segunda-feira, abril 23, 2007

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

7 comentários:

Anônimo disse...

Amo esse livro! Essas confusões esclarecedoras de Clarice...
bjs

Unknown disse...

eu não sei se assim eu estou livre, sabe? mas ao menos estou em paz comigo mesma.

e eu acho que mais vale um herói morto que um covarde vivo.

:*

Anônimo disse...

eu acho que mais vale um herói morto que um covarde vivo.

e não, não tenho a síndrome de clark kent, mas prefiro morrer tentando salvar o que me resta de digno, sabe?

espero que clarice fique bem. e eu tb.. haha

:*

Anônimo disse...

É um trecho do começo do livro, né? Tamanho é o nó que essa mulher me deu na cabeça que até agora eu não pude esquecer essa história de "teceira perna" e de "covardia". Que até agora eu não saí do começo do livro - mas também não saí de muitos outros.

É tão esquisita essa vontade de viver na angústia - ou talvez necessidade. Como se o caos fosse a porta para o transcendental, fosse a quebra da ilusão cotidiana.

De certa forma eu me identifico. Talvez porque eu não compreenda. É um tipo de angústia voluntária, renegação gratuita do que tipifica e dá sentido - gratuita porque realmente não tem finalidade; busca-se com isso não se sabe o quê, ou mesmo não se sabe se aquilo que é buscado tem existência.

Eu a compreendo mais ou menos assim. Daria pra escrever umas dezenas de páginas inúteis.

Você está começando a surtar, Dunya? =P

tatiana hora disse...

eu entendo essa terceira perna como uma forma em que ela se encaixou para se sentir mais segura.

vivemos muita confusão na nossa vida. às vezes podemos recorrer a valores, convicções, verdades sobre momentos e pessoas, que nos fazem se sentir mais seguros.
só que a forma em que nos encaixamos, a terceira perna, pode ser, na verdade, uma covardia.
não queremos enfrentar a perdição. precisamos saber pra onde vamos andar, oras! precisamos seguir em frente, só que às vezes recorremos a uma terceira perna para construir uma pessoa organizada. e essa perna, ao invés de nos fazer caminhar, nos prende ao chão.
ela nos livra da nossa perdição, mas nos prende a um modo de ser com o qual não estamos em conformidade, no qual não nos encaixamos.

sei lá. eu vejo por aí. =P

Anônimo disse...

Eu concordo com vc. Exceto com relação à "covardia". Da maneira como ela coloca, parece que há covardia em largar essa "terceira perna", em encarar sua nova condição. No início do fragmento, G.H. afirma que perdeu o que não precisava, logo ela não tem mais a perna estabilizadora, e no parágrafo seguinte ela começa: "Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu (...)". Em seguida ela diz, reafirmando que está perdida, sem a perna: "é tão difícil [perder-se] que provavelmente arrumarei depressa um novo modo de me achar (...)". Isso significa que ela não se vê covarde por voltar a ter uma terceira perna, mas justamente como consequência de não a ter mais.

Perceba o nó: "essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la." É preciso coragem ou covardia para se sustentar com uma terceira perna? ou para reaprender a caminhar? aiaiaiai!

A primeira impressão que tive foi exatamente igual à sua. Talvez eu tenha (re)lido o que ela não teve intensão de escrever. Mas eu sei que nunca dá pra ser simplista quando o assunto é Clarice.

(Na verdade, é mais fácil falar de sua vida do que de sua obra - e, por isso, eu normalmente não comento nada de nada sobre ela...)

Enfim... vc já terminou esse livro? Compreendeu o que é a "paixão" de G.H.?

=)

Anônimo disse...

tati, é como vc disse.. a gente tá precisando é de dinheiro. se tivéssemos dinheiro, estaríamos triste nas lojas de roupas, sapatos, livros e nas baladas, agarrando os negos e as negas

terceira perna pra mim é outra coisa #D
hahahahhahahaha