1- Introdução
Governador do estado, secretário municipal de Educação, presidente da república. Antes de ocupar cargos que expressam capital político objetivado, muitos desses profissionais da política passaram pelos chamados movimentos sociais, sejam eles o Movimento Estudantil, o Movimento dos Sem Terra, entidades ligadas à Igreja Católica, sindicatos, associações de moradores, organizações não-governamentais, entre outros.
O presente artigo traz uma breve avaliação da relação entre a militância em movimentos coletivos e a obtenção de capital político. O prestígio conquistado por aqueles que militaram nesses movimentos costuma ocorrer nos partidos de esquerda, que têm uma maneira militantista de conceber a política, e apresentam certa proximidade com tais movimentos. Dessa forma, este trabalho traz as avaliações de Coradini e Gaglietti a respeito da socialização política dos militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) em Porto Alegre.
Ambos os autores citados anteriormente são muito influenciados pela perspectiva de Bourdieu em seus estudos. O conceito de habitus, de que fala Bourdieu, será aplicado neste trabalho para ajudar na compreensão da relação entre militantismo e obtenção de capital político. Essa noção será fundamental para entender a forma como a passagem dos militantes por movimentos sociais contribui para o conhecimento a respeito das regras do jogo da política.
Novamente, Bourdieu foi de fundamental importância para compreender melhor a conduta dos militantes através da sua avaliação a respeito do interesse. Bourdieu dirime a visão encantada e ingênua a respeito do desinteresse dos militantes, que muitas vezes se apresentam ou são vistos como pessoas desinteressadas, pois seriam indivíduos comprometidos acima de tudo com a coletividade. A noção de lucro simbólico e as recompensas encontradas na sociedade para o “desinteresse”, de que trata Bourdieu, ajudam a construir uma perspectiva mais aprofundada a respeito das diversas motivações e recompensas da militância pela atuação em movimentos coletivos.
Se este trabalho apresenta as aproximações entre o campo político e o campo militante, é importante ressaltar também as distinções entre essas duas esferas, diferenças essas que contribuíram para a tentativa de definição de um conceito de capital militante, proposta por Frédérique Matonti e Franck Poupeau. Ao mesmo tempo em que se afastam, os capitais político e militante se aproximam na medida em que o capital militante pode ser convertido em capital político.
Se a entrada nos movimentos sociais pode estar relacionada à defesa de “causas” ligadas ao bem comum, nos movimentos coletivos também podem ser dados os primeiros passos de futuros prefeitos, governadores, entre outros, no sentido de acumular conhecimentos sobre como se movimentar no campo político. Através da militância em movimentos sociais, os profissionais da política podem tanto obter algum aprendizado necessário para serem bem sucedidos no jogo da política, como podem conseguir prestígio dentro da política partidária, em se tratando dos partidos de esquerda, que valorizam a participação em movimentos coletivos.
2- Primeiros passos na militância
Mauro Gaglietti (2003), em seu estudo sobre os militantes do Partido dos Trabalhadores da cidade de Porto Alegre, observa que a maior parte dos militantes do PT passa primeiro pelo engajamento em algum movimento coletivo para então adentrar na política partidária. Os dados apresentados por Gaglietti (2003, p. 88) apontam que 63% dos militantes começaram a atuar no PT quando estavam no Movimento Estudantil, 8.5% em sindicatos, e 23% nos movimentos de juventude ligados à Igreja Católica.
Percebe-se que a maioria dos militantes do PT iniciou a militância quando integrava o Movimento Estudantil. Gaglietti (2003, p.94) mostra que grande parte dos militantes estudou em instituições públicas, entidades onde o Movimento Estudantil é mais forte devido à influência dos discursos de esquerda de determinados professores e do contato que os estudantes têm com manifestações como a greve.
Segundo Coradini (2002, p. 109), a política partidária, para os militantes dos partidos de esquerda, nunca está desvinculada de outras esferas de militância, como as associadas ao Movimento Estudantil, sindicatos e movimentos apoiados por igrejas. Coradini (2002, p.114) mostra ainda que o baixo nível de escolaridade é compensando em alguns momentos pela atuação em movimentos sociais, como é o caso da responsável pelo Gabinete de Relações Comunitárias, uma ocupante de cargo do primeiro escalão sem curso superior, mas vasta experiência na “militância comunitária”. Já Gaglietti (2003, p.93) aponta que o baixo nível de escolaridade é compensando pelo capital político acumulado em movimentos sociais principalmente entre aqueles que participaram de organizações clandestinas de esquerda nas décadas de 60 e 70 e no início de 80.
Coradini (2002, p. 109) ressalta que a militância em movimentos sociais influencia a forma de os militantes do PT lidarem com a administração pública. Os militantes levam para sua atuação uma forma militantista de conceber a política, e instrumentalizam seus conhecimentos obtidos em instituições como a universidade. Eles aproveitam diversos valores defendidos por movimentos sociais, como “participação popular” e “gestão democrática”, como também utilizam de forma instrumental teorias das Ciências Sociais, do Direito, entre outros, para colocá-las a serviço da prática. Essa perspectiva militantista de ver a política dá um sentido de manifestada ideologização do trato das políticas públicas, indo para além da valorização da competência técnica e marcando a administração com um sentido de missão em busca de justiça social.
3 – “Desinteresse” e militantismo
Na definição de Gaglietti (2003, p. 138) a respeito dos padrões de militância, muitos militantes advindos dos movimentos sociais se enquadram em seu primeiro padrão, chamado de missão. De acordo com Gaglietti, esses militantes atribuem uma função messiânica à política, baseada na devoção a uma “causa” vinculada aos ideais socialistas e à Teologia da Libertação. Tais militantes eram influenciados pelas teorias marxistas e buscavam a construção de uma sociedade comunista, ou, no caso dos militantes cristãos, traçavam o vínculo entre o comunismo de Marx e os valores de amor ao próximo defendidos por Cristo. O exercício de um cargo por esses militantes é visto como uma oportunidade de contribuir para o bem coletivo, e não como uma forma de ascender na hierarquia política.
Dessa forma, muitos militantes podem parecer desinteressados no desempenho de suas funções. Entretanto, Bourdieu (1988, p.137) tem uma noção de interesse que vai para além das finalidades econômicas e que abarca os conceitos de lucro simbólico, capital simbólico, interesse simbólico. De acordo com o autor, a noção de interesse funciona como um instrumento de ruptura com a mistificação das condutas humanas. Ele afirma que os agentes sociais não realizam atos arbitrários e que não fazem sentido para as Ciências Sociais, mas suas ações são motivadas por interesses, manifestos ou não, estratégicos ou não.
“Ao introduzir a noção de capital simbólico (e de lucro simbólico), de certa maneira, radicalizamos o questionamento da visão ingênua: as ações mais santas – a ascese ou o devotamento mais extremos- poderão ser sempre suspeitas (e historicamente o foram, por certas formas extremas de rigorismo) de terem sido inspiradas pela busca do lucro simbólico de santidade ou de celebridade” (Bourdieu, 1988, p.150)
Bourdieu (1988, p.152) defende que o desinteresse acontece nos universos sociais onde ele é reconhecido, como é o caso do campo militante. Destarte, um ato aparentemente desinteressado pode trazer lucro simbólico para o agente social. No campo militante, em que a dedicação total à “causa”, e a submissão ao bem coletivo são vistos com bons olhos pelos demais agentes sociais, o militante obtém capital simbólico na sua dedicação aos valores de justiça social. Como afirma Bourdieu (1988, p. 153), a universalização apresenta seus lucros, já que em quaisquer sociedades a submissão ao bem comum é tida como conduta virtuosa.
Gaglietti (2003, p.127) mostra os fatores que influenciam na conquista de um cargo na administração pública, entre eles, o tempo de dedicação ao partido, a intensidade do engajamento, a fidelidade à legenda, a defesa das chamadas minorias, e, por último, a atuação em movimentos sociais. De acordo com o autor, os militantes mais ligados a esses movimentos coletivos têm mecanismo mais sofisticados para ocultar qualquer forma de interesse numa suposta compensação pela sua militância. Os militantes não costumam defender a sua nomeação para algum cargo, o que geralmente é feito por outro militante. Segundo Gaglietti (2003, p. 127), quanto maior é a influência dos ideais socialistas e da Teologia da Libertação sobre o militante, mais forte é a ocultação de possíveis interesses na obtenção de cargos ou na ascensão na hierarquia partidária.
4- As regras do jogo
“Com efeito, nada é menos natural do que o modo de pensamento e de ação que é exigido pela participação no campo político: como o habitus religioso, artístico ou científico, o habitus do político supõe uma preparação especial. É, em primeiro lugar, toda a aprendizagem necessária para adquirir o corpus de saberes específicos (teorias, problemáticas, conceitos, tradições históricas, dados econômicos, etc.) produzidos e acumulados pelo trabalho político dos profissionais do presente e do passado ou das capacidades mais gerais tais como o domínio de uma certa linguagem e de uma certa retórica política, a do tribuno, indispensável nas relações com os profanos, ou a do debater, necessária nas relações entre profissionais. (Bourdieu,1930, p. 169)
A política é descrita por Bourdieu como um jogo, e o bom jogador é aquele que conhece as regras do jogo. A noção de habitus descrita por Bourdieu (1988, p. 144) define que o habitus estrutura a percepção do universo em questão, bem como as formas de agir nesse universo. No campo político, o habitus abarca as competências cognitivas para compreensão desse mundo, constitui um conjunto de conhecimentos que permite interpretar os signos próprios do âmbito da política, bem como o sentido de como movimentar ‘as peças no tabuleiro’.
De acordo com Bourdieu (1989, p. 22), o habitus representa um conjunto de práticas distintivas de um determinado espaço social. As diferenças que tornam o espaço político um espaço diferente de outros espaços sociais formam uma linguagem, uma série de signos distintivos, de esquemas classificatórios e de categorias de percepção.
A leitura desses signos, o domínio da linguagem própria do espaço político e a incorporação dos seus princípios de di-visão do mundo social, são apreendidas inicialmente na militância em movimentos coletivos e, posteriormente, na militância na política partidária. O engajamento em movimentos sociais forneceu recursos importantes para os militantes, recursos esses que foram potencializados na sua entrada num partido político, como foi observado por Gaglietti (2003, p. 112). Os militantes observados por Gaglietti (2003, p. 105) adquiriram no movimento estudantil competências como a capacidade de falar bem em público, qualidade adquirida após participarem de diversas reuniões, assembléias, entre outros. O domínio de uma linguagem e de uma retórica política de que fala Bourdieu (1930, p. 169) pôde ser adquirido em parte nos espaços de socialização política encontrados em movimentos sociais.
As diversas experiências que os militantes têm nos movimentos coletivos contribuem tanto para lhes auferir prestígio junto aos demais militantes do PT, como foi observado nos estudos de Gaglietti (2003) e Coradini (2002), como oferecem recursos para incorporação do habitus da política pelos militantes. A militância em movimentos sociais é um dos fatores levados em conta para a obtenção de cargos na administração pública.
De acordo com Bourdieu (1930, p. 195), quanto mais o capital político se institucionaliza, tanto mais os militantes se distanciam da “causa” e se infiltram na busca por clientes, ou eleitores, e se engajam na conquista do aparelho, que pode lhes oferecer um retorno material ou simbólico. Dessa forma, quanto mais o capital político se institucionaliza, quanto mais postos os militantes de um determinado partido ocupam na administração pública, maior é a dedicação à reprodução do aparelho. Com a entrada no partido e o contato com a máquina pública, os militantes costumam se afastar dos movimentos sociais, como mostra Gaglietti (2003, p. 91), ao afirmar que 85% dos seus entrevistados que ocupam cargos na administração pública não participam de movimentos sociais, sendo que 94,5% deles iniciaram a militância quando pertenciam a movimentos coletivos.
5- Capital militante e capital político
Apesar da aproximação entre os movimentos coletivos e a política partidária, e as formas de conversão da experiência em movimentos sociais em capital político, é importante traçar os limites entre capital militante e capital político. Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004) formularam uma tentativa de definição de capital militante por entenderam que este é um universo do qual o conceito de capital político não dá conta. De acordo com Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004, p. 4), o capital político funda-se na crença que um grupo dedica a uma pessoa socialmente designada, e é baseado numa espécie de fetichismo político através do qual o grupo se identifica e se reconhece na autoridade do portador do capital político. Já o capital militante é muito instável.
“Portanto, o capital militante distingue-se do capital político, o qual é em larga medida um capital de função nascido da autoridade reconhecida pelo grupo e, por essa razão, ‘instável’, incorporado sob forma de técnicas, de saberes e savoir-faire mobilizáveis em ações coletivas, lutas inter ou intra-partidárias, mas também exportáveis, conversíveis em outros universos, portanto, suscetíveis de facilitar certas ‘reconversões’” (Matonti e Poupeau, 2004, p.5)
O que diferencia, essencialmente, o capital militante do capital político é o fetichismo que envolve o capital político e a forma como ele é mais unificado e vinculado à crença na autoridade de uma pessoa socialmente designada e na autoridade da instituição, o partido, a que essa pessoa pertence. O capital militante é mais descentrado, e apresenta um aprendizado de técnicas, de um habitus, propriamente do campo militante, um saber acumulado em manifestações e demais ações coletivas, bem como na vivência dos conflitos dentro do partido e entre os militantes de diversas tendências, ou entre os militantes de diversos partidos. O capital militante pode ser convertido para outros universos, mas Poupeau e Matonti (2004, p. 9), afirmam que ainda é necessário buscar conhecer as lógicas pelas quais o capital militante é aproveitado em outros âmbitos.
Poupeau e Matonti (2004, p. 4) mostram que o capital militante é obtido e valorizado no campo político. Os autores renunciam à visão idealista do militantismo como engajamento em partidos e movimentos coletivos motivados unicamente pela submissão a uma “causa”, seja ela a causa dos trabalhadores, dos sem-teto, dos ambientalistas, e observam que através da militância os militantes aprendem uma série de noções de como se movimentar dentro do espaço político.
6- Conclusão
Os partidos de esquerda, como é o caso do PT, costumam estar vinculados a movimentos de defesa das chamadas “minorias”, pelo seu caráter de defesa dos “oprimidos” e pela busca de ideais de justiça social. Grande parte dos militantes observados por Gaglietti (2003) e por Coradini (2002) teve experiências em movimentos sociais antes de adentrar na política partidária. Os recursos obtidos nesses espaços de socialização política puderam ser aproveitados na entrada no partido, e a participação nesses movimentos proporcionou uma espécie de iniciação no espaço político.
O capital militante obtido nessas experiências pode ser convertido em capital político. Ao adentrar na política partidária, aqueles que atuaram em movimentos coletivos muitas vezes dão um sentido de “missão” no exercício dos cargos conseguidos na administração pública. Eles também costumam instrumentalizar o seu capital escolar, e vinculam o conhecimento de diversas ciências com a utilização prática.
Os militantes costumam se passar por desinteressados. Entretanto, sabemos que o interesse rege as condutas dos agentes sociais, é ele o elemento que dá sentido às atitudes desses agentes. O interesse nem sempre está vinculados a fins econômicos, e em determinados casos pode almejar um lucro simbólico. Alguns militantes encontram lucros simbólicos na sua passagem por movimentos sociais, ou mesmo lucros econômicos. A submissão aos ideais de universalização oculta o lucro simbólico obtido com o reconhecimento na sociedade obtido pela dedicação à causa, bem como a ascensão na hierarquia partidária. Quanto mais radicais são os ideais humanitários do militante, mais requintados são os eufemismos dos ganhos obtidos através da sua militância.
O capital militante pode ser convertido em capital político na medida em que os recursos acumulados na militância são potencializados com a entrada no partido político. O domínio da linguagem própria do espaço político, e a habilidade de falar em público são alguns dos recursos obtidos nessas experiências. Além disso, a militância em movimentos sociais é um dos fatores de peso para a ascensão na hierarquia partidária.
Na medida em que os militantes adentram nas instituições públicas, a tendência é o distanciamento dos movimentos sociais e o maior apego à manutenção do aparelho político. Apesar de os movimentos sociais constituírem uma espécie de iniciação em direção à política partidária, quanto mais envolvidos se encontram os profissionais da política com a administração pública, tanto mais se afastam das antigas “causas” e se afastam dos movimentos coletivos.
Referências Bibliográficas
GAGLIETTI, Mauro. PT: ambivalências de uma militância. Porto Alegre, 2003.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. RJ: Bertrand Brasil, 1998, 2° ed.
BOURDIEU, Pierre. Espaço social e espaço simbólico. Conferência proferida na Universidade de Todai em outubro de 1989.
