Vontade de ficar só
Longe da banalidade
Eu quero ficar longe da banalidade
Porque em muitos momentos não estamos sós por pura banalidade.
quarta-feira, setembro 19, 2007
domingo, setembro 16, 2007
Sei de muita gente que passa um tempão sofrendo por amor, ou qualquer coisa parecida com isso. Sei que já sofri muito. Mas hoje eu me recuso a ficar chorando, pois se tudo é tão efêmero, se um dia partimos, e se um dia outras pessoas vão embora também, precisamos entender a beleza disso. A beleza do que é passageiro. E eu me recuso a ser triste. Também não sei o que é ser feliz, se nunca estamos de fato satisfeitos. Sei apenas que há muita vida pra ser vivida lá fora. E é bonita, é bonita e é bonita.
Depois de quase ter sido expulsa de um ônibus sem um tostão no bolso por não estar com a carteirinha de passe pra comprovar que posso usar meia entrada, fiquei bem feliz por encontrar outro cobrador que me reconheceu correndo pra mais um dia de trabalho e pediu ao motorista pra esperar um pouquinho.
É. As pessoas têm sim alguma vontade de ajudar o próximo. Tanto é que muitas vezes saio de casa sem saber como chegar aonde quero ir, mas saio perguntando e chego lá.
É. As pessoas têm sim alguma vontade de ajudar o próximo. Tanto é que muitas vezes saio de casa sem saber como chegar aonde quero ir, mas saio perguntando e chego lá.
quinta-feira, setembro 13, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007
Existem pessoas que adotam soluções catastróficas. Essas, na verdade, trazem problemas catastróficos. Do tipo mandar o professor tomar no cu porque tirou nota baixa, xingar no trânsito, enjoar do curso e trancar, terminar com o namorado porque ele não ligou, ser presidente dos Estados Unidos e explodir o mundo.
quinta-feira, setembro 06, 2007
O crime perfeito
Antigamente eu escrevia nesse blog todo dia. Pois bem, não tenho me inspirado muito não. Na verdade, às vezes me esqueço desse blog. Mas hoje eu tenho uma história escrota pra contar. É sobre gaia que uma boa moça de família colocou bem em cima da cabeça do namorado mentiroso dela.
Ela conheceu o cara no carnaval. Dizem por aí que amor de verão não dura, mas esse durou, e cerca de três anos. Só que desde o começo de toda essa história, o cara mentia pra caralho pra menina séria, estudiosa, que saía pouco de casa, ficava raramente com alguém, e demorou a perder a virgindade. A moça o chamava pra sair, e ele dizia que estava cansado e não sei mais o quê. Aí ela ligava pra casa dele e a mãe dele, cagueta toda, informava que o rapaz havia saído com os amigos.
A desconfiança foi aumentando. Depois de um mês de ficância, eles começaram a namorar. Isso é tão típico, selar compromisso depois de um mês! Então o moço ia à casa dela, naquele namorinho de portão, e saía às 21h. Ela achava ruim, fazia bico, mas ele dizia que precisava estudar, repare só no moço responsável. Aí depois ela descobria que ele tava farreando em algum show de axé da vida.
Ah, mas a moça de família não podia levar desaforo pra casa. Então, no primeiro mês de namoro, ela botou ponta nele. Sim, no PRIMEIRO MÊS, quando as pessoas costumam estar apaixonadas e cegas (isso foi redundante). E sabe com quem? Com quem?, você pergunta. Com o ex-namorado, o moço que tirou a virgindade dela depois de anos de luta.
O atual namorado da boa moça nunca desconfiou, nem cogitou a possibilidade de ser corno. Claro, como uma menina que vive estudando e só sai comigo iria enfeitar minha cabeça? O mundo é estranho, meu caro. Mas a personagem da nossa história me explicou o motivo de ter botado ponta nele.
- Nunca mais o traí, só dessa vez, e é claro que ele nunca soube. Foi a melhor coisa que já fiz na minha vida. Toda vez que ele me fazia raiva, que ele mentia pra mim, eu olhava pra dele e pensava: SEU CORNO! Era meu segredo, minha vingança silenciosa. Aí pronta, a raiva passava.
Não foi só dela que eu ouvi isso, meus caros. Uma senhora de meia-idade também foi traída e se vingou da mesma forma.
- A traição é horrível. Você pensa que a culpa é sua, que alguma coisa está errada em você, que não é suficiente pra ele. Mas aí eu me realizei numa traição, da qual ele nunca soube. O que aconteceu é só meu. Quando olho pro rosto dele, e digo que o perdoei, lembro-me que fui pra cama com outro.
Eu ainda queria entender porque o silêncio é tão prazerozo pra essas mulheres. Por que elas se realizam sem passar na cara dele a traição? Será que nesse jogo de poder elas preferem rir da ingenuidade do parceiro, será que elas querem mentir por último e mentir melhor? Ou será que elas querem se manter mulheres de bons modos perante os olhos de todos, mas é gostoso saborear o proibido? Quem sabe isso, quem sabe aquilo, quem sabe tudo.
Ela conheceu o cara no carnaval. Dizem por aí que amor de verão não dura, mas esse durou, e cerca de três anos. Só que desde o começo de toda essa história, o cara mentia pra caralho pra menina séria, estudiosa, que saía pouco de casa, ficava raramente com alguém, e demorou a perder a virgindade. A moça o chamava pra sair, e ele dizia que estava cansado e não sei mais o quê. Aí ela ligava pra casa dele e a mãe dele, cagueta toda, informava que o rapaz havia saído com os amigos.
A desconfiança foi aumentando. Depois de um mês de ficância, eles começaram a namorar. Isso é tão típico, selar compromisso depois de um mês! Então o moço ia à casa dela, naquele namorinho de portão, e saía às 21h. Ela achava ruim, fazia bico, mas ele dizia que precisava estudar, repare só no moço responsável. Aí depois ela descobria que ele tava farreando em algum show de axé da vida.
Ah, mas a moça de família não podia levar desaforo pra casa. Então, no primeiro mês de namoro, ela botou ponta nele. Sim, no PRIMEIRO MÊS, quando as pessoas costumam estar apaixonadas e cegas (isso foi redundante). E sabe com quem? Com quem?, você pergunta. Com o ex-namorado, o moço que tirou a virgindade dela depois de anos de luta.
O atual namorado da boa moça nunca desconfiou, nem cogitou a possibilidade de ser corno. Claro, como uma menina que vive estudando e só sai comigo iria enfeitar minha cabeça? O mundo é estranho, meu caro. Mas a personagem da nossa história me explicou o motivo de ter botado ponta nele.
- Nunca mais o traí, só dessa vez, e é claro que ele nunca soube. Foi a melhor coisa que já fiz na minha vida. Toda vez que ele me fazia raiva, que ele mentia pra mim, eu olhava pra dele e pensava: SEU CORNO! Era meu segredo, minha vingança silenciosa. Aí pronta, a raiva passava.
Não foi só dela que eu ouvi isso, meus caros. Uma senhora de meia-idade também foi traída e se vingou da mesma forma.
- A traição é horrível. Você pensa que a culpa é sua, que alguma coisa está errada em você, que não é suficiente pra ele. Mas aí eu me realizei numa traição, da qual ele nunca soube. O que aconteceu é só meu. Quando olho pro rosto dele, e digo que o perdoei, lembro-me que fui pra cama com outro.
Eu ainda queria entender porque o silêncio é tão prazerozo pra essas mulheres. Por que elas se realizam sem passar na cara dele a traição? Será que nesse jogo de poder elas preferem rir da ingenuidade do parceiro, será que elas querem mentir por último e mentir melhor? Ou será que elas querem se manter mulheres de bons modos perante os olhos de todos, mas é gostoso saborear o proibido? Quem sabe isso, quem sabe aquilo, quem sabe tudo.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Fragilidade forte, força frágil

Mulheres como Florbela Espanca e Virginia Woolf estavam a frente do seu tempo. Com seus pensamentos anarquistas e feministas elas desafiaram a moral da sociedade de sua época. Entretanto, ao conferir suas histórias de vida, que terminaram ambas com o suícidio, pergunto-me o que tem a ver a tristeza e o romantismo dessas damas com sua força e alma desafiadora. É que romantismo e tristeza, na minha visão, combinam com as personagens de histórias da belle époque, mulheres submissas burguesas que viviam a tocar piano, tinham seu amante no centro do mundo e morriam de tuberculose.
Não que Florbela Espanca e Virginia Woolf tenham se matado por amor. Acredito que isso tem a ver com a depressão que elas carregavam desde a mais tenra idade. Florbela quando ainda criança já falava sobre como a morte lhe era atraente. Mas repito, a depressão não combina com mulheres guerreiras, só que quando olho para a história de vida dessas feministas me deparo com uma grande contradição.
Há mulheres no meu círculo de convivência que quando amam, amam com todas as forças, e não há tristeza maior para elas do que não poder ter ao seu lado seu objeto de desejo. Elas não vivem a ver novelas ou ler Capricho, mas, muito pelo contrário, militam em movimentos sociais e são cheias de vontade de mudar o mundo. São por um lado tão fortes e por outro tão frágeis.
Sempre aprendemos que o amor romântico é o sentido da vida. Somos educadas para sermos a mulher do verso de Vinicius de Moraes: “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade... uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher... feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão...”
E assim entende-se que a vida das mulheres é feita de açúcar e afeto, é tirar as meias do marido e massagear os seus pés quando ele chega do trabalho, é chorar de desespero por uma tal amante, é culpar a outra mulher pelo adultério e tentar lhe arrancar os cabelos com todo o ódio do mundo entre os dedos. É cair em prantos por não tê-lo ao seu lado e viver lembrando dos momentos com ele como uma forma mágica de tê-lo por perto.
Daí o motivo de eu estranhar mulheres como Florbela Espanca e Virginia Woolf serem tão românticas e tristes. Esperava que o amor delas fosse mais forte, realista, construído pelo tempo, e que terminasse em lágrimas justas e passageiras. Que não aparecesse assim, de repente e as tomasse por inteiro. Que elas não fossem tão tristes nem se entregassam à tristeza e ao cansaço de viver. Que elas lutassem mais por um mundo melhor ao invés de abandoná-lo. Mas dos meus ídolos eu não poderia exigir nada, nem de ninguém.
Será que as mulheres românticas também vêem o mundo com romantismo e sentem imensa vontade de mudar o mundo? Mas nessas histórias em particular elas desistiram do mundo e partiram. Virginia se apaixonou pelas águas de um rio e afogou-se nelas. Florbela escreveu em seu diário "e não haver gestos novos nem palavras novas" e ingeriu dois frascos de Veronal. Mas há aquelas que não desistem dos seus moinhos de vento.
Imagem: Virginia Woolf
terça-feira, julho 31, 2007
Saudades do tempo em que minha única preocupação era passar de ano.
Chegou a época da disputa pelos títulos, grandes cargos, altos salários...
Tempos em que você precisa ser alguém! Você já cresceu!
Ah, mas é tão gostoso ser ninguém, quando tudo é uma grande brincadeira!
Se eu não quiser um trono, vão dizer que sou infeliz ou incompetente
Mas se eu chegar a um trono, não quero ser igual a vocês
Saudades do trono
Trono que é pra cagar, e não pra ser rei
Chegou a época da disputa pelos títulos, grandes cargos, altos salários...
Tempos em que você precisa ser alguém! Você já cresceu!
Ah, mas é tão gostoso ser ninguém, quando tudo é uma grande brincadeira!
Se eu não quiser um trono, vão dizer que sou infeliz ou incompetente
Mas se eu chegar a um trono, não quero ser igual a vocês
Saudades do trono
Trono que é pra cagar, e não pra ser rei
segunda-feira, julho 30, 2007
Já fiz as malas
É, tenho que confessar: se tem uma coisa que me dá um medo tremendo é o tal do sentimento de perda. Sim, é verdade, eu não consigo me desapegar das pessoas, e me renuncio a perdê-las. Prefiro antes partir ou dispensá-las a vê-las ir embora.
Pode chamar isso de orgulho, quem sabe. Ou talvez o medo da dor da perda seja muito forte. Quando você perde algo ou alguém a escolha não foi sua. Você tem que aceitar a perda do objeto de desejo. Já quando você renuncia ao que está apegado, a sensação é de que você não precisa daquilo de que é tão dependente.
Ainda arrisco dizer, pensei agora, que isso, na verdade, não é medo da perda, mas sim da rejeição. Afinal, abandonando ou não o objeto de desejo, nós sofremos a perda. Mas quando somos nós que abandonamos nos livramos de uma coisa: a rejeição.
Ah, as pessoas que temem a rejeição são controladoras! Elas o são no sentido mais vulnerável do termo! Controlam tudo pelo sentimento de que todas as cosias escorrem pelas suas mãos. Querem ditar o começo e o fim. Terminam um relacionamento como aqueles que merecem um relacionamento melhor, demitem-se de um emprego como aqueles que devem ser melhor pagos. Não admitem serem rejeitados e invertem o jogo. Dessa forma, despedem-se com sentimento de superioridade.
Será que o temor da rejeição não é nada além de orgulho?
Pode chamar isso de orgulho, quem sabe. Ou talvez o medo da dor da perda seja muito forte. Quando você perde algo ou alguém a escolha não foi sua. Você tem que aceitar a perda do objeto de desejo. Já quando você renuncia ao que está apegado, a sensação é de que você não precisa daquilo de que é tão dependente.
Ainda arrisco dizer, pensei agora, que isso, na verdade, não é medo da perda, mas sim da rejeição. Afinal, abandonando ou não o objeto de desejo, nós sofremos a perda. Mas quando somos nós que abandonamos nos livramos de uma coisa: a rejeição.
Ah, as pessoas que temem a rejeição são controladoras! Elas o são no sentido mais vulnerável do termo! Controlam tudo pelo sentimento de que todas as cosias escorrem pelas suas mãos. Querem ditar o começo e o fim. Terminam um relacionamento como aqueles que merecem um relacionamento melhor, demitem-se de um emprego como aqueles que devem ser melhor pagos. Não admitem serem rejeitados e invertem o jogo. Dessa forma, despedem-se com sentimento de superioridade.
Será que o temor da rejeição não é nada além de orgulho?
quarta-feira, julho 18, 2007
Wellcome to the jungle

Então eu saio de uma prova em que acabara de escrever sobe maioridade penal, e no ponto de ônibus um guri me chega, oscilando entre os papéis de coitado miserável pedinte e de pequeno malaca.
- Ô moça, me dê dois reais aí pra eu comprar uma passagem pra ir embora, eu tô com uma faca, me dê dois reais aí, eu tô com uma faca, eu só quero ir pra casa, eu tô com uma faca...
Era bem assim mesmo. Depois de cada lamentação era proferida a ameaça. Ok. Não tive medo do guri, apenas não assimilava bem a situação, e vi duas moças que estavam no ponto se afastarem. Logo pensei na ironia do ocorrido, e me lembrei que tinha acabado de fazer uma prova em que eu contestava duramente a redução da maioridade penal.
- Pô, cara, eu não tenho dinheiro não, quer um passe?- e lhe estendi o passe que já estava em minhas mãos enquanto aguardava o ônibus.
- Não, eu quero dinheiro. Cadê? Eu tenho uma faca...
- Hum, apois, tô falando sério. Eu não tenho um tostão furado aqui.
- Ah, então tá bom.
Exatamente no momento em que lhe entreguei o passe, meu tão esperado ônibus chegou.
- Moça- gritou o guri- tchau! - e moveu a mão enquanto sorria.
Tá, era um menino. Não é porque ele ameaçou me cortar que vou começar a ser a favor da redução da maioridade penal. Ele e tantos outros garotos estão mergulhados na merda desde que nasceram, e quando me coloco no lugar de um deles, eu penso: se eu vivesse na rua sendo chamado de trombadinha, apanhando, sendo desrespeitado, vendo aquele povo por trás do vidro do carro me olhar com cara de nojinho, eu teria sangue no olho, eu cheiraria cola, porque a cola seria o único sentido da minha vida.
