estado. Dessa vez, no enterro do seu amigo policial não é a bandeira do BOPE que é colocada sobre a bandeira do Brasil, como se o BOPE fosse uma espécie de organização paralela, mas sim a bandeira do Brasil, simbolizando o Estado brasileiro, que é posta por cima da bandeira do BOPE.

A construção do espaço fílmico, que elabora o relato de espaço da cidade, também se dá de outro modo: quando a partir do ponto de vista do Capitão Nascimento ainda pertencente ao batalhão do BOPE, esse espaço era produzido no corpo-a-corpo da câmera com o morro; já a partir do olhar de Nascimento enquanto subsecretário de Segurança Pública, temos o ponto de vista a partir de imagens aéreas de um helicóptero e o olhar tecnicista de uma guerra produzida pela indiferença diante de traficantes que morrem como pontinhos na favela, trazendo assim um enquadramento que muda completamente a forma de olhar.

E o filme desenvolve a sua tese dialogando com o cinema americano de gângsters, inclusive com cenas de carros sendo estraçalhados por tiros orquestradas pela leveza do movimento da câmera ou pelo impacto da montagem ágil, e ainda Capitão Nascimento tem muito do mafioso Michael Corleone de O poderoso chefão, como o conflito estabelecido entre seu mundo de poder e violência entrando em choque com o âmbito familiar. Também persiste na escolha da filmagem em câmera na mão, numa aproximação com o cinema novo e buscando também algo de Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, no conflito ético e político de Nascimento, agora subsecretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, bem como conta com a mesma ousadia de Glauber em apresentar personagens que representam personalidades da esquerda e da direita do seu tempo; e há ainda algo dos travellings percorrendo a aparente perfeição de Brasília como assim fez Joaquim Pedro de Andrade em Brasília, contradições de uma cidade nova (1967).

Assim Padilha apresenta sacadas geniais quando, por exemplo, representa a morte de André Matias. É neste momento em que Padilha vai de encontro à prática da tortura, que muitos afirmaram ter sido defendida por ele no primeiro filme. De fato, ao adotar a tortura os seus personagens do filme anterior arrancavam verdades dos torturados colocando-os no saco, e em seguida conseguiam prender os traficantes. Na segunda parte, ora ora, André Matias tortura um homem com o objetivo de chegar aos ladrões das armas de uma delegacia. Só que são justamente os policiais das milícias os ladrões das armas. Ao que o assassinato de Matias é representado com ele caindo de costas, após receber o tiro de um colega policial, de forma banal, sem glamour. Sequer vemos o rosto do cadáver do personagem que antes, no último plano do primeiro Tropa de elite, finalizava o filme dando um tiro na cara do espectador.

E se no primeiro Tropa de elite esse tiro na cara de nós espectadores aponta para um niilismo, um clima de descrença quanto a qualquer solução para as dispersas guerras civis travadas nos morros cotidianamente, Tropa de elite 2 mostra a ação política de Nascimento e deputado Fraga na CPI das milícias, demonstrando que acredita na ação do sujeito em prol da transformação social (aquela velha utopia do cinema moderno brasileiro), justo nos tempos em que se fala tanto em "fim da história".

quinta-feira, outubro 28, 2010

Arre! Estou farta de semideuses!

Bom, recentemente eu obtive uma grande conquista. E, assim que consegui o que queria, senti-me uma espécie de Daniel Sam, aquele guri que ninguém dá nada por ele, e que de repente, assim de joelhos fudidos, dá um golpe manco e corre pro abraço da vitória.

Nessa hora, eu me lembrei de diversas humilhações pelas quais passei. Portas na cara, "não entre aqui", "caia fora", "você é incompetente" ditos com teores por vezes mais, por vezes menos cruéis. E lembrei que essa gente não era tão inteligente assim para eu dar algum valor ao que disseram.

Agora eu continuo encontrando pessoas que falam como se eu não fosse conseguir. São semideuses: pessoas que não erram, que conseguiram tudo estendendo as mãos para o céu que lhes oferecia as coisas de mão beijada. Diante do sofrimento alheio, respondem com arrogância, pisam mesmo nas fraquezas de outrem como uma forma de sentir superiores. Ou se acaso não conseguiram o que você conseguiu comportam-se como se você não fosse digna de tal.

