sexta-feira, abril 27, 2007

Na saúde e na doença

Ontem minha mãe me falava de um conhecido seu casado com uma mulher acometida pelo Alzheimer. Mamãe disse que o homem ainda amava a esposa, e cuidava dela com todo esmero. Mas ele sentia necessidade de sair, ir ao cinema, a um barzinho, e para isso tinha uma espécie de amante, com quem fazia sexo e outras coisas agradáveis.

A amante sabe que ele ainda ama a esposa. Entretanto, ela não a odeia por isso. Muito pelo contrário, na verdade, a amante até ajuda nos cuidados com a esposa adoentada. Cuida dos dois, marido e esposa, dedicando ao primeiro seu corpo, seu carinho e seus risos, e à segunda, o seu zelo.

Minha mãe achava estranha aquela situação. Contou que o homem às vezes se sentia culpado por achar que estava traindo sua amada esposa, mas precisava se dar o direito de viver a vida. Toda a sua vontade de viver deveria ser castigada? Deveria ele se retirar na dor e se empenhar apenas em cuidar de sua mulher, até que a morte os separe?

Mamãe, apesar de compreender as vontades do homem, de certa forma o repreendia. Já minha avó achava o segundo relacionamento que ele tinha totalmente ofensivo. Até questionava se acaso a enferma não poderia saber, de alguma forma, tudo o que se passava, e não tinha como reagir, o que seria deveras angustiante.

Vovó e mamãe se escandalizaram quando eu disse que aquele era um dos relacionamentos mais harmônicos de que eu já tinha ouvido falar. O marido não tinha nada que se castigar com tanta culpa. Ora, ele não havia abandonado sua esposa, ele cuidava dela com todo carinho e, portanto, era fiel sim a ela.

Por que haveria ele de ser infeliz? Ele deveria se vestir de preto, chorar ao lado de sua esposa enquanto recebe visitas? Por que, se há tanta vida por aí? A sua amante, certamente, não era apenas um corpo para ele. Claro que tinha por ela afeto, amor quem sabe. É provável que ele ame as duas. E a amante me parece muito feliz por cuidar dos dois.

Acho que essa história daria um belo filme de Almodóvar. Ele sabe como ninguém tratar de temas polêmicos no que refere ao amor. Lembro que em Fale com ela Benigno dedica a sua vida para cuidar de uma mulher em coma, até o dia em que, apaixonado por ela, faz amor com a mulher e a engravida. Muitos disseram que ele era um psicopata, e que havia estuprado a moça. Não obstante, a mulher sai do coma e volta a dançar balé. É, mas nesse outro filme, nosso Benigno, ao invés de viver em função de uma mulher adoentada, amaria outra, amaria as duas. E num Almodóvar, a esposa sairia de seu estado debilitado e de repente teria ataques histéricos ao ver seu marido com outra. Quem sabe até mataria os dois. Ou faria um menage.

quinta-feira, abril 26, 2007

Mensagem

Amor!
Posso te chamar de amor?
Se eu não puder, corra logo, que eu só quero ficar do lado de quem eu possa chamar de amor.

segunda-feira, abril 23, 2007

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Trecho de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

sábado, abril 21, 2007

Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, abril 20, 2007

Bilhete embaixo da porta

André,

Eu só queria que você soubesse que eu sempre te amei, mas nunca me apaixonei por você nem quis você só pra mim.

Luana.

Dos amores que nunca quis

Vejo no espelho a mulher exausta
O que foi do amor que tive?
Tantos e tantos amores
Mas eram eles apenas a falta

Fora sempre uma dor a mais
Uma angústia, uma espera
Mas nunca um conforto que ficasse
Nunca uma saudade sincera
Apenas a perda
E a perda dói,
Não tanto por ainda querer o objeto amado
Mas por querer, através da dor, manter aqui o que já não está mais

Nunca o aconchego, o afeto, a proteção
Nunca a descoberta de uma mulher muito mais bonita no espelho
Nunca alguém que visse o que tantas vezes ela teimava em esconder
E não havia vergonha alguma, se era tão bonita!