BOURDIEU, Pierre. É possível um ato desinteressado? In: Razões práticas para uma teoria da ação. Tradução: Mariza Corrêa.
MATONTI, Frédérique e POUPEAU, Franck. O capital militante: tentativa de definição. Tradução: Ernesto Seidl. In: Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 155, 2004, p. 5-11.
CORADINI, O.L. Escolarização, militantismo e mecanismos de participação política. In: Como se fazem eleições no Brasil / organizadoras: Beatriz M. A. de Heredita, Carla Costa Teixeira, Irlys A. F. Barreira – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
Artigo produzido por Tatiana Hora Alves de Lima, graduanda em Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe.
terça-feira, outubro 16, 2007
sábado, outubro 13, 2007
Depois de alguns amores
De encontros e desencontros
Adiquiriu certa paranóia conceitual, linguística
Implicância patológica com terminologias
Palavras como amor, paixão, agora tinham uma nova significação
Dizia que paixão era uma ilusão, o amor uma invenção
- coisa criada por aqueles que fazem o cinema-
Mas não seria amor apenas uma palavra?
Palavra no lugar do medo
O medo no lugar da dor
- já dizia o Chico-
A dor no lugar do amor
O amor que parece nunca ter existido
E a palavra fica assim, vazia de sentido.
De encontros e desencontros
Adiquiriu certa paranóia conceitual, linguística
Implicância patológica com terminologias
Palavras como amor, paixão, agora tinham uma nova significação
Dizia que paixão era uma ilusão, o amor uma invenção
- coisa criada por aqueles que fazem o cinema-
Mas não seria amor apenas uma palavra?
Palavra no lugar do medo
O medo no lugar da dor
- já dizia o Chico-
A dor no lugar do amor
O amor que parece nunca ter existido
E a palavra fica assim, vazia de sentido.
quarta-feira, outubro 10, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Pânico de semi-conhecidos
Há pessoas com as quais eu até vou com a cara, mas evito falar. Não, um semi-conhecido é sempre uma tortura psicológica pra mim. Pode parecer uma atitude esnobe da minha parte, mas a verdade é que não gosto de parar pra falar na rua com quem mal conheço. Sabe aquela pessoa, amigo de um amigo meu, Fulano que vi tal dia naquela festa, etc etc. Eu fico nervosa, olho pro lado, desvio o caminho, finjo que não vi. Tudo isso pra não ter que falar "oi, tudo bem?", nem dar tchauzinho, nem conversar sobre o tempo.
Homens de preto

Muito ouvir falar no curso de inglês, no trabalho, na faculdade sobre o aclamado Tropa de elite, que apesar de ainda nem ter estreado no cinema, já foi visto por muita, mas muita gente. Tanto falaram, mas tanto falaram, que acabei vendo o filme por acaso na casa de uma amiga, quando eu ia apenas visitá-la e falar um pouco da vida. Mas foi uma boa surpresa: um filme é fantástico, certamente um dos melhores filmes brasileiros que já vi, junto com Amarelo Manga e O cheiro do ralo. Aliás, esses filmes estão incluídos na minha lista de filmes favoritos, mas vamos à Tropa de elite.
O que mais me chamou a atenção no filme foi a forma como ele fala do tráfico. Esse foi o grande mérito. Se os filmes costumam sempre mostrar os traficantes que eram meninos pobres versus os policiais filhos da puta que entram na favela atirando, dessa vez a perspectiva mostrada é a do policial fudido, que tem medo de morrer, que tem família, e tem que subir num morro correndo risco de vida e ainda ganha um salário de fome no fim do mês.
Resultado: toda obra é pemeada pela perspectiva do policial, e ouvimos pérolas do tipo Ricos com consciência social não conseguem entender que guerra é guerra, Homem de preto qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão!, ainda assitimos a uma cena em que um policial mata um traficante, para então perguntar ao estudante maconheiro:
- Quem foi que matou ele? Me diga, quem matou esse cara?
- Eu não sei, eu não vi...
- Me diga, porra, quem matou ele?
- Você.
- Eu? Eu? Quem matou foi VOCÊ. Seu maconheiro, viado, maconheiro, viado!!!!
É. De cara, eu achei o filme reacionário, afinal, parece que a violência na favela não tem jeito, e estamos numa guerra e acabou-se, e a culpa do mundo ser uma merda é de quem fuma um baseado. Mas pense bem: o filme é na perspectiva de um policial. E se você fosse um policial fudido que tem família, tem medo de morrer, e sobe num morro correndo risco de vida para ainda ganhar um salário de fome no fim do mês, certamente você pensaria numa coisa: traficante é bandido e merece morrer, e estudante maconheiro é filhinho de papai filho da puta que merece tomar uma surra.
Pra mim foi justamente por Tropa de elite não tentar ensinar o politicamente correto, mas sim mostrar o olhar do policial que entre "ser negligente, corrupto ou ir pra guerra, escolheu ir pra guerra". O filme conta uma história em que Capitão Nascimento, Mathias e Neto tentam lutar contra a corrupção da Polícia, e não conseguem porque há toda uma estrutra enraizada na falta de ética e nas relações de poder. Tropa de elite, ao invés de achar culpados e falar de bandidos e mocinhos, faz a gente pensar sobre as regras do jogo. E elas precisam ser modificadas.
domingo, setembro 30, 2007
Porque eu não gosto de quem não bebe
Pode me chamar de alcóolatra ou o que for, caro leitor politicamente correto. Pois bem. É isso mesmo, acho um saco pessoas que não bebem, não tenho um pingo de paciência nem vontade de sair com esse tipo de gente, a não ser pra programinhas mais lights como um cineminha e coisa e tal.
Você pode dizer que cada um faz da vida o que quiser. Concordo plenamente. Só que o problema das pessoas que não bebem é que elas não deixam os outros fazerem da vida o que querem. Implicam com quem bebe, dizem que todas as pessoas do universo são alcóolatras, sentem desperazo por bêbados, acham que quem bebeu demais tem que se foder mesmo, mandam o namoradinho ou a namoradinha parar de beber, afirmam categoricamente que amigos bebedores são más companhias, enchem a boca pra dizer que são alegres e sociáveis sem precisar de uma gota de álcool na boca, que os bêbados são pessoas irresponsáveis... RESUMINDO, se acham SUPERIORES a quem ingere algumas doses de álcool. São um SACO!
Você pode dizer que cada um faz da vida o que quiser. Concordo plenamente. Só que o problema das pessoas que não bebem é que elas não deixam os outros fazerem da vida o que querem. Implicam com quem bebe, dizem que todas as pessoas do universo são alcóolatras, sentem desperazo por bêbados, acham que quem bebeu demais tem que se foder mesmo, mandam o namoradinho ou a namoradinha parar de beber, afirmam categoricamente que amigos bebedores são más companhias, enchem a boca pra dizer que são alegres e sociáveis sem precisar de uma gota de álcool na boca, que os bêbados são pessoas irresponsáveis... RESUMINDO, se acham SUPERIORES a quem ingere algumas doses de álcool. São um SACO!
sábado, setembro 29, 2007
A cada dia que passa fico mais cínica e mais forte. A força vem do cinismo. Faço piada da minha própria desgraça, dou risada das ofensas que antes me causavam sofrimento, não levo a sério boa parte dos atritos, dos conflitos, das coisas desagradáveis do dia-a-dia. No fim, tudo vira um balaio de sarcasmos e piadas politicamente incorretas a respeito do mundo e da conduta alheia. Quem antes me dava medo, agora virou objeto de zombaria suaves pela frente, e comentários maldosíssimos pelas costas.
Antes de tudo é bom lembrar: eles passarão, eu passarinho.
Antes de tudo é bom lembrar: eles passarão, eu passarinho.
quinta-feira, setembro 27, 2007
Pelos monges de Mianmar

Hoje fiquei triste lendo o jornal. A imagem era de monges que protegiam uma corrente humana na luta contra ditadura imposta ao povo de Mianmar, numa manifestação que despertou a ira dos poderoso do país, e em que foram lançadas bombas de gás lacrimogênio nos protestantes, e com luta física resultante em alguns feridos. São diversos protestos acontecendo nos quatro cantos do país e agora o mundo teme que o massacre que ocorreu em 1988, que resultou na morte de três mil pessoas, se repita.
Ao mesmo tempo em que fiquei triste com a miséria humana, contentou-me o fato de ver mais de 100 mil pessoas envolvidas na luta contra um governo autoritário. Admirava-me ver gentes correndo sérios riscos de morrer numa manifestação de um povo que está cansado de ser explorado, silenciado, de ter seu grito contido. Depois de tantos protestos, o governo daquele país determinou que fica proibido haver grupos de mais de cinco pessoas nas ruas, mas a população continua protestando.
A tristeza que me causou a notícia, não era pra ser tristeza. Recolho-me, como muitos, diante da desgraça, e passo para a próxima folha do jornal. Não era pra me conter na apatia, o sentimento correto seria a indignação. Eu deveria fazer alguma coisa. Mas a grande pergunta é o quê.
Sei que muitos se sentem impotentes, como eu me sinto agora. E aí nós ocidentais ficamos recolhidos diante das desgraças humanas mostradas na televisão, como se elas fossem apenas o capítulo trágico de uma novela ruim. Ficamos do lado de cá nos sentindo integrantes de uma democracia, falamos mal das barbaridades dos orientais, e deixamos pra lá. Parece que somos livres. Agradecemos por sermos um país pacífico. Esquecemos que há não muito tempo vivemos numa ditadura militar que prendeu, torturou e matou centenas de pessoas.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a relação entre religião e política. Vemos monges utilizando a sua áurea de homens sagrados para proteger a população. Sabemos que se algo fosse feito contra eles, o governo daquele país teria sérios problemas. E isso me fez lembrar dos padres da Teologia da Libertação, que lutaram por justiça social nos tempos de ferro. Pergunto-me sobre esses homens, que tanto me lembram Cristo, que lutam contra o mal na encarnação de todos aqueles exploradores.
Sem cair naquela velha conversa de falar do imperialismo americano, eu prefiro questionar agora onde é que está a força das nossas manifestações ou da nossa religião (e digo isso enquanto pessoa que não tem religião). Do lado de lá, tudo parece mais intenso, as cores são mais fortes, os valores mais rígidos, os sujeitos mais centrados nas suas convicções. Do lado de cá, uma certa apatia política, um catolicismo não-praticante, uma falta de consistência em tudo. No meio disso tudo, eu não acredito em Deus, nem num mundo justo, meu candidato favorito agora me parece um idiota, e alguns movimentos não me servem mais de referência. Fico triste lendo o jornal, sem acreditar em nada, e acabou-se. A notícia ruim continua sendo uma notícia ruim, como se tudo não passasse de um espetáculo trágico.
terça-feira, setembro 25, 2007
O que há
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
domingo, setembro 23, 2007
Não sei paquerar
Pra muita gente posso parecer a mulher com atitude, mas a verdade é que me falta tato para me aproximar das pessoas por quem me interesso. Não sei, eu me engasgo, eu não consigo encarar, chegar junto, essas coisas. Queria ser aquela mulher segura que fixa nos olhos e derruba qualquer um. Mas a verdade é que eu não sei paquerar... não mesmo!
quarta-feira, setembro 19, 2007
A recompensa
Contaram-me de uma propaganda de cerveja em que um cara, sempre que ia abrir a geladeira, tomava um choque. Mesmo assim, ele ia lá e abria a geladeira de novo para pegar a cerveja.
Isso me lembrou a minha cachorra. Sempre que nós a prendemos ou quando chega visita, ou quando vamos dormir, usamos a mesma tática. Jogamos um pedaço de pão na varanda, ela vai correndo, toda bobona, atrás do pão.
É. Nesses casos, o prazer proporcionado pelo objeto de desejo superou os riscos e os males que ele pode causar. Ah, foram tantas as vezes em que agi como minha cachorrinha ou como o cara da propaganda de cerveja, tsc tsc...
Isso me lembrou a minha cachorra. Sempre que nós a prendemos ou quando chega visita, ou quando vamos dormir, usamos a mesma tática. Jogamos um pedaço de pão na varanda, ela vai correndo, toda bobona, atrás do pão.
É. Nesses casos, o prazer proporcionado pelo objeto de desejo superou os riscos e os males que ele pode causar. Ah, foram tantas as vezes em que agi como minha cachorrinha ou como o cara da propaganda de cerveja, tsc tsc...
domingo, setembro 16, 2007
Sei de muita gente que passa um tempão sofrendo por amor, ou qualquer coisa parecida com isso. Sei que já sofri muito. Mas hoje eu me recuso a ficar chorando, pois se tudo é tão efêmero, se um dia partimos, e se um dia outras pessoas vão embora também, precisamos entender a beleza disso. A beleza do que é passageiro. E eu me recuso a ser triste. Também não sei o que é ser feliz, se nunca estamos de fato satisfeitos. Sei apenas que há muita vida pra ser vivida lá fora. E é bonita, é bonita e é bonita.
Depois de quase ter sido expulsa de um ônibus sem um tostão no bolso por não estar com a carteirinha de passe pra comprovar que posso usar meia entrada, fiquei bem feliz por encontrar outro cobrador que me reconheceu correndo pra mais um dia de trabalho e pediu ao motorista pra esperar um pouquinho.
É. As pessoas têm sim alguma vontade de ajudar o próximo. Tanto é que muitas vezes saio de casa sem saber como chegar aonde quero ir, mas saio perguntando e chego lá.
É. As pessoas têm sim alguma vontade de ajudar o próximo. Tanto é que muitas vezes saio de casa sem saber como chegar aonde quero ir, mas saio perguntando e chego lá.
quinta-feira, setembro 13, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007
Existem pessoas que adotam soluções catastróficas. Essas, na verdade, trazem problemas catastróficos. Do tipo mandar o professor tomar no cu porque tirou nota baixa, xingar no trânsito, enjoar do curso e trancar, terminar com o namorado porque ele não ligou, ser presidente dos Estados Unidos e explodir o mundo.
quinta-feira, setembro 06, 2007
O crime perfeito
Antigamente eu escrevia nesse blog todo dia. Pois bem, não tenho me inspirado muito não. Na verdade, às vezes me esqueço desse blog. Mas hoje eu tenho uma história escrota pra contar. É sobre gaia que uma boa moça de família colocou bem em cima da cabeça do namorado mentiroso dela.
Ela conheceu o cara no carnaval. Dizem por aí que amor de verão não dura, mas esse durou, e cerca de três anos. Só que desde o começo de toda essa história, o cara mentia pra caralho pra menina séria, estudiosa, que saía pouco de casa, ficava raramente com alguém, e demorou a perder a virgindade. A moça o chamava pra sair, e ele dizia que estava cansado e não sei mais o quê. Aí ela ligava pra casa dele e a mãe dele, cagueta toda, informava que o rapaz havia saído com os amigos.
A desconfiança foi aumentando. Depois de um mês de ficância, eles começaram a namorar. Isso é tão típico, selar compromisso depois de um mês! Então o moço ia à casa dela, naquele namorinho de portão, e saía às 21h. Ela achava ruim, fazia bico, mas ele dizia que precisava estudar, repare só no moço responsável. Aí depois ela descobria que ele tava farreando em algum show de axé da vida.
Ah, mas a moça de família não podia levar desaforo pra casa. Então, no primeiro mês de namoro, ela botou ponta nele. Sim, no PRIMEIRO MÊS, quando as pessoas costumam estar apaixonadas e cegas (isso foi redundante). E sabe com quem? Com quem?, você pergunta. Com o ex-namorado, o moço que tirou a virgindade dela depois de anos de luta.
O atual namorado da boa moça nunca desconfiou, nem cogitou a possibilidade de ser corno. Claro, como uma menina que vive estudando e só sai comigo iria enfeitar minha cabeça? O mundo é estranho, meu caro. Mas a personagem da nossa história me explicou o motivo de ter botado ponta nele.
- Nunca mais o traí, só dessa vez, e é claro que ele nunca soube. Foi a melhor coisa que já fiz na minha vida. Toda vez que ele me fazia raiva, que ele mentia pra mim, eu olhava pra dele e pensava: SEU CORNO! Era meu segredo, minha vingança silenciosa. Aí pronta, a raiva passava.
Não foi só dela que eu ouvi isso, meus caros. Uma senhora de meia-idade também foi traída e se vingou da mesma forma.
- A traição é horrível. Você pensa que a culpa é sua, que alguma coisa está errada em você, que não é suficiente pra ele. Mas aí eu me realizei numa traição, da qual ele nunca soube. O que aconteceu é só meu. Quando olho pro rosto dele, e digo que o perdoei, lembro-me que fui pra cama com outro.