À merda todos os semideuses. Eu continuo seguindo em frente sentindo essa dor, essa alegria, buscando alguma força, vestida com as armas de Jorge, mas sempre humana, demasiadamente humana.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Boa viagem


Escrevo a poucas horas de pegar o avião para ir a Belo Horizonte. Neste momento, acabei de assistir a Náufrago (2001), Robert Zemeckis, pela segunda vez - a primeira foi no cinema. No começo do filme, pensei "que droga!", não é uma boa ideia ver um filme em que um cara sofre um acidente de avião e vai parar numa ilha assim pouco tempo antes de eu viajar... Até que o filme terminou com uma espécie de sinal. Chuck, o homem solitário que tinha como seu único amigo a bola de vôlei Wilson até finalmente retornar ao mundo e reencontrar seu grande amor, Kelly, diz algo assim ao narrar sua história:

- Eu havia colocado uma corda lá em cima. Depois de testar com um boneco de madeira, vi que a corda não resistiu. Eu não tinha controle sobre nada. Nem podia morrer do jeito que queria. Naquele instante, algo me disse que eu precisava continuar respirando, eu devia continuar vivo. Então a maré me trouxe uma vela. Até que eu decidi arriscar tudo com uma jangada, e usei também essa e outras cordas para amarrar a madeira, e a vela sobre ela. Foi assim que eu encontrei o navio. Quando eu voltei, Kelly havia seguido com a vida dela sem mim. Mas mesmo assim eu sabia que eu devia prosseguir respirando e seguir vivendo. Afinal, nunca se sabe o que a maré irá trazer.

quarta-feira, outubro 13, 2010

A cegueira da visão


No livro Paisagens urbanas, Nelson Brissac Peixoto cita um fotógrafo esloveno, Evgen Bavcar. O que me chamou a atenção foi o fato de Evgen Bavcar ser um fotógrafo cego - perdeu a visão aos 12 anos, após sofrer dois acidentes. Bavcar faz suas fotografias numa posição contra o vento, e assim o vento desenha os contornos das coisas tateando o seu corpo. Ao que Nelson Brissac, um daqueles raros acadêmicos que escrevem poeticamente para nos seduzir, afirma:

Vidente é aquele que enxerga no visível sinais invisíveis aos nossos olhos profanos. O cego recorre à lembrança, à sensibilidade, a várias descrições. Um modo polifônico de ver, composição de todos esses olhares. Dá voz a todos eles. Desloca o olhar retiniano da sua centralidade convencional, multiplicando os pontos de vista. Passa do olhar à visão.

Lembrei-me de Alfredo Bosi. Citando Santo Agostinho, Bosi mostra que o santo afirmara que a visão é o mais espiritual dos sentidos. Como se houvesse algo de muito profano no tato, no paladar, até mesmo na audição. E Bosi declara em O ser e o tempo da poesia:

A experiência da imagem, anterior à da palavra, vem enraizada no corpo. A imagem é afim à sensação visual.(...) A imagem é um modo de presença que tende a suprir o contato direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós.

Bavcar descobre no corpo a luz, na luz a lembrança, na lembrança a obra de arte. O seu modo ver é o da poesia, assim como a figura de linguagem da sinestesia, essa metáfora que expande os sentidos - o significado e os sentidos.

Mas como poderemos saber se o dispositivo representa a sua imagem interior? Ora, mas tantas vezes nossas fotografias de pessoas que enxergam não são tão distintas daquelas que imaginamos, não são uma surpresa para nós, ou o que Walter Benjamin chamou de inconsciente óptico em Pequena história da fotografia?

Esta imagem de Bavcar logo acima traz o sacro e o profano contidos num instante. E não são tantas as religiões dedicadas ao culto à imagem? Culto esse tantas vezes visto como o pecado de não adorar o verdadeiro deus.

