Um dia desses meu irmão estava muito triste. Coisa rara, posto que meu irmão não é pessoa de ficar cabisbaixa nem de reclamar da vida. Mais tarde soube que ele estava de luto pela morte de um amor virtual. Naquela época achei aquilo muito estranho.
Era uma menina muito bonita. Alguém haveria deixado no seu perfil um lembrete de que ela havia morrido de acidente de carro. Meu irmão me mostrou uma série de fotos da menina que ele guardava no computador, e comentou, olhando para mim na espera de uma definitiva e verdadeira resposta:
- Ela era um fake, não?
Suponho que sim. As fotos eram muito bem trabalhadas, pareciam retiradas de alguma publicidade, coisa de modelo. Meu irmão confessou que adorava conversar com ela, que os dois se falavam todos os dias. Disse ainda que achava estranho o fato de uma mulher tão bonita ser tão carente. É, eu falei a ele que geralmente as mulheres e homens bonitos têm muitas pessoas ao seu redor e não reclamam por tanta atenção.
Mentira. Conheci gente muito bonita que passa horas conversando e tentando ser do jeito que se é. Outra colega se apaixonou por um espanhol. Eles se vêem todos os dias... pelas lentes da webcam.
Por quem você se apaixona quando seu amor é virtual? Conheço uma moça e um rapaz, os dois amigos virtuais meus, que viajaram quilômetros para finalmente se conhecerem. O relacionamento deles dura até hoje e a paixão é fulminante.
Voltando à pergunta, por quem você se apaixona, se você não conhece a pessoa? São imagens fugidias, que despertam a sua curiosidade, nunca se tornando um corpo. Uma imagem se soma à outra, e você constrói um corpo. Algumas características se repetem entre as diversas fotografias. E a personalidade? Há as comunidades, que apontam o gosto, alguns defeitos e até mesmo angústias. Diversas semelhanças... Existem os depoimentos, que são o que aquela pessoa é segundo o que seus amigos dizem... Os amigos podem ser profundos, ou quem sabe escrevem apenas qualquer baboseira. Depende.
Aí então tem gente que vende seus pertences para ir pra bem longe... Há pessoas, como um conhecido da minha mãe, que viajou de lá da Alemanha para o Brasil para encontrar o seu grande amor. Se esses amores dão certo? Dão tão certo e tão errado quanto qualquer outro. Mas, de certa forma, são bem mais apaixonantes.
quinta-feira, julho 24, 2008
quarta-feira, julho 23, 2008
The word
Say the word and you'll be free
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
In the beginning I misunderstood
But now I've got it, the word is good
Spread the word and you'll be free
Spread the word and be like me
Spread the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Everywhere I go I hear it said
In the good and the bad books that I have read
Say the word and you'll be free
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Now that I know what I feel must be right
I'm here to show everybody the light
Give the word a chance to say
That the word is just the way
It's the word I'm thinking of
And the only word is love
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Lennon e McCartney
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
In the beginning I misunderstood
But now I've got it, the word is good
Spread the word and you'll be free
Spread the word and be like me
Spread the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Everywhere I go I hear it said
In the good and the bad books that I have read
Say the word and you'll be free
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Now that I know what I feel must be right
I'm here to show everybody the light
Give the word a chance to say
That the word is just the way
It's the word I'm thinking of
And the only word is love
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Lennon e McCartney
terça-feira, julho 22, 2008
Maria Chiquinha
Velho, hoje eu me peguei pensando no quanto é escroto botar dois guris pra cantar essa música.
Que cocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha?
Que cocê foi fazer no mato?
Eu precisava cortar lenha, Genaro, meu bem
Eu precisava cortar lenha
Quem é que tava lá com você, Maria Chiquinha?
Quem é que tava lá com você?
Era filha de Sinhá dona, Genaro, meu bem
Era filha de Sinhá dona
Eu nunca vi mulher de culote, Maria Chiquinha
Eu nunca vi mulher de culote
Era a saia dela amarrada nas pernas, Genaro, meu bem
Era a saia dela amarrada nas pernas
Eu nunca vi mulher de bigode, Maria Chiquinha
Eu nunca vi mulher de bigode
Ela tava comendo jamelão, Genaro, meu bem
Ela tava comendo jamelão
No mês de setembro não dá jamelão, Maria Chiquinha
No mês de setembro não dá jamelão
Foi uns que deu fora do tempo, Genaro, meu bem
Foi uns que deu fora do tempo
Então vai buscar uns que eu quero ver, Maria Chiquinha
Então vai buscar uns que eu quero ver
Os passarinhos comeram tudo, Genaro, meu bem
Os passarinhos comeram tudo
ENTÃO EU VOU CORTAR SUA CABEÇA, Maria Chiquinha
Então eu vou te cortar a cabeça
QUE COCÊ VAI FAZER COM O RESTO, GENARO, MEU BEM?
Que cocê vai fazer com o resto?
O RESTO, PODE DEIXAR QUE EU APROVEITO!
Que cocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha?
Que cocê foi fazer no mato?
Eu precisava cortar lenha, Genaro, meu bem
Eu precisava cortar lenha
Quem é que tava lá com você, Maria Chiquinha?
Quem é que tava lá com você?
Era filha de Sinhá dona, Genaro, meu bem
Era filha de Sinhá dona
Eu nunca vi mulher de culote, Maria Chiquinha
Eu nunca vi mulher de culote
Era a saia dela amarrada nas pernas, Genaro, meu bem
Era a saia dela amarrada nas pernas
Eu nunca vi mulher de bigode, Maria Chiquinha
Eu nunca vi mulher de bigode
Ela tava comendo jamelão, Genaro, meu bem
Ela tava comendo jamelão
No mês de setembro não dá jamelão, Maria Chiquinha
No mês de setembro não dá jamelão
Foi uns que deu fora do tempo, Genaro, meu bem
Foi uns que deu fora do tempo
Então vai buscar uns que eu quero ver, Maria Chiquinha
Então vai buscar uns que eu quero ver
Os passarinhos comeram tudo, Genaro, meu bem
Os passarinhos comeram tudo
ENTÃO EU VOU CORTAR SUA CABEÇA, Maria Chiquinha
Então eu vou te cortar a cabeça
QUE COCÊ VAI FAZER COM O RESTO, GENARO, MEU BEM?
Que cocê vai fazer com o resto?
O RESTO, PODE DEIXAR QUE EU APROVEITO!
A fluidez do tempo
Eu quero encher o meu presente de presente
Eu quero esvaziá-lo de todo passado e todo futuro
- principalmente do passado, posto que o passado eu não devo deixar transbordar e inundar o meu presente -
E que o futuro represente
apenas uma vontade de continuar viva,
nada mais.
Desejo que o meu presente seja puro presente
Quem pertence ao passado, que fique no passado
Quem quiser voltar ao passado, que volte
Mas eu pretendo ficar aqui
e encher a minha vida, deixá-la repleta, toda feita de presente
Para que esse presente não deságue como um passado levado pela corrente de um outro presente mais adiante.
Eu quero esvaziá-lo de todo passado e todo futuro
- principalmente do passado, posto que o passado eu não devo deixar transbordar e inundar o meu presente -
E que o futuro represente
apenas uma vontade de continuar viva,
nada mais.
Desejo que o meu presente seja puro presente
Quem pertence ao passado, que fique no passado
Quem quiser voltar ao passado, que volte
Mas eu pretendo ficar aqui
e encher a minha vida, deixá-la repleta, toda feita de presente
Para que esse presente não deságue como um passado levado pela corrente de um outro presente mais adiante.
Ah, eu tenho isso e aquilo e aquilo outro. Eu sou a pessoa toda poderosa, eu sou alguém na noite. Uma hora você olha para pessoa e acha o máximo. Na outra, você pára e pensa: grande bosta.
Eu só quero saber o que faz eu ou você melhores do que aquele cara que tá catando lixo pra comer na rua. Nada!!!
Eu só quero saber o que faz eu ou você melhores do que aquele cara que tá catando lixo pra comer na rua. Nada!!!
Você de repente pode se encontrar diante de um problema moral. Há dois caminhos: um é aquele que você realmente deseja, o outro é o que te atrai de maneira inefável. O primeiro é racionalizado, pertence ao âmbito da convicção; o segundo perturba as suas bases sólidas, e te deixam no limiar entre a certeza e a incompreensão. Se em algum momento você escolhe o segundo ao invés daquilo que "você realmente deseja" é porque há algo de errado aí. É como deixar de ir para o aniversário da namorada por causa de uma mulher com quem você quer ficar naquele dia, e aquela parecia a grande oportunidade (sabendo que isso coloca em risco tudo o que vocês tiveram); em outra situação, é como você conhecer uma pessoa e ela te encantar muito mais do que aquela com quem você está (e isso num primeiro momento parecer apenas uma crise, até se tornar algo constante). Então está tudo certo, você acredita que gosta muito de uma pessoa, até que aparece outra que te chama a atenção para o que você não tinha percebido. É que às vezes ficamos contidos num mundinho, e se você olhar mais adiante, pode perceber que, na verdade, não estava gostando da pessoa, mas apenas não tinha olhado mais atentamente ao redor. Aquilo que você realmente deseja só é aquilo que você realmente deseja quando, no fim das contas, é a sua escolha. Caso fosse o que você queria de verdade, você auscultaria o que está ao seu redor e perceberia que o seu mundinho já é bem confortável. Se não foi o que você escolheu, é porque há algo de errado com o que você pensa que quer. Trata-se de um sintoma.
segunda-feira, julho 21, 2008
Alguns acontecimentos têm apontado para o seguinte: aquilo que é por demais bonito, que impressiona, certamente tem uma outra face da moeda que é o contrário da que está na primeira olhada. Por isso, tenho preferido, como poderia dizer: é como entre o formidavelmente belo e o simpático, ficar com o simpático.
domingo, julho 20, 2008
Uma hora você pára e pensa: não, eu não sou igual a todo mundo. Não é porque um monte de gente faz isso que vou fazer também. Às vezes você sente um tremor que tenta pôr por terra aquilo em que você acredita, porque oras, todo mundo faz isso, pra quê ser diferente? Pra ser boba? Pra se machucar? Mas não!! Você olha ao redor, presta bem atenção, e vê que, por mais que sejam poucas, existem pessoas que compartilham dessa sua convicção. E você percebe que não deve corromper o pouco que ainda resta de magia.
sexta-feira, julho 18, 2008
We never change
essa música do Coldplay grudou de vez na minha cabeça... e de certa forma eu a sinto.
tá bom, esse blog é uma agenda de guria :P
mais do que nunca eu posso dizer: essa aqui não é o meu lugar... preciso ir embora!
I wanna live life, never be cruel,
I wanna live life, be good to you.
I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around.
We never change, do we?
We never learn to leave,
So I wanna live in a wooden house,
I wanna live life, always be true,
I wanna live life, and be good to you,
I wanna fly, and never come down,
And I live my life, and have friends around.
We never chang do we? no, no,
We never learn to bleed,
So I wanna live in a wooden house,
Making more friends would be easy.
Oh I dont have a show to say,
Yes, and I sing every single day,
We never change do we? We never learn to leave.
So, I wanna live life in a wooden house,
Making more friends would be easy,
I wanna live where the sun comes out.
tá bom, esse blog é uma agenda de guria :P
mais do que nunca eu posso dizer: essa aqui não é o meu lugar... preciso ir embora!
I wanna live life, never be cruel,
I wanna live life, be good to you.
I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around.
We never change, do we?
We never learn to leave,
So I wanna live in a wooden house,
I wanna live life, always be true,
I wanna live life, and be good to you,
I wanna fly, and never come down,
And I live my life, and have friends around.
We never chang do we? no, no,
We never learn to bleed,
So I wanna live in a wooden house,
Making more friends would be easy.
Oh I dont have a show to say,
Yes, and I sing every single day,
We never change do we? We never learn to leave.
So, I wanna live life in a wooden house,
Making more friends would be easy,
I wanna live where the sun comes out.
quinta-feira, julho 17, 2008
domingo, julho 06, 2008
Estou precisando de algumas certezas. Falta solidez em valores e emoções. Às vezes dá vontade de ser medieval, e ter crenças muito sólidas, coisas pelas quais eu morreria se preciso. Mas não. Tudo muito incerto, muitas perguntas, e quando pareço chegar à resposta, surge-me um novo questionamento que soterra definitivamente qualquer manto de certeza. No fim de tudo, uma vontade de ficar invisível, de sumir e não dar notícia pra ninguém.
sexta-feira, julho 04, 2008
A gente ama as pessoas, mas não percebe isso no dia-a-dia. Claro, porque seria um saco estar com uma pessoa que o tempo inteiro fica babando seu ovo. Só que às vezes é tão gostoso quando assim, do nada, eu olho pra alguém de quem gosto muito e sinto uma aura em volta do seu semblante. Daí a vontade bate muito forte, e eu digo: te amo! Ou até me esqueço de dizer "te amo", fico apenas pensando no quanto aquela pessoa é importante pra mim. Senti isso hoje olhando pra minha mãe ao telefone e, em outro momento, quando conversava sobre banalidades com meu irmão. O "te amo" não saiu, mas aquela sensação me arrebatou.
Depois que um professor disse que eu deveria ir para fora do país ou para o sudeste se quisesse fazer um bom mestrado em cinema, quando eu planejava ficar o mair perto possível da família, bateu uma dor no peito. Pensei muito nisso hoje, e já senti saudade. Por mais que haja desentendimentos, e que às vezes eu tenha vontade de sumir, é certo que nenhum lugar é mais aconchegante do que a minha casa, e sinto também que a minha família (entenda, minha mãe e meus eternos pequenos irmãos) tem o amor mais verdadeiro do mundo.
quinta-feira, julho 03, 2008
Cansaço...
Meu irmão costuma dizer que Fernando Pessoa era doido. Diz que o poeta tinha três personalidades: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Doido ou não, sei que sinto como se eu fosse uma reencarnação de Álvaro de Campos. Não é brincadeira - sempre vejo a mim mesma falando através de Álvaro de Campos. Quando eu morrer, podem colocar na minha lápide: íssima, íssima, íssima...
O que há
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
O que há
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
quarta-feira, julho 02, 2008
I don't know why I feel so tongue-tied
Don't get any big ideas they not gonna happen
now that you found it, it's gone
now that you feel it, you don't
Just as the drinks arrive
Just as they play your favourite song
Blink your eyes, one for yes, two for no
In a deep deep sleep of the innocent
I am born again
In my mind and nailed into my heels.
All the time killing what I feel.
And everything I touch
All wrapped up in cotton wool
All wrapped up and sugar coated
turns to stone.
And everything I touch
what are we coming to?
what are we gonna do?
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great high
From a great high...high...
