segunda-feira, maio 05, 2008
sábado, maio 03, 2008
sexta-feira, maio 02, 2008
Você faz Comunicação... hum... deve ser comunicativa...
Eu sou do Jornalismo, porém anti-social. O que mais exijem das pessoas dessa área é que elas sejam "comunicativas". E eu com essa minha cara de poucos amigos. Na verdade tenho muitos colegas, conheço bastante gente, entretanto, é comum algumas pessoas dizerem que, num primeiro momento, acharam-me muito arredia, calada, tímida, para depois descobrirem uma moça brincalhona, festeira, palhaça mesmo.
Dizem que sou antipática, metida. Afirmam que tenho aquele ar blasé que se eleva com indiferença diante dos meros mortais. Mas a minha distância é sim uma timidez, um recato perante o desconhecido, um cuidado na aproximação. Antes prefiro sentir o ambiente para saber onde estou pisando.
Além do que eu não sou afeita a puxar papo forçado. Conversas sobre o tempo me irritam. Ser super simpática com quem mal conheço também. Prefiro que os papos surjam assim, sem mais. Como quando você derruba o lápis no chão e vê o nome da escola onde estudou na quinta série, e então pergunta se o dono do lápis também estudou lá, e quando, e se gostava, e comenta que havia um parque muito legal com um balanço, e que um guri maldito te derrubou e te deixou com marcas roxas.
Gosto assim. Entretanto, o tempo e a experiência têm me provado que devo mudar esse meu jeito, essa minha mania de ficar na minha. Às vezes as pessoas querem que você tome alguma atitude no sentido de procurar conhecê-las. De certa forma, elas querem se sentir importantes e saber que você tem algum interesse nelas. Senão pensam que são chatas, que você não quer amizade com elas, ou ainda que você não as considera dignas de sua atenção.
Dizem que sou antipática, metida. Afirmam que tenho aquele ar blasé que se eleva com indiferença diante dos meros mortais. Mas a minha distância é sim uma timidez, um recato perante o desconhecido, um cuidado na aproximação. Antes prefiro sentir o ambiente para saber onde estou pisando.
Além do que eu não sou afeita a puxar papo forçado. Conversas sobre o tempo me irritam. Ser super simpática com quem mal conheço também. Prefiro que os papos surjam assim, sem mais. Como quando você derruba o lápis no chão e vê o nome da escola onde estudou na quinta série, e então pergunta se o dono do lápis também estudou lá, e quando, e se gostava, e comenta que havia um parque muito legal com um balanço, e que um guri maldito te derrubou e te deixou com marcas roxas.
Gosto assim. Entretanto, o tempo e a experiência têm me provado que devo mudar esse meu jeito, essa minha mania de ficar na minha. Às vezes as pessoas querem que você tome alguma atitude no sentido de procurar conhecê-las. De certa forma, elas querem se sentir importantes e saber que você tem algum interesse nelas. Senão pensam que são chatas, que você não quer amizade com elas, ou ainda que você não as considera dignas de sua atenção.
segunda-feira, abril 21, 2008
terça-feira, abril 08, 2008
Eu, como boa amante dos domingos aconchegantes, inspiradores e sonolentos, não pude deixar de adorar este poema do Drummond!! Ah, que triste, mas hoje ainda é quarta-feita!!!
Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Eu não perdôo as aspas
É incrível como um mero sinal de pontuação pode ser utilizado como instrumento da falta de caráter e do uso indiscriminado das palavras. Condeno veementemente as malditas aspas. Esse aparente inócuo sinal de pontuação pode sim ser visto em alguns dos meus escritos, mas sua profunda iniquidade me chama atenção nos diversos textos que leio por aí.
As aspas encerram os laços de significação. Elas são por si só cínicas. Existe em meus dizeres um recorrente cinismo quando as escrevo... O que me chateia, em verdade, é a utilização delas como se representassem alguma verdade. Aspas são para apontar a reprodução de um pronunciamento, ou não dizem nada, ou são impregnadas de ironia, no meu ponto de vista. Não obstante, não são raros os casos em que alguns usam as sarcásticas aspas como forma de revestir de sobriedade qualquer argumento ou vocábulo enfático, ou mesmo cruel. Dessa forma, as aspas transmutam em polidez e racionalidade o que é deveras irracional e de mal gosto.
Explico: o cara vem e defende um conjunto de idéias estapafúrdias, e entre elas podemos ver as benditas aspas. É como dizer, "esses adolescentes nos semáforos são todos 'criminosos'". O emprego das aspas aí serve só para o autor da frase não se passar por reacionário, e então ele usa aspas em volta da palavra criminoso com o objetivo de ressarcir o peso que ela de fato tem. Destarte, pretende cristalizar sobre si a imagem do homem com consciência social, que não quis chamar o guri de criminoso. O menino, nas palavras dele, não deixou de sê-lo, só que agora é um criminoso entre aspas. Assim como em muitos escritos constam gays , mulheres, negros, pobres, todos entre aspas.
Lembro que o professor disse que o termo minoria merece aspas, por se tratar de um termo nativo, ou seja, que pertence à fala do cotidiano e não é um conceito sociológico propriamente dito. Estava certo o professor ao desconsiderar esse termo tão ridículo que fala sobre o sexo dos anjos. "Minoria" não explica nada sobre nossa sociedade, pois quem são as "minorias"? As mulheres são uma "minoria"? Numa tentativa tola de conceituação, poderíamos deflagrar o seguinte significado: "minorias" são formadas por todos aqueles que são vestidos com aspas. Afinal, esses usuários das aspas estão querendo enganar a quem?
As aspas encerram os laços de significação. Elas são por si só cínicas. Existe em meus dizeres um recorrente cinismo quando as escrevo... O que me chateia, em verdade, é a utilização delas como se representassem alguma verdade. Aspas são para apontar a reprodução de um pronunciamento, ou não dizem nada, ou são impregnadas de ironia, no meu ponto de vista. Não obstante, não são raros os casos em que alguns usam as sarcásticas aspas como forma de revestir de sobriedade qualquer argumento ou vocábulo enfático, ou mesmo cruel. Dessa forma, as aspas transmutam em polidez e racionalidade o que é deveras irracional e de mal gosto.
Explico: o cara vem e defende um conjunto de idéias estapafúrdias, e entre elas podemos ver as benditas aspas. É como dizer, "esses adolescentes nos semáforos são todos 'criminosos'". O emprego das aspas aí serve só para o autor da frase não se passar por reacionário, e então ele usa aspas em volta da palavra criminoso com o objetivo de ressarcir o peso que ela de fato tem. Destarte, pretende cristalizar sobre si a imagem do homem com consciência social, que não quis chamar o guri de criminoso. O menino, nas palavras dele, não deixou de sê-lo, só que agora é um criminoso entre aspas. Assim como em muitos escritos constam gays , mulheres, negros, pobres, todos entre aspas.
Lembro que o professor disse que o termo minoria merece aspas, por se tratar de um termo nativo, ou seja, que pertence à fala do cotidiano e não é um conceito sociológico propriamente dito. Estava certo o professor ao desconsiderar esse termo tão ridículo que fala sobre o sexo dos anjos. "Minoria" não explica nada sobre nossa sociedade, pois quem são as "minorias"? As mulheres são uma "minoria"? Numa tentativa tola de conceituação, poderíamos deflagrar o seguinte significado: "minorias" são formadas por todos aqueles que são vestidos com aspas. Afinal, esses usuários das aspas estão querendo enganar a quem?
segunda-feira, abril 07, 2008
Quando Olívia deixou de ser mulher
Quando me olhei no espelho e me vi sem os seios, senti que não era mais mulher. No ônibus, o homem absorto no decote da moça lembra-me do desejo que por mim ninguém terá. Não que eu não queira ir à praia ouvir o barulho fluente das ondas, caminhar pela areia macia catando conchas até ver o sol se pôr. Não que não deseje mais os homens que se entretem no jogo de futebol. Não que tenha deixado de adorar um bom copo de cerveja gelada em contraste com o calor do sol e sua luz fustigante, nem tenha perdido o gosto por me distrair a descascar os amendoins um por um. Entretanto, agora tenho vergonha deste meu corpo, não ousaria vestir uma roupa de banho, para desfilar como as moças bonitas que se estendem na areia mais para tomar olhares do que para tomar sol. O meu sutiã guarda um seio falso, devo ficar bem na roupa. Mal sabe o homem que me convidou para sair à noite, que não tenho mais o seio que me fazia mulher. Por isso lhe respondo com um não. Antes a dor de negar a vontade de estar com aquele rapaz, do que a humilhação de vê-lo desapontado a vestir o meu seio, e me entregar as minhas roupas, e chamar o taxi, para então se despedir com um beijo na testa como prova de polidez. Passo horas diante do espelho a chorar pela feminilidade perdida. Nos outdoors, as moças, tão formosas em sua quase nudez, invadem meu olhos repletas de feminilidade na passagem da rua enevoada de carros. Mulher no seu corpo, corpo de mulher, o que mais uma mulher deseja em si e observa nas outras é o corpo. Nunca mais um homem vai querer conhecer o sabor deles, nunca mais terei o prazer do toque no meu peito. Não sou mais mulher, nem sou também um homem, apenas alguém de quem arrancaram uma parte. Sou uma sobrevivente, a morte passou por perto. Que interessa ser uma sobrevivente?
sábado, abril 05, 2008
A posse
Hoje minha cadela ganhou um novo osso. Kika agora leva a vida a patrulhar o bendito, e rosnou quando passei por ela como se eu fosse por acaso levá-lo comigo. Kika acha que o mundo inteiro deseja o osso e conspira para tê-lo. Acredita que a qualquer hora ela o perderá, e que qualquer movimento meu seja para capturá-lo. Mesmo que eu só o tenha notado após perceber a sua raiva quando me viu passar por perto. Agora os dias dela giram em torno do seu querido osso: se ela está distante e ouve os passos de alguém se dirigindo para onde ele está, ela logo corre e o segura forte por entre os dentes para salvaguardá-lo. Até eu jogar um pequeno pedaço de pão na varanda, e ela seguir depressa, esquecendo-se de o osso consigo levar.
domingo, março 30, 2008
Eu quero uma música com meu nome. Há tantas músicas por aí com nome de mulher, como Luciana, Clarisse, Ligia, Gabriela, Bárbara, Maria, etc etc.
Veja esta música do Tom Jobim, eu quero uma música dessa pra mim!!!!!!!!!!!!!
Alguém tem que compor Tatiana ou então eu mudo meu nome pra Luiza!!!!
Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Veja esta música do Tom Jobim, eu quero uma música dessa pra mim!!!!!!!!!!!!!
Alguém tem que compor Tatiana ou então eu mudo meu nome pra Luiza!!!!
Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Acredito que as pessoas têm uma tendência a permanecer no mesmo lugar. É a tal da inércia. A voltar para os mesmos amores, aos mesmos lugares, às mesmas idéias... só que, ao mesmo tempo, elas querem a novidade, as emoções desconhecidas e o terreno perigoso. Entretanto, esse desejo parece sucumbir ao que as mantém no que transmite segurança, estabilidade, no que não é surpreendente nem irá conduzir a situações ameaçadoras, posto que inexploradas. Então pode tantas vezes trair amores, lugares, idéias, tradições: porque traiu antes a si mesmo.
terça-feira, março 25, 2008
Pimenta mexicana - ou Uma pequena obsessão
Era um dia chuvoso e eu saía do trabalho no fim da tarde, em um expediente incomum, pois meu horário é pela manhã, quando me dirijo à loja de conveniência situada no posto vizinho à Aperipê para comprar qualquer coisa que pudesse embrulhar a minha fome. Então eu vou pra lá, venho pra cá, olho os sorvetes, huuuum, não, não, eu quero algo salgado, huuuuumm, ah! Vou comprar uma torcida... huuuum, vamos ver lá lá lá, sabor cebola não, bacon não, ah! pimenta mexicana! É claro que levei o de pimenta mexicana! Quer coisa melhor do que o sabor quente da pimenta misturado à sensualidade latino-americana? Não né!
Sou uma mulher dos trópicos, uma anti-dama à beira de um ataque de nervos à la Almodóvar. Então merecia aquele salgadinho, que não era espanhol, mas tinha un sabor muy bueno si! O torcida de pimenta mexicana começava só um pouquinho apimentado para, ao fim, queimar a boca e me fazer lamber os dedos em pleno ponto esperando o ônibus que não chegava nunca.
Depois desse dia, encasquetei com o tal do salgadinho de pimenta mexicana. Às vezes a imagem de sua embalagem verdinha me vem à mente. A coisa chegou a um ponto que tá foda. Nesta semana, acho que na sexta, eu sentei ao lado de uma mãe que tinha um guri vestindo sunguinha e ensebado de areia da praia em seu colo, quando juro que senti um cheiro do torcida de pimenta mexicana vindo dele. Fiquei inspirando com força pra me certificar. Perguntei-me se o guri não teria acabado de comer o tal salgadinho, mas conclui que estava ruim dos miolos mesmo.
Acabei de chegar em casa e agora há pouco tive outra alucinação quando estava vindo pra cá. Ao passar por um posto que nem tinha loja de conveniência senti novamente o cheiro do torcida de pimenta mexicana, e quando estava bem em frente a uma loja de havaianas!!!!! Mas diabos, o que está acontecendo comigo? Será que vou sonhar com o diacho do salgadinho? Algum terapeuta poderia me ajudar? Algum publicitário da Torcida quer me pagar pra eu fazer um comercial?
Sou uma mulher dos trópicos, uma anti-dama à beira de um ataque de nervos à la Almodóvar. Então merecia aquele salgadinho, que não era espanhol, mas tinha un sabor muy bueno si! O torcida de pimenta mexicana começava só um pouquinho apimentado para, ao fim, queimar a boca e me fazer lamber os dedos em pleno ponto esperando o ônibus que não chegava nunca.
Depois desse dia, encasquetei com o tal do salgadinho de pimenta mexicana. Às vezes a imagem de sua embalagem verdinha me vem à mente. A coisa chegou a um ponto que tá foda. Nesta semana, acho que na sexta, eu sentei ao lado de uma mãe que tinha um guri vestindo sunguinha e ensebado de areia da praia em seu colo, quando juro que senti um cheiro do torcida de pimenta mexicana vindo dele. Fiquei inspirando com força pra me certificar. Perguntei-me se o guri não teria acabado de comer o tal salgadinho, mas conclui que estava ruim dos miolos mesmo.
Acabei de chegar em casa e agora há pouco tive outra alucinação quando estava vindo pra cá. Ao passar por um posto que nem tinha loja de conveniência senti novamente o cheiro do torcida de pimenta mexicana, e quando estava bem em frente a uma loja de havaianas!!!!! Mas diabos, o que está acontecendo comigo? Será que vou sonhar com o diacho do salgadinho? Algum terapeuta poderia me ajudar? Algum publicitário da Torcida quer me pagar pra eu fazer um comercial?
domingo, março 23, 2008
Ultimamente tenho percebido o quanto a busca pela profundidade foi um obstáculo para mim no sentido de constituir uma opacidade que me impedia de ver o que é evidente. Análises demais sobre o que foi dito, ou o dito pelo não-dito; a investigação dos fatos, ou a busca do que poderia ser e nunca existiu. Tudo isso afastou-me sempre de perceber os sinais mais claros, as palavras que cristalizavam tantas coisas... Mas fui atrás do significado contrário, tentei por vezes acreditar que a palavra era um mero disfarce. Investi forças na busca pelo sentido de certos fatos, como se eles também não fossem evidentes. Hoje percebo que o que foi não poderia ter sido de outra maneira, e o que foi dito poderia ser considerado também o que foi pensado.
