quarta-feira, setembro 29, 2010

Borboletas


Ontem vi O meu melhor inimigo, do Herzog, e gostei muito. Uma coisa que ele tem em comum com O homem urso é que no final de ambos os documentários Herzog, que tem uma relação de amor e ódio com seus personagens, finaliza o filme com uma homenagem aos falecidos personagens. O final de O meu melhor inimigo mostra Klaus Kinski, o ator agressivo e egocêntrico com quem Herzog fez cinco filmes (mesmo após ele mesmo e alguns atores desejarem matar Kinski), apresenta uma borboleta que não quer abandonar Klaus Kinski, o qual brinca com ela com leveza e um semblante dócil. Já em O homem urso, Herzog homenageia Timmy ao mostrar uma antiga namorada dele lançando suas cinzas no parque ecológico onde ele se entretia com ursos até ser devorado por um.

Gosto das homenagens que Herzog faz. Ele não tem o cuidado de um Coutinho com seus personagens, chegando a mostrá-los em situações degradantes. Mas a sua postura é de sempre mostrar o ser humano como contraditório. No entanto, ele guarda um carinho imenso pelos seus personagens, e às vezes parece que ele acredita que o cinema é uma forma de lhes conceder a eternidade.

Lembrei desses filmes agora depois de pensar um pouco sobre o vazio que às vezes toma conta de tudo. Uma dorzinha, daquelas que a gente segura para sufocá-la, mas acaba ficando engasgada entre os ossos e a carne e entrando bem afiada pela garganta.

Não é tristeza. É incerteza. E a consciência de que é preciso arranjar forças não sei de onde...

Mas sou forte! Aprendi a ser...

Vê isso? É o contrário da morte, é a vida.

domingo, setembro 26, 2010

Contra a liberdade de imprensa

*este post é um desabafo*

Após as reclamações públicas de Lula com relação ao alastramento de escândalos envolvendo o seu governo publicados em veículos como a Veja, Folha de São Paulo, Estadão, Rede Globo, etc, propagou-se nessa mesma mídia uma onda de suposições quanto ao perigo pelo qual passa a democracia, o que incorre num medo em relação a um governo nas mãos de Dilma Rousseff. É aí onde entra a tão falada liberdade de imprensa... Um conceito que confunde exercício da democracia com abuso de poder realizado pelos veículos de comunicação.

É por isso que eu gostei quando o candidato do Psol, Plínio Sampaio, reclamou na Rede Globo por não participar das entrevistas que estavam sendo feitas no Bom Dia Brasil com os candidatos, com duração de 20 minutos, e ter apenas dado uma palavrinha de três minutos. E mais: na entrevista em questão, o teor de combate à ideologia socialista era nítido. Só faltou o jornalista virar para a câmera e dizer: O socialismo não funciona. Isso não é ideológico? Isso é imparcial? Claro que não né! É por isso que achei ótima a iniciativa de O Estado de São Paulo assumir publicamente neste domingo que está a favor da candidatura de Serra. Mais veículos deviam fazer isso, como a Folha por exemplo.

É por isso que é importante lembrar que quando estamos falando de liberdade de imprensa, estamos falando de liberdade de empresa. Sim, porque eu e você sabemos que eu sozinha num veículo não tenho liberdade porríssima nenhuma. Só estou ali pra concordar com a linha editorial e receber o meu salário. Experimente exercitar sua "liberdade". Talvez lhe mandem pro RH por "corte de gastos".

A liberdade de imprensa que eu vejo por aí sabe qual é? É a liberdade do jornal que passa por cima dos direitos humanos pra atingir recordes de vendas, a liberdade só de fachada de emissoras "públicas" que não podem falar um ai contra o governo, a liberdade de jornais que são azuis ou vermelhinhos e uns parecem oposição encomendada e os outros espelhos da agência de notícias do governo.

E digo mais: jornalistas se consideram acima do bem e do mal na hora de criticar governantes, mas quando eles mesmos são alvo de crítica, ó, tadinhos, vamos voltar à ditadura militar. É aí quando eu me lembro que algum ditador, não recordo agora qual, disse certa vez que assistir ao Jornal Nacional era relaxante, porque parecia que o país ia muito bem. Isso mesmo, enquanto tantos afundavam em merda!

Meus parabéns! Grande bosta de liberdade de imprensa!

E é por isso que eu não defendo a liberdade de imprensa. Pra mim todos eles querem é liberdade de EMPRESA. Na boca desses abutres (que os abutres me perdoem, o que vale é a metáfora), que quando veem historinha de criança lançada de prédio vibram com manchete e fazem espetáculo para lucrar com a miséria humana, o termo liberdade de imprensa é uma piada.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Morangos


Na padaria, vi que os morangos estavam com um preço bom. Resolvi comprá-los. Lembrei-me de Caio Fernando Abreu, Morangos mofados, livro que apresenta textos reveladores sobre o atual momento da minha vida. Dia desse comecei a chorar ao ler um dos seus contos para uma amiga por volta das três da manhã. Naquela madrugada comemos morangos.

Como eu adoro morangos! Uma fruta doce e amarga, gostosa não só pelo sabor, mas também pela maciez com que afaga os dentes. Uma das minhas favoritas.

Bela, vermelhinha, me parece uma fruta tímida e sensual. Morango me lembra intensidade, o signo de áries, Almodóvar. E combina bem com chocolate e vodca. Juntos são um afrodisíaco.

E escrevo aqui enquanto como morangos. Lembro que quando criança colecionava papéis de carta da Moranguinho...

domingo, setembro 19, 2010

Um Belo Horizonte!

Falta menos de um mês para eu ir a Belo Horizonte. E que nome bonito para uma cidade, não?

Das histórias que ouço a respeito da cidade, muitos elogios à sua intensa vida cultural, à receptividade de seus habitantes, e inclusive com relação a beleza das pessoas que moram lá.

Vou cheia de angústias, esperanças, ansiedades, medos, sonhos e torcendo para que tudo dê certo. Nessas horas eu sinto que a vida é essa coisa louca mesmo...

sábado, setembro 18, 2010

Detalhes



Assisti hoje à noite ao filme Look back in anger (1956), de Tony Richardson, e uma cena em particular me emocionou. Trata-se do momento em que Jimmy, um homem bastante agressivo, converte-se num amante vulnerável ao dizer à sua esposa, Alison, a seguinte frase:

- O amor é assim... Até as suas pequenas frivolidades, querida, são para mim tão essenciais...

De cara eu me lembrei de certa conversa que tive com Nina a respeito de idiossincrasias... E de como, quando amamos, prestamos atenção aos detalhes, como se amássemos não uma pessoa inteira, mas fragmentos... Suas frivolidades nos chamam a atenção como se acaso fossem coisas extraordinárias. Afinal, as suas idiossincrasias revelam o seu modo de estar no mundo... E aí a gente se descobre amando manias, gestos... Um jeito de dormir, de acordar, de sorrir, de andar, de mastigar, um hábito... Até mesmo aquilo que poderia incomodar!

E aí que eu me lembro daquela música do Roberto...

Eu sei que esses detalhes
Vão sumir na longa estrada

Do tempo que transforma

Todo amor em quase nada

Mas "quase"

Também é mais um detalhe

Um grande amor

Não vai morrer assim

Por isso

De vez em quando você vai

Vai lembrar de mim...

I awake to find no piece of mind

I awake to see that no one is free
We're all fugitives
Look at the way we live
Down here, I cannot sleep from fear no
I said, which way do I turn?
Oh I forget everything I learn

música do Coldplay na cabeça...


sexta-feira, setembro 17, 2010

Confissão

Tenho pensado se acaso para conseguir a cura não seria necessária uma confissão.
E estou quase me confessando.

Eleições: escândalo x escândalo

O período de eleições é o momento em que fica mais evidente a falácia dos princípios do jornalismo: objetividade, neutralidade e imparcialidade. Eu sempre achei a discussão sobre objetividade no jornalismo uma perda de tempo. Acredito que seja muito mais frutífero um aluno estudar, por exemplo, análise do discurso e adotar uma postura crítica diante do uso da linguagem, do que ficar discutindo se o jornalismo tem ou não que ser objetivo. E acho também muito mais enriquecedor do que debater a imparcialidade jornalísitica é a discussão acerca a democratização dos meios de comunicação de massa. Não importa se o jornal é imparcial, isso para mim não é possível, interessa sim haver uma pluralidade de veículos, com suas diversas visões de mundo.