This is the place
Sit down, you're safe now
If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough
Don't get any big ideas they not gonna happen
now that you found it, it's gone
now that you feel it, you don't
Just as the drinks arrive
Just as they play your favourite song
Blink your eyes, one for yes, two for no
In a deep deep sleep of the innocent
I am born again
In my mind and nailed into my heels.
All the time killing what I feel.
And everything I touch
All wrapped up in cotton wool
All wrapped up and sugar coated
turns to stone.
And everything I touch
what are we coming to?
what are we gonna do?
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great high
From a great high...high...
This is the place
Sit down, you're safe now
If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough
Certos modos e feições da minha vida quotidiana — representados no meu ser constante
por desejos, repugnâncias, preocupações — sumiam-se de mim como embuscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado
de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo — tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos
pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobriar pelo chão.
Fernando Pessoa em Livro do desasossego.
por desejos, repugnâncias, preocupações — sumiam-se de mim como embuscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado
de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo — tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos
pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobriar pelo chão.
Fernando Pessoa em Livro do desasossego.
Crime perfeito
Quando olhou pra mim e vi um riso contido, e as maçãs do seu rosto enrubrecidas, percebi que havia notado o meu encantamento. Era demais pra disfarçar. A sua postura paternal, a adultez mesmo nas brincadeiras mais banais, ele se esquivava. Tenho idade para ser seu pai. Teria me feito quando ainda criança - repliquei.
Porém, o rosto sobre a mão, o semblante magnetizado a observar precisamente os meus movimentos, que vi quando de repente me virei na sua direção, mostravam-me uma prova do crime. Mas o crime não aconteceu.
Porém, o rosto sobre a mão, o semblante magnetizado a observar precisamente os meus movimentos, que vi quando de repente me virei na sua direção, mostravam-me uma prova do crime. Mas o crime não aconteceu.
quinta-feira, junho 26, 2008
Apaixonante
Quando ele disse:
você é apaixonante
fiquei mais impressionada
do que se falasse
"estou apaixonado"
ou "eu te amo".
É que parecia que apaixonante era uma qualidade impregnada em minha substância - qualidade que reluz e se espalha pelos ares.
Eu era apaixonante - condição da minha existência.
Muito mais do que "eu estou apaixonado"- expressão de um estado de alma - que, como todos os estados, resvala no tempo.
você é apaixonante
fiquei mais impressionada
do que se falasse
"estou apaixonado"
ou "eu te amo".
É que parecia que apaixonante era uma qualidade impregnada em minha substância - qualidade que reluz e se espalha pelos ares.
Eu era apaixonante - condição da minha existência.
Muito mais do que "eu estou apaixonado"- expressão de um estado de alma - que, como todos os estados, resvala no tempo.
quarta-feira, junho 25, 2008
Wait for me
Please don't ask me why
That, true as the sky
Everyone is born to die
So take your time
But don't take mine
Lose yourself but don't lose your mind
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait for me
You can't regret what you forget
If only you could forget it...
But it takes time
Plenty of wine
The weight of the world there in your eyes
Nothing could never come to you unless you try try try
You find yourself in trouble if you cannot tell a lie
It's easy as pie
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait and see
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait for me
Sean Lennon
That, true as the sky
Everyone is born to die
So take your time
But don't take mine
Lose yourself but don't lose your mind
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait for me
You can't regret what you forget
If only you could forget it...
But it takes time
Plenty of wine
The weight of the world there in your eyes
Nothing could never come to you unless you try try try
You find yourself in trouble if you cannot tell a lie
It's easy as pie
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait and see
Somewhere out there inbetween the moon and the sea
I'll be waiting for you my dear
So wait for me
Sean Lennon
terça-feira, junho 24, 2008
E quem sou eu? Alguém que em certas horas se reveste de bravura e que não se intimida, outrora alguém racional, que prefere pensar duas vezes. Uma covarde, meus caros, uma covarde! Covarde até nas horas de maior ousadia, quando acreditava estar na luta por uma coisa, mas me encontrava, em verdade, na fuga de outra.
domingo, junho 22, 2008
Aconteceu hoje de eu achar que poderia arriscar algo porque, entre os dois finais que previa, nenhum era tão trágico. Nada poderia dar muito errado, então eu deveria tentar. Só que eu não tive a sagacidade suficiente pra perceber que as contigências do mundo não estão ao alcance do jogo de possibilidades da minha lógica. Então eu fui lá, arrisquei... e tudo terminou da maneira da letra c)... e eu só havia cogitado as letras a) e b).
sábado, junho 21, 2008
Operação São João
Tati says:
vei
Guilherme says:
opa
Tati says:
vc já ligou pra polícia pra pedir pra desligarem o som?
Guilherme says:
e ai criatura
Tati says:
kkkkkkkkkk
Guilherme says:
rpaZ
Guilherme says:
heheh
Guilherme says:
já tive vontade
Guilherme says:
mas nunca o fiz
Guilherme says:
qual é a treta?
Tati says:
eu to aqui em casa
Tati says:
e no prédio vizinho
Tati says:
tá a maior badalação
Tati says:
faz séeeeculos
Tati says:
e já é qse 1h da manhã
Tati says:
me atrapalhou de estudar
Tati says:
de ver filme
Tati says:
e agora eu quero dormir e n posso
Tati says:
por causa de uns filhos da puta
Tati says:
q deviam ´estar no forró caju
Tati says:
porra
Tati says:
vai se fuder
Tati says:
tem q inventar festa em prédio!!
Tati says:
eu quero ligar pra polícia
Tati says:
eu sei q é coisa de véia ranzinza
Tati says:
mas eu quero ligar
Tati says:
oq vc acha?
Guilherme says:
hum
Guilherme says:
rpaz
Guilherme says:
deixe-me ver
Guilherme says:
qual a música q eles tão escutando?
Tati says:
velho
Tati says:
a música n é ruim n
Tati says:
mas é q vc n sabe
Tati says:
é q n tá altinho n
Tati says:
n tá som de fundo n
Tati says:
q vc esquece qnd encosta a cabeça no travesseiro
Tati says:
tá alto pra caralho
Tati says:
bizarro
Guilherme says:
porra
Tati says:
parece q é o forró caju aqui vizinho
Guilherme says:
alguém já pediu pra eles baixarem o som:
Guilherme says:
?
Tati says:
sei lá
Tati says:
o problema é q n tem ninguém em casa nessa época
Tati says:
aí ninguém tá nem aí né
Guilherme says:
mas eles tão escutando rock?
Tati says:
kkkkkkkkkkk
Tati says:
é uma banda maldita
Tati says:
de pé de serra
Tati says:
eles tão tocando agora
Guilherme says:
homi
Tati says:
aquela música
Tati says:
por isso eu vou na casa dela aiai
Guilherme says:
chame a polícia!!!
Tati says:
falar do meu amor pra ela
Guilherme says:
aff
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
ai ai
Guilherme says:
aí vc liga pra polícia aiai
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e ela vai bater aí aiai
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e todo mundo vai se fuder aiai
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
eu quero jogar uma bomba nessa porra de desse prédio
Tati says:
morram todos
Tati says:
malditos
Tati says:
¬¬
Guilherme says:
uheauehuae
Guilherme says:
filhos da puta
Guilherme says:
dê um grito da janela
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
vou aloprar ne
Guilherme says:
BAIXA ESSA PORRA MAGOTE DE FILHO DA PUTA
Tati says:
aí eles aumentam o som
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e vc chama o comando de operações especiais da polícia militar truculenta de sergipe
Guilherme says:
heheh
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
capitão nascimento
Tati says:
operação são joão
Guilherme says:
com duas festas na cidade não creio que atendam uma ocorrência de som alto
Guilherme says:
hehehe
Guilherme says:
até pq tem várias ruas com aqueles forrózinho de vizinhança
Tati says:
meu fio
Tati says:
tá bizarro
Tati says:
porra
Tati says:
eu n saí de casa
Tati says:
devia ter saído
Tati says:
q merda
Guilherme says:
dessa maneira
Guilherme says:
acho mais perspicaz vc dar um grito pela janela
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
eles n vao ouvir n
Guilherme says:
porra
Guilherme says:
então desça e saia correndo pelada
Guilherme says:
e insultando-os
Guilherme says:
MALDITOS PORCOS!
Guilherme says:
perceberão com toda certeza
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
gracinha
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
eita caralho
Tati says:
eu acabei de ouvir sirene
Tati says:
HAHAHAHAHAHA
Tati says:
nem chamei
Tati says:
HAHAHAHAHAHA
Guilherme says:
uhaeuhaeuaehuae
Guilherme says:
eita porra
Guilherme says:
e ai?
Tati says:
porra
Tati says:
eles tão tocando ainda
Tati says:
vamos aguardar
Guilherme says:
acho q enquanto a gente conversava algum véio chato foi mais rápido
Tati says:
sei n
Tati says:
=/
vei
Guilherme says:
opa
Tati says:
vc já ligou pra polícia pra pedir pra desligarem o som?
Guilherme says:
e ai criatura
Tati says:
kkkkkkkkkk
Guilherme says:
rpaZ
Guilherme says:
heheh
Guilherme says:
já tive vontade
Guilherme says:
mas nunca o fiz
Guilherme says:
qual é a treta?
Tati says:
eu to aqui em casa
Tati says:
e no prédio vizinho
Tati says:
tá a maior badalação
Tati says:
faz séeeeculos
Tati says:
e já é qse 1h da manhã
Tati says:
me atrapalhou de estudar
Tati says:
de ver filme
Tati says:
e agora eu quero dormir e n posso
Tati says:
por causa de uns filhos da puta
Tati says:
q deviam ´estar no forró caju
Tati says:
porra
Tati says:
vai se fuder
Tati says:
tem q inventar festa em prédio!!
Tati says:
eu quero ligar pra polícia
Tati says:
eu sei q é coisa de véia ranzinza
Tati says:
mas eu quero ligar
Tati says:
oq vc acha?
Guilherme says:
hum
Guilherme says:
rpaz
Guilherme says:
deixe-me ver
Guilherme says:
qual a música q eles tão escutando?
Tati says:
velho
Tati says:
a música n é ruim n
Tati says:
mas é q vc n sabe
Tati says:
é q n tá altinho n
Tati says:
n tá som de fundo n
Tati says:
q vc esquece qnd encosta a cabeça no travesseiro
Tati says:
tá alto pra caralho
Tati says:
bizarro
Guilherme says:
porra
Tati says:
parece q é o forró caju aqui vizinho
Guilherme says:
alguém já pediu pra eles baixarem o som:
Guilherme says:
?
Tati says:
sei lá
Tati says:
o problema é q n tem ninguém em casa nessa época
Tati says:
aí ninguém tá nem aí né
Guilherme says:
mas eles tão escutando rock?
Tati says:
kkkkkkkkkkk
Tati says:
é uma banda maldita
Tati says:
de pé de serra
Tati says:
eles tão tocando agora
Guilherme says:
homi
Tati says:
aquela música
Tati says:
por isso eu vou na casa dela aiai
Guilherme says:
chame a polícia!!!
Tati says:
falar do meu amor pra ela
Guilherme says:
aff
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
ai ai
Guilherme says:
aí vc liga pra polícia aiai
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e ela vai bater aí aiai
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e todo mundo vai se fuder aiai
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
eu quero jogar uma bomba nessa porra de desse prédio
Tati says:
morram todos
Tati says:
malditos
Tati says:
¬¬
Guilherme says:
uheauehuae
Guilherme says:
filhos da puta
Guilherme says:
dê um grito da janela
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
vou aloprar ne
Guilherme says:
BAIXA ESSA PORRA MAGOTE DE FILHO DA PUTA
Tati says:
aí eles aumentam o som
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Guilherme says:
e vc chama o comando de operações especiais da polícia militar truculenta de sergipe
Guilherme says:
heheh
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
capitão nascimento
Tati says:
operação são joão
Guilherme says:
com duas festas na cidade não creio que atendam uma ocorrência de som alto
Guilherme says:
hehehe
Guilherme says:
até pq tem várias ruas com aqueles forrózinho de vizinhança
Tati says:
meu fio
Tati says:
tá bizarro
Tati says:
porra
Tati says:
eu n saí de casa
Tati says:
devia ter saído
Tati says:
q merda
Guilherme says:
dessa maneira
Guilherme says:
acho mais perspicaz vc dar um grito pela janela
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
eles n vao ouvir n
Guilherme says:
porra
Guilherme says:
então desça e saia correndo pelada
Guilherme says:
e insultando-os
Guilherme says:
MALDITOS PORCOS!
Guilherme says:
perceberão com toda certeza
Tati says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati says:
gracinha
Guilherme says:
hehehe
Tati says:
eita caralho
Tati says:
eu acabei de ouvir sirene
Tati says:
HAHAHAHAHAHA
Tati says:
nem chamei
Tati says:
HAHAHAHAHAHA
Guilherme says:
uhaeuhaeuaehuae
Guilherme says:
eita porra
Guilherme says:
e ai?
Tati says:
porra
Tati says:
eles tão tocando ainda
Tati says:
vamos aguardar
Guilherme says:
acho q enquanto a gente conversava algum véio chato foi mais rápido
Tati says:
sei n
Tati says:
=/
sexta-feira, junho 20, 2008
Essas novas tecnologias... Sabe, queria, às vezes, poder estar offline. Igualzinho ao que acontece no msn. Chegar a um lugar, auscultar aqueles que lá se encontram, só ficar online, de repente, caso que me agradem, ou então ficaria invisível offline. Gostaria também de deixar alguém falando sozinho quando bem entendesse: era só ir fazer outra coisa, ver um vídeo no youtube. E se me deparasse com um chato, bloqueava logo o contato, e ele surgiria, bem na minha frentre, todo pintado com uma listra vermelha vertical e um círculo ao redor do seu corpo - caladinho, caladinho. Quando não quisesse estar em algum lugar, era só colocar "ausente", e então poderia me retirar e não falar com quem não quisesse, sempre com a justificativa de que, na verdade, eu não havia respondido porque não estava lá. Queria excluir da minha vida quem não me agradasse com apenas um click. Seria tudo tão fácil, que terminaria sendo entediante. Onde está a beleza das frustrações do cotiano? Que se faz do ato impagável de virar pra um bêbado chato dando cantadas nojentas pra você e pra sua amiga em pleno bar na sexta-feira, e dizer: Quem é você na noite?
domingo, junho 15, 2008
Mulheres que não gostam de mulheres
Existem mulheres que não gostam de mulheres - não falo aqui das heterosexuais, mas sim daquelas mulheres que simplesmente "odeiam" todas as outras.