O jornalista - esse dono da verdade e deus da opinião pública
Um determinado jornalista daqui do meu estado é o manda chuva de um jornal que, caso você torcer, sai sangue. Diante da revolta de um repórter que havia escrito uma matéria nos trinques, mas que logo depois teve seu árduo trabalho convertido pelo editor num monte de asneiras sensacionalistas, o nosso ganancioso jornalista emitiu a seguinte frase:
- Vai vender como água!
E vendeu mesmo. Daí que a gente se pergunta se o "povo" (quem é o povo?) quer isso mesmo. Se quer, toma, não é assim? Entretanto, sei que o grotesco desperta uma curiosidade cruel no ser humano, mas é preciso ter cuidado ao achar que a "opinião pública" (quem é a opinião pública?) é estúpida.
Jornalista tem mania de achar que sabe o que o "povo" quer. Eles chamam isso de "interesse público". Algumas vezes o tal do "interesse público" é, em verdade, o que um determinado grupo político quer. Ou o que a vontade de ficar rico do dono do jornal deseja.
Não bastasse a arrogância de dizer que o "povo" precisa disso, ou o que a "opinião pública" pensa daquilo, eles ainda se auto-intitulam formadores de opinião. Ainda estão no tempo da teoria hipodérmica e acham que há uma equação muito fácil na relação mídia e cidadãos: o que passa na TV, no rádio ou no jornal é aceito pelo "povo" como verdade. Mas jornalista não é formador de opinião coisa nenhuma: ele, no máximo, pode contribuir para o espectador ou leitor pensar de determinada forma sobre um certo assunto. Se jornalista fosse formador de opinião, ninguém teria opinião: só eles.
Esse profissional, o jornalista, também acha que é o dono da verdade. Diz isso para obter credibilidade junto ao seu público, pra vender muito jornal, como quem oferece uma mangaba boa na feira. A notícia boa, fresquinha, pra ser comprada nas bancas, é a notícia verdadeira. Sei que é complicado dizer que qualquer jornalista pode dizer qualquer coisa por não ter compromisso com a objetividade. Entretanto, acho que o grande problema da mídia não é ser objetiva ou não, mas sim a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos e magnatas da imprensa. A grande questão que precisa ser resolvida, pra mim, não é a eterna discussão sobre a objetividade, mas a democratização da mídia. Acho que mais vale um amplo debate com múltiplos discursos nos meios de comunicação promovido por diversos segmentos da sociedade, do que a preocupação sobre se a Globo está dizendo a verdade ou não.
No mais, eu tenho a infelicidade de ser um projeto de jornalista. E já me peguei falando em "interesse público" e em imparcialidade. Agora espero, francamente, sempre problematizar essas questões, e não virar "formadora de opinião" que acha que sabe tudo sobre o mundo e a "opinião pública".
- O que as pessoas vão pensar?
- O que eu quiser que elas pensem - respondeu o empresário da comunidação Charles Foster Kane em Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.
- Vai vender como água!
E vendeu mesmo. Daí que a gente se pergunta se o "povo" (quem é o povo?) quer isso mesmo. Se quer, toma, não é assim? Entretanto, sei que o grotesco desperta uma curiosidade cruel no ser humano, mas é preciso ter cuidado ao achar que a "opinião pública" (quem é a opinião pública?) é estúpida.
Jornalista tem mania de achar que sabe o que o "povo" quer. Eles chamam isso de "interesse público". Algumas vezes o tal do "interesse público" é, em verdade, o que um determinado grupo político quer. Ou o que a vontade de ficar rico do dono do jornal deseja.
Não bastasse a arrogância de dizer que o "povo" precisa disso, ou o que a "opinião pública" pensa daquilo, eles ainda se auto-intitulam formadores de opinião. Ainda estão no tempo da teoria hipodérmica e acham que há uma equação muito fácil na relação mídia e cidadãos: o que passa na TV, no rádio ou no jornal é aceito pelo "povo" como verdade. Mas jornalista não é formador de opinião coisa nenhuma: ele, no máximo, pode contribuir para o espectador ou leitor pensar de determinada forma sobre um certo assunto. Se jornalista fosse formador de opinião, ninguém teria opinião: só eles.
Esse profissional, o jornalista, também acha que é o dono da verdade. Diz isso para obter credibilidade junto ao seu público, pra vender muito jornal, como quem oferece uma mangaba boa na feira. A notícia boa, fresquinha, pra ser comprada nas bancas, é a notícia verdadeira. Sei que é complicado dizer que qualquer jornalista pode dizer qualquer coisa por não ter compromisso com a objetividade. Entretanto, acho que o grande problema da mídia não é ser objetiva ou não, mas sim a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos e magnatas da imprensa. A grande questão que precisa ser resolvida, pra mim, não é a eterna discussão sobre a objetividade, mas a democratização da mídia. Acho que mais vale um amplo debate com múltiplos discursos nos meios de comunicação promovido por diversos segmentos da sociedade, do que a preocupação sobre se a Globo está dizendo a verdade ou não.
No mais, eu tenho a infelicidade de ser um projeto de jornalista. E já me peguei falando em "interesse público" e em imparcialidade. Agora espero, francamente, sempre problematizar essas questões, e não virar "formadora de opinião" que acha que sabe tudo sobre o mundo e a "opinião pública".
- O que as pessoas vão pensar?
- O que eu quiser que elas pensem - respondeu o empresário da comunidação Charles Foster Kane em Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.
Acho uma coisa deveras interessante: grande parte das pessoas se manifesta contra a fabricação de casacos de pele por considerar crueldade arrancar peles de animais ainda agonizantes. Outros ficam com pena dos golfinhos nas mãos de um carniceiro. Há também quem não esteja nem aí pra nada, afinal, animais irracionais não têm alma, então os seres humanos podem dominá-los e explorá-los de todas as formas. Mas o que me instiga, em particular, são as pessoas que querem o fim das touradas, mas acham normal o abate e comem no Mc Donald's.
quarta-feira, março 19, 2008
Com o advento das páginas pessoais e sites de relacionamentos, criou-se uma rede de solidariedade entre as pessoas. Gente, eu nunca vi tanto amor como há nessa internet. É amor demais nos recados de fotolog e nos scraps do orkut. Basta uma menina botar uma foto dela na festa do cachorro da prima da tia do cunhado pra aparecerem não sei quantos comentários "saudadeeeeeeee", "te amooooo", "você está lindaaaa!", e etc. Já vi até duas moçoilas que viviam falando mal uma da outra trocando apelidinhos carinhosos em fotolog. No orkut, então, as pessoas têm o coação enorme. Se todo mundo falasse eu te amo ao vivo a quantidade de vezes que fala em scraps, ninguém ia dar bom dia, só "eu te amo". Só eu que não tenho esse amor todo dentro de mim? Haja saco!
A música é, entre todas as artes, a que mais influencia os costumes das pessoas. Vivemos em círculos sociais que têm muito a ver com nossas preferências musicais. A depender do tipo de música que nos agrada, podemos ir para tal show, detestar tal lugar, simpatizar com certas pessas, ter preconceito contra outras.
Nosso gosto musical influencia, inclusive, a nossa forma de vestir. Metaleiros, por exemplo, só usam preto. Indies adoram all star e camisas listradas. Reggaeiros amam mochilas com as cores da Jamaica. Pagodeiros acham que são baianos e usam colares dos filhos de Gandhi. E por aí vai.
Com essa divisão toda, fica difícil um pagodeiro namorar uma rockeira. Tudo porque eles não irão se encontrar, já que um estará na Live (a boite das patricinhas daqui) e a outra na ATPN (o antro dos rockeiros sergipanos). Se eles foram sentar pra conversar, provavelmente terão visões de mundo bem distintas e, mesmo que se interessem um pelo outro, vai ser dureza conciliar interesses na hora de escolher opções de lazer.
Agora nunca vi ninguém se reunir em grupinhos que gostam de Monet ou Duchamp, nem usar uma grife que tenha a ver com Godard.
Nosso gosto musical influencia, inclusive, a nossa forma de vestir. Metaleiros, por exemplo, só usam preto. Indies adoram all star e camisas listradas. Reggaeiros amam mochilas com as cores da Jamaica. Pagodeiros acham que são baianos e usam colares dos filhos de Gandhi. E por aí vai.
Com essa divisão toda, fica difícil um pagodeiro namorar uma rockeira. Tudo porque eles não irão se encontrar, já que um estará na Live (a boite das patricinhas daqui) e a outra na ATPN (o antro dos rockeiros sergipanos). Se eles foram sentar pra conversar, provavelmente terão visões de mundo bem distintas e, mesmo que se interessem um pelo outro, vai ser dureza conciliar interesses na hora de escolher opções de lazer.
Agora nunca vi ninguém se reunir em grupinhos que gostam de Monet ou Duchamp, nem usar uma grife que tenha a ver com Godard.
- Mulher, eu queria sair com ele. O que eu digo?
- Diga isso, que quer sair.
- Mas eu não vou parecer muito fácil?
- Se ele pensar dessa forma, você não deveria querer alguém assim, não é verdade?
Na minha visão, homens machistas são completamente dispensáveis. Se eles forem embora, melhor. Também não preciso de gente masoquista: aqueles que só querem aquilo que não está ao seu alcance e perdem o interesse por quem os corresponde. Quando deixamos de nos aventurar por pessoas masoquistas é porque algo mudou: também não gostamos mais de sofrer.
Gente que perde muito tempo com cu doce deixa de aproveitar bastante coisa. Joguinho pra lá, joguinho de cá, só entretem quem não tem inteligência suficiente para perceber que tudo é muito mais simples do que parece. Está certo que, muitas vezes, não somos inteligentes nesses assuntos, mas vale o esforço clarividente.
Outra coisa que me chama atenção: para mim, uma pessoa que "chega junto", que seduz, transmite a imagem de segurança. Dá-me a impressão de que confia no seu taco e não irá morrer se tomar um fora. Já aqueles que se fazem de misteriosos e dão voltas demais me parecem ou pessoas confusas, ou cretinas, ou que vestem uma armadura para lidar com aqueles que estão ao seu redor. Em todos esses casos, profundamente desinteressantes.
- Diga isso, que quer sair.
- Mas eu não vou parecer muito fácil?
- Se ele pensar dessa forma, você não deveria querer alguém assim, não é verdade?
Na minha visão, homens machistas são completamente dispensáveis. Se eles forem embora, melhor. Também não preciso de gente masoquista: aqueles que só querem aquilo que não está ao seu alcance e perdem o interesse por quem os corresponde. Quando deixamos de nos aventurar por pessoas masoquistas é porque algo mudou: também não gostamos mais de sofrer.
Gente que perde muito tempo com cu doce deixa de aproveitar bastante coisa. Joguinho pra lá, joguinho de cá, só entretem quem não tem inteligência suficiente para perceber que tudo é muito mais simples do que parece. Está certo que, muitas vezes, não somos inteligentes nesses assuntos, mas vale o esforço clarividente.
Outra coisa que me chama atenção: para mim, uma pessoa que "chega junto", que seduz, transmite a imagem de segurança. Dá-me a impressão de que confia no seu taco e não irá morrer se tomar um fora. Já aqueles que se fazem de misteriosos e dão voltas demais me parecem ou pessoas confusas, ou cretinas, ou que vestem uma armadura para lidar com aqueles que estão ao seu redor. Em todos esses casos, profundamente desinteressantes.
Quando viajo e estou no meio de um monte de gente, dou risadas gostosas, tiro onda, divirto-me muito. Mas de vez em quando me vem o instinto de ficar sozinha. Sempre preciso de momentos para estar só. Aprecio muito isso. Entretanto, as pessoas não entendem, e ficam perguntando como diabos uma pessoa que agora a pouco estava fazendo folia de repente foi se isolar num canto. Muitas vezes essa necessidade é confundida com tristeza repentina. Mas não é. A solidão não é triste: é apenas um encontro com o mundo.
terça-feira, março 18, 2008
terça-feira, março 11, 2008
domingo, março 09, 2008
Eu sempre escuto o capeta. Se tem dois caminhos pra seguir, eu sempre escolho o errado. Então tá muito na cara que se eu me meter ali eu vou me ferrar, mas eu tenho que testar, tenho que saber se vou me foder mesmo. Aí me meto nas piores confusões, e tudo isso com um feeling imenso. Não canso de quebar a cara.
sexta-feira, março 07, 2008
Madrigal
Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão
José Paulo Paes
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão
José Paulo Paes
quinta-feira, março 06, 2008
Da série "me and the gay guys", bem, só me faltava essa! Então minha mãe resolve fazer não sei que tipo de escova e pintar as unhas, e gastar uma fortuna no cabeleireiro. Ao chegar na porta da residência dele, onde funcionava o seu salão, minha mãe conta que o tal cabeleireiro descobriu que era gay. Ele agora morava junto com um homem, depois de passar 10 anos casado com uma mulher. Eu só me perguntava como diabos alguém demora tanto pra descobrir que não gosta de uma coisa, e sim de outra!!! Até que o ajudante dele vem atender a porta e pede para esperarmos na sala de estar. O tal ajudante ficava gritando peeeeeeeeeeeeeeega, enquanto assistia a um vídeo de uma festa que acontece na Espanha. A festa consiste na diversão imbecil de um povo besta, em que um touro fica correndo atrás das pessoas na rua, enquanto é segurado por um monte de marmanjos através de uma imensa corda.
Após um bom tempo diante daquele espetáculo deplorável (sim, eu não como carne, e daí?), finalmente eis que me surge o dito cujo, o cabelereiro. Estranhamente ele me olha de cima a baixo com uma cara que, quando alguém faz pra mim, eu interpreto que essa pessoa quer me pegar.
- Não, Tatiana, isso é coisa da sua cabeça! Ele é gay, oras!
Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Nem a última. Então ele começou a bater papo com minha mãe e, conversa vai, conversa vem, ele vez ou outra olhava pra mim. Até que minha mãe resolveu me apresentar a ele.
- Sua filha é tão bonita! Ela é toda encorpada! E tem umas coxas grossas, né? A primeira coisa que reparei quando a vi foram as coxas!
Um comentário desse vindo de um hetero seria levado como uma ofensa pela minha mãe. Mas por ter vindo de um gay, foi recebido com gracinha e risinhos dela. Saí de lá encucada e discutindo com minha mãe como diabos alguém demora dez anos pra descobrir que não gosta de uma coisa. Será que gosta das duas coisas?
Após um bom tempo diante daquele espetáculo deplorável (sim, eu não como carne, e daí?), finalmente eis que me surge o dito cujo, o cabelereiro. Estranhamente ele me olha de cima a baixo com uma cara que, quando alguém faz pra mim, eu interpreto que essa pessoa quer me pegar.
- Não, Tatiana, isso é coisa da sua cabeça! Ele é gay, oras!
Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Nem a última. Então ele começou a bater papo com minha mãe e, conversa vai, conversa vem, ele vez ou outra olhava pra mim. Até que minha mãe resolveu me apresentar a ele.
- Sua filha é tão bonita! Ela é toda encorpada! E tem umas coxas grossas, né? A primeira coisa que reparei quando a vi foram as coxas!
Um comentário desse vindo de um hetero seria levado como uma ofensa pela minha mãe. Mas por ter vindo de um gay, foi recebido com gracinha e risinhos dela. Saí de lá encucada e discutindo com minha mãe como diabos alguém demora dez anos pra descobrir que não gosta de uma coisa. Será que gosta das duas coisas?
terça-feira, março 04, 2008
Quando o homem de bem resolve avacalhar
Algo que me atrai muito no cinema são aqueles protagonistas que avacalham, pois, como diria o bandido da luz vermelha em filme homônimo de Rogério Sganzerla, "quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba!". Personagens como Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, em Tropa de Elite (2007), dirigido por José Padilha, Travis, incorporado por Robert de Niro em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese e Brad Pitt na pele de Tyler Durden em Clube da Luta (1999), de David Fincher, são bons exemplos de indivíduos doentes que vivem numa sociedade igualmente doente e se afogam na mais completa merda.