Saudades, saudades infindas do amor que nunca havia tido
Saudades, como quem parte
Mas parte só por medo de ver o outro partir.

quinta-feira, abril 19, 2007

Essa tal liberdade


A maioria absoluta dos casais pula a cerca em seus casamentos de 10, 20 anos. Uma escapadinha ali não faz mal, contanto que o outro não saiba, dizem. Mas agora no meio universitário está se difundindo o que chamam de "amor livre", e algumas pessoas acreditam que o amor pode superar as barreiras do ciúme e da possessividade, e inclusive ser um amor muito mais honesto.

Sabemos que todo mundo sente atração por outras pessoas, e isso não tem nada a ver com amor. Ninguém venha me dizer que quando ama deixa de achar a bundinha de Fulano uma gostosura, que eu tô ligada na hipocrisia já. Agora você imagine não precisar reprimir os seus instintos, não se castrar no seu dia-a-dia, e ainda assim ter um relacionamento extremamente saudável e construtivo com alguém. Um sonho.

Tem gente que consegue, eu conheço casos em que o relacionamento aberto funciona sim. Claro que nesses namoros as pessoas passam por muita dificuldade para superar a moral, os valores que aprendemos desde pequenos. Afinal, na novela a gente já via a mocinha chorar porque seu namorado ficou com outra. No família a gente já aprendeu que quem comete adultério (com toda a carga negativa da palavra) é canalha. Nossos valores parecem tão naturais, que tudo que esteja fora disso é perversão e quem ousar questioná-los deve ser queimado na fogueira. Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!

Ok. Os hippies que vivam na natureza e procuravam novas formas de relações sociais, que propunham uma vida libertária podiam estar certos. Entretanto, grande parte deles virou yuppie e vestiu seu belo colarinho branco. Regressemos ao conservadorismo, sejamos reacionários.

O fato é que ser o que Dostoiéviski chamaria de extraordinário, ou seja, desafiar a moral dos ordinários, ou das pessoas comuns, sempre custa muito caro. Quantos outsiders não tiveram suas cabeças numa bandeja, ou quantas mulheres divorciadas não foram chamadas de putas? Ou simplesmente quantas mulheres no Afeganistão não foram apedrejadas por mostrarem o tornozelo?

É verdade. Mudar é difícil, bem difícil. Só que essas mudanças, essas revoluções podem caminhar pro lado oposto, e acabam se revestindo do mesmo teor de hipocrisia dos valores contestados.

É quando, por exemplo, um cara ou uma garota diz que é amor livre porque tá na moda. É quando as pessoas que acreditam no amor livre acham que o amor das pessoas monogâmicas não é verdadeiro. É quando, novamente, se estabelecem formas de se comportar e valores dogmáticos. É quando somos tão intolerantes quanto qualquer xiita.

Fora isso, em muitos relacionamentos abertos predominam a superficialidade, a falta de envolvimento. Pessoas que se frustraram em amores do passado e decidem adeirir a novas formas de convívio. Só que muitas vezes o que chamam de amor livre na verdade é falta de amor.
Existe a possibilidade alguém não querer se envolver, alguém não se apaixonar e dizer que quer o amor livre, só pra não assumir um relacionamento sólido, como se relacionamento aberto fosse alguma brincadeira. Aí, de repente, quando se apaixona se torna uma pessoa ciumenta e possessiva como qualquer outra. Alguém pode morrer de medo de ser traído e por isso diz que acredita no amor livre. Assim o perigo de uma iminente "traição" é eliminado. Um mecanismo de defesa para tornar algo que incomoda bastate numa coisa banal.

Estamos diante dos jogos de amor. Para completar, no tal amor livre as pessoas têm preferidos. Ou seja, eu sou o número um e que ninguém me tire desse posto. Pode ficar com quem você quiser, mas no dia em que alguém representar uma ameaça de me tirar do primeiro lugar, eu choro, faço escândalo, esperneio. Aí eu me pergunto se uma pessoa dessas não é possessiva.