Há mulheres que, diante de outras mulheres, agem com desdém, enchem o peito para desferir ironias, sarcasmos, reparam sempre no que há de pior nas outras pessoas do mesmo sexo. Essas mulheres que odeiam mulheres, por outro lado, adoram os homens. Muito mais do que uma mulher que gosta da desenvoltura dos tipos do sexo masculino, elas os bajulam, tratam-lhe com todo o carinho e polidez inversos à má educação e soberba com que recebem as pessoas do mesmo gênero.
Essa espécie de mulher encara todas as outras mulheres como concorrentes: assim como o capitalista selvagem que contrata inspetores para vasculharem e prejudicarem a vida de outras empresas, elas invadem o corpo e a vida de outras mulheres com seus olhos de víbora. Se tiverem a oportunidade de exercer poder sobre outras mulheres, elas exercerão com a mão de ferro - uma humilhação ou outra fará parte do dia-a-dia.
A grande inimiga da mulher que odeia mulher é a mulher bonita. O grande sonho delas era ser a única mulher atraente da face da terra, e não há insulto maior do que ver os homens auscultando essas mulheres bonitas. As feias para elas são até mais agradáveis - não representam grande ameaça. Ah, mas se uma feia tem um namorado bonito, logo se transmutam em bonitas aos seus olhos. Uma bonita inteligente merece morrer. Uma feia inteligente é um incômodo. As ricas, por mais irritantes que sejam para elas, são sempre um caminho, na "amizade", para a ascensão social. Suas amigas são, quando não ricas, não tão bonitas.
Já os homens, ah, os homens são para elas verdadeiras preciosidades. Sejam eles feios ou bonitos, o importante é que eles são homens, e, portanto, elas devem conquistar a admiração e o desejo deles, mesmo que por alguns elas não nutram mais do que desprezo. Essas mulheres se derretem todas, falam com a voz mais doce e o sorriso cheio de candura para os homens bonitos, e são para eles, acima de tudo, eroticamente delicadas. Com os feios elas não deixam de ser amáveis, posto que necessitam dos seus galanteios.
Entre vários exemplos de mulheres que odeiam mulheres, lembro de uma em particular que foi minha professora na faculdade. Todos comentavam a forma áspera como ela abordava as alunas, para as quais ela sempre tinha uma ordem ou uma piada sarcástica, enquanto os alunos eram recebidos por ela de maneira afetuosa e com os olhos chamejantes - brilho esse que tão logo se revertia em faíscas de ojeriza quando ela encarava uma mulher. Já formulei teses sobre esse comportamento - será que elas foram vilipendiadas por mães que tinham inveja de sua juventude e sua beleza, enquanto recebiam o carinho do pai adorável, e, dessa forma, encarnaram a figura da mulher víbora, imitando suas mães? Ah, deixa pra lá que esse negócio de psicologia barata não está com nada. De qualquer modo, todas elas são muito divertidas.
Há mulheres que, diante de outras mulheres, agem com desdém, enchem o peito para desferir ironias, sarcasmos, reparam sempre no que há de pior nas outras pessoas do mesmo sexo. Essas mulheres que odeiam mulheres, por outro lado, adoram os homens. Muito mais do que uma mulher que gosta da desenvoltura dos tipos do sexo masculino, elas os bajulam, tratam-lhe com todo o carinho e polidez inversos à má educação e soberba com que recebem as pessoas do mesmo gênero.
Essa espécie de mulher encara todas as outras mulheres como concorrentes: assim como o capitalista selvagem que contrata inspetores para vasculharem e prejudicarem a vida de outras empresas, elas invadem o corpo e a vida de outras mulheres com seus olhos de víbora. Se tiverem a oportunidade de exercer poder sobre outras mulheres, elas exercerão com a mão de ferro - uma humilhação ou outra fará parte do dia-a-dia.
A grande inimiga da mulher que odeia mulher é a mulher bonita. O grande sonho delas era ser a única mulher atraente da face da terra, e não há insulto maior do que ver os homens auscultando essas mulheres bonitas. As feias para elas são até mais agradáveis - não representam grande ameaça. Ah, mas se uma feia tem um namorado bonito, logo se transmutam em bonitas aos seus olhos. Uma bonita inteligente merece morrer. Uma feia inteligente é um incômodo. As ricas, por mais irritantes que sejam para elas, são sempre um caminho, na "amizade", para a ascensão social. Suas amigas são, quando não ricas, não tão bonitas.
Já os homens, ah, os homens são para elas verdadeiras preciosidades. Sejam eles feios ou bonitos, o importante é que eles são homens, e, portanto, elas devem conquistar a admiração e o desejo deles, mesmo que por alguns elas não nutram mais do que desprezo. Essas mulheres se derretem todas, falam com a voz mais doce e o sorriso cheio de candura para os homens bonitos, e são para eles, acima de tudo, eroticamente delicadas. Com os feios elas não deixam de ser amáveis, posto que necessitam dos seus galanteios.
Entre vários exemplos de mulheres que odeiam mulheres, lembro de uma em particular que foi minha professora na faculdade. Todos comentavam a forma áspera como ela abordava as alunas, para as quais ela sempre tinha uma ordem ou uma piada sarcástica, enquanto os alunos eram recebidos por ela de maneira afetuosa e com os olhos chamejantes - brilho esse que tão logo se revertia em faíscas de ojeriza quando ela encarava uma mulher. Já formulei teses sobre esse comportamento - será que elas foram vilipendiadas por mães que tinham inveja de sua juventude e sua beleza, enquanto recebiam o carinho do pai adorável, e, dessa forma, encarnaram a figura da mulher víbora, imitando suas mães? Ah, deixa pra lá que esse negócio de psicologia barata não está com nada. De qualquer modo, todas elas são muito divertidas.
segunda-feira, junho 09, 2008
Depois de 12h de trabalho, muitos desentendimentos, muita discussão, alguns imprevistos, a pressão do tempo que passa, e a dificuldade pra fazer coisas que na tela se passam em minutos, a gente vê que cinema não é coisa nada fácil, meu bem. Tem que ter muita raça. Ainda mais aqui no Brasil. Entretanto, posso dizer que me surpreendi comigo mesma. Mostrei a mim mesma que sou mais corajosa do que esperava, mais persistente do que temia, e até mais forte do que considerava ser. Isso faz eu me orgulhar de mim e da equipe, independentemente do resultado de uma primeira experiência.
quinta-feira, junho 05, 2008
Sempre que sento numa cadeira do ônibus, eu rezo aos deuses todos para que nenhum ancião, ou mulher grávida e etc apareça na minha frente. Eu dou o lugar, mas, não vou mentir, é com muita má vontade. Hoje eu tive que fazer isso, infelizmente, mesmo segurando um monte de livros. Então eu dou o lugar a um velhinho e, logo depois, o rapaz que estava sentado ao lado dele teve de se levantar para uma mulher com uma linda menina nos braços vir a se sentar.
Vez por outra eu olhava pra baixo com o objetivo de fiscalizar a minha bolsa. Desde que roubaram meu celular no ônibus eu fiquei bem mais cuidadosa. Então terminava observando também o senhor e a moça com a linda menina de vestido verde no colo. O velhinho começou a mexer no braço da menina e balbuciar alguma coisa boba que se fala para criança.
Logo tomei um susto. Como assim essa mulher deixa esse cara tocar na filha dela???? Com tanto velho tarado por aí!!!! Ah, mas se fosse filha minha eu não permitia um negócio desse não!!! Aí eu me dei conta do quanto eu seria neurótica se fosse mãe.
Primeiro: se eu parisse, não ia querer saber de uma ruma de gente dentro do quarto pegando no meu bebê. Não, detesto esse negócio de "ô, deixe eu segurar, que coisa mais linda!". Que coisa mais linda um caralho, e se você derruba meu bebê! No way!!! "Ah, deixe eu dar um beijinho". Vá dar beijo na sua mãe, não venha passar suas bactérias pro meu bebê!!!!
Não é que eu seria uma mãe que não deixa a filha sair pra lugar nenhum. Claro que não! Queria mais é que ela curtisse mesmo!! Tive muita liberdade ué. Só que eu não gosto da idéia de as pessoas ficarem de mão em mão com um bebê, e se derrubassem a criança? E outra: sou neurótica com negócio de pedofilia e de guris que batem em outros guris na escola.
Fora que eu sou uma irmã briguenta, tomo as dores, imagine como mãe! Uma vez eu vi um guri maldito empurrando meu irmão do balanço pra tomar o lugar dele. Fui pra cima.
- Qual é a sua, guri??? Não mexa com meu irmão!!!!!!
- Se você fizer alguma coisa comigo, eu vou contar pra minha mãe...
- Vá, conte, que eu bato em você e bato nela!!!
Hehe. Ok. Eu não agredi o menino fisicamente... mas que ele tomou um susto legal, ah sim.
Quem se habilita?
Vez por outra eu olhava pra baixo com o objetivo de fiscalizar a minha bolsa. Desde que roubaram meu celular no ônibus eu fiquei bem mais cuidadosa. Então terminava observando também o senhor e a moça com a linda menina de vestido verde no colo. O velhinho começou a mexer no braço da menina e balbuciar alguma coisa boba que se fala para criança.
Logo tomei um susto. Como assim essa mulher deixa esse cara tocar na filha dela???? Com tanto velho tarado por aí!!!! Ah, mas se fosse filha minha eu não permitia um negócio desse não!!! Aí eu me dei conta do quanto eu seria neurótica se fosse mãe.
Primeiro: se eu parisse, não ia querer saber de uma ruma de gente dentro do quarto pegando no meu bebê. Não, detesto esse negócio de "ô, deixe eu segurar, que coisa mais linda!". Que coisa mais linda um caralho, e se você derruba meu bebê! No way!!! "Ah, deixe eu dar um beijinho". Vá dar beijo na sua mãe, não venha passar suas bactérias pro meu bebê!!!!
Não é que eu seria uma mãe que não deixa a filha sair pra lugar nenhum. Claro que não! Queria mais é que ela curtisse mesmo!! Tive muita liberdade ué. Só que eu não gosto da idéia de as pessoas ficarem de mão em mão com um bebê, e se derrubassem a criança? E outra: sou neurótica com negócio de pedofilia e de guris que batem em outros guris na escola.
Fora que eu sou uma irmã briguenta, tomo as dores, imagine como mãe! Uma vez eu vi um guri maldito empurrando meu irmão do balanço pra tomar o lugar dele. Fui pra cima.
- Qual é a sua, guri??? Não mexa com meu irmão!!!!!!
- Se você fizer alguma coisa comigo, eu vou contar pra minha mãe...
- Vá, conte, que eu bato em você e bato nela!!!
Hehe. Ok. Eu não agredi o menino fisicamente... mas que ele tomou um susto legal, ah sim.
Quem se habilita?
quarta-feira, junho 04, 2008
terça-feira, maio 27, 2008
Quando vi a comunidade no orkut "Pânico de semi-conhecidos", eu me identifiquei de cara. Putz, eu fico nervosa quando vejo pessoas que conheço mais ou menos, com quem não faço a mínima idéia sobre qual assunto conversar. É horrível dar aquele tchauzinho modesto, sem muita emoção, porque não há intimidade, sem falar muita coisa, para não parecer que tá fazendo a íntima. Eu posso ir com a cara da pessoa como for, mas ô situaçãozinha desconfortável que é viu.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo...
Costumo falar que sou uma apaixonada por aquilo que é simples. Crônicas como as de Vinicius de Moraes, contos como os de Dalton Trevisan, poemas como os de Paulo Leminski são evidentes: eles mostram mais do que dizem propriamente. Os filmes de Eric Rohmer apresentam a banalidade de forma bela, porque a banalidade em Rohmer tem uma beleza própria - ela aguça nossos sentidos para a beleza do cotidiano e a poesia que foge ao nosso olhar.
Não filmes de grandes acontecimentos ou temas solenes - mas filmes que poderiam ter acontecido nas ruas da cidade, como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica. Não poemas repletos de palavras ausentes dos nossos jogos de linguagem do dia-a-dia. Assim como Manuel Bandeira, eu quero o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbados, pois não quero mais saber do lirismo que não é libertação. Pois entendo o que Manoel de Barros disse, e as pessoas parecidas de abandono me comovem tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Esses artistas do ordinário evocam a alma das coisas. Qualquer toque, adeus, cumprimento, palavra adiquire uma vida poética. Para eles, não é necessário ir muito além da ilusão, do espetáculo, pois a realidade já oferece o substrato da poesia. O que não quer dizer que eles pretendam alcançar o real numa pretensa objetividade - antes tocam a realidade, sentem-na, e fazem-na se roçar na nossa pele.
Ao entrar em contato com a beleza proporcionada por esses artistas, percebo que a vida em si já é uma grande fantasia, que vivemos inventando o cotidiano. Quero inventar, porque tudo que não invento é falso, já dizia Manoel de Barros. Tudo o que não é imaginação não faz sentido - da janela eu invento as imagens que ganham alma diante do olhar poético.
Tudo que não invento é falso porque as palavras protocoladas, o verso burocrático ou o relato jornalísitico comum não me servem - não pretendo encontrar o último sentido, não desejo encerrar o processo de significação em alguma verdade postulada numa bíblia dos acontecimentos. Também renego o espetáculo que nos provoca evasão - não almejo fugir da realidade, mas poetizá-la, com toda a força que o verbo poetizar tem. Quero inventar, e posso inventar com a dor da criança que passa fome na frente da padaria, com a contemplação da vizinha idosa que fuma um cigarro de manhã cedo, com a felicidade do rapaz que sorriu ao receber uma carta entregue pelas mãos cansadas do porteiro do condomínio.
Não filmes de grandes acontecimentos ou temas solenes - mas filmes que poderiam ter acontecido nas ruas da cidade, como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica. Não poemas repletos de palavras ausentes dos nossos jogos de linguagem do dia-a-dia. Assim como Manuel Bandeira, eu quero o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbados, pois não quero mais saber do lirismo que não é libertação. Pois entendo o que Manoel de Barros disse, e as pessoas parecidas de abandono me comovem tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Esses artistas do ordinário evocam a alma das coisas. Qualquer toque, adeus, cumprimento, palavra adiquire uma vida poética. Para eles, não é necessário ir muito além da ilusão, do espetáculo, pois a realidade já oferece o substrato da poesia. O que não quer dizer que eles pretendam alcançar o real numa pretensa objetividade - antes tocam a realidade, sentem-na, e fazem-na se roçar na nossa pele.
Ao entrar em contato com a beleza proporcionada por esses artistas, percebo que a vida em si já é uma grande fantasia, que vivemos inventando o cotidiano. Quero inventar, porque tudo que não invento é falso, já dizia Manoel de Barros. Tudo o que não é imaginação não faz sentido - da janela eu invento as imagens que ganham alma diante do olhar poético.