Capitão Nascimento é um homem cansado de subir em favela pra caçar traficantes e tem uma conduta profissional deplorável, que inclui torturar mulheres e adolescentes. Já Tyler Durden, o alter ego do narrador representado por Edward Norton, cria um clube onde marmanjos trocam porradas para sublimar as frustrações do cotidiano. Em Taxi Driver, Travis é um ex-soldado da Guerra do Vietnã que vira taxista e trabalha de madrugada, sendo que a única paixão da sua vida é ver filmes pornôs.
Todos eles representam o "cidadão de bem", aquele homem que paga seus impostos e cumpre seus deveres diante do Estado, mas que, em determinado momento, ficam esquizofrênicos, violentos e no limiar entre o "homem de bem" e o sociapata. O próprio Capitão Nascimento se revolta contra esse Estado e coloca a bandeira do BOPE em cima da bandeira do Brasil, que vestia o caixão do falecido policial Neto. O ato simbólico atenta para o fato de vivermos num caos em que o Estado parece não apresentar soluções, já que esse caos é a cristalização de diversas injustiças inerentes ao modelo de sociedade em que vivemos. Capitão Nascimento nos lembra que a única instituição do Estado que vai até a favela é a polícia. Nascimento irrita-se com a incubência de uma missão mirabolante, a Operação Papa, e se encarrega de fazer "uma limpeza" na favela para garantir o sono do papa. Ou seja, a elite utiliza a violência física da instituição da polícia para vigiar e punir os mais pobres, algo de que já falava Foucault, que ironicamente é citado no filme. Capitão Nascimento é o fruto de uma sociedade tomada pela barbárie, onde palavras como justiça adiquirem um outro sentido - sentido esse cada vez mais afastado dos ditames da sociedade civilizada, e cada vez mais próximo da justiça com as próprias mãos.
Em Taxi Driver, Travis, ao mesmo tempo em que quer trabalhar junto com o senador candidato a presidente, realiza um atentado contra ele logo após o seu discurso em praça pública. Travis é o cara frustrado, que se sente o rei da cocada preta depois de adiquirir um monte de armas, paladino da justiça ao ver um assalto e atirar no bandido - negro, e que toma um surra, ainda desmaiado, do dono da loja, um branco. Ele se rebela contra o Estado na figura de Palatine, o candidato à presidência, o mesmo Estado que o enviou para a Guerra do Vietnã. Também se sente o juiz do mundo ao atirar em cafetões para salvar uma menina de 12 anos que era explorada sexualmente. Travis, assim como Capitão Nascimento, desiste do Estado e resolve aplicar a justiça com seus próprios métodos, práticas essas que não são modelos de conduta típicos de um herói.
Só que esses anti-heróis muitas vezes são confundidos com verdadeiros heróis. O que significa, talvez, que vivemos num mundo repleto de sociopatas em potencial. Afinal, os "homens de bem" estão em toda parte bravejando que os direitos humanos foram feitos para bandidos - e muitas vezes defendendo uma regressão ao código de Hamurabi. Exemplo disso são comunidades no orkut como Capitão Nascimento para presidente, Verdades de Capitão Nascimento e Discípulos de Capitão Nascimento, todas com milhares de pessoas. O filme se tornou uma verdadeira febre e faz pensar sobre a responsabilidade de um diretor sobre o discurso presente numa obra cinematográfica - que, nesse caso, apresenta os fatos sob a perspectiva de um policial truculento. O fato lembra o celebrado Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. O filme apresentava o protagonista Alex, que depois de cometer diversas atrocidades, é condenado e exposto a punições atrozes amparadas pelo aparelho estatal. O dilema de Alex e o de Capitão Nascimento ou Travis é o mesmo: o dilema entre a violência individual e a violência institucionalizada, só que Alex, ao contrário de Nascimento e Travis, não se considerava nem pretendia ser um herói. O próprio Kubrick chegou a impedir a exibição de Laranja Mecânica na época, após ficar estarrecido ao saber que grupos de jovens imitavam as atitudes do bando liderado por Alex no filme.
O também violento Tyler Durden trocava porrada com outros marmanjos no Clube da Luta, um lugar onde eles deixavam sua civilidade de lado e brigavam, numa espécie de ritual catártico longe dos ditames da sociedade - ritual tão catártico quanto aquele apresentado em De Olhos Bem Fechados (1999), dirigido por Stanley Kubrick, só que o primeiro é dedicado ao instinto de morte, à agressividade, e o segundo ao instinto de Eros, ou à exacerbação da libido reprimida pelo moralismo. O personagem de Edward Norton faz, igualmente, o tipo "cidadão de bem", que vive para trabalhar e consumir, até entrar em pânico ao ter todas as coisas perdidas num incêndio em seu apartamento. Tyler Durden, seu alter-ego e líder do Clube da Luta, a representação em carne e osso da esquizofrenia de um "homem de bem", faz um verdadeiro manifesto contra a sociedade de consumo: "As coisas que você possui acabam te possuindo.Você só é realmente livre após perder tudo. Pois aí nao terá o que perder, e, enfim, estará livre". Assim como ocorreu com Laranja Mecânica, um psicopata também encontrou a expressão de sua mente doentia em Clube da Luta - ao ponto de entrar numa sala de projeção desferindo tiros contra a platéia, que achou que os tiros vinham da tela e não do mundo real. O criminoso era, assim como nossos protagonistas, um homem de bem: um médico.
Durden, Nascimento, Travis, todos eles eram homens que se encaixavam plenamente no que seria um homem respeitável na sociedade, todos eram conservadores, "homens de bem", até que começam a avacalhar. E os espectadores ficam que nem aqueles que estavam na sessão de Clube da Luta onde soaram os tiros - no limiar entre realidade e ficção, na esquizofrenia da sociedade do espetáculo. Os adoradores de Capitão Nascimento nos mostram que há muitos Travis entre nós.
Capitão Nascimento é um homem cansado de subir em favela pra caçar traficantes e tem uma conduta profissional deplorável, que inclui torturar mulheres e adolescentes. Já Tyler Durden, o alter ego do narrador representado por Edward Norton, cria um clube onde marmanjos trocam porradas para sublimar as frustrações do cotidiano. Em Taxi Driver, Travis é um ex-soldado da Guerra do Vietnã que vira taxista e trabalha de madrugada, sendo que a única paixão da sua vida é ver filmes pornôs.
Todos eles representam o "cidadão de bem", aquele homem que paga seus impostos e cumpre seus deveres diante do Estado, mas que, em determinado momento, ficam esquizofrênicos, violentos e no limiar entre o "homem de bem" e o sociapata. O próprio Capitão Nascimento se revolta contra esse Estado e coloca a bandeira do BOPE em cima da bandeira do Brasil, que vestia o caixão do falecido policial Neto. O ato simbólico atenta para o fato de vivermos num caos em que o Estado parece não apresentar soluções, já que esse caos é a cristalização de diversas injustiças inerentes ao modelo de sociedade em que vivemos. Capitão Nascimento nos lembra que a única instituição do Estado que vai até a favela é a polícia. Nascimento irrita-se com a incubência de uma missão mirabolante, a Operação Papa, e se encarrega de fazer "uma limpeza" na favela para garantir o sono do papa. Ou seja, a elite utiliza a violência física da instituição da polícia para vigiar e punir os mais pobres, algo de que já falava Foucault, que ironicamente é citado no filme. Capitão Nascimento é o fruto de uma sociedade tomada pela barbárie, onde palavras como justiça adiquirem um outro sentido - sentido esse cada vez mais afastado dos ditames da sociedade civilizada, e cada vez mais próximo da justiça com as próprias mãos.
Em Taxi Driver, Travis, ao mesmo tempo em que quer trabalhar junto com o senador candidato a presidente, realiza um atentado contra ele logo após o seu discurso em praça pública. Travis é o cara frustrado, que se sente o rei da cocada preta depois de adiquirir um monte de armas, paladino da justiça ao ver um assalto e atirar no bandido - negro, e que toma um surra, ainda desmaiado, do dono da loja, um branco. Ele se rebela contra o Estado na figura de Palatine, o candidato à presidência, o mesmo Estado que o enviou para a Guerra do Vietnã. Também se sente o juiz do mundo ao atirar em cafetões para salvar uma menina de 12 anos que era explorada sexualmente. Travis, assim como Capitão Nascimento, desiste do Estado e resolve aplicar a justiça com seus próprios métodos, práticas essas que não são modelos de conduta típicos de um herói.
Só que esses anti-heróis muitas vezes são confundidos com verdadeiros heróis. O que significa, talvez, que vivemos num mundo repleto de sociopatas em potencial. Afinal, os "homens de bem" estão em toda parte bravejando que os direitos humanos foram feitos para bandidos - e muitas vezes defendendo uma regressão ao código de Hamurabi. Exemplo disso são comunidades no orkut como Capitão Nascimento para presidente, Verdades de Capitão Nascimento e Discípulos de Capitão Nascimento, todas com milhares de pessoas. O filme se tornou uma verdadeira febre e faz pensar sobre a responsabilidade de um diretor sobre o discurso presente numa obra cinematográfica - que, nesse caso, apresenta os fatos sob a perspectiva de um policial truculento. O fato lembra o celebrado Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. O filme apresentava o protagonista Alex, que depois de cometer diversas atrocidades, é condenado e exposto a punições atrozes amparadas pelo aparelho estatal. O dilema de Alex e o de Capitão Nascimento ou Travis é o mesmo: o dilema entre a violência individual e a violência institucionalizada, só que Alex, ao contrário de Nascimento e Travis, não se considerava nem pretendia ser um herói. O próprio Kubrick chegou a impedir a exibição de Laranja Mecânica na época, após ficar estarrecido ao saber que grupos de jovens imitavam as atitudes do bando liderado por Alex no filme.
O também violento Tyler Durden trocava porrada com outros marmanjos no Clube da Luta, um lugar onde eles deixavam sua civilidade de lado e brigavam, numa espécie de ritual catártico longe dos ditames da sociedade - ritual tão catártico quanto aquele apresentado em De Olhos Bem Fechados (1999), dirigido por Stanley Kubrick, só que o primeiro é dedicado ao instinto de morte, à agressividade, e o segundo ao instinto de Eros, ou à exacerbação da libido reprimida pelo moralismo. O personagem de Edward Norton faz, igualmente, o tipo "cidadão de bem", que vive para trabalhar e consumir, até entrar em pânico ao ter todas as coisas perdidas num incêndio em seu apartamento. Tyler Durden, seu alter-ego e líder do Clube da Luta, a representação em carne e osso da esquizofrenia de um "homem de bem", faz um verdadeiro manifesto contra a sociedade de consumo: "As coisas que você possui acabam te possuindo.Você só é realmente livre após perder tudo. Pois aí nao terá o que perder, e, enfim, estará livre". Assim como ocorreu com Laranja Mecânica, um psicopata também encontrou a expressão de sua mente doentia em Clube da Luta - ao ponto de entrar numa sala de projeção desferindo tiros contra a platéia, que achou que os tiros vinham da tela e não do mundo real. O criminoso era, assim como nossos protagonistas, um homem de bem: um médico.
Durden, Nascimento, Travis, todos eles eram homens que se encaixavam plenamente no que seria um homem respeitável na sociedade, todos eram conservadores, "homens de bem", até que começam a avacalhar. E os espectadores ficam que nem aqueles que estavam na sessão de Clube da Luta onde soaram os tiros - no limiar entre realidade e ficção, na esquizofrenia da sociedade do espetáculo. Os adoradores de Capitão Nascimento nos mostram que há muitos Travis entre nós.
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Eu não consigo discutir com pessoas "de esquerda". É o mesmo que debater com crentes que batem na minha porta com uma bíblia debaixo do braço. Se um evangélico, ao saber que não acredito em Deus, esbravejaria "você vai arder no fogo do inferno!", alguém "de esquerda", numa discussão qualquer, seguiria pela falta de argumentação consistente e pela fala autoritária também. Experimente discordar de alguém "de esquerda", e aguarde as exclamações. Logo a pessoa "de esquerda" dirá:
- Você é um(a) reacionário(a)!!!!!
- Você é um(a) reacionário(a)!!!!!
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Engraçado como Hollywood mexe com a cabeça das pessoas. Quando eu era mais nova, sempre que via algum filme na TV a cabo falado em francês, espanhol, alemão, ou algum idioma que eu não reconhecesse, simplesmente mudava de canal. O mero fato de a língua falada não ser o inglês já me incomodava e, de alguma forma, era para mim um indicativo de que aquele seria um filme chato.
Hoje eu observo os cartazes do cinema localizado no shopping que deu nome ao bairro, Bairro Jardins, assim como o shopping Jardins. Eu vejo que aquela região virou um prolongamento do shopping, tanto que chegou a receber o seu nome. O que chamam cinema são as salas multiplex, e Hollywood parece ser o próprio cinema. E a minha cidade "Jardins" lembra uma Hollywood de Sergipe, em pleno Nordeste brasileiro.
Hoje eu observo os cartazes do cinema localizado no shopping que deu nome ao bairro, Bairro Jardins, assim como o shopping Jardins. Eu vejo que aquela região virou um prolongamento do shopping, tanto que chegou a receber o seu nome. O que chamam cinema são as salas multiplex, e Hollywood parece ser o próprio cinema. E a minha cidade "Jardins" lembra uma Hollywood de Sergipe, em pleno Nordeste brasileiro.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Ela faz cinema
Música do Chico Buarque que alguém dedicou pra mim.
Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que deus ela jura
Que tem coração
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim
Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que deus ela jura
Que tem coração
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim
domingo, fevereiro 24, 2008
A cara amiga Wenna é quem melhor compreende a minha personalidade. Peço encarecidamente que ela se encarregue, se possível, de falar sobre mim no meu enterro. Ninguém além dela conseguiria dizer coisas tão brilhantes a meu respeito como as seguintes geniais observações:
- "Você vive com a cabeça nas nuvens e com os pés no chão. Não sei como consegue fazer isso".
- "Tati, você não vale um ponto no BomClube!!!!"
- "Você vive com a cabeça nas nuvens e com os pés no chão. Não sei como consegue fazer isso".
- "Tati, você não vale um ponto no BomClube!!!!"
Inconsciente capitalista
Nossa mente nos prega cada peça! Eu, que sempre digo que não preciso de muito dinheiro, graças a deus, e não me importa, honey... Que só preciso de uma casa onde eu possa guardar meus amigos, meus discos e livros e filmes e nada mais... Veja só a ironia: sonhei que minha mãe havia herdado uma casa com cômodos transpassados por uma luz de tom acobreado, com sofás gigantes e macios, com piscina e vistas para o mar. Ao acordar, o susto:
- Por todos os deuses, será que no fundo no fundo eu queria ser rica?
- Por todos os deuses, será que no fundo no fundo eu queria ser rica?
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
As loucuras das pessoas apaixonadas só são realmente compreensíveis aos olhos daqueles que estão também apaixonados. Constatei isso ao ver que eu, pessoa que já morreu de amores o suficiente para ter sete vidas, não entendi direito a dor de uma amiga, a aflição da outra, a dedicação extrema de outra ainda ao seu amor. Eu reconhecia aquele sentimento, mas havia uma certa distância, é verdade. As coisas não faziam tanto sentido, e as soluções bem mais fáceis, as respostas óbvias, tudo muito na cara. Mas as pessoas não conseguem ver além do absurdo que é amar, e ficam presas numa armadilha da linguagem. Elas fazem teses absolutas e complexas sobre um simples olhar ou fala, e cometem o mesmo erro até o erro aprender que só o erro tem vez, como dizia Leminski. Enfim, as pessoas apaixonadas tornam-se mais analíticas, porém, mais estúpidas, e ficam mais sensíveis, não obstante, incapazes de perceber o mundo à sua volta.
domingo, janeiro 20, 2008
Tem muita gente que não suporta o tal domingo. Dizem que é um dia sem graça, chato até. Mas ora, eu sou totalmente a favor do domingo. É com dedicação religiosa que aprecio esse dia, deitada na cama me espreguiçando, ouvindo música, vendo filme, lendo um bom livro. Domingo é o melhor dia pra ficar só, pra botar ordem na casa, pra organizar as idéias, pra apreciar arte, pra viver o tédio na sua forma plena. Que venham os domingos, sempre assim, aconchegantes, inspiradores e sonolentos.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Até tu, Brutus?