Há pessoas que, no entanto, acham que nem deve existir essa história de número um. Acreditam que pode haver um relacionamento não entre duas pessoas, mas entre três, quatro, ou mais. E que nesses casos não seria o tipo "Fulana ama Cicrano e pega todo mundo, mas ama somente a ele", porém sim Fulana ama Cicrano, Cicrano ama Beltrano, Beltrano ama Fulana, e por aí vai. Um verdadeiro desafio para um modelo de relacionamento amoroso baseado na posse.

Nossa relação com as pessoas se parece com nossa relação com as coisas. E no modo de produção capitalista uma valor salutar é a defesa da propriedade privada. Então nosso amante é também nosso bem, bem no sentido de bens. Sabe, aquela história de amor é latifúndio. Mas há aqueles que defendam que o amor seja ocupado, seja libertário, seja comunitário, seja de todos. Só não sabemos até que ponto essas pessoas procuram relacionamentos superficiais ou querem mesmo se envolver com muitas pessoas.

Pois é. Acredito que o amor livre é lindo, e elimina uma série de hipocrisias. Faz quanto tempo que você não vê sua mãe beijar o seu pai? Com quantas pessoas você queria ficar, mas não pode por causa do seu namorado? Se você ficasse com alguém seu sentimento diminuiria? Pode ser que sim, pode ser que não, mas a verdade é que as pessoas, em geral, são muito inseguras. E podemos falar de revoluções sexuais, porém não esqueçamos que na hora de mexer com nossos medos a coisa complica.

O amor livre pode ser lindo, quando vivido sem medos e com muita sinceridade. É tão lindo quanto um relacionamento monogâmico vivido sem medos e com muita sinceridade. Não há forma de se relacionar mais nobre, elevada, superior. Agora, se você se mete numa dessas porque não ama alguém o suficiente para abrir mão de trepar com outras pessoas, se você não quer se apegar a ninguém, se você quer seguir uma tendência pós-moderna, você definitivamente tá se metendo em terreno perigoso e poderá acabar ferindo a si mesmo, a outra pessoa, ou aos dois.

segunda-feira, abril 16, 2007

We are the champions, my friend


Sempre tive uma relação estranha com os esportes. Fã das Olímpiadas, encantada pelo que chamam de espírito olímpico, emocionava-me ao ver as belas histórias de mocinhas da ginástica olímpica que quebram a perna e continuam sua apresentação, bem como imitava aquele célebre golpe de Daniel Sam em Karatê kid. Mas a verdade é que quando começo a praticar alguma modalidade, me empolgo, me dedico pra valer, até o belo dia em que enjôo e passo meses e meses praticando a arte de dormir e passar horas diante do computador. Acho que esse negócio de atleta não é pra mim.

Tudo começou na quarta série, quando eu fugia das aulas de educação física. Quando ia por pura obrigação era um tremendo desastre. Meus colegas ficavam putos, me botavam no time reserva, e nas poucas vezes em que eu participava de um jogo de futebol, ficava parada e deixava as pessoas com seus chutes na perna, faltas violentas, broncas da professora gorda que ironicamente dava aulas de educação física.

Nunca vou me esquecer do dia em que não chutei pra dentro do gol uma maldita bola que graça aos deuses do inferno veio parar bem no meu pé, pé esse que estava logo em frente ao gol, gol esse que estava sem goleiro. A bola foi ignorada, e rolou tranquilamente para fora da quadra, quase como se zombasse dos "atletas". E um grupo enorme de pessoas ficou ao meu redor me xingando e me fazendo ameaças. Por que as pessoas levam o futebol tão a sério? Tsc tsc.

Bem, minha segunda experiência com esportes foi na quinta série. Entrei no GRD, o esporte das patricinhas que se vestiam como barbies e moravam na 13. Aquilo não era lugar pra mim, eu não tinha uma mãe rica que vinha me buscar na escola com o carro do ano e que falava com a diretora balançando a pulseira de ouro. Mas eu adorava o GRD e vivia dando cambalhotas dentro de casa. Gostava do GRD, mesmo com uma professora carrasca que empurrava a gente até nossas pernas estalarem na hora de escalar, mesmo sem pesar 40 quilos, mesmo com uma platéia de meninos punheteiros na quadra.