E não estamos repletos de deuses nas nossas memórias? Disse Alfredo Bosi:

A imagem amada, a temida, tende a perpetuar-se: vira ídolo ou tabu. E a sua forma nos ronda como doce ou pungente obsessão.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Meus musos - parte 2


Quando eu descobri Gael, eu estava vendo Má educação, de um dos meus cineastas favoritos, Pedro Almodóvar. Apaixonei-me por ele quando observei seus dotes contidos numa cueca branca, e ainda mais quando ele mergulhou na piscina, até encontrar o gozo quando ele fazia flexões com gestos deveras sexuais.

Como se não bastasse ele interpretou o ídolo da minha adolescência utópica no cinema: Che Guevara. Emocionante a cena em que ele atravessa o rio para cuidar de pessoas enfermas. Até porque eu sempre tive uma paixão imensa por pessoas utópicas: seja um santo como São Francisco de Assis (meu favorito), Jesus Cristo (hoje perambulo entre ateísmo e cristianismo) e o próprio Che. Essas pessoas tem algo de muito encantador que não consigo carregar comigo...

Além disso, em suas entrevistas Gael demonstra ser um homem inteligente... Inclusive fala cinco línguas, e admiro também que versa em vários idiomas.

Mas enfim, ora francamente, nada como aquela cena em que ele canta Quizás, quizás, quizás vestido de travesti em Má educação.

domingo, outubro 10, 2010

Dilma Kill Bill


Em dado momento do debate dos presidenciáveis na Band, a Ivana Bentes comentou no twitter que a Dilma estava preparada numa versão Kill Bill para este debate. Com treinamento do Pai Mei, espada Hattori Hanzo e tudo!

Pois bem. Eis que devido ao rumo hipócrita, conservador, reacionário da pior espécie que o debate sobre a descriminalização do aborto tomou, eu estava muito P da vida com a falta de comprometimento de um partido como o PT com as pautas dos movimentos sociais. Dilma estava na defensiva, ouviu seus marketeiros, deu uma de religiosa e começou com papinho de direito à vida no horário eleitoral.

E eis que me surge uma outra Dilma. Uma Dilma que tem muito mais a ver com aquela que lutou contra a ditadura militar. Uma mulher guerreira, de pulso forte, que não se deixa dominar.

Dilma simplesmente colocou em pauta o tema do aborto, e disse que sim, o aborto, um problema de saúde pública, não devia ser tratado como caso de polícia. Que havia mulheres morrendo por não encontrarem amparo do Estado. E que o próprio Serra regulamentou o aborto no SUS para casos de estupro.

Mas Dilma não parou por aí. Na abordagem dos mais diversos temas, ela se posicionou nas trincheiras e colocou em pauta temas como privatizações e programas sociais buscando estabelecer uma distinção ideológico-política muito clara entre os dois programas. E isso enriqueceu muito o debate.

Claro que o governo Lula apresenta seus traços neoliberais e Serra soube contra-argumentar nesse sentido. Mas Dilma não poupou afirmações como a de que o governo FHC estava nas mãos dos banqueiros internacionais, contribuindo para uma dívida alarmante com o FMI.

E era justamente isso que eu esperava para esse debate. Sem mais trolólós, termo que ela mesma usou no debate, é preciso levar a sério reivindicações dos movimentos sociais sem ceder a obscurantismos religiosos. E colocar o PSDB no lugar dele: na oposição. Porque Lula aparecer no horário eleitoral do Serra é uma palhaçada.

Meus musos - parte 1


Gente, como não tenho o que fazer neste feriado (na verdade tenho, mas não estou fazendo o que deveria), tive a BRILHANTE ideia de fazer uma série de posts sobre os meus musos - os homens que considero mais lindos, gostosos, tesudos, enfim, tudo de bom. Sei que muitos me acharão assanhadinha, mas eu sou assanhadinha mesmo hahahaha.

Bem, primeiramente gostaria de ressaltar que os homens que mais me atraem na face da terra não são apenas um pão, um colírio, uma coisa bonita assim de se ver sabe... Eles são também inteligentes, charmosos, sedutores... Enfim, tudo de bom!