Fiquei chocada ao saber que Glauber Rocha, o famoso cineasta do cinema novo, tinha feito um filme encomendado por Sarney. Sim, o mesmo Glauber de grandes obras como Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe tinha feito um filme a pedido de Sarney! O professor do núcleo onde estudo audiovisual chegou a defender o filme Maranhão 66, onde Glauber apresenta como pano de fundo para um discurso de José Sarney no ano de 1966, a situação precária em que o estado do Maranhão se encontrava, o que evidenciava também a pobreza e a desigualdade social do resto do país.
- Vocês vejam que, mesmo num filme com tudo pra ser chapa branca, o Glauber aproveita pra fazer um cinema de contestação, que fala da realidade do povo brasileiro.
Uma aluna ficou indignada com o tal filme e ainda ironizou:
- Engraçado, ele falou mal de Limite, do Mario Peixoto, por considerá-lo um filminho burguês imitação dos filmes europeus que falavam de questões exitencialistas, mas ele vem e faz um filme desse que é igualzinho a qualquer propaganda política. O Sarney só faltou chorar.
É. Houve gente que disse que foi uma pena mesmo o Glauber ter morrido tão cedo, mas que, pensando bem, ele provavelmente bateu as botas a tempo, antes que virasse um capacho de homens influentes "de esquerda", ou qualquer Arnaldo Jabor da vida.
Eu, particularmente, não tenho a opinar sobre se Glauber deveria ou não ter morrido cedo, mas ora francamente, odiei o tal filme que ele fez sobre Sarney. Ninguém me venha com história de denúncia sobre a sociedade, ou de defesa de um político que na época tinha um discurso reformista. Na obra, nós vemos um povo sofrido que precisa de um herói, um salvador da pátria: Sarney. Em nenhum momento assistimos a cidadãos, a sujeito históricos, mas apenas vemos pobres coitados, ó vítimas da fome, que têm como luz no fim do túneo um político demagogo envolvido pela sua retórica de deidade terrena. A última cena do filme mostra, logo após apresentar doentes e crianças esfomeadas, a finalização do discurso de Sarney, seguida pela câmera que aponta para as milhares de pessoas que aplaudiam as palavras de uma espécie de Sassá Mutema (que só veio surgir nas telas da novela da Globo 23 anos depois).
Alguns fãs mais ingênuos comentam que o filme, na verdade, mostra a contradição entre as promessas dos políticos e a realidade em que vivemos. Mas ora, uma ironia como essa caberia caso se referisse a um homem que já estava no poder, e não a um homem que almejava chegar ao poder com propostas de mudanças radicais direcionadas ao bem dos mais pobres. O filme não termina por ser uma brincadeira de Glauber com a cara de seu cliente, mas é, sim, uma propaganda política como qualquer outra, agregadora de capital simbólico a um homem público como qualquer outra. Esse filme de revolucionário não tem é nada. Não passa de uma forma que o Glauber Rocha arranjou pra pagar as contas. E todos precisamos pagar nossas contas, não é verdade? Só não venha me dizer que está em nome da revolução.
sábado, janeiro 12, 2008
Apesar de ser uma pessoa muito cética, veja só, percebi que tenho um medo danado de gatos pretos. Pois é. Caminhando pelas ruas um dia desse, entrei em pânico ao ver um inócuo gatinho preto. Angústia maior ainda foi vê-lo miando e se contorcendo por entre meus pés. Pensei: fudeu, hoje vai ser um dia de má sorte. Xô gato, xô.
sábado, janeiro 05, 2008
Da escola do amorismo sintético
Foi motivo de indignação na escola o dia em que a professora pediu para escrevermos uma poesia. Eu me perguntava, mas diacho, como vou fazer uma poesia? Então perguntei a uma colega como se escrevia essas coisas poéticas.
- Tem uma poesia que é assim:
"Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração". Aí é só você substituir pelo nome do menino que você gosta, e pronto, já é uma poesia.
Ah! Assim era fácil... Pois então, mas agora o meu novo questionamento era qual nome colocar. Eu tinha apenas 11 anos de vida e nenhum amor vivido. No máximo tinha começado a ter os primeiros sintomas de uma leve atração física por aquele menino da quarta série com quem eu vivia brigando, mas nada que me fizesse desenhar corações no caderno ou chorar ouvindo alguma música boba.
A solução era inventar algum amor. Coloquei o nome de um menino que não existia, e não recordo o nome agora. Depois entreguei a bendita poesia à professora. Não deu outra: foi bronca no dia seguinte.
- Teve gente, não vou citar nomes aqui, que colocou uma poesia assim:
Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração
Morri de vergonha.
- Poesia não é cópia, poesia é criação. O que vocês estão fazendo não é poesia.
Ah meu Deus! Como é que eu ia escrever uma poesia? Depois de ler muitos poemas e poesias eu começei a imaginar o que escrever.
- Já sei. Eles usam essas palavras difíceis.
Prontamente peguei o dicionário e, para cada palavra que me vinha à mente, eu procurava um sinônimo pouquíssimo conhecido. Ao terminar a minha "obra de arte", lia com orgulho, e já me considerava uma futura grande poetisa que marcaria a história da literatura brasileira e sobre quem um dia alguém escreveria uma biografia.
Segui até a professora cheia de orgulho e satisfação.
- Que palavra é essa?- disse ela, numa mescla de desprezo e dúvida.
A professora me deu 6, o que achei uma grande injustiça. Achava- me até mais esperta do que a professora, já que ela não sabia o significado da palavra imersa na minha poesia tão complexa, sentia-me uma poetisa póstuma, incompreendida. Hoje sei muito bem que minha poesia era ruim de doer e não fazia muito sentido.
Um dia eu percebi que poesias não são feitas seguindo uma receita que nos orienta colocar os ingredientes amor e palavras difíceis. Dá até pra fazer poesia sobre fome e com palavras fáceis!
- Tem uma poesia que é assim:
"Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração". Aí é só você substituir pelo nome do menino que você gosta, e pronto, já é uma poesia.
Ah! Assim era fácil... Pois então, mas agora o meu novo questionamento era qual nome colocar. Eu tinha apenas 11 anos de vida e nenhum amor vivido. No máximo tinha começado a ter os primeiros sintomas de uma leve atração física por aquele menino da quarta série com quem eu vivia brigando, mas nada que me fizesse desenhar corações no caderno ou chorar ouvindo alguma música boba.
A solução era inventar algum amor. Coloquei o nome de um menino que não existia, e não recordo o nome agora. Depois entreguei a bendita poesia à professora. Não deu outra: foi bronca no dia seguinte.
- Teve gente, não vou citar nomes aqui, que colocou uma poesia assim:
Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com F escrevo Fulano
no fundo do meu coração
Morri de vergonha.
- Poesia não é cópia, poesia é criação. O que vocês estão fazendo não é poesia.
Ah meu Deus! Como é que eu ia escrever uma poesia? Depois de ler muitos poemas e poesias eu começei a imaginar o que escrever.
- Já sei. Eles usam essas palavras difíceis.
Prontamente peguei o dicionário e, para cada palavra que me vinha à mente, eu procurava um sinônimo pouquíssimo conhecido. Ao terminar a minha "obra de arte", lia com orgulho, e já me considerava uma futura grande poetisa que marcaria a história da literatura brasileira e sobre quem um dia alguém escreveria uma biografia.
Segui até a professora cheia de orgulho e satisfação.
- Que palavra é essa?- disse ela, numa mescla de desprezo e dúvida.
A professora me deu 6, o que achei uma grande injustiça. Achava- me até mais esperta do que a professora, já que ela não sabia o significado da palavra imersa na minha poesia tão complexa, sentia-me uma poetisa póstuma, incompreendida. Hoje sei muito bem que minha poesia era ruim de doer e não fazia muito sentido.
Um dia eu percebi que poesias não são feitas seguindo uma receita que nos orienta colocar os ingredientes amor e palavras difíceis. Dá até pra fazer poesia sobre fome e com palavras fáceis!
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Ieda diz:
por falar em viadinho, pop n é nome de cachorro gay?
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
eita ieda
Tati diz:
sei lá
Ieda diz:
é o nome do cachorro da avó de matheus
Ieda diz:
e é um poodle
Ieda diz:
e o da minha tia
Ieda diz:
q é lalinho
Ieda diz:
o nome de guerra
Ieda diz:
mas o nome verdadeiro é lion
Ieda diz:
é um leão com uma bola rosa
Ieda diz:
e colorida
Ieda diz:
p brincar
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
tadinho ieda
Tati diz:
eu ja vi um cachorro gay
Tati diz:
comendo outro
Tati diz:
o povo ficou admirado
Tati diz:
não queria deixar
Ieda diz:
onde?
Tati diz:
na fazenda da amiga da minha mãe
Ieda diz:
os cachorros de david são assim
Tati diz:
tá vendo
Ieda diz:
ahh
Tati diz:
o povo é homofóbico
Ieda diz:
mikinho é doido p comer rabito
Tati diz:
se fosse cachorro e cachorra iam achar bonito
Ieda diz:
miquinho é pequeno
Ieda diz:
e rabito é grande
Ieda diz:
com ctz
Ieda diz:
e miquinho começa c as preliminares
Ieda diz:
o lambendo
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
caralho
Tati diz:
lambendo o cu ne?
Tati diz:
velho
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
a gente ta foda hj
Ieda diz:
n
Ieda diz:
o rosto e vai descendo
Ieda diz:
tá msm
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
por falar em viadinho, pop n é nome de cachorro gay?
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
eita ieda
Tati diz:
sei lá
Ieda diz:
é o nome do cachorro da avó de matheus
Ieda diz:
e é um poodle
Ieda diz:
e o da minha tia
Ieda diz:
q é lalinho
Ieda diz:
o nome de guerra
Ieda diz:
mas o nome verdadeiro é lion
Ieda diz:
é um leão com uma bola rosa
Ieda diz:
e colorida
Ieda diz:
p brincar
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
tadinho ieda
Tati diz:
eu ja vi um cachorro gay
Tati diz:
comendo outro
Tati diz:
o povo ficou admirado
Tati diz:
não queria deixar
Ieda diz:
onde?
Tati diz:
na fazenda da amiga da minha mãe
Ieda diz:
os cachorros de david são assim
Tati diz:
tá vendo
Ieda diz:
ahh
Tati diz:
o povo é homofóbico
Ieda diz:
mikinho é doido p comer rabito
Tati diz:
se fosse cachorro e cachorra iam achar bonito
Ieda diz:
miquinho é pequeno
Ieda diz:
e rabito é grande
Ieda diz:
com ctz
Ieda diz:
e miquinho começa c as preliminares
Ieda diz:
o lambendo
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
caralho
Tati diz:
lambendo o cu ne?
Tati diz:
velho
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tati diz:
a gente ta foda hj
Ieda diz:
n
Ieda diz:
o rosto e vai descendo
Ieda diz:
tá msm
Tati diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Tem músicas das quais a gente não gosta numa primeira escutada
Aí então a gente ouve de novo
e ela se incorpora e toma forma na nossa alma
Mas para percebê-la era preciso estar com os sentidos dispostos
Porque senão seria apenas mais uma canção
que a gente não guarda no coração, não lembra na madrugada
que fica, com toda sua beleza e graça, cantarolando sozinha no ar
cantando até se acabar
porque ninguém a pôs de novo pra tocar.
Aí então a gente ouve de novo
e ela se incorpora e toma forma na nossa alma
Mas para percebê-la era preciso estar com os sentidos dispostos
Porque senão seria apenas mais uma canção
que a gente não guarda no coração, não lembra na madrugada
que fica, com toda sua beleza e graça, cantarolando sozinha no ar
cantando até se acabar
porque ninguém a pôs de novo pra tocar.
Às vezes pego os anseios do futuro
e os sinto como se fossem recordações
é um tal convencimento das ilusões
que me faz tomar premonições por antigos acontecimentos
Nunca vi maior fingimento
Fazer do desejo que nunca aconteceu
Um retrato na estante
Mas, não são anseios, lembranças e sonhos
coisas semelhantes?
e os sinto como se fossem recordações
é um tal convencimento das ilusões
que me faz tomar premonições por antigos acontecimentos
Nunca vi maior fingimento
Fazer do desejo que nunca aconteceu
Um retrato na estante
Mas, não são anseios, lembranças e sonhos
coisas semelhantes?
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Sobre as coisas que eu não considero importantes
Eu não considero o natal importante. Nem colação de grau. E tive que ouvir boas broncas nessa semana por não dar a mínima pra esses dois eventos. Foram broncas das boas, que me fizeram rever algumas das minhas convicções.
Está certo. Eu admito. Deixei de gostar do natal desde que aprendi essas coisas sobre a celebração do consumismo na adolescência através das bandas de rock. É verdade, eu virei ateísta desde que me deparei com a tal da dúvida que move todos os debates filosóficos na faculdade. E, no meu caso, a dúvida levou ao ateísmo. Daí eu não me emociono mais ao ver um presépio, eu passei a odiar ouvir Simone cantando uma versão brasileira Herbert Richards de "What a wonderful world", eu não sinto vontade de dizer Feliz Natal, etc etc etc...
Agora vamos à colação de grau. Eita negocinho sem graça dos infernos. Eu fui ver a colação de uma amiga, mas pense na zuada, naquela ruma de gente gritando, e apitando, e o calor, a falta de cadeiras pra sentar... PUTA QUE PARIU ODIEI EIN. Também já vendi rifas pra festinha de formatura, e odiei igualmente encher o saco dos outros pra vender rifa de DVD, MP4, a porra... E PIOR, passar a manhã inteira debaixo do sol numa feira de roupas usadas!!! Resultado: desisti dessas celebrações de formandos... Pra colação de grau não vou nunca mais, nem pra minha! E acabei não indo para a de outra aminha minha que colou grau recentemente.
Bem, mas, como havia dito anteriormente, eu tive que rever isso tudo. Está certo que o natal não é importante pra mim, mas e se minha mãe quer que eu esteja com ela nesta data? E se ela quiser que eu vá à missa com ela? Fazer o quê? E a minha amiga, que fez a colação e eu não compareci, passou uma hora me dando sermão porque não fui. Só quando vi os olhos dela cheios de lágrimas, que não chegaram a sair, é que me dei conta do quanto aquilo era importante pra ela. "Eu passei dois anos planejando tudo isso", disse, indignada.
É, se era importante o natal pra minha mãe e a colação de grau pra minha amiga, eu também deveria dar a devida importância em respeito a elas. Lembrei-me de quando eu me apresentei no colégio na quadrilha... Recordo que chorei porque queria muito que ela estivesse lá, mas ela não considerava importante...
Está certo. Eu admito. Deixei de gostar do natal desde que aprendi essas coisas sobre a celebração do consumismo na adolescência através das bandas de rock. É verdade, eu virei ateísta desde que me deparei com a tal da dúvida que move todos os debates filosóficos na faculdade. E, no meu caso, a dúvida levou ao ateísmo. Daí eu não me emociono mais ao ver um presépio, eu passei a odiar ouvir Simone cantando uma versão brasileira Herbert Richards de "What a wonderful world", eu não sinto vontade de dizer Feliz Natal, etc etc etc...