Aí quando foi um dia desses, estava em outro ponto de ônibus e o mesmo menino veio me pedir dinheiro dizendo que tinha uma faca. Ele pensa que eu sou cheia de dinheiro? Gente, quantas e quantas vezes eu saio na rua com dois passes! Não tenho grana não, caralho! Mas aí lá vem o guri de novo com a mesma conversa fiada, e num ponto próximo àquele onde antes ele já tinha me ameaçado.
Só que dessa vez eu estava com meu namorado. E tipo, num primeiro momento ele apenas disse que não tinha dinheiro, mas quando entendeu que o pirralho dizia ter uma faca, deu a peste nele. Não tem coisa que afete mais o ego masculino do que ver sua namorada ser ameaçada bem na sua frente. Deu no que deu: ele gritou e se aproximou furioso do guri, e então o menino foi parar no meio da pista. Depois, o garoto voltou para a calçada e sumiu pelas ruas após chamar meu namorado de viado umas 10 vezes.
- Ele podia ter se fudido. Podia ter sido atropelado, você viu que ele foi parar no meio da pista?- observou meu namorado, entre a preocupação e a raiva.
- Vi. E um dia ele pode se bater com um cara que lhe dê uma baita surra ou coisa pior.
Antes do menino, meu namorado e eu já havíamos sido abordados por crianças logo na semana anterior. Dessa vez eram três meninos indefesos que estavam vendendo adesivos na 13 de julho tarde da noite, e que pediram nossa ajuda.
- Tem dois guris com pedaço de pau atrás da gente, eles tentaram roubar o dinheiro que a gente juntou dos adesivos- disse o menino que depois descobri ser o mais escolarizado, e que tinha algo de mais polido do que os outros- quer um adesivo?
Vimos que, de fato, havia dois garotos com pedaços de pau escondidos no outro lado da avenida. Meu namorado botou os três meninos no seu carro, e os levamos até o Centro, onde eles disseram que iam pegar um táxi lotação pra ir pra casa, no Bairro Coqueiral. Eram três crianças no centro da cidade repleto de putas, travestis, moradores de rua deitados sob o teto de lojas e bancos, homens misteriosos encostados nas paredes ou andando sozinhos em ruas desertas. Nada contra putas, travestis, nem moradores de rua, só que esse, definitivamente, não é um ambiente para crianças.
Agora eu me pergunto se os meninos indefesos não se tornarão um dia um daqueles que correm atrás dos indefesos com pedaços de pau. Ou serão como o guri que me ameaçou com uma suposta faca que o fazia se sentir o dono da rua. Lembro que tanto os meninos amendrontados quanto o garoto hostil queriam voltar pra casa. Pra que casa? Eles precisam voltar pra casa... Um deles já parecia indeciso entre o papel de pobre vítima miserável e o de vilão. Mas nessa história toda eles aprendem desde cedo que o que vale é a lei do mais forte.
Imagem do filme Cidade de Deus
You lose
Às vezes eu me fodo e fico tentando achar alguma justificativa para o que aconteceu. Nãaao, aquilo não pode ter sido de todo ruim, deve ser bom para eu aprender alguma coisa, ou me levar para uma oportunidade melhor. Difícil é encarar que você pode ter se fudido MESMO, e ter perdido algo muito bacana.
É, como diria Lourenço... Avida é dura!
É, como diria Lourenço... Avida é dura!
sábado, julho 07, 2007
Submisso como em todos os casais felizes
João, e aqui minto o nome do personagem para resguardar sua identidade, disse-me que estava com medo de se tornar vassalo em mais um de seus relacionamentos. Segundo ele, em sua trajetória de casos amorosos, as mulheres o trataram com desprezo depois que ele se tornou submisso. Ele disse que os dóceis costumam se foder, pois as pessoas, inconscientemente, não valorizam quem não se dá valor, nem respeitam que não exige respeito. Respeito seria uma coisa conquistada.
- Mas aí tem um porém... o que é ser submisso? Ser submisso pode ser bom. Eu sou e estou feliz assim.- disse um grande amigo meu- Nos casais felizes é a mulher quem manda. Repare que quando é o homem quem manda, os relacionamentos são infelizes.
Fiquei intrigada. Não vou defender algum tipo de femismo, não vou dizer que as mulheres devem inverter papéis e mandar nos homens. Nunca fui a favor disso. Acho que, homens ou mulheres, acima de tudo somos humanos. Só que essa afirmação do meu amigo me pareceu, de certa forma, verdadeira.
Ele não falava sobre não ter personalidade ou obedecer a todas as ordens de uma mulher autoritária. Falava antes daqueles casais em que o homem mima a mulher, faz suas vontades, bajula, esforça-se ao máximo para vê-la feliz. Os casais em que o homem fica encantado por sua mulher, e em que, inclusive, ele a ama mais.
Nos casais, há sempre alguém que ama com mais intensidade, mesmo que às vezes isso mude com o tempo, e ele fique mais apaixonado, depois ela, e por aí vai. Mas essa relação um tanto desigual só me parece ser harmônica quando é ele quem tem maior amor. Já vi casais em que, no começo, o rapaz era louco pela namorada, enquanto ela apenas tinha aprendido a amá-lo. Depois, quando ela começou a ser mais apaixonada do que ele, as coisas começaram a desandar, e ela chorava por falta de carinho.
Nunca vi, preciso que me apresentem, casais em que a mulher ama mais e eles são felizes. Nesses casos, a mulher fica carente, cobra mais atenção, tem ele no centro do seu mundo, se sujeita a algumas pequenas ou grandes humilhações, e sofre calada. Não sei, parece-me que a submissão da mulher é muito mais degradante, e certo tipo de servilismo do homem é muito mais doce.
Mas claro que há aqueles homens que são vassalos de forma mortificante. Esse é o tipo de submissão que não é saudável, segundo meu amigo. Eles também se calam e se humilham. Entretanto, segundo ele, isso nada tem a ver com aquele tipo de docilidade em que o homem dá todo tipo de regalias à sua amada. Ele a trata como um bom filho trata sua mãe.
Será que isso tem a ver com o tal de complexo de Édipo? Será que os homens precisam ser submissos a uma mulher como foram com sua querida mãe? Vejo que os bons filhos homens são aqueles que fazem as vontades da sua mãe, os filhos que às vezes deixam de sair para ela não dormir sozinha.
Talvez eu esteja enganada, mas antes quero que me apresentem um casal em que a mulher é submissa e os dois são felizes. Ainda acho que os homens procuram numa mulher um pouco de mãe, alguém que lhes dê aconchego, e também um rumo na vida.
- Mas aí tem um porém... o que é ser submisso? Ser submisso pode ser bom. Eu sou e estou feliz assim.- disse um grande amigo meu- Nos casais felizes é a mulher quem manda. Repare que quando é o homem quem manda, os relacionamentos são infelizes.
Fiquei intrigada. Não vou defender algum tipo de femismo, não vou dizer que as mulheres devem inverter papéis e mandar nos homens. Nunca fui a favor disso. Acho que, homens ou mulheres, acima de tudo somos humanos. Só que essa afirmação do meu amigo me pareceu, de certa forma, verdadeira.
Ele não falava sobre não ter personalidade ou obedecer a todas as ordens de uma mulher autoritária. Falava antes daqueles casais em que o homem mima a mulher, faz suas vontades, bajula, esforça-se ao máximo para vê-la feliz. Os casais em que o homem fica encantado por sua mulher, e em que, inclusive, ele a ama mais.
Nos casais, há sempre alguém que ama com mais intensidade, mesmo que às vezes isso mude com o tempo, e ele fique mais apaixonado, depois ela, e por aí vai. Mas essa relação um tanto desigual só me parece ser harmônica quando é ele quem tem maior amor. Já vi casais em que, no começo, o rapaz era louco pela namorada, enquanto ela apenas tinha aprendido a amá-lo. Depois, quando ela começou a ser mais apaixonada do que ele, as coisas começaram a desandar, e ela chorava por falta de carinho.
Nunca vi, preciso que me apresentem, casais em que a mulher ama mais e eles são felizes. Nesses casos, a mulher fica carente, cobra mais atenção, tem ele no centro do seu mundo, se sujeita a algumas pequenas ou grandes humilhações, e sofre calada. Não sei, parece-me que a submissão da mulher é muito mais degradante, e certo tipo de servilismo do homem é muito mais doce.
Mas claro que há aqueles homens que são vassalos de forma mortificante. Esse é o tipo de submissão que não é saudável, segundo meu amigo. Eles também se calam e se humilham. Entretanto, segundo ele, isso nada tem a ver com aquele tipo de docilidade em que o homem dá todo tipo de regalias à sua amada. Ele a trata como um bom filho trata sua mãe.
Será que isso tem a ver com o tal de complexo de Édipo? Será que os homens precisam ser submissos a uma mulher como foram com sua querida mãe? Vejo que os bons filhos homens são aqueles que fazem as vontades da sua mãe, os filhos que às vezes deixam de sair para ela não dormir sozinha.
Talvez eu esteja enganada, mas antes quero que me apresentem um casal em que a mulher é submissa e os dois são felizes. Ainda acho que os homens procuram numa mulher um pouco de mãe, alguém que lhes dê aconchego, e também um rumo na vida.
segunda-feira, julho 02, 2007
Meninos não choram
Crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual são reféns do silêncio
Indignado, Ricardo de Souza Lima, coordenador do Programa Sentinela, abre a gaveta da sua mesa e retira uma pasta onde estão declarações de mais de 50 famílias que se negam a receber acompanhamento psicossocial. “Entre os meninos, a vergonha é ainda maior, já que, geralmente, eles são abusados por adultos do mesmo sexo. Além disso, na maioria das vezes, o agressor é da própria família ou alguém bem próximo”, declara Ricardo Lima.
De acordo com dados do Centro de Atendimento de Grupos Vulneráveis, no ano passado foram registrados 69 casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes, dos quais 10 vítimas eram do sexo masculino. Em 2007, até o momento houve 23 ocorrências, das quais duas eram de abuso sexual contra meninos. “Não se sabe se esses números correspondem à realidade, já que os meninos têm muito mais vergonha de denunciar do que as meninas”, comenta a delegada Mariana Diniz.
O abuso e suas conseqüências- Segundo a psicóloga Aline Maciel, considera-se abuso sexual qualquer tipo de carícia feita em uma criança ou adolescente com o objetivo de obter satisfação sexual através de uma relação de poder. “O abuso causa uma excitação para a qual o menino ainda não está preparado, o que causa sérios problemas para seu desenvolvimento”, explica a psicóloga.
Segundo Aline Maciel, há casos em que o agressor seduz a criança com simpatia e carinho. “Algumas vezes a criança sofre ameaças do agressor, que a faz se sentir causadora da situação, e tem medo de contar a alguém. Em outros, ele convence a vítima de que o abuso representa amor, e ela é tão carente que não quer perder o ‘afeto’ recebido”, comenta.
De acordo com Aline Maciel, a criança ou adolescente que tem esse tipo de experiência precoce pode no futuro ter dificuldades de obter prazer em relações sexuais, ou até mesmo criar uma compulsão pela prática sexual. “O menino pode ainda vir a se tornar um agressor, dado que nós, seres humanos, temos o hábito de repetir experiências passadas”, afirma.
Ricardo Lima relata que já atendeu no Programa Sentinela meninos que abusaram da irmã ou do irmão. Em outros casos, os meninos vêm a se tornar garotos de programa. “Eles vendem seus corpos como objetos, pois foram como objetos que eles foram tratados”, declara a psicóloga Aline Maciel.
Além das conseqüências psicológicas, o abuso apresenta conseqüências físicas. A psicóloga Aline Maciel acompanhou o caso de Bruno*, de três anos. Bruno era muito apegado à babá e estava sempre em sua companhia. Até que um dia sua mãe descobriu que o filho contraiu gonorréia através de abuso sexual cometido pela babá.
De acordo com o conselheiro tutelar Jerônimo da Silva Sérgio, as vítimas são encaminhadas para a Maternidade Hildete Falcão para, depois de constatado o abuso, fazerem exames mais complexos e tomarem um coquetel Anti-AIDS que pode prevenir a doença até 72 horas depois do incidente.
Dilemas da legislação- Segundo Jerônimo da Silva, o único caso de suspeita de abuso sexual contra criança do sexo masculino registrado no ano passado na região do 3° Distrito, que abrange bairros como Grageru e 13 de Julho, não teve o processo levado adiante, pois a família retirou a queixa. “Depois o garoto, de apenas nove anos, veio a negar que havia sido abusado pelo tio. Entretanto, ele apresentava os sintomas, lavava-se frequentemente e seus desenhos se remetiam ao falo”, relata o conselheiro.
De acordo com o promotor Paulo Lima, há casos em que a família pode desistir do processo. “Na ação pública incondicionada, quando o acusado é pai ou responsável da vítima, a família não pode se retratar. Já na ação penal privada, em que a família faz a queixa e paga um advogado, a parte afetada pode retirar a queixa a qualquer momento, e termina o processo”, explica o promotor.
Programa Sentinela- Executado em Aracaju pela Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania (Semasc), o Programa Sentinela funciona em Sergipe desde 2002, e ainda abarca apenas sete dos 75 municípios do estado, como Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora das Dores, Estância, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, além de Aracaju.
O objetivo do programa é realizar atendimento social e psicológico às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. “O acompanhamento também deve envolver os familiares em conjunto e separadamente, para o sucesso do atendimento”, afirma o coordenador.
*O codinome foi utilizado com o intuito de preservar a identidade da criança.
Sintomas de abuso sexual
Agressividade
Agitação
Excesso de masturbação
Ansiedade
Queixa de dores nos órgãos sexuais
Falta de confiança em adultos
Mudança repentina de humor
Fala constante sobre temáticas sexuais
Disk Denúncia: 0800 791400
Indignado, Ricardo de Souza Lima, coordenador do Programa Sentinela, abre a gaveta da sua mesa e retira uma pasta onde estão declarações de mais de 50 famílias que se negam a receber acompanhamento psicossocial. “Entre os meninos, a vergonha é ainda maior, já que, geralmente, eles são abusados por adultos do mesmo sexo. Além disso, na maioria das vezes, o agressor é da própria família ou alguém bem próximo”, declara Ricardo Lima.
De acordo com dados do Centro de Atendimento de Grupos Vulneráveis, no ano passado foram registrados 69 casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes, dos quais 10 vítimas eram do sexo masculino. Em 2007, até o momento houve 23 ocorrências, das quais duas eram de abuso sexual contra meninos. “Não se sabe se esses números correspondem à realidade, já que os meninos têm muito mais vergonha de denunciar do que as meninas”, comenta a delegada Mariana Diniz.
O abuso e suas conseqüências- Segundo a psicóloga Aline Maciel, considera-se abuso sexual qualquer tipo de carícia feita em uma criança ou adolescente com o objetivo de obter satisfação sexual através de uma relação de poder. “O abuso causa uma excitação para a qual o menino ainda não está preparado, o que causa sérios problemas para seu desenvolvimento”, explica a psicóloga.
Segundo Aline Maciel, há casos em que o agressor seduz a criança com simpatia e carinho. “Algumas vezes a criança sofre ameaças do agressor, que a faz se sentir causadora da situação, e tem medo de contar a alguém. Em outros, ele convence a vítima de que o abuso representa amor, e ela é tão carente que não quer perder o ‘afeto’ recebido”, comenta.
De acordo com Aline Maciel, a criança ou adolescente que tem esse tipo de experiência precoce pode no futuro ter dificuldades de obter prazer em relações sexuais, ou até mesmo criar uma compulsão pela prática sexual. “O menino pode ainda vir a se tornar um agressor, dado que nós, seres humanos, temos o hábito de repetir experiências passadas”, afirma.
Ricardo Lima relata que já atendeu no Programa Sentinela meninos que abusaram da irmã ou do irmão. Em outros casos, os meninos vêm a se tornar garotos de programa. “Eles vendem seus corpos como objetos, pois foram como objetos que eles foram tratados”, declara a psicóloga Aline Maciel.
Além das conseqüências psicológicas, o abuso apresenta conseqüências físicas. A psicóloga Aline Maciel acompanhou o caso de Bruno*, de três anos. Bruno era muito apegado à babá e estava sempre em sua companhia. Até que um dia sua mãe descobriu que o filho contraiu gonorréia através de abuso sexual cometido pela babá.