Então... Depois de dizer logo o que é que eu penso em termos gerais sobre jornalismo, vamos à cobertura das eleições deste ano. É uma farra, minha gente. Nesse momento, as posições político-partidárias dos veículos de comunicação ficam mais evidentes, o que me diverte, de certa forma. Mas é revoltante como jornais têm um debate tão raso acerca da política. Afinal, muito pouco se fala sobre os programas de governo dos candidatos e também sobre a atuação de seus respectivos partidos quando estiveram no poder.

Em vez disso, um festival de disse-me-disse. Um escândalo por dia. E um escândalo publicado numa revista como a Veja, a exemplo do caso da denúncia de quebra de sigilo fiscal da filha de Serra, Verônica Serra, supostamente realizado pelo PT, é alardeado pela mídia televisiva. Outro bafafá, ridículo por sinal, foi a matéria de capa da Folha de São Paulo, que afirmava que um erro de Dilma Rousseff havia incorrido num desperdício de dinheiro público estimado em mais de um bilhão de reais.

Tratava-se da mal pensada tarifa social de energia. O governo deveria compensar as companhias de energia elétrica com uma tarifa, baseado na hipótese de que as residências que gastam pouca energia são as mais pobres. No entanto, casas de veraneio de ricos não gastam muita energia. A Folha então acusou a Dilma, que já foi ministra de Minas e Energia, de atrasar a resolução para acabar com essa lei. Só que a bendita lei foi criada quando? Justamente no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando houve a privatização das companhias de energia elétrica. Ao acusar Dilma, tentava-se manchar uma das suas qualidades mais exaltadas pela sua campanha: a sua competência técnica. Na minha humilde opinião, errado o PSDB com uma lei tão estúpida, errado o PT em demorar tanto para resolver o problema.

Agora o escândalo da vez envolve Erenice Guerra, ex-secretária de Dilma, que exercia a função de ministra-chefe da Casa Civil e foi afastada do cargo. A revista Veja publicou uma matéria afirmando que o filho de Erenice Guerra teria recebido propina para mediar um contrato entre a empresa MTA linhas aéreas e os Correios.

Após a denúncia, Erenice Guerra foi afastada do cargo, ocupado atualmente por Carlos Eduardo Esteves Lima. Diante das acusações, o que fazem os veículos jornalísticos? Do lado dos que defendem a candidatura petista, fala-se em manipulação, em complô eleitoreiro, e tudo não passa de mentira da direita fascista tupiniquim. Do lado dos que defendem PSDB/DEM, estamos perdidos nas mãos do governo petista, teremos uma presidente ex-terrorista liderando essa cambada de corruptos que, como afirma a Veja, financia movimentos "criminosos" como o MST.

A resposta: outro escândalo. Em contrapartida ao escândalo da quebra do sigilo fiscal da filha de Serra difundido pela imprensa tucana, a Carta Capital publicou matéria apontando que, durante o governo FHC, a empresa Decidir.com, da qual Verônica Serra era sócia, realizou sob a vista grossa do governo de então, a quebra do sigilo fiscal de cerca de 60 milhões de brasileiros, que tiveram seus dados expostos na internet.

Mas de escândalo em escândalo o que se vê são veículos que defendem com unhas e dentes os seus respectivos candidatos. O que me impressiona. Quase não há espaço para a crítica, nem problematizações, só extremos. Tudo muito vermelho ou azul. Alias, os outros candidatos, coitados, nem aparecem. Análises consistentes sobre política econômica, educação, saúde? Nada. Um marasmo total. No fim das contas, ficamos sem saber que diabos esses políticos estão fazendo e o que eles propõem. Temos sim uma vitrine de escândalos para escolher entre eles quem são os menos corruptos.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Cinema, paisagem e poesia


Amor é cor! Vida é cor!

O tio de Gabbeh, nome de tapete persa que denomina também a personagem principal deste filme iraniano homônimo de 1996, do diretor Mohsen Makhmalbaf, é uma espécie de mágico que surge na obra para nos dizer algo sobre cinema discretamente. Afinal, para Walter Benjamin o dispositivo tem poderes mágicos, ele traz uma nova visão da realidade, e para o filósofo alemão a diferença entre técnica e magia é uma variável histórica, no entanto elas estão intrinsecamente relacionadas. Em suas aulas, o tio de Gabbeh, num gesto mágico, aponta para a paisagem com flores vermelhas, e flores vermelhas caem nas suas mãos. Depois indica a paisagem de flores amarelas, e flores amarelas também aparecem por entre seus dedos. Ele aponta para o céu, e sua mão se mancha de tinta azul. Em certo momento do filme, seus personagens proclamam: Amor é cor! Vida é cor!

Assim, Gabbeh é um filme que traz um diálogo com a pintura e a poesia. E até mesmo com os tais tapetes persas, trazendo suas cores impregnadas na diegese. Com o surgimento da fotografia e depois do cinema se criou uma discussão sobre a perda da capacidade de a literatura e a pintura representarem a paisagem. Mas que sentido buscar nessas imagens tão efêmeras ou instantâneas da fotografia e do cinema? A resposta do cineasta Makhmalbaf é pincelar a paisagem de afetos através da poesia e da pintura.

Logo na primeira cena, a câmera fixa e o plano geral, bem como a grandeza da paisagem em relação aos personagens, sugerem um diálogo com a pintura de paisagem. Nesse cinema, assim como no de Abbas Kiarostami em O gosto da cereja e O vento nos levará, a paisagem tem alma.

E o cineasta Makhmalbaf, assim como o tio de Gabbeh, está em numa busca apaixonada pela poesia. O tio de Gabbeh afirma que só irá se casar com uma mulher que cante como um canário. E termina se enamorando por uma mulher após vê-la recitar um poema.

Do mesmo modo como o som é essencial na poesia, que apresenta uma musicalidade própria em seu ritmo verso após verso, Makhmalbaf também faz do som uma dimensão apaixonante do seu filme. Seus personagens estão a procura de amores registrados em sons. A mulher que canta como um canário dos sonhos do tio de Gabbeh, e também o uivo do amado aguardado por Gabbeh que ressoa nas montanhas, amado que só conhecemos através desse som.

E é por isso que acredito que o filme Gabbeh seja uma declaração de amor ao cinema.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Chuvisco

Como a fina chuva
que só podemos ver
caída no espelho d'água
ou saber ao tocá-la
com as mãos estendidas na janela

eu amo você
mesmo que com tanta mágoa
pela discrição com a qual impregna o mundo
sitiado pela leveza de sua presença
como uma infinita e invisível cela

mundo feito das cores
vermelho, laranja, amarelo,
verde, azul, anil, violeta
que nascem do sol
ao saber-se triste.

Otto


Há algum tempo eu havia adotado a postura anti-tietagem. Mas com Otto não dá. Ontem fui ao show dele, e quando ele desceu do palco e passou bem do meu lado eu fiquei embasbacada.

Não havia momento mais oportuno pro Otto vir a Aracaju. É que estou num momento Otto. E minha admiração tamanha por ele se deve à identificação que sinto em relação às suas músicas. A letra de Otto é crua, como o nome de uma de suas canções. E ele apresenta a sensibilidade de um homem que não mede palavras, assim como não mede emoções, beirando à breguice mesmo. Sua musicalidade e também a sua voz carregam essa crueza de quem tomou muita cachaça e fumou muitos cigarros, além de ter sofrido algumas dores de cotovelo.

Alguns trechos que me marcaram...

Vou esquentar os pães, seus dedos
até de manhã

Na vida tenho muito o que dançar
para aguentar o peso
pra parar de pensar no erro
por que você não quer
ficar tranquila um pouco?
seu rosto é mais bonito rindo

Há sempre um lado que pese e um outro lado que flutua,
a tua pele
é crua
é crua

Tento entender
um pouco mais da alma
alma que me faz dançar nessa festa

Esse giro

Esse amor

Essa cachaça

Esse cheiro de morte
Eu respiro forte

Eu desmaio

Eu amo demais


Aqui é festa, amor

E há tristeza em minha vida


E o desejo, o desejo

Os desejos erros

E o desejo, o desejo
O desejo meigo
Agora na hora dança

Meu mundo dança

Meu mundo dança

E aqui se embalança


Como um bom barco no mar,

eu vou, eu vou

terça-feira, setembro 14, 2010

O desprezo

Ah,
não sei pra quê tanto carinho
e de acordo com os seus desígnios
isso devia me atrair para o seu ninho
mas eu não sinto nada além da repulsa
pelo seu afeto submisso
e até mesmo uma certa culpa
por não te querer
já que você prometeu tanta felicidade pra minha vida
e até parece que gosto de ser uma fodida
mas quem disse que assim eu estou triste?
ou que há mesmo algum jeito de ser feliz?
e é como se você fosse uma dessas mães
que devoram as crias
e eu acabo fugindo de casa de noite
indo pra rua brincar com os moleques da esquina
e eu acabo fugindo dos seus olhos
na morte da minha retina.