Eu ainda queria entender porque o silêncio é tão prazerozo pra essas mulheres. Por que elas se realizam sem passar na cara dele a traição? Será que nesse jogo de poder elas preferem rir da ingenuidade do parceiro, será que elas querem mentir por último e mentir melhor? Ou será que elas querem se manter mulheres de bons modos perante os olhos de todos, mas é gostoso saborear o proibido? Quem sabe isso, quem sabe aquilo, quem sabe tudo.
Ela conheceu o cara no carnaval. Dizem por aí que amor de verão não dura, mas esse durou, e cerca de três anos. Só que desde o começo de toda essa história, o cara mentia pra caralho pra menina séria, estudiosa, que saía pouco de casa, ficava raramente com alguém, e demorou a perder a virgindade. A moça o chamava pra sair, e ele dizia que estava cansado e não sei mais o quê. Aí ela ligava pra casa dele e a mãe dele, cagueta toda, informava que o rapaz havia saído com os amigos.
A desconfiança foi aumentando. Depois de um mês de ficância, eles começaram a namorar. Isso é tão típico, selar compromisso depois de um mês! Então o moço ia à casa dela, naquele namorinho de portão, e saía às 21h. Ela achava ruim, fazia bico, mas ele dizia que precisava estudar, repare só no moço responsável. Aí depois ela descobria que ele tava farreando em algum show de axé da vida.
Ah, mas a moça de família não podia levar desaforo pra casa. Então, no primeiro mês de namoro, ela botou ponta nele. Sim, no PRIMEIRO MÊS, quando as pessoas costumam estar apaixonadas e cegas (isso foi redundante). E sabe com quem? Com quem?, você pergunta. Com o ex-namorado, o moço que tirou a virgindade dela depois de anos de luta.
O atual namorado da boa moça nunca desconfiou, nem cogitou a possibilidade de ser corno. Claro, como uma menina que vive estudando e só sai comigo iria enfeitar minha cabeça? O mundo é estranho, meu caro. Mas a personagem da nossa história me explicou o motivo de ter botado ponta nele.
- Nunca mais o traí, só dessa vez, e é claro que ele nunca soube. Foi a melhor coisa que já fiz na minha vida. Toda vez que ele me fazia raiva, que ele mentia pra mim, eu olhava pra dele e pensava: SEU CORNO! Era meu segredo, minha vingança silenciosa. Aí pronta, a raiva passava.
Não foi só dela que eu ouvi isso, meus caros. Uma senhora de meia-idade também foi traída e se vingou da mesma forma.
- A traição é horrível. Você pensa que a culpa é sua, que alguma coisa está errada em você, que não é suficiente pra ele. Mas aí eu me realizei numa traição, da qual ele nunca soube. O que aconteceu é só meu. Quando olho pro rosto dele, e digo que o perdoei, lembro-me que fui pra cama com outro.
Eu ainda queria entender porque o silêncio é tão prazerozo pra essas mulheres. Por que elas se realizam sem passar na cara dele a traição? Será que nesse jogo de poder elas preferem rir da ingenuidade do parceiro, será que elas querem mentir por último e mentir melhor? Ou será que elas querem se manter mulheres de bons modos perante os olhos de todos, mas é gostoso saborear o proibido? Quem sabe isso, quem sabe aquilo, quem sabe tudo.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Fragilidade forte, força frágil

Mulheres como Florbela Espanca e Virginia Woolf estavam a frente do seu tempo. Com seus pensamentos anarquistas e feministas elas desafiaram a moral da sociedade de sua época. Entretanto, ao conferir suas histórias de vida, que terminaram ambas com o suícidio, pergunto-me o que tem a ver a tristeza e o romantismo dessas damas com sua força e alma desafiadora. É que romantismo e tristeza, na minha visão, combinam com as personagens de histórias da belle époque, mulheres submissas burguesas que viviam a tocar piano, tinham seu amante no centro do mundo e morriam de tuberculose.
Não que Florbela Espanca e Virginia Woolf tenham se matado por amor. Acredito que isso tem a ver com a depressão que elas carregavam desde a mais tenra idade. Florbela quando ainda criança já falava sobre como a morte lhe era atraente. Mas repito, a depressão não combina com mulheres guerreiras, só que quando olho para a história de vida dessas feministas me deparo com uma grande contradição.
Há mulheres no meu círculo de convivência que quando amam, amam com todas as forças, e não há tristeza maior para elas do que não poder ter ao seu lado seu objeto de desejo. Elas não vivem a ver novelas ou ler Capricho, mas, muito pelo contrário, militam em movimentos sociais e são cheias de vontade de mudar o mundo. São por um lado tão fortes e por outro tão frágeis.
Sempre aprendemos que o amor romântico é o sentido da vida. Somos educadas para sermos a mulher do verso de Vinicius de Moraes: “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade... uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher... feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão...”
E assim entende-se que a vida das mulheres é feita de açúcar e afeto, é tirar as meias do marido e massagear os seus pés quando ele chega do trabalho, é chorar de desespero por uma tal amante, é culpar a outra mulher pelo adultério e tentar lhe arrancar os cabelos com todo o ódio do mundo entre os dedos. É cair em prantos por não tê-lo ao seu lado e viver lembrando dos momentos com ele como uma forma mágica de tê-lo por perto.
Daí o motivo de eu estranhar mulheres como Florbela Espanca e Virginia Woolf serem tão românticas e tristes. Esperava que o amor delas fosse mais forte, realista, construído pelo tempo, e que terminasse em lágrimas justas e passageiras. Que não aparecesse assim, de repente e as tomasse por inteiro. Que elas não fossem tão tristes nem se entregassam à tristeza e ao cansaço de viver. Que elas lutassem mais por um mundo melhor ao invés de abandoná-lo. Mas dos meus ídolos eu não poderia exigir nada, nem de ninguém.
Será que as mulheres românticas também vêem o mundo com romantismo e sentem imensa vontade de mudar o mundo? Mas nessas histórias em particular elas desistiram do mundo e partiram. Virginia se apaixonou pelas águas de um rio e afogou-se nelas. Florbela escreveu em seu diário "e não haver gestos novos nem palavras novas" e ingeriu dois frascos de Veronal. Mas há aquelas que não desistem dos seus moinhos de vento.
Imagem: Virginia Woolf
terça-feira, julho 31, 2007
Saudades do tempo em que minha única preocupação era passar de ano.
Chegou a época da disputa pelos títulos, grandes cargos, altos salários...
Tempos em que você precisa ser alguém! Você já cresceu!
Ah, mas é tão gostoso ser ninguém, quando tudo é uma grande brincadeira!
Se eu não quiser um trono, vão dizer que sou infeliz ou incompetente
Mas se eu chegar a um trono, não quero ser igual a vocês
Saudades do trono
Trono que é pra cagar, e não pra ser rei
Chegou a época da disputa pelos títulos, grandes cargos, altos salários...
Tempos em que você precisa ser alguém! Você já cresceu!
Ah, mas é tão gostoso ser ninguém, quando tudo é uma grande brincadeira!
Se eu não quiser um trono, vão dizer que sou infeliz ou incompetente
Mas se eu chegar a um trono, não quero ser igual a vocês
Saudades do trono
Trono que é pra cagar, e não pra ser rei
segunda-feira, julho 30, 2007
Já fiz as malas
É, tenho que confessar: se tem uma coisa que me dá um medo tremendo é o tal do sentimento de perda. Sim, é verdade, eu não consigo me desapegar das pessoas, e me renuncio a perdê-las. Prefiro antes partir ou dispensá-las a vê-las ir embora.
Pode chamar isso de orgulho, quem sabe. Ou talvez o medo da dor da perda seja muito forte. Quando você perde algo ou alguém a escolha não foi sua. Você tem que aceitar a perda do objeto de desejo. Já quando você renuncia ao que está apegado, a sensação é de que você não precisa daquilo de que é tão dependente.
Ainda arrisco dizer, pensei agora, que isso, na verdade, não é medo da perda, mas sim da rejeição. Afinal, abandonando ou não o objeto de desejo, nós sofremos a perda. Mas quando somos nós que abandonamos nos livramos de uma coisa: a rejeição.
Ah, as pessoas que temem a rejeição são controladoras! Elas o são no sentido mais vulnerável do termo! Controlam tudo pelo sentimento de que todas as cosias escorrem pelas suas mãos. Querem ditar o começo e o fim. Terminam um relacionamento como aqueles que merecem um relacionamento melhor, demitem-se de um emprego como aqueles que devem ser melhor pagos. Não admitem serem rejeitados e invertem o jogo. Dessa forma, despedem-se com sentimento de superioridade.
Será que o temor da rejeição não é nada além de orgulho?
Pode chamar isso de orgulho, quem sabe. Ou talvez o medo da dor da perda seja muito forte. Quando você perde algo ou alguém a escolha não foi sua. Você tem que aceitar a perda do objeto de desejo. Já quando você renuncia ao que está apegado, a sensação é de que você não precisa daquilo de que é tão dependente.
Ainda arrisco dizer, pensei agora, que isso, na verdade, não é medo da perda, mas sim da rejeição. Afinal, abandonando ou não o objeto de desejo, nós sofremos a perda. Mas quando somos nós que abandonamos nos livramos de uma coisa: a rejeição.
Ah, as pessoas que temem a rejeição são controladoras! Elas o são no sentido mais vulnerável do termo! Controlam tudo pelo sentimento de que todas as cosias escorrem pelas suas mãos. Querem ditar o começo e o fim. Terminam um relacionamento como aqueles que merecem um relacionamento melhor, demitem-se de um emprego como aqueles que devem ser melhor pagos. Não admitem serem rejeitados e invertem o jogo. Dessa forma, despedem-se com sentimento de superioridade.
Será que o temor da rejeição não é nada além de orgulho?
quarta-feira, julho 18, 2007
Wellcome to the jungle

Então eu saio de uma prova em que acabara de escrever sobe maioridade penal, e no ponto de ônibus um guri me chega, oscilando entre os papéis de coitado miserável pedinte e de pequeno malaca.
- Ô moça, me dê dois reais aí pra eu comprar uma passagem pra ir embora, eu tô com uma faca, me dê dois reais aí, eu tô com uma faca, eu só quero ir pra casa, eu tô com uma faca...
Era bem assim mesmo. Depois de cada lamentação era proferida a ameaça. Ok. Não tive medo do guri, apenas não assimilava bem a situação, e vi duas moças que estavam no ponto se afastarem. Logo pensei na ironia do ocorrido, e me lembrei que tinha acabado de fazer uma prova em que eu contestava duramente a redução da maioridade penal.
- Pô, cara, eu não tenho dinheiro não, quer um passe?- e lhe estendi o passe que já estava em minhas mãos enquanto aguardava o ônibus.
- Não, eu quero dinheiro. Cadê? Eu tenho uma faca...
- Hum, apois, tô falando sério. Eu não tenho um tostão furado aqui.
- Ah, então tá bom.
Exatamente no momento em que lhe entreguei o passe, meu tão esperado ônibus chegou.
- Moça- gritou o guri- tchau! - e moveu a mão enquanto sorria.
Tá, era um menino. Não é porque ele ameaçou me cortar que vou começar a ser a favor da redução da maioridade penal. Ele e tantos outros garotos estão mergulhados na merda desde que nasceram, e quando me coloco no lugar de um deles, eu penso: se eu vivesse na rua sendo chamado de trombadinha, apanhando, sendo desrespeitado, vendo aquele povo por trás do vidro do carro me olhar com cara de nojinho, eu teria sangue no olho, eu cheiraria cola, porque a cola seria o único sentido da minha vida.
Aí quando foi um dia desses, estava em outro ponto de ônibus e o mesmo menino veio me pedir dinheiro dizendo que tinha uma faca. Ele pensa que eu sou cheia de dinheiro? Gente, quantas e quantas vezes eu saio na rua com dois passes! Não tenho grana não, caralho! Mas aí lá vem o guri de novo com a mesma conversa fiada, e num ponto próximo àquele onde antes ele já tinha me ameaçado.
Só que dessa vez eu estava com meu namorado. E tipo, num primeiro momento ele apenas disse que não tinha dinheiro, mas quando entendeu que o pirralho dizia ter uma faca, deu a peste nele. Não tem coisa que afete mais o ego masculino do que ver sua namorada ser ameaçada bem na sua frente. Deu no que deu: ele gritou e se aproximou furioso do guri, e então o menino foi parar no meio da pista. Depois, o garoto voltou para a calçada e sumiu pelas ruas após chamar meu namorado de viado umas 10 vezes.
- Ele podia ter se fudido. Podia ter sido atropelado, você viu que ele foi parar no meio da pista?- observou meu namorado, entre a preocupação e a raiva.
- Vi. E um dia ele pode se bater com um cara que lhe dê uma baita surra ou coisa pior.
Antes do menino, meu namorado e eu já havíamos sido abordados por crianças logo na semana anterior. Dessa vez eram três meninos indefesos que estavam vendendo adesivos na 13 de julho tarde da noite, e que pediram nossa ajuda.
- Tem dois guris com pedaço de pau atrás da gente, eles tentaram roubar o dinheiro que a gente juntou dos adesivos- disse o menino que depois descobri ser o mais escolarizado, e que tinha algo de mais polido do que os outros- quer um adesivo?
Vimos que, de fato, havia dois garotos com pedaços de pau escondidos no outro lado da avenida. Meu namorado botou os três meninos no seu carro, e os levamos até o Centro, onde eles disseram que iam pegar um táxi lotação pra ir pra casa, no Bairro Coqueiral. Eram três crianças no centro da cidade repleto de putas, travestis, moradores de rua deitados sob o teto de lojas e bancos, homens misteriosos encostados nas paredes ou andando sozinhos em ruas desertas. Nada contra putas, travestis, nem moradores de rua, só que esse, definitivamente, não é um ambiente para crianças.
Agora eu me pergunto se os meninos indefesos não se tornarão um dia um daqueles que correm atrás dos indefesos com pedaços de pau. Ou serão como o guri que me ameaçou com uma suposta faca que o fazia se sentir o dono da rua. Lembro que tanto os meninos amendrontados quanto o garoto hostil queriam voltar pra casa. Pra que casa? Eles precisam voltar pra casa... Um deles já parecia indeciso entre o papel de pobre vítima miserável e o de vilão. Mas nessa história toda eles aprendem desde cedo que o que vale é a lei do mais forte.
Imagem do filme Cidade de Deus
You lose
Às vezes eu me fodo e fico tentando achar alguma justificativa para o que aconteceu. Nãaao, aquilo não pode ter sido de todo ruim, deve ser bom para eu aprender alguma coisa, ou me levar para uma oportunidade melhor. Difícil é encarar que você pode ter se fudido MESMO, e ter perdido algo muito bacana.
É, como diria Lourenço... Avida é dura!
É, como diria Lourenço... Avida é dura!
sábado, julho 07, 2007
Submisso como em todos os casais felizes
João, e aqui minto o nome do personagem para resguardar sua identidade, disse-me que estava com medo de se tornar vassalo em mais um de seus relacionamentos. Segundo ele, em sua trajetória de casos amorosos, as mulheres o trataram com desprezo depois que ele se tornou submisso. Ele disse que os dóceis costumam se foder, pois as pessoas, inconscientemente, não valorizam quem não se dá valor, nem respeitam que não exige respeito. Respeito seria uma coisa conquistada.
- Mas aí tem um porém... o que é ser submisso? Ser submisso pode ser bom. Eu sou e estou feliz assim.- disse um grande amigo meu- Nos casais felizes é a mulher quem manda. Repare que quando é o homem quem manda, os relacionamentos são infelizes.
Fiquei intrigada. Não vou defender algum tipo de femismo, não vou dizer que as mulheres devem inverter papéis e mandar nos homens. Nunca fui a favor disso. Acho que, homens ou mulheres, acima de tudo somos humanos. Só que essa afirmação do meu amigo me pareceu, de certa forma, verdadeira.
Ele não falava sobre não ter personalidade ou obedecer a todas as ordens de uma mulher autoritária. Falava antes daqueles casais em que o homem mima a mulher, faz suas vontades, bajula, esforça-se ao máximo para vê-la feliz. Os casais em que o homem fica encantado por sua mulher, e em que, inclusive, ele a ama mais.
Nos casais, há sempre alguém que ama com mais intensidade, mesmo que às vezes isso mude com o tempo, e ele fique mais apaixonado, depois ela, e por aí vai. Mas essa relação um tanto desigual só me parece ser harmônica quando é ele quem tem maior amor. Já vi casais em que, no começo, o rapaz era louco pela namorada, enquanto ela apenas tinha aprendido a amá-lo. Depois, quando ela começou a ser mais apaixonada do que ele, as coisas começaram a desandar, e ela chorava por falta de carinho.