De acordo com o conselheiro tutelar Jerônimo da Silva Sérgio, as vítimas são encaminhadas para a Maternidade Hildete Falcão para, depois de constatado o abuso, fazerem exames mais complexos e tomarem um coquetel Anti-AIDS que pode prevenir a doença até 72 horas depois do incidente.
Dilemas da legislação- Segundo Jerônimo da Silva, o único caso de suspeita de abuso sexual contra criança do sexo masculino registrado no ano passado na região do 3° Distrito, que abrange bairros como Grageru e 13 de Julho, não teve o processo levado adiante, pois a família retirou a queixa. “Depois o garoto, de apenas nove anos, veio a negar que havia sido abusado pelo tio. Entretanto, ele apresentava os sintomas, lavava-se frequentemente e seus desenhos se remetiam ao falo”, relata o conselheiro.
De acordo com o promotor Paulo Lima, há casos em que a família pode desistir do processo. “Na ação pública incondicionada, quando o acusado é pai ou responsável da vítima, a família não pode se retratar. Já na ação penal privada, em que a família faz a queixa e paga um advogado, a parte afetada pode retirar a queixa a qualquer momento, e termina o processo”, explica o promotor.
Programa Sentinela- Executado em Aracaju pela Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania (Semasc), o Programa Sentinela funciona em Sergipe desde 2002, e ainda abarca apenas sete dos 75 municípios do estado, como Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora das Dores, Estância, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, além de Aracaju.
O objetivo do programa é realizar atendimento social e psicológico às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. “O acompanhamento também deve envolver os familiares em conjunto e separadamente, para o sucesso do atendimento”, afirma o coordenador.
*O codinome foi utilizado com o intuito de preservar a identidade da criança.
Sintomas de abuso sexual
Agressividade
Agitação
Excesso de masturbação
Ansiedade
Queixa de dores nos órgãos sexuais
Falta de confiança em adultos
Mudança repentina de humor
Fala constante sobre temáticas sexuais
Disk Denúncia: 0800 791400
sábado, junho 23, 2007
Tenho muitas feridas
que não sei se serão curadas
porque se por uma lado meu amor insiste em te perdoar e me perdoar
e permanecer do seu lado
minha memória brinca com o presente
retorna ao passado
e tudo que foi perdoado não deixa de ser uma lembrança triste e sutil
que às vezes se transforma num medo ou numa ira infundada
Não sei se devo partir
Não quero voltar de novo
Mas a decisão de só partir pra nunca mais voltar
Mantém-me estática sem saber dos meus passos aonde vão dar
Sei que já me basta a incerteza
Sei que você diz que gosta de mim
Mas também gosto de cerejas
Posso dizer que te amo um dia
Mesmo sabendo que dirá que gosta de mim
Mas você também gosta de caminhar na praia de manhã cedo
Não tiro aqui o valor do aconchego e do ar de saudade da praia de manhã cedo
Se você gosta de mim assim
Como gosta de caminhar e sentir o vento da praia de manhã cedo
Sei que gosta bastante
Talvez eu é que esteja pedindo demais
Afinal, em algum lugar alguém disse
Que uns amam
e outros se contentam em ser amados.
que não sei se serão curadas
porque se por uma lado meu amor insiste em te perdoar e me perdoar
e permanecer do seu lado
minha memória brinca com o presente
retorna ao passado
e tudo que foi perdoado não deixa de ser uma lembrança triste e sutil
que às vezes se transforma num medo ou numa ira infundada
Não sei se devo partir
Não quero voltar de novo
Mas a decisão de só partir pra nunca mais voltar
Mantém-me estática sem saber dos meus passos aonde vão dar
Sei que já me basta a incerteza
Sei que você diz que gosta de mim
Mas também gosto de cerejas
Posso dizer que te amo um dia
Mesmo sabendo que dirá que gosta de mim
Mas você também gosta de caminhar na praia de manhã cedo
Não tiro aqui o valor do aconchego e do ar de saudade da praia de manhã cedo
Se você gosta de mim assim
Como gosta de caminhar e sentir o vento da praia de manhã cedo
Sei que gosta bastante
Talvez eu é que esteja pedindo demais
Afinal, em algum lugar alguém disse
Que uns amam
e outros se contentam em ser amados.
quinta-feira, junho 14, 2007
Amor de cada um
o que era pra ser um post virou um texto...
ok. talvez eu leve essa enquete pra um lado sério, o que eu acredito que não seja objetivo tanto da enquete, como de toda a comunidade.
mas o lance é que existem duas idealizações que descarto completamente (e não descarto aqui nem relacionamento monogâmico, nem poligâmico, pois acredito serem ambos legítimos).
temos a idealização da monogamia. aquela idéia de que existe uma alma gêmea designada por Deus perdida no mundo esperando por você. sua alma gêmea vai te completar, vai preencher sua vida de felicidade, e vocês serão felizes para sempre.
por outro lado, temos também a idealização do amor livre. você poderá se relacionar com várias pessoas, amará todas igualmente, terá uma relação profunda com todas, e irá romper com sentimentos como ciúme e insegurança para ter um amor mais feliz.
só que quando voltamos à realidade...
vemos que essa tal alma gêmea do amor romântico não existe. percebemos que no mundo existem muitas e muitas pessoas compatíveis conosco.
e, novamente, quando regressamos à realidade, nos damos conta de que temos preferidos, e que não podemos ter intimidade com muita gente.
resta saber o que acontece com aqueles que acham que terão um amor plenamente feliz pra vida toda, resta saber o que vai acontecer com aqueles que se deparam com a realidade de que a paixão se desvanece com o passar do tempo, e que querem estar apaixonados eternamente.
resta saber também o que acontecerá com aqueles que têm preferidos, e que os outros terminam por ser os outros, e o que acontecerá com esses que são a segunda, a terceira opção.
resta saber o que acontecerá com aqueles que, muitas vezes, têm medo de cair de cabeça numa relação e se envolvem em múltiplos relacionamentos superficiais e descartáveis. porque se por um lado o amor livre é contra a tal falada posse do capitalismo, é contra o patriarcalismo, a propriedade sobre o parceiro, agora vemos relacionamentos adaptados à sociedade de consumo em que vivemos: rápidos, descartáveis, fast-food, assim como muitos produtos que consumimos.
relacionamentos monogâmicos dão certo? bem, minha avó mal brigava com meu avô, e eles se separaram quando meu avô faleceu.
Já Sartre e Beauvoir tinham um relacionamento aberto que durou 50 anos em que ambos tiveram amores com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto.
cada um tem seu jeito de ser feliz. acredito que o acerto está em descobrir qual o seu jeito de ser feliz (e ser feliz não implica se isentar da dor).
o relacionamento aberto não é mais nobre porque as pessoas que os compõe são mais seguras. assim como o relacionamento fechado não é substancialmente melhor porque significa que "nele sim as pessoas se amam de verdade, pois quem ama só quer a pessoa que ama e acabou".
descobrir o que quer e ser honesto consigo mesmo e com a pessoa que está ao seu lado. honesto no sentido de ter uma relação aberta porque acredita nela e porque ama seu (a) parceiro(a), e não porque não se apaixonou. ser honesto no sentido de se envolver num relacionamento fechado e não trair a CONFIANÇA da pessoa.
no mais, não gosto do termo "amor livre" sendo aplicado somente a relacionamentos abertos. quem disse que o amor monogâmico é preso? se você tem uma namorada que não te enche o saco perguntando onde você está, se você preserva sua individualidade, sai com seus amigos, vive a sua vida, se você tem uma relação de amor e não de dependência com ela, quem disse que você está preso?
pra mim amor livre é amar e respeitar o outro. é reconhecer no outro seu direito de ir e vir, é aprender coisas novas e legais, e ensinar coisas novas e legais ao seu amor. é crescer juntos! é superar as dificuldades! é entender que existe a imperfeição! é melhorar a si mesmo e ajudar o outro a melhorar sempre!
isso pra mim é amor livre.
ok. talvez eu leve essa enquete pra um lado sério, o que eu acredito que não seja objetivo tanto da enquete, como de toda a comunidade.
mas o lance é que existem duas idealizações que descarto completamente (e não descarto aqui nem relacionamento monogâmico, nem poligâmico, pois acredito serem ambos legítimos).
temos a idealização da monogamia. aquela idéia de que existe uma alma gêmea designada por Deus perdida no mundo esperando por você. sua alma gêmea vai te completar, vai preencher sua vida de felicidade, e vocês serão felizes para sempre.
por outro lado, temos também a idealização do amor livre. você poderá se relacionar com várias pessoas, amará todas igualmente, terá uma relação profunda com todas, e irá romper com sentimentos como ciúme e insegurança para ter um amor mais feliz.
só que quando voltamos à realidade...
vemos que essa tal alma gêmea do amor romântico não existe. percebemos que no mundo existem muitas e muitas pessoas compatíveis conosco.
e, novamente, quando regressamos à realidade, nos damos conta de que temos preferidos, e que não podemos ter intimidade com muita gente.
resta saber o que acontece com aqueles que acham que terão um amor plenamente feliz pra vida toda, resta saber o que vai acontecer com aqueles que se deparam com a realidade de que a paixão se desvanece com o passar do tempo, e que querem estar apaixonados eternamente.
resta saber também o que acontecerá com aqueles que têm preferidos, e que os outros terminam por ser os outros, e o que acontecerá com esses que são a segunda, a terceira opção.
resta saber o que acontecerá com aqueles que, muitas vezes, têm medo de cair de cabeça numa relação e se envolvem em múltiplos relacionamentos superficiais e descartáveis. porque se por um lado o amor livre é contra a tal falada posse do capitalismo, é contra o patriarcalismo, a propriedade sobre o parceiro, agora vemos relacionamentos adaptados à sociedade de consumo em que vivemos: rápidos, descartáveis, fast-food, assim como muitos produtos que consumimos.
relacionamentos monogâmicos dão certo? bem, minha avó mal brigava com meu avô, e eles se separaram quando meu avô faleceu.
Já Sartre e Beauvoir tinham um relacionamento aberto que durou 50 anos em que ambos tiveram amores com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto.
cada um tem seu jeito de ser feliz. acredito que o acerto está em descobrir qual o seu jeito de ser feliz (e ser feliz não implica se isentar da dor).
o relacionamento aberto não é mais nobre porque as pessoas que os compõe são mais seguras. assim como o relacionamento fechado não é substancialmente melhor porque significa que "nele sim as pessoas se amam de verdade, pois quem ama só quer a pessoa que ama e acabou".
descobrir o que quer e ser honesto consigo mesmo e com a pessoa que está ao seu lado. honesto no sentido de ter uma relação aberta porque acredita nela e porque ama seu (a) parceiro(a), e não porque não se apaixonou. ser honesto no sentido de se envolver num relacionamento fechado e não trair a CONFIANÇA da pessoa.
no mais, não gosto do termo "amor livre" sendo aplicado somente a relacionamentos abertos. quem disse que o amor monogâmico é preso? se você tem uma namorada que não te enche o saco perguntando onde você está, se você preserva sua individualidade, sai com seus amigos, vive a sua vida, se você tem uma relação de amor e não de dependência com ela, quem disse que você está preso?
pra mim amor livre é amar e respeitar o outro. é reconhecer no outro seu direito de ir e vir, é aprender coisas novas e legais, e ensinar coisas novas e legais ao seu amor. é crescer juntos! é superar as dificuldades! é entender que existe a imperfeição! é melhorar a si mesmo e ajudar o outro a melhorar sempre!
isso pra mim é amor livre.
segunda-feira, junho 11, 2007
Quantas e quantas pessoas não querem mais saber de relacionamento, porque dá muito trabalho, porque já se feriu demais e quer ficar só. Mas eu ainda acho que somos responsáveis pelo amor, que o amor é o que a gente faz dele. Se alguns relacionamentos são infelizes, não é porque é condição inerente do amor ser assim. Na verdade, talvez nem tenha amado de tanto medo que tivera.
sexta-feira, junho 08, 2007
Minha terceira perna
Não tem sensação pior no mundo do que a de estar confusa. Não mesmo. Certamente você pode fazer a pior escolha possível, e você não se conhece o bastante. Não me agrada a idéia de eu não ter controle sobre mim, de não conhecer cada pensamento conscientemente e embasada nas minhas experiências da infância, nos exemplos dos meus pais, e mimimi à la Freud. Nada disso.
O que eu quero? Não faço a mínima idéia! Sei que quero alguma coisa e quero-a já! Talvez a coisa que eu mais quero é ter controle sobre isso tudo, é conhecer pelo menos a mim, oras! Mas muitas vezes de tanto querer chegar a uma decisão concreta, a gente acaba se ajeitando numa forma que não nos serve.
O que eu quero? Não faço a mínima idéia! Sei que quero alguma coisa e quero-a já! Talvez a coisa que eu mais quero é ter controle sobre isso tudo, é conhecer pelo menos a mim, oras! Mas muitas vezes de tanto querer chegar a uma decisão concreta, a gente acaba se ajeitando numa forma que não nos serve.
quarta-feira, junho 06, 2007
Estava hoje tendo aquela típica conversa de divã com uma amiga minha (eu sei que você já teve também, nem venha), quando ela me disse a seguinte frase, que ela viu em algum filme do qual não recorda o nome:
"Que Deus me dê a coragem de mudar as coisas que eu posso controlar e para aceitar as que eu não posso. E principalmente, que me dê a sabedoria pra diferenciar as duas".
"Que Deus me dê a coragem de mudar as coisas que eu posso controlar e para aceitar as que eu não posso. E principalmente, que me dê a sabedoria pra diferenciar as duas".
Sartre e Beauvoir

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir viveram um relacionamento pouco convencional que durou 50 anos. É um dos casais mais célebres da História. É impossível falar de um e não mencionar o outro. A paixão pela filosofia e pela literatura os uniu. Eles desafiaram a moral do seu tempo, vivendo muitos amores, assumindo compromissos públicos na contramão da mentalidade dominante em sua época. Foram reverenciados, mas também criticados e odiados. E escreveram livros que se transformaram em obras-primas. Na recém-lançada biografia Tête-à-Tête, da editora Objetiva, a escritora inglesa Hazel Rowley narra a agitada vida privada do casal existencialista, desde os seus primeiros encontros, em 1929, até a morte de ambos – ele em 1980, ela em 1986.
Foi na Austrália, entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, que Hazel teve contato com as idéias de Simone de Beauvoir. Ela chegou a entrevistar a escritora em 1976, em Paris, quando preparava sua tese de doutorado sobre Beauvoir e o existencialismo. O encontro foi intimidante, segundo Hazel. Afinal, ela estava diante de uma mulher que admirava por causa de sua relação de liberdade e estímulo intelectual com Sartre. E que muito havia contribuído para o desnudamento da condição feminina com ensaios como O Segundo Sexo, um de seus mais famosos.
Mas, apesar de brilhantes, Sartre e Beauvoir eram “estranhamente inseguros”, explica Hazel Rowley, e sempre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam. A despeito da feiúra notória, Sartre era um grande sedutor. E não foram poucas as mulheres que ele amou e abandonou, embora algumas ele continuasse sustentando financeiramente, numa atitude tipicamente machista. Um machismo, porém, que ele jamais manifestou com Simone de Beauvoir, afirma Hazel Rowley.
A notável cumplicidade do casal permitia que dividissem não somente interesses e preocupações, mas também amantes. E essa liberdade era exercida mediante um pacto incomum: eles contavam tudo um para o outro. Bonita, ícone do feminismo, Beauvoir era igualmente uma sedutora e teve muitos amantes homens, mas também se envolveu com mulheres, fato que ela sempre negou e que só se tornou público após a sua morte, com a divulgação de suas cartas.
Hazel Rowley lecionou na Universidade de Iowa, Estados Unidos, e na Deakin University, Austrália, e é autora dos livros Richard Wright: The Life and Times e Christina Stead: A Biography. Para escrever o duplo retrato de Sartre e Beauvoir, ela realizou entrevistas originais e pesquisou centenas de cartas inéditas. “Nunca gostei tanto de ter escrito um livro“, disse nesta entrevista concedida por e-mail de Nova York, onde mora.
Por que a senhora decidiu contar a história de Sartre e Beauvoir e focá-la no relacionamento do casal?