Aposta

Peço desculpas. Sei que você vai se chatear com o que vou dizer mas... Mas você sempre soube que me amar era um risco.

Aquela viagem

Estou me afastando, estou indo embora e preciso que me entendas antes que eu vá, crucificado na parte externa do vagão de um trem em alta velocidade. Tento devagar, mais claro: ele não se afasta. Dia após dia, eu noto, torna-se mais simpático, mais eficiente, mais solícito - para utilizar palavras que não sei bem o que significam, mas imagino sempre alguém sorrindo muito, fazendo reverências, curvando constantemente a cabeça, como uma gueixa. Gueixa, ele, a grande puta, com seu silêncio de passinhos miúdos e pés amarrados. Preciso tentar certa ordem no que digo, e dizer de novo, vê se me entendes: ele não se afasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.

Do conto Eu, tu, ele, do livro Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Comunistas comem criancinhas


Quando eu estou esperando a moça da Bicen tirar cópia de livro pra mim é deveras comum aparecer gente querendo xerox de pequenos textos, carteira de identidade, etc, para passar na minha frente. O que me causa uma leve irritação. No entanto, hoje foi o dia em que eu resolvi não ser educada.

O engraçadinho que almejava furar a fila me mostrou uma folha de papel todo cheio de indignação. É, estamos em tempo de eleições.

- Olha só a ficha da nossa candidata a presidente, ó. Vê isso aqui... É essa mulher que vai governar o nosso país.

Enquanto ele proferia essas palavras, eu vasculhava a tal ficha. Alguns assaltos a banco, sequestro, etc, dos tempos de envolvimento na luta armada contra a ditadura militar. A foto era a de uma Dilma guerrilheira comunista.

Logo me irritei com os comentários e resolvi não deixar o mocinho tirar uma simples cópia de uma página. Não porque eu morra de amores pelo PT ou pela Dilma, mas se tem uma coisa que me irrita muito mais do que grito de guerra do Movimento Estudantil é gente falando que comunista come criancinha ou coisa do tipo. Porque do jeito que ele falou, parecia que o mundo era perfeito, não havia ditadura militar, etc. E não vou aqui entrar na discussão sobre os métodos dos militantes da época, dos quais eu inclusive discordo.

Mas, aí eu volto a uma antiga interrogação: quem é a Dilma? Afinal, essa Dilma não tem nada a ver com a foto da vovó segurando o neto nos braços divulgada recentemente pela internet. A mãezona doce do nosso país que se arrumou toda e faz pose de meiga pra não assustar.

Aí quando me dizem que o "apoio popular" (seja lá o que isso signifique) à "esquerda"reflete o fato de a população não ter mais medo do comunismo, eu caio na risada.

Como não gosto de discutir com estranhos, eu deixei pra lá. Mas minha vontade era de dizer, só de pirraça, que eu gostava mais da Dilma quando ela era terrorista.

I go walking in your landscape


Just 'cause you feel it
Doesn't mean it's there
Thom Yorke

Pois é. Acho que a música do Radiohead, There there, é minha trilha sonora do momento. Só porque você sente, não quer dizer que esteja lá. É, Thom Yorke me entende... Afinal, tenho sentido convulsivamente coisas que não existem. Falar em sentir coisas é estranho, porque entramos em contato com coisas, mas sentimos sensações... Mas sentir coisas iria além disso? É inventar coisas ao senti-las? Ou será que estou reificando sensações?

Chego a ter sonhos estranhos... Nessas horas, quando vejo algum teórico falar em simulacro, e aquele papinho de que não há real, pois tudo é texto, eu me vejo aqui com minha FUCKING realidade. Dá vontade de dizer pra esse povo: acorde de um sonho, veja que algo não é o que você estava pensando. Isso é a realidade rasgando o seu mundinho de texto.

Lendo agora tudo o que eu disse, nada parece fazer sentido. E, no entanto, é um desabafo.

We are accidents
waiting, waiting

to happen


PS: é impossível entender o que estou dizendo kkkkkkk.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Post 1001

Acabei de ver que tenho mil posts. Ou seja, esse é post 1001. hehe. Nada de muito importante ne?

Mas o que eu escrevi durante esses cinco anos?

Sei lá. Cinema, amor, poesia, doidice... Vejo que mudei muito também durante esse tempo...

Às vezes tenho medo do meu blog. Acho que me exponho demais, que as pessoas podem descobrir quem eu sou sem nem conversar comigo. Será?

Às vezes acho que era melhor ser como antes, quando eu usava um nome de guerra e quase ninguém sabia que eu tinha um blog... Em outros momentos acho melhor do jeito que está, não me iludo de que ninguém está me vendo e tomo mais cuidado com o que digo. Ou não.

Hoje pensei que queria ter feito Física. Eu gostava de Física quando era da High School, cheguei a pensar em cursar... Era melhor resolver problemas ou... ou jogar xadrez!! Eu acho que as coisas que eu gosto mexeram com meus miolos. Ou foi por ser assim que gosto do que gosto? Enfim...

Acho que sou sensível demais e palhaça demais. Pago muito mico por isso. Enfim...

Queria sentir menos!!!! E rir menos!!! Chorar menos... E ser mais blasé...

Porém...

Sou uma típica mulher dos trópicos. Fudeu.

A la casita sola

Juran que esa paloma
No és otra cosa mas que su alma

música linda...

Love, love, love

Todo amor começa com uma saudade.

Ex-amigas



Poderia dar um título mais eufemístico ao post, mas não é o caso. De fato, depois de um certo tempo não há mais como disfarçar: aquela que foi minha melhor amiga na adolescência agora não passa de uma ex-amiga. E não, ela não traiu minha confiança. Já me magoou algumas vezes, acredito que a magoei também, mas não o suficiente para acabar com uma amizade. Primeiro: uma pessoa contribuiu para nossa separação. Havia dito que iria afastar nós duas e conseguiu. Mas não é só isso.

Somos como essas duas cadeiras. São duas pinturas de Vincent Van Gogh. As duas datam de 1888 e A cadeira de Van Gogh com Cachimbo é uma pintura na qual Van Gogh representa a si mesmo através da simplicidade do assento, enquanto A cadeira de Gauguin é uma cadeira mais luxuosa, com uma vela e sobre um tapete, que remete à pompa de seu amigo, o pintor francês Paul Gauguin. Certa vez, Van Gogh, que amava muito seu amigo Gauguin, o surpreendeu à noite empunhando uma navalha contra ele. Assustado, Gauguin foi pernoitar. Arrependido, Van Gogh decide cortar a própria orelha e a entrega a uma amiga prostituta, Rachel.

Está certo que minha amizade com a tal garota não era tão visceral, no entanto, certamente a diferença entre nós é que eu sou como a A cadeira de Van Gogh com o Cachimbo e ela é como A cadeira de Gauguin.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Sonho

Hoje me aconteceu uma das coisas mais esquisitas dos últimos tempos. Acabei de acordar. Enquanto estava sonhando, percebi que se tratava de um sonho, mas aí eu continuei sonhando e, durante o sonho, esqueci que não era real. Diversas vezes já me dei conta de que estava num sonho, mas quando isso ocorre eu acordo logo em seguida. Não foi o caso. Ao despertar, estava embasbacada não só com o conteúdo do que havia sonhado - o que me proporcionou uma espécie de revelação indesejada - como também com a minha persistência em acreditar no instante.

sábado, setembro 04, 2010

O homem urso (Grizzly Man, 2005), Werner Herzog



Eu sou uma presa fácil
Timothy Treadwell

Os documentários que abordam a vida animal exibidos em canais como Animal Planet ou Discovery Channel apresentam um objetivo muito claro: representar o universo dos animais a partir de um cirúrgico olhar científico que se posiciona de modo distante do seu objeto de estudo e com pretensões de um conhecimento total. Mas neste documentário de Werner Herzog o cineasta nos apresenta um homem completamente envolvido com os ursos que se dedica a filmar, e O homem urso termina sendo um filme sobre um documentarista.

Na pesquisa antropológica, há um termo que designa um limite na conduta adequada durante a realização de uma etnografia: going native. Após um certo período de inserção num determinado ambiente que se pretende estudar, o antropólogo deve se afastar a tempo de não passar a ser um deles. E é justamente isso o que aconteceu com Timmy, o ecologista a quem o filme é dedicado. Ele se tornou um urso. Ou, na verdade, queria se transformar em urso e terminou sendo devorado por um.