Agora vamos à colação de grau. Eita negocinho sem graça dos infernos. Eu fui ver a colação de uma amiga, mas pense na zuada, naquela ruma de gente gritando, e apitando, e o calor, a falta de cadeiras pra sentar... PUTA QUE PARIU ODIEI EIN. Também já vendi rifas pra festinha de formatura, e odiei igualmente encher o saco dos outros pra vender rifa de DVD, MP4, a porra... E PIOR, passar a manhã inteira debaixo do sol numa feira de roupas usadas!!! Resultado: desisti dessas celebrações de formandos... Pra colação de grau não vou nunca mais, nem pra minha! E acabei não indo para a de outra aminha minha que colou grau recentemente.
Bem, mas, como havia dito anteriormente, eu tive que rever isso tudo. Está certo que o natal não é importante pra mim, mas e se minha mãe quer que eu esteja com ela nesta data? E se ela quiser que eu vá à missa com ela? Fazer o quê? E a minha amiga, que fez a colação e eu não compareci, passou uma hora me dando sermão porque não fui. Só quando vi os olhos dela cheios de lágrimas, que não chegaram a sair, é que me dei conta do quanto aquilo era importante pra ela. "Eu passei dois anos planejando tudo isso", disse, indignada.
É, se era importante o natal pra minha mãe e a colação de grau pra minha amiga, eu também deveria dar a devida importância em respeito a elas. Lembrei-me de quando eu me apresentei no colégio na quadrilha... Recordo que chorei porque queria muito que ela estivesse lá, mas ela não considerava importante...
terça-feira, dezembro 11, 2007
Tal mãe, tal filha
Para a minha mãe eu gostaria de dedicar todos os sonhos que ela não realizou em si mesma
e realizou em mim
Mãe, obrigada por tudo
Desculpa se às suas expectativas todas,
Eu não atendi
Pelo que eu não fiz, me perdoa como se perdoa a si mesma
E por tudo que fiz,
Viva como se pertencesse a ti.
e realizou em mim
Mãe, obrigada por tudo
Desculpa se às suas expectativas todas,
Eu não atendi
Pelo que eu não fiz, me perdoa como se perdoa a si mesma
E por tudo que fiz,
Viva como se pertencesse a ti.
terça-feira, dezembro 04, 2007
Não adianta. Eu tenho a leve impressão de que a gente sabe, desde o primeiro encontro, se vai se apaixonar por alguém. Não que a gente se apaixone assim, de cara, mas é aquele lance de "alguma coisa acontece no meu coração..." Há alguma forma de encantamento, uma vontade de estar junto, uma admiração repentina... E se isso não ocorrer desde a primeira vez, não ocorrerá nunca mais. Podem até passar juntos meses, anos, mas nunca será como a paixão que toma a gente por inteiro.
E de cara é possível perceber, assim, que este será só mais um caso... É interessante aproveitar os casos na sua autêntica forma. Apreciar a aventura que o amor romântico não oferece: conhecer novas pessoas, mesmo que superficialmente, encanta. Não superficialmente no sentido pejorativo da palavra, mas entenda que trata-se de se deleitar com os pequenos gestos do outro que logo irá partir, ou você irá partir, entenda que é tudo pela efemeridade. E a efemeridade nada tem de inferior à "eternidade" prometida no amor romântico. A efemeridade é apenas a falta de promessas. Há também beleza nisso, pois há beleza até naquilo que não se tornou uma grande paixão. E é uma beleza simples, às vezes até nem permanece na memória.
Dá pra saber que eu nunca vou me apaixonar por você. Dá pra saber que eu nunca ia me apaixonar por você. Dá pra saber que eu ia me apaixonar por você.
Dá pra saber, mas, no fim de tudo, aquilo que não se tornou amor, o que não doeu nem trouxe tanta felicidade, o que não mereceu uma música, um porre no bar, uma declaração no meio da praça, o que não dá nem saudade, tem a sua própria beleza. A beleza do que, na vida, não teve muita importância. E boa parte da vida é feita do que não tem tanta importância.
E de cara é possível perceber, assim, que este será só mais um caso... É interessante aproveitar os casos na sua autêntica forma. Apreciar a aventura que o amor romântico não oferece: conhecer novas pessoas, mesmo que superficialmente, encanta. Não superficialmente no sentido pejorativo da palavra, mas entenda que trata-se de se deleitar com os pequenos gestos do outro que logo irá partir, ou você irá partir, entenda que é tudo pela efemeridade. E a efemeridade nada tem de inferior à "eternidade" prometida no amor romântico. A efemeridade é apenas a falta de promessas. Há também beleza nisso, pois há beleza até naquilo que não se tornou uma grande paixão. E é uma beleza simples, às vezes até nem permanece na memória.
Dá pra saber que eu nunca vou me apaixonar por você. Dá pra saber que eu nunca ia me apaixonar por você. Dá pra saber que eu ia me apaixonar por você.
Dá pra saber, mas, no fim de tudo, aquilo que não se tornou amor, o que não doeu nem trouxe tanta felicidade, o que não mereceu uma música, um porre no bar, uma declaração no meio da praça, o que não dá nem saudade, tem a sua própria beleza. A beleza do que, na vida, não teve muita importância. E boa parte da vida é feita do que não tem tanta importância.
terça-feira, novembro 27, 2007
Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar pra baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para ser menor, para o
Insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma barata - cresce de importância para o meu olho.
Ainda não entendi porque herdei esse olhar para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão- antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Manoel de Barros
É um olhar pra baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para ser menor, para o
Insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma barata - cresce de importância para o meu olho.
Ainda não entendi porque herdei esse olhar para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão- antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Manoel de Barros
segunda-feira, novembro 26, 2007

Câmeras fográficas, repórter maquiada se preparando pra ser filmada, mais jornalistas do que público. Tudo isso pra assistir a uma exposição de xilogravuras financiada pelo Programa BNB de Cultura, e apoiada pela Secretaria de Cultura do Estado. Tratavam-se de xilogravuras feitas por crianças e adolescentes de escolas públicas residentes em pequenos municípios de Sergipe. Os meninos e meninas estavam lá para presenciar a exposição, que mais parecia palco para personalidades "importantes" desfilarem a sua enorme estima pelas autênticas manifestações culturais do povo brasileiro. As paredes da biblioteca que abrigava a exposição estavam repletas de xilogravuras produzidas por crianças e adolescentes que aprederam em alguns poucos meses as técnicas milenares da xilogravura mescladas à tradição da literatura de cordel.
Eu estava lá para escrever uma matéria de assessoria de imprensa, e tinha a impressão de que já tinha visto cenas parecidas em outros lugares: mais jornalistas, mais grandes personalidades do que público em si, do que gente que foi ali só pra dar uma passada. Observava os fotógrafos tentando disfarçar nas imagens que ali havia pouquíssima gente. E eu tinha que fazer o meu papel de repórter, então dirigi-me a um pirralho pra lhe perguntar sobre sua xilogravura.
- E aí, o que você quis retratar nesse desenho?
- Moça, na verdade eu queria fazer um retrato da minha mãe, só que não deixaram. Disseram que era pra fazer alguma coisa de cultura popular.
Eu estava lá para escrever uma matéria de assessoria de imprensa, e tinha a impressão de que já tinha visto cenas parecidas em outros lugares: mais jornalistas, mais grandes personalidades do que público em si, do que gente que foi ali só pra dar uma passada. Observava os fotógrafos tentando disfarçar nas imagens que ali havia pouquíssima gente. E eu tinha que fazer o meu papel de repórter, então dirigi-me a um pirralho pra lhe perguntar sobre sua xilogravura.
- E aí, o que você quis retratar nesse desenho?
- Moça, na verdade eu queria fazer um retrato da minha mãe, só que não deixaram. Disseram que era pra fazer alguma coisa de cultura popular.
domingo, novembro 25, 2007
Na solidão reconheço a minha imagem no espelho
E me beijo e me beijo
Como quem se apaixona por si mesma
Mas não é por mim essa paixão
É, sim, pela própria solidão
Pela ausência de estar toda para o mundo
Pela indecência de poder ser tudo o que há
E muito mais
Eu quero estar só
Para poder ser tudo ao mesmo tempo
Eu quero estar só
Distante dos cartórios, dos livros assinados
Das dívidas eternas
Das falsas promessas
Porque só consigo prometer a mim mesma
O que nunca vou cumprir
Que talvez agora eu esteja aqui
Um dia ali
E confesso que só quero o que não me mantém aqui ou ali
Promiscuidade dos lugares, dos sentidos, das emoções
Promiscuidade por sons, toques, cheiros, sensações
Em mim tudo o que permanece
É ânsia, somente ânsia
Nada além da ânsia
- Nem sequer as lembranças.
Decerto que as lembranças em mim nada são além do vagar pelo tempo devido a tanta ânsia.
Esta mesma ânsia que, quando estou aqui, me faz querer ir a outro lugar
Esta mesma ânsia que me faz partir sempre com o desejo de voltar
E a minha grande aventura, a minha eterna vontade
É ser para sempre
toda ânsia e saudade.
- Sou toda ânsia e saudade.
E me beijo e me beijo
Como quem se apaixona por si mesma
Mas não é por mim essa paixão
É, sim, pela própria solidão
Pela ausência de estar toda para o mundo
Pela indecência de poder ser tudo o que há
E muito mais
Eu quero estar só
Para poder ser tudo ao mesmo tempo
Eu quero estar só
Distante dos cartórios, dos livros assinados
Das dívidas eternas
Das falsas promessas
Porque só consigo prometer a mim mesma
O que nunca vou cumprir
Que talvez agora eu esteja aqui
Um dia ali
E confesso que só quero o que não me mantém aqui ou ali
Promiscuidade dos lugares, dos sentidos, das emoções
Promiscuidade por sons, toques, cheiros, sensações
Em mim tudo o que permanece
É ânsia, somente ânsia
Nada além da ânsia
- Nem sequer as lembranças.
Decerto que as lembranças em mim nada são além do vagar pelo tempo devido a tanta ânsia.
Esta mesma ânsia que, quando estou aqui, me faz querer ir a outro lugar
Esta mesma ânsia que me faz partir sempre com o desejo de voltar
E a minha grande aventura, a minha eterna vontade
É ser para sempre
toda ânsia e saudade.
- Sou toda ânsia e saudade.
sexta-feira, novembro 09, 2007
Surpresas musicais

Surpresa número 1- Quando meu irmão, menino fanático por Radiohead por influência minha, veio me dizer que a banda tinha lançado CD novo, e que esse CD poderia ser adquirido por preço determinado pelo consumidor através do site do Radiohead, eu só pensei numa coisa: legal. Isso, legal, apenas. Na verdade, eu achava que o CD seria um albunzinho mais ou menos, nada comparado a um OK Computer da vida. Ora ora, na minha crença bandas boas vão ficando cada vez mais fraquinhas com o passar do tempo, e seu destino é ou terminar por intriga dos músicos ego-inflados, ou acabar porque o vocalista morreu de overdose, para então essas tão maravilhosas bandas ficarem na nossa memória como algo sagrado.
Esse não parece ser o caso do Radiohead. Esse é uma grupo que fica melhor a cada dia que passa. Escuto o som dos caras desde meus 16 anos, e já estou com 22, e mesmo assim eles não têm uma obra falida ou que perdeu a graça. Muito pelo contrário, esse novo álbum, o In Rainbows, me soa como o melhor CD que o Radiohead já fez. As músicas têm muito, mas MUITO feeling, e parecem ter sido feitas numa convulsão de idéias de seus autores. São músicas intensas, bastante intensas, tanto nas letras quanto nos arranjos, e há uma confluência entre essas duas intensidades.
Só digo uma coisa: por mim o Radiohead ficava assim, lançando álbuns novos sempre melhores até eu ficar bem velhinha.
Surpresa número 2- A primeira vez que ouvi falar do Sean Lennin foi na MTV, e sei que foi algo como "ele coloca elementos de bossa nova nas músicas, ele é fã do Tom Jobim". É isso. Pra mim ele era só o filho do John Lennon. Tá, ele era o filho do John Lennon que gostava de música brasileira. Pronto. No mais, não passava do filho de alguém famoso, que nem Sandy e Júnior, que nem Vanessa Camargo, que nem Maria Rita. E eu tenho um preconceito SERÍSSIMO contra filhos de famosos. Porque pra mim eles não passam de filhos de famosos, ou, pra ser mais exata, impostores.

Mas aí eu tava hoje ouvindo rádio, que eu tinha deixado de ouvir há muito tempo, mas agora retomei o costume por estar trabalhando na Fundação Aperipê, que abarca rádios Aperipê AM e FM, além da Aperipê TV. Pois bem, então eu estava ouvindo a Aperipê FM, e no programa Especial das 10, que traz parte da discografia de um único artista durante todo o programa, o homenageado de hoje era Sean Lennon. Depois de já ter ouvido uma música, e gostado muito por sinal, é que soube que o artista era o bendito filho de John Lennon. Ainda bem, porque senão eu simplesmente teria desligado o rádio e ido dormir ou fazer qualquer outra coisa que não fosse ouvir um suposto impostor. Mas o cara é muito mais do que o filho de John Lennon, ele é bom mesmo, sim. Até estou no momento baixando alguns álbuns dele.
Foi bom porque aprendi: nunca subestime o talento de filhos de artistas famosos. Quem sabe né?
quinta-feira, novembro 08, 2007
Toda religião é uma forma cretina de explicar o mundo
Toda paixão é uma forma cretina de admirar
e admirar é tomar distância das coisas do mundo
Mas eu preciso de admiração
eu preciso de uma religião
um ofício, uma arte, um alguém
algo que me dê paixão
Eu quero trabalhar
na mais nova e grande idéia
Eu quero participar
da insurreição de quem vive na miséria
Eu quero a revolução
Toda revolução é envolvida por paixão
E toda paixão é uma revolução
dos sentidos
Mas o que sinto é uma grande vazio
incorporado
esse vazio incorporado na forma de tédio
- e ó tédio na forma de verbo-
Eu olho para as ruas e vejo que é tudo sempre igual
Eu olho para as caras e não vejo nada de especial
Meu grande amor não está por aí
A canção que ouço não é a canção que eu fiz
O ônibus do trabalho não viaja para onde eu quero ir
O céu está enevoado e deus eu nunca vi
Todos os deuses morreram
e essa é a minha perdição
Para viver é preciso ter deuses
-mas foi pelos deuses que eu sempre vivi!-
Pois quando eu disse: deus está morto
eu matei foi a mim.
Toda paixão é uma forma cretina de admirar
e admirar é tomar distância das coisas do mundo
Mas eu preciso de admiração
eu preciso de uma religião
um ofício, uma arte, um alguém
algo que me dê paixão
Eu quero trabalhar
na mais nova e grande idéia
Eu quero participar
da insurreição de quem vive na miséria
Eu quero a revolução
Toda revolução é envolvida por paixão
E toda paixão é uma revolução
dos sentidos
Mas o que sinto é uma grande vazio
incorporado
esse vazio incorporado na forma de tédio
- e ó tédio na forma de verbo-
Eu olho para as ruas e vejo que é tudo sempre igual
Eu olho para as caras e não vejo nada de especial
Meu grande amor não está por aí
A canção que ouço não é a canção que eu fiz
O ônibus do trabalho não viaja para onde eu quero ir
O céu está enevoado e deus eu nunca vi
Todos os deuses morreram
e essa é a minha perdição
Para viver é preciso ter deuses
-mas foi pelos deuses que eu sempre vivi!-
Pois quando eu disse: deus está morto
eu matei foi a mim.
domingo, novembro 04, 2007
Coisas que tenho de fazer antes de morrer...
- Ir a um show do Radiohead.
- Conhecer a França.
- Visitar um templo budista.
- Subir uma montanha.
- Pular de pára-quedas.
- Viajar de trem pela Europa. Tomar um café quentinho e observar pela janela do trem a bela vegetação e sentindo frio.