Nunca vi, preciso que me apresentem, casais em que a mulher ama mais e eles são felizes. Nesses casos, a mulher fica carente, cobra mais atenção, tem ele no centro do seu mundo, se sujeita a algumas pequenas ou grandes humilhações, e sofre calada. Não sei, parece-me que a submissão da mulher é muito mais degradante, e certo tipo de servilismo do homem é muito mais doce.
Mas claro que há aqueles homens que são vassalos de forma mortificante. Esse é o tipo de submissão que não é saudável, segundo meu amigo. Eles também se calam e se humilham. Entretanto, segundo ele, isso nada tem a ver com aquele tipo de docilidade em que o homem dá todo tipo de regalias à sua amada. Ele a trata como um bom filho trata sua mãe.
Será que isso tem a ver com o tal de complexo de Édipo? Será que os homens precisam ser submissos a uma mulher como foram com sua querida mãe? Vejo que os bons filhos homens são aqueles que fazem as vontades da sua mãe, os filhos que às vezes deixam de sair para ela não dormir sozinha.
Talvez eu esteja enganada, mas antes quero que me apresentem um casal em que a mulher é submissa e os dois são felizes. Ainda acho que os homens procuram numa mulher um pouco de mãe, alguém que lhes dê aconchego, e também um rumo na vida.
- Mas aí tem um porém... o que é ser submisso? Ser submisso pode ser bom. Eu sou e estou feliz assim.- disse um grande amigo meu- Nos casais felizes é a mulher quem manda. Repare que quando é o homem quem manda, os relacionamentos são infelizes.
Fiquei intrigada. Não vou defender algum tipo de femismo, não vou dizer que as mulheres devem inverter papéis e mandar nos homens. Nunca fui a favor disso. Acho que, homens ou mulheres, acima de tudo somos humanos. Só que essa afirmação do meu amigo me pareceu, de certa forma, verdadeira.
Ele não falava sobre não ter personalidade ou obedecer a todas as ordens de uma mulher autoritária. Falava antes daqueles casais em que o homem mima a mulher, faz suas vontades, bajula, esforça-se ao máximo para vê-la feliz. Os casais em que o homem fica encantado por sua mulher, e em que, inclusive, ele a ama mais.
Nos casais, há sempre alguém que ama com mais intensidade, mesmo que às vezes isso mude com o tempo, e ele fique mais apaixonado, depois ela, e por aí vai. Mas essa relação um tanto desigual só me parece ser harmônica quando é ele quem tem maior amor. Já vi casais em que, no começo, o rapaz era louco pela namorada, enquanto ela apenas tinha aprendido a amá-lo. Depois, quando ela começou a ser mais apaixonada do que ele, as coisas começaram a desandar, e ela chorava por falta de carinho.
Nunca vi, preciso que me apresentem, casais em que a mulher ama mais e eles são felizes. Nesses casos, a mulher fica carente, cobra mais atenção, tem ele no centro do seu mundo, se sujeita a algumas pequenas ou grandes humilhações, e sofre calada. Não sei, parece-me que a submissão da mulher é muito mais degradante, e certo tipo de servilismo do homem é muito mais doce.
Mas claro que há aqueles homens que são vassalos de forma mortificante. Esse é o tipo de submissão que não é saudável, segundo meu amigo. Eles também se calam e se humilham. Entretanto, segundo ele, isso nada tem a ver com aquele tipo de docilidade em que o homem dá todo tipo de regalias à sua amada. Ele a trata como um bom filho trata sua mãe.
Será que isso tem a ver com o tal de complexo de Édipo? Será que os homens precisam ser submissos a uma mulher como foram com sua querida mãe? Vejo que os bons filhos homens são aqueles que fazem as vontades da sua mãe, os filhos que às vezes deixam de sair para ela não dormir sozinha.
Talvez eu esteja enganada, mas antes quero que me apresentem um casal em que a mulher é submissa e os dois são felizes. Ainda acho que os homens procuram numa mulher um pouco de mãe, alguém que lhes dê aconchego, e também um rumo na vida.
segunda-feira, julho 02, 2007
Meninos não choram
Crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual são reféns do silêncio
Indignado, Ricardo de Souza Lima, coordenador do Programa Sentinela, abre a gaveta da sua mesa e retira uma pasta onde estão declarações de mais de 50 famílias que se negam a receber acompanhamento psicossocial. “Entre os meninos, a vergonha é ainda maior, já que, geralmente, eles são abusados por adultos do mesmo sexo. Além disso, na maioria das vezes, o agressor é da própria família ou alguém bem próximo”, declara Ricardo Lima.
De acordo com dados do Centro de Atendimento de Grupos Vulneráveis, no ano passado foram registrados 69 casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes, dos quais 10 vítimas eram do sexo masculino. Em 2007, até o momento houve 23 ocorrências, das quais duas eram de abuso sexual contra meninos. “Não se sabe se esses números correspondem à realidade, já que os meninos têm muito mais vergonha de denunciar do que as meninas”, comenta a delegada Mariana Diniz.
O abuso e suas conseqüências- Segundo a psicóloga Aline Maciel, considera-se abuso sexual qualquer tipo de carícia feita em uma criança ou adolescente com o objetivo de obter satisfação sexual através de uma relação de poder. “O abuso causa uma excitação para a qual o menino ainda não está preparado, o que causa sérios problemas para seu desenvolvimento”, explica a psicóloga.
Segundo Aline Maciel, há casos em que o agressor seduz a criança com simpatia e carinho. “Algumas vezes a criança sofre ameaças do agressor, que a faz se sentir causadora da situação, e tem medo de contar a alguém. Em outros, ele convence a vítima de que o abuso representa amor, e ela é tão carente que não quer perder o ‘afeto’ recebido”, comenta.
De acordo com Aline Maciel, a criança ou adolescente que tem esse tipo de experiência precoce pode no futuro ter dificuldades de obter prazer em relações sexuais, ou até mesmo criar uma compulsão pela prática sexual. “O menino pode ainda vir a se tornar um agressor, dado que nós, seres humanos, temos o hábito de repetir experiências passadas”, afirma.
Ricardo Lima relata que já atendeu no Programa Sentinela meninos que abusaram da irmã ou do irmão. Em outros casos, os meninos vêm a se tornar garotos de programa. “Eles vendem seus corpos como objetos, pois foram como objetos que eles foram tratados”, declara a psicóloga Aline Maciel.
Além das conseqüências psicológicas, o abuso apresenta conseqüências físicas. A psicóloga Aline Maciel acompanhou o caso de Bruno*, de três anos. Bruno era muito apegado à babá e estava sempre em sua companhia. Até que um dia sua mãe descobriu que o filho contraiu gonorréia através de abuso sexual cometido pela babá.
De acordo com o conselheiro tutelar Jerônimo da Silva Sérgio, as vítimas são encaminhadas para a Maternidade Hildete Falcão para, depois de constatado o abuso, fazerem exames mais complexos e tomarem um coquetel Anti-AIDS que pode prevenir a doença até 72 horas depois do incidente.
Dilemas da legislação- Segundo Jerônimo da Silva, o único caso de suspeita de abuso sexual contra criança do sexo masculino registrado no ano passado na região do 3° Distrito, que abrange bairros como Grageru e 13 de Julho, não teve o processo levado adiante, pois a família retirou a queixa. “Depois o garoto, de apenas nove anos, veio a negar que havia sido abusado pelo tio. Entretanto, ele apresentava os sintomas, lavava-se frequentemente e seus desenhos se remetiam ao falo”, relata o conselheiro.
De acordo com o promotor Paulo Lima, há casos em que a família pode desistir do processo. “Na ação pública incondicionada, quando o acusado é pai ou responsável da vítima, a família não pode se retratar. Já na ação penal privada, em que a família faz a queixa e paga um advogado, a parte afetada pode retirar a queixa a qualquer momento, e termina o processo”, explica o promotor.
Programa Sentinela- Executado em Aracaju pela Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania (Semasc), o Programa Sentinela funciona em Sergipe desde 2002, e ainda abarca apenas sete dos 75 municípios do estado, como Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora das Dores, Estância, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, além de Aracaju.
O objetivo do programa é realizar atendimento social e psicológico às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. “O acompanhamento também deve envolver os familiares em conjunto e separadamente, para o sucesso do atendimento”, afirma o coordenador.
*O codinome foi utilizado com o intuito de preservar a identidade da criança.
Sintomas de abuso sexual
Agressividade
Agitação
Excesso de masturbação
Ansiedade
Queixa de dores nos órgãos sexuais
Falta de confiança em adultos
Mudança repentina de humor
Fala constante sobre temáticas sexuais
Disk Denúncia: 0800 791400
Indignado, Ricardo de Souza Lima, coordenador do Programa Sentinela, abre a gaveta da sua mesa e retira uma pasta onde estão declarações de mais de 50 famílias que se negam a receber acompanhamento psicossocial. “Entre os meninos, a vergonha é ainda maior, já que, geralmente, eles são abusados por adultos do mesmo sexo. Além disso, na maioria das vezes, o agressor é da própria família ou alguém bem próximo”, declara Ricardo Lima.
De acordo com dados do Centro de Atendimento de Grupos Vulneráveis, no ano passado foram registrados 69 casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes, dos quais 10 vítimas eram do sexo masculino. Em 2007, até o momento houve 23 ocorrências, das quais duas eram de abuso sexual contra meninos. “Não se sabe se esses números correspondem à realidade, já que os meninos têm muito mais vergonha de denunciar do que as meninas”, comenta a delegada Mariana Diniz.
O abuso e suas conseqüências- Segundo a psicóloga Aline Maciel, considera-se abuso sexual qualquer tipo de carícia feita em uma criança ou adolescente com o objetivo de obter satisfação sexual através de uma relação de poder. “O abuso causa uma excitação para a qual o menino ainda não está preparado, o que causa sérios problemas para seu desenvolvimento”, explica a psicóloga.
Segundo Aline Maciel, há casos em que o agressor seduz a criança com simpatia e carinho. “Algumas vezes a criança sofre ameaças do agressor, que a faz se sentir causadora da situação, e tem medo de contar a alguém. Em outros, ele convence a vítima de que o abuso representa amor, e ela é tão carente que não quer perder o ‘afeto’ recebido”, comenta.
De acordo com Aline Maciel, a criança ou adolescente que tem esse tipo de experiência precoce pode no futuro ter dificuldades de obter prazer em relações sexuais, ou até mesmo criar uma compulsão pela prática sexual. “O menino pode ainda vir a se tornar um agressor, dado que nós, seres humanos, temos o hábito de repetir experiências passadas”, afirma.
Ricardo Lima relata que já atendeu no Programa Sentinela meninos que abusaram da irmã ou do irmão. Em outros casos, os meninos vêm a se tornar garotos de programa. “Eles vendem seus corpos como objetos, pois foram como objetos que eles foram tratados”, declara a psicóloga Aline Maciel.
Além das conseqüências psicológicas, o abuso apresenta conseqüências físicas. A psicóloga Aline Maciel acompanhou o caso de Bruno*, de três anos. Bruno era muito apegado à babá e estava sempre em sua companhia. Até que um dia sua mãe descobriu que o filho contraiu gonorréia através de abuso sexual cometido pela babá.
De acordo com o conselheiro tutelar Jerônimo da Silva Sérgio, as vítimas são encaminhadas para a Maternidade Hildete Falcão para, depois de constatado o abuso, fazerem exames mais complexos e tomarem um coquetel Anti-AIDS que pode prevenir a doença até 72 horas depois do incidente.
Dilemas da legislação- Segundo Jerônimo da Silva, o único caso de suspeita de abuso sexual contra criança do sexo masculino registrado no ano passado na região do 3° Distrito, que abrange bairros como Grageru e 13 de Julho, não teve o processo levado adiante, pois a família retirou a queixa. “Depois o garoto, de apenas nove anos, veio a negar que havia sido abusado pelo tio. Entretanto, ele apresentava os sintomas, lavava-se frequentemente e seus desenhos se remetiam ao falo”, relata o conselheiro.
De acordo com o promotor Paulo Lima, há casos em que a família pode desistir do processo. “Na ação pública incondicionada, quando o acusado é pai ou responsável da vítima, a família não pode se retratar. Já na ação penal privada, em que a família faz a queixa e paga um advogado, a parte afetada pode retirar a queixa a qualquer momento, e termina o processo”, explica o promotor.
Programa Sentinela- Executado em Aracaju pela Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania (Semasc), o Programa Sentinela funciona em Sergipe desde 2002, e ainda abarca apenas sete dos 75 municípios do estado, como Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora das Dores, Estância, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, além de Aracaju.
O objetivo do programa é realizar atendimento social e psicológico às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. “O acompanhamento também deve envolver os familiares em conjunto e separadamente, para o sucesso do atendimento”, afirma o coordenador.
*O codinome foi utilizado com o intuito de preservar a identidade da criança.
Sintomas de abuso sexual
Agressividade
Agitação
Excesso de masturbação
Ansiedade
Queixa de dores nos órgãos sexuais
Falta de confiança em adultos
Mudança repentina de humor
Fala constante sobre temáticas sexuais
Disk Denúncia: 0800 791400
sábado, junho 23, 2007
Tenho muitas feridas
que não sei se serão curadas
porque se por uma lado meu amor insiste em te perdoar e me perdoar
e permanecer do seu lado
minha memória brinca com o presente
retorna ao passado
e tudo que foi perdoado não deixa de ser uma lembrança triste e sutil
que às vezes se transforma num medo ou numa ira infundada
Não sei se devo partir
Não quero voltar de novo
Mas a decisão de só partir pra nunca mais voltar
Mantém-me estática sem saber dos meus passos aonde vão dar
Sei que já me basta a incerteza
Sei que você diz que gosta de mim
Mas também gosto de cerejas
Posso dizer que te amo um dia
Mesmo sabendo que dirá que gosta de mim
Mas você também gosta de caminhar na praia de manhã cedo
Não tiro aqui o valor do aconchego e do ar de saudade da praia de manhã cedo
Se você gosta de mim assim
Como gosta de caminhar e sentir o vento da praia de manhã cedo
Sei que gosta bastante
Talvez eu é que esteja pedindo demais
Afinal, em algum lugar alguém disse
Que uns amam
e outros se contentam em ser amados.
que não sei se serão curadas
porque se por uma lado meu amor insiste em te perdoar e me perdoar
e permanecer do seu lado
minha memória brinca com o presente
retorna ao passado
e tudo que foi perdoado não deixa de ser uma lembrança triste e sutil
que às vezes se transforma num medo ou numa ira infundada
Não sei se devo partir
Não quero voltar de novo
Mas a decisão de só partir pra nunca mais voltar
Mantém-me estática sem saber dos meus passos aonde vão dar
Sei que já me basta a incerteza
Sei que você diz que gosta de mim
Mas também gosto de cerejas
Posso dizer que te amo um dia
Mesmo sabendo que dirá que gosta de mim
Mas você também gosta de caminhar na praia de manhã cedo
Não tiro aqui o valor do aconchego e do ar de saudade da praia de manhã cedo
Se você gosta de mim assim
Como gosta de caminhar e sentir o vento da praia de manhã cedo
Sei que gosta bastante
Talvez eu é que esteja pedindo demais
Afinal, em algum lugar alguém disse
Que uns amam
e outros se contentam em ser amados.
quinta-feira, junho 14, 2007
Amor de cada um
o que era pra ser um post virou um texto...
ok. talvez eu leve essa enquete pra um lado sério, o que eu acredito que não seja objetivo tanto da enquete, como de toda a comunidade.
mas o lance é que existem duas idealizações que descarto completamente (e não descarto aqui nem relacionamento monogâmico, nem poligâmico, pois acredito serem ambos legítimos).
temos a idealização da monogamia. aquela idéia de que existe uma alma gêmea designada por Deus perdida no mundo esperando por você. sua alma gêmea vai te completar, vai preencher sua vida de felicidade, e vocês serão felizes para sempre.
por outro lado, temos também a idealização do amor livre. você poderá se relacionar com várias pessoas, amará todas igualmente, terá uma relação profunda com todas, e irá romper com sentimentos como ciúme e insegurança para ter um amor mais feliz.
só que quando voltamos à realidade...
vemos que essa tal alma gêmea do amor romântico não existe. percebemos que no mundo existem muitas e muitas pessoas compatíveis conosco.
e, novamente, quando regressamos à realidade, nos damos conta de que temos preferidos, e que não podemos ter intimidade com muita gente.
resta saber o que acontece com aqueles que acham que terão um amor plenamente feliz pra vida toda, resta saber o que vai acontecer com aqueles que se deparam com a realidade de que a paixão se desvanece com o passar do tempo, e que querem estar apaixonados eternamente.
resta saber também o que acontecerá com aqueles que têm preferidos, e que os outros terminam por ser os outros, e o que acontecerá com esses que são a segunda, a terceira opção.
resta saber o que acontecerá com aqueles que, muitas vezes, têm medo de cair de cabeça numa relação e se envolvem em múltiplos relacionamentos superficiais e descartáveis. porque se por um lado o amor livre é contra a tal falada posse do capitalismo, é contra o patriarcalismo, a propriedade sobre o parceiro, agora vemos relacionamentos adaptados à sociedade de consumo em que vivemos: rápidos, descartáveis, fast-food, assim como muitos produtos que consumimos.
relacionamentos monogâmicos dão certo? bem, minha avó mal brigava com meu avô, e eles se separaram quando meu avô faleceu.