Tudo que não invento é falso porque as palavras protocoladas, o verso burocrático ou o relato jornalísitico comum não me servem - não pretendo encontrar o último sentido, não desejo encerrar o processo de significação em alguma verdade postulada numa bíblia dos acontecimentos. Também renego o espetáculo que nos provoca evasão - não almejo fugir da realidade, mas poetizá-la, com toda a força que o verbo poetizar tem. Quero inventar, e posso inventar com a dor da criança que passa fome na frente da padaria, com a contemplação da vizinha idosa que fuma um cigarro de manhã cedo, com a felicidade do rapaz que sorriu ao receber uma carta entregue pelas mãos cansadas do porteiro do condomínio.
segunda-feira, maio 26, 2008
A lucidez perigosa
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector
quarta-feira, maio 21, 2008
É de lei: toda vez que perguntam "do que você gostou mais? do filme ou do livro?", a resposta é "do livro". As pessoas enchem o peito e deliciam a boca dizendo que adoraram, acharam fantástico, sem comparação o livro, e que o filme não chega nem aos pés do texto literário que o inspirou. Já me fizeram essa pergunta várias vezes, e eu sempre tive meio que preguiça de responder, pois isso poderia incorrer numa interminável discussão, o que às vezes me causa fadiga, como diria Jaiminho, mas a questão é: "Um filme e um livro - bem, são duas linguagens, duas formas de narrar bem diferentes".
Pelo fato de serem duas linguagens completamente diferentes, na minha perspectiva, podemos falar de boas versões para o cinema ou versões problemáticas, mas nunca tratar sobre o que é melhor, o filme ou o livro. A questão aqui não é apedrejar quem gosta mais de literatura do que de cinema, ou maldizer quem teve bom senso ao reconhecer um filme péssimo numa adaptação de obra literária para o cinema. O problema de que estou falando está inserido num outro contexto: o cinema ainda é visto como arte menor, como mero entretenimento, enquanto os livros guardam em suas páginas toda a sabedoria do universo; ou o mundo dos livros é um reino em que a imaginação pode viajar à vontade, já o cinema é o lugar da assimilação fácil e evasiva das imagens e uma prisão aos desígnios da criatividade do espectador.
Ainda acho que a gente pode criar - e muito - vendo filmes. Penso que é possível exercitar a imaginação e a reflexão assistindo a (certas) obras cinematográficas tanto quanto diante de um livro que nos desafia. Ambos serão arte, na minha opinião, quando nos fizerem criar junto com a obra, e não se mostrarem um produto descartável e ilusório - assim como aqueles produtos que vemos reluzirem nas vitrines.
Pelo fato de serem duas linguagens completamente diferentes, na minha perspectiva, podemos falar de boas versões para o cinema ou versões problemáticas, mas nunca tratar sobre o que é melhor, o filme ou o livro. A questão aqui não é apedrejar quem gosta mais de literatura do que de cinema, ou maldizer quem teve bom senso ao reconhecer um filme péssimo numa adaptação de obra literária para o cinema. O problema de que estou falando está inserido num outro contexto: o cinema ainda é visto como arte menor, como mero entretenimento, enquanto os livros guardam em suas páginas toda a sabedoria do universo; ou o mundo dos livros é um reino em que a imaginação pode viajar à vontade, já o cinema é o lugar da assimilação fácil e evasiva das imagens e uma prisão aos desígnios da criatividade do espectador.
Ainda acho que a gente pode criar - e muito - vendo filmes. Penso que é possível exercitar a imaginação e a reflexão assistindo a (certas) obras cinematográficas tanto quanto diante de um livro que nos desafia. Ambos serão arte, na minha opinião, quando nos fizerem criar junto com a obra, e não se mostrarem um produto descartável e ilusório - assim como aqueles produtos que vemos reluzirem nas vitrines.
segunda-feira, maio 19, 2008
Fumar um cigarro na varanda é uma atitude de contemplação
A fumaça dos carros da noite solitária se confunde
Eu me pergunto onde está tudo o que vivi,
agora é tudo vão
porque o que eu lembro não parece o que tive
às vezes acho que são lembranças falsas
projetadas como um filme
são imagens fugidias, dispersas, ambíguas
Nada permanece nessa vida e eu nem fico triste
Que pelo menos sentisse!
A fumaça dos carros da noite solitária se confunde
Eu me pergunto onde está tudo o que vivi,
agora é tudo vão
porque o que eu lembro não parece o que tive
às vezes acho que são lembranças falsas
projetadas como um filme
são imagens fugidias, dispersas, ambíguas
Nada permanece nessa vida e eu nem fico triste
Que pelo menos sentisse!
domingo, maio 18, 2008
A gente vive ouvindo assobio dos homens na obra, dos caras que passam de carro ou bicicleta. Mas houve uma vez em que a forma de o cara me abordar foi deveras engraçada. Estava caminhando na rua da antiga casa da minh avó, quando passo por um grupos de rapazes, e um deles tocava violão. Ele me chama, e eu finjo que não escuto. Então ele muda abruptamente a canção...
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás
Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Ele podia ser o malandro que for, mas tenho de admitir que gostei. E tocava violão muito bem, diga-se de passagem!
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás
Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Ele podia ser o malandro que for, mas tenho de admitir que gostei. E tocava violão muito bem, diga-se de passagem!
terça-feira, maio 13, 2008
Tenho sonhado sempre com uma pessoa nada a ver. É estranho pra caramba. Noite sim, noite não, eu sonho com essa pessoa. Não que esse alguém nunca tenha significado nada pra mim, pelo contrário. Entretanto, não há nenhum motivo evidente que me leve a sonhar com a tal pessoa. Na verdade, pensando melhor, talvez eu deva avaliar com mais calma o que esses sonhos querem dizer.
segunda-feira, maio 05, 2008
sábado, maio 03, 2008
sexta-feira, maio 02, 2008
Você faz Comunicação... hum... deve ser comunicativa...
Eu sou do Jornalismo, porém anti-social. O que mais exijem das pessoas dessa área é que elas sejam "comunicativas". E eu com essa minha cara de poucos amigos. Na verdade tenho muitos colegas, conheço bastante gente, entretanto, é comum algumas pessoas dizerem que, num primeiro momento, acharam-me muito arredia, calada, tímida, para depois descobrirem uma moça brincalhona, festeira, palhaça mesmo.
Dizem que sou antipática, metida. Afirmam que tenho aquele ar blasé que se eleva com indiferença diante dos meros mortais. Mas a minha distância é sim uma timidez, um recato perante o desconhecido, um cuidado na aproximação. Antes prefiro sentir o ambiente para saber onde estou pisando.
Além do que eu não sou afeita a puxar papo forçado. Conversas sobre o tempo me irritam. Ser super simpática com quem mal conheço também. Prefiro que os papos surjam assim, sem mais. Como quando você derruba o lápis no chão e vê o nome da escola onde estudou na quinta série, e então pergunta se o dono do lápis também estudou lá, e quando, e se gostava, e comenta que havia um parque muito legal com um balanço, e que um guri maldito te derrubou e te deixou com marcas roxas.
Gosto assim. Entretanto, o tempo e a experiência têm me provado que devo mudar esse meu jeito, essa minha mania de ficar na minha. Às vezes as pessoas querem que você tome alguma atitude no sentido de procurar conhecê-las. De certa forma, elas querem se sentir importantes e saber que você tem algum interesse nelas. Senão pensam que são chatas, que você não quer amizade com elas, ou ainda que você não as considera dignas de sua atenção.
Dizem que sou antipática, metida. Afirmam que tenho aquele ar blasé que se eleva com indiferença diante dos meros mortais. Mas a minha distância é sim uma timidez, um recato perante o desconhecido, um cuidado na aproximação. Antes prefiro sentir o ambiente para saber onde estou pisando.
Além do que eu não sou afeita a puxar papo forçado. Conversas sobre o tempo me irritam. Ser super simpática com quem mal conheço também. Prefiro que os papos surjam assim, sem mais. Como quando você derruba o lápis no chão e vê o nome da escola onde estudou na quinta série, e então pergunta se o dono do lápis também estudou lá, e quando, e se gostava, e comenta que havia um parque muito legal com um balanço, e que um guri maldito te derrubou e te deixou com marcas roxas.
Gosto assim. Entretanto, o tempo e a experiência têm me provado que devo mudar esse meu jeito, essa minha mania de ficar na minha. Às vezes as pessoas querem que você tome alguma atitude no sentido de procurar conhecê-las. De certa forma, elas querem se sentir importantes e saber que você tem algum interesse nelas. Senão pensam que são chatas, que você não quer amizade com elas, ou ainda que você não as considera dignas de sua atenção.
segunda-feira, abril 21, 2008
terça-feira, abril 08, 2008
Eu, como boa amante dos domingos aconchegantes, inspiradores e sonolentos, não pude deixar de adorar este poema do Drummond!! Ah, que triste, mas hoje ainda é quarta-feita!!!
Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Eu não perdôo as aspas
É incrível como um mero sinal de pontuação pode ser utilizado como instrumento da falta de caráter e do uso indiscriminado das palavras. Condeno veementemente as malditas aspas. Esse aparente inócuo sinal de pontuação pode sim ser visto em alguns dos meus escritos, mas sua profunda iniquidade me chama atenção nos diversos textos que leio por aí.
As aspas encerram os laços de significação. Elas são por si só cínicas. Existe em meus dizeres um recorrente cinismo quando as escrevo... O que me chateia, em verdade, é a utilização delas como se representassem alguma verdade. Aspas são para apontar a reprodução de um pronunciamento, ou não dizem nada, ou são impregnadas de ironia, no meu ponto de vista. Não obstante, não são raros os casos em que alguns usam as sarcásticas aspas como forma de revestir de sobriedade qualquer argumento ou vocábulo enfático, ou mesmo cruel. Dessa forma, as aspas transmutam em polidez e racionalidade o que é deveras irracional e de mal gosto.
Explico: o cara vem e defende um conjunto de idéias estapafúrdias, e entre elas podemos ver as benditas aspas. É como dizer, "esses adolescentes nos semáforos são todos 'criminosos'". O emprego das aspas aí serve só para o autor da frase não se passar por reacionário, e então ele usa aspas em volta da palavra criminoso com o objetivo de ressarcir o peso que ela de fato tem. Destarte, pretende cristalizar sobre si a imagem do homem com consciência social, que não quis chamar o guri de criminoso. O menino, nas palavras dele, não deixou de sê-lo, só que agora é um criminoso entre aspas. Assim como em muitos escritos constam gays , mulheres, negros, pobres, todos entre aspas.
Lembro que o professor disse que o termo minoria merece aspas, por se tratar de um termo nativo, ou seja, que pertence à fala do cotidiano e não é um conceito sociológico propriamente dito. Estava certo o professor ao desconsiderar esse termo tão ridículo que fala sobre o sexo dos anjos. "Minoria" não explica nada sobre nossa sociedade, pois quem são as "minorias"? As mulheres são uma "minoria"? Numa tentativa tola de conceituação, poderíamos deflagrar o seguinte significado: "minorias" são formadas por todos aqueles que são vestidos com aspas. Afinal, esses usuários das aspas estão querendo enganar a quem?
As aspas encerram os laços de significação. Elas são por si só cínicas. Existe em meus dizeres um recorrente cinismo quando as escrevo... O que me chateia, em verdade, é a utilização delas como se representassem alguma verdade. Aspas são para apontar a reprodução de um pronunciamento, ou não dizem nada, ou são impregnadas de ironia, no meu ponto de vista. Não obstante, não são raros os casos em que alguns usam as sarcásticas aspas como forma de revestir de sobriedade qualquer argumento ou vocábulo enfático, ou mesmo cruel. Dessa forma, as aspas transmutam em polidez e racionalidade o que é deveras irracional e de mal gosto.
Explico: o cara vem e defende um conjunto de idéias estapafúrdias, e entre elas podemos ver as benditas aspas. É como dizer, "esses adolescentes nos semáforos são todos 'criminosos'". O emprego das aspas aí serve só para o autor da frase não se passar por reacionário, e então ele usa aspas em volta da palavra criminoso com o objetivo de ressarcir o peso que ela de fato tem. Destarte, pretende cristalizar sobre si a imagem do homem com consciência social, que não quis chamar o guri de criminoso. O menino, nas palavras dele, não deixou de sê-lo, só que agora é um criminoso entre aspas. Assim como em muitos escritos constam gays , mulheres, negros, pobres, todos entre aspas.
Lembro que o professor disse que o termo minoria merece aspas, por se tratar de um termo nativo, ou seja, que pertence à fala do cotidiano e não é um conceito sociológico propriamente dito. Estava certo o professor ao desconsiderar esse termo tão ridículo que fala sobre o sexo dos anjos. "Minoria" não explica nada sobre nossa sociedade, pois quem são as "minorias"? As mulheres são uma "minoria"? Numa tentativa tola de conceituação, poderíamos deflagrar o seguinte significado: "minorias" são formadas por todos aqueles que são vestidos com aspas. Afinal, esses usuários das aspas estão querendo enganar a quem?
segunda-feira, abril 07, 2008
Quando Olívia deixou de ser mulher
Quando me olhei no espelho e me vi sem os seios, senti que não era mais mulher. No ônibus, o homem absorto no decote da moça lembra-me do desejo que por mim ninguém terá. Não que eu não queira ir à praia ouvir o barulho fluente das ondas, caminhar pela areia macia catando conchas até ver o sol se pôr. Não que não deseje mais os homens que se entretem no jogo de futebol. Não que tenha deixado de adorar um bom copo de cerveja gelada em contraste com o calor do sol e sua luz fustigante, nem tenha perdido o gosto por me distrair a descascar os amendoins um por um. Entretanto, agora tenho vergonha deste meu corpo, não ousaria vestir uma roupa de banho, para desfilar como as moças bonitas que se estendem na areia mais para tomar olhares do que para tomar sol. O meu sutiã guarda um seio falso, devo ficar bem na roupa. Mal sabe o homem que me convidou para sair à noite, que não tenho mais o seio que me fazia mulher. Por isso lhe respondo com um não. Antes a dor de negar a vontade de estar com aquele rapaz, do que a humilhação de vê-lo desapontado a vestir o meu seio, e me entregar as minhas roupas, e chamar o taxi, para então se despedir com um beijo na testa como prova de polidez. Passo horas diante do espelho a chorar pela feminilidade perdida. Nos outdoors, as moças, tão formosas em sua quase nudez, invadem meu olhos repletas de feminilidade na passagem da rua enevoada de carros. Mulher no seu corpo, corpo de mulher, o que mais uma mulher deseja em si e observa nas outras é o corpo. Nunca mais um homem vai querer conhecer o sabor deles, nunca mais terei o prazer do toque no meu peito. Não sou mais mulher, nem sou também um homem, apenas alguém de quem arrancaram uma parte. Sou uma sobrevivente, a morte passou por perto. Que interessa ser uma sobrevivente?
sábado, abril 05, 2008
A posse
Hoje minha cadela ganhou um novo osso. Kika agora leva a vida a patrulhar o bendito, e rosnou quando passei por ela como se eu fosse por acaso levá-lo comigo. Kika acha que o mundo inteiro deseja o osso e conspira para tê-lo. Acredita que a qualquer hora ela o perderá, e que qualquer movimento meu seja para capturá-lo. Mesmo que eu só o tenha notado após perceber a sua raiva quando me viu passar por perto. Agora os dias dela giram em torno do seu querido osso: se ela está distante e ouve os passos de alguém se dirigindo para onde ele está, ela logo corre e o segura forte por entre os dentes para salvaguardá-lo. Até eu jogar um pequeno pedaço de pão na varanda, e ela seguir depressa, esquecendo-se de o osso consigo levar.
domingo, março 30, 2008
Eu quero uma música com meu nome. Há tantas músicas por aí com nome de mulher, como Luciana, Clarisse, Ligia, Gabriela, Bárbara, Maria, etc etc.