- Andar de barco nas ruas de Veneza.
- Passar um ano numa aldeia hippie.
- Conhecer a França.
- Visitar um templo budista.
- Subir uma montanha.
- Pular de pára-quedas.
- Viajar de trem pela Europa. Tomar um café quentinho e observar pela janela do trem a bela vegetação e sentindo frio.
- Andar de barco nas ruas de Veneza.
- Passar um ano numa aldeia hippie.
sábado, novembro 03, 2007
Minha cachorra parece criança. Se cai um biscoito no chão, ela vai correndo pegar, se meu irmão facilita e deixa um hamburger dando bobeira em cima da mesa, ela sobe no banco e come o hamburger. Agora, se eu deixo cair um pouco de salada, ela dá uma cheiradinha, e tchau, BEIJOS, ela ignora a salada.
Nude
Don't get any big ideas
They're not gonna happen
You paint yourself white
And feel up with noise
But there'll be something missing
Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails
So don't get any big ideas
They're not going to happen
You'll go to hell for what your dirty mind is thinking
Sometimes thom adds this verse when performing:
She stands stark naked and she beckons you to bed
Don't go, you'll only want to come back again
by Raiohead
They're not gonna happen
You paint yourself white
And feel up with noise
But there'll be something missing
Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails
So don't get any big ideas
They're not going to happen
You'll go to hell for what your dirty mind is thinking
Sometimes thom adds this verse when performing:
She stands stark naked and she beckons you to bed
Don't go, you'll only want to come back again
by Raiohead
sexta-feira, novembro 02, 2007
Família pós-moderna
Gente, então de repente eu me sinto culpada porque só vivo no msn e não tenho conversado tanto com minha mãe e tals, aquela coisa de, nossa, antigamente as famílias se reuniam na porta de casa, na sala de estar pra falar coisas sobre o céu, a Terra, a água e o ar. Aí chego pra minha mãe, que acabara de preparar o seu hamburger "pós-moderno", e digo:
- Ô mãe, senta aqui, vamos jantar juntas, vamos conversar...
- Eu não, tô indo ver a novela.
- Ô mãe, senta aqui, vamos jantar juntas, vamos conversar...
- Eu não, tô indo ver a novela.
Da minha tara por GAYS
Gentém, ok, eu tenho tara por gays, como o título acima mesmo diz. Gosto de ver homens se beijando, essas coisas. Não, o pior é que tenho uma certa tendência a me interessar por homossexuais. Sinto atração por aqueles caras um tanto quanto afeminados... Nenhum problema, vocês gays entendam uma coisa: ser gay é coisa do passado, é too narrow-minded, too conservative (ok, aprendi no cursinho de inglês).
Minha gente, as pessoas hoje em dia são todas bissexuais, não tem ninguém hetero nem homo não!
HETEROS SÃO CONSERVADORES!
HOMOSSEXUIAIS SÃO ULTRAPASSADOS!
Minha gente, as pessoas hoje em dia são todas bissexuais, não tem ninguém hetero nem homo não!
HETEROS SÃO CONSERVADORES!
HOMOSSEXUIAIS SÃO ULTRAPASSADOS!
quinta-feira, novembro 01, 2007
Uma das coisas mais escrotas que já vi na vida foi meu avô contando uma piada. Era assim: um cara foi à missa e o padre disse que o casamento era um santo sacramento, eterno, FOREVER, etc. Nisso o tal cara era casado há 5o anos. Então ele convida o padre para passar uma semana em seu querido lar.
Logo no primeiro dia, o cara serviu um delisioso prato ao padre, para a felicidade do sacerdote. Entretanto, a satisfação do religioso não demorou muito, pois durante todos os dias o anfitrião sempre lhe servia a mesma comida, até que o santo homem não aguentou:
- Essa comida é muito boa, mas assim também não dá. Só como a mesma coisa há dias!
- Ah é, padre? Então imagine passar 50 anos comendo a mesma coisa!
Enfim. Meu avô contou essa piada pra mim, quando eu ainda era criança, bem na frente de minha avó, e na época em que eles comemoravam suas bodas de ouro.
Logo no primeiro dia, o cara serviu um delisioso prato ao padre, para a felicidade do sacerdote. Entretanto, a satisfação do religioso não demorou muito, pois durante todos os dias o anfitrião sempre lhe servia a mesma comida, até que o santo homem não aguentou:
- Essa comida é muito boa, mas assim também não dá. Só como a mesma coisa há dias!
- Ah é, padre? Então imagine passar 50 anos comendo a mesma coisa!
Enfim. Meu avô contou essa piada pra mim, quando eu ainda era criança, bem na frente de minha avó, e na época em que eles comemoravam suas bodas de ouro.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Enquanto uns caras até "se apaixonam" de tanta vontade que têm de fuder com uma determinada garota, algumas meninas inventam que estão apaixonadas e querem ter sempre um namorado a tira colo pra ter aquela boa e velha foda certinha.
Minha gente, sem eufemismos ok!
Minha gente, sem eufemismos ok!
quarta-feira, outubro 31, 2007
Tradução da cartinha... é bem simples, coisa de inciante mesmo!
Querida amiga,
Eu vou partir em breve para o Brasil. Espero meu avião para retornar ao meu país. Acho que minha estadia na França foi magnífica. Eu visitei muitos lugares e adorei principalmente as discotecas, pois adoro sair à noite e dançar, divertir-me. Visitei o museu e vi um Monet. Você me conhece e sabe que eu adoro observar quadros.
Um dia eu fui à praia e encontrei vários brasileiros lá. Amiga, eu amo a França, mas há um pequeno problema: eu não vi o sol! Mas as pessoas são agradáveis e a França é um bom lugar para morar. Há muitas coisas pra fazer por aqui!
Acho que voltarei à França no próximo verão. Talvez eu viverei aqui, mas não sei, pois adoro o Brasil também, e minha família e meus amigos moram lá. É a vida!
Gostaria que você viesse ao Brasil um dia. Nós poderíamos ir à praia, comer uma refeição brasileira... A cultura do meu país é formidável!
Eu te espero, e retornarei um dia...
Um abraço,
Tatiana.
Querida amiga,
Eu vou partir em breve para o Brasil. Espero meu avião para retornar ao meu país. Acho que minha estadia na França foi magnífica. Eu visitei muitos lugares e adorei principalmente as discotecas, pois adoro sair à noite e dançar, divertir-me. Visitei o museu e vi um Monet. Você me conhece e sabe que eu adoro observar quadros.
Um dia eu fui à praia e encontrei vários brasileiros lá. Amiga, eu amo a França, mas há um pequeno problema: eu não vi o sol! Mas as pessoas são agradáveis e a França é um bom lugar para morar. Há muitas coisas pra fazer por aqui!
Acho que voltarei à França no próximo verão. Talvez eu viverei aqui, mas não sei, pois adoro o Brasil também, e minha família e meus amigos moram lá. É a vida!
Gostaria que você viesse ao Brasil um dia. Nós poderíamos ir à praia, comer uma refeição brasileira... A cultura do meu país é formidável!
Eu te espero, e retornarei um dia...
Um abraço,
Tatiana.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Chère amie,
Je vais partir tout de suite au Brésil. J'attends mon avion pour rentrer dans mon pays. Je pense que mon séjour en France a été magnifique. J'ai visité beaucoup de places et j'ai aimé sourtout les discotèques parce que j'aime sortir au soir et danser, m'amuser. J'ai visité le musée et j'ai vu un Monet. Tu me connais et tu sais que j'adore observer les tableaux.
Un jour, je suis allée à la plage et j'ai rencontré beaucoup de brésiliens là bas. Amie, j'aime la France, mais il y a un petit problème: je n'ai pas vu le soleil! Mais les gens sont agréadables et la France est une bonne place pour vivre. Il y a beaucoup de choses à faire ici!
Je pense que je vais retourner en France l'été prochain. Peut-être je vais vivre ici, mais je ne sais pas, parce que j'aime le Brésil aussi, et ma famille et mes amis habitent là bas. C'est la vie!
Je voudrais que tu viennes au Brésil un jour. Nous pouvons aller à la plage, manger un repas brésilien... La culture de mon pays est formidable!
Je t'attends et je vais retourner un jour...
Je t'embrasse,
Tatiana.
Minha primeira carta em francês. Tudo fantasia, claro, nunca fui à França!
Je vais partir tout de suite au Brésil. J'attends mon avion pour rentrer dans mon pays. Je pense que mon séjour en France a été magnifique. J'ai visité beaucoup de places et j'ai aimé sourtout les discotèques parce que j'aime sortir au soir et danser, m'amuser. J'ai visité le musée et j'ai vu un Monet. Tu me connais et tu sais que j'adore observer les tableaux.
Un jour, je suis allée à la plage et j'ai rencontré beaucoup de brésiliens là bas. Amie, j'aime la France, mais il y a un petit problème: je n'ai pas vu le soleil! Mais les gens sont agréadables et la France est une bonne place pour vivre. Il y a beaucoup de choses à faire ici!
Je pense que je vais retourner en France l'été prochain. Peut-être je vais vivre ici, mais je ne sais pas, parce que j'aime le Brésil aussi, et ma famille et mes amis habitent là bas. C'est la vie!
Je voudrais que tu viennes au Brésil un jour. Nous pouvons aller à la plage, manger un repas brésilien... La culture de mon pays est formidable!
Je t'attends et je vais retourner un jour...
Je t'embrasse,
Tatiana.
Minha primeira carta em francês. Tudo fantasia, claro, nunca fui à França!
domingo, outubro 28, 2007
Humf!

Então você percebe, numa noite de domingo sem sentido, que não há ninguém que te tire do sério. E incrivelmente você sabe, que por mais que você esteja mais recatada nas emoções, por mais que, na verdade, você não esteja a fim de se apaixonar, ainda resta alguma coisa dentro de você que quer perder os brios. Mas logo passa...
Se bem que acho bonito se melar que nem criança ao tomar sorvete, ou dizer ODEIO, ODEIO, ODEIO alguma coisa de uma forma meiga.
Adeus.
Adieu.
Goodbye.
Se bem que acho bonito se melar que nem criança ao tomar sorvete, ou dizer ODEIO, ODEIO, ODEIO alguma coisa de uma forma meiga.
Adeus.
Adieu.
Goodbye.
Nous allons à la plage
Meninas nerds não deveriam ir à praia. Não pra vestir maiô preto, usar protetor solar infantil, esconder-se do sol no sombreiro e olhar ao redor apertando os olhinhos protegidos na medida do possível e enxergando na medida do possível pelo óculos de grau.
As meninas da praia, ah, elas sim! Com todo a sua graça se estendem nas cadeiras de praia pra se estirar diante do sol latejante com a pele encobreada pelo bronzeador, com seus biquínis milimétricos, com seus óculos escuros que dão o ar da sensualidade no semblante.
Mas eu não sou uma menina da praia! pfffff!
As meninas da praia, ah, elas sim! Com todo a sua graça se estendem nas cadeiras de praia pra se estirar diante do sol latejante com a pele encobreada pelo bronzeador, com seus biquínis milimétricos, com seus óculos escuros que dão o ar da sensualidade no semblante.
Mas eu não sou uma menina da praia! pfffff!
domingo, outubro 21, 2007
Rebelião
Conheço um cara que estava trabalhando como monitor num colégio particular. O tal colégio mais parece um Big Brother, cheio de câmeras por todos os lados para vigiar (e depois punir) os alunos. Um modelo educacional bastante repressivo e que chega a colocar alunos aplicados em salas distintas das dos estudantes mais bagunceiros. Uma instituição que quando quer parecer mais humana manda os alunos pros psicólogos do colégio que os fitam de cima abaixo, e os colocam de castigo numa sala quando chegam atrasados. Um lugar onde as mães dos estudantes chegam com suas pulseiras de ouro, sua autoridade, seu ar de quem está pagando por um bom filho pronto diretamente saído daquela instituição.
Então, o cara que conheço, ao ver um desses alunos gazeando pediu para que ele retornasse à sala de aula.
- Tá pensando que você manda em mim? Tá pensando que manda em mim, que nem a vaca da minha mãe?
Meu amigo se assustou, é claro. Mas ele se espantou mais ainda quando ocorreu o episódio fatídico em que o tal guri ia incendiar o colégio jogando perfume no lixeiro e tascando fogo. Quando perguntaram ao garoto, ele negou com a frieza de um adulto psicopata no banco de réus.
- Eu não fiz nada disso. Se eu quisesse botar fogo nesse colégio eu ia começar por algo que queimasse logo tudo e não por um lixeiro.
Então, o cara que conheço, ao ver um desses alunos gazeando pediu para que ele retornasse à sala de aula.
- Tá pensando que você manda em mim? Tá pensando que manda em mim, que nem a vaca da minha mãe?
Meu amigo se assustou, é claro. Mas ele se espantou mais ainda quando ocorreu o episódio fatídico em que o tal guri ia incendiar o colégio jogando perfume no lixeiro e tascando fogo. Quando perguntaram ao garoto, ele negou com a frieza de um adulto psicopata no banco de réus.
- Eu não fiz nada disso. Se eu quisesse botar fogo nesse colégio eu ia começar por algo que queimasse logo tudo e não por um lixeiro.
sábado, outubro 20, 2007

I wanna live life and never be cruel
I wanna live life and be good to you
And I wanna fly and never come down
And live my life and have friends around
We never change, do we? no, no
We never learn, do we?
So I wanna live in a wooden house
I wanna live life and always be true
I wanna live life and be good to you
And I wanna fly and never come down
And live my life and have friends around
We never change, do we? No, no
We never learn, do we?
So I wanna live in a wooden house
where making more friends would be easy
Oh, and I don´t have a soul to save
Yes, and I sin every single day
We never change, do we?
We never learn, do we?
So I wanna live in a wooden house
Where making more friends would be easy
I wanna live where the sun comes out ...
We never change, Coldplay
Amor fati
Desejo aprender a ver cada vez mais belo a necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que me tornam as coisas belas. AMOR FATI (amor ao destino). Seja assim, de agora em diante, ao meu amor. Não pretendo fazer guerra ao que é feio. Não pretendo acusar, nem mesmo aos acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa agora, de agora em diante, a minha única negação! E, em uma palavra, portanto: não quero, a partir de hoje, ser outra coisa, senão a pessoa que diz SIM.
Nietzsche, A Gaia Ciência.
Nietzsche, A Gaia Ciência.
sexta-feira, outubro 19, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
Medieval

Você me pede
Pra ser mais moderno
Que culpa que eu tenho
É só você que eu quero
Às vezes eu amo
E construo castelos
Às vezes eu amo tanto
Que tiro férias
E embarco num tour pro inferno
Será que eu sou medieval?
Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova Idade Média
Na mídia da novidade média
Olha pra mim, me dê a mão
Depois um beijo
Em homenagem a toda
Distância e desejo
Mora em mim
Que eu deixo as portas sempre abertas
Onde ninguém vai te atirar
As mãos vazias nem pedras
Eu acredito nas besteiras
Que eu leio no jornal
Eu acredito no meu lado
Português, sentimental
Eu acredito em paixão e moinhos lindos
Mas a minha vida sempre brinca comigo
De porre em porre, vai me desmentindo
Será que eu sou medieval?
Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova Idade Média
Na mídia da novidade média
Cazuza
Militância em movimentos coletivos e obtenção de capital político: da busca pelo bem comum às regras do jogo
1- Introdução
Governador do estado, secretário municipal de Educação, presidente da república. Antes de ocupar cargos que expressam capital político objetivado, muitos desses profissionais da política passaram pelos chamados movimentos sociais, sejam eles o Movimento Estudantil, o Movimento dos Sem Terra, entidades ligadas à Igreja Católica, sindicatos, associações de moradores, organizações não-governamentais, entre outros.