Já Sartre e Beauvoir tinham um relacionamento aberto que durou 50 anos em que ambos tiveram amores com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto.
cada um tem seu jeito de ser feliz. acredito que o acerto está em descobrir qual o seu jeito de ser feliz (e ser feliz não implica se isentar da dor).
o relacionamento aberto não é mais nobre porque as pessoas que os compõe são mais seguras. assim como o relacionamento fechado não é substancialmente melhor porque significa que "nele sim as pessoas se amam de verdade, pois quem ama só quer a pessoa que ama e acabou".
descobrir o que quer e ser honesto consigo mesmo e com a pessoa que está ao seu lado. honesto no sentido de ter uma relação aberta porque acredita nela e porque ama seu (a) parceiro(a), e não porque não se apaixonou. ser honesto no sentido de se envolver num relacionamento fechado e não trair a CONFIANÇA da pessoa.
no mais, não gosto do termo "amor livre" sendo aplicado somente a relacionamentos abertos. quem disse que o amor monogâmico é preso? se você tem uma namorada que não te enche o saco perguntando onde você está, se você preserva sua individualidade, sai com seus amigos, vive a sua vida, se você tem uma relação de amor e não de dependência com ela, quem disse que você está preso?
pra mim amor livre é amar e respeitar o outro. é reconhecer no outro seu direito de ir e vir, é aprender coisas novas e legais, e ensinar coisas novas e legais ao seu amor. é crescer juntos! é superar as dificuldades! é entender que existe a imperfeição! é melhorar a si mesmo e ajudar o outro a melhorar sempre!
isso pra mim é amor livre.
ok. talvez eu leve essa enquete pra um lado sério, o que eu acredito que não seja objetivo tanto da enquete, como de toda a comunidade.
mas o lance é que existem duas idealizações que descarto completamente (e não descarto aqui nem relacionamento monogâmico, nem poligâmico, pois acredito serem ambos legítimos).
temos a idealização da monogamia. aquela idéia de que existe uma alma gêmea designada por Deus perdida no mundo esperando por você. sua alma gêmea vai te completar, vai preencher sua vida de felicidade, e vocês serão felizes para sempre.
por outro lado, temos também a idealização do amor livre. você poderá se relacionar com várias pessoas, amará todas igualmente, terá uma relação profunda com todas, e irá romper com sentimentos como ciúme e insegurança para ter um amor mais feliz.
só que quando voltamos à realidade...
vemos que essa tal alma gêmea do amor romântico não existe. percebemos que no mundo existem muitas e muitas pessoas compatíveis conosco.
e, novamente, quando regressamos à realidade, nos damos conta de que temos preferidos, e que não podemos ter intimidade com muita gente.
resta saber o que acontece com aqueles que acham que terão um amor plenamente feliz pra vida toda, resta saber o que vai acontecer com aqueles que se deparam com a realidade de que a paixão se desvanece com o passar do tempo, e que querem estar apaixonados eternamente.
resta saber também o que acontecerá com aqueles que têm preferidos, e que os outros terminam por ser os outros, e o que acontecerá com esses que são a segunda, a terceira opção.
resta saber o que acontecerá com aqueles que, muitas vezes, têm medo de cair de cabeça numa relação e se envolvem em múltiplos relacionamentos superficiais e descartáveis. porque se por um lado o amor livre é contra a tal falada posse do capitalismo, é contra o patriarcalismo, a propriedade sobre o parceiro, agora vemos relacionamentos adaptados à sociedade de consumo em que vivemos: rápidos, descartáveis, fast-food, assim como muitos produtos que consumimos.
relacionamentos monogâmicos dão certo? bem, minha avó mal brigava com meu avô, e eles se separaram quando meu avô faleceu.
Já Sartre e Beauvoir tinham um relacionamento aberto que durou 50 anos em que ambos tiveram amores com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto.
cada um tem seu jeito de ser feliz. acredito que o acerto está em descobrir qual o seu jeito de ser feliz (e ser feliz não implica se isentar da dor).
o relacionamento aberto não é mais nobre porque as pessoas que os compõe são mais seguras. assim como o relacionamento fechado não é substancialmente melhor porque significa que "nele sim as pessoas se amam de verdade, pois quem ama só quer a pessoa que ama e acabou".
descobrir o que quer e ser honesto consigo mesmo e com a pessoa que está ao seu lado. honesto no sentido de ter uma relação aberta porque acredita nela e porque ama seu (a) parceiro(a), e não porque não se apaixonou. ser honesto no sentido de se envolver num relacionamento fechado e não trair a CONFIANÇA da pessoa.
no mais, não gosto do termo "amor livre" sendo aplicado somente a relacionamentos abertos. quem disse que o amor monogâmico é preso? se você tem uma namorada que não te enche o saco perguntando onde você está, se você preserva sua individualidade, sai com seus amigos, vive a sua vida, se você tem uma relação de amor e não de dependência com ela, quem disse que você está preso?
pra mim amor livre é amar e respeitar o outro. é reconhecer no outro seu direito de ir e vir, é aprender coisas novas e legais, e ensinar coisas novas e legais ao seu amor. é crescer juntos! é superar as dificuldades! é entender que existe a imperfeição! é melhorar a si mesmo e ajudar o outro a melhorar sempre!
isso pra mim é amor livre.
segunda-feira, junho 11, 2007
Quantas e quantas pessoas não querem mais saber de relacionamento, porque dá muito trabalho, porque já se feriu demais e quer ficar só. Mas eu ainda acho que somos responsáveis pelo amor, que o amor é o que a gente faz dele. Se alguns relacionamentos são infelizes, não é porque é condição inerente do amor ser assim. Na verdade, talvez nem tenha amado de tanto medo que tivera.
sexta-feira, junho 08, 2007
Minha terceira perna
Não tem sensação pior no mundo do que a de estar confusa. Não mesmo. Certamente você pode fazer a pior escolha possível, e você não se conhece o bastante. Não me agrada a idéia de eu não ter controle sobre mim, de não conhecer cada pensamento conscientemente e embasada nas minhas experiências da infância, nos exemplos dos meus pais, e mimimi à la Freud. Nada disso.
O que eu quero? Não faço a mínima idéia! Sei que quero alguma coisa e quero-a já! Talvez a coisa que eu mais quero é ter controle sobre isso tudo, é conhecer pelo menos a mim, oras! Mas muitas vezes de tanto querer chegar a uma decisão concreta, a gente acaba se ajeitando numa forma que não nos serve.
O que eu quero? Não faço a mínima idéia! Sei que quero alguma coisa e quero-a já! Talvez a coisa que eu mais quero é ter controle sobre isso tudo, é conhecer pelo menos a mim, oras! Mas muitas vezes de tanto querer chegar a uma decisão concreta, a gente acaba se ajeitando numa forma que não nos serve.
quarta-feira, junho 06, 2007
Estava hoje tendo aquela típica conversa de divã com uma amiga minha (eu sei que você já teve também, nem venha), quando ela me disse a seguinte frase, que ela viu em algum filme do qual não recorda o nome:
"Que Deus me dê a coragem de mudar as coisas que eu posso controlar e para aceitar as que eu não posso. E principalmente, que me dê a sabedoria pra diferenciar as duas".
"Que Deus me dê a coragem de mudar as coisas que eu posso controlar e para aceitar as que eu não posso. E principalmente, que me dê a sabedoria pra diferenciar as duas".
Sartre e Beauvoir

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir viveram um relacionamento pouco convencional que durou 50 anos. É um dos casais mais célebres da História. É impossível falar de um e não mencionar o outro. A paixão pela filosofia e pela literatura os uniu. Eles desafiaram a moral do seu tempo, vivendo muitos amores, assumindo compromissos públicos na contramão da mentalidade dominante em sua época. Foram reverenciados, mas também criticados e odiados. E escreveram livros que se transformaram em obras-primas. Na recém-lançada biografia Tête-à-Tête, da editora Objetiva, a escritora inglesa Hazel Rowley narra a agitada vida privada do casal existencialista, desde os seus primeiros encontros, em 1929, até a morte de ambos – ele em 1980, ela em 1986.
Foi na Austrália, entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, que Hazel teve contato com as idéias de Simone de Beauvoir. Ela chegou a entrevistar a escritora em 1976, em Paris, quando preparava sua tese de doutorado sobre Beauvoir e o existencialismo. O encontro foi intimidante, segundo Hazel. Afinal, ela estava diante de uma mulher que admirava por causa de sua relação de liberdade e estímulo intelectual com Sartre. E que muito havia contribuído para o desnudamento da condição feminina com ensaios como O Segundo Sexo, um de seus mais famosos.
Mas, apesar de brilhantes, Sartre e Beauvoir eram “estranhamente inseguros”, explica Hazel Rowley, e sempre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam. A despeito da feiúra notória, Sartre era um grande sedutor. E não foram poucas as mulheres que ele amou e abandonou, embora algumas ele continuasse sustentando financeiramente, numa atitude tipicamente machista. Um machismo, porém, que ele jamais manifestou com Simone de Beauvoir, afirma Hazel Rowley.
A notável cumplicidade do casal permitia que dividissem não somente interesses e preocupações, mas também amantes. E essa liberdade era exercida mediante um pacto incomum: eles contavam tudo um para o outro. Bonita, ícone do feminismo, Beauvoir era igualmente uma sedutora e teve muitos amantes homens, mas também se envolveu com mulheres, fato que ela sempre negou e que só se tornou público após a sua morte, com a divulgação de suas cartas.
Hazel Rowley lecionou na Universidade de Iowa, Estados Unidos, e na Deakin University, Austrália, e é autora dos livros Richard Wright: The Life and Times e Christina Stead: A Biography. Para escrever o duplo retrato de Sartre e Beauvoir, ela realizou entrevistas originais e pesquisou centenas de cartas inéditas. “Nunca gostei tanto de ter escrito um livro“, disse nesta entrevista concedida por e-mail de Nova York, onde mora.
Por que a senhora decidiu contar a história de Sartre e Beauvoir e focá-la no relacionamento do casal?
Estudei francês no Sul da Austrália no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Era o momento em que o movimento feminista estava no auge. Eu havia lido as memórias de Simone de Beauvoir e algumas de suas entrevistas, e fiquei muito inspirada. Ela parecia uma mulher realmente independente, e eu também queria viver daquela maneira. Eu gostava da idéia da relação livre, intelectualmente estimulante e mutuamente encorajadora que ela mantinha com Jean-Paul Sartre. Admirava o interesse deles pelas pessoas e pelo mundo, sua capacidade para trabalhar bastante, seu papel como intelectuais públicos e seu engajamento político. Tempos depois, já na meia idade, quis de repente examinar de novo aquela relação, e com mais objetividade. Era uma relação realmente admirável ou não? Beauvoir havia idealizado e representado em suas memórias? Eu queria conversar com os amantes e amigos do casal, para ver o que eles teriam a dizer.
Eles foram o casal mais famoso do Século 20?
Acho que sim. Eles ficaram famosos depois da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945. Todos, no mundo inteiro, falavam dessa nova loucura, o “ existencialismo ” (mesmo que raramente entendessem o que isso significava). Sartre ficou famoso, e por algum tempo Beauvoir tornou-se famosa por causa dele. Mas depois ela adquiriu fama por seus próprios méritos, com a publicação do seu livro O Segundo Sexo, em 1949. Eles eram figuras muito controvertidas, de esquerda, e com sua literatura desafiaram as convenções sociais. Por isso muitos os odiavam. O Segundo Sexo foi considerado por muitos um livro chocante, o que levou Beauvoir a receber muitas cartas de ódio. Ela e Sartre se manifestaram contra a Guerra da Argélia (e contra o colonialismo em geral). Na França, durante os anos 1950 e início dos anos 1960, eles foram amplamente desprezados por essa posição.
Como ocorreu o seu encontro com Simone de Beauvoir? Como se sentiu ao estar diante da mulher que a inspirou?
Muito intimidada! Ela falava com muita rapidez – todos dizem isso a seu respeito –, e estávamos conversando em francês. Mas para mim foi também um momento muito importante. Naquela época, ela estava com 68 anos, e eu a achei ainda muito bonita. Naquele dia, ela não estava usando um turbante. Os cabelos estavam presos, o que dava a ela um visual melhor. E ela estava usando calça, enquanto que toda a vida havia usado vestidos, até aquele momento. Minhas perguntas foram respondidas automaticamente, e percebi que havia certas coisas sobre as quais ela não queria falar. Por exemplo, quando perguntei se ela e Sartre tinham alguma vez sentido ciúmes um do outro, ela respondeu: “ Não, nunca!” Não acreditei totalmente nela, nem naquela ocasião (quando escrevi meu livro, anos depois, aquilo pareceu uma bobagem. Beauvoir algumas vezes sentia muito ciúme das outras namoradas de Sartre).
Não parece contraditório que Beauvoir, que lutou por sua independência e tentou construir uma relação de igualdade com Sartre, fosse tão dependente dele? Não estou bem certa se ela era tão dependente dele. Sob alguns aspectos, acredito que ele precisou mais dela do que ela dele. Ele precisava dela como uma âncora, para lhe dar estabilidade. Algumas vezes Sartre esteve à beira da loucura. Nos anos 1950, ele estava muito deprimido, principalmente por causa da política. Ele bebia muito e tomava fartas doses de anfetaminas. Acabou se tornando completamente dependente de drogas. Acho que ele precisava de Beauvoir, que era uma espécie de figura materna, uma mulher que o conhecia muito bem e podia perdoá-lo infinitamente. Em termos de sua literatura, era maravilhoso que pudessem discutir suas idéias entre si. E que editassem o trabalho um do outro.
Relações abertas não eram incomuns. O que fez com que a de Sartre e Beauvoir fosse tão diferente e famosa? É verdade, relações abertas não eram particularmente incomuns naquele tempo. Muitos amigos do casal levavam o mesmo tipo de vida. Hoje é algo incomum. O mundo se tornou mais conservador, em parte por causa da Aids. Porém, a maioria das pessoas que vivem relacionamentos abertos não conta tudo um para o outro, e com detalhes em technicolor! Mas Sartre e Beauvoir contavam tudo um para o outro. Isso lhes dava um sentimento de cumplicidade. Para escritores, isso era maravilhoso. Era quase como se cada um deles vivesse duas vidas. O que os tornou também famosos foram as memórias de Beauvoir. Ela despertou ainda mais o interesse sobre a vida dos dois escrevendo memórias sem fim sobre a vida do casal.
Qual é o principal legado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir para os casais atuais?
Acho que eles eram um modelo de generosidade. Um nunca impedia o outro. Eles se encorajavam no verdadeiro sentido da palavra : dando coragem e liberdade um ao outro. E, como sabemos, não é fácil amar uma outra pessoa com a liberdade deles. Simone de Beauvoir trabalhou com afinco para controlar seu ciúme. Isso era algo admirável. Eles acreditavam que o ciúme é uma emoção natural, mas isso não quer dizer que o ciúme seja bom para uma relação. Como existencialistas, eles acreditavam que temos força de vontade para lutar contra certas emoções ou tendências negativas. As pessoas dizem: “Sou preguiçoso por natureza ”. Como existencialistas, Sartre e Beauvoir diriam: “ Ser preguiçoso é uma escolha sua!”.