E é aí onde eu entro como espectadora apaixonada por este filme. Acho que Timmy é um dos personagens que mais me encantou em toda a minha história do cinema. Eu me identifiquei completamente. Um homem que se apaixonou pelos ursos e que queria viver no seu habitat. Mas o lugar dos ursos não era o lugar dele. Um amor tão grande por algo, que em certo momento esse algo te devora. Há uma frase dele que adorei: eu sou uma presa fácil. E ele tinha uma ilusão de harmonia num mundo em que, natural ou não, impera o caos e a hostilidade, como afirma Herzog no filme.

Herzog, inclusive, está sempre metendo o bedelho nas imagens filmadas por Timmy. Ele está ali o tempo inteiro dizendo que pensa diferente. Como quando, diante da imagem do cadáver de uma fêmea de urso estraçalhada por não servir mais à procriação, argumenta sobre uma espécie de agressividade, predação, desequilíbrio inerente ao mundo, a qual Timmy era incapaz de perceber. Para Timmy, essa desarmonia existia somente na civilização e na interferência destruidora que ela exercia sobre a Natureza, ou o seu paraíso.

Outro momento, belíssimo por sinal, em que Herzog intervém nas imagens captadas por Timmy é quando ele afirma em voz over que havia sublimes instantes de ausência de ação, da não-presença do personagem Timmy que repetia obsessivamente as suas aparições no video como um ator, em que a realidade parecia querer se sobressair na imagem. Nesse momento, Timmy havia saído de quadro, e o que nos resta são as plantas se movendo de acordo com o vento, o invisível manifestado na imagem. Aquela duração de que fala Deleuze em A imagem-tempo: uma duração própria da poesia da realidade contida em imagens óticas e sonoras puras, opsignos e sonsignos, um cinema de vidente e não mais de ação. Mais além: temos um ponto de vista a partir do qual a representação é produzida, mas ninguém filma, a câmera havia sido abandonada sobre as pedras por Timmy.

Mas se o real parece sempre resguardar seu lírico mistério cristalizado na imagem, há também a dimensão do irrepresentável. Os homens que mataram o urso que devorou Timmy encontraram dentro dele não só pedaços do corpo dele e de sua companheira Amie, como também a câmera, conseguindo preservar o áudio do instante da morte dos dois. Vemos um homem narrar o que ele imagina que aconteceu após ouvir o áudio daquele trágico momento. E, se Jacques Aumont afirma que é difícil imaginar no cinema um som fora de campo, Herzog torna isso possível quando vemos o próprio cineasta com os fones no ouvido escutando atentamente os sons da morte de Timmy e Amie. E o diretor não o mostra: ele reconhece que existe uma dimensão do irrepresentável.

Resta-nos só o mistério da realidade. O imprevisível, o inefável e até mesmo um misticismo religioso existente no filme de Herzog que revela a sacralidade no que há de mais visceral. E Herzog nos mostra duas amigas de Timmy jogando suas cinzas no parque ecológico onde ele foi morto, no meio de uma paisagem etérea, como se elas lançassem não suas cinzas, mas seu espírito.

sexta-feira, setembro 03, 2010

...

Eu deveria ser mais altruísta. Eu deveria pensar mais nos outros. Eu deveria. Muito.
Não é crise de consciência altruísta. Não mesmo. Minha crise é de quem precisa tomar vergonha na cara.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Because


Tive um estranho pensamento hoje... O desejo de que no meu enterro toquem Because, dos Beatles...

Because the world is round it turns me on
Because the world is round...

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high...

Love is old, love is new
Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue...

Nicotina

Fumando uma carteira por dia,
o dia tem vinte horas de fumar
E todas as comidas
tem gosto de cigarro

E você, assim como a nicotina,
nessa vida de vícios,
todas as coisas acabaram contaminadas pelo seu sabor corrosivo

E minhas roupas cheiram a cigarro,
minhas mãos,
meu travesseiro,
meus discos

E não há chiclete
nem adesivo
Que eu masque na minha boca
Que eu cole na minha pele

Não há jeito pra isso
Não há remédio para quem ama cigarros

Há apenas essas baforadas antes do dia
Café, cinzas
Encostada no peito da janela da varanda
Sozinha...
Sozinha.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Para os que se acham espertos

For well you know that it's a fool,
who plays it cool,
by making his world a little colder.

De Hey Jude, dos Bealtes.

Somente só

Enjoei, cansei, estou sem vontade, quero estar sozinha.

sábado, agosto 28, 2010

John, Johnny


Eu não sabia que Inimigos públicos (2009), do Michael Mann, filme que vi nesta madrugada de sábado para domingo, era baseado na história de um bandido de verdade, o John Dillinger, neste filme interpretado por Johnny Depp. Enquanto assistia ao filme, por diversas vezes pensava "nossa, como essa história é falsa, nunca que isso ia acontecer", e aí, como eu adoro mentiras e filme de gângsters, logo me senti atraída pela obra.

Mas então lendo críticas da Contracampo e da Cinética, eu descubro que o tal de John Dillinger existiu e assaltava bancos no período pós-Grande Depressão, não importa quantas mentiras o diretor tenha contado mesmo assim. E achei genial uma das últimas cenas, em que John Dillinger está no cinema assistindo a um filme chamado Vencido pela lei, e ele se identifica com a história e o perfil do personagem interpretado por Clark Gable. Aliás, o Michael Mann constrói o John Dillinger como um homem que gosta da fama, dos holofotes, do espetáculo (do qual o cinema também faz parte): vide a cena em que ele dá entrevista após ser preso e se mostra todo cheio de si diante da imprensa.

Enquanto ainda teimava que o filme era muito mentiroso, eu me fascinei pelo personagem do Johnny Depp. Primeiro que ele se apaixona por uma mulher chamada Billie, e diversas vezes a trilha toca músicas da Billie Holiday (aí eu já vou ficando facinho). Segundo que, quando ela diz que é descendente de índios e trabalha pendurando casacos de ricos, afirmando em seguida que os homens não gostam disso, John Dellinger, se fosse um homem comum, desconversaria. Mas ele reconhece nela o que o encanta: a marginalidade, que ele viveu desde quando ficou preso durante 10 anos por roubar 50 dólares.

Vale ressaltar: a cena em que ele está na sala de investigação do "caso Dellinger", e pergunta "quanto está o jogo?" aos investigadores que assistiam à televisão, ao que eles dizem o placar e voltam a ver o jogo, incapazes de reconhecê-lo debaixo do nariz, e Dellinger solta um riso cínico e sai de fininho, é simplesmente impagável.

Duas ou três coisas que eu sei dela (1967), Jean-Luc Godard


Em A invenção do cotidiano, Michel de Certeau compara a cidade à poesia. Sim, pois as figuras de linguagem, que tramam um rumo incerto na produção de significados, são comparáveis às figuras ambulatórias, ou aos habitantes da cidade que, ao percorrerem os lugares, promovem práticas de espaço que dão um sentido metafórico à urbe pensada a partir do sentido literal desenvolvido pelo planejamento urbano. Michel de Certeau pensa a cidade a partir da linguagem. E é este o processo desenvolvido por Godard em Duas ou três coisas que eu sei dela.

"Ela", que está no título do filme, como muitos sabem, não é Juliette Jeanson, a mulher que se divide entre os papéis de prostituta e dona-de-casa. "Ela" é Paris, bem como a cidade de pedra que se ergue, e seus habitantes que passam pelas ruas, e as problemáticas sociais no contexto do capitalismo, e até mesmo os sinais que nos remetem a Paris inserida no mundo, com claras referências à Guerra do Vietnã. Mas Juliette está lá para revelar algumas elocubrações de Godard, como quando está deitada na cama e fita a câmera dizendo sensivelmente que "a linguagem é o lugar que nós habitamos".

Em dado momento, a voz do narrador afirma entre sussurros que estuda a cidade como se fosse um biólogo diante da natureza, e a cidade é o seu objeto. Sabemos que se trata de uma ironia do Godard, que no seu fino trato com a ficção que dialoga com o documentário na construção de um argumentação a respeito do mundo histórico, de modo algum apresentaria um olhar reificante perante o mundo. Godard, um admirador do existencialismo, nega a dimensão do olhar cartesiano que coisifica o mundo a partir de uma relação intrínsica entre conhecimento e poder.

Godard nega não só Descartes, como também um crítico de Descartes, Wittgenstein. Na cena em que um primeiro plano submerge numa xícara de café, Godard cita a famosa frase do Tractactus Logico-Philosophicus, de Wittgenstein: "Os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem". Ao que em seguida vemos Juliette andando por Paris e dizendo: "mas o mundo sou eu".