Veja esta música do Tom Jobim, eu quero uma música dessa pra mim!!!!!!!!!!!!!
Alguém tem que compor Tatiana ou então eu mudo meu nome pra Luiza!!!!
Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Veja esta música do Tom Jobim, eu quero uma música dessa pra mim!!!!!!!!!!!!!
Alguém tem que compor Tatiana ou então eu mudo meu nome pra Luiza!!!!
Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Acredito que as pessoas têm uma tendência a permanecer no mesmo lugar. É a tal da inércia. A voltar para os mesmos amores, aos mesmos lugares, às mesmas idéias... só que, ao mesmo tempo, elas querem a novidade, as emoções desconhecidas e o terreno perigoso. Entretanto, esse desejo parece sucumbir ao que as mantém no que transmite segurança, estabilidade, no que não é surpreendente nem irá conduzir a situações ameaçadoras, posto que inexploradas. Então pode tantas vezes trair amores, lugares, idéias, tradições: porque traiu antes a si mesmo.
terça-feira, março 25, 2008
Pimenta mexicana - ou Uma pequena obsessão
Era um dia chuvoso e eu saía do trabalho no fim da tarde, em um expediente incomum, pois meu horário é pela manhã, quando me dirijo à loja de conveniência situada no posto vizinho à Aperipê para comprar qualquer coisa que pudesse embrulhar a minha fome. Então eu vou pra lá, venho pra cá, olho os sorvetes, huuuum, não, não, eu quero algo salgado, huuuuumm, ah! Vou comprar uma torcida... huuuum, vamos ver lá lá lá, sabor cebola não, bacon não, ah! pimenta mexicana! É claro que levei o de pimenta mexicana! Quer coisa melhor do que o sabor quente da pimenta misturado à sensualidade latino-americana? Não né!
Sou uma mulher dos trópicos, uma anti-dama à beira de um ataque de nervos à la Almodóvar. Então merecia aquele salgadinho, que não era espanhol, mas tinha un sabor muy bueno si! O torcida de pimenta mexicana começava só um pouquinho apimentado para, ao fim, queimar a boca e me fazer lamber os dedos em pleno ponto esperando o ônibus que não chegava nunca.
Depois desse dia, encasquetei com o tal do salgadinho de pimenta mexicana. Às vezes a imagem de sua embalagem verdinha me vem à mente. A coisa chegou a um ponto que tá foda. Nesta semana, acho que na sexta, eu sentei ao lado de uma mãe que tinha um guri vestindo sunguinha e ensebado de areia da praia em seu colo, quando juro que senti um cheiro do torcida de pimenta mexicana vindo dele. Fiquei inspirando com força pra me certificar. Perguntei-me se o guri não teria acabado de comer o tal salgadinho, mas conclui que estava ruim dos miolos mesmo.
Acabei de chegar em casa e agora há pouco tive outra alucinação quando estava vindo pra cá. Ao passar por um posto que nem tinha loja de conveniência senti novamente o cheiro do torcida de pimenta mexicana, e quando estava bem em frente a uma loja de havaianas!!!!! Mas diabos, o que está acontecendo comigo? Será que vou sonhar com o diacho do salgadinho? Algum terapeuta poderia me ajudar? Algum publicitário da Torcida quer me pagar pra eu fazer um comercial?
Sou uma mulher dos trópicos, uma anti-dama à beira de um ataque de nervos à la Almodóvar. Então merecia aquele salgadinho, que não era espanhol, mas tinha un sabor muy bueno si! O torcida de pimenta mexicana começava só um pouquinho apimentado para, ao fim, queimar a boca e me fazer lamber os dedos em pleno ponto esperando o ônibus que não chegava nunca.
Depois desse dia, encasquetei com o tal do salgadinho de pimenta mexicana. Às vezes a imagem de sua embalagem verdinha me vem à mente. A coisa chegou a um ponto que tá foda. Nesta semana, acho que na sexta, eu sentei ao lado de uma mãe que tinha um guri vestindo sunguinha e ensebado de areia da praia em seu colo, quando juro que senti um cheiro do torcida de pimenta mexicana vindo dele. Fiquei inspirando com força pra me certificar. Perguntei-me se o guri não teria acabado de comer o tal salgadinho, mas conclui que estava ruim dos miolos mesmo.
Acabei de chegar em casa e agora há pouco tive outra alucinação quando estava vindo pra cá. Ao passar por um posto que nem tinha loja de conveniência senti novamente o cheiro do torcida de pimenta mexicana, e quando estava bem em frente a uma loja de havaianas!!!!! Mas diabos, o que está acontecendo comigo? Será que vou sonhar com o diacho do salgadinho? Algum terapeuta poderia me ajudar? Algum publicitário da Torcida quer me pagar pra eu fazer um comercial?
domingo, março 23, 2008
Ultimamente tenho percebido o quanto a busca pela profundidade foi um obstáculo para mim no sentido de constituir uma opacidade que me impedia de ver o que é evidente. Análises demais sobre o que foi dito, ou o dito pelo não-dito; a investigação dos fatos, ou a busca do que poderia ser e nunca existiu. Tudo isso afastou-me sempre de perceber os sinais mais claros, as palavras que cristalizavam tantas coisas... Mas fui atrás do significado contrário, tentei por vezes acreditar que a palavra era um mero disfarce. Investi forças na busca pelo sentido de certos fatos, como se eles também não fossem evidentes. Hoje percebo que o que foi não poderia ter sido de outra maneira, e o que foi dito poderia ser considerado também o que foi pensado.
O jornalista - esse dono da verdade e deus da opinião pública
Um determinado jornalista daqui do meu estado é o manda chuva de um jornal que, caso você torcer, sai sangue. Diante da revolta de um repórter que havia escrito uma matéria nos trinques, mas que logo depois teve seu árduo trabalho convertido pelo editor num monte de asneiras sensacionalistas, o nosso ganancioso jornalista emitiu a seguinte frase:
- Vai vender como água!
E vendeu mesmo. Daí que a gente se pergunta se o "povo" (quem é o povo?) quer isso mesmo. Se quer, toma, não é assim? Entretanto, sei que o grotesco desperta uma curiosidade cruel no ser humano, mas é preciso ter cuidado ao achar que a "opinião pública" (quem é a opinião pública?) é estúpida.
Jornalista tem mania de achar que sabe o que o "povo" quer. Eles chamam isso de "interesse público". Algumas vezes o tal do "interesse público" é, em verdade, o que um determinado grupo político quer. Ou o que a vontade de ficar rico do dono do jornal deseja.
Não bastasse a arrogância de dizer que o "povo" precisa disso, ou o que a "opinião pública" pensa daquilo, eles ainda se auto-intitulam formadores de opinião. Ainda estão no tempo da teoria hipodérmica e acham que há uma equação muito fácil na relação mídia e cidadãos: o que passa na TV, no rádio ou no jornal é aceito pelo "povo" como verdade. Mas jornalista não é formador de opinião coisa nenhuma: ele, no máximo, pode contribuir para o espectador ou leitor pensar de determinada forma sobre um certo assunto. Se jornalista fosse formador de opinião, ninguém teria opinião: só eles.
Esse profissional, o jornalista, também acha que é o dono da verdade. Diz isso para obter credibilidade junto ao seu público, pra vender muito jornal, como quem oferece uma mangaba boa na feira. A notícia boa, fresquinha, pra ser comprada nas bancas, é a notícia verdadeira. Sei que é complicado dizer que qualquer jornalista pode dizer qualquer coisa por não ter compromisso com a objetividade. Entretanto, acho que o grande problema da mídia não é ser objetiva ou não, mas sim a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos e magnatas da imprensa. A grande questão que precisa ser resolvida, pra mim, não é a eterna discussão sobre a objetividade, mas a democratização da mídia. Acho que mais vale um amplo debate com múltiplos discursos nos meios de comunicação promovido por diversos segmentos da sociedade, do que a preocupação sobre se a Globo está dizendo a verdade ou não.
No mais, eu tenho a infelicidade de ser um projeto de jornalista. E já me peguei falando em "interesse público" e em imparcialidade. Agora espero, francamente, sempre problematizar essas questões, e não virar "formadora de opinião" que acha que sabe tudo sobre o mundo e a "opinião pública".
- O que as pessoas vão pensar?
- O que eu quiser que elas pensem - respondeu o empresário da comunidação Charles Foster Kane em Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.
- Vai vender como água!
E vendeu mesmo. Daí que a gente se pergunta se o "povo" (quem é o povo?) quer isso mesmo. Se quer, toma, não é assim? Entretanto, sei que o grotesco desperta uma curiosidade cruel no ser humano, mas é preciso ter cuidado ao achar que a "opinião pública" (quem é a opinião pública?) é estúpida.
Jornalista tem mania de achar que sabe o que o "povo" quer. Eles chamam isso de "interesse público". Algumas vezes o tal do "interesse público" é, em verdade, o que um determinado grupo político quer. Ou o que a vontade de ficar rico do dono do jornal deseja.
Não bastasse a arrogância de dizer que o "povo" precisa disso, ou o que a "opinião pública" pensa daquilo, eles ainda se auto-intitulam formadores de opinião. Ainda estão no tempo da teoria hipodérmica e acham que há uma equação muito fácil na relação mídia e cidadãos: o que passa na TV, no rádio ou no jornal é aceito pelo "povo" como verdade. Mas jornalista não é formador de opinião coisa nenhuma: ele, no máximo, pode contribuir para o espectador ou leitor pensar de determinada forma sobre um certo assunto. Se jornalista fosse formador de opinião, ninguém teria opinião: só eles.
Esse profissional, o jornalista, também acha que é o dono da verdade. Diz isso para obter credibilidade junto ao seu público, pra vender muito jornal, como quem oferece uma mangaba boa na feira. A notícia boa, fresquinha, pra ser comprada nas bancas, é a notícia verdadeira. Sei que é complicado dizer que qualquer jornalista pode dizer qualquer coisa por não ter compromisso com a objetividade. Entretanto, acho que o grande problema da mídia não é ser objetiva ou não, mas sim a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos e magnatas da imprensa. A grande questão que precisa ser resolvida, pra mim, não é a eterna discussão sobre a objetividade, mas a democratização da mídia. Acho que mais vale um amplo debate com múltiplos discursos nos meios de comunicação promovido por diversos segmentos da sociedade, do que a preocupação sobre se a Globo está dizendo a verdade ou não.
No mais, eu tenho a infelicidade de ser um projeto de jornalista. E já me peguei falando em "interesse público" e em imparcialidade. Agora espero, francamente, sempre problematizar essas questões, e não virar "formadora de opinião" que acha que sabe tudo sobre o mundo e a "opinião pública".
- O que as pessoas vão pensar?
- O que eu quiser que elas pensem - respondeu o empresário da comunidação Charles Foster Kane em Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.
Acho uma coisa deveras interessante: grande parte das pessoas se manifesta contra a fabricação de casacos de pele por considerar crueldade arrancar peles de animais ainda agonizantes. Outros ficam com pena dos golfinhos nas mãos de um carniceiro. Há também quem não esteja nem aí pra nada, afinal, animais irracionais não têm alma, então os seres humanos podem dominá-los e explorá-los de todas as formas. Mas o que me instiga, em particular, são as pessoas que querem o fim das touradas, mas acham normal o abate e comem no Mc Donald's.
quarta-feira, março 19, 2008
Com o advento das páginas pessoais e sites de relacionamentos, criou-se uma rede de solidariedade entre as pessoas. Gente, eu nunca vi tanto amor como há nessa internet. É amor demais nos recados de fotolog e nos scraps do orkut. Basta uma menina botar uma foto dela na festa do cachorro da prima da tia do cunhado pra aparecerem não sei quantos comentários "saudadeeeeeeee", "te amooooo", "você está lindaaaa!", e etc. Já vi até duas moçoilas que viviam falando mal uma da outra trocando apelidinhos carinhosos em fotolog. No orkut, então, as pessoas têm o coação enorme. Se todo mundo falasse eu te amo ao vivo a quantidade de vezes que fala em scraps, ninguém ia dar bom dia, só "eu te amo". Só eu que não tenho esse amor todo dentro de mim? Haja saco!
A música é, entre todas as artes, a que mais influencia os costumes das pessoas. Vivemos em círculos sociais que têm muito a ver com nossas preferências musicais. A depender do tipo de música que nos agrada, podemos ir para tal show, detestar tal lugar, simpatizar com certas pessas, ter preconceito contra outras.
Nosso gosto musical influencia, inclusive, a nossa forma de vestir. Metaleiros, por exemplo, só usam preto. Indies adoram all star e camisas listradas. Reggaeiros amam mochilas com as cores da Jamaica. Pagodeiros acham que são baianos e usam colares dos filhos de Gandhi. E por aí vai.
Com essa divisão toda, fica difícil um pagodeiro namorar uma rockeira. Tudo porque eles não irão se encontrar, já que um estará na Live (a boite das patricinhas daqui) e a outra na ATPN (o antro dos rockeiros sergipanos). Se eles foram sentar pra conversar, provavelmente terão visões de mundo bem distintas e, mesmo que se interessem um pelo outro, vai ser dureza conciliar interesses na hora de escolher opções de lazer.
Agora nunca vi ninguém se reunir em grupinhos que gostam de Monet ou Duchamp, nem usar uma grife que tenha a ver com Godard.
Nosso gosto musical influencia, inclusive, a nossa forma de vestir. Metaleiros, por exemplo, só usam preto. Indies adoram all star e camisas listradas. Reggaeiros amam mochilas com as cores da Jamaica. Pagodeiros acham que são baianos e usam colares dos filhos de Gandhi. E por aí vai.