Certa vez Beauvoir comentou que Sartre adorava as mulheres complicadas, e acabava levando-as à loucura. Beauvoir tinha razão? Beauvoir e Sylvie Le Bon [filha adotiva de Simone] estavam brincando com Sartre quando disseram isso. É verdade que Sartre gostava de mulheres jovens, vulneráveis e neuróticas. Acredito que ele sofria do complexo de salvador. Ele se imaginava no comando de um grande cavalo branco, um cavaleiro numa armadura brilhante salvando pequenas mulheres indefesas. Esta fantasia o fazia se sentir poderoso, necessário. Mas no fundo disso tudo havia a insegurança de Sartre. Ele se sentia tão feio que sequer gostava de abordar as pessoas na rua para lhes pedir informações. Ele não queria impor seu corpo às pessoas. Suas namoradas eram com freqüência bem loucas. Elas já seriam loucas de início ou ele as tornava assim? Eis uma boa pergunta. Acho que ele gostava de fazer com que mulheres jovens ficassem dependentes dele, e a dependência não é boa para ninguém. Ele também gostava de provocar ciúmes em suas amantes.
Acho que é neste ponto que Simone de Beauvoir é tão admirável. Em suas memórias ela escreveu que, por algum tempo, ela também se tornou dependente. Ela escreve com grande inteligência sobre a “mulher apaixonada” cuja vida gira em torno do seu homem. Mas, depois de alguns anos nessa condição, Beauvoir tomou as rédeas da situação. A longo prazo, ela não permitiu que Sartre a enfraquecesse. Ela preparou as coisas de modo que Sartre a tornasse forte. Muito habilidoso da parte dela, acho.
Agora sabemos que Beauvoir mantinha relações com mulheres, as quais ela sempre negou. Não é uma postura surpreendente, dadas suas idéias filosóficas?
É verdade, e eu não sei porque ela negou seus relacionamentos com mulheres. Isso é um pouco decepcionante. Acho que, em parte, porque ela via a si mesma fundamentalmente como heterossexual, e era assim que também se viam as mulheres com quem ela teve relações. Próximo do fim de sua vida, Beauvoir disse que gostaria de ter sido mais honesta sobre sua sexualidade, mas não poderia porque outras pessoas estavam envolvidas, e ela não se sentia livre para contar tudo. Tinha que ser discreta.
A senhora teve acesso a cartas inéditas que lhe forneceram muito material para o seu livro. Muitas, porém, ainda não estão disponíveis. A senhora já imaginou que tipo de Sartre poderia estar oculto nessas cartas? É possível mudar o ponto de vista sobre ele com a leitura desse material inacessível? Examinei cartas de Sartre para quase todas as suas namoradas, e tenho certeza de que não restou nenhum Sartre oculto para ser descoberto. Vi centenas e centenas de cartas não publicadas, e acredito que agora conheço bastante bem o íntimo de Sartre.
Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual? Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas.
Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual? Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas.
Será que teriam freqüentado cibercafés em suas férias?
Imagino que sim. Mas eles também apreciavam a sensualidade das canetas, da tinta, do papel. Cibercafés não são lugares sensuais. Isso teria sido uma perda para eles. Sobre a Aids : eles usariam preservativos. Uma amiga minha negra sul africana, de 30 anos de idade, leu meu livro e ficou enormemente chocada com a vida sexual deles. Ela me disse: “Fico me perguntando se eles usavam preservativos!” A resposta é não, não usavam. Sobre o terrorismo : havia bastante terrorismo durante a Guerra da Argélia. Sartre não gostava do terrorismo, mas afirmava que entendia porque pessoas que têm uma causa justa, e não têm grandes exércitos ou equipamento militar, têm que recorrer a esta estratégia contra pessoas que têm essas coisas e que estão colonizando-as ou atacando-as injustamente.
Não parece incrível que eles fossem tão vulneráveis em suas relações, apesar da força de suas idéias filosóficas?
Sim. Tanto Beauvoir quanto Sartre eram estranhamente inseguros à maneira deles. Beauvoir muitas vezes afirmou que achava difícil combinar amor com independência. Estar apaixonada a tornava vulnerável, dependente do outro, atemorizada pela perda do amor daquela pessoa. Tanto ela quanto Sartre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam.
A senhora estudou o existencialismo durante muito tempo. Como o livro a ajudou a compreendê-lo mais?
Qual foi a importância de tê-lo escrito? Escrevi minha tese de doutorado sobre o existencialismo e Simone de Beauvoir nos anos 1970. De fato, sou interessada por esse assunto há muito tempo. É muito bom ter retornado a um tema que foi uma paixão anos atrás. Senti-me como se estivesse voltando para casa. Nunca gostei tanto de ter escrito um livro. Mesmo estando perfeitamente consciente de suas falhas, eu ainda admiro Sartre e Beauvoir. Ainda consigo aprender com eles. Simone de Beauvoir, em particular, me faz querer viver com mais coragem, engajamento e paixão. Ela me faz querer ler mais livros, viajar pelo mundo, me apaixonar de novo, assumir posições políticas mais firmes, escrever mais, trabalhar mais, atuar com mais intensidade e olhar com mais carinho para a beleza do mundo natural. Ela amava a natureza, era uma mulher muito sensível.
A senhora esteve recentemente no Brasil para pesquisar sobre Cristina Tavares, a amante brasileira de Sartre. O que descobriu sobre ela?
Eles não foram amantes. Cristina nunca dormiu com Sartre. Ele a cortejou vigorosamente. Tenho certeza que ele teria gostado de dormir com ela. Mas ela tinha 25 anos, era uma boa moça católica. Ele tinha 55 anos, e estava longe de ser bonito. Ela admirava Sartre e Beauvoir, não há dúvidas quanto a isso. Logo depois que deixou o Brasil, Sartre escreveu uma carta de onze páginas para ela, com uma longa lista de livros para ser lidos, a maioria sobre política. Cristina os encontrou de novo, diversas vezes, em Portugal e na França, permanecendo em contato com eles. Acho que Sartre podia perceber que ela era uma jovem especial, mesmo com apenas 25 anos. E ela provou ser muito especial, tornou-se uma importante congressista, uma pioneira da questão feminina no Brasil. Ela nunca se casou, era muito independente, atlética, tinha muitos amigos, e era fortemente engajada na política progressista brasileira. Tragicamente, morreu de câncer com apenas 50 anos.
Sartre costumava terminar um relacionamento quando deixava de amar suas namoradas, embora continuasse ajudando-as financeiramente durante muito tempo. Esse comportamento não era uma espécie de machismo?
Sim, acho que Sartre estava cheio de machismo. Mas, por mais estranho que pareça, não com Simone de Beauvoir! Eis mais uma razão porque sua relação é única e tão interessante.
Se a senhora tivesse que escolher um livro de Simone de Beauvoir, qual seria? Por quê?
Prefiro as memórias, mas, como são quatro volumes, não posso escolhê-las, mesmo achando o segundo volume especialmente interessante. Imagino que escolheria seu livro mais curto, Uma morte muito suave, no qual ela fala da morte da sua mãe. O livro mostra a suavidade e sensibilidade de Beauvoir, algo que ela geralmente escondia.
A dualidade “amores contingentes” e “amores necessários”, idealizada por Sartre, explica a relação dele com Beauvoir e deles com os outros? Não, não explica. Às vezes fico pensando que essa foi a forma que ele “vendeu” seu estilo de vida a Beauvoir, para torná-lo mais saboroso. Outras mulheres eram necessárias para Sartre, mas, conforme se revelou com o tempo, ninguém durou tanto ou foi tão íntimo quanto a relação de cinqüenta anos de Sartre com Beauvoir. E ninguém mais foi um par intelectual para eles, da forma que um foi para o outro.
Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje? Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.
Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje? Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.
Sartre viveu muitas vidas, e se tornou mais engajado nos problemas do seu tempo à medida que envelhecia. Ele apoiou o movimento da independência da Argélia, e rompeu com o Partido Comunista Francês depois de 1956, quando a União Soviética invadiu a Hungria. Ele e Beauvoir se sentiram muito isolados naquela época, mas permaneceram lutando.
Intelectuais como Sartre não são mais possíveis hoje?
O mundo hoje está numa desordem desastrosa, e mais do que nunca precisamos de intelectuais públicos corajosos.
Sartre viveu seus últimos dias dependendo das pessoas, aparentemente dominado pelas idéias do então jovem intelectual Benny Lévy. E de acordo com Beauvoir, em suas memórias, ela se sentiu enganada por Sartre. Eles fracassaram?
Sartre estava dependente no final de sua vida porque estava cego. De 1973 até sua morte, em 1980, ele não podia ver. Isso significava que não podia ler, nem escrever. Ele precisava de pessoas que lessem para ele, e esse foi amplamente o trabalho de Benny Lévy. Eles tiveram longas conversas, que foram gravadas e publicadas por Lévy. Beauvoir sentiu que Lévy se aproveitou de um homem frágil e cego, e publicou idéias que não eram as de Sartre. Não sei se ela se sentiu enganada por Sartre, porém muito magoada com a hostilidade de Benny Lévy com ela. E com a hostilidade da jovem Arlette Elkaïm, que Sartre tinha adotado legalmente. Receio que o final do livro seja um pouco triste. Muitas pessoas me dizem que choraram quando leram sobre o funeral de Sartre. Beauvoir estava tão devastada, tão perdida, tão frágil. Eu mesma chorei, admito.
Entrevista publicada na revista Caros Amigos
sexta-feira, abril 27, 2007
Na saúde e na doença
Ontem minha mãe me falava de um conhecido seu casado com uma mulher acometida pelo Alzheimer. Mamãe disse que o homem ainda amava a esposa, e cuidava dela com todo esmero. Mas ele sentia necessidade de sair, ir ao cinema, a um barzinho, e para isso tinha uma espécie de amante, com quem fazia sexo e outras coisas agradáveis.
A amante sabe que ele ainda ama a esposa. Entretanto, ela não a odeia por isso. Muito pelo contrário, na verdade, a amante até ajuda nos cuidados com a esposa adoentada. Cuida dos dois, marido e esposa, dedicando ao primeiro seu corpo, seu carinho e seus risos, e à segunda, o seu zelo.
Minha mãe achava estranha aquela situação. Contou que o homem às vezes se sentia culpado por achar que estava traindo sua amada esposa, mas precisava se dar o direito de viver a vida. Toda a sua vontade de viver deveria ser castigada? Deveria ele se retirar na dor e se empenhar apenas em cuidar de sua mulher, até que a morte os separe?
Mamãe, apesar de compreender as vontades do homem, de certa forma o repreendia. Já minha avó achava o segundo relacionamento que ele tinha totalmente ofensivo. Até questionava se acaso a enferma não poderia saber, de alguma forma, tudo o que se passava, e não tinha como reagir, o que seria deveras angustiante.
Vovó e mamãe se escandalizaram quando eu disse que aquele era um dos relacionamentos mais harmônicos de que eu já tinha ouvido falar. O marido não tinha nada que se castigar com tanta culpa. Ora, ele não havia abandonado sua esposa, ele cuidava dela com todo carinho e, portanto, era fiel sim a ela.
Por que haveria ele de ser infeliz? Ele deveria se vestir de preto, chorar ao lado de sua esposa enquanto recebe visitas? Por que, se há tanta vida por aí? A sua amante, certamente, não era apenas um corpo para ele. Claro que tinha por ela afeto, amor quem sabe. É provável que ele ame as duas. E a amante me parece muito feliz por cuidar dos dois.
Acho que essa história daria um belo filme de Almodóvar. Ele sabe como ninguém tratar de temas polêmicos no que refere ao amor. Lembro que em Fale com ela Benigno dedica a sua vida para cuidar de uma mulher em coma, até o dia em que, apaixonado por ela, faz amor com a mulher e a engravida. Muitos disseram que ele era um psicopata, e que havia estuprado a moça. Não obstante, a mulher sai do coma e volta a dançar balé. É, mas nesse outro filme, nosso Benigno, ao invés de viver em função de uma mulher adoentada, amaria outra, amaria as duas. E num Almodóvar, a esposa sairia de seu estado debilitado e de repente teria ataques histéricos ao ver seu marido com outra. Quem sabe até mataria os dois. Ou faria um menage.
A amante sabe que ele ainda ama a esposa. Entretanto, ela não a odeia por isso. Muito pelo contrário, na verdade, a amante até ajuda nos cuidados com a esposa adoentada. Cuida dos dois, marido e esposa, dedicando ao primeiro seu corpo, seu carinho e seus risos, e à segunda, o seu zelo.
Minha mãe achava estranha aquela situação. Contou que o homem às vezes se sentia culpado por achar que estava traindo sua amada esposa, mas precisava se dar o direito de viver a vida. Toda a sua vontade de viver deveria ser castigada? Deveria ele se retirar na dor e se empenhar apenas em cuidar de sua mulher, até que a morte os separe?
Mamãe, apesar de compreender as vontades do homem, de certa forma o repreendia. Já minha avó achava o segundo relacionamento que ele tinha totalmente ofensivo. Até questionava se acaso a enferma não poderia saber, de alguma forma, tudo o que se passava, e não tinha como reagir, o que seria deveras angustiante.
Vovó e mamãe se escandalizaram quando eu disse que aquele era um dos relacionamentos mais harmônicos de que eu já tinha ouvido falar. O marido não tinha nada que se castigar com tanta culpa. Ora, ele não havia abandonado sua esposa, ele cuidava dela com todo carinho e, portanto, era fiel sim a ela.
Por que haveria ele de ser infeliz? Ele deveria se vestir de preto, chorar ao lado de sua esposa enquanto recebe visitas? Por que, se há tanta vida por aí? A sua amante, certamente, não era apenas um corpo para ele. Claro que tinha por ela afeto, amor quem sabe. É provável que ele ame as duas. E a amante me parece muito feliz por cuidar dos dois.
Acho que essa história daria um belo filme de Almodóvar. Ele sabe como ninguém tratar de temas polêmicos no que refere ao amor. Lembro que em Fale com ela Benigno dedica a sua vida para cuidar de uma mulher em coma, até o dia em que, apaixonado por ela, faz amor com a mulher e a engravida. Muitos disseram que ele era um psicopata, e que havia estuprado a moça. Não obstante, a mulher sai do coma e volta a dançar balé. É, mas nesse outro filme, nosso Benigno, ao invés de viver em função de uma mulher adoentada, amaria outra, amaria as duas. E num Almodóvar, a esposa sairia de seu estado debilitado e de repente teria ataques histéricos ao ver seu marido com outra. Quem sabe até mataria os dois. Ou faria um menage.
quinta-feira, abril 26, 2007
Mensagem
Amor!
Posso te chamar de amor?
Se eu não puder, corra logo, que eu só quero ficar do lado de quem eu possa chamar de amor.
Posso te chamar de amor?
Se eu não puder, corra logo, que eu só quero ficar do lado de quem eu possa chamar de amor.
segunda-feira, abril 23, 2007
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
sábado, abril 21, 2007
Canção amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, abril 20, 2007
Bilhete embaixo da porta
André,
Eu só queria que você soubesse que eu sempre te amei, mas nunca me apaixonei por você nem quis você só pra mim.
Luana.
Eu só queria que você soubesse que eu sempre te amei, mas nunca me apaixonei por você nem quis você só pra mim.
Luana.
Dos amores que nunca quis
Vejo no espelho a mulher exausta
O que foi do amor que tive?
Tantos e tantos amores
Mas eram eles apenas a falta
Fora sempre uma dor a mais
Uma angústia, uma espera
Mas nunca um conforto que ficasse
Nunca uma saudade sincera
Apenas a perda
E a perda dói,
Não tanto por ainda querer o objeto amado
Mas por querer, através da dor, manter aqui o que já não está mais
Nunca o aconchego, o afeto, a proteção
Nunca a descoberta de uma mulher muito mais bonita no espelho
Nunca alguém que visse o que tantas vezes ela teimava em esconder
E não havia vergonha alguma, se era tão bonita!
Saudades, saudades infindas do amor que nunca havia tido
Saudades, como quem parte
Mas parte só por medo de ver o outro partir.
O que foi do amor que tive?
Tantos e tantos amores
Mas eram eles apenas a falta
Fora sempre uma dor a mais
Uma angústia, uma espera
Mas nunca um conforto que ficasse
Nunca uma saudade sincera
Apenas a perda
E a perda dói,
Não tanto por ainda querer o objeto amado
Mas por querer, através da dor, manter aqui o que já não está mais
Nunca o aconchego, o afeto, a proteção
Nunca a descoberta de uma mulher muito mais bonita no espelho
Nunca alguém que visse o que tantas vezes ela teimava em esconder
E não havia vergonha alguma, se era tão bonita!
Saudades, saudades infindas do amor que nunca havia tido
Saudades, como quem parte
Mas parte só por medo de ver o outro partir.
quinta-feira, abril 19, 2007
Essa tal liberdade

A maioria absoluta dos casais pula a cerca em seus casamentos de 10, 20 anos. Uma escapadinha ali não faz mal, contanto que o outro não saiba, dizem. Mas agora no meio universitário está se difundindo o que chamam de "amor livre", e algumas pessoas acreditam que o amor pode superar as barreiras do ciúme e da possessividade, e inclusive ser um amor muito mais honesto.