O primeiro homenageado da série, como vocês podem perceber, é Tom Cruise. Gostaria de ressaltar que esse belíssimo ator que com o passar do tempo só foi ficando mais gato foi o meu ídolo de infância - ou seja, ele está indiretamente envolvido com a descoberta da minha sexualidade. Afinal, quando eu era pequena sonhava em casar um dia com ele. Como gosto de pensar em tudo, perguntava-me já naquela época se ele não estaria velho demais quando finalmente eu fosse mulher. Minha resposta agora como mulher: não, meu bem, ele tá ma-ra-vi-lho-so!

Pra entender o Erê

Sem motivo facilmente detectável, como de costume, hoje eu estava deveras TENSA. E nada, nada parecia resolver. Estava quase indo numa igreja só para sentir a presença das pessoas conquistando uma etérea evasão, para ver se me contaminava com isso, até que, assim de repente, a tensão passou. Sabe como? Do nada surgiu na minha cabeça essa música:

Pra entender o Erê
tem que tá moleque
tem que conquistar a voz
e a consciência leve.

E eu achava que cantava assim, mas pesquisando a letra na internet é desse jeito:

Prá entender o Erê
Tem que tá moleque
Uh! Erê, Erê!
Tem que conquistar alguém
Que a consciência leve...

Gostei mais da primeira versão, formulada pelo meu inconsciente. Serviu de auto-ajuda bobinha. Na hora do desespero serve.

sábado, outubro 09, 2010

Love is the answer


Hoje o meu querido John Lennon estaria fazendo 70 anos. Não quero lembrar das histórias tristes envolvendo sua morte, só desejo ouvir as suas músicas tão maravilhosas que ele fez enquanto integrante dos Beatles e na carreira solo. Faz tempo que não ouvia o Lennon, e hoje é um dia de matar a saudade das suas músicas e ficar imaginando um mundo mais assim: all the people living for today. Graças a ele, estou até me sentindo um pouco mais sonhadora do que o normal!

What in the world you thinking of?
laughing in the face of love..
what on earth you trying to do?
It's up to you
yeah, you!

Traz um Scorsese!


Quando soube que estava passando uma série com histórias de gângsters no tempo da Lei Seca dirigida por ninguém menos que Martin Scorsese, eu pensei logo: merda não ter HBO, mas God save the net e eu baixei dois episódios. Vi o primeiro episódio de Boardwalk Empire hoje, que é um verdadeiro longa-metragem, não só pela duração (70 e poucos minutos), mas porque tem cara de cinema e não de série televisiva.

O Scorsese caiu de cabeça no cinema noir na série: as noites de penumbra, os malabarismos na steady cam percorrendo Atlantic City no mais puro estilo A marca da maldade (Orson Welles), a montagem que justapõe planos de um espetáculo de teatro com uma sequência de assassinatos que deve muito a O poderoso chefão (Francis Ford Coppola), o sarcasmo em torno da hipocrisia do moralismo anti-drogas também presente em Os intocáveis (Brian de Palma)... Enfim, uma maravilha de série para quem, assim como eu, ADORA filme de gangstêrs!

Porque há algo de encantador no submundo do poder e do crime, nos heróis tão vilões capazes dos atos mais vis, porém às vezes tão afetuosos.

E o escárnio que o Scorsese faz quanto à modernidade americana do início do século passado é genial. Assim como em Gangues de Nova York, Scorsese demonstra ver a história de seu país intrinsecamente vinculada à corrupção e à violência. Impagável a cena em que Enoch Thompson, o tesoureiro de Atlantic City cúmplice do tráfico de álcool, faz um discurso sobre seu passado de filho de álcoolatra que emociona senhoras conservadoras, e finaliza afirmando: "com fé em Deus a democracia americana contará agora com o voto das mulheres". E o personagem de Jimmy, um garoto que abandonou a faculdade para "lutar pelo seu país" na Segunda Guerra Mundial e retorna violento e frustrado, é muito bem elaborado e interpretado.

Que venham mais episódios dessa série que tem a genialidade do cinema americano e um sarcasmo delicioso sobre a sua sociedade.

sexta-feira, outubro 08, 2010

A porta

Vi uma pessoa citando na internet uma frase de Chico Buarque do livro Estorvo. Agora quero ler o livro! A frase foi muito reveladora para mim...