Com essa divisão toda, fica difícil um pagodeiro namorar uma rockeira. Tudo porque eles não irão se encontrar, já que um estará na Live (a boite das patricinhas daqui) e a outra na ATPN (o antro dos rockeiros sergipanos). Se eles foram sentar pra conversar, provavelmente terão visões de mundo bem distintas e, mesmo que se interessem um pelo outro, vai ser dureza conciliar interesses na hora de escolher opções de lazer.
Agora nunca vi ninguém se reunir em grupinhos que gostam de Monet ou Duchamp, nem usar uma grife que tenha a ver com Godard.
- Mulher, eu queria sair com ele. O que eu digo?
- Diga isso, que quer sair.
- Mas eu não vou parecer muito fácil?
- Se ele pensar dessa forma, você não deveria querer alguém assim, não é verdade?
Na minha visão, homens machistas são completamente dispensáveis. Se eles forem embora, melhor. Também não preciso de gente masoquista: aqueles que só querem aquilo que não está ao seu alcance e perdem o interesse por quem os corresponde. Quando deixamos de nos aventurar por pessoas masoquistas é porque algo mudou: também não gostamos mais de sofrer.
Gente que perde muito tempo com cu doce deixa de aproveitar bastante coisa. Joguinho pra lá, joguinho de cá, só entretem quem não tem inteligência suficiente para perceber que tudo é muito mais simples do que parece. Está certo que, muitas vezes, não somos inteligentes nesses assuntos, mas vale o esforço clarividente.
Outra coisa que me chama atenção: para mim, uma pessoa que "chega junto", que seduz, transmite a imagem de segurança. Dá-me a impressão de que confia no seu taco e não irá morrer se tomar um fora. Já aqueles que se fazem de misteriosos e dão voltas demais me parecem ou pessoas confusas, ou cretinas, ou que vestem uma armadura para lidar com aqueles que estão ao seu redor. Em todos esses casos, profundamente desinteressantes.
- Diga isso, que quer sair.
- Mas eu não vou parecer muito fácil?
- Se ele pensar dessa forma, você não deveria querer alguém assim, não é verdade?
Na minha visão, homens machistas são completamente dispensáveis. Se eles forem embora, melhor. Também não preciso de gente masoquista: aqueles que só querem aquilo que não está ao seu alcance e perdem o interesse por quem os corresponde. Quando deixamos de nos aventurar por pessoas masoquistas é porque algo mudou: também não gostamos mais de sofrer.
Gente que perde muito tempo com cu doce deixa de aproveitar bastante coisa. Joguinho pra lá, joguinho de cá, só entretem quem não tem inteligência suficiente para perceber que tudo é muito mais simples do que parece. Está certo que, muitas vezes, não somos inteligentes nesses assuntos, mas vale o esforço clarividente.
Outra coisa que me chama atenção: para mim, uma pessoa que "chega junto", que seduz, transmite a imagem de segurança. Dá-me a impressão de que confia no seu taco e não irá morrer se tomar um fora. Já aqueles que se fazem de misteriosos e dão voltas demais me parecem ou pessoas confusas, ou cretinas, ou que vestem uma armadura para lidar com aqueles que estão ao seu redor. Em todos esses casos, profundamente desinteressantes.
Quando viajo e estou no meio de um monte de gente, dou risadas gostosas, tiro onda, divirto-me muito. Mas de vez em quando me vem o instinto de ficar sozinha. Sempre preciso de momentos para estar só. Aprecio muito isso. Entretanto, as pessoas não entendem, e ficam perguntando como diabos uma pessoa que agora a pouco estava fazendo folia de repente foi se isolar num canto. Muitas vezes essa necessidade é confundida com tristeza repentina. Mas não é. A solidão não é triste: é apenas um encontro com o mundo.
terça-feira, março 18, 2008
terça-feira, março 11, 2008
domingo, março 09, 2008
Eu sempre escuto o capeta. Se tem dois caminhos pra seguir, eu sempre escolho o errado. Então tá muito na cara que se eu me meter ali eu vou me ferrar, mas eu tenho que testar, tenho que saber se vou me foder mesmo. Aí me meto nas piores confusões, e tudo isso com um feeling imenso. Não canso de quebar a cara.
sexta-feira, março 07, 2008
Madrigal
Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão
José Paulo Paes
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão
José Paulo Paes
quinta-feira, março 06, 2008
Da série "me and the gay guys", bem, só me faltava essa! Então minha mãe resolve fazer não sei que tipo de escova e pintar as unhas, e gastar uma fortuna no cabeleireiro. Ao chegar na porta da residência dele, onde funcionava o seu salão, minha mãe conta que o tal cabeleireiro descobriu que era gay. Ele agora morava junto com um homem, depois de passar 10 anos casado com uma mulher. Eu só me perguntava como diabos alguém demora tanto pra descobrir que não gosta de uma coisa, e sim de outra!!! Até que o ajudante dele vem atender a porta e pede para esperarmos na sala de estar. O tal ajudante ficava gritando peeeeeeeeeeeeeeega, enquanto assistia a um vídeo de uma festa que acontece na Espanha. A festa consiste na diversão imbecil de um povo besta, em que um touro fica correndo atrás das pessoas na rua, enquanto é segurado por um monte de marmanjos através de uma imensa corda.
Após um bom tempo diante daquele espetáculo deplorável (sim, eu não como carne, e daí?), finalmente eis que me surge o dito cujo, o cabelereiro. Estranhamente ele me olha de cima a baixo com uma cara que, quando alguém faz pra mim, eu interpreto que essa pessoa quer me pegar.
- Não, Tatiana, isso é coisa da sua cabeça! Ele é gay, oras!
Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Nem a última. Então ele começou a bater papo com minha mãe e, conversa vai, conversa vem, ele vez ou outra olhava pra mim. Até que minha mãe resolveu me apresentar a ele.
- Sua filha é tão bonita! Ela é toda encorpada! E tem umas coxas grossas, né? A primeira coisa que reparei quando a vi foram as coxas!
Um comentário desse vindo de um hetero seria levado como uma ofensa pela minha mãe. Mas por ter vindo de um gay, foi recebido com gracinha e risinhos dela. Saí de lá encucada e discutindo com minha mãe como diabos alguém demora dez anos pra descobrir que não gosta de uma coisa. Será que gosta das duas coisas?
Após um bom tempo diante daquele espetáculo deplorável (sim, eu não como carne, e daí?), finalmente eis que me surge o dito cujo, o cabelereiro. Estranhamente ele me olha de cima a baixo com uma cara que, quando alguém faz pra mim, eu interpreto que essa pessoa quer me pegar.
- Não, Tatiana, isso é coisa da sua cabeça! Ele é gay, oras!
Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Nem a última. Então ele começou a bater papo com minha mãe e, conversa vai, conversa vem, ele vez ou outra olhava pra mim. Até que minha mãe resolveu me apresentar a ele.
- Sua filha é tão bonita! Ela é toda encorpada! E tem umas coxas grossas, né? A primeira coisa que reparei quando a vi foram as coxas!
Um comentário desse vindo de um hetero seria levado como uma ofensa pela minha mãe. Mas por ter vindo de um gay, foi recebido com gracinha e risinhos dela. Saí de lá encucada e discutindo com minha mãe como diabos alguém demora dez anos pra descobrir que não gosta de uma coisa. Será que gosta das duas coisas?
terça-feira, março 04, 2008
Quando o homem de bem resolve avacalhar
Algo que me atrai muito no cinema são aqueles protagonistas que avacalham, pois, como diria o bandido da luz vermelha em filme homônimo de Rogério Sganzerla, "quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba!". Personagens como Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, em Tropa de Elite (2007), dirigido por José Padilha, Travis, incorporado por Robert de Niro em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese e Brad Pitt na pele de Tyler Durden em Clube da Luta (1999), de David Fincher, são bons exemplos de indivíduos doentes que vivem numa sociedade igualmente doente e se afogam na mais completa merda.
Capitão Nascimento é um homem cansado de subir em favela pra caçar traficantes e tem uma conduta profissional deplorável, que inclui torturar mulheres e adolescentes. Já Tyler Durden, o alter ego do narrador representado por Edward Norton, cria um clube onde marmanjos trocam porradas para sublimar as frustrações do cotidiano. Em Taxi Driver, Travis é um ex-soldado da Guerra do Vietnã que vira taxista e trabalha de madrugada, sendo que a única paixão da sua vida é ver filmes pornôs.
Todos eles representam o "cidadão de bem", aquele homem que paga seus impostos e cumpre seus deveres diante do Estado, mas que, em determinado momento, ficam esquizofrênicos, violentos e no limiar entre o "homem de bem" e o sociapata. O próprio Capitão Nascimento se revolta contra esse Estado e coloca a bandeira do BOPE em cima da bandeira do Brasil, que vestia o caixão do falecido policial Neto. O ato simbólico atenta para o fato de vivermos num caos em que o Estado parece não apresentar soluções, já que esse caos é a cristalização de diversas injustiças inerentes ao modelo de sociedade em que vivemos. Capitão Nascimento nos lembra que a única instituição do Estado que vai até a favela é a polícia. Nascimento irrita-se com a incubência de uma missão mirabolante, a Operação Papa, e se encarrega de fazer "uma limpeza" na favela para garantir o sono do papa. Ou seja, a elite utiliza a violência física da instituição da polícia para vigiar e punir os mais pobres, algo de que já falava Foucault, que ironicamente é citado no filme. Capitão Nascimento é o fruto de uma sociedade tomada pela barbárie, onde palavras como justiça adiquirem um outro sentido - sentido esse cada vez mais afastado dos ditames da sociedade civilizada, e cada vez mais próximo da justiça com as próprias mãos.
Em Taxi Driver, Travis, ao mesmo tempo em que quer trabalhar junto com o senador candidato a presidente, realiza um atentado contra ele logo após o seu discurso em praça pública. Travis é o cara frustrado, que se sente o rei da cocada preta depois de adiquirir um monte de armas, paladino da justiça ao ver um assalto e atirar no bandido - negro, e que toma um surra, ainda desmaiado, do dono da loja, um branco. Ele se rebela contra o Estado na figura de Palatine, o candidato à presidência, o mesmo Estado que o enviou para a Guerra do Vietnã. Também se sente o juiz do mundo ao atirar em cafetões para salvar uma menina de 12 anos que era explorada sexualmente. Travis, assim como Capitão Nascimento, desiste do Estado e resolve aplicar a justiça com seus próprios métodos, práticas essas que não são modelos de conduta típicos de um herói.
Só que esses anti-heróis muitas vezes são confundidos com verdadeiros heróis. O que significa, talvez, que vivemos num mundo repleto de sociopatas em potencial. Afinal, os "homens de bem" estão em toda parte bravejando que os direitos humanos foram feitos para bandidos - e muitas vezes defendendo uma regressão ao código de Hamurabi. Exemplo disso são comunidades no orkut como Capitão Nascimento para presidente, Verdades de Capitão Nascimento e Discípulos de Capitão Nascimento, todas com milhares de pessoas. O filme se tornou uma verdadeira febre e faz pensar sobre a responsabilidade de um diretor sobre o discurso presente numa obra cinematográfica - que, nesse caso, apresenta os fatos sob a perspectiva de um policial truculento. O fato lembra o celebrado Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. O filme apresentava o protagonista Alex, que depois de cometer diversas atrocidades, é condenado e exposto a punições atrozes amparadas pelo aparelho estatal. O dilema de Alex e o de Capitão Nascimento ou Travis é o mesmo: o dilema entre a violência individual e a violência institucionalizada, só que Alex, ao contrário de Nascimento e Travis, não se considerava nem pretendia ser um herói. O próprio Kubrick chegou a impedir a exibição de Laranja Mecânica na época, após ficar estarrecido ao saber que grupos de jovens imitavam as atitudes do bando liderado por Alex no filme.
O também violento Tyler Durden trocava porrada com outros marmanjos no Clube da Luta, um lugar onde eles deixavam sua civilidade de lado e brigavam, numa espécie de ritual catártico longe dos ditames da sociedade - ritual tão catártico quanto aquele apresentado em De Olhos Bem Fechados (1999), dirigido por Stanley Kubrick, só que o primeiro é dedicado ao instinto de morte, à agressividade, e o segundo ao instinto de Eros, ou à exacerbação da libido reprimida pelo moralismo. O personagem de Edward Norton faz, igualmente, o tipo "cidadão de bem", que vive para trabalhar e consumir, até entrar em pânico ao ter todas as coisas perdidas num incêndio em seu apartamento. Tyler Durden, seu alter-ego e líder do Clube da Luta, a representação em carne e osso da esquizofrenia de um "homem de bem", faz um verdadeiro manifesto contra a sociedade de consumo: "As coisas que você possui acabam te possuindo.Você só é realmente livre após perder tudo. Pois aí nao terá o que perder, e, enfim, estará livre". Assim como ocorreu com Laranja Mecânica, um psicopata também encontrou a expressão de sua mente doentia em Clube da Luta - ao ponto de entrar numa sala de projeção desferindo tiros contra a platéia, que achou que os tiros vinham da tela e não do mundo real. O criminoso era, assim como nossos protagonistas, um homem de bem: um médico.
Durden, Nascimento, Travis, todos eles eram homens que se encaixavam plenamente no que seria um homem respeitável na sociedade, todos eram conservadores, "homens de bem", até que começam a avacalhar. E os espectadores ficam que nem aqueles que estavam na sessão de Clube da Luta onde soaram os tiros - no limiar entre realidade e ficção, na esquizofrenia da sociedade do espetáculo. Os adoradores de Capitão Nascimento nos mostram que há muitos Travis entre nós.
Capitão Nascimento é um homem cansado de subir em favela pra caçar traficantes e tem uma conduta profissional deplorável, que inclui torturar mulheres e adolescentes. Já Tyler Durden, o alter ego do narrador representado por Edward Norton, cria um clube onde marmanjos trocam porradas para sublimar as frustrações do cotidiano. Em Taxi Driver, Travis é um ex-soldado da Guerra do Vietnã que vira taxista e trabalha de madrugada, sendo que a única paixão da sua vida é ver filmes pornôs.
Todos eles representam o "cidadão de bem", aquele homem que paga seus impostos e cumpre seus deveres diante do Estado, mas que, em determinado momento, ficam esquizofrênicos, violentos e no limiar entre o "homem de bem" e o sociapata. O próprio Capitão Nascimento se revolta contra esse Estado e coloca a bandeira do BOPE em cima da bandeira do Brasil, que vestia o caixão do falecido policial Neto. O ato simbólico atenta para o fato de vivermos num caos em que o Estado parece não apresentar soluções, já que esse caos é a cristalização de diversas injustiças inerentes ao modelo de sociedade em que vivemos. Capitão Nascimento nos lembra que a única instituição do Estado que vai até a favela é a polícia. Nascimento irrita-se com a incubência de uma missão mirabolante, a Operação Papa, e se encarrega de fazer "uma limpeza" na favela para garantir o sono do papa. Ou seja, a elite utiliza a violência física da instituição da polícia para vigiar e punir os mais pobres, algo de que já falava Foucault, que ironicamente é citado no filme. Capitão Nascimento é o fruto de uma sociedade tomada pela barbárie, onde palavras como justiça adiquirem um outro sentido - sentido esse cada vez mais afastado dos ditames da sociedade civilizada, e cada vez mais próximo da justiça com as próprias mãos.