Sabemos que todo mundo sente atração por outras pessoas, e isso não tem nada a ver com amor. Ninguém venha me dizer que quando ama deixa de achar a bundinha de Fulano uma gostosura, que eu tô ligada na hipocrisia já. Agora você imagine não precisar reprimir os seus instintos, não se castrar no seu dia-a-dia, e ainda assim ter um relacionamento extremamente saudável e construtivo com alguém. Um sonho.
Tem gente que consegue, eu conheço casos em que o relacionamento aberto funciona sim. Claro que nesses namoros as pessoas passam por muita dificuldade para superar a moral, os valores que aprendemos desde pequenos. Afinal, na novela a gente já via a mocinha chorar porque seu namorado ficou com outra. No família a gente já aprendeu que quem comete adultério (com toda a carga negativa da palavra) é canalha. Nossos valores parecem tão naturais, que tudo que esteja fora disso é perversão e quem ousar questioná-los deve ser queimado na fogueira. Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!
Ok. Os hippies que vivam na natureza e procuravam novas formas de relações sociais, que propunham uma vida libertária podiam estar certos. Entretanto, grande parte deles virou yuppie e vestiu seu belo colarinho branco. Regressemos ao conservadorismo, sejamos reacionários.
O fato é que ser o que Dostoiéviski chamaria de extraordinário, ou seja, desafiar a moral dos ordinários, ou das pessoas comuns, sempre custa muito caro. Quantos outsiders não tiveram suas cabeças numa bandeja, ou quantas mulheres divorciadas não foram chamadas de putas? Ou simplesmente quantas mulheres no Afeganistão não foram apedrejadas por mostrarem o tornozelo?
É verdade. Mudar é difícil, bem difícil. Só que essas mudanças, essas revoluções podem caminhar pro lado oposto, e acabam se revestindo do mesmo teor de hipocrisia dos valores contestados.
É quando, por exemplo, um cara ou uma garota diz que é amor livre porque tá na moda. É quando as pessoas que acreditam no amor livre acham que o amor das pessoas monogâmicas não é verdadeiro. É quando, novamente, se estabelecem formas de se comportar e valores dogmáticos. É quando somos tão intolerantes quanto qualquer xiita.
Fora isso, em muitos relacionamentos abertos predominam a superficialidade, a falta de envolvimento. Pessoas que se frustraram em amores do passado e decidem adeirir a novas formas de convívio. Só que muitas vezes o que chamam de amor livre na verdade é falta de amor.
Sabemos que todo mundo sente atração por outras pessoas, e isso não tem nada a ver com amor. Ninguém venha me dizer que quando ama deixa de achar a bundinha de Fulano uma gostosura, que eu tô ligada na hipocrisia já. Agora você imagine não precisar reprimir os seus instintos, não se castrar no seu dia-a-dia, e ainda assim ter um relacionamento extremamente saudável e construtivo com alguém. Um sonho.
Tem gente que consegue, eu conheço casos em que o relacionamento aberto funciona sim. Claro que nesses namoros as pessoas passam por muita dificuldade para superar a moral, os valores que aprendemos desde pequenos. Afinal, na novela a gente já via a mocinha chorar porque seu namorado ficou com outra. No família a gente já aprendeu que quem comete adultério (com toda a carga negativa da palavra) é canalha. Nossos valores parecem tão naturais, que tudo que esteja fora disso é perversão e quem ousar questioná-los deve ser queimado na fogueira. Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!
Ok. Os hippies que vivam na natureza e procuravam novas formas de relações sociais, que propunham uma vida libertária podiam estar certos. Entretanto, grande parte deles virou yuppie e vestiu seu belo colarinho branco. Regressemos ao conservadorismo, sejamos reacionários.
O fato é que ser o que Dostoiéviski chamaria de extraordinário, ou seja, desafiar a moral dos ordinários, ou das pessoas comuns, sempre custa muito caro. Quantos outsiders não tiveram suas cabeças numa bandeja, ou quantas mulheres divorciadas não foram chamadas de putas? Ou simplesmente quantas mulheres no Afeganistão não foram apedrejadas por mostrarem o tornozelo?
É verdade. Mudar é difícil, bem difícil. Só que essas mudanças, essas revoluções podem caminhar pro lado oposto, e acabam se revestindo do mesmo teor de hipocrisia dos valores contestados.
É quando, por exemplo, um cara ou uma garota diz que é amor livre porque tá na moda. É quando as pessoas que acreditam no amor livre acham que o amor das pessoas monogâmicas não é verdadeiro. É quando, novamente, se estabelecem formas de se comportar e valores dogmáticos. É quando somos tão intolerantes quanto qualquer xiita.
Fora isso, em muitos relacionamentos abertos predominam a superficialidade, a falta de envolvimento. Pessoas que se frustraram em amores do passado e decidem adeirir a novas formas de convívio. Só que muitas vezes o que chamam de amor livre na verdade é falta de amor.
Existe a possibilidade alguém não querer se envolver, alguém não se apaixonar e dizer que quer o amor livre, só pra não assumir um relacionamento sólido, como se relacionamento aberto fosse alguma brincadeira. Aí, de repente, quando se apaixona se torna uma pessoa ciumenta e possessiva como qualquer outra. Alguém pode morrer de medo de ser traído e por isso diz que acredita no amor livre. Assim o perigo de uma iminente "traição" é eliminado. Um mecanismo de defesa para tornar algo que incomoda bastate numa coisa banal.
Estamos diante dos jogos de amor. Para completar, no tal amor livre as pessoas têm preferidos. Ou seja, eu sou o número um e que ninguém me tire desse posto. Pode ficar com quem você quiser, mas no dia em que alguém representar uma ameaça de me tirar do primeiro lugar, eu choro, faço escândalo, esperneio. Aí eu me pergunto se uma pessoa dessas não é possessiva.
Há pessoas que, no entanto, acham que nem deve existir essa história de número um. Acreditam que pode haver um relacionamento não entre duas pessoas, mas entre três, quatro, ou mais. E que nesses casos não seria o tipo "Fulana ama Cicrano e pega todo mundo, mas ama somente a ele", porém sim Fulana ama Cicrano, Cicrano ama Beltrano, Beltrano ama Fulana, e por aí vai. Um verdadeiro desafio para um modelo de relacionamento amoroso baseado na posse.
Nossa relação com as pessoas se parece com nossa relação com as coisas. E no modo de produção capitalista uma valor salutar é a defesa da propriedade privada. Então nosso amante é também nosso bem, bem no sentido de bens. Sabe, aquela história de amor é latifúndio. Mas há aqueles que defendam que o amor seja ocupado, seja libertário, seja comunitário, seja de todos. Só não sabemos até que ponto essas pessoas procuram relacionamentos superficiais ou querem mesmo se envolver com muitas pessoas.
Pois é. Acredito que o amor livre é lindo, e elimina uma série de hipocrisias. Faz quanto tempo que você não vê sua mãe beijar o seu pai? Com quantas pessoas você queria ficar, mas não pode por causa do seu namorado? Se você ficasse com alguém seu sentimento diminuiria? Pode ser que sim, pode ser que não, mas a verdade é que as pessoas, em geral, são muito inseguras. E podemos falar de revoluções sexuais, porém não esqueçamos que na hora de mexer com nossos medos a coisa complica.
O amor livre pode ser lindo, quando vivido sem medos e com muita sinceridade. É tão lindo quanto um relacionamento monogâmico vivido sem medos e com muita sinceridade. Não há forma de se relacionar mais nobre, elevada, superior. Agora, se você se mete numa dessas porque não ama alguém o suficiente para abrir mão de trepar com outras pessoas, se você não quer se apegar a ninguém, se você quer seguir uma tendência pós-moderna, você definitivamente tá se metendo em terreno perigoso e poderá acabar ferindo a si mesmo, a outra pessoa, ou aos dois.
Estamos diante dos jogos de amor. Para completar, no tal amor livre as pessoas têm preferidos. Ou seja, eu sou o número um e que ninguém me tire desse posto. Pode ficar com quem você quiser, mas no dia em que alguém representar uma ameaça de me tirar do primeiro lugar, eu choro, faço escândalo, esperneio. Aí eu me pergunto se uma pessoa dessas não é possessiva.
Há pessoas que, no entanto, acham que nem deve existir essa história de número um. Acreditam que pode haver um relacionamento não entre duas pessoas, mas entre três, quatro, ou mais. E que nesses casos não seria o tipo "Fulana ama Cicrano e pega todo mundo, mas ama somente a ele", porém sim Fulana ama Cicrano, Cicrano ama Beltrano, Beltrano ama Fulana, e por aí vai. Um verdadeiro desafio para um modelo de relacionamento amoroso baseado na posse.
Nossa relação com as pessoas se parece com nossa relação com as coisas. E no modo de produção capitalista uma valor salutar é a defesa da propriedade privada. Então nosso amante é também nosso bem, bem no sentido de bens. Sabe, aquela história de amor é latifúndio. Mas há aqueles que defendam que o amor seja ocupado, seja libertário, seja comunitário, seja de todos. Só não sabemos até que ponto essas pessoas procuram relacionamentos superficiais ou querem mesmo se envolver com muitas pessoas.
Pois é. Acredito que o amor livre é lindo, e elimina uma série de hipocrisias. Faz quanto tempo que você não vê sua mãe beijar o seu pai? Com quantas pessoas você queria ficar, mas não pode por causa do seu namorado? Se você ficasse com alguém seu sentimento diminuiria? Pode ser que sim, pode ser que não, mas a verdade é que as pessoas, em geral, são muito inseguras. E podemos falar de revoluções sexuais, porém não esqueçamos que na hora de mexer com nossos medos a coisa complica.
O amor livre pode ser lindo, quando vivido sem medos e com muita sinceridade. É tão lindo quanto um relacionamento monogâmico vivido sem medos e com muita sinceridade. Não há forma de se relacionar mais nobre, elevada, superior. Agora, se você se mete numa dessas porque não ama alguém o suficiente para abrir mão de trepar com outras pessoas, se você não quer se apegar a ninguém, se você quer seguir uma tendência pós-moderna, você definitivamente tá se metendo em terreno perigoso e poderá acabar ferindo a si mesmo, a outra pessoa, ou aos dois.
segunda-feira, abril 16, 2007
We are the champions, my friend

Sempre tive uma relação estranha com os esportes. Fã das Olímpiadas, encantada pelo que chamam de espírito olímpico, emocionava-me ao ver as belas histórias de mocinhas da ginástica olímpica que quebram a perna e continuam sua apresentação, bem como imitava aquele célebre golpe de Daniel Sam em Karatê kid. Mas a verdade é que quando começo a praticar alguma modalidade, me empolgo, me dedico pra valer, até o belo dia em que enjôo e passo meses e meses praticando a arte de dormir e passar horas diante do computador. Acho que esse negócio de atleta não é pra mim.
Tudo começou na quarta série, quando eu fugia das aulas de educação física. Quando ia por pura obrigação era um tremendo desastre. Meus colegas ficavam putos, me botavam no time reserva, e nas poucas vezes em que eu participava de um jogo de futebol, ficava parada e deixava as pessoas com seus chutes na perna, faltas violentas, broncas da professora gorda que ironicamente dava aulas de educação física.
Nunca vou me esquecer do dia em que não chutei pra dentro do gol uma maldita bola que graça aos deuses do inferno veio parar bem no meu pé, pé esse que estava logo em frente ao gol, gol esse que estava sem goleiro. A bola foi ignorada, e rolou tranquilamente para fora da quadra, quase como se zombasse dos "atletas". E um grupo enorme de pessoas ficou ao meu redor me xingando e me fazendo ameaças. Por que as pessoas levam o futebol tão a sério? Tsc tsc.
Bem, minha segunda experiência com esportes foi na quinta série. Entrei no GRD, o esporte das patricinhas que se vestiam como barbies e moravam na 13. Aquilo não era lugar pra mim, eu não tinha uma mãe rica que vinha me buscar na escola com o carro do ano e que falava com a diretora balançando a pulseira de ouro. Mas eu adorava o GRD e vivia dando cambalhotas dentro de casa. Gostava do GRD, mesmo com uma professora carrasca que empurrava a gente até nossas pernas estalarem na hora de escalar, mesmo sem pesar 40 quilos, mesmo com uma platéia de meninos punheteiros na quadra.
Um dia eu simplesmente enjoei do GRD. Aí então passei uns cinco anos sem praticar nenhum esporte. Até que descobri o universo das academias. Em outra experiência traumática, achava extremamente divertido aumentar a cada semana a quantidade de pesos que levantava, adorava ganhar do meu irmão na queda de braço, me regozijava ao ver que levantava mais peso do que alguns homens. Era bom ser forte e correr por meia hora na velocidade de 8,2 km/h. Imaginava até que podia ser bombeira, policial, que eu era foda, enfim. Até o dia em que enjoei de ser forte, e virei uma pessoa normal que dorme e passa horas na frente do PC.
Já caminhei, já caminhei muito e era feliz por fazer caminhadas na 13 e tomar água de coco ao final do percurso. Uma coisa bem light, sabe. Mas a poluição da cidade, dos carros que passam espalhando seu monóxido de carbono pelo ar, me trouxeram ao mundo real. Eu só queria caminhar no meio da natureza e ser hippie, mas preciso ganhar dinheiro.
Hoje eu sou uma pessoa normal que passa horas na frente do computador e dorme. Minha próxima tentativa é fazer yoga. Já estou vendo eu me achando o máximo, me contorcendo, falando pros meus amigos das maravilhas da yoga, porque a gente procura o equilíbrio, porque é uma atividade que educa nosso corpo e nosso espírito. Até eu voltar a ser uma pessoa normal que passa horas na frente do computador, e se estressa no dia-a-dia, e que ao chegar em casa quer mais é saber de dormir e tá pouco se fudendo pra esse papo de educar o corpo e o espírito.
terça-feira, abril 03, 2007
O pudor é a forma mais inteligente de perversão
Era mais um dia morgado, com mais um professor que não vem dar aula na já segunda semana de aulas da universidade, veja só. Aliás, quem diabos inventou de começar as aulas antes da semana santa? Foi a coisa mais inútil que já vi, uma total perda de tempo. Pois bem. Então eu vejo um cara e uma menina conversarem bem na minha frente, ali na pracinha da Didática I.
- Quando vejo tanta desgraça no mundo logo percebo que Deus não existe. Como pode haver um ser supremo e perfeito, quando existe tanta desgraça no mundo?!
Não! Diga que não é verdade, Pluc. Sim, era verdade, eles estavam falando de Deus, o assunto mais chato que existe. Olhei bem pra menina e vi que ela parecia alguma crente de Malhação. Prisilhinha de borboleta no cabelo, saia no joelho, rosto meiguinho e sorridente o tempo todo.
O cara tinha o cabelo pintado de verde, um rapaz jeitoso até, apesar do cabelo verde. Via-se perfeitamente que ele era o cara doidão, o pimba que leu Nietzsche e acha que a vida não faz sentido, e odeia religião, mas no fim das contas ele queria mesmo era comer a menina. Sempre todo prosa, aproximava pouco a pouco a sua boca da boca dela. E ela não tinha problema nenhum com isso.
Não pude deixar de ver alguma volúpia na santinha. Toda aquela meiguice, aquele papinho de Jesus me ama pra lá, Jesus te ama pra cá, não me convenciam. E ela parecia encantada pelo menino que leu Nietzsche. Ao mesmo tempo em que tentava convencê-lo da existência de Deus, derretia-se com aquele papo filosófico-crítico-iluminado-pseudo-intelectual.
Eu só me lembrava de uma coisa: Amarelo Manga. Nesse filme, o diretor passa rapidamente na cena como figurante e balbucia ao pé do ouvido de algum personagem: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão".
Logo, não pude deixar de associar a imagem da garota à da moça do filme Amarelo Manga a quem essa frase é dedicada. Então a vi por um instante de ousada imaginação a menina pudica enfiar uma escova no cu do rapaz que leu Nietzsche, assim como em Amarelo Manga.
- Quando vejo tanta desgraça no mundo logo percebo que Deus não existe. Como pode haver um ser supremo e perfeito, quando existe tanta desgraça no mundo?!
Não! Diga que não é verdade, Pluc. Sim, era verdade, eles estavam falando de Deus, o assunto mais chato que existe. Olhei bem pra menina e vi que ela parecia alguma crente de Malhação. Prisilhinha de borboleta no cabelo, saia no joelho, rosto meiguinho e sorridente o tempo todo.