Um dia eu simplesmente enjoei do GRD. Aí então passei uns cinco anos sem praticar nenhum esporte. Até que descobri o universo das academias. Em outra experiência traumática, achava extremamente divertido aumentar a cada semana a quantidade de pesos que levantava, adorava ganhar do meu irmão na queda de braço, me regozijava ao ver que levantava mais peso do que alguns homens. Era bom ser forte e correr por meia hora na velocidade de 8,2 km/h. Imaginava até que podia ser bombeira, policial, que eu era foda, enfim. Até o dia em que enjoei de ser forte, e virei uma pessoa normal que dorme e passa horas na frente do PC.

Já caminhei, já caminhei muito e era feliz por fazer caminhadas na 13 e tomar água de coco ao final do percurso. Uma coisa bem light, sabe. Mas a poluição da cidade, dos carros que passam espalhando seu monóxido de carbono pelo ar, me trouxeram ao mundo real. Eu só queria caminhar no meio da natureza e ser hippie, mas preciso ganhar dinheiro.

Hoje eu sou uma pessoa normal que passa horas na frente do computador e dorme. Minha próxima tentativa é fazer yoga. Já estou vendo eu me achando o máximo, me contorcendo, falando pros meus amigos das maravilhas da yoga, porque a gente procura o equilíbrio, porque é uma atividade que educa nosso corpo e nosso espírito. Até eu voltar a ser uma pessoa normal que passa horas na frente do computador, e se estressa no dia-a-dia, e que ao chegar em casa quer mais é saber de dormir e tá pouco se fudendo pra esse papo de educar o corpo e o espírito.

terça-feira, abril 03, 2007

O pudor é a forma mais inteligente de perversão

Era mais um dia morgado, com mais um professor que não vem dar aula na já segunda semana de aulas da universidade, veja só. Aliás, quem diabos inventou de começar as aulas antes da semana santa? Foi a coisa mais inútil que já vi, uma total perda de tempo. Pois bem. Então eu vejo um cara e uma menina conversarem bem na minha frente, ali na pracinha da Didática I.

- Quando vejo tanta desgraça no mundo logo percebo que Deus não existe. Como pode haver um ser supremo e perfeito, quando existe tanta desgraça no mundo?!

Não! Diga que não é verdade, Pluc. Sim, era verdade, eles estavam falando de Deus, o assunto mais chato que existe. Olhei bem pra menina e vi que ela parecia alguma crente de Malhação. Prisilhinha de borboleta no cabelo, saia no joelho, rosto meiguinho e sorridente o tempo todo.

O cara tinha o cabelo pintado de verde, um rapaz jeitoso até, apesar do cabelo verde. Via-se perfeitamente que ele era o cara doidão, o pimba que leu Nietzsche e acha que a vida não faz sentido, e odeia religião, mas no fim das contas ele queria mesmo era comer a menina. Sempre todo prosa, aproximava pouco a pouco a sua boca da boca dela. E ela não tinha problema nenhum com isso.

Não pude deixar de ver alguma volúpia na santinha. Toda aquela meiguice, aquele papinho de Jesus me ama pra lá, Jesus te ama pra cá, não me convenciam. E ela parecia encantada pelo menino que leu Nietzsche. Ao mesmo tempo em que tentava convencê-lo da existência de Deus, derretia-se com aquele papo filosófico-crítico-iluminado-pseudo-intelectual.

Eu só me lembrava de uma coisa: Amarelo Manga. Nesse filme, o diretor passa rapidamente na cena como figurante e balbucia ao pé do ouvido de algum personagem: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão".

Logo, não pude deixar de associar a imagem da garota à da moça do filme Amarelo Manga a quem essa frase é dedicada. Então a vi por um instante de ousada imaginação a menina pudica enfiar uma escova no cu do rapaz que leu Nietzsche, assim como em Amarelo Manga.

domingo, abril 01, 2007

quinta-feira, março 22, 2007

Filhadaputagem

No mundo todo os filhos da puta se dão bem. Quem vê nas pessoas peças de um joguinho pra chegar até a vitória, quem valoriza interesses em lugar de afeto, é quem se dá bem. Afinal, dizem que você precisa conhecer as pessoas certas... Essa é a lei do mercado, oras!