O presente artigo traz uma breve avaliação da relação entre a militância em movimentos coletivos e a obtenção de capital político. O prestígio conquistado por aqueles que militaram nesses movimentos costuma ocorrer nos partidos de esquerda, que têm uma maneira militantista de conceber a política, e apresentam certa proximidade com tais movimentos. Dessa forma, este trabalho traz as avaliações de Coradini e Gaglietti a respeito da socialização política dos militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) em Porto Alegre.
Ambos os autores citados anteriormente são muito influenciados pela perspectiva de Bourdieu em seus estudos. O conceito de habitus, de que fala Bourdieu, será aplicado neste trabalho para ajudar na compreensão da relação entre militantismo e obtenção de capital político. Essa noção será fundamental para entender a forma como a passagem dos militantes por movimentos sociais contribui para o conhecimento a respeito das regras do jogo da política.
Novamente, Bourdieu foi de fundamental importância para compreender melhor a conduta dos militantes através da sua avaliação a respeito do interesse. Bourdieu dirime a visão encantada e ingênua a respeito do desinteresse dos militantes, que muitas vezes se apresentam ou são vistos como pessoas desinteressadas, pois seriam indivíduos comprometidos acima de tudo com a coletividade. A noção de lucro simbólico e as recompensas encontradas na sociedade para o “desinteresse”, de que trata Bourdieu, ajudam a construir uma perspectiva mais aprofundada a respeito das diversas motivações e recompensas da militância pela atuação em movimentos coletivos.
Se este trabalho apresenta as aproximações entre o campo político e o campo militante, é importante ressaltar também as distinções entre essas duas esferas, diferenças essas que contribuíram para a tentativa de definição de um conceito de capital militante, proposta por Frédérique Matonti e Franck Poupeau. Ao mesmo tempo em que se afastam, os capitais político e militante se aproximam na medida em que o capital militante pode ser convertido em capital político.
Se a entrada nos movimentos sociais pode estar relacionada à defesa de “causas” ligadas ao bem comum, nos movimentos coletivos também podem ser dados os primeiros passos de futuros prefeitos, governadores, entre outros, no sentido de acumular conhecimentos sobre como se movimentar no campo político. Através da militância em movimentos sociais, os profissionais da política podem tanto obter algum aprendizado necessário para serem bem sucedidos no jogo da política, como podem conseguir prestígio dentro da política partidária, em se tratando dos partidos de esquerda, que valorizam a participação em movimentos coletivos.
2- Primeiros passos na militância
Mauro Gaglietti (2003), em seu estudo sobre os militantes do Partido dos Trabalhadores da cidade de Porto Alegre, observa que a maior parte dos militantes do PT passa primeiro pelo engajamento em algum movimento coletivo para então adentrar na política partidária. Os dados apresentados por Gaglietti (2003, p. 88) apontam que 63% dos militantes começaram a atuar no PT quando estavam no Movimento Estudantil, 8.5% em sindicatos, e 23% nos movimentos de juventude ligados à Igreja Católica.
Percebe-se que a maioria dos militantes do PT iniciou a militância quando integrava o Movimento Estudantil. Gaglietti (2003, p.94) mostra que grande parte dos militantes estudou em instituições públicas, entidades onde o Movimento Estudantil é mais forte devido à influência dos discursos de esquerda de determinados professores e do contato que os estudantes têm com manifestações como a greve.
Segundo Coradini (2002, p. 109), a política partidária, para os militantes dos partidos de esquerda, nunca está desvinculada de outras esferas de militância, como as associadas ao Movimento Estudantil, sindicatos e movimentos apoiados por igrejas. Coradini (2002, p.114) mostra ainda que o baixo nível de escolaridade é compensando em alguns momentos pela atuação em movimentos sociais, como é o caso da responsável pelo Gabinete de Relações Comunitárias, uma ocupante de cargo do primeiro escalão sem curso superior, mas vasta experiência na “militância comunitária”. Já Gaglietti (2003, p.93) aponta que o baixo nível de escolaridade é compensando pelo capital político acumulado em movimentos sociais principalmente entre aqueles que participaram de organizações clandestinas de esquerda nas décadas de 60 e 70 e no início de 80.
Coradini (2002, p. 109) ressalta que a militância em movimentos sociais influencia a forma de os militantes do PT lidarem com a administração pública. Os militantes levam para sua atuação uma forma militantista de conceber a política, e instrumentalizam seus conhecimentos obtidos em instituições como a universidade. Eles aproveitam diversos valores defendidos por movimentos sociais, como “participação popular” e “gestão democrática”, como também utilizam de forma instrumental teorias das Ciências Sociais, do Direito, entre outros, para colocá-las a serviço da prática. Essa perspectiva militantista de ver a política dá um sentido de manifestada ideologização do trato das políticas públicas, indo para além da valorização da competência técnica e marcando a administração com um sentido de missão em busca de justiça social.
3 – “Desinteresse” e militantismo
Na definição de Gaglietti (2003, p. 138) a respeito dos padrões de militância, muitos militantes advindos dos movimentos sociais se enquadram em seu primeiro padrão, chamado de missão. De acordo com Gaglietti, esses militantes atribuem uma função messiânica à política, baseada na devoção a uma “causa” vinculada aos ideais socialistas e à Teologia da Libertação. Tais militantes eram influenciados pelas teorias marxistas e buscavam a construção de uma sociedade comunista, ou, no caso dos militantes cristãos, traçavam o vínculo entre o comunismo de Marx e os valores de amor ao próximo defendidos por Cristo. O exercício de um cargo por esses militantes é visto como uma oportunidade de contribuir para o bem coletivo, e não como uma forma de ascender na hierarquia política.
Dessa forma, muitos militantes podem parecer desinteressados no desempenho de suas funções. Entretanto, Bourdieu (1988, p.137) tem uma noção de interesse que vai para além das finalidades econômicas e que abarca os conceitos de lucro simbólico, capital simbólico, interesse simbólico. De acordo com o autor, a noção de interesse funciona como um instrumento de ruptura com a mistificação das condutas humanas. Ele afirma que os agentes sociais não realizam atos arbitrários e que não fazem sentido para as Ciências Sociais, mas suas ações são motivadas por interesses, manifestos ou não, estratégicos ou não.
“Ao introduzir a noção de capital simbólico (e de lucro simbólico), de certa maneira, radicalizamos o questionamento da visão ingênua: as ações mais santas – a ascese ou o devotamento mais extremos- poderão ser sempre suspeitas (e historicamente o foram, por certas formas extremas de rigorismo) de terem sido inspiradas pela busca do lucro simbólico de santidade ou de celebridade” (Bourdieu, 1988, p.150)
Bourdieu (1988, p.152) defende que o desinteresse acontece nos universos sociais onde ele é reconhecido, como é o caso do campo militante. Destarte, um ato aparentemente desinteressado pode trazer lucro simbólico para o agente social. No campo militante, em que a dedicação total à “causa”, e a submissão ao bem coletivo são vistos com bons olhos pelos demais agentes sociais, o militante obtém capital simbólico na sua dedicação aos valores de justiça social. Como afirma Bourdieu (1988, p. 153), a universalização apresenta seus lucros, já que em quaisquer sociedades a submissão ao bem comum é tida como conduta virtuosa.
Gaglietti (2003, p.127) mostra os fatores que influenciam na conquista de um cargo na administração pública, entre eles, o tempo de dedicação ao partido, a intensidade do engajamento, a fidelidade à legenda, a defesa das chamadas minorias, e, por último, a atuação em movimentos sociais. De acordo com o autor, os militantes mais ligados a esses movimentos coletivos têm mecanismo mais sofisticados para ocultar qualquer forma de interesse numa suposta compensação pela sua militância. Os militantes não costumam defender a sua nomeação para algum cargo, o que geralmente é feito por outro militante. Segundo Gaglietti (2003, p. 127), quanto maior é a influência dos ideais socialistas e da Teologia da Libertação sobre o militante, mais forte é a ocultação de possíveis interesses na obtenção de cargos ou na ascensão na hierarquia partidária.
4- As regras do jogo
“Com efeito, nada é menos natural do que o modo de pensamento e de ação que é exigido pela participação no campo político: como o habitus religioso, artístico ou científico, o habitus do político supõe uma preparação especial. É, em primeiro lugar, toda a aprendizagem necessária para adquirir o corpus de saberes específicos (teorias, problemáticas, conceitos, tradições históricas, dados econômicos, etc.) produzidos e acumulados pelo trabalho político dos profissionais do presente e do passado ou das capacidades mais gerais tais como o domínio de uma certa linguagem e de uma certa retórica política, a do tribuno, indispensável nas relações com os profanos, ou a do debater, necessária nas relações entre profissionais. (Bourdieu,1930, p. 169)
A política é descrita por Bourdieu como um jogo, e o bom jogador é aquele que conhece as regras do jogo. A noção de habitus descrita por Bourdieu (1988, p. 144) define que o habitus estrutura a percepção do universo em questão, bem como as formas de agir nesse universo. No campo político, o habitus abarca as competências cognitivas para compreensão desse mundo, constitui um conjunto de conhecimentos que permite interpretar os signos próprios do âmbito da política, bem como o sentido de como movimentar ‘as peças no tabuleiro’.
De acordo com Bourdieu (1989, p. 22), o habitus representa um conjunto de práticas distintivas de um determinado espaço social. As diferenças que tornam o espaço político um espaço diferente de outros espaços sociais formam uma linguagem, uma série de signos distintivos, de esquemas classificatórios e de categorias de percepção.
A leitura desses signos, o domínio da linguagem própria do espaço político e a incorporação dos seus princípios de di-visão do mundo social, são apreendidas inicialmente na militância em movimentos coletivos e, posteriormente, na militância na política partidária. O engajamento em movimentos sociais forneceu recursos importantes para os militantes, recursos esses que foram potencializados na sua entrada num partido político, como foi observado por Gaglietti (2003, p. 112). Os militantes observados por Gaglietti (2003, p. 105) adquiriram no movimento estudantil competências como a capacidade de falar bem em público, qualidade adquirida após participarem de diversas reuniões, assembléias, entre outros. O domínio de uma linguagem e de uma retórica política de que fala Bourdieu (1930, p. 169) pôde ser adquirido em parte nos espaços de socialização política encontrados em movimentos sociais.
As diversas experiências que os militantes têm nos movimentos coletivos contribuem tanto para lhes auferir prestígio junto aos demais militantes do PT, como foi observado nos estudos de Gaglietti (2003) e Coradini (2002), como oferecem recursos para incorporação do habitus da política pelos militantes. A militância em movimentos sociais é um dos fatores levados em conta para a obtenção de cargos na administração pública.
De acordo com Bourdieu (1930, p. 195), quanto mais o capital político se institucionaliza, tanto mais os militantes se distanciam da “causa” e se infiltram na busca por clientes, ou eleitores, e se engajam na conquista do aparelho, que pode lhes oferecer um retorno material ou simbólico. Dessa forma, quanto mais o capital político se institucionaliza, quanto mais postos os militantes de um determinado partido ocupam na administração pública, maior é a dedicação à reprodução do aparelho. Com a entrada no partido e o contato com a máquina pública, os militantes costumam se afastar dos movimentos sociais, como mostra Gaglietti (2003, p. 91), ao afirmar que 85% dos seus entrevistados que ocupam cargos na administração pública não participam de movimentos sociais, sendo que 94,5% deles iniciaram a militância quando pertenciam a movimentos coletivos.
5- Capital militante e capital político
Apesar da aproximação entre os movimentos coletivos e a política partidária, e as formas de conversão da experiência em movimentos sociais em capital político, é importante traçar os limites entre capital militante e capital político. Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004) formularam uma tentativa de definição de capital militante por entenderam que este é um universo do qual o conceito de capital político não dá conta. De acordo com Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004, p. 4), o capital político funda-se na crença que um grupo dedica a uma pessoa socialmente designada, e é baseado numa espécie de fetichismo político através do qual o grupo se identifica e se reconhece na autoridade do portador do capital político. Já o capital militante é muito instável.
“Portanto, o capital militante distingue-se do capital político, o qual é em larga medida um capital de função nascido da autoridade reconhecida pelo grupo e, por essa razão, ‘instável’, incorporado sob forma de técnicas, de saberes e savoir-faire mobilizáveis em ações coletivas, lutas inter ou intra-partidárias, mas também exportáveis, conversíveis em outros universos, portanto, suscetíveis de facilitar certas ‘reconversões’” (Matonti e Poupeau, 2004, p.5)
O que diferencia, essencialmente, o capital militante do capital político é o fetichismo que envolve o capital político e a forma como ele é mais unificado e vinculado à crença na autoridade de uma pessoa socialmente designada e na autoridade da instituição, o partido, a que essa pessoa pertence. O capital militante é mais descentrado, e apresenta um aprendizado de técnicas, de um habitus, propriamente do campo militante, um saber acumulado em manifestações e demais ações coletivas, bem como na vivência dos conflitos dentro do partido e entre os militantes de diversas tendências, ou entre os militantes de diversos partidos. O capital militante pode ser convertido para outros universos, mas Poupeau e Matonti (2004, p. 9), afirmam que ainda é necessário buscar conhecer as lógicas pelas quais o capital militante é aproveitado em outros âmbitos.
Poupeau e Matonti (2004, p. 4) mostram que o capital militante é obtido e valorizado no campo político. Os autores renunciam à visão idealista do militantismo como engajamento em partidos e movimentos coletivos motivados unicamente pela submissão a uma “causa”, seja ela a causa dos trabalhadores, dos sem-teto, dos ambientalistas, e observam que através da militância os militantes aprendem uma série de noções de como se movimentar dentro do espaço político.
6- Conclusão
Os partidos de esquerda, como é o caso do PT, costumam estar vinculados a movimentos de defesa das chamadas “minorias”, pelo seu caráter de defesa dos “oprimidos” e pela busca de ideais de justiça social. Grande parte dos militantes observados por Gaglietti (2003) e por Coradini (2002) teve experiências em movimentos sociais antes de adentrar na política partidária. Os recursos obtidos nesses espaços de socialização política puderam ser aproveitados na entrada no partido, e a participação nesses movimentos proporcionou uma espécie de iniciação no espaço político.
O capital militante obtido nessas experiências pode ser convertido em capital político. Ao adentrar na política partidária, aqueles que atuaram em movimentos coletivos muitas vezes dão um sentido de “missão” no exercício dos cargos conseguidos na administração pública. Eles também costumam instrumentalizar o seu capital escolar, e vinculam o conhecimento de diversas ciências com a utilização prática.
Os militantes costumam se passar por desinteressados. Entretanto, sabemos que o interesse rege as condutas dos agentes sociais, é ele o elemento que dá sentido às atitudes desses agentes. O interesse nem sempre está vinculados a fins econômicos, e em determinados casos pode almejar um lucro simbólico. Alguns militantes encontram lucros simbólicos na sua passagem por movimentos sociais, ou mesmo lucros econômicos. A submissão aos ideais de universalização oculta o lucro simbólico obtido com o reconhecimento na sociedade obtido pela dedicação à causa, bem como a ascensão na hierarquia partidária. Quanto mais radicais são os ideais humanitários do militante, mais requintados são os eufemismos dos ganhos obtidos através da sua militância.
O capital militante pode ser convertido em capital político na medida em que os recursos acumulados na militância são potencializados com a entrada no partido político. O domínio da linguagem própria do espaço político, e a habilidade de falar em público são alguns dos recursos obtidos nessas experiências. Além disso, a militância em movimentos sociais é um dos fatores de peso para a ascensão na hierarquia partidária.
Na medida em que os militantes adentram nas instituições públicas, a tendência é o distanciamento dos movimentos sociais e o maior apego à manutenção do aparelho político. Apesar de os movimentos sociais constituírem uma espécie de iniciação em direção à política partidária, quanto mais envolvidos se encontram os profissionais da política com a administração pública, tanto mais se afastam das antigas “causas” e se afastam dos movimentos coletivos.