O cara tinha o cabelo pintado de verde, um rapaz jeitoso até, apesar do cabelo verde. Via-se perfeitamente que ele era o cara doidão, o pimba que leu Nietzsche e acha que a vida não faz sentido, e odeia religião, mas no fim das contas ele queria mesmo era comer a menina. Sempre todo prosa, aproximava pouco a pouco a sua boca da boca dela. E ela não tinha problema nenhum com isso.
Não pude deixar de ver alguma volúpia na santinha. Toda aquela meiguice, aquele papinho de Jesus me ama pra lá, Jesus te ama pra cá, não me convenciam. E ela parecia encantada pelo menino que leu Nietzsche. Ao mesmo tempo em que tentava convencê-lo da existência de Deus, derretia-se com aquele papo filosófico-crítico-iluminado-pseudo-intelectual.
Eu só me lembrava de uma coisa: Amarelo Manga. Nesse filme, o diretor passa rapidamente na cena como figurante e balbucia ao pé do ouvido de algum personagem: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão".
Logo, não pude deixar de associar a imagem da garota à da moça do filme Amarelo Manga a quem essa frase é dedicada. Então a vi por um instante de ousada imaginação a menina pudica enfiar uma escova no cu do rapaz que leu Nietzsche, assim como em Amarelo Manga.
domingo, abril 01, 2007
quinta-feira, março 22, 2007
Filhadaputagem
No mundo todo os filhos da puta se dão bem. Quem vê nas pessoas peças de um joguinho pra chegar até a vitória, quem valoriza interesses em lugar de afeto, é quem se dá bem. Afinal, dizem que você precisa conhecer as pessoas certas... Essa é a lei do mercado, oras!
É como meu amigo A., entre uma baforada e outra, com todo o seu charme de vilão segurando cigarro e de óculos escuros, me disse certa vez:
- Tati, eu também quero me dar bem. Quero ter meu trabalho reconhecido, quero ganhar dinheiro. Então eu também vou ser filho da puta!
Pois é. Lembro de outro amigo nada politicamente correto afirmar categoricamente: "afeto? afeto por quem? gostar de gente pra quê? melhor gostar de carro, de apartamento. um carro nunca vai botar pra fuder com você."
Será?
É como meu amigo A., entre uma baforada e outra, com todo o seu charme de vilão segurando cigarro e de óculos escuros, me disse certa vez:
- Tati, eu também quero me dar bem. Quero ter meu trabalho reconhecido, quero ganhar dinheiro. Então eu também vou ser filho da puta!
Pois é. Lembro de outro amigo nada politicamente correto afirmar categoricamente: "afeto? afeto por quem? gostar de gente pra quê? melhor gostar de carro, de apartamento. um carro nunca vai botar pra fuder com você."
Será?
quarta-feira, março 21, 2007
Esfriar pra quê?

Quando eu era pequena, minha mãe dizia "Tatiana, não beba o café agora, ele ainda está muito quente, assim vai queimar a língua". Mas não adiantava. Eu queria beber o café naquela hora, e tá acabado! Então queimava a língua e ficava aos berros. Ela também dizia para eu não comer o bolo ainda quente, pois ficaria com dor de barriga. Mas eu queria comer o bolo logo, tanto que gostava mais quando saído do forno a poucos instantes.
Ainda hoje eu queima língua tomando café e tenho dores de barriga por degustar bolos quentes.
domingo, março 11, 2007
Amor divino
Não lhe guardo saudades
Acaso tivesse saudade
ia te querer por perto
mas é perto demais
Sinto antes imensa falta do que não vivi
E tudo está sendo vivido por mim
finalmente agora
pela primeira vez!
E na mais pura clarividência tranquila
Só no lugar seguro do passado
As coisas
todas as coisas
podem ser por mim vividas
Só na lembrança podemos ser felizes por completo
Na presente felicidade há sempre uma parte que quer fugir, que quer voltar, que se esconde e se apavora
Na memória as contingências já estão asseguradas
Amo o passado
Por alguma soberba de querer ser Deus
e construir no céu uma casa
Amar a todas as coisas
Só que de cima
Do alto Deus está isento dos erros
e certo do que virá
Desconhece presente, passado e futuro
e, portanto, desconhece o medo
O medo é a indecisão do tempo
- Os deuses amam lembranças.
A criação do mundo poderia ser a eterna atividade de rememorar -
Acaso tivesse saudade
ia te querer por perto
mas é perto demais
Sinto antes imensa falta do que não vivi
E tudo está sendo vivido por mim
finalmente agora
pela primeira vez!
E na mais pura clarividência tranquila
Só no lugar seguro do passado
As coisas
todas as coisas
podem ser por mim vividas
Só na lembrança podemos ser felizes por completo
Na presente felicidade há sempre uma parte que quer fugir, que quer voltar, que se esconde e se apavora
Na memória as contingências já estão asseguradas
Amo o passado
Por alguma soberba de querer ser Deus
e construir no céu uma casa
Amar a todas as coisas
Só que de cima
Do alto Deus está isento dos erros
e certo do que virá
Desconhece presente, passado e futuro
e, portanto, desconhece o medo
O medo é a indecisão do tempo
- Os deuses amam lembranças.
A criação do mundo poderia ser a eterna atividade de rememorar -
quarta-feira, março 07, 2007
Copo vazio

Estávamos sentados à mesa em um salão onde acontecia uma festa do lado rico da família, quando o padre veio se juntar a nós. Em verdade vos digo que fico de certa maneira desconfortável na presença de padres, pois não me sinto à vontade para dizer gracinhas ou rir alto. Há de notar que os padres são sempre tão comedidos! Enfim, o fato é que uma senhora com seus cinqüenta anos veio dizer gracinhas e rir alto perto de nós, para minha felicidade.
Como se não bastasse o tom vulgar com que falava, ainda conversava sobre coisas bem mundanas. Vestia um jeans surrado e camisa de sindicalista no meio de todas aquelas mulheres tão... casadas! Ou por casar!
- Sabe padre, não tem coisa melhor do que o vício. O que seria da vida sem os vícios?! É como eu sempre digo: Deus deveria ter-me feito com três mãos, uma para segurar o cigarro, outra, a cerveja, e outra, o baralho.
Não podia me conter, e dava as maiores gargalhadas da audácia dela. Ao fitar o padre, percebi o seu olhar de desaprovação e seus lábios que levemente balbuciavam “meu Deus”. O seu semblante tinha algo de pai, perdoai-a, pois não sabe o que faz.
Agora deixando à parte a soberba do padre, eu me pergunto sobre os vícios. Não só o vício de quem joga, bebe excessivamente, fuma duas carteiras de cigarro por dia, mas também o de quem passa horas a fio na internet ou numa esteira da academia.
Lembro agora do filme Réquiem para um sonho, que trata com maestria sobre os nossos vícios ao abordar não somente o adolescente problemático que usa heroína, mas também sua mãe que assiste à televisão durante horas e horas todos os dias para preencher a falta que lhe fazia o filho e o falecido marido.
É aí em que a gente vê que, assim como aquela garota que se prostitui para comprar cocaína, a gente sente um vazio. No vício, a recompensa. O vício está no lugar de alguma coisa, que muitas vezes a gente nem sabe o que é. Mas está lá, televisão pra fazer a companhia de um filho, coca-cola com gosto de abraço, compras no lugar da coragem para enfrentar.
Todo vício é um medo ou uma saudade. Às vezes alguém tem medo de perder o emprego e fuma o dia todo. Situações tensas são comuns no trabalho, pois lidar com gente não é coisa fácil, ainda mais quando falamos de concorrência. Alguém também pode sentir falta de uma pessoa que já morreu, e comer doces. Assim como a garota obesa que vi um dia desses na Mtv. Todos escarneciam de seu excesso de peso, diziam que era sem vergonhice, que ela não passava de uma comilona preguiçosa. Num primeiro momento, ela ria e concordava. Até cair em prantos diante da câmera falando da fome insaciável que sentiu depois de seu pai falecer.
O que seria da vida sem vícios? Só que de repente a gente pode fitar a fumaça que sai do cigarro, o dinheiro ganho no jogo, a espuma que desliza no copo, e ver que de nada adiantaram três braços quando a gente só precisava de dois.
Como se não bastasse o tom vulgar com que falava, ainda conversava sobre coisas bem mundanas. Vestia um jeans surrado e camisa de sindicalista no meio de todas aquelas mulheres tão... casadas! Ou por casar!
- Sabe padre, não tem coisa melhor do que o vício. O que seria da vida sem os vícios?! É como eu sempre digo: Deus deveria ter-me feito com três mãos, uma para segurar o cigarro, outra, a cerveja, e outra, o baralho.
Não podia me conter, e dava as maiores gargalhadas da audácia dela. Ao fitar o padre, percebi o seu olhar de desaprovação e seus lábios que levemente balbuciavam “meu Deus”. O seu semblante tinha algo de pai, perdoai-a, pois não sabe o que faz.
Agora deixando à parte a soberba do padre, eu me pergunto sobre os vícios. Não só o vício de quem joga, bebe excessivamente, fuma duas carteiras de cigarro por dia, mas também o de quem passa horas a fio na internet ou numa esteira da academia.
Lembro agora do filme Réquiem para um sonho, que trata com maestria sobre os nossos vícios ao abordar não somente o adolescente problemático que usa heroína, mas também sua mãe que assiste à televisão durante horas e horas todos os dias para preencher a falta que lhe fazia o filho e o falecido marido.
É aí em que a gente vê que, assim como aquela garota que se prostitui para comprar cocaína, a gente sente um vazio. No vício, a recompensa. O vício está no lugar de alguma coisa, que muitas vezes a gente nem sabe o que é. Mas está lá, televisão pra fazer a companhia de um filho, coca-cola com gosto de abraço, compras no lugar da coragem para enfrentar.
Todo vício é um medo ou uma saudade. Às vezes alguém tem medo de perder o emprego e fuma o dia todo. Situações tensas são comuns no trabalho, pois lidar com gente não é coisa fácil, ainda mais quando falamos de concorrência. Alguém também pode sentir falta de uma pessoa que já morreu, e comer doces. Assim como a garota obesa que vi um dia desses na Mtv. Todos escarneciam de seu excesso de peso, diziam que era sem vergonhice, que ela não passava de uma comilona preguiçosa. Num primeiro momento, ela ria e concordava. Até cair em prantos diante da câmera falando da fome insaciável que sentiu depois de seu pai falecer.
O que seria da vida sem vícios? Só que de repente a gente pode fitar a fumaça que sai do cigarro, o dinheiro ganho no jogo, a espuma que desliza no copo, e ver que de nada adiantaram três braços quando a gente só precisava de dois.
terça-feira, março 06, 2007
For sure!
domingo, março 04, 2007
É meu!

Sabe, lembro que quando eu era guria uma vez meu irmão R. deixou um pedaço de pizza quase todo no prato, pois ele já tinha comido muito e só tinha colocado aquele porque seu olho é maior do que a barriga. Mesmo sem querer o tal pedaço, ao me ver pegá-lo para comer ele prontamente choramingou, esperneou e disse que o queria de volta. Comeu aquilo que havia recusado com a maior vontade do mundo, parecia que passava fome há três dias. Só porque outra pessoa iria ficar com o tal pedaço de pizza.
Tem gente que faz isso. Não só com pizza, mas com pessoas também.
quinta-feira, março 01, 2007
O trabalho e os dias

Universitários gastam boa parte do seu tempo em filas para tirar xérox. São pilhas e pilhas de apostilas acumuladas durante um período, e uma grana considerável gasta com esse material. O fato é que eu estava numa dessas filas infernais numa copiadora logo em frente ao terminal, quando comecei a pensar no lado de quem está atrás do balcão, certamente bem pior do que o meu. Passo alguns minutos puta da vida num cubículo que mais parece um forno, agora você imagine um cara que trabalha o dia inteiro naquela merda.
Na televisão, Zezé di Camargo e Luciano. É pra dar o último toque de desconforto e mal-estar. Pra mim, claro, porque talvez para o pessoal da copiadora o dvd daquela duplinha sertaneja ridícula seja a salvação para um dia duro de labuta. Não vou entrar aqui no mérito da dupla, mas no de quem passa horas a fio a trabalhar com papéis numa máquina com movimentos que descaracterizam qualquer humanidade.
Não fosse suficiente, há os estudantes que reclamam o tempo todo da folha que saiu assim assado, de não sei quem que furou a fila, e etc e tal. Céus, se existe inferno, ele é trabalhar numa copiadora.
Isso me faz lembrar uma série de trabalhos escrotos. Recordo que num programa de televisão americano exibido no Multishow foram mostrados alguns trabalhos árduos. Entre eles, estava a atividade de segurar uma bacia para receber a bosta liberada pelos lutadores de sumo, pois eles costumam eliminar fezes durante a luta. Ai!
Havia também um cara que masturbava perus para fazer inseminação artificial desse animal e, assim, aumentar consideravelmente os lucros da empresa. Imagine só você passar o dia todo masturbando perus! Ninguém merece!
E há também as putas. Dizem que puta tem a vida fácil. Nunca achei isso. Pra mim puta tem uma das vidas mais difíceis de todas. Quantas taras malucas elas não têm de realizar para aquele cara que não consegue mostrar seu lado mais bizarro pra esposa? Pois é, nada contra taras, mas há certas taras que devem ser muito humilhantes para algumas pessoas. Fora isso, ainda há a feiúra de muitos homens, o preconceito, os maus-tratos, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e também de ter um filho não se sabe de quem.
É, mas agora levando pro lado mais sério da coisa, me lembrei dos cortadores de cana. Aquilo sim é um trabalho desgraçado. Através de uma reportagem do Fantástico, soube que muitos deles sucumbem debaixo do sol e morrem de fadiga. Até que alguém acha o corpo estendido no meio da vasta plantação. Eles são explorados, duramente explorados, e ainda assim muitas vezes ninguém é punido por isso.
É, como diz o meu caro amigo Henrique, trabalho não foi feito para dar prazer, se desse, não era trabalho. Só que é cruel alguém passar o dia todo se movendo como uma máquina ou morrer de cansaço. Se Marx diz que a história da humanidade é a história da luta de classes, e Freud que a história da civilização é a história da repressão, vemos uma história que é construída sobre a exploração e sobre a fadiga no lugar do prazer.
Na televisão, Zezé di Camargo e Luciano. É pra dar o último toque de desconforto e mal-estar. Pra mim, claro, porque talvez para o pessoal da copiadora o dvd daquela duplinha sertaneja ridícula seja a salvação para um dia duro de labuta. Não vou entrar aqui no mérito da dupla, mas no de quem passa horas a fio a trabalhar com papéis numa máquina com movimentos que descaracterizam qualquer humanidade.
Não fosse suficiente, há os estudantes que reclamam o tempo todo da folha que saiu assim assado, de não sei quem que furou a fila, e etc e tal. Céus, se existe inferno, ele é trabalhar numa copiadora.
Isso me faz lembrar uma série de trabalhos escrotos. Recordo que num programa de televisão americano exibido no Multishow foram mostrados alguns trabalhos árduos. Entre eles, estava a atividade de segurar uma bacia para receber a bosta liberada pelos lutadores de sumo, pois eles costumam eliminar fezes durante a luta. Ai!
Havia também um cara que masturbava perus para fazer inseminação artificial desse animal e, assim, aumentar consideravelmente os lucros da empresa. Imagine só você passar o dia todo masturbando perus! Ninguém merece!
E há também as putas. Dizem que puta tem a vida fácil. Nunca achei isso. Pra mim puta tem uma das vidas mais difíceis de todas. Quantas taras malucas elas não têm de realizar para aquele cara que não consegue mostrar seu lado mais bizarro pra esposa? Pois é, nada contra taras, mas há certas taras que devem ser muito humilhantes para algumas pessoas. Fora isso, ainda há a feiúra de muitos homens, o preconceito, os maus-tratos, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e também de ter um filho não se sabe de quem.
É, mas agora levando pro lado mais sério da coisa, me lembrei dos cortadores de cana. Aquilo sim é um trabalho desgraçado. Através de uma reportagem do Fantástico, soube que muitos deles sucumbem debaixo do sol e morrem de fadiga. Até que alguém acha o corpo estendido no meio da vasta plantação. Eles são explorados, duramente explorados, e ainda assim muitas vezes ninguém é punido por isso.
É, como diz o meu caro amigo Henrique, trabalho não foi feito para dar prazer, se desse, não era trabalho. Só que é cruel alguém passar o dia todo se movendo como uma máquina ou morrer de cansaço. Se Marx diz que a história da humanidade é a história da luta de classes, e Freud que a história da civilização é a história da repressão, vemos uma história que é construída sobre a exploração e sobre a fadiga no lugar do prazer.
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