Em Taxi Driver, Travis, ao mesmo tempo em que quer trabalhar junto com o senador candidato a presidente, realiza um atentado contra ele logo após o seu discurso em praça pública. Travis é o cara frustrado, que se sente o rei da cocada preta depois de adiquirir um monte de armas, paladino da justiça ao ver um assalto e atirar no bandido - negro, e que toma um surra, ainda desmaiado, do dono da loja, um branco. Ele se rebela contra o Estado na figura de Palatine, o candidato à presidência, o mesmo Estado que o enviou para a Guerra do Vietnã. Também se sente o juiz do mundo ao atirar em cafetões para salvar uma menina de 12 anos que era explorada sexualmente. Travis, assim como Capitão Nascimento, desiste do Estado e resolve aplicar a justiça com seus próprios métodos, práticas essas que não são modelos de conduta típicos de um herói.
Só que esses anti-heróis muitas vezes são confundidos com verdadeiros heróis. O que significa, talvez, que vivemos num mundo repleto de sociopatas em potencial. Afinal, os "homens de bem" estão em toda parte bravejando que os direitos humanos foram feitos para bandidos - e muitas vezes defendendo uma regressão ao código de Hamurabi. Exemplo disso são comunidades no orkut como Capitão Nascimento para presidente, Verdades de Capitão Nascimento e Discípulos de Capitão Nascimento, todas com milhares de pessoas. O filme se tornou uma verdadeira febre e faz pensar sobre a responsabilidade de um diretor sobre o discurso presente numa obra cinematográfica - que, nesse caso, apresenta os fatos sob a perspectiva de um policial truculento. O fato lembra o celebrado Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. O filme apresentava o protagonista Alex, que depois de cometer diversas atrocidades, é condenado e exposto a punições atrozes amparadas pelo aparelho estatal. O dilema de Alex e o de Capitão Nascimento ou Travis é o mesmo: o dilema entre a violência individual e a violência institucionalizada, só que Alex, ao contrário de Nascimento e Travis, não se considerava nem pretendia ser um herói. O próprio Kubrick chegou a impedir a exibição de Laranja Mecânica na época, após ficar estarrecido ao saber que grupos de jovens imitavam as atitudes do bando liderado por Alex no filme.
O também violento Tyler Durden trocava porrada com outros marmanjos no Clube da Luta, um lugar onde eles deixavam sua civilidade de lado e brigavam, numa espécie de ritual catártico longe dos ditames da sociedade - ritual tão catártico quanto aquele apresentado em De Olhos Bem Fechados (1999), dirigido por Stanley Kubrick, só que o primeiro é dedicado ao instinto de morte, à agressividade, e o segundo ao instinto de Eros, ou à exacerbação da libido reprimida pelo moralismo. O personagem de Edward Norton faz, igualmente, o tipo "cidadão de bem", que vive para trabalhar e consumir, até entrar em pânico ao ter todas as coisas perdidas num incêndio em seu apartamento. Tyler Durden, seu alter-ego e líder do Clube da Luta, a representação em carne e osso da esquizofrenia de um "homem de bem", faz um verdadeiro manifesto contra a sociedade de consumo: "As coisas que você possui acabam te possuindo.Você só é realmente livre após perder tudo. Pois aí nao terá o que perder, e, enfim, estará livre". Assim como ocorreu com Laranja Mecânica, um psicopata também encontrou a expressão de sua mente doentia em Clube da Luta - ao ponto de entrar numa sala de projeção desferindo tiros contra a platéia, que achou que os tiros vinham da tela e não do mundo real. O criminoso era, assim como nossos protagonistas, um homem de bem: um médico.
Durden, Nascimento, Travis, todos eles eram homens que se encaixavam plenamente no que seria um homem respeitável na sociedade, todos eram conservadores, "homens de bem", até que começam a avacalhar. E os espectadores ficam que nem aqueles que estavam na sessão de Clube da Luta onde soaram os tiros - no limiar entre realidade e ficção, na esquizofrenia da sociedade do espetáculo. Os adoradores de Capitão Nascimento nos mostram que há muitos Travis entre nós.
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Eu não consigo discutir com pessoas "de esquerda". É o mesmo que debater com crentes que batem na minha porta com uma bíblia debaixo do braço. Se um evangélico, ao saber que não acredito em Deus, esbravejaria "você vai arder no fogo do inferno!", alguém "de esquerda", numa discussão qualquer, seguiria pela falta de argumentação consistente e pela fala autoritária também. Experimente discordar de alguém "de esquerda", e aguarde as exclamações. Logo a pessoa "de esquerda" dirá:
- Você é um(a) reacionário(a)!!!!!
- Você é um(a) reacionário(a)!!!!!
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Engraçado como Hollywood mexe com a cabeça das pessoas. Quando eu era mais nova, sempre que via algum filme na TV a cabo falado em francês, espanhol, alemão, ou algum idioma que eu não reconhecesse, simplesmente mudava de canal. O mero fato de a língua falada não ser o inglês já me incomodava e, de alguma forma, era para mim um indicativo de que aquele seria um filme chato.
Hoje eu observo os cartazes do cinema localizado no shopping que deu nome ao bairro, Bairro Jardins, assim como o shopping Jardins. Eu vejo que aquela região virou um prolongamento do shopping, tanto que chegou a receber o seu nome. O que chamam cinema são as salas multiplex, e Hollywood parece ser o próprio cinema. E a minha cidade "Jardins" lembra uma Hollywood de Sergipe, em pleno Nordeste brasileiro.
Hoje eu observo os cartazes do cinema localizado no shopping que deu nome ao bairro, Bairro Jardins, assim como o shopping Jardins. Eu vejo que aquela região virou um prolongamento do shopping, tanto que chegou a receber o seu nome. O que chamam cinema são as salas multiplex, e Hollywood parece ser o próprio cinema. E a minha cidade "Jardins" lembra uma Hollywood de Sergipe, em pleno Nordeste brasileiro.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Ela faz cinema
Música do Chico Buarque que alguém dedicou pra mim.
Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que deus ela jura
Que tem coração
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim
Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que deus ela jura
Que tem coração
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim
domingo, fevereiro 24, 2008
A cara amiga Wenna é quem melhor compreende a minha personalidade. Peço encarecidamente que ela se encarregue, se possível, de falar sobre mim no meu enterro. Ninguém além dela conseguiria dizer coisas tão brilhantes a meu respeito como as seguintes geniais observações:
- "Você vive com a cabeça nas nuvens e com os pés no chão. Não sei como consegue fazer isso".
- "Tati, você não vale um ponto no BomClube!!!!"
- "Você vive com a cabeça nas nuvens e com os pés no chão. Não sei como consegue fazer isso".
- "Tati, você não vale um ponto no BomClube!!!!"
Inconsciente capitalista
Nossa mente nos prega cada peça! Eu, que sempre digo que não preciso de muito dinheiro, graças a deus, e não me importa, honey... Que só preciso de uma casa onde eu possa guardar meus amigos, meus discos e livros e filmes e nada mais... Veja só a ironia: sonhei que minha mãe havia herdado uma casa com cômodos transpassados por uma luz de tom acobreado, com sofás gigantes e macios, com piscina e vistas para o mar. Ao acordar, o susto:
- Por todos os deuses, será que no fundo no fundo eu queria ser rica?
- Por todos os deuses, será que no fundo no fundo eu queria ser rica?
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
As loucuras das pessoas apaixonadas só são realmente compreensíveis aos olhos daqueles que estão também apaixonados. Constatei isso ao ver que eu, pessoa que já morreu de amores o suficiente para ter sete vidas, não entendi direito a dor de uma amiga, a aflição da outra, a dedicação extrema de outra ainda ao seu amor. Eu reconhecia aquele sentimento, mas havia uma certa distância, é verdade. As coisas não faziam tanto sentido, e as soluções bem mais fáceis, as respostas óbvias, tudo muito na cara. Mas as pessoas não conseguem ver além do absurdo que é amar, e ficam presas numa armadilha da linguagem. Elas fazem teses absolutas e complexas sobre um simples olhar ou fala, e cometem o mesmo erro até o erro aprender que só o erro tem vez, como dizia Leminski. Enfim, as pessoas apaixonadas tornam-se mais analíticas, porém, mais estúpidas, e ficam mais sensíveis, não obstante, incapazes de perceber o mundo à sua volta.
domingo, janeiro 20, 2008
Tem muita gente que não suporta o tal domingo. Dizem que é um dia sem graça, chato até. Mas ora, eu sou totalmente a favor do domingo. É com dedicação religiosa que aprecio esse dia, deitada na cama me espreguiçando, ouvindo música, vendo filme, lendo um bom livro. Domingo é o melhor dia pra ficar só, pra botar ordem na casa, pra organizar as idéias, pra apreciar arte, pra viver o tédio na sua forma plena. Que venham os domingos, sempre assim, aconchegantes, inspiradores e sonolentos.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Até tu, Brutus?

Fiquei chocada ao saber que Glauber Rocha, o famoso cineasta do cinema novo, tinha feito um filme encomendado por Sarney. Sim, o mesmo Glauber de grandes obras como Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe tinha feito um filme a pedido de Sarney! O professor do núcleo onde estudo audiovisual chegou a defender o filme Maranhão 66, onde Glauber apresenta como pano de fundo para um discurso de José Sarney no ano de 1966, a situação precária em que o estado do Maranhão se encontrava, o que evidenciava também a pobreza e a desigualdade social do resto do país.
- Vocês vejam que, mesmo num filme com tudo pra ser chapa branca, o Glauber aproveita pra fazer um cinema de contestação, que fala da realidade do povo brasileiro.
Uma aluna ficou indignada com o tal filme e ainda ironizou:
- Engraçado, ele falou mal de Limite, do Mario Peixoto, por considerá-lo um filminho burguês imitação dos filmes europeus que falavam de questões exitencialistas, mas ele vem e faz um filme desse que é igualzinho a qualquer propaganda política. O Sarney só faltou chorar.
É. Houve gente que disse que foi uma pena mesmo o Glauber ter morrido tão cedo, mas que, pensando bem, ele provavelmente bateu as botas a tempo, antes que virasse um capacho de homens influentes "de esquerda", ou qualquer Arnaldo Jabor da vida.
Eu, particularmente, não tenho a opinar sobre se Glauber deveria ou não ter morrido cedo, mas ora francamente, odiei o tal filme que ele fez sobre Sarney. Ninguém me venha com história de denúncia sobre a sociedade, ou de defesa de um político que na época tinha um discurso reformista. Na obra, nós vemos um povo sofrido que precisa de um herói, um salvador da pátria: Sarney. Em nenhum momento assistimos a cidadãos, a sujeito históricos, mas apenas vemos pobres coitados, ó vítimas da fome, que têm como luz no fim do túneo um político demagogo envolvido pela sua retórica de deidade terrena. A última cena do filme mostra, logo após apresentar doentes e crianças esfomeadas, a finalização do discurso de Sarney, seguida pela câmera que aponta para as milhares de pessoas que aplaudiam as palavras de uma espécie de Sassá Mutema (que só veio surgir nas telas da novela da Globo 23 anos depois).
Alguns fãs mais ingênuos comentam que o filme, na verdade, mostra a contradição entre as promessas dos políticos e a realidade em que vivemos. Mas ora, uma ironia como essa caberia caso se referisse a um homem que já estava no poder, e não a um homem que almejava chegar ao poder com propostas de mudanças radicais direcionadas ao bem dos mais pobres. O filme não termina por ser uma brincadeira de Glauber com a cara de seu cliente, mas é, sim, uma propaganda política como qualquer outra, agregadora de capital simbólico a um homem público como qualquer outra. Esse filme de revolucionário não tem é nada. Não passa de uma forma que o Glauber Rocha arranjou pra pagar as contas. E todos precisamos pagar nossas contas, não é verdade? Só não venha me dizer que está em nome da revolução.
sábado, janeiro 12, 2008
Apesar de ser uma pessoa muito cética, veja só, percebi que tenho um medo danado de gatos pretos. Pois é. Caminhando pelas ruas um dia desse, entrei em pânico ao ver um inócuo gatinho preto. Angústia maior ainda foi vê-lo miando e se contorcendo por entre meus pés. Pensei: fudeu, hoje vai ser um dia de má sorte. Xô gato, xô.
sábado, janeiro 05, 2008
Da escola do amorismo sintético
Foi motivo de indignação na escola o dia em que a professora pediu para escrevermos uma poesia. Eu me perguntava, mas diacho, como vou fazer uma poesia? Então perguntei a uma colega como se escrevia essas coisas poéticas.
- Tem uma poesia que é assim:
"Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração". Aí é só você substituir pelo nome do menino que você gosta, e pronto, já é uma poesia.
Ah! Assim era fácil... Pois então, mas agora o meu novo questionamento era qual nome colocar. Eu tinha apenas 11 anos de vida e nenhum amor vivido. No máximo tinha começado a ter os primeiros sintomas de uma leve atração física por aquele menino da quarta série com quem eu vivia brigando, mas nada que me fizesse desenhar corações no caderno ou chorar ouvindo alguma música boba.
A solução era inventar algum amor. Coloquei o nome de um menino que não existia, e não recordo o nome agora. Depois entreguei a bendita poesia à professora. Não deu outra: foi bronca no dia seguinte.
- Teve gente, não vou citar nomes aqui, que colocou uma poesia assim:
Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração
Morri de vergonha.
- Poesia não é cópia, poesia é criação. O que vocês estão fazendo não é poesia.
Ah meu Deus! Como é que eu ia escrever uma poesia? Depois de ler muitos poemas e poesias eu começei a imaginar o que escrever.
- Já sei. Eles usam essas palavras difíceis.
Prontamente peguei o dicionário e, para cada palavra que me vinha à mente, eu procurava um sinônimo pouquíssimo conhecido. Ao terminar a minha "obra de arte", lia com orgulho, e já me considerava uma futura grande poetisa que marcaria a história da literatura brasileira e sobre quem um dia alguém escreveria uma biografia.
Segui até a professora cheia de orgulho e satisfação.
- Que palavra é essa?- disse ela, numa mescla de desprezo e dúvida.
A professora me deu 6, o que achei uma grande injustiça. Achava- me até mais esperta do que a professora, já que ela não sabia o significado da palavra imersa na minha poesia tão complexa, sentia-me uma poetisa póstuma, incompreendida. Hoje sei muito bem que minha poesia era ruim de doer e não fazia muito sentido.