Estudei francês no Sul da Austrália no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Era o momento em que o movimento feminista estava no auge. Eu havia lido as memórias de Simone de Beauvoir e algumas de suas entrevistas, e fiquei muito inspirada. Ela parecia uma mulher realmente independente, e eu também queria viver daquela maneira. Eu gostava da idéia da relação livre, intelectualmente estimulante e mutuamente encorajadora que ela mantinha com Jean-Paul Sartre. Admirava o interesse deles pelas pessoas e pelo mundo, sua capacidade para trabalhar bastante, seu papel como intelectuais públicos e seu engajamento político. Tempos depois, já na meia idade, quis de repente examinar de novo aquela relação, e com mais objetividade. Era uma relação realmente admirável ou não? Beauvoir havia idealizado e representado em suas memórias? Eu queria conversar com os amantes e amigos do casal, para ver o que eles teriam a dizer.
Eles foram o casal mais famoso do Século 20?
Acho que sim. Eles ficaram famosos depois da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945. Todos, no mundo inteiro, falavam dessa nova loucura, o “ existencialismo ” (mesmo que raramente entendessem o que isso significava). Sartre ficou famoso, e por algum tempo Beauvoir tornou-se famosa por causa dele. Mas depois ela adquiriu fama por seus próprios méritos, com a publicação do seu livro O Segundo Sexo, em 1949. Eles eram figuras muito controvertidas, de esquerda, e com sua literatura desafiaram as convenções sociais. Por isso muitos os odiavam. O Segundo Sexo foi considerado por muitos um livro chocante, o que levou Beauvoir a receber muitas cartas de ódio. Ela e Sartre se manifestaram contra a Guerra da Argélia (e contra o colonialismo em geral). Na França, durante os anos 1950 e início dos anos 1960, eles foram amplamente desprezados por essa posição.
Como ocorreu o seu encontro com Simone de Beauvoir? Como se sentiu ao estar diante da mulher que a inspirou?
Muito intimidada! Ela falava com muita rapidez – todos dizem isso a seu respeito –, e estávamos conversando em francês. Mas para mim foi também um momento muito importante. Naquela época, ela estava com 68 anos, e eu a achei ainda muito bonita. Naquele dia, ela não estava usando um turbante. Os cabelos estavam presos, o que dava a ela um visual melhor. E ela estava usando calça, enquanto que toda a vida havia usado vestidos, até aquele momento. Minhas perguntas foram respondidas automaticamente, e percebi que havia certas coisas sobre as quais ela não queria falar. Por exemplo, quando perguntei se ela e Sartre tinham alguma vez sentido ciúmes um do outro, ela respondeu: “ Não, nunca!” Não acreditei totalmente nela, nem naquela ocasião (quando escrevi meu livro, anos depois, aquilo pareceu uma bobagem. Beauvoir algumas vezes sentia muito ciúme das outras namoradas de Sartre).
Não parece contraditório que Beauvoir, que lutou por sua independência e tentou construir uma relação de igualdade com Sartre, fosse tão dependente dele? Não estou bem certa se ela era tão dependente dele. Sob alguns aspectos, acredito que ele precisou mais dela do que ela dele. Ele precisava dela como uma âncora, para lhe dar estabilidade. Algumas vezes Sartre esteve à beira da loucura. Nos anos 1950, ele estava muito deprimido, principalmente por causa da política. Ele bebia muito e tomava fartas doses de anfetaminas. Acabou se tornando completamente dependente de drogas. Acho que ele precisava de Beauvoir, que era uma espécie de figura materna, uma mulher que o conhecia muito bem e podia perdoá-lo infinitamente. Em termos de sua literatura, era maravilhoso que pudessem discutir suas idéias entre si. E que editassem o trabalho um do outro.
Relações abertas não eram incomuns. O que fez com que a de Sartre e Beauvoir fosse tão diferente e famosa? É verdade, relações abertas não eram particularmente incomuns naquele tempo. Muitos amigos do casal levavam o mesmo tipo de vida. Hoje é algo incomum. O mundo se tornou mais conservador, em parte por causa da Aids. Porém, a maioria das pessoas que vivem relacionamentos abertos não conta tudo um para o outro, e com detalhes em technicolor! Mas Sartre e Beauvoir contavam tudo um para o outro. Isso lhes dava um sentimento de cumplicidade. Para escritores, isso era maravilhoso. Era quase como se cada um deles vivesse duas vidas. O que os tornou também famosos foram as memórias de Beauvoir. Ela despertou ainda mais o interesse sobre a vida dos dois escrevendo memórias sem fim sobre a vida do casal.
Qual é o principal legado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir para os casais atuais?
Acho que eles eram um modelo de generosidade. Um nunca impedia o outro. Eles se encorajavam no verdadeiro sentido da palavra : dando coragem e liberdade um ao outro. E, como sabemos, não é fácil amar uma outra pessoa com a liberdade deles. Simone de Beauvoir trabalhou com afinco para controlar seu ciúme. Isso era algo admirável. Eles acreditavam que o ciúme é uma emoção natural, mas isso não quer dizer que o ciúme seja bom para uma relação. Como existencialistas, eles acreditavam que temos força de vontade para lutar contra certas emoções ou tendências negativas. As pessoas dizem: “Sou preguiçoso por natureza ”. Como existencialistas, Sartre e Beauvoir diriam: “ Ser preguiçoso é uma escolha sua!”.
Certa vez Beauvoir comentou que Sartre adorava as mulheres complicadas, e acabava levando-as à loucura. Beauvoir tinha razão? Beauvoir e Sylvie Le Bon [filha adotiva de Simone] estavam brincando com Sartre quando disseram isso. É verdade que Sartre gostava de mulheres jovens, vulneráveis e neuróticas. Acredito que ele sofria do complexo de salvador. Ele se imaginava no comando de um grande cavalo branco, um cavaleiro numa armadura brilhante salvando pequenas mulheres indefesas. Esta fantasia o fazia se sentir poderoso, necessário. Mas no fundo disso tudo havia a insegurança de Sartre. Ele se sentia tão feio que sequer gostava de abordar as pessoas na rua para lhes pedir informações. Ele não queria impor seu corpo às pessoas. Suas namoradas eram com freqüência bem loucas. Elas já seriam loucas de início ou ele as tornava assim? Eis uma boa pergunta. Acho que ele gostava de fazer com que mulheres jovens ficassem dependentes dele, e a dependência não é boa para ninguém. Ele também gostava de provocar ciúmes em suas amantes.
Acho que é neste ponto que Simone de Beauvoir é tão admirável. Em suas memórias ela escreveu que, por algum tempo, ela também se tornou dependente. Ela escreve com grande inteligência sobre a “mulher apaixonada” cuja vida gira em torno do seu homem. Mas, depois de alguns anos nessa condição, Beauvoir tomou as rédeas da situação. A longo prazo, ela não permitiu que Sartre a enfraquecesse. Ela preparou as coisas de modo que Sartre a tornasse forte. Muito habilidoso da parte dela, acho.
Agora sabemos que Beauvoir mantinha relações com mulheres, as quais ela sempre negou. Não é uma postura surpreendente, dadas suas idéias filosóficas?
É verdade, e eu não sei porque ela negou seus relacionamentos com mulheres. Isso é um pouco decepcionante. Acho que, em parte, porque ela via a si mesma fundamentalmente como heterossexual, e era assim que também se viam as mulheres com quem ela teve relações. Próximo do fim de sua vida, Beauvoir disse que gostaria de ter sido mais honesta sobre sua sexualidade, mas não poderia porque outras pessoas estavam envolvidas, e ela não se sentia livre para contar tudo. Tinha que ser discreta.
A senhora teve acesso a cartas inéditas que lhe forneceram muito material para o seu livro. Muitas, porém, ainda não estão disponíveis. A senhora já imaginou que tipo de Sartre poderia estar oculto nessas cartas? É possível mudar o ponto de vista sobre ele com a leitura desse material inacessível? Examinei cartas de Sartre para quase todas as suas namoradas, e tenho certeza de que não restou nenhum Sartre oculto para ser descoberto. Vi centenas e centenas de cartas não publicadas, e acredito que agora conheço bastante bem o íntimo de Sartre.
Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual? Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas.
Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual? Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas.
Será que teriam freqüentado cibercafés em suas férias?
Imagino que sim. Mas eles também apreciavam a sensualidade das canetas, da tinta, do papel. Cibercafés não são lugares sensuais. Isso teria sido uma perda para eles. Sobre a Aids : eles usariam preservativos. Uma amiga minha negra sul africana, de 30 anos de idade, leu meu livro e ficou enormemente chocada com a vida sexual deles. Ela me disse: “Fico me perguntando se eles usavam preservativos!” A resposta é não, não usavam. Sobre o terrorismo : havia bastante terrorismo durante a Guerra da Argélia. Sartre não gostava do terrorismo, mas afirmava que entendia porque pessoas que têm uma causa justa, e não têm grandes exércitos ou equipamento militar, têm que recorrer a esta estratégia contra pessoas que têm essas coisas e que estão colonizando-as ou atacando-as injustamente.
Não parece incrível que eles fossem tão vulneráveis em suas relações, apesar da força de suas idéias filosóficas?
Sim. Tanto Beauvoir quanto Sartre eram estranhamente inseguros à maneira deles. Beauvoir muitas vezes afirmou que achava difícil combinar amor com independência. Estar apaixonada a tornava vulnerável, dependente do outro, atemorizada pela perda do amor daquela pessoa. Tanto ela quanto Sartre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam.
A senhora estudou o existencialismo durante muito tempo. Como o livro a ajudou a compreendê-lo mais?
Qual foi a importância de tê-lo escrito? Escrevi minha tese de doutorado sobre o existencialismo e Simone de Beauvoir nos anos 1970. De fato, sou interessada por esse assunto há muito tempo. É muito bom ter retornado a um tema que foi uma paixão anos atrás. Senti-me como se estivesse voltando para casa. Nunca gostei tanto de ter escrito um livro. Mesmo estando perfeitamente consciente de suas falhas, eu ainda admiro Sartre e Beauvoir. Ainda consigo aprender com eles. Simone de Beauvoir, em particular, me faz querer viver com mais coragem, engajamento e paixão. Ela me faz querer ler mais livros, viajar pelo mundo, me apaixonar de novo, assumir posições políticas mais firmes, escrever mais, trabalhar mais, atuar com mais intensidade e olhar com mais carinho para a beleza do mundo natural. Ela amava a natureza, era uma mulher muito sensível.
A senhora esteve recentemente no Brasil para pesquisar sobre Cristina Tavares, a amante brasileira de Sartre. O que descobriu sobre ela?
Eles não foram amantes. Cristina nunca dormiu com Sartre. Ele a cortejou vigorosamente. Tenho certeza que ele teria gostado de dormir com ela. Mas ela tinha 25 anos, era uma boa moça católica. Ele tinha 55 anos, e estava longe de ser bonito. Ela admirava Sartre e Beauvoir, não há dúvidas quanto a isso. Logo depois que deixou o Brasil, Sartre escreveu uma carta de onze páginas para ela, com uma longa lista de livros para ser lidos, a maioria sobre política. Cristina os encontrou de novo, diversas vezes, em Portugal e na França, permanecendo em contato com eles. Acho que Sartre podia perceber que ela era uma jovem especial, mesmo com apenas 25 anos. E ela provou ser muito especial, tornou-se uma importante congressista, uma pioneira da questão feminina no Brasil. Ela nunca se casou, era muito independente, atlética, tinha muitos amigos, e era fortemente engajada na política progressista brasileira. Tragicamente, morreu de câncer com apenas 50 anos.
Sartre costumava terminar um relacionamento quando deixava de amar suas namoradas, embora continuasse ajudando-as financeiramente durante muito tempo. Esse comportamento não era uma espécie de machismo?
Sim, acho que Sartre estava cheio de machismo. Mas, por mais estranho que pareça, não com Simone de Beauvoir! Eis mais uma razão porque sua relação é única e tão interessante.
Se a senhora tivesse que escolher um livro de Simone de Beauvoir, qual seria? Por quê?
Prefiro as memórias, mas, como são quatro volumes, não posso escolhê-las, mesmo achando o segundo volume especialmente interessante. Imagino que escolheria seu livro mais curto, Uma morte muito suave, no qual ela fala da morte da sua mãe. O livro mostra a suavidade e sensibilidade de Beauvoir, algo que ela geralmente escondia.
A dualidade “amores contingentes” e “amores necessários”, idealizada por Sartre, explica a relação dele com Beauvoir e deles com os outros? Não, não explica. Às vezes fico pensando que essa foi a forma que ele “vendeu” seu estilo de vida a Beauvoir, para torná-lo mais saboroso. Outras mulheres eram necessárias para Sartre, mas, conforme se revelou com o tempo, ninguém durou tanto ou foi tão íntimo quanto a relação de cinqüenta anos de Sartre com Beauvoir. E ninguém mais foi um par intelectual para eles, da forma que um foi para o outro.
Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje? Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.
Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje? Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.
Sartre viveu muitas vidas, e se tornou mais engajado nos problemas do seu tempo à medida que envelhecia. Ele apoiou o movimento da independência da Argélia, e rompeu com o Partido Comunista Francês depois de 1956, quando a União Soviética invadiu a Hungria. Ele e Beauvoir se sentiram muito isolados naquela época, mas permaneceram lutando.
Intelectuais como Sartre não são mais possíveis hoje?
O mundo hoje está numa desordem desastrosa, e mais do que nunca precisamos de intelectuais públicos corajosos.
Sartre viveu seus últimos dias dependendo das pessoas, aparentemente dominado pelas idéias do então jovem intelectual Benny Lévy. E de acordo com Beauvoir, em suas memórias, ela se sentiu enganada por Sartre. Eles fracassaram?
Sartre estava dependente no final de sua vida porque estava cego. De 1973 até sua morte, em 1980, ele não podia ver. Isso significava que não podia ler, nem escrever. Ele precisava de pessoas que lessem para ele, e esse foi amplamente o trabalho de Benny Lévy. Eles tiveram longas conversas, que foram gravadas e publicadas por Lévy. Beauvoir sentiu que Lévy se aproveitou de um homem frágil e cego, e publicou idéias que não eram as de Sartre. Não sei se ela se sentiu enganada por Sartre, porém muito magoada com a hostilidade de Benny Lévy com ela. E com a hostilidade da jovem Arlette Elkaïm, que Sartre tinha adotado legalmente. Receio que o final do livro seja um pouco triste. Muitas pessoas me dizem que choraram quando leram sobre o funeral de Sartre. Beauvoir estava tão devastada, tão perdida, tão frágil. Eu mesma chorei, admito.
Entrevista publicada na revista Caros Amigos
sexta-feira, abril 27, 2007
Na saúde e na doença
Ontem minha mãe me falava de um conhecido seu casado com uma mulher acometida pelo Alzheimer. Mamãe disse que o homem ainda amava a esposa, e cuidava dela com todo esmero. Mas ele sentia necessidade de sair, ir ao cinema, a um barzinho, e para isso tinha uma espécie de amante, com quem fazia sexo e outras coisas agradáveis.
A amante sabe que ele ainda ama a esposa. Entretanto, ela não a odeia por isso. Muito pelo contrário, na verdade, a amante até ajuda nos cuidados com a esposa adoentada. Cuida dos dois, marido e esposa, dedicando ao primeiro seu corpo, seu carinho e seus risos, e à segunda, o seu zelo.
Minha mãe achava estranha aquela situação. Contou que o homem às vezes se sentia culpado por achar que estava traindo sua amada esposa, mas precisava se dar o direito de viver a vida. Toda a sua vontade de viver deveria ser castigada? Deveria ele se retirar na dor e se empenhar apenas em cuidar de sua mulher, até que a morte os separe?
Mamãe, apesar de compreender as vontades do homem, de certa forma o repreendia. Já minha avó achava o segundo relacionamento que ele tinha totalmente ofensivo. Até questionava se acaso a enferma não poderia saber, de alguma forma, tudo o que se passava, e não tinha como reagir, o que seria deveras angustiante.
Vovó e mamãe se escandalizaram quando eu disse que aquele era um dos relacionamentos mais harmônicos de que eu já tinha ouvido falar. O marido não tinha nada que se castigar com tanta culpa. Ora, ele não havia abandonado sua esposa, ele cuidava dela com todo carinho e, portanto, era fiel sim a ela.