É como meu amigo A., entre uma baforada e outra, com todo o seu charme de vilão segurando cigarro e de óculos escuros, me disse certa vez:

- Tati, eu também quero me dar bem. Quero ter meu trabalho reconhecido, quero ganhar dinheiro. Então eu também vou ser filho da puta!

Pois é. Lembro de outro amigo nada politicamente correto afirmar categoricamente: "afeto? afeto por quem? gostar de gente pra quê? melhor gostar de carro, de apartamento. um carro nunca vai botar pra fuder com você."

Será?

quarta-feira, março 21, 2007

Esfriar pra quê?


Quando eu era pequena, minha mãe dizia "Tatiana, não beba o café agora, ele ainda está muito quente, assim vai queimar a língua". Mas não adiantava. Eu queria beber o café naquela hora, e tá acabado! Então queimava a língua e ficava aos berros. Ela também dizia para eu não comer o bolo ainda quente, pois ficaria com dor de barriga. Mas eu queria comer o bolo logo, tanto que gostava mais quando saído do forno a poucos instantes.


Ainda hoje eu queima língua tomando café e tenho dores de barriga por degustar bolos quentes.

domingo, março 11, 2007

Amor divino

Não lhe guardo saudades
Acaso tivesse saudade
ia te querer por perto
mas é perto demais

Sinto antes imensa falta do que não vivi
E tudo está sendo vivido por mim
finalmente agora
pela primeira vez!
E na mais pura clarividência tranquila

Só no lugar seguro do passado
As coisas
todas as coisas
podem ser por mim vividas

Só na lembrança podemos ser felizes por completo
Na presente felicidade há sempre uma parte que quer fugir, que quer voltar, que se esconde e se apavora
Na memória as contingências já estão asseguradas

Amo o passado
Por alguma soberba de querer ser Deus
e construir no céu uma casa
Amar a todas as coisas
Só que de cima

Do alto Deus está isento dos erros
e certo do que virá
Desconhece presente, passado e futuro
e, portanto, desconhece o medo
O medo é a indecisão do tempo

- Os deuses amam lembranças.
A criação do mundo poderia ser a eterna atividade de rememorar -

quarta-feira, março 07, 2007

Copo vazio


Estávamos sentados à mesa em um salão onde acontecia uma festa do lado rico da família, quando o padre veio se juntar a nós. Em verdade vos digo que fico de certa maneira desconfortável na presença de padres, pois não me sinto à vontade para dizer gracinhas ou rir alto. Há de notar que os padres são sempre tão comedidos! Enfim, o fato é que uma senhora com seus cinqüenta anos veio dizer gracinhas e rir alto perto de nós, para minha felicidade.

Como se não bastasse o tom vulgar com que falava, ainda conversava sobre coisas bem mundanas. Vestia um jeans surrado e camisa de sindicalista no meio de todas aquelas mulheres tão... casadas! Ou por casar!

- Sabe padre, não tem coisa melhor do que o vício. O que seria da vida sem os vícios?! É como eu sempre digo: Deus deveria ter-me feito com três mãos, uma para segurar o cigarro, outra, a cerveja, e outra, o baralho.

Não podia me conter, e dava as maiores gargalhadas da audácia dela. Ao fitar o padre, percebi o seu olhar de desaprovação e seus lábios que levemente balbuciavam “meu Deus”. O seu semblante tinha algo de pai, perdoai-a, pois não sabe o que faz.

Agora deixando à parte a soberba do padre, eu me pergunto sobre os vícios. Não só o vício de quem joga, bebe excessivamente, fuma duas carteiras de cigarro por dia, mas também o de quem passa horas a fio na internet ou numa esteira da academia.

Lembro agora do filme Réquiem para um sonho, que trata com maestria sobre os nossos vícios ao abordar não somente o adolescente problemático que usa heroína, mas também sua mãe que assiste à televisão durante horas e horas todos os dias para preencher a falta que lhe fazia o filho e o falecido marido.