E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.

And so it is...


Hoje assisti ao final de Closer - perto demais, que estava passando na TV a cabo. Havia visto esse filme há alguns anos no cinema. Tinha achado um bom filme, continuo achando, porém o considero muito forçado em certas falas dos personagens, certos gestos, enfim. Só que... houve uma cena em especial que me chamou a atenção. É quando o personagem de Jude Law, Dan Woolf, vai ao escritório do marido de Anna, a mulher com quem ele havia tido um caso, com o objetivo de pedir perdão e implorar para que o esposo a deixe partir. Dan Woolf, um jornalista que tenta lançar um livro e se considera muito mais sensível e profundo do que Larry, o marido de Anna, em dado momento se vangloria da nobreza de seu coração. Ao que ele ouve esta frase de Larry:

- Você sabe o que é o coração humano? O coração humano mais parece uma mão fechada repleta de sangue!

E assim Larry fala de amor, indo de encontro ao lirismo e ao idealismo de Dan. Acho que enjoei de Dan. Talvez eu esteja um pouco Larry.

Questão de pontuação

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, outubro 07, 2010

Na vida...

Na vida, pessoas vem e vão. Para uma pessoa que vai, uma outra aparece. E essa que aparece, depois vai. Mas, o mais engraçado de tudo, eu nunca apareço. Estou sempre aqui no meu cantinho. Elas que aparecem pra mim.

A liberdade de empresa mostra a cara


Eu havia criticado anteriormente as reclamações por parte de determinados setores da imprensa quanto a um suposto autoritarismo do governo Lula. Agora a tal liberdade de imprensa revela o que de fato é: liberdade de empresa. Após publicar este artigo, a Maria Rita Kehl foi demitida do jornal O Estado de São Paulo por "delito de opinião".

Só que agora o Estadão vai se arrepender eternamente. A demissão da Maria Rita está repercutindo e MUITO nas mídias sociais.

É como eu disse: fale o que o seu patrão não quer, e "a porta da rua é a serventia da casa". Isso é democracia.

O segundo turno e o direito à vida


Assim que acordei, quando cheguei à sala, encontrei meu irmão vendo um video sobre a Dilma. Ele, que é evangélico, disse que estava procurando onde estava o bendito vídeo em que ela afirma que nem Deus tiraria a presidência das mãos dela, e não achou em lugar nenhum, encontrando apenas vídeos manipuladores. Ele colocou as mãos na cabeça e afirmou: "Meu Deus, às vezes tenho vergonha de ser evangélico!".

Quando eu estava na fila para votar, uma senhora logo na minha frente comentou que ia votar na Dilma, mas depois decidiu optar pela Marina Silva porque tinha ouvido falar da tal declaração que meu irmão estava procurando.

Com a chegada do segundo turno, uma onda de acusações é feita contra a candidata à presidência. Dizem até que ela tem pacto com o demônio. São muitos pastores pedindo para não votar na Dilma, e um padre chegou ao cúmulo de afirmar na Canção Nova que os fiéis deviam escolher o Serra.

Resultado: entre os principais pontos do programa de Dilma no segundo turno está o "direito à vida". Um militante do PT chegou ao cúmulo de afirmar no twitter que a culpa de Dilma ter ido ao segundo turno era das feministas do PT, que incluíram a descriminalização do aborto como pauta a ser debatida pelo partido enquanto governo.

Não pude deixar de me lembrar do filme do Kiarostami, ABC África. A religião católica insiste em demonizar o uso da camisinha, e o diretor mostra uma cena em que um pequenino corpo é enrolado num lençol. Depois o pai parte numa bicicleta com a caixa contendo o cadáver de uma criança que tinha AIDS.

É aí que eu me pergunto: o que é direito à vida? Direito à vida devia ser acesso universal a um serviço de saúde pública DE QUALIDADE. Direito à vida devia ser ninguém passar meses esperando por uma consulta. Direito à vida devia ser ninguém ser morto na banalidade da violência urbana. Direito à vida devia ser ninguém mais perder a vida trabalhando em troca de migalhas.