Uma das cenas finais do filme apresenta Juliette no centro de uma paisagem de altos edifícios. Ela diz: "uma paisagem é um rosto". Ou seja: uma paisagem urbana está circunscrita pelos afetos de seus habitantes. E a câmera realiza uma panorâmica de 360° perscrutando os edifícios da cidade enquanto Juliette afirma: "logo percebi que eu sou o mundo, e que o mundo sou eu".

Assim, o lugar de Godard é junto à fenomenologia de Merleau-Ponty expressa em O olho e o espírito: a sutil revelação de que "penso, logo, existo" é um inferência que coloca o mundo como objeto e aquele que o concluiu como sujeito, até nos darmos conta de que nosso corpo está no mundo e que não somos apenas aqueles que vêem, mas também a materialidade dos que são vistos.

Ansiosa


Estou sentindo gostinho de terra nova...

sexta-feira, agosto 27, 2010

Cartilha da cura


Quando finalmente decido ler um livro da poetisa marginal Ana Cristina César, eis os primeiros versos que me surgem, como uma espécie de revelação, na sua obra A teus pés:

Cartilha da cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que

desistem de afundar navios.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Lembrar que esqueci

Não adianta
Há coisas que
mesmo que a gente tente
infinitamente vezes matá-las
elas só morrem sozinhas.

quarta-feira, agosto 25, 2010

A noite estrelada


Eu nunca fui muito fã de artes plásticas. Continuo sendo bastante leiga no assunto, mas tenho me apaixonado pelos quadros de Vincent Van Gogh. Um quadro em especial ocupa a minha memória: A noite estrelada, que ele pintou quando estava internado no hospício numa pequena cidade francesa. O céu curvilíneo, a lua tão dourada quanto um sol e refletindo sobre a superfície de um mar no universo, a cidade cedendo à noite que tem uma atmosfera de poesia em lugar de afazeres, o silêncio dos homens que deixam as casas tão sozinhas nas ruas, mesmo que habitadas por eles... Há mais céu do que casas, do que ruas... Há o sonho pintanto a noite acordado...

Berlim, sinfonia de uma metrópole (1927), Walter Ruttmann


Walter Benjamin definia a experiência da modernidade através do conceito de choque. Em Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo, Benjamin descreve o choque como a sobrecarga sensorial dos habitantes das metrópoles em face da atmosfera de excessos de estímulos. E é o cinema a arte que imita esse modo de percepção efêmero e fragmentário característico da modernidade.

O palco da modernidade é a cidade, e é por isso que o documentário poético Berlim: sinfonia de uma metrópole termina sendo também um filme sobre a modernidade, e que ainda traz para a sua estética essa experiência de bombardeio de sensações. As ruas desertas do final da madrugada em Berlim logo são invadidas pela multidão que se atropela entretida numa intensa vida ocupacional. Concomitantemente, a montagem adquire um outro ritmo, mais rápido, a música assume tons estridentes, e o espaço se fragmenta por meio da montagem picotada.

E Berlim: sinfonia de uma metrópole é um filme sobre a modernidade especialmente por destacar determinados signos referentes a elementos-chave desse momento histórico: a explosão demográfica (aglomeração humana nas ruas de Berlim), os meios de comunicação (telefone), os meios de comunicação de massa (imprensa), os meios de transporte (carros, trens, bonde), o industrialismo (as fábricas) e a cultura do consumo (as vitrines das lojas).

Mas se o filme parece em certos momentos apresentar uma visão apaixonada das paisagens das cidades e mesmo das máquinas, em certo momento o documentário cede à encenação para mostrar um suicídio. Uma mulher sobe numa ponte, vemos o seu rosto desesperado em primeiro plano, temos uma subjetiva do rio e uma elipse conduz a uma subjetiva a partir de um carro descendo a montanha russa, e com essas imagens justapostas a montagem produz uma metáfora sobre o estado de espírito daquela mulher, para vermos em seguida as águas plácidas do rio e as pessoas que se aglomeram na ponte, testemunhas do suicídio. Ao que eu me pergunto: tal mulher seria a expressão do estado de espírito daqueles que vivem nas metrópoles?

segunda-feira, agosto 23, 2010

Mulheres e dores

Aprendi, desde pequenina,
que a mulher foi criada para sentir dor
e que a vida é feita de dor, e a dor é vida

A dor do bebê que sai gritando por entre as pernas da mãe ofegante
A dor do hímen sendo rompido pelo amante
A dor da velha com filhos criados
que não serve mais como antes

Quando dei por mim
havia sangue na minha roupa íntima
e eu me orgulhava de ter deixado de ser menina
Agora era uma mulher feita

de hemorragias.

Que seja doce

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.

Do conto Os dragões não conhecem o paraíso, de livro homônimo do Caio Fernando Abreu.

Humildade intelectual

Não tem coisa mais engraçada do que uma pessoa arrogante dando lição de humildade.

É pra rir é?

Que sejam humildes ao menos para assumir que são arrogantes! Mas nem isso, nem isso!!!

São tão perfeitos, tão maravilhosos, tão INcriticáveis, que se revestem da mais pura hipocrisia para ensinar aos outros o verdadeiro valor das coisas simples.

Ora, me poupem vocês aí sentados nos seus tronos!!!

Vão com sua hipocrisia para o quinto dos infernos!!!!

Só o heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa, pra me entender numa hora dessa...

domingo, agosto 22, 2010

Domingo com comédia romântica


Estava almoçando assistindo a The Big Bang Theory, um dos meus seriados favoritos, quando vi que ia passar uma comédia romântica na Warner Channel. Pensei: é de um filme besta assim que preciso nesta tarde de domingo!

Apesar de bobinho na maioria dos aspectos, Uma coisa nova (2006), de Sanaa Hamri, traz algumas coisas surpreendentes para um filme de comédia romântica. Está certo que apresenta uma estética bem quadrada, e aquele velho final de roteiro com dead-line, e diversos atores que deixam muito a desejar, além de personagens previsíveis, poréeem, trata-se de um filme que debate os problemas de um relacionamento inter-racial sem cair no lugar comum que seria típico de um filme como esse.

Afinal, Kenya é uma mulher negra e rica bastante dedicada ao trabalho, com ares de sou-independente-e-tenho-dinheiro, enquanto Brian é galego, cuida de jardins, adora seu cachorro e é muito simples. Quando eles marcam um encontro às cegas, ela o abandona em cinco minutos pelo simples fato de ele ser branco. Até que eles se encontram por acaso numa festa e ela, após elogiar o jardim que ele tinha feito para um ricaça, o contrata para reformar o jardim da sua casa.

Enfim, eles demoram a finalmente irem para cama, e uma coisa que eu achei muito inusitada foi ele pedir a ela para ver o seu cabelo como ele realmente era. Kenya, apesar de aparentemente se orgulhar de ser negra, escondia seus cabelos embaixo de apliques de cabelos lisos. Ela se enfurece com o comentário e pede para ele ir embora, só que depois muda de ideia e deixa os seus cabelos naturais à mostra.

No geral, eu gostei do filme. E devo confessar que gosto de várias comédias românticas, a exemplo de O casamento do meu melhor amigo (que não acho um filme mediano, mas bom de verdade), Amor por acidente, Excesso de bagagem, O diário de Bridget Jones... Tenho a impressão de que, apesar de as comédias românticas caírem muito no lugar comum, geralmente são um pouquinho mais inteligentes do que os filmes românticos.

Sinta o pulso de todos os tempos...

Mas desculpe, mas eu vou me fechar
Não sou perfeito, nem mesmo você é

Me abrace
Diga o meu nome
Diga que você me quer

Sinto o pulso de todos os tempos
Comigo
Até quando eu não sei

Sinta o barato de ser ser humano
Comigo...

Até quando deus quiser...

Esse trecho da música do Arnaldo não me sai da cabeça neste domingo...

sexta-feira, agosto 20, 2010

Quando ela me deixou

Sempre me falaram em "dor na alma"
ao lamentar uma separação

Mas, quando Jéssica me deixou,
sofria-me o corpo,
doíam-me os ossos
como se acaso eles se contraíssem

Os ossos do corpo inteiro!
E uma agonia no estômago,
não no coração.

Descoberta

Quando eu me descobri apaixonada por Eduardo, o sol se pôs como em qualquer outro dia. Acordei cedo, fui ao trabalho, almocei no restaurante da tia próximo ao Ministério da Fazenda, cochilei em cima da mesa, tomei três xícaras de café para despertar, fui a uma coletiva de imprensa com o governador, comi 8 biscoitos cream crackers, fumei três cigarros às três da tarde, entrevistei quatro pessoas, sendo duas por telefone, bati o ponto e voltei para terminar de escrever porque não me pagam hora extra, me acordei no sinal com as buzinas do carro, fui chamada de filha da puta, joguei as chaves na mesa após abrir a porta de casa, caí na cama, enfiei o rosto no travesseiro, e com a cabeça no travesseiro pensei: sim, eu amo Eduardo!

quinta-feira, agosto 19, 2010

Meu amor!