É aí em que a gente vê que, assim como aquela garota que se prostitui para comprar cocaína, a gente sente um vazio. No vício, a recompensa. O vício está no lugar de alguma coisa, que muitas vezes a gente nem sabe o que é. Mas está lá, televisão pra fazer a companhia de um filho, coca-cola com gosto de abraço, compras no lugar da coragem para enfrentar.

Todo vício é um medo ou uma saudade. Às vezes alguém tem medo de perder o emprego e fuma o dia todo. Situações tensas são comuns no trabalho, pois lidar com gente não é coisa fácil, ainda mais quando falamos de concorrência. Alguém também pode sentir falta de uma pessoa que já morreu, e comer doces. Assim como a garota obesa que vi um dia desses na Mtv. Todos escarneciam de seu excesso de peso, diziam que era sem vergonhice, que ela não passava de uma comilona preguiçosa. Num primeiro momento, ela ria e concordava. Até cair em prantos diante da câmera falando da fome insaciável que sentiu depois de seu pai falecer.

O que seria da vida sem vícios? Só que de repente a gente pode fitar a fumaça que sai do cigarro, o dinheiro ganho no jogo, a espuma que desliza no copo, e ver que de nada adiantaram três braços quando a gente só precisava de dois.

terça-feira, março 06, 2007

For sure!


Estava na sala de aula aguardando a professora de inglês, quando meus olhos caem sobre esse pôster fixado à parede, com essa engraçadíssima laranja sorridente.

Ok. Toda essa história de sinal pode ser uma grande bobagem, mas isso me caiu muito bem.

Hum, different can be good!

domingo, março 04, 2007

É meu!


Sabe, lembro que quando eu era guria uma vez meu irmão R. deixou um pedaço de pizza quase todo no prato, pois ele já tinha comido muito e só tinha colocado aquele porque seu olho é maior do que a barriga. Mesmo sem querer o tal pedaço, ao me ver pegá-lo para comer ele prontamente choramingou, esperneou e disse que o queria de volta. Comeu aquilo que havia recusado com a maior vontade do mundo, parecia que passava fome há três dias. Só porque outra pessoa iria ficar com o tal pedaço de pizza.


Tem gente que faz isso. Não só com pizza, mas com pessoas também.

quinta-feira, março 01, 2007

O trabalho e os dias


Universitários gastam boa parte do seu tempo em filas para tirar xérox. São pilhas e pilhas de apostilas acumuladas durante um período, e uma grana considerável gasta com esse material. O fato é que eu estava numa dessas filas infernais numa copiadora logo em frente ao terminal, quando comecei a pensar no lado de quem está atrás do balcão, certamente bem pior do que o meu. Passo alguns minutos puta da vida num cubículo que mais parece um forno, agora você imagine um cara que trabalha o dia inteiro naquela merda.

Na televisão, Zezé di Camargo e Luciano. É pra dar o último toque de desconforto e mal-estar. Pra mim, claro, porque talvez para o pessoal da copiadora o dvd daquela duplinha sertaneja ridícula seja a salvação para um dia duro de labuta. Não vou entrar aqui no mérito da dupla, mas no de quem passa horas a fio a trabalhar com papéis numa máquina com movimentos que descaracterizam qualquer humanidade.

Não fosse suficiente, há os estudantes que reclamam o tempo todo da folha que saiu assim assado, de não sei quem que furou a fila, e etc e tal. Céus, se existe inferno, ele é trabalhar numa copiadora.

Isso me faz lembrar uma série de trabalhos escrotos. Recordo que num programa de televisão americano exibido no Multishow foram mostrados alguns trabalhos árduos. Entre eles, estava a atividade de segurar uma bacia para receber a bosta liberada pelos lutadores de sumo, pois eles costumam eliminar fezes durante a luta. Ai!

Havia também um cara que masturbava perus para fazer inseminação artificial desse animal e, assim, aumentar consideravelmente os lucros da empresa. Imagine só você passar o dia todo masturbando perus! Ninguém merece!