E tantos deixam a discussão sobre as mazelas sociais de lado porque preferem votar no candidato que acredita em Deus (no deus deles) e falam no direito à vida como um dom divino imaculado. Enquanto isso, acontece o massacre em tantas guerras dissipadas em tantos lugares do mundo.

*Imagem do filme ABC África.

terça-feira, outubro 05, 2010

Pássaros


Um passarinho costuma entrar no apertamento, para chateação de um dos meus irmãos, pois ele tem mania de defecar nas roupas que ele estende no varal. Gostava do tal passarinho. Ficava observando-o até a hora de ele partir. Até que um belo dia, ao vê-lo voando em alta velocidade e se batendo nas paredes da área de serviço do apartamento, eu senti pavor dele.

Desde então se vejo passarinhos voando alopradamente ou se acaso me deparo com muitos pássaros aglomerados numa avenida, eu experimento um leve pânico. Não sabia a causa desse estranho medo, até que BINGO! É tudo culpa do Hitchcock!

Sim, pois criei esse estranho medo depois de assistir a Os pássaros. Hoje em dia eu considero esses animais um tanto ameaçadores. Quem sabe eles revelem algo que esteja dentro de mim, como a minha própria irracionalidade. E talvez, por agora ter consciência da origem do medo (o filme), eu deixe de tê-lo.

Afinal, não sou mais criança! Lembro de que quando criança eu tinha medo de dormir e sonhar com o Freddy Krueger... E minha imaginação, excessivamente real, fazia-me vê-lo logo embaixo da minha cama...

segunda-feira, outubro 04, 2010

Você me apagaria da sua memória?


Um dos meus filmes favoritos é Brilho eterno de uma mente sem lembranças, do Michel Gondry. Posso dizer que o filme conseguiu me arrancar lágrimas desde o começo - já naquela cena em que Joey está dirigindo o carro em prantos atravessando uma noite chuvosa enquanto toca Change your heart...look around you... change your heart and will stound you... I need your lovin' like the sunshine... Everybody's gotta learn sometimes.

Na minha opinião, esse filme não é só um filme pimba-indie-meloso, mas traz uma reflexão interessantíssima sobre as relações que as pessoas desenvolvem com as coisas, os sentimentos, os relacionamentos, tratando afetos como se fossem tão descartáveis quanto os produtos efêmeros que consomem - relação possibilitada pela tecnologia, que através de um "delete" promete nos livrar daquilo que nos machuca, das "fraquezas" da nossa condição humana, demasiadamente humana.

Mas eu não quero entrar nessa discussão aqui. O que me fez lembrar hoje desse filme é eu ter percebido que tantas e tantas vezes eu me livro de memórias com o mesmo descaso de uma Clementine, a personagem principal de Brilho eterno, que vai a uma clínica e elimina as recordações do seu envolvimento com Joey, e logo depois sequer o reconhece num supermercado.

A questão é: vivo intensamente determinadas emoções, só que o problema é que just 'cause you feel it, doesn't mean its there. Aí mais cedo ou mais tarde o mundo real vem bater na minha porta. E eu me decepciono profundamente por certas pessoas, passando da adoração ao ódio e em seguida à indiferença num passe de mágica.

De uma memória poética repleta de significados ternos, passo a alguns fatos desconexos e sem sentido. Como se houvesse uma caixa de sapatos que eu havia usado para guardar objetos de importante valor emocional, e de repente essas coisas sumissem e eu só encontrasse um par de tênis qualquer.

Há quem não se importe nem um pouco. Mas houve gente que me pediu tanto, "pelo amor de deus, como você só lembra disso? E isso, e isso, e aquilo, como esqueceu?". No entanto, é algo que de certa forma independe da minha escolha. Talvez não seja a única!

quinta-feira, setembro 30, 2010

Evasão

Às vezes eu uso sentimentos pra fugir da realidade. Sentimento acaba, outra realidade.

Quando finalmente eu vou entender que o mundo é essa coisa entediante e rotineira mesmo?

quarta-feira, setembro 29, 2010

Eleição no domingo...