Por que haveria ele de ser infeliz? Ele deveria se vestir de preto, chorar ao lado de sua esposa enquanto recebe visitas? Por que, se há tanta vida por aí? A sua amante, certamente, não era apenas um corpo para ele. Claro que tinha por ela afeto, amor quem sabe. É provável que ele ame as duas. E a amante me parece muito feliz por cuidar dos dois.
Acho que essa história daria um belo filme de Almodóvar. Ele sabe como ninguém tratar de temas polêmicos no que refere ao amor. Lembro que em Fale com ela Benigno dedica a sua vida para cuidar de uma mulher em coma, até o dia em que, apaixonado por ela, faz amor com a mulher e a engravida. Muitos disseram que ele era um psicopata, e que havia estuprado a moça. Não obstante, a mulher sai do coma e volta a dançar balé. É, mas nesse outro filme, nosso Benigno, ao invés de viver em função de uma mulher adoentada, amaria outra, amaria as duas. E num Almodóvar, a esposa sairia de seu estado debilitado e de repente teria ataques histéricos ao ver seu marido com outra. Quem sabe até mataria os dois. Ou faria um menage.
A amante sabe que ele ainda ama a esposa. Entretanto, ela não a odeia por isso. Muito pelo contrário, na verdade, a amante até ajuda nos cuidados com a esposa adoentada. Cuida dos dois, marido e esposa, dedicando ao primeiro seu corpo, seu carinho e seus risos, e à segunda, o seu zelo.
Minha mãe achava estranha aquela situação. Contou que o homem às vezes se sentia culpado por achar que estava traindo sua amada esposa, mas precisava se dar o direito de viver a vida. Toda a sua vontade de viver deveria ser castigada? Deveria ele se retirar na dor e se empenhar apenas em cuidar de sua mulher, até que a morte os separe?
Mamãe, apesar de compreender as vontades do homem, de certa forma o repreendia. Já minha avó achava o segundo relacionamento que ele tinha totalmente ofensivo. Até questionava se acaso a enferma não poderia saber, de alguma forma, tudo o que se passava, e não tinha como reagir, o que seria deveras angustiante.
Vovó e mamãe se escandalizaram quando eu disse que aquele era um dos relacionamentos mais harmônicos de que eu já tinha ouvido falar. O marido não tinha nada que se castigar com tanta culpa. Ora, ele não havia abandonado sua esposa, ele cuidava dela com todo carinho e, portanto, era fiel sim a ela.
Por que haveria ele de ser infeliz? Ele deveria se vestir de preto, chorar ao lado de sua esposa enquanto recebe visitas? Por que, se há tanta vida por aí? A sua amante, certamente, não era apenas um corpo para ele. Claro que tinha por ela afeto, amor quem sabe. É provável que ele ame as duas. E a amante me parece muito feliz por cuidar dos dois.
Acho que essa história daria um belo filme de Almodóvar. Ele sabe como ninguém tratar de temas polêmicos no que refere ao amor. Lembro que em Fale com ela Benigno dedica a sua vida para cuidar de uma mulher em coma, até o dia em que, apaixonado por ela, faz amor com a mulher e a engravida. Muitos disseram que ele era um psicopata, e que havia estuprado a moça. Não obstante, a mulher sai do coma e volta a dançar balé. É, mas nesse outro filme, nosso Benigno, ao invés de viver em função de uma mulher adoentada, amaria outra, amaria as duas. E num Almodóvar, a esposa sairia de seu estado debilitado e de repente teria ataques histéricos ao ver seu marido com outra. Quem sabe até mataria os dois. Ou faria um menage.
quinta-feira, abril 26, 2007
Mensagem
Amor!
Posso te chamar de amor?
Se eu não puder, corra logo, que eu só quero ficar do lado de quem eu possa chamar de amor.
Posso te chamar de amor?
Se eu não puder, corra logo, que eu só quero ficar do lado de quem eu possa chamar de amor.
segunda-feira, abril 23, 2007
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
sábado, abril 21, 2007
Canção amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, abril 20, 2007
Bilhete embaixo da porta
André,
Eu só queria que você soubesse que eu sempre te amei, mas nunca me apaixonei por você nem quis você só pra mim.
Luana.
Eu só queria que você soubesse que eu sempre te amei, mas nunca me apaixonei por você nem quis você só pra mim.
Luana.
Dos amores que nunca quis
Vejo no espelho a mulher exausta
O que foi do amor que tive?
Tantos e tantos amores
Mas eram eles apenas a falta
Fora sempre uma dor a mais
Uma angústia, uma espera
Mas nunca um conforto que ficasse
Nunca uma saudade sincera
Apenas a perda
E a perda dói,
Não tanto por ainda querer o objeto amado
Mas por querer, através da dor, manter aqui o que já não está mais
Nunca o aconchego, o afeto, a proteção
Nunca a descoberta de uma mulher muito mais bonita no espelho
Nunca alguém que visse o que tantas vezes ela teimava em esconder
E não havia vergonha alguma, se era tão bonita!
Saudades, saudades infindas do amor que nunca havia tido
Saudades, como quem parte
Mas parte só por medo de ver o outro partir.
O que foi do amor que tive?
Tantos e tantos amores
Mas eram eles apenas a falta
Fora sempre uma dor a mais
Uma angústia, uma espera
Mas nunca um conforto que ficasse
Nunca uma saudade sincera
Apenas a perda
E a perda dói,
Não tanto por ainda querer o objeto amado
Mas por querer, através da dor, manter aqui o que já não está mais
Nunca o aconchego, o afeto, a proteção
Nunca a descoberta de uma mulher muito mais bonita no espelho
Nunca alguém que visse o que tantas vezes ela teimava em esconder
E não havia vergonha alguma, se era tão bonita!
Saudades, saudades infindas do amor que nunca havia tido
Saudades, como quem parte
Mas parte só por medo de ver o outro partir.
quinta-feira, abril 19, 2007
Essa tal liberdade

A maioria absoluta dos casais pula a cerca em seus casamentos de 10, 20 anos. Uma escapadinha ali não faz mal, contanto que o outro não saiba, dizem. Mas agora no meio universitário está se difundindo o que chamam de "amor livre", e algumas pessoas acreditam que o amor pode superar as barreiras do ciúme e da possessividade, e inclusive ser um amor muito mais honesto.
Sabemos que todo mundo sente atração por outras pessoas, e isso não tem nada a ver com amor. Ninguém venha me dizer que quando ama deixa de achar a bundinha de Fulano uma gostosura, que eu tô ligada na hipocrisia já. Agora você imagine não precisar reprimir os seus instintos, não se castrar no seu dia-a-dia, e ainda assim ter um relacionamento extremamente saudável e construtivo com alguém. Um sonho.
Tem gente que consegue, eu conheço casos em que o relacionamento aberto funciona sim. Claro que nesses namoros as pessoas passam por muita dificuldade para superar a moral, os valores que aprendemos desde pequenos. Afinal, na novela a gente já via a mocinha chorar porque seu namorado ficou com outra. No família a gente já aprendeu que quem comete adultério (com toda a carga negativa da palavra) é canalha. Nossos valores parecem tão naturais, que tudo que esteja fora disso é perversão e quem ousar questioná-los deve ser queimado na fogueira. Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!
Ok. Os hippies que vivam na natureza e procuravam novas formas de relações sociais, que propunham uma vida libertária podiam estar certos. Entretanto, grande parte deles virou yuppie e vestiu seu belo colarinho branco. Regressemos ao conservadorismo, sejamos reacionários.
O fato é que ser o que Dostoiéviski chamaria de extraordinário, ou seja, desafiar a moral dos ordinários, ou das pessoas comuns, sempre custa muito caro. Quantos outsiders não tiveram suas cabeças numa bandeja, ou quantas mulheres divorciadas não foram chamadas de putas? Ou simplesmente quantas mulheres no Afeganistão não foram apedrejadas por mostrarem o tornozelo?
É verdade. Mudar é difícil, bem difícil. Só que essas mudanças, essas revoluções podem caminhar pro lado oposto, e acabam se revestindo do mesmo teor de hipocrisia dos valores contestados.
É quando, por exemplo, um cara ou uma garota diz que é amor livre porque tá na moda. É quando as pessoas que acreditam no amor livre acham que o amor das pessoas monogâmicas não é verdadeiro. É quando, novamente, se estabelecem formas de se comportar e valores dogmáticos. É quando somos tão intolerantes quanto qualquer xiita.
Fora isso, em muitos relacionamentos abertos predominam a superficialidade, a falta de envolvimento. Pessoas que se frustraram em amores do passado e decidem adeirir a novas formas de convívio. Só que muitas vezes o que chamam de amor livre na verdade é falta de amor.
Sabemos que todo mundo sente atração por outras pessoas, e isso não tem nada a ver com amor. Ninguém venha me dizer que quando ama deixa de achar a bundinha de Fulano uma gostosura, que eu tô ligada na hipocrisia já. Agora você imagine não precisar reprimir os seus instintos, não se castrar no seu dia-a-dia, e ainda assim ter um relacionamento extremamente saudável e construtivo com alguém. Um sonho.
Tem gente que consegue, eu conheço casos em que o relacionamento aberto funciona sim. Claro que nesses namoros as pessoas passam por muita dificuldade para superar a moral, os valores que aprendemos desde pequenos. Afinal, na novela a gente já via a mocinha chorar porque seu namorado ficou com outra. No família a gente já aprendeu que quem comete adultério (com toda a carga negativa da palavra) é canalha. Nossos valores parecem tão naturais, que tudo que esteja fora disso é perversão e quem ousar questioná-los deve ser queimado na fogueira. Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!
Ok. Os hippies que vivam na natureza e procuravam novas formas de relações sociais, que propunham uma vida libertária podiam estar certos. Entretanto, grande parte deles virou yuppie e vestiu seu belo colarinho branco. Regressemos ao conservadorismo, sejamos reacionários.
O fato é que ser o que Dostoiéviski chamaria de extraordinário, ou seja, desafiar a moral dos ordinários, ou das pessoas comuns, sempre custa muito caro. Quantos outsiders não tiveram suas cabeças numa bandeja, ou quantas mulheres divorciadas não foram chamadas de putas? Ou simplesmente quantas mulheres no Afeganistão não foram apedrejadas por mostrarem o tornozelo?
É verdade. Mudar é difícil, bem difícil. Só que essas mudanças, essas revoluções podem caminhar pro lado oposto, e acabam se revestindo do mesmo teor de hipocrisia dos valores contestados.
É quando, por exemplo, um cara ou uma garota diz que é amor livre porque tá na moda. É quando as pessoas que acreditam no amor livre acham que o amor das pessoas monogâmicas não é verdadeiro. É quando, novamente, se estabelecem formas de se comportar e valores dogmáticos. É quando somos tão intolerantes quanto qualquer xiita.
Fora isso, em muitos relacionamentos abertos predominam a superficialidade, a falta de envolvimento. Pessoas que se frustraram em amores do passado e decidem adeirir a novas formas de convívio. Só que muitas vezes o que chamam de amor livre na verdade é falta de amor.
Existe a possibilidade alguém não querer se envolver, alguém não se apaixonar e dizer que quer o amor livre, só pra não assumir um relacionamento sólido, como se relacionamento aberto fosse alguma brincadeira. Aí, de repente, quando se apaixona se torna uma pessoa ciumenta e possessiva como qualquer outra. Alguém pode morrer de medo de ser traído e por isso diz que acredita no amor livre. Assim o perigo de uma iminente "traição" é eliminado. Um mecanismo de defesa para tornar algo que incomoda bastate numa coisa banal.
Estamos diante dos jogos de amor. Para completar, no tal amor livre as pessoas têm preferidos. Ou seja, eu sou o número um e que ninguém me tire desse posto. Pode ficar com quem você quiser, mas no dia em que alguém representar uma ameaça de me tirar do primeiro lugar, eu choro, faço escândalo, esperneio. Aí eu me pergunto se uma pessoa dessas não é possessiva.
Há pessoas que, no entanto, acham que nem deve existir essa história de número um. Acreditam que pode haver um relacionamento não entre duas pessoas, mas entre três, quatro, ou mais. E que nesses casos não seria o tipo "Fulana ama Cicrano e pega todo mundo, mas ama somente a ele", porém sim Fulana ama Cicrano, Cicrano ama Beltrano, Beltrano ama Fulana, e por aí vai. Um verdadeiro desafio para um modelo de relacionamento amoroso baseado na posse.
Nossa relação com as pessoas se parece com nossa relação com as coisas. E no modo de produção capitalista uma valor salutar é a defesa da propriedade privada. Então nosso amante é também nosso bem, bem no sentido de bens. Sabe, aquela história de amor é latifúndio. Mas há aqueles que defendam que o amor seja ocupado, seja libertário, seja comunitário, seja de todos. Só não sabemos até que ponto essas pessoas procuram relacionamentos superficiais ou querem mesmo se envolver com muitas pessoas.
Pois é. Acredito que o amor livre é lindo, e elimina uma série de hipocrisias. Faz quanto tempo que você não vê sua mãe beijar o seu pai? Com quantas pessoas você queria ficar, mas não pode por causa do seu namorado? Se você ficasse com alguém seu sentimento diminuiria? Pode ser que sim, pode ser que não, mas a verdade é que as pessoas, em geral, são muito inseguras. E podemos falar de revoluções sexuais, porém não esqueçamos que na hora de mexer com nossos medos a coisa complica.
O amor livre pode ser lindo, quando vivido sem medos e com muita sinceridade. É tão lindo quanto um relacionamento monogâmico vivido sem medos e com muita sinceridade. Não há forma de se relacionar mais nobre, elevada, superior. Agora, se você se mete numa dessas porque não ama alguém o suficiente para abrir mão de trepar com outras pessoas, se você não quer se apegar a ninguém, se você quer seguir uma tendência pós-moderna, você definitivamente tá se metendo em terreno perigoso e poderá acabar ferindo a si mesmo, a outra pessoa, ou aos dois.
Estamos diante dos jogos de amor. Para completar, no tal amor livre as pessoas têm preferidos. Ou seja, eu sou o número um e que ninguém me tire desse posto. Pode ficar com quem você quiser, mas no dia em que alguém representar uma ameaça de me tirar do primeiro lugar, eu choro, faço escândalo, esperneio. Aí eu me pergunto se uma pessoa dessas não é possessiva.
Há pessoas que, no entanto, acham que nem deve existir essa história de número um. Acreditam que pode haver um relacionamento não entre duas pessoas, mas entre três, quatro, ou mais. E que nesses casos não seria o tipo "Fulana ama Cicrano e pega todo mundo, mas ama somente a ele", porém sim Fulana ama Cicrano, Cicrano ama Beltrano, Beltrano ama Fulana, e por aí vai. Um verdadeiro desafio para um modelo de relacionamento amoroso baseado na posse.
Nossa relação com as pessoas se parece com nossa relação com as coisas. E no modo de produção capitalista uma valor salutar é a defesa da propriedade privada. Então nosso amante é também nosso bem, bem no sentido de bens. Sabe, aquela história de amor é latifúndio. Mas há aqueles que defendam que o amor seja ocupado, seja libertário, seja comunitário, seja de todos. Só não sabemos até que ponto essas pessoas procuram relacionamentos superficiais ou querem mesmo se envolver com muitas pessoas.
Pois é. Acredito que o amor livre é lindo, e elimina uma série de hipocrisias. Faz quanto tempo que você não vê sua mãe beijar o seu pai? Com quantas pessoas você queria ficar, mas não pode por causa do seu namorado? Se você ficasse com alguém seu sentimento diminuiria? Pode ser que sim, pode ser que não, mas a verdade é que as pessoas, em geral, são muito inseguras. E podemos falar de revoluções sexuais, porém não esqueçamos que na hora de mexer com nossos medos a coisa complica.