E há também as putas. Dizem que puta tem a vida fácil. Nunca achei isso. Pra mim puta tem uma das vidas mais difíceis de todas. Quantas taras malucas elas não têm de realizar para aquele cara que não consegue mostrar seu lado mais bizarro pra esposa? Pois é, nada contra taras, mas há certas taras que devem ser muito humilhantes para algumas pessoas. Fora isso, ainda há a feiúra de muitos homens, o preconceito, os maus-tratos, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e também de ter um filho não se sabe de quem.

É, mas agora levando pro lado mais sério da coisa, me lembrei dos cortadores de cana. Aquilo sim é um trabalho desgraçado. Através de uma reportagem do Fantástico, soube que muitos deles sucumbem debaixo do sol e morrem de fadiga. Até que alguém acha o corpo estendido no meio da vasta plantação. Eles são explorados, duramente explorados, e ainda assim muitas vezes ninguém é punido por isso.

É, como diz o meu caro amigo Henrique, trabalho não foi feito para dar prazer, se desse, não era trabalho. Só que é cruel alguém passar o dia todo se movendo como uma máquina ou morrer de cansaço. Se Marx diz que a história da humanidade é a história da luta de classes, e Freud que a história da civilização é a história da repressão, vemos uma história que é construída sobre a exploração e sobre a fadiga no lugar do prazer.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Até que a morte os separe

Às vezes eu ia ao trabalho da minha mãe para almoçarmos juntas. Sempre ao chegar, logo me dirigia à garrafa de café e me punha a escutar as histórias de Alex, técnico em enfermagem colega de mamãe. Só que uma história me chamou a atenção em especial.

Estava ele no Magg’s durante o intervalo do almoço, quando então assiste a um acidente da janela do restaurante enquanto mastigava sua refeição. Um carro sai a toda velocidade e colide com um monumento, um caju com araras desenhadas, em homenagem à Aracaju, localizado na praça em plena Beira Mar, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Diante dos olhares apreensivos de todos que estavam no restaurante a exigir uma providência sua, pois Alex estava vestido de branco, ele corre até o local do acidente como um herói que não sabe ao certo o que fazer.

Ao chegar à praça, observa o casal que havia sofrido o acidente discutir. A mulher chorava convulsivamente. Ela era loira, jovem e bonita. Seu marido esbravejava as mais duras ofensas, e ela mal sabia conter tamanho desespero diante dos curiosos.

- Sua louca! Você é uma louca! Por acaso queria me matar?

Enquanto ela soluçava, ele se explicava às gentes que se acumulavam ao redor do inusitado acontecimento. Dizia que sua esposa havia enlouquecido, e num momento de total descontrole ameaçara matar os dois batendo o carro. Muitos perguntavam por que ela faria isso, e ele só reafirmava que ela estava louca, devia ser internada, não sabia mais o que fazer com a mulher. O marido, sempre com postura tão ponderada, enquanto a esposa de nada mais queria saber além de chorar, sem de forma alguma se importar em confidenciar sua fraqueza diante dos valores dos passantes.

Alex havia notado desde o instante em que assistira ao carro colidir com o monumento, que não era possível aquilo se tratar de um acidente. Na verdade, era sim algo provocado, só não entendia o que levaria alguém a querer dar fim à própria vida, ainda mais de forma tão violenta.

Enquanto Alex me contava a história, eu conjeturava a respeito dos possíveis motivos que levaram a mulher a querer matar a si e ao marido. Só conseguia pensar que ela não tinha coragem suficiente para viver sem o esposo, como também não suportava mais estar com ele, e então a saída seria a morte. E seu sentimento de posse deveria ser tão intenso ao ponto de ela não permitir que houvesse vida para ele, outras mulheres, outros lugares, depois de ela falecer.

Estariam convertidos em um só. Talvez ela tivesse perdido a sua própria identidade, já não sabia onde terminava ela e começava ele, nem quais eram os limites entre os eles e o mundo. Destarte, ao ver o mundo transformado neles dois, e com o sentimento de que não poderia haver saída para aquele inferno além do fim desse mundo, preferia a morte.