Minha posição inicial a respeito das eleições 2010 era muito clara: nulo para todas as categorias. Tudo isso devido a um ceticismo tremendo na democracia representativa e também nos próprios representantes. Só que durante a campanha acabei simpatizando com um candidato em particular: Plínio de Arruda Sampaio.

Plínio foi um dos formuladores de uma das reformas de base do governo de João Goulart, a Reforma Agrária, governo esse que sofreu o golpe de 64. Um dos fundadores do PT, mas com a chegada do partido ao poder muitas coisas mudaram. Ao invés do assentamento de mais de um milhão de famílias em quatro anos, como indicava o Plano de Reforma Agrária coordenado por Plínio, o governo Lula assentou somente pouco mais de 150 mil famílias em oito anos. Plínio então vai para o Psol. Todavia também observo um porém: apesar de defender o socialismo, Plínio é um homem rico, com bens avaliados em cerca de dois milhões de reais. Difícil resistir às delícias do capitalismo, não?

Mas por quê votar no Plínio? Primeiramente, eu acho as propostas dele extremamente utópicas: 10% do PIB para a Educação, aumento dos impostos dos ricos em 45%, desapropriação das propriedades com mais de mil hectares (produtivas ou não), auditoria da dívida interna, reestatização da Vale, etc. Outra coisa: não vejo o Psol como um partido ainda capacitado para a administração da máquina pública. É um partido que ainda está amadurecendo, e que comete alguns equívocos a exemplo da candidatura de Avilete para o governo do estado de Sergipe. Avilete afirmou em entrevista que é contra a legalização do aborto (uma das bandeiras nacionais do Psol), e mais: chegou ao cúmulo de chamar Dilma de terrorista e assaltante, devido ao seu passado de militante contra a ditadura militar.

No entanto, o meu voto não é acreditando que o Psol será eleito. Afinal, é evidente que não será. Também não acredito que um dia o Brasil será socialista. Tenho até minhas dúvidas quanto ao socialismo e seus problemas com governos autoritários... No entanto, o meu voto no Psol é uma forma de fortalecer discursos radicais, que não falam de números de casas a serem construídas, mas sim debatem as enormes desigualdes no país como um problema social e colocam em pauta a cumplicidade do Estado com uma política econômica que tende a favorecer os mais ricos. Adoro quando ele fala: "o problema do país não é a falta de dinheiro. O problema do país é a bolsa banqueiro".

Afinal, o PT tem adotado constantemente posturas bastante conservadoras. Lula dizer no comício dessa semana em Aracaju que Dilma será uma mãe para o Brasil me envergonha pelo machismo imbutido em tais palavras. Ainda mais grave o fato de Dilma de uma hora para outra, para não perder votos, negar que é a favor da legalização do aborto.

Que tipo de mudanças sociais pode realizar um partido que sacrifica ideologias em prol de votos? Que veste os valores arcaicos de uma sociedade para permanecer no poder?

Eu quero que discursos como o de Plínio continuem sendo propagandeados por aí. Que tenham espaço na mídia - mesmo que tantas vezes suas falas sejam motivo de piada, não importa. Outro ponto muito positivo é que Plínio apresenta suas declarações nos debates televisivos carregadas de ideologia, enquanto os discursos dos outros candidatos querem aparentar serem não-ideológicos, meramente gerenciais. O que é uma falácia. Escolher entre investir mais em agronegócio do que em agricultura familiar não é uma questão meramente técnica.

E enquanto a campanha do PT é recheada de conservadorismos, já o Psol escancara no seu horário eleitoral o beijo de dois homens. "Você tem opção", afirma o slogan. E Plínio chega a fazer declarações polêmicas na televisão, como quando afirmou ser a favor da legalização da maconha. Coisas que ninguém jamais veria o PT fazer.

É por isso eu vou votar não no Plínio enquanto herói e líder da nossa salvação, mas voto sim no fortalecimento de propostas mais radicais, com discursos que mostrem que política não é só questão de gerenciamento, mas também de ideologia, que abordem a política a partir das lutas sociais envolvidas, e por fim levantem bandeiras que combatam certos conservadorismos.