O amor livre pode ser lindo, quando vivido sem medos e com muita sinceridade. É tão lindo quanto um relacionamento monogâmico vivido sem medos e com muita sinceridade. Não há forma de se relacionar mais nobre, elevada, superior. Agora, se você se mete numa dessas porque não ama alguém o suficiente para abrir mão de trepar com outras pessoas, se você não quer se apegar a ninguém, se você quer seguir uma tendência pós-moderna, você definitivamente tá se metendo em terreno perigoso e poderá acabar ferindo a si mesmo, a outra pessoa, ou aos dois.
segunda-feira, abril 16, 2007
We are the champions, my friend

Sempre tive uma relação estranha com os esportes. Fã das Olímpiadas, encantada pelo que chamam de espírito olímpico, emocionava-me ao ver as belas histórias de mocinhas da ginástica olímpica que quebram a perna e continuam sua apresentação, bem como imitava aquele célebre golpe de Daniel Sam em Karatê kid. Mas a verdade é que quando começo a praticar alguma modalidade, me empolgo, me dedico pra valer, até o belo dia em que enjôo e passo meses e meses praticando a arte de dormir e passar horas diante do computador. Acho que esse negócio de atleta não é pra mim.
Tudo começou na quarta série, quando eu fugia das aulas de educação física. Quando ia por pura obrigação era um tremendo desastre. Meus colegas ficavam putos, me botavam no time reserva, e nas poucas vezes em que eu participava de um jogo de futebol, ficava parada e deixava as pessoas com seus chutes na perna, faltas violentas, broncas da professora gorda que ironicamente dava aulas de educação física.
Nunca vou me esquecer do dia em que não chutei pra dentro do gol uma maldita bola que graça aos deuses do inferno veio parar bem no meu pé, pé esse que estava logo em frente ao gol, gol esse que estava sem goleiro. A bola foi ignorada, e rolou tranquilamente para fora da quadra, quase como se zombasse dos "atletas". E um grupo enorme de pessoas ficou ao meu redor me xingando e me fazendo ameaças. Por que as pessoas levam o futebol tão a sério? Tsc tsc.
Bem, minha segunda experiência com esportes foi na quinta série. Entrei no GRD, o esporte das patricinhas que se vestiam como barbies e moravam na 13. Aquilo não era lugar pra mim, eu não tinha uma mãe rica que vinha me buscar na escola com o carro do ano e que falava com a diretora balançando a pulseira de ouro. Mas eu adorava o GRD e vivia dando cambalhotas dentro de casa. Gostava do GRD, mesmo com uma professora carrasca que empurrava a gente até nossas pernas estalarem na hora de escalar, mesmo sem pesar 40 quilos, mesmo com uma platéia de meninos punheteiros na quadra.
Um dia eu simplesmente enjoei do GRD. Aí então passei uns cinco anos sem praticar nenhum esporte. Até que descobri o universo das academias. Em outra experiência traumática, achava extremamente divertido aumentar a cada semana a quantidade de pesos que levantava, adorava ganhar do meu irmão na queda de braço, me regozijava ao ver que levantava mais peso do que alguns homens. Era bom ser forte e correr por meia hora na velocidade de 8,2 km/h. Imaginava até que podia ser bombeira, policial, que eu era foda, enfim. Até o dia em que enjoei de ser forte, e virei uma pessoa normal que dorme e passa horas na frente do PC.
Já caminhei, já caminhei muito e era feliz por fazer caminhadas na 13 e tomar água de coco ao final do percurso. Uma coisa bem light, sabe. Mas a poluição da cidade, dos carros que passam espalhando seu monóxido de carbono pelo ar, me trouxeram ao mundo real. Eu só queria caminhar no meio da natureza e ser hippie, mas preciso ganhar dinheiro.
Hoje eu sou uma pessoa normal que passa horas na frente do computador e dorme. Minha próxima tentativa é fazer yoga. Já estou vendo eu me achando o máximo, me contorcendo, falando pros meus amigos das maravilhas da yoga, porque a gente procura o equilíbrio, porque é uma atividade que educa nosso corpo e nosso espírito. Até eu voltar a ser uma pessoa normal que passa horas na frente do computador, e se estressa no dia-a-dia, e que ao chegar em casa quer mais é saber de dormir e tá pouco se fudendo pra esse papo de educar o corpo e o espírito.
terça-feira, abril 03, 2007
O pudor é a forma mais inteligente de perversão
Era mais um dia morgado, com mais um professor que não vem dar aula na já segunda semana de aulas da universidade, veja só. Aliás, quem diabos inventou de começar as aulas antes da semana santa? Foi a coisa mais inútil que já vi, uma total perda de tempo. Pois bem. Então eu vejo um cara e uma menina conversarem bem na minha frente, ali na pracinha da Didática I.
- Quando vejo tanta desgraça no mundo logo percebo que Deus não existe. Como pode haver um ser supremo e perfeito, quando existe tanta desgraça no mundo?!
Não! Diga que não é verdade, Pluc. Sim, era verdade, eles estavam falando de Deus, o assunto mais chato que existe. Olhei bem pra menina e vi que ela parecia alguma crente de Malhação. Prisilhinha de borboleta no cabelo, saia no joelho, rosto meiguinho e sorridente o tempo todo.
O cara tinha o cabelo pintado de verde, um rapaz jeitoso até, apesar do cabelo verde. Via-se perfeitamente que ele era o cara doidão, o pimba que leu Nietzsche e acha que a vida não faz sentido, e odeia religião, mas no fim das contas ele queria mesmo era comer a menina. Sempre todo prosa, aproximava pouco a pouco a sua boca da boca dela. E ela não tinha problema nenhum com isso.
Não pude deixar de ver alguma volúpia na santinha. Toda aquela meiguice, aquele papinho de Jesus me ama pra lá, Jesus te ama pra cá, não me convenciam. E ela parecia encantada pelo menino que leu Nietzsche. Ao mesmo tempo em que tentava convencê-lo da existência de Deus, derretia-se com aquele papo filosófico-crítico-iluminado-pseudo-intelectual.
Eu só me lembrava de uma coisa: Amarelo Manga. Nesse filme, o diretor passa rapidamente na cena como figurante e balbucia ao pé do ouvido de algum personagem: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão".
Logo, não pude deixar de associar a imagem da garota à da moça do filme Amarelo Manga a quem essa frase é dedicada. Então a vi por um instante de ousada imaginação a menina pudica enfiar uma escova no cu do rapaz que leu Nietzsche, assim como em Amarelo Manga.
- Quando vejo tanta desgraça no mundo logo percebo que Deus não existe. Como pode haver um ser supremo e perfeito, quando existe tanta desgraça no mundo?!
Não! Diga que não é verdade, Pluc. Sim, era verdade, eles estavam falando de Deus, o assunto mais chato que existe. Olhei bem pra menina e vi que ela parecia alguma crente de Malhação. Prisilhinha de borboleta no cabelo, saia no joelho, rosto meiguinho e sorridente o tempo todo.
O cara tinha o cabelo pintado de verde, um rapaz jeitoso até, apesar do cabelo verde. Via-se perfeitamente que ele era o cara doidão, o pimba que leu Nietzsche e acha que a vida não faz sentido, e odeia religião, mas no fim das contas ele queria mesmo era comer a menina. Sempre todo prosa, aproximava pouco a pouco a sua boca da boca dela. E ela não tinha problema nenhum com isso.
Não pude deixar de ver alguma volúpia na santinha. Toda aquela meiguice, aquele papinho de Jesus me ama pra lá, Jesus te ama pra cá, não me convenciam. E ela parecia encantada pelo menino que leu Nietzsche. Ao mesmo tempo em que tentava convencê-lo da existência de Deus, derretia-se com aquele papo filosófico-crítico-iluminado-pseudo-intelectual.
Eu só me lembrava de uma coisa: Amarelo Manga. Nesse filme, o diretor passa rapidamente na cena como figurante e balbucia ao pé do ouvido de algum personagem: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão".
Logo, não pude deixar de associar a imagem da garota à da moça do filme Amarelo Manga a quem essa frase é dedicada. Então a vi por um instante de ousada imaginação a menina pudica enfiar uma escova no cu do rapaz que leu Nietzsche, assim como em Amarelo Manga.
domingo, abril 01, 2007
quinta-feira, março 22, 2007
Filhadaputagem
No mundo todo os filhos da puta se dão bem. Quem vê nas pessoas peças de um joguinho pra chegar até a vitória, quem valoriza interesses em lugar de afeto, é quem se dá bem. Afinal, dizem que você precisa conhecer as pessoas certas... Essa é a lei do mercado, oras!
É como meu amigo A., entre uma baforada e outra, com todo o seu charme de vilão segurando cigarro e de óculos escuros, me disse certa vez:
- Tati, eu também quero me dar bem. Quero ter meu trabalho reconhecido, quero ganhar dinheiro. Então eu também vou ser filho da puta!
Pois é. Lembro de outro amigo nada politicamente correto afirmar categoricamente: "afeto? afeto por quem? gostar de gente pra quê? melhor gostar de carro, de apartamento. um carro nunca vai botar pra fuder com você."
Será?
É como meu amigo A., entre uma baforada e outra, com todo o seu charme de vilão segurando cigarro e de óculos escuros, me disse certa vez:
- Tati, eu também quero me dar bem. Quero ter meu trabalho reconhecido, quero ganhar dinheiro. Então eu também vou ser filho da puta!
Pois é. Lembro de outro amigo nada politicamente correto afirmar categoricamente: "afeto? afeto por quem? gostar de gente pra quê? melhor gostar de carro, de apartamento. um carro nunca vai botar pra fuder com você."
Será?
quarta-feira, março 21, 2007
Esfriar pra quê?

Quando eu era pequena, minha mãe dizia "Tatiana, não beba o café agora, ele ainda está muito quente, assim vai queimar a língua". Mas não adiantava. Eu queria beber o café naquela hora, e tá acabado! Então queimava a língua e ficava aos berros. Ela também dizia para eu não comer o bolo ainda quente, pois ficaria com dor de barriga. Mas eu queria comer o bolo logo, tanto que gostava mais quando saído do forno a poucos instantes.
Ainda hoje eu queima língua tomando café e tenho dores de barriga por degustar bolos quentes.
domingo, março 11, 2007
Amor divino
Não lhe guardo saudades
Acaso tivesse saudade
ia te querer por perto
mas é perto demais
Sinto antes imensa falta do que não vivi
E tudo está sendo vivido por mim
finalmente agora
pela primeira vez!
E na mais pura clarividência tranquila
Só no lugar seguro do passado
As coisas
todas as coisas
podem ser por mim vividas
Só na lembrança podemos ser felizes por completo
Na presente felicidade há sempre uma parte que quer fugir, que quer voltar, que se esconde e se apavora
Na memória as contingências já estão asseguradas
Amo o passado
Por alguma soberba de querer ser Deus
e construir no céu uma casa
Amar a todas as coisas
Só que de cima
Do alto Deus está isento dos erros
e certo do que virá
Desconhece presente, passado e futuro
e, portanto, desconhece o medo
O medo é a indecisão do tempo
- Os deuses amam lembranças.
A criação do mundo poderia ser a eterna atividade de rememorar -
Acaso tivesse saudade
ia te querer por perto
mas é perto demais
Sinto antes imensa falta do que não vivi
E tudo está sendo vivido por mim
finalmente agora
pela primeira vez!
E na mais pura clarividência tranquila
Só no lugar seguro do passado
As coisas
todas as coisas
podem ser por mim vividas
Só na lembrança podemos ser felizes por completo
Na presente felicidade há sempre uma parte que quer fugir, que quer voltar, que se esconde e se apavora
Na memória as contingências já estão asseguradas
Amo o passado
Por alguma soberba de querer ser Deus
e construir no céu uma casa
Amar a todas as coisas
Só que de cima
Do alto Deus está isento dos erros
e certo do que virá
Desconhece presente, passado e futuro
e, portanto, desconhece o medo
O medo é a indecisão do tempo
- Os deuses amam lembranças.
A criação do mundo poderia ser a eterna atividade de rememorar -
quarta-feira, março 07, 2007
Copo vazio

Estávamos sentados à mesa em um salão onde acontecia uma festa do lado rico da família, quando o padre veio se juntar a nós. Em verdade vos digo que fico de certa maneira desconfortável na presença de padres, pois não me sinto à vontade para dizer gracinhas ou rir alto. Há de notar que os padres são sempre tão comedidos! Enfim, o fato é que uma senhora com seus cinqüenta anos veio dizer gracinhas e rir alto perto de nós, para minha felicidade.
Como se não bastasse o tom vulgar com que falava, ainda conversava sobre coisas bem mundanas. Vestia um jeans surrado e camisa de sindicalista no meio de todas aquelas mulheres tão... casadas! Ou por casar!
- Sabe padre, não tem coisa melhor do que o vício. O que seria da vida sem os vícios?! É como eu sempre digo: Deus deveria ter-me feito com três mãos, uma para segurar o cigarro, outra, a cerveja, e outra, o baralho.
Não podia me conter, e dava as maiores gargalhadas da audácia dela. Ao fitar o padre, percebi o seu olhar de desaprovação e seus lábios que levemente balbuciavam “meu Deus”. O seu semblante tinha algo de pai, perdoai-a, pois não sabe o que faz.
Agora deixando à parte a soberba do padre, eu me pergunto sobre os vícios. Não só o vício de quem joga, bebe excessivamente, fuma duas carteiras de cigarro por dia, mas também o de quem passa horas a fio na internet ou numa esteira da academia.
Lembro agora do filme Réquiem para um sonho, que trata com maestria sobre os nossos vícios ao abordar não somente o adolescente problemático que usa heroína, mas também sua mãe que assiste à televisão durante horas e horas todos os dias para preencher a falta que lhe fazia o filho e o falecido marido.
É aí em que a gente vê que, assim como aquela garota que se prostitui para comprar cocaína, a gente sente um vazio. No vício, a recompensa. O vício está no lugar de alguma coisa, que muitas vezes a gente nem sabe o que é. Mas está lá, televisão pra fazer a companhia de um filho, coca-cola com gosto de abraço, compras no lugar da coragem para enfrentar.
Todo vício é um medo ou uma saudade. Às vezes alguém tem medo de perder o emprego e fuma o dia todo. Situações tensas são comuns no trabalho, pois lidar com gente não é coisa fácil, ainda mais quando falamos de concorrência. Alguém também pode sentir falta de uma pessoa que já morreu, e comer doces. Assim como a garota obesa que vi um dia desses na Mtv. Todos escarneciam de seu excesso de peso, diziam que era sem vergonhice, que ela não passava de uma comilona preguiçosa. Num primeiro momento, ela ria e concordava. Até cair em prantos diante da câmera falando da fome insaciável que sentiu depois de seu pai falecer.
O que seria da vida sem vícios? Só que de repente a gente pode fitar a fumaça que sai do cigarro, o dinheiro ganho no jogo, a espuma que desliza no copo, e ver que de nada adiantaram três braços quando a gente só precisava de dois.
Como se não bastasse o tom vulgar com que falava, ainda conversava sobre coisas bem mundanas. Vestia um jeans surrado e camisa de sindicalista no meio de todas aquelas mulheres tão... casadas! Ou por casar!
- Sabe padre, não tem coisa melhor do que o vício. O que seria da vida sem os vícios?! É como eu sempre digo: Deus deveria ter-me feito com três mãos, uma para segurar o cigarro, outra, a cerveja, e outra, o baralho.
Não podia me conter, e dava as maiores gargalhadas da audácia dela. Ao fitar o padre, percebi o seu olhar de desaprovação e seus lábios que levemente balbuciavam “meu Deus”. O seu semblante tinha algo de pai, perdoai-a, pois não sabe o que faz.
Agora deixando à parte a soberba do padre, eu me pergunto sobre os vícios. Não só o vício de quem joga, bebe excessivamente, fuma duas carteiras de cigarro por dia, mas também o de quem passa horas a fio na internet ou numa esteira da academia.
Lembro agora do filme Réquiem para um sonho, que trata com maestria sobre os nossos vícios ao abordar não somente o adolescente problemático que usa heroína, mas também sua mãe que assiste à televisão durante horas e horas todos os dias para preencher a falta que lhe fazia o filho e o falecido marido.
É aí em que a gente vê que, assim como aquela garota que se prostitui para comprar cocaína, a gente sente um vazio. No vício, a recompensa. O vício está no lugar de alguma coisa, que muitas vezes a gente nem sabe o que é. Mas está lá, televisão pra fazer a companhia de um filho, coca-cola com gosto de abraço, compras no lugar da coragem para enfrentar.