Muitos psicólogos afirmam que os suicidas fantasiam a respeito de uma vida após a morte e de uma vingança através do suicídio. Eles não concebem que de fato deixarão de existir, mas imaginam que irão para um lugar melhor e ainda verão cair em desgraça as pessoas a quem querem atingir. Como um homem que se mata só para ver a namorada sofrer, pois o sofrimento dela seria a sua maior prova de amor, o deleite do amor sádico. Mal sabe ele que não poderá ter tal prazer.

Mas o que aguardava uma mulher que tenta cometer suicídio e matar o marido? Parece-me que tal expurgação aguarda uma recompensa póstuma. Ela não admitia de modo algum vê-lo viver depois de sua morte. Assim seria um maldito fantasma que retorna para fazer assombrações com passos pela casa. Entretanto, me parece que ao mesmo tempo em que ela se agarra à vida, ao acreditar que poderá presenciar alguma coisa mesmo depois de morta, ela se conduz até a morte, e uma morte que não levaria a outra vida onde estariam felizes juntos, mas ao fim, à anulação completa de ambos.

Não entendo muito bem o porquê de tal atitude, mas me interesso por tentar desvendar tanta paixão misturada com ódio levada às últimas conseqüências. Gosto de analisar as pessoas, um hábito que em verdade não me agrada, mas enfim, sei que quando ouvi essa história logo me lembrei dos filmes de Truffaut. Recordo que em A Mulher do Lado e Jules e Jim há personagens que também se suicidam e matam o objeto de desejo como findo recurso para se livrarem do que não conseguem se libertar em vida: um relacionamento frustrado que anula as suas identidades até ir ao encontro da morte, do não-ser.
- No que você está pensando? Não gosto quando você fica pensando, você pensa besteira demais.

- Em nada.

- Em alguma coisa, mas não quer me dizer. Assim você fica cada vez mais distante.

- É que muitas pessoas dormem na mesma cama que a gente todas as noites.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

*800

Todo mundo é carente. Não fosse assim eu não receberia tantos scraps de quem quer receber um scrap, nem olhava três vezes por dia a minha página no orkut pra ver se tem algum recado, nem ficaria feliz por algúem ter se lembrado de mim ou descontente acaso ninguém tenha me dito qualquer coisa boba.

Há também as tais mensagens de celular. Qual felicidade não sinto ao receber uma delas! Às vezes me decepciono ao ver que não passava de um recado da operadora. Ah, e o namorado da minha amiga, que digita *800 só para receber mensagens de saldo e ainda verifica a mensagem cheio de ânsia, na espera pela atenção de alguém? Cada doido tem sua mania, diz o clichê.

Somos tão carentes quanto cachorros. Lembro logo da minha adorável Kika, que vive a me seguir para onde quer que eu vá na casa saltando por entre minhas pernas. Kika, que ao ver algum estranho se põe a latir, arranhá-lo e dar mordidinhas. Kika, nome dado pela minha mãe, que gostou muito daquele filme do Almodóvar. Ah mamãe, não bastasse uma família tão grande, com tanta gente para lhe dar atenção, ainda traz uma cachorra para segui-la pela casa.

Mamãe não gosta de msn. Segundo ela, a gente passa tempo demais a falar besteira na internet. E é verdade. Ah, mas quantas pessoas carentes estão no msn agora? Quantos estão online esperando para que alguém vá lá e puxe conversa, ou quantos estão ausentes e aguardam para falar com alguém em especial, ou quantos estão ocupados e acabam por procrastinar um trabalho para conversar alguma bobagem com um amigo. Há até os que querem ser onipresentes; saem e dizem em sua mensagem pessoal o que foram fazer da vida. Fui à padaria, se quiser, deixe recado.

Bem, neste exato momento, estou offline, pois não há ninguém no msn com quem queira falar, não no momento. Aí venho aqui e escrevo esse texto e, francamente, depois confiro se não há algum comentário no blog. E clico no link, cheia de ânsia, para ver o comentário de alguém que deu um pouco de atenção a mim.