
“Mas não me custou a adivinhar que seu saber se alimentava de intuições, que as suas aspirações não eram como as que temos na terra. Eles não tinham desejos, não procuravam, como nós, a ciência da vida, porque a sua vida era completa. E assim, os seus conhecimentos eram bem mais profundos e mais elevados que os nossos, porque a nossa ciência procura explicar a vida, obter uma consciência racional da vida para ensinar aos outros a viver, ao passo que eles não precisavam desta ciência, por saberem como se deve viver e o saberem sem raciocínio”.
“Eh sim, acabei por perverter a todos (...). Isto começou, como pueril divertimento, por galantaria, por devaneio de amor. Mas este vírus de mentira medrou nestes corações ingênuos, e agradou-lhes. Em seguida – oh! Com que pressa – nasceu a sensualidade, que gerou o ciúme, que gerou a crueldade... Já não sei quando, mas pouco depois houve sangue derramado, pela primeira vez. Assustados os homens começaram a isolar-se uns dos outros. Conheceram a vergonha e deram-lhe um título glorioso: a honra. Então cada nação teve o seu estandarte. Depois, os homens declararam guerra aos animais que fugiam para as florestas e se tornaram inimigos do homem. E começou a luta do teu e do meu. Inventaram-se os idiomas. Inventou-se a dor e enamoram-se dela. Todos estes homens estavam desvairados de dor e diziam que só pela dor se atinge a verdade. Foi esta a origem da ciência".
“Desde que se tornaram maus, puseram-se a perorar a cerca da fraternidade, da humanidade, e compreenderam essas idéias”.
“Aliás, todos os bons espíritos estavam persuadidos de que a ciência, a sabedoria e o sentimento da conservação acabariam por obrigar os homens a reunir-se numa sociedade racional. Para abreviar o acontecimento, os mais sábios apressaram-se a fazer desaparecer a todos os que não eram sábios, que não compreendiam a idéia ou que lhe retardavam o triunfo. Mas o sentimento da conservação enfraqueceu de repente. Surgiram os orgulhosos e sensuais, a pedirem, abertamente, ou tudo ou nada. Para obterem tudo, recorreram ao crime, e para obterem nada, quando lhes faltava tudo, recorreram ao suicídio. Fundaram-se cultos do nada tendo por ideal a paz eterna no não-ser. Finalmente, estes homens se cansaram de tão estéril trabalho e nos seus rostos pintou-se o sofrimento a que chamaram beleza, porque o gênio só existe no sofrimento. E os poetas glorificam o sofrimento”.
“E, no entanto, é tão simples! Num dia, numa hora, tudo poderia realizar-se! Amai-vos uns aos outros - eis tudo! Aliás, uma antiga verdade, velha de séculos! – O mal está nisto: “A consciência das leis da felicidade vale mais do que a felicidade”. É isto que importa combater.”
Trechos de “O sonho de um homem ridículo”, de Dostoievski.