Todo vício é um medo ou uma saudade. Às vezes alguém tem medo de perder o emprego e fuma o dia todo. Situações tensas são comuns no trabalho, pois lidar com gente não é coisa fácil, ainda mais quando falamos de concorrência. Alguém também pode sentir falta de uma pessoa que já morreu, e comer doces. Assim como a garota obesa que vi um dia desses na Mtv. Todos escarneciam de seu excesso de peso, diziam que era sem vergonhice, que ela não passava de uma comilona preguiçosa. Num primeiro momento, ela ria e concordava. Até cair em prantos diante da câmera falando da fome insaciável que sentiu depois de seu pai falecer.
O que seria da vida sem vícios? Só que de repente a gente pode fitar a fumaça que sai do cigarro, o dinheiro ganho no jogo, a espuma que desliza no copo, e ver que de nada adiantaram três braços quando a gente só precisava de dois.
terça-feira, março 06, 2007
For sure!
domingo, março 04, 2007
É meu!

Sabe, lembro que quando eu era guria uma vez meu irmão R. deixou um pedaço de pizza quase todo no prato, pois ele já tinha comido muito e só tinha colocado aquele porque seu olho é maior do que a barriga. Mesmo sem querer o tal pedaço, ao me ver pegá-lo para comer ele prontamente choramingou, esperneou e disse que o queria de volta. Comeu aquilo que havia recusado com a maior vontade do mundo, parecia que passava fome há três dias. Só porque outra pessoa iria ficar com o tal pedaço de pizza.
Tem gente que faz isso. Não só com pizza, mas com pessoas também.
quinta-feira, março 01, 2007
O trabalho e os dias

Universitários gastam boa parte do seu tempo em filas para tirar xérox. São pilhas e pilhas de apostilas acumuladas durante um período, e uma grana considerável gasta com esse material. O fato é que eu estava numa dessas filas infernais numa copiadora logo em frente ao terminal, quando comecei a pensar no lado de quem está atrás do balcão, certamente bem pior do que o meu. Passo alguns minutos puta da vida num cubículo que mais parece um forno, agora você imagine um cara que trabalha o dia inteiro naquela merda.
Na televisão, Zezé di Camargo e Luciano. É pra dar o último toque de desconforto e mal-estar. Pra mim, claro, porque talvez para o pessoal da copiadora o dvd daquela duplinha sertaneja ridícula seja a salvação para um dia duro de labuta. Não vou entrar aqui no mérito da dupla, mas no de quem passa horas a fio a trabalhar com papéis numa máquina com movimentos que descaracterizam qualquer humanidade.
Não fosse suficiente, há os estudantes que reclamam o tempo todo da folha que saiu assim assado, de não sei quem que furou a fila, e etc e tal. Céus, se existe inferno, ele é trabalhar numa copiadora.
Isso me faz lembrar uma série de trabalhos escrotos. Recordo que num programa de televisão americano exibido no Multishow foram mostrados alguns trabalhos árduos. Entre eles, estava a atividade de segurar uma bacia para receber a bosta liberada pelos lutadores de sumo, pois eles costumam eliminar fezes durante a luta. Ai!
Havia também um cara que masturbava perus para fazer inseminação artificial desse animal e, assim, aumentar consideravelmente os lucros da empresa. Imagine só você passar o dia todo masturbando perus! Ninguém merece!
E há também as putas. Dizem que puta tem a vida fácil. Nunca achei isso. Pra mim puta tem uma das vidas mais difíceis de todas. Quantas taras malucas elas não têm de realizar para aquele cara que não consegue mostrar seu lado mais bizarro pra esposa? Pois é, nada contra taras, mas há certas taras que devem ser muito humilhantes para algumas pessoas. Fora isso, ainda há a feiúra de muitos homens, o preconceito, os maus-tratos, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e também de ter um filho não se sabe de quem.
É, mas agora levando pro lado mais sério da coisa, me lembrei dos cortadores de cana. Aquilo sim é um trabalho desgraçado. Através de uma reportagem do Fantástico, soube que muitos deles sucumbem debaixo do sol e morrem de fadiga. Até que alguém acha o corpo estendido no meio da vasta plantação. Eles são explorados, duramente explorados, e ainda assim muitas vezes ninguém é punido por isso.
É, como diz o meu caro amigo Henrique, trabalho não foi feito para dar prazer, se desse, não era trabalho. Só que é cruel alguém passar o dia todo se movendo como uma máquina ou morrer de cansaço. Se Marx diz que a história da humanidade é a história da luta de classes, e Freud que a história da civilização é a história da repressão, vemos uma história que é construída sobre a exploração e sobre a fadiga no lugar do prazer.
Na televisão, Zezé di Camargo e Luciano. É pra dar o último toque de desconforto e mal-estar. Pra mim, claro, porque talvez para o pessoal da copiadora o dvd daquela duplinha sertaneja ridícula seja a salvação para um dia duro de labuta. Não vou entrar aqui no mérito da dupla, mas no de quem passa horas a fio a trabalhar com papéis numa máquina com movimentos que descaracterizam qualquer humanidade.
Não fosse suficiente, há os estudantes que reclamam o tempo todo da folha que saiu assim assado, de não sei quem que furou a fila, e etc e tal. Céus, se existe inferno, ele é trabalhar numa copiadora.
Isso me faz lembrar uma série de trabalhos escrotos. Recordo que num programa de televisão americano exibido no Multishow foram mostrados alguns trabalhos árduos. Entre eles, estava a atividade de segurar uma bacia para receber a bosta liberada pelos lutadores de sumo, pois eles costumam eliminar fezes durante a luta. Ai!
Havia também um cara que masturbava perus para fazer inseminação artificial desse animal e, assim, aumentar consideravelmente os lucros da empresa. Imagine só você passar o dia todo masturbando perus! Ninguém merece!
E há também as putas. Dizem que puta tem a vida fácil. Nunca achei isso. Pra mim puta tem uma das vidas mais difíceis de todas. Quantas taras malucas elas não têm de realizar para aquele cara que não consegue mostrar seu lado mais bizarro pra esposa? Pois é, nada contra taras, mas há certas taras que devem ser muito humilhantes para algumas pessoas. Fora isso, ainda há a feiúra de muitos homens, o preconceito, os maus-tratos, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e também de ter um filho não se sabe de quem.
É, mas agora levando pro lado mais sério da coisa, me lembrei dos cortadores de cana. Aquilo sim é um trabalho desgraçado. Através de uma reportagem do Fantástico, soube que muitos deles sucumbem debaixo do sol e morrem de fadiga. Até que alguém acha o corpo estendido no meio da vasta plantação. Eles são explorados, duramente explorados, e ainda assim muitas vezes ninguém é punido por isso.
É, como diz o meu caro amigo Henrique, trabalho não foi feito para dar prazer, se desse, não era trabalho. Só que é cruel alguém passar o dia todo se movendo como uma máquina ou morrer de cansaço. Se Marx diz que a história da humanidade é a história da luta de classes, e Freud que a história da civilização é a história da repressão, vemos uma história que é construída sobre a exploração e sobre a fadiga no lugar do prazer.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Até que a morte os separe
Às vezes eu ia ao trabalho da minha mãe para almoçarmos juntas. Sempre ao chegar, logo me dirigia à garrafa de café e me punha a escutar as histórias de Alex, técnico em enfermagem colega de mamãe. Só que uma história me chamou a atenção em especial.
Estava ele no Magg’s durante o intervalo do almoço, quando então assiste a um acidente da janela do restaurante enquanto mastigava sua refeição. Um carro sai a toda velocidade e colide com um monumento, um caju com araras desenhadas, em homenagem à Aracaju, localizado na praça em plena Beira Mar, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Diante dos olhares apreensivos de todos que estavam no restaurante a exigir uma providência sua, pois Alex estava vestido de branco, ele corre até o local do acidente como um herói que não sabe ao certo o que fazer.
Ao chegar à praça, observa o casal que havia sofrido o acidente discutir. A mulher chorava convulsivamente. Ela era loira, jovem e bonita. Seu marido esbravejava as mais duras ofensas, e ela mal sabia conter tamanho desespero diante dos curiosos.
- Sua louca! Você é uma louca! Por acaso queria me matar?
Enquanto ela soluçava, ele se explicava às gentes que se acumulavam ao redor do inusitado acontecimento. Dizia que sua esposa havia enlouquecido, e num momento de total descontrole ameaçara matar os dois batendo o carro. Muitos perguntavam por que ela faria isso, e ele só reafirmava que ela estava louca, devia ser internada, não sabia mais o que fazer com a mulher. O marido, sempre com postura tão ponderada, enquanto a esposa de nada mais queria saber além de chorar, sem de forma alguma se importar em confidenciar sua fraqueza diante dos valores dos passantes.
Alex havia notado desde o instante em que assistira ao carro colidir com o monumento, que não era possível aquilo se tratar de um acidente. Na verdade, era sim algo provocado, só não entendia o que levaria alguém a querer dar fim à própria vida, ainda mais de forma tão violenta.
Enquanto Alex me contava a história, eu conjeturava a respeito dos possíveis motivos que levaram a mulher a querer matar a si e ao marido. Só conseguia pensar que ela não tinha coragem suficiente para viver sem o esposo, como também não suportava mais estar com ele, e então a saída seria a morte. E seu sentimento de posse deveria ser tão intenso ao ponto de ela não permitir que houvesse vida para ele, outras mulheres, outros lugares, depois de ela falecer.
Estariam convertidos em um só. Talvez ela tivesse perdido a sua própria identidade, já não sabia onde terminava ela e começava ele, nem quais eram os limites entre os eles e o mundo. Destarte, ao ver o mundo transformado neles dois, e com o sentimento de que não poderia haver saída para aquele inferno além do fim desse mundo, preferia a morte.
Muitos psicólogos afirmam que os suicidas fantasiam a respeito de uma vida após a morte e de uma vingança através do suicídio. Eles não concebem que de fato deixarão de existir, mas imaginam que irão para um lugar melhor e ainda verão cair em desgraça as pessoas a quem querem atingir. Como um homem que se mata só para ver a namorada sofrer, pois o sofrimento dela seria a sua maior prova de amor, o deleite do amor sádico. Mal sabe ele que não poderá ter tal prazer.
Mas o que aguardava uma mulher que tenta cometer suicídio e matar o marido? Parece-me que tal expurgação aguarda uma recompensa póstuma. Ela não admitia de modo algum vê-lo viver depois de sua morte. Assim seria um maldito fantasma que retorna para fazer assombrações com passos pela casa. Entretanto, me parece que ao mesmo tempo em que ela se agarra à vida, ao acreditar que poderá presenciar alguma coisa mesmo depois de morta, ela se conduz até a morte, e uma morte que não levaria a outra vida onde estariam felizes juntos, mas ao fim, à anulação completa de ambos.
Não entendo muito bem o porquê de tal atitude, mas me interesso por tentar desvendar tanta paixão misturada com ódio levada às últimas conseqüências. Gosto de analisar as pessoas, um hábito que em verdade não me agrada, mas enfim, sei que quando ouvi essa história logo me lembrei dos filmes de Truffaut. Recordo que em A Mulher do Lado e Jules e Jim há personagens que também se suicidam e matam o objeto de desejo como findo recurso para se livrarem do que não conseguem se libertar em vida: um relacionamento frustrado que anula as suas identidades até ir ao encontro da morte, do não-ser.
Estava ele no Magg’s durante o intervalo do almoço, quando então assiste a um acidente da janela do restaurante enquanto mastigava sua refeição. Um carro sai a toda velocidade e colide com um monumento, um caju com araras desenhadas, em homenagem à Aracaju, localizado na praça em plena Beira Mar, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Diante dos olhares apreensivos de todos que estavam no restaurante a exigir uma providência sua, pois Alex estava vestido de branco, ele corre até o local do acidente como um herói que não sabe ao certo o que fazer.
Ao chegar à praça, observa o casal que havia sofrido o acidente discutir. A mulher chorava convulsivamente. Ela era loira, jovem e bonita. Seu marido esbravejava as mais duras ofensas, e ela mal sabia conter tamanho desespero diante dos curiosos.
- Sua louca! Você é uma louca! Por acaso queria me matar?
Enquanto ela soluçava, ele se explicava às gentes que se acumulavam ao redor do inusitado acontecimento. Dizia que sua esposa havia enlouquecido, e num momento de total descontrole ameaçara matar os dois batendo o carro. Muitos perguntavam por que ela faria isso, e ele só reafirmava que ela estava louca, devia ser internada, não sabia mais o que fazer com a mulher. O marido, sempre com postura tão ponderada, enquanto a esposa de nada mais queria saber além de chorar, sem de forma alguma se importar em confidenciar sua fraqueza diante dos valores dos passantes.
Alex havia notado desde o instante em que assistira ao carro colidir com o monumento, que não era possível aquilo se tratar de um acidente. Na verdade, era sim algo provocado, só não entendia o que levaria alguém a querer dar fim à própria vida, ainda mais de forma tão violenta.
Enquanto Alex me contava a história, eu conjeturava a respeito dos possíveis motivos que levaram a mulher a querer matar a si e ao marido. Só conseguia pensar que ela não tinha coragem suficiente para viver sem o esposo, como também não suportava mais estar com ele, e então a saída seria a morte. E seu sentimento de posse deveria ser tão intenso ao ponto de ela não permitir que houvesse vida para ele, outras mulheres, outros lugares, depois de ela falecer.
Estariam convertidos em um só. Talvez ela tivesse perdido a sua própria identidade, já não sabia onde terminava ela e começava ele, nem quais eram os limites entre os eles e o mundo. Destarte, ao ver o mundo transformado neles dois, e com o sentimento de que não poderia haver saída para aquele inferno além do fim desse mundo, preferia a morte.
Muitos psicólogos afirmam que os suicidas fantasiam a respeito de uma vida após a morte e de uma vingança através do suicídio. Eles não concebem que de fato deixarão de existir, mas imaginam que irão para um lugar melhor e ainda verão cair em desgraça as pessoas a quem querem atingir. Como um homem que se mata só para ver a namorada sofrer, pois o sofrimento dela seria a sua maior prova de amor, o deleite do amor sádico. Mal sabe ele que não poderá ter tal prazer.
Mas o que aguardava uma mulher que tenta cometer suicídio e matar o marido? Parece-me que tal expurgação aguarda uma recompensa póstuma. Ela não admitia de modo algum vê-lo viver depois de sua morte. Assim seria um maldito fantasma que retorna para fazer assombrações com passos pela casa. Entretanto, me parece que ao mesmo tempo em que ela se agarra à vida, ao acreditar que poderá presenciar alguma coisa mesmo depois de morta, ela se conduz até a morte, e uma morte que não levaria a outra vida onde estariam felizes juntos, mas ao fim, à anulação completa de ambos.
Não entendo muito bem o porquê de tal atitude, mas me interesso por tentar desvendar tanta paixão misturada com ódio levada às últimas conseqüências. Gosto de analisar as pessoas, um hábito que em verdade não me agrada, mas enfim, sei que quando ouvi essa história logo me lembrei dos filmes de Truffaut. Recordo que em A Mulher do Lado e Jules e Jim há personagens que também se suicidam e matam o objeto de desejo como findo recurso para se livrarem do que não conseguem se libertar em vida: um relacionamento frustrado que anula as suas identidades até ir ao encontro da morte, do não-ser.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
*800
Todo mundo é carente. Não fosse assim eu não receberia tantos scraps de quem quer receber um scrap, nem olhava três vezes por dia a minha página no orkut pra ver se tem algum recado, nem ficaria feliz por algúem ter se lembrado de mim ou descontente acaso ninguém tenha me dito qualquer coisa boba.
Há também as tais mensagens de celular. Qual felicidade não sinto ao receber uma delas! Às vezes me decepciono ao ver que não passava de um recado da operadora. Ah, e o namorado da minha amiga, que digita *800 só para receber mensagens de saldo e ainda verifica a mensagem cheio de ânsia, na espera pela atenção de alguém? Cada doido tem sua mania, diz o clichê.