Eu com cara de "como amo meu irmão lindinho!", e ele com pose de "eu não sou fofo, não".

xD

Sobre arte, amor e preguiça

Geralmente nós falamos a respeito dos sentimentos mais fortes que a arte ou amor nos despertam. Ah, eu adorei esse filme, marcou a minha vida, não sei o que mais... Ou... Eu amei tanto fulano... Ou... Estou completamente apaixonada por cicrano! Mas, e o tédio?

Quantas e quantas vezes eu não estou a fim de ver filme nenhum. Corro o risco de dormir caso tente. E se eu forçar a barra mesmo, posso acabar não prestando atenção no que estou vendo, não entendendo o filme direito, e parar tudo antes da hora.

Enquanto em outros momentos, estou totalmente propícia a me emocionar com determinado filme, então ele fica eternizado na minha memória, e vez ou outra posso sentir saudade e me lembrar dele com carinho, ou até mesmo revê-lo.

Posso fazer com uma pessoa o que faço com um filme quando estou entendiada? Não prestar atenção a uma pessoa e não compreendê-la, não percebê-la, não senti-la? E, assim, não ir até o final?

É o amor também assim? Ele depende da minha disposição ou preguiça?

terça-feira, agosto 17, 2010

Mao, Mao!


O Vietnã queima e eu grito
Mao, Mao!

Johnson ri e eu vôo

Mao, Mao!

Napalm cai e eu fujo

Mao, Mao!

Cidades gritam e eu grito

Mao, Mao!

Putas choram e eu suspiro

Mao, Mao!

O arroz está louco e eu jogo

Mao, Mao!


É o pequeno livro vermelho...

que faz tudo se mover...


O imperialismo dita a lei em todas as partes

A revolução não é um banquete

A bomba atômica é um tigre de papel

As massas são os verdadeiros heróis


Os ianques matam e eu leio

Mao, Mao!

Os loucos são reais e eu vejo

Mao, Mao!

As bombas caem e eu canto

Mao, Mao!

Garotas correm e eu canto

Mao, Mao!

Os russos comem e eu danço

Mao, Mao!

Eu denuncio e renuncio

Mao, Mao!


É o livrinho vermelho...

que faz tudo mover...


Música inesquecível que toca em La Chinoise (1967), de Jean-Luc Godard

segunda-feira, agosto 16, 2010

While my guitar gently weeps


*Este post é a expressão de uma revolta*

Eu ia pra Salvador no último fim de semana. Pegaria uma carona na topic em que meu irmão e seus amigos crentes viajariam para apresentar uma peça numa igreja Batista soteropolitana. Por que não fui? Simples: ele estabeleceu a condição de eu permanecer com eles durante toda a viagem. E é óbvio que minha intenção não era fazer uma viagem evangélica NOT AT ALL. Daí resolvi ficar por aqui mesmo.

Só que o que me REVOLTA, me CONSOME PROFUNDAMENTE é saber que meu irmão foi a um shopping (lugar para o qual eu jamás iria numa viagem) e lá encontrou, por acaso ou pelo destino gozador, uma exposição dos BEATLES. Música dos besouros rolando e a guitarra lá do George Harrison... E meu irmão disse que nem prestou atenção direito, afinal, nem gosta dos Beatles, só uma musiquinha ou outra...

É MOLE???????

Mundo ingrato do caralho...

Agora a música do George Harrison, While my guitar gently weeps, que integra um dos maiores albuns de todos os tempos, o White Album, lançado em 1968 (tiete), fica tocando insistentemente na minha cabeça, pois meu cérebro gosta de caçoar de mim... Sim, sou tiete mesmo, e?? Será que Deus tá me castigando porque eu não quis ir pra igreja?

I look at you all see the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
...

Mas que é uma covarde!


Hoje, não sei porque demônios, me veio repetidamente a lembrança de uma cena de Acossado (1959), do Godard, em que Michel e Patricia estão no carro percorrendo uma estrada. Ele diz as seguintes palavras pra ela:

Amo uma garota com o pescoço lindo, com seios lindos, com uma voz linda, com pulsos lindos, com uma testa linda, e joelhos lindos... mas que é uma covarde!

Já arrumei várias explicações para a evocação insistente dessa cena... De qualquer modo, vale a pena ver de novo Acossado, pois faz muito tempo que assisti e não lembro de muita coisa...

Wittgenstein's Tractactus (1992), Péter Forgács


Um belo dia, de repente, eu encontro entre meus arquivos de filmes no computador duas obras de Péter Forgács. E simplesmente não lembrava quem diabos era o homem! Aí pensei que teria baixado dois filmes dele por causa de um em particular, que estava entre os arquivos: Wittgenstein's Tractactus (1992).

Na verdade até o momento não sei porque baixei esses filmes e como eu cheguei até o nome desse cineasta húngaro. Suponho que tenha visto em algum livro sobre documentário, porque o outro filme dele que tenho aqui, Private Hungary, é um documentário, mas enfim... Nesta madrugada resolvi assistir ao bendito Wittgenstein's Tractactus.

O filme apresenta diversas imagens de arquivos pessoais e se encontra dividido em sete partes, como são sete as proposições do Tractactus de Ludwig Wittgenstein. A obra apresenta diversas citações do Tractactus Logico-Philosophicus citadas por uma voz over e também escritas sobre algumas imagens.

Wittgenstein's Tractactus me parece uma espécie de pretensioso filme-teoria. Peguemos a citação daquela parte em que Wittgenstein fala que "o que a pintura representa não é o cachimbo, e sim o sentido", numa clara referência à pintura do surrealista Magritte que apresenta um cachimbo com o dizer "isto não é um cachimbo". Trazemos à tona aí um dilema a respeito da representação. A imagem não é a realidade.

Ora, levando isso para o âmbito da discussão sobre o documentário, sabemos que a narração em voz over levantou diversas discussões na teoria do cinema acerca do poder que ela exerce sobre as imagens, apresentando afirmações que almejam uma compreensão da verdade sobre o mundo. Tal voz foi caracterizada por Mary Ann Doane como "voz de Deus" - ela é todo poderosa, onisciente sobre a realidade, e as imagens são a sua prova.

A voz over, a voz de Deus do filme experimental de Forgács estaria utilizando Wittegsntein para contestar o próprio estatuto da voz over no cinema documentário? Ela revela uma impotência diante das imagens dos arquivos daquelas pessoas comuns que aparecem na tela?

Por exemplo. No início do filme, vemos a voz over citar os seguintes dizeres de Wittgenstein: Nenhum choro de tormento pode ser mais forte do que o choro de um único homem. No entanto, o que a imagem nos mostra é um porco sendo chutado por pés que não identificamos de quem seja. E, mesmo não sendo o porco, até mesmo ele não sendo humano, podemos identificar nele o sofrimento. A imagem nega a voz over. E é por isso mesmo que o próprio Wittegsntein em Investigações Filosóficas nega diversos aspectos do Tractactus, e na sua formulação sobre os jogos de linguagem inclusive conclui que a dor não tem dono, e que podemos perceber os sinais da dor também porque sentimos dor, sendo assim o significado algo compartilhado.

Para mim, um momento feliz do filme foi quando cita as partes em que Wittgenstein diz que "morrer é não é um evento da vida, a morte é não viver" e também "que o sol nascerá amanhã não é uma certeza, o mundo independe de minha vontade". Nesse instante, aparecem imagens de um quarto de um casal de velhos que estão indo dormir. Segundo Wittgenstein, o nascer amanhã é uma necessidade lógica, mas não natural. Para o filósofo de Viena, os ditames da natureza pertencem ao âmbito do Místico, ou seja, do inefável, daquilo que não podemos falar. Achei interessante o filme apresentar as imagens de um casal de velhos indo dormir entre as tais frases de Wittgenstein sobre a morte e a incerteza de um outro nascer do sol.

O final do filme, com a última proposição do Tractactus, o silêncio, é também bastante misterioso. O último plano apresenta um homem sentado a uma mesa sozinho, fumando e olhando para a câmera enquanto a voz over recita o Tractactus: "sobre o que não se pode falar, deve-se calar". No Tractactus de Wittgenstein, esse é o momento em que ele destrona os grandes problemas da filosofia, pois, segundo ele, a história da filosofia é repleta de falsos problemas muitas vezes formulados pela falta de clareza conceitual, problemas esses que deveriam ser silenciados.