Um dia eu percebi que poesias não são feitas seguindo uma receita que nos orienta colocar os ingredientes amor e palavras difíceis. Dá até pra fazer poesia sobre fome e com palavras fáceis!
- Tem uma poesia que é assim:
"Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração". Aí é só você substituir pelo nome do menino que você gosta, e pronto, já é uma poesia.
Ah! Assim era fácil... Pois então, mas agora o meu novo questionamento era qual nome colocar. Eu tinha apenas 11 anos de vida e nenhum amor vivido. No máximo tinha começado a ter os primeiros sintomas de uma leve atração física por aquele menino da quarta série com quem eu vivia brigando, mas nada que me fizesse desenhar corações no caderno ou chorar ouvindo alguma música boba.
A solução era inventar algum amor. Coloquei o nome de um menino que não existia, e não recordo o nome agora. Depois entreguei a bendita poesia à professora. Não deu outra: foi bronca no dia seguinte.
- Teve gente, não vou citar nomes aqui, que colocou uma poesia assim:
Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração
Morri de vergonha.
- Poesia não é cópia, poesia é criação. O que vocês estão fazendo não é poesia.
Ah meu Deus! Como é que eu ia escrever uma poesia? Depois de ler muitos poemas e poesias eu começei a imaginar o que escrever.
- Já sei. Eles usam essas palavras difíceis.
Prontamente peguei o dicionário e, para cada palavra que me vinha à mente, eu procurava um sinônimo pouquíssimo conhecido. Ao terminar a minha "obra de arte", lia com orgulho, e já me considerava uma futura grande poetisa que marcaria a história da literatura brasileira e sobre quem um dia alguém escreveria uma biografia.
Segui até a professora cheia de orgulho e satisfação.
- Que palavra é essa?- disse ela, numa mescla de desprezo e dúvida.
A professora me deu 6, o que achei uma grande injustiça. Achava- me até mais esperta do que a professora, já que ela não sabia o significado da palavra imersa na minha poesia tão complexa, sentia-me uma poetisa póstuma, incompreendida. Hoje sei muito bem que minha poesia era ruim de doer e não fazia muito sentido.
Um dia eu percebi que poesias não são feitas seguindo uma receita que nos orienta colocar os ingredientes amor e palavras difíceis. Dá até pra fazer poesia sobre fome e com palavras fáceis!
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Ieda diz:
por falar em viadinho, pop n é nome de cachorro gay?
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
eita ieda
Tati diz:
sei lá
Ieda diz:
é o nome do cachorro da avó de matheus
Ieda diz:
e é um poodle
Ieda diz:
e o da minha tia
Ieda diz:
q é lalinho
Ieda diz:
o nome de guerra
Ieda diz:
mas o nome verdadeiro é lion
Ieda diz:
é um leão com uma bola rosa
Ieda diz:
e colorida
Ieda diz:
p brincar
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
tadinho ieda
Tati diz:
eu ja vi um cachorro gay
Tati diz:
comendo outro
Tati diz:
o povo ficou admirado
Tati diz:
não queria deixar
Ieda diz:
onde?
Tati diz:
na fazenda da amiga da minha mãe
Ieda diz:
os cachorros de david são assim
Tati diz:
tá vendo
Ieda diz:
ahh
Tati diz:
o povo é homofóbico
Ieda diz:
mikinho é doido p comer rabito
Tati diz:
se fosse cachorro e cachorra iam achar bonito
Ieda diz:
miquinho é pequeno
Ieda diz:
e rabito é grande
Ieda diz:
com ctz
Ieda diz:
e miquinho começa c as preliminares
Ieda diz:
o lambendo
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
caralho
Tati diz:
lambendo o cu ne?
Tati diz:
velho
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
a gente ta foda hj
Ieda diz:
n
Ieda diz:
o rosto e vai descendo
Ieda diz:
tá msm
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
por falar em viadinho, pop n é nome de cachorro gay?
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
eita ieda
Tati diz:
sei lá
Ieda diz:
é o nome do cachorro da avó de matheus
Ieda diz:
e é um poodle
Ieda diz:
e o da minha tia
Ieda diz:
q é lalinho
Ieda diz:
o nome de guerra
Ieda diz:
mas o nome verdadeiro é lion
Ieda diz:
é um leão com uma bola rosa
Ieda diz:
e colorida
Ieda diz:
p brincar
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
tadinho ieda
Tati diz:
eu ja vi um cachorro gay
Tati diz:
comendo outro
Tati diz:
o povo ficou admirado
Tati diz:
não queria deixar
Ieda diz:
onde?
Tati diz:
na fazenda da amiga da minha mãe
Ieda diz:
os cachorros de david são assim
Tati diz:
tá vendo
Ieda diz:
ahh
Tati diz:
o povo é homofóbico
Ieda diz:
mikinho é doido p comer rabito
Tati diz:
se fosse cachorro e cachorra iam achar bonito
Ieda diz:
miquinho é pequeno
Ieda diz:
e rabito é grande
Ieda diz:
com ctz
Ieda diz:
e miquinho começa c as preliminares
Ieda diz:
o lambendo
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
caralho
Tati diz:
lambendo o cu ne?
Tati diz:
velho
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
a gente ta foda hj
Ieda diz:
n
Ieda diz:
o rosto e vai descendo
Ieda diz:
tá msm
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Tem músicas das quais a gente não gosta numa primeira escutada
Aí então a gente ouve de novo
e ela se incorpora e toma forma na nossa alma
Mas para percebê-la era preciso estar com os sentidos dispostos
Porque senão seria apenas mais uma canção
que a gente não guarda no coração, não lembra na madrugada
que fica, com toda sua beleza e graça, cantarolando sozinha no ar
cantando até se acabar
porque ninguém a pôs de novo pra tocar.
Aí então a gente ouve de novo
e ela se incorpora e toma forma na nossa alma
Mas para percebê-la era preciso estar com os sentidos dispostos
Porque senão seria apenas mais uma canção
que a gente não guarda no coração, não lembra na madrugada
que fica, com toda sua beleza e graça, cantarolando sozinha no ar
cantando até se acabar
porque ninguém a pôs de novo pra tocar.
Às vezes pego os anseios do futuro
e os sinto como se fossem recordações
é um tal convencimento das ilusões
que me faz tomar premonições por antigos acontecimentos
Nunca vi maior fingimento
Fazer do desejo que nunca aconteceu
Um retrato na estante
Mas, não são anseios, lembranças e sonhos
coisas semelhantes?
e os sinto como se fossem recordações
é um tal convencimento das ilusões
que me faz tomar premonições por antigos acontecimentos
Nunca vi maior fingimento
Fazer do desejo que nunca aconteceu
Um retrato na estante
Mas, não são anseios, lembranças e sonhos
coisas semelhantes?
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Sobre as coisas que eu não considero importantes
Eu não considero o natal importante. Nem colação de grau. E tive que ouvir boas broncas nessa semana por não dar a mínima pra esses dois eventos. Foram broncas das boas, que me fizeram rever algumas das minhas convicções.
Está certo. Eu admito. Deixei de gostar do natal desde que aprendi essas coisas sobre a celebração do consumismo na adolescência através das bandas de rock. É verdade, eu virei ateísta desde que me deparei com a tal da dúvida que move todos os debates filosóficos na faculdade. E, no meu caso, a dúvida levou ao ateísmo. Daí eu não me emociono mais ao ver um presépio, eu passei a odiar ouvir Simone cantando uma versão brasileira Herbert Richards de "What a wonderful world", eu não sinto vontade de dizer Feliz Natal, etc etc etc...
Agora vamos à colação de grau. Eita negocinho sem graça dos infernos. Eu fui ver a colação de uma amiga, mas pense na zuada, naquela ruma de gente gritando, e apitando, e o calor, a falta de cadeiras pra sentar... PUTA QUE PARIU ODIEI EIN. Também já vendi rifas pra festinha de formatura, e odiei igualmente encher o saco dos outros pra vender rifa de DVD, MP4, a porra... E PIOR, passar a manhã inteira debaixo do sol numa feira de roupas usadas!!! Resultado: desisti dessas celebrações de formandos... Pra colação de grau não vou nunca mais, nem pra minha! E acabei não indo para a de outra aminha minha que colou grau recentemente.
Bem, mas, como havia dito anteriormente, eu tive que rever isso tudo. Está certo que o natal não é importante pra mim, mas e se minha mãe quer que eu esteja com ela nesta data? E se ela quiser que eu vá à missa com ela? Fazer o quê? E a minha amiga, que fez a colação e eu não compareci, passou uma hora me dando sermão porque não fui. Só quando vi os olhos dela cheios de lágrimas, que não chegaram a sair, é que me dei conta do quanto aquilo era importante pra ela. "Eu passei dois anos planejando tudo isso", disse, indignada.
É, se era importante o natal pra minha mãe e a colação de grau pra minha amiga, eu também deveria dar a devida importância em respeito a elas. Lembrei-me de quando eu me apresentei no colégio na quadrilha... Recordo que chorei porque queria muito que ela estivesse lá, mas ela não considerava importante...
Está certo. Eu admito. Deixei de gostar do natal desde que aprendi essas coisas sobre a celebração do consumismo na adolescência através das bandas de rock. É verdade, eu virei ateísta desde que me deparei com a tal da dúvida que move todos os debates filosóficos na faculdade. E, no meu caso, a dúvida levou ao ateísmo. Daí eu não me emociono mais ao ver um presépio, eu passei a odiar ouvir Simone cantando uma versão brasileira Herbert Richards de "What a wonderful world", eu não sinto vontade de dizer Feliz Natal, etc etc etc...
Agora vamos à colação de grau. Eita negocinho sem graça dos infernos. Eu fui ver a colação de uma amiga, mas pense na zuada, naquela ruma de gente gritando, e apitando, e o calor, a falta de cadeiras pra sentar... PUTA QUE PARIU ODIEI EIN. Também já vendi rifas pra festinha de formatura, e odiei igualmente encher o saco dos outros pra vender rifa de DVD, MP4, a porra... E PIOR, passar a manhã inteira debaixo do sol numa feira de roupas usadas!!! Resultado: desisti dessas celebrações de formandos... Pra colação de grau não vou nunca mais, nem pra minha! E acabei não indo para a de outra aminha minha que colou grau recentemente.
Bem, mas, como havia dito anteriormente, eu tive que rever isso tudo. Está certo que o natal não é importante pra mim, mas e se minha mãe quer que eu esteja com ela nesta data? E se ela quiser que eu vá à missa com ela? Fazer o quê? E a minha amiga, que fez a colação e eu não compareci, passou uma hora me dando sermão porque não fui. Só quando vi os olhos dela cheios de lágrimas, que não chegaram a sair, é que me dei conta do quanto aquilo era importante pra ela. "Eu passei dois anos planejando tudo isso", disse, indignada.
É, se era importante o natal pra minha mãe e a colação de grau pra minha amiga, eu também deveria dar a devida importância em respeito a elas. Lembrei-me de quando eu me apresentei no colégio na quadrilha... Recordo que chorei porque queria muito que ela estivesse lá, mas ela não considerava importante...
terça-feira, dezembro 11, 2007
Tal mãe, tal filha
Para a minha mãe eu gostaria de dedicar todos os sonhos que ela não realizou em si mesma
e realizou em mim
Mãe, obrigada por tudo
Desculpa se às suas expectativas todas,
Eu não atendi
Pelo que eu não fiz, me perdoa como se perdoa a si mesma
E por tudo que fiz,
Viva como se pertencesse a ti.
e realizou em mim
Mãe, obrigada por tudo
Desculpa se às suas expectativas todas,
Eu não atendi
Pelo que eu não fiz, me perdoa como se perdoa a si mesma
E por tudo que fiz,
Viva como se pertencesse a ti.
terça-feira, dezembro 04, 2007
Não adianta. Eu tenho a leve impressão de que a gente sabe, desde o primeiro encontro, se vai se apaixonar por alguém. Não que a gente se apaixone assim, de cara, mas é aquele lance de "alguma coisa acontece no meu coração..." Há alguma forma de encantamento, uma vontade de estar junto, uma admiração repentina... E se isso não ocorrer desde a primeira vez, não ocorrerá nunca mais. Podem até passar juntos meses, anos, mas nunca será como a paixão que toma a gente por inteiro.
E de cara é possível perceber, assim, que este será só mais um caso... É interessante aproveitar os casos na sua autêntica forma. Apreciar a aventura que o amor romântico não oferece: conhecer novas pessoas, mesmo que superficialmente, encanta. Não superficialmente no sentido pejorativo da palavra, mas entenda que trata-se de se deleitar com os pequenos gestos do outro que logo irá partir, ou você irá partir, entenda que é tudo pela efemeridade. E a efemeridade nada tem de inferior à "eternidade" prometida no amor romântico. A efemeridade é apenas a falta de promessas. Há também beleza nisso, pois há beleza até naquilo que não se tornou uma grande paixão. E é uma beleza simples, às vezes até nem permanece na memória.
Dá pra saber que eu nunca vou me apaixonar por você. Dá pra saber que eu nunca ia me apaixonar por você. Dá pra saber que eu ia me apaixonar por você.
Dá pra saber, mas, no fim de tudo, aquilo que não se tornou amor, o que não doeu nem trouxe tanta felicidade, o que não mereceu uma música, um porre no bar, uma declaração no meio da praça, o que não dá nem saudade, tem a sua própria beleza. A beleza do que, na vida, não teve muita importância. E boa parte da vida é feita do que não tem tanta importância.
E de cara é possível perceber, assim, que este será só mais um caso... É interessante aproveitar os casos na sua autêntica forma. Apreciar a aventura que o amor romântico não oferece: conhecer novas pessoas, mesmo que superficialmente, encanta. Não superficialmente no sentido pejorativo da palavra, mas entenda que trata-se de se deleitar com os pequenos gestos do outro que logo irá partir, ou você irá partir, entenda que é tudo pela efemeridade. E a efemeridade nada tem de inferior à "eternidade" prometida no amor romântico. A efemeridade é apenas a falta de promessas. Há também beleza nisso, pois há beleza até naquilo que não se tornou uma grande paixão. E é uma beleza simples, às vezes até nem permanece na memória.
Dá pra saber que eu nunca vou me apaixonar por você. Dá pra saber que eu nunca ia me apaixonar por você. Dá pra saber que eu ia me apaixonar por você.
Dá pra saber, mas, no fim de tudo, aquilo que não se tornou amor, o que não doeu nem trouxe tanta felicidade, o que não mereceu uma música, um porre no bar, uma declaração no meio da praça, o que não dá nem saudade, tem a sua própria beleza. A beleza do que, na vida, não teve muita importância. E boa parte da vida é feita do que não tem tanta importância.
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