Somos tão carentes quanto cachorros. Lembro logo da minha adorável Kika, que vive a me seguir para onde quer que eu vá na casa saltando por entre minhas pernas. Kika, que ao ver algum estranho se põe a latir, arranhá-lo e dar mordidinhas. Kika, nome dado pela minha mãe, que gostou muito daquele filme do Almodóvar. Ah mamãe, não bastasse uma família tão grande, com tanta gente para lhe dar atenção, ainda traz uma cachorra para segui-la pela casa.
Mamãe não gosta de msn. Segundo ela, a gente passa tempo demais a falar besteira na internet. E é verdade. Ah, mas quantas pessoas carentes estão no msn agora? Quantos estão online esperando para que alguém vá lá e puxe conversa, ou quantos estão ausentes e aguardam para falar com alguém em especial, ou quantos estão ocupados e acabam por procrastinar um trabalho para conversar alguma bobagem com um amigo. Há até os que querem ser onipresentes; saem e dizem em sua mensagem pessoal o que foram fazer da vida. Fui à padaria, se quiser, deixe recado.
Bem, neste exato momento, estou offline, pois não há ninguém no msn com quem queira falar, não no momento. Aí venho aqui e escrevo esse texto e, francamente, depois confiro se não há algum comentário no blog. E clico no link, cheia de ânsia, para ver o comentário de alguém que deu um pouco de atenção a mim.
Há também as tais mensagens de celular. Qual felicidade não sinto ao receber uma delas! Às vezes me decepciono ao ver que não passava de um recado da operadora. Ah, e o namorado da minha amiga, que digita *800 só para receber mensagens de saldo e ainda verifica a mensagem cheio de ânsia, na espera pela atenção de alguém? Cada doido tem sua mania, diz o clichê.
Somos tão carentes quanto cachorros. Lembro logo da minha adorável Kika, que vive a me seguir para onde quer que eu vá na casa saltando por entre minhas pernas. Kika, que ao ver algum estranho se põe a latir, arranhá-lo e dar mordidinhas. Kika, nome dado pela minha mãe, que gostou muito daquele filme do Almodóvar. Ah mamãe, não bastasse uma família tão grande, com tanta gente para lhe dar atenção, ainda traz uma cachorra para segui-la pela casa.
Mamãe não gosta de msn. Segundo ela, a gente passa tempo demais a falar besteira na internet. E é verdade. Ah, mas quantas pessoas carentes estão no msn agora? Quantos estão online esperando para que alguém vá lá e puxe conversa, ou quantos estão ausentes e aguardam para falar com alguém em especial, ou quantos estão ocupados e acabam por procrastinar um trabalho para conversar alguma bobagem com um amigo. Há até os que querem ser onipresentes; saem e dizem em sua mensagem pessoal o que foram fazer da vida. Fui à padaria, se quiser, deixe recado.
Bem, neste exato momento, estou offline, pois não há ninguém no msn com quem queira falar, não no momento. Aí venho aqui e escrevo esse texto e, francamente, depois confiro se não há algum comentário no blog. E clico no link, cheia de ânsia, para ver o comentário de alguém que deu um pouco de atenção a mim.
domingo, fevereiro 25, 2007
Projetos para 2007
A pedido do meu caro amigo Danilo Mattos, aqui falarei dos meus projetos para este ano que está começando de verdade agora, depois de diversos feriados que só empurram com a barriga a coragem pra construir alguma coisa. Tá tudo no meio do caminho e incômodo como casa em reforma. Mas aí vem 2007, um ano que promete, sim, promete pra caralho!
Blog
Acho que dá pra perceber que eu adoro esse blog. Escrevo nele qualquer coisa, o que me der na telha. O objetivo dele é tão somente me distrair. Quando comecei a escrever nele, achava que seria mais um dos vários blogs que duraram apenas um, dois posts. Mas que nada! Estamos aí, firmes e fortes! Meu objetivo agora, a vero, é abrir outro blog e escrever um livro online. Um livro totalmente despretensioso, claro. Não sei se terei coragem para tanto. Ah, um segredinho: já tenho outro blog além desse onde coloco as minhas impressões dos acontecimentos cotidianos. O bacana dele é que eu leio depois de um tempo textos sobre fatos importantes da minha vida e vejo o quanto a minha perspectiva sobre o que aconteceu mudou. Às vezes chego a me achar uma mentirosa, não, isso não é verdade, não foi assim nesse dia.
Pessoal
Quero dar muito dengo a algumas pessoas adoráveis.
Formação
Eu me formo em Jornalismo este ano! Bem, espero fazer uma baita monografia porque, afinal, quero seguir carreira acadêmica. Depois da indecisão entre ser jornalista e ser professora, eu definitivamente prefiro a segunda opção. Com muita garra eu farei o mestrado e o doutorado, e ainda serei uma ótima professora, garanto =)
Projetos Web
Que porra de projetos Web! =P
Agora eu quero saber dos projetos de Rita Brasileiro, Débora Maionese, Ícaro Pretinho e da Mulher do Lado para 2007. Só não sei se eles verão isso aqui.
Blog
Acho que dá pra perceber que eu adoro esse blog. Escrevo nele qualquer coisa, o que me der na telha. O objetivo dele é tão somente me distrair. Quando comecei a escrever nele, achava que seria mais um dos vários blogs que duraram apenas um, dois posts. Mas que nada! Estamos aí, firmes e fortes! Meu objetivo agora, a vero, é abrir outro blog e escrever um livro online. Um livro totalmente despretensioso, claro. Não sei se terei coragem para tanto. Ah, um segredinho: já tenho outro blog além desse onde coloco as minhas impressões dos acontecimentos cotidianos. O bacana dele é que eu leio depois de um tempo textos sobre fatos importantes da minha vida e vejo o quanto a minha perspectiva sobre o que aconteceu mudou. Às vezes chego a me achar uma mentirosa, não, isso não é verdade, não foi assim nesse dia.
Pessoal
Quero dar muito dengo a algumas pessoas adoráveis.
Formação
Eu me formo em Jornalismo este ano! Bem, espero fazer uma baita monografia porque, afinal, quero seguir carreira acadêmica. Depois da indecisão entre ser jornalista e ser professora, eu definitivamente prefiro a segunda opção. Com muita garra eu farei o mestrado e o doutorado, e ainda serei uma ótima professora, garanto =)
Projetos Web
Que porra de projetos Web! =P
Agora eu quero saber dos projetos de Rita Brasileiro, Débora Maionese, Ícaro Pretinho e da Mulher do Lado para 2007. Só não sei se eles verão isso aqui.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
O dilema de ser ateísta
Eu gosto tanto de viver, mas tanto, da dor de viver, da alegria, de tudo, me agarro à vida de tal jeito, que às vezes me pego querendo acreditar novamente em Deus. Ser espírita seria o melhor! Os espíritas acham que vão voltar pra cá várias vezes, que terão sei lá quantas vidas. Não quero o céu, lugar mais chato repleto de tanta perfeição! Nem arder no inferno de tanta angústia. O purgatório ainda é um meio termo, mas não é esse mundo tão cheio de tesão. Não quero deixar de viver nunca. Bom lembrar que jamais viverei a morte, e isso basta.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Torre de Babel
Ah, esses grandes dilemas!
Peguei o tal dilema e tentei destrinchá-lo,
Compreendê-lo, transformá-lo em razão
Finalmente em terra firme, em bases fortes!
Com a certeza de quem segue para o norte
Porque é mais seguro ir por uma só direção
É preciso viver a confusão
Porque ela é algo sincero
Falso é revestir de certeza
Como uma mãe que leva o filho à igreja
Ou um professor que não admite que não sabe
A confusão não faz sentido
O que é sem sentido não tem valor de verdade
Que seja assim, sem sentido,
Só não seja a perfeita verdade para chegar até o céu
Pois a confusão da Torre de Babel
Nunca levou até o céu
É que na escola
Aprendi que tinha de dar a resposta
E com meu amor
Nunca pude dizer
Porque ia pegar mal pra valer
Baby, não sei se amo você.
Peguei o tal dilema e tentei destrinchá-lo,
Compreendê-lo, transformá-lo em razão
Finalmente em terra firme, em bases fortes!
Com a certeza de quem segue para o norte
Porque é mais seguro ir por uma só direção
É preciso viver a confusão
Porque ela é algo sincero
Falso é revestir de certeza
Como uma mãe que leva o filho à igreja
Ou um professor que não admite que não sabe
A confusão não faz sentido
O que é sem sentido não tem valor de verdade
Que seja assim, sem sentido,
Só não seja a perfeita verdade para chegar até o céu
Pois a confusão da Torre de Babel
Nunca levou até o céu
É que na escola
Aprendi que tinha de dar a resposta
E com meu amor
Nunca pude dizer
Porque ia pegar mal pra valer
Baby, não sei se amo você.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Em toda a gente percebo um bocado de solidão
Quando estou sentada no ônibus
E vejo aqueles olhares que não sabem do que está para além das janelas
Não vêem as calçadas
Mas mesmo assim fitam as janelas
Com tanta atenção
Eu vejo um bocado de solidão
Daquela que todo mundo precisa para achar um pouco de si
Do momento necessário
Tão necessário
De bater aquele velho papo
Para saber como vai
E por onde anda
Também vejo às vezes um ar doído
De quem não se deixa estar só consigo
Porque não quer se olhar no espelho
Nem conversar com aquelas velhas ilusões, mágoas e medos
Porque para estar só
É preciso ter coragem
É preciso só precisar de si mesmo
E quando se tem amor bastante
Ninguém está tão distante
Ninguém partiu nem te ama menos
A solidão não parece um abandono
Antes um abandono de si
A solidão não parece uma distância do mundo
Antes um encontro com o mundo inteiro.
Quando estou sentada no ônibus
E vejo aqueles olhares que não sabem do que está para além das janelas
Não vêem as calçadas
Mas mesmo assim fitam as janelas
Com tanta atenção
Eu vejo um bocado de solidão
Daquela que todo mundo precisa para achar um pouco de si
Do momento necessário
Tão necessário
De bater aquele velho papo
Para saber como vai
E por onde anda
Também vejo às vezes um ar doído
De quem não se deixa estar só consigo
Porque não quer se olhar no espelho
Nem conversar com aquelas velhas ilusões, mágoas e medos
Porque para estar só
É preciso ter coragem
É preciso só precisar de si mesmo
E quando se tem amor bastante
Ninguém está tão distante
Ninguém partiu nem te ama menos
A solidão não parece um abandono
Antes um abandono de si
A solidão não parece uma distância do mundo
Antes um encontro com o mundo inteiro.
sábado, fevereiro 10, 2007
A melhor mulher de todos os tempos da última semana
Aula de francês sábado de manhã é osso. Mas acontece cada coisa... O professor fala português como se fosse de Portugal ou da França, a depender das palavras. Ele, todo simpático e cheio de energias em plena manhã de sábado, pede pra gente se apresentar (em nosso péssimo francês), e faz algumas perguntas. Aqui vai em português mesmo.
- Apresente-se!
- Eu me chamo Cláudio. Tenho vinte e dois anos. Sou estudante. Sou solteiro, mas tenho namorada - diálogo mecânico de iniciante em língua estrangeira.
- Ela é a mulher de sua vida?
- É.
No outro sábado...
- Vamos lá, Cláudio, apresente-se para os colegas que não vieram na aula passada.
- Eu me chamo Cláudio. Sou solteiro. Tenho vinte e dois anos. Sou estudante.
Então, o professor resolveu perguntar a todos se já tinham encontrado o homem ou mulher da sua vida, pois no texto do livro didático havia uma francesinha que só pensava em encontrar o príncipe encantado. Cláudio primeiro.
- E você, Cláudio, já encontrou a mulher da sua vida?
- Não.
- Mas semana passada você não disse que ... ?
- Então, semana passada.
Cláudio é um nome fantasioso.
- Apresente-se!
- Eu me chamo Cláudio. Tenho vinte e dois anos. Sou estudante. Sou solteiro, mas tenho namorada - diálogo mecânico de iniciante em língua estrangeira.
- Ela é a mulher de sua vida?
- É.
No outro sábado...
- Vamos lá, Cláudio, apresente-se para os colegas que não vieram na aula passada.
- Eu me chamo Cláudio. Sou solteiro. Tenho vinte e dois anos. Sou estudante.
Então, o professor resolveu perguntar a todos se já tinham encontrado o homem ou mulher da sua vida, pois no texto do livro didático havia uma francesinha que só pensava em encontrar o príncipe encantado. Cláudio primeiro.
- E você, Cláudio, já encontrou a mulher da sua vida?
- Não.
- Mas semana passada você não disse que ... ?
- Então, semana passada.
Cláudio é um nome fantasioso.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Abaixo abaixo-assinado
Não bastasse receber mensagens de ursinhos e bebês que me desejam uma vida feliz, além de maldições de sete anos sem sexo caso eu não encaminhe o email para 15 pessoas, ainda tenho de aturar mensagens de abaixo-assinado. Sim, os idiotas da internet acham que vão acabar com a guerra no mundo e a fome na África com assinaturas virtuais.
Já me mandaram protestar contra o aumento absurdo do salário dos deputados, contra a guerra no Iraque. Eu até já assinei abaixo-assinado, vou admitir aqui a minha idiotice. Só que não demorou para eu perceber o quanto era ingênuo e inútil protestar com um nome numa lista. E só.
Ao que parece, ninguém se levanta da cadeira. Ninguém sai às ruas para protestar por nada, nem participa de qualquer forma de mobilização popular além de festas catárticas. Nesse grupo eu me incluo. Acontece que pelo menos não me considero revolucionária e engajada em causas sociais só por digitar meu nome numa lista.
Aí todo mundo acha que está fazendo grande coisa, que realmente contribui para um mundo melhor. Mas isso pra mim parece discurso de miss.
Já me mandaram protestar contra o aumento absurdo do salário dos deputados, contra a guerra no Iraque. Eu até já assinei abaixo-assinado, vou admitir aqui a minha idiotice. Só que não demorou para eu perceber o quanto era ingênuo e inútil protestar com um nome numa lista. E só.
Ao que parece, ninguém se levanta da cadeira. Ninguém sai às ruas para protestar por nada, nem participa de qualquer forma de mobilização popular além de festas catárticas. Nesse grupo eu me incluo. Acontece que pelo menos não me considero revolucionária e engajada em causas sociais só por digitar meu nome numa lista.
Aí todo mundo acha que está fazendo grande coisa, que realmente contribui para um mundo melhor. Mas isso pra mim parece discurso de miss.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Café e CIA

Às três da tarde Dona Maria me traz o café. Velhinha baixinha, simpática, que de vez em quando traz seu pequeno sobrinho para o trabalho, tão parecido com ela e quase do mesmo tamanho. Dona Maria me traz o café como quem cuida de mim.
- Trouxe seu café, minha filha.
- Ôooo. Brigada, viu.
Ela gosta da minha cara de felicidade ao ver o meu querido e amado café chegar. Chateia-se até se eu estiver muito ocupada com alguma coisa e não me levantar logo para pegar a garrafa de café que ela deixa em cima do armário.
Não tem pra ninguém. Às vezes, meu colega de trabalho fumante se surpreende ao ver a garrafa vazia.
- Aí gosta de um café, viu. Poxa, T., deixe um pouquinho pra mim.
- Ok. Desculpe - e faço carinha de vergonha.
- Você fuma né?
- Uma vez por semana, uma vez por mês, uma vez no ano, depende. Mas não sou fumante fumante. A única carteira de cigarro que comprei, eu joguei fora, e não tenho isqueiro.
- Humm. É que tomar tanto café é coisa de fumante.
- Pois é.
Mas oras, por que diabos eu tomo tanto café? Ok. Estava refletindo também sobre o motivo pelo qual servem café em todos os trabalhos do planeta. Onde quer que haja pessoas em serviço, há garrafas de café e aqueles pequeninos copos logo ao lado. Não gosto de copos pequenos diacho, dêem-me um copo de verdade para eu enchê-lo de café!
Então. Acho que o café é pra manter a gente acordado, trabalhando. Principalmente na segunda-feira. Lembro que uma vez a mulher da cantina perto do trabalho só tinha suco de maracujá. Ninguém quis.
- Maracujá? Eu tenho que tomar café pra me manter acordada!- disse uma desconhecida da qual não me lembro da roupa nem dos aspectos, só do tom de voz exausto e indignado.
Café é uma arma do sistema, companheira.
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