E, para ele, não é função da filosofia elaborar proposições, dizer algo sobre a realidade, mas tão somente buscar uma disciplina intelectual, analisando o modo como utilizamos a linguagem. No entanto, considerando que o Tractactus é um conjunto de proposições, ele afirma ainda que "tudo que eu disse não faz sentido". Não faz sentido, mas mostra. Assim como a poesia não faz sentido, a dialética também, todavia mostram.

O filme de Forgács é também uma atividade de mostrar. Até mesmo de negar a si mesmo. Assim como o Tractactus. E, será que assim como Wittgenstein no Tractactus Logico-Philosophicus acredita que a atividade da filosofia é analisar a linguagem, Peter Forgács quer nos dizer que o documentário deveria refletir sobre a linguagem, as estratégias de representação, como faz o documentário reflexivo?

domingo, agosto 15, 2010

Mundo incerto

Eu tinha um plano muito bem traçado para a minha vida. Em linhas tortas, eu sei, como deus mesmo faz, mas tinha. Eu sabia exatamente onde não queria estar. Continuo sabendo. Só que agora não faço a mínima ideia a respeito de onde porra estarei amanhã. É que apareceram "oportunidades" em outros lugares, e eu não sei se estarei lá, onde imaginei, ou lá ou aculá ou aqui mesmo! E isso me angustia, me consome de uma maneira... Eu sei que tenho um monte de coisas para viver nestes últimos meses, que minha vida vai a mil no fim do ano, e isso também me deixa confusa, ansiosa... Junto a isso imagino a saudade que sentirei de tanta coisa...

Meu deus, onde estarei amanhã?

Ei, você...

Você me vê? Algum dia você me viu?

Unhas vermelhas

Eu não posso acreditar quando te vejo assim, Carlos. Você não tinha esses olhos saltando das órbitas magras, esses ossos de pele seca, essa boca caverna de moscas, essas mãos que não tocam, apenas se estendem doentes. E é por isso que eu choro toda vez que vou retirar os lençóis cheios de merda e urina enquanto você mal se mexe. É o ritual de todos os dias. Mover o seu corpo lentamente, puxar os lençóis, enrolá-los com a merda dentro, jogá-los no lixo no quintal. Não sei se você preferia estar morto a viver assim os seus penosos últimos dias.

Você não era assim. Onde está aquele homem que virava copos de cachaça igual fossem água, que ia a festas no interior se esfregar em mulheres tão fáceis quanto você, que falava mais alto que todos nas discussões sobre política, religião e futebol? E que por mais que dissessem que política e religião a gente não discute, sempre teimava a colocar tais assuntos em pauta... Onde está aquele homem robusto e bastante bonito, que chamava a atenção das empregadas domésticas, das advogadas, das amigas da esposa, da cunhada?

Agora você, meu irmão, se contorce com vergonha de estar nu para eu lhe dar banho. Menos pelo seu corpo nu, menos por eu ter de tocar no seu pênis, mais por não poder sequer lavar o próprio corpo, mais por cada gota d'água doer como a vida que chora a morte aos poucos pelo ralo. A prova de vida, sentir tanta dor. A prova de morte, sentir tanta dor...

E aqueles seus amigos que dividiram com você tantos engradados de cerveja, agora se recusavam a entrar no quarto quando viam como você estava. Que raiva que eu sinto, irmão! Quanto ódio! Poderia comprar uma arma para, a cada vez que alguém fizesse isso, atirar após fechar o portão da casa, e ver o infeliz ou a infeliz cair no chão de costas, afogando em sangue no meio da rua. Meu ódio me consome!

Quantas e quantas noites de vigília... E meu pequeno filho às vezes me acorda no meio da tarde, eu dormindo após uma noite em claro, ele puxa o meu braço com sua pequenina mão e aponta para o soro que eu devo trocar. Meu filho te ama tanto, irmão. Mais que todos os seus filhos! Esses passam tão pouco tempo ao seu lado quando vêm aqui... Não sei como ele irá reagir quando já não houver essas gotas de soro contando o tempo...

Já minha filha, ela não compreende. Não sei o que se passa na cabeça dela. Você morrendo aos poucos, e ela desrespeita meu luto de todos os dias ouvindo música, dançando no quintal, já disse que nessa casa ninguém pode ouvir música ou contar piadas, ou dar risadas... Ás vezes eu me sinto culpada por não sentir com você toda e cada dor que você sente! Por ter saúde, meu irmão, eu sinto culpa por ter saúde! Até que certo dia eu não aguentava mais as malditas músicas e danças da minha filha, e lhe gritei a verdade escondida: Tenha mais respeito! O seu tio está com câncer! CÂNCER, entendeu?

Ela, que sempre me perguntou o que você tinha, que insistia em dizer que você tinha câncer, e eu continuava dizendo que não... Quando eu gritei que você tinha câncer sim, ela derrubou o prato que lavava na pia e desembestou-se a chorar passando as mãos sujas de detergente na cara e com a torneira aberta escorrendo a água sobre o monte de pratos empilhados...

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Eu não acredito que tenho de aguentar este velório! Você não foi feito para que chorassem a sua morte. Queria que você virasse cinzas para jogar no mar... Não queria ver o seu corpo que eu tantas vezes dei banho agora assim vestindo um terno, arrumado para que te olhassem morto! Isso é tudo uma grande farsa! E quantos que se recusaram a entrar no seu quarto quando você estava doente agora choram junto ao seu caixão! Tantos me perguntam detalhes sobre sua doença e sua morte... Com que direito? Eu repito, com que direito? Eu só queria uma ilha, as suas cinzas lançadas no mar...

E quando me perguntam sobre o momento de sua morte, eu me lembro com tanta culpa! Meu irmão, no instante em que você deu o seu último suspiro eu estava pintando as unhas dos pés! Lembro de minha filha gritando no exato momento em que eu pintava de vermelho o dedo polegar do pé esquerdo! De vermelho, cor de puta! Cor de rapariga que sai para paquerar de noite... Eu entretida com minhas unhas vermelhas e você... Sabe-se lá o que você viveu na morte...

E agora penso sobre o enterro que eu queria para você, as cinzas lançadas no mar, enquanto fito as cinzas do meu cigarro juntando-se no cinzeiro... O cigarro que você pedia para dar um traguinho, mesmo padecendo na cama de câncer de pulmão...

sexta-feira, agosto 13, 2010

Já dizia Dom Quixote...


Nesta madrugada de insônia (e qual madrugada não é?), assisti a Irmãs Munekata (1950), de Yasujiro Ozu. Não pude deixar de reparar numa personagem em especial, Mariko Munekata. Ao contrário de sua irmã Setsuko Munekata, que segue os bons modos de esposa exemplar e vive em função de agradar o marido alcóolatra desempregado (ela ironicamente sustenta a casa com um bar), Mariko é cheia de trejeitos de moleca, vive dando a língua, gosta de fumar, e em certo momento chega a reverenciar Shakespeare citando Hamlet de modo bastante inusitado: 'Beber ou não beber: eis a questão'. No bar da irmã-Amélia, onde Mariko trabalhava inclusive, havia escrito na parade a seguinte frase, em inglês mesmo: I drink upon occasion, sometimes upon no occasion. Dom Quixote. Eu ri... ri muito...

Daí que eu lembrei da brilhante ideia de Jadson de abrirmos um bar eu, ele e Nina. (Foi Jadson mesmo ou foi Nina quem pensou nisso?). Ao que um dos dois respondeu: Já viu abelha negociar com mel?

PS: Preciso ler Dom Quixote com urgência. Algo me diz que um personagem que tem visões com moinhos de vento e profere algo como a frase citada anteriormente me provocaria muita simpatia.

Ora porra!


Ora porra!
Então a imprensa brasileira é
que é a imprensa brasileira?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.


*Pedi licença poética ao heterônimo Álvaro de Campos para colocar "imprensa brasileira" em lugar de "imprensa portguesa".

Bicho-grilagem

Estou enjoada da minha cidade. Não é novidade pra ninguém que me conhece. Mas atualmente tenho sentido uma vontade imensa de ir passar bem umas duas semanas com minha avó que mora no sertão.

Sei lá. A vida toda eu fui essa coisa assim meio bicho-grilo. Até passei uma semana numa aldeia hippie certa vez kkkkkkkk. Aí virei menininha urbana, que adora cidade grande, e a badalação e a vida cultural intensa lá lá lá. Mas sinto falta dessa bicho-grilagem. E quero passar uns dias longe do computador, dos programinhas de vida cultural, etc.

Meu desejo era ler todos os papéis que minha avó guarda com carinho. São os escritos do meu avô, muitos poemas, algumas crônicas. Meu avô frequentou durante muito poucos anos a educação formal, não concluiu nem o ensino fundamental. Era um homem que trabalhava na enxada. Mas adorava escrever poemas...

Queria também ouvir as histórias da minha avó, que vive cheia de saudade de um monte de coisa. E andar pelos matos, tomar coca-cola com pipoca numa praça (não me venham com clichês sobre a globalização), e até mesmo ir a um missa no interior.

Quem sabe eu faça isso. Em breve. E do nada, sem avisar a ninguém.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Nelson Freire (2003), João Moreira Salles


No palco, sob a luz
ao redor tudo é escuridão
ele, no meio de tanta gente, vive a solidão
tantos o ouvem
também sozinhos
e dividem a ausência no teatro

O pianista tateia a música
e descobre que a música é feita por mãos
ele toca a sinfonia
música-táctil
imagem-música
imagem-táctil

Todos estão mudos
a música que é tocada também no silêncio
entre uma nota e outra
uma pausa

Ele pouco fala
prefere os gestos
os olhos acolhedores

O homem que descobriu que a vida está escrita nas partituras
e que o tempo é música
e tudo depende do jeito de tocá-la.

Amor alcóolico

Sempre peço mais uma dose de amor pra você
Mas você não me dá
Então digo ao garçom que quero uma cachaça
e ele logo me traz

Nessas horas, me descubro tão apaixonada
É que o amor o álcool dilata
Mas a sua falta de amor me deixa desidratada
E no outro dia o que me resta é só ressaca

Ressaca se cura tomando mais uma - dizem
E é por isso que eu vivo de copo em copo
de amor em amor
e de ressaca em ressaca.

Amor metalinguístico

Você fica aí escrevendo seus poemas metalinguísticos
Por favor, não perca tempo com isso
Meta a língua no devido lugar.

terça-feira, agosto 10, 2010

Amor prozac

Achava que com você eu ia ser feliz
Mas desde então só tenho sentido reações adversas.

Amor placebo

Não importa a sua composição
O que vale é a cura.

Amor doril

Desde que eu tomei você
a minha dor sumiu.

Amor behaviorista

É só você se mover de costas segurando o giz
Para eu ficar de pau duro
No quadro, a professora escreve
Estímulo -> Resposta

Insônia


Mais uma vez não consigo dormir. Após estudar bastante, decidi ler poemas. Resolvi começar pelo meu bom e velho heterônimo Álvaro de Campos para depois partir para João Cabral de Melo Neto. E, novamente, ele me surpreendeu com esta poesia, Insônia. Vale ressaltar uma coisa: eu posso amar vários poetas, mas nenhum outro é tão parecido comigo quanto este heterônimo de Fernando Pessoa. Na verdade, ninguém em toda a literatura que eu tive acesso me provoca tanta identificação. Estava pensando que ele é tão real quanto uma alma assombrada, quando abro o livro com a reunião da obra poética de Álvaro de Campos, e caio justamente nesta poesia.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.

segunda-feira, agosto 09, 2010

A mulher

Se fores homem e procurares em mim a Mãe
Findarás órfão
Se fores homem e procurares em mim a Amélia
Acabarás expulso de casa
Se fores homem e procurares em mim o Ideal
Eu lhe direi:
As amantes românticas morreram de tuberculose!
Mas se acaso fores homem e procurares em mim a Mulher
Eu lhe mostrarei em segredo.

Amor online

João acaba de se conectar
Maria diz: oi!
João (disponível): oi...
Maria diz: tudo bom?
João (ocupado): td
Maria diz: comigo tb, tudo ótimo. vai fazer oq esse fds?
João (ausente)


*A pedido de Eder kkkk

Amor offline

João diz: olha só, que milagre você "disponível"!
Maria parece estar offline. As mensagens serão entregues quando este contato entrar.

Amor ciumento

Se a propriedade é um roubo
eu sou ladrão.

Amor racional

Eu cheguei à conclusão de que te amo.

Amor platônico

Você no mundo das ideias
e eu no mundo sensível.

domingo, agosto 08, 2010

Naquela mesa

Um colega passou essa música hoje pelo twitter.. Lembrei do meu vô, que foi também um pai. Vale ressaltar que estou com cólica e minha sensibilidade está à flor da pele... Sabe, "ando tão a flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar"? Portanto, emocionou-me muito!

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim

Eu sei que vou te amar

A estrada fazia aquele barulho das pedras sendo machucadas pelos pneus do carro. Fazia tempo que eu não ia ao sertão. Aquele sol tostando a terra, aquelas plantas sofridas. Foi então que eu vi: a avó do meu amado, uma senhora de 70 e poucos anos, sacrificando um carneiro para nos oferecer. Ele dava os seus últimos gritos. Ela corria em nossa direção com a roupa e as mãos cheias de sangue, feliz com a nossa chegada e sem se importar com o sangue que manchava a sua roupa, pois era da sua oferenda.

Tomai todos e comei. Este é o meu corpo, que será entregue por vós - disse o padre na missa na igreja do interior, repleta de pessoas tão arrumadas para a grande ocasião da cidade.

O carneiro pendurado no teto da cozinha de cabeça para baixo e eu me sentia mal sempre que ia beber água. Eu, menina da capital, não estava afeita a esses costumes. Não comi carne naqueles dias.

No entanto, não deixei de me embrenhar por aqueles matos para trepar em cima de grandes pedras e por entre os galhos das folhas secas. Montava a cavalo em direção ao Velho Chico, subindo por estranhas elevações, aguentando tropeços do bicho, com a pele arranhada pelos espinhos da vegetação. Nas águas do Rio São Francisco, eu conheci a liberdade. A cada vez que jogava a água pra cima, a cada vez que mergulhava profundamente, a cada beijo que dava no meu amor, ao confundir seus cabelos com os cabelos do rio.

Eu o abraçava com medo de cair do cavalo. Não poderia montar, passava logo meu medo para o bicho. Meu amado não: estava sempre seguro sobre a cela, certo dos caminhos a percorrer. Talvez por isso o bicho podia até escorregar, mas nunca caía.

Com o meu amado, eu pude ver as estrelas do sertão. E o sertão é lugar onde se descobre o tamanho do universo, assim infinito de estrelas. Uma mão boba aqui, outra ali, disfarçadamente na rede da varanda da casa. "Vocês dois, venham jantar. Tem carneiro e cuscuz!".

O galo cantou e eu fui conversar com as galinhas que bebiam a água de barro como se mordessem milho. Ele me deu umas flores modestas de laranjeiras. No bilhete, um escrito: Não sou bom com palavras. Eu te amo.

Ele sempre teve vergonha de sua pouca intimidade com os vocábulos, com a prosa e a poesia.As vezes eu desejava secretamente que ele escrevesse mais, para poder ler seus versos para mim escritos. Mas em todo o seu cuidado ao massagear o meu ventre doído de cólica havia a mais bela poesia. E as nossas viagens eram prosas escritas nas páginas dos albuns de fotografias. As caixas em que ele guardava todos os meus bilhetes afetuosos eram como baús de livros. E descobri que poesia podia ser escrita com gestos.

Eu te amo: era tudo o que ele sabia me falar. E era tanto, mas tanto! Ele não sabe, mas foi o único verdadeiro amor da minha vida. Cantava e tocava ao violão sempre esta música para mim... Pois ele não sabia escrever poesias, mas entendia o que Tom Jobim e Vinicius de Moraes queriam dizer...

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

sábado, agosto 07, 2010

Amor na chuva

Nós dois nos beijamos na chuva
E eu nem fiquei molhada.

Amor virtual

Seu pênis na webcam
E eu atualizando meu blog.

Amor divino

"Mais fácil um camelo passar por dentro de uma agulha
do que um rico entrar no reino dos céus"
Mas e o dízimo?

Amor de cem

Você me ama tanto
e vem com esse amor graúdo
Que eu nunca terei o suficiente
para lhe dar o troco
só tenho miúdo.

Amor de posição

Você acha que está sempre por cima
Meu bem, por cima você pode ficar
Do meu corpo, apenas.

Amor impróprio

Eu poderia dizer que por você sinto amor, mas amor não é nome próprio.

Amor de puta

Amando tanta gente assim
Ao mesmo tempo
Uma hora eu vou ter que cobrar.

Amor em condicional

Depois de tanto tempo presa, agora em condicional, quando finalmente você vai me deixar livre?

Amor inventado

Eu queria tanto amar, que até inventei você.

Amor de pica

Eu amo tanto sexo, que até achei que amava você.