Referências Bibliográficas
GAGLIETTI, Mauro. PT: ambivalências de uma militância. Porto Alegre, 2003.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. RJ: Bertrand Brasil, 1998, 2° ed.
BOURDIEU, Pierre. Espaço social e espaço simbólico. Conferência proferida na Universidade de Todai em outubro de 1989.
BOURDIEU, Pierre. É possível um ato desinteressado? In: Razões práticas para uma teoria da ação. Tradução: Mariza Corrêa.
MATONTI, Frédérique e POUPEAU, Franck. O capital militante: tentativa de definição. Tradução: Ernesto Seidl. In: Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 155, 2004, p. 5-11.
CORADINI, O.L. Escolarização, militantismo e mecanismos de participação política. In: Como se fazem eleições no Brasil / organizadoras: Beatriz M. A. de Heredita, Carla Costa Teixeira, Irlys A. F. Barreira – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
Artigo produzido por Tatiana Hora Alves de Lima, graduanda em Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe.
Governador do estado, secretário municipal de Educação, presidente da república. Antes de ocupar cargos que expressam capital político objetivado, muitos desses profissionais da política passaram pelos chamados movimentos sociais, sejam eles o Movimento Estudantil, o Movimento dos Sem Terra, entidades ligadas à Igreja Católica, sindicatos, associações de moradores, organizações não-governamentais, entre outros.
O presente artigo traz uma breve avaliação da relação entre a militância em movimentos coletivos e a obtenção de capital político. O prestígio conquistado por aqueles que militaram nesses movimentos costuma ocorrer nos partidos de esquerda, que têm uma maneira militantista de conceber a política, e apresentam certa proximidade com tais movimentos. Dessa forma, este trabalho traz as avaliações de Coradini e Gaglietti a respeito da socialização política dos militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) em Porto Alegre.
Ambos os autores citados anteriormente são muito influenciados pela perspectiva de Bourdieu em seus estudos. O conceito de habitus, de que fala Bourdieu, será aplicado neste trabalho para ajudar na compreensão da relação entre militantismo e obtenção de capital político. Essa noção será fundamental para entender a forma como a passagem dos militantes por movimentos sociais contribui para o conhecimento a respeito das regras do jogo da política.
Novamente, Bourdieu foi de fundamental importância para compreender melhor a conduta dos militantes através da sua avaliação a respeito do interesse. Bourdieu dirime a visão encantada e ingênua a respeito do desinteresse dos militantes, que muitas vezes se apresentam ou são vistos como pessoas desinteressadas, pois seriam indivíduos comprometidos acima de tudo com a coletividade. A noção de lucro simbólico e as recompensas encontradas na sociedade para o “desinteresse”, de que trata Bourdieu, ajudam a construir uma perspectiva mais aprofundada a respeito das diversas motivações e recompensas da militância pela atuação em movimentos coletivos.
Se este trabalho apresenta as aproximações entre o campo político e o campo militante, é importante ressaltar também as distinções entre essas duas esferas, diferenças essas que contribuíram para a tentativa de definição de um conceito de capital militante, proposta por Frédérique Matonti e Franck Poupeau. Ao mesmo tempo em que se afastam, os capitais político e militante se aproximam na medida em que o capital militante pode ser convertido em capital político.
Se a entrada nos movimentos sociais pode estar relacionada à defesa de “causas” ligadas ao bem comum, nos movimentos coletivos também podem ser dados os primeiros passos de futuros prefeitos, governadores, entre outros, no sentido de acumular conhecimentos sobre como se movimentar no campo político. Através da militância em movimentos sociais, os profissionais da política podem tanto obter algum aprendizado necessário para serem bem sucedidos no jogo da política, como podem conseguir prestígio dentro da política partidária, em se tratando dos partidos de esquerda, que valorizam a participação em movimentos coletivos.
2- Primeiros passos na militância
Mauro Gaglietti (2003), em seu estudo sobre os militantes do Partido dos Trabalhadores da cidade de Porto Alegre, observa que a maior parte dos militantes do PT passa primeiro pelo engajamento em algum movimento coletivo para então adentrar na política partidária. Os dados apresentados por Gaglietti (2003, p. 88) apontam que 63% dos militantes começaram a atuar no PT quando estavam no Movimento Estudantil, 8.5% em sindicatos, e 23% nos movimentos de juventude ligados à Igreja Católica.
Percebe-se que a maioria dos militantes do PT iniciou a militância quando integrava o Movimento Estudantil. Gaglietti (2003, p.94) mostra que grande parte dos militantes estudou em instituições públicas, entidades onde o Movimento Estudantil é mais forte devido à influência dos discursos de esquerda de determinados professores e do contato que os estudantes têm com manifestações como a greve.
Segundo Coradini (2002, p. 109), a política partidária, para os militantes dos partidos de esquerda, nunca está desvinculada de outras esferas de militância, como as associadas ao Movimento Estudantil, sindicatos e movimentos apoiados por igrejas. Coradini (2002, p.114) mostra ainda que o baixo nível de escolaridade é compensando em alguns momentos pela atuação em movimentos sociais, como é o caso da responsável pelo Gabinete de Relações Comunitárias, uma ocupante de cargo do primeiro escalão sem curso superior, mas vasta experiência na “militância comunitária”. Já Gaglietti (2003, p.93) aponta que o baixo nível de escolaridade é compensando pelo capital político acumulado em movimentos sociais principalmente entre aqueles que participaram de organizações clandestinas de esquerda nas décadas de 60 e 70 e no início de 80.
Coradini (2002, p. 109) ressalta que a militância em movimentos sociais influencia a forma de os militantes do PT lidarem com a administração pública. Os militantes levam para sua atuação uma forma militantista de conceber a política, e instrumentalizam seus conhecimentos obtidos em instituições como a universidade. Eles aproveitam diversos valores defendidos por movimentos sociais, como “participação popular” e “gestão democrática”, como também utilizam de forma instrumental teorias das Ciências Sociais, do Direito, entre outros, para colocá-las a serviço da prática. Essa perspectiva militantista de ver a política dá um sentido de manifestada ideologização do trato das políticas públicas, indo para além da valorização da competência técnica e marcando a administração com um sentido de missão em busca de justiça social.
3 – “Desinteresse” e militantismo
Na definição de Gaglietti (2003, p. 138) a respeito dos padrões de militância, muitos militantes advindos dos movimentos sociais se enquadram em seu primeiro padrão, chamado de missão. De acordo com Gaglietti, esses militantes atribuem uma função messiânica à política, baseada na devoção a uma “causa” vinculada aos ideais socialistas e à Teologia da Libertação. Tais militantes eram influenciados pelas teorias marxistas e buscavam a construção de uma sociedade comunista, ou, no caso dos militantes cristãos, traçavam o vínculo entre o comunismo de Marx e os valores de amor ao próximo defendidos por Cristo. O exercício de um cargo por esses militantes é visto como uma oportunidade de contribuir para o bem coletivo, e não como uma forma de ascender na hierarquia política.
Dessa forma, muitos militantes podem parecer desinteressados no desempenho de suas funções. Entretanto, Bourdieu (1988, p.137) tem uma noção de interesse que vai para além das finalidades econômicas e que abarca os conceitos de lucro simbólico, capital simbólico, interesse simbólico. De acordo com o autor, a noção de interesse funciona como um instrumento de ruptura com a mistificação das condutas humanas. Ele afirma que os agentes sociais não realizam atos arbitrários e que não fazem sentido para as Ciências Sociais, mas suas ações são motivadas por interesses, manifestos ou não, estratégicos ou não.
“Ao introduzir a noção de capital simbólico (e de lucro simbólico), de certa maneira, radicalizamos o questionamento da visão ingênua: as ações mais santas – a ascese ou o devotamento mais extremos- poderão ser sempre suspeitas (e historicamente o foram, por certas formas extremas de rigorismo) de terem sido inspiradas pela busca do lucro simbólico de santidade ou de celebridade” (Bourdieu, 1988, p.150)
Bourdieu (1988, p.152) defende que o desinteresse acontece nos universos sociais onde ele é reconhecido, como é o caso do campo militante. Destarte, um ato aparentemente desinteressado pode trazer lucro simbólico para o agente social. No campo militante, em que a dedicação total à “causa”, e a submissão ao bem coletivo são vistos com bons olhos pelos demais agentes sociais, o militante obtém capital simbólico na sua dedicação aos valores de justiça social. Como afirma Bourdieu (1988, p. 153), a universalização apresenta seus lucros, já que em quaisquer sociedades a submissão ao bem comum é tida como conduta virtuosa.
Gaglietti (2003, p.127) mostra os fatores que influenciam na conquista de um cargo na administração pública, entre eles, o tempo de dedicação ao partido, a intensidade do engajamento, a fidelidade à legenda, a defesa das chamadas minorias, e, por último, a atuação em movimentos sociais. De acordo com o autor, os militantes mais ligados a esses movimentos coletivos têm mecanismo mais sofisticados para ocultar qualquer forma de interesse numa suposta compensação pela sua militância. Os militantes não costumam defender a sua nomeação para algum cargo, o que geralmente é feito por outro militante. Segundo Gaglietti (2003, p. 127), quanto maior é a influência dos ideais socialistas e da Teologia da Libertação sobre o militante, mais forte é a ocultação de possíveis interesses na obtenção de cargos ou na ascensão na hierarquia partidária.
4- As regras do jogo
“Com efeito, nada é menos natural do que o modo de pensamento e de ação que é exigido pela participação no campo político: como o habitus religioso, artístico ou científico, o habitus do político supõe uma preparação especial. É, em primeiro lugar, toda a aprendizagem necessária para adquirir o corpus de saberes específicos (teorias, problemáticas, conceitos, tradições históricas, dados econômicos, etc.) produzidos e acumulados pelo trabalho político dos profissionais do presente e do passado ou das capacidades mais gerais tais como o domínio de uma certa linguagem e de uma certa retórica política, a do tribuno, indispensável nas relações com os profanos, ou a do debater, necessária nas relações entre profissionais. (Bourdieu,1930, p. 169)
A política é descrita por Bourdieu como um jogo, e o bom jogador é aquele que conhece as regras do jogo. A noção de habitus descrita por Bourdieu (1988, p. 144) define que o habitus estrutura a percepção do universo em questão, bem como as formas de agir nesse universo. No campo político, o habitus abarca as competências cognitivas para compreensão desse mundo, constitui um conjunto de conhecimentos que permite interpretar os signos próprios do âmbito da política, bem como o sentido de como movimentar ‘as peças no tabuleiro’.
De acordo com Bourdieu (1989, p. 22), o habitus representa um conjunto de práticas distintivas de um determinado espaço social. As diferenças que tornam o espaço político um espaço diferente de outros espaços sociais formam uma linguagem, uma série de signos distintivos, de esquemas classificatórios e de categorias de percepção.
A leitura desses signos, o domínio da linguagem própria do espaço político e a incorporação dos seus princípios de di-visão do mundo social, são apreendidas inicialmente na militância em movimentos coletivos e, posteriormente, na militância na política partidária. O engajamento em movimentos sociais forneceu recursos importantes para os militantes, recursos esses que foram potencializados na sua entrada num partido político, como foi observado por Gaglietti (2003, p. 112). Os militantes observados por Gaglietti (2003, p. 105) adquiriram no movimento estudantil competências como a capacidade de falar bem em público, qualidade adquirida após participarem de diversas reuniões, assembléias, entre outros. O domínio de uma linguagem e de uma retórica política de que fala Bourdieu (1930, p. 169) pôde ser adquirido em parte nos espaços de socialização política encontrados em movimentos sociais.
As diversas experiências que os militantes têm nos movimentos coletivos contribuem tanto para lhes auferir prestígio junto aos demais militantes do PT, como foi observado nos estudos de Gaglietti (2003) e Coradini (2002), como oferecem recursos para incorporação do habitus da política pelos militantes. A militância em movimentos sociais é um dos fatores levados em conta para a obtenção de cargos na administração pública.
De acordo com Bourdieu (1930, p. 195), quanto mais o capital político se institucionaliza, tanto mais os militantes se distanciam da “causa” e se infiltram na busca por clientes, ou eleitores, e se engajam na conquista do aparelho, que pode lhes oferecer um retorno material ou simbólico. Dessa forma, quanto mais o capital político se institucionaliza, quanto mais postos os militantes de um determinado partido ocupam na administração pública, maior é a dedicação à reprodução do aparelho. Com a entrada no partido e o contato com a máquina pública, os militantes costumam se afastar dos movimentos sociais, como mostra Gaglietti (2003, p. 91), ao afirmar que 85% dos seus entrevistados que ocupam cargos na administração pública não participam de movimentos sociais, sendo que 94,5% deles iniciaram a militância quando pertenciam a movimentos coletivos.
5- Capital militante e capital político
Apesar da aproximação entre os movimentos coletivos e a política partidária, e as formas de conversão da experiência em movimentos sociais em capital político, é importante traçar os limites entre capital militante e capital político. Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004) formularam uma tentativa de definição de capital militante por entenderam que este é um universo do qual o conceito de capital político não dá conta. De acordo com Frédérique Matonti e Franck Poupeau (2004, p. 4), o capital político funda-se na crença que um grupo dedica a uma pessoa socialmente designada, e é baseado numa espécie de fetichismo político através do qual o grupo se identifica e se reconhece na autoridade do portador do capital político. Já o capital militante é muito instável.
“Portanto, o capital militante distingue-se do capital político, o qual é em larga medida um capital de função nascido da autoridade reconhecida pelo grupo e, por essa razão, ‘instável’, incorporado sob forma de técnicas, de saberes e savoir-faire mobilizáveis em ações coletivas, lutas inter ou intra-partidárias, mas também exportáveis, conversíveis em outros universos, portanto, suscetíveis de facilitar certas ‘reconversões’” (Matonti e Poupeau, 2004, p.5)
O que diferencia, essencialmente, o capital militante do capital político é o fetichismo que envolve o capital político e a forma como ele é mais unificado e vinculado à crença na autoridade de uma pessoa socialmente designada e na autoridade da instituição, o partido, a que essa pessoa pertence. O capital militante é mais descentrado, e apresenta um aprendizado de técnicas, de um habitus, propriamente do campo militante, um saber acumulado em manifestações e demais ações coletivas, bem como na vivência dos conflitos dentro do partido e entre os militantes de diversas tendências, ou entre os militantes de diversos partidos. O capital militante pode ser convertido para outros universos, mas Poupeau e Matonti (2004, p. 9), afirmam que ainda é necessário buscar conhecer as lógicas pelas quais o capital militante é aproveitado em outros âmbitos.
Poupeau e Matonti (2004, p. 4) mostram que o capital militante é obtido e valorizado no campo político. Os autores renunciam à visão idealista do militantismo como engajamento em partidos e movimentos coletivos motivados unicamente pela submissão a uma “causa”, seja ela a causa dos trabalhadores, dos sem-teto, dos ambientalistas, e observam que através da militância os militantes aprendem uma série de noções de como se movimentar dentro do espaço político.
6- Conclusão
Os partidos de esquerda, como é o caso do PT, costumam estar vinculados a movimentos de defesa das chamadas “minorias”, pelo seu caráter de defesa dos “oprimidos” e pela busca de ideais de justiça social. Grande parte dos militantes observados por Gaglietti (2003) e por Coradini (2002) teve experiências em movimentos sociais antes de adentrar na política partidária. Os recursos obtidos nesses espaços de socialização política puderam ser aproveitados na entrada no partido, e a participação nesses movimentos proporcionou uma espécie de iniciação no espaço político.
O capital militante obtido nessas experiências pode ser convertido em capital político. Ao adentrar na política partidária, aqueles que atuaram em movimentos coletivos muitas vezes dão um sentido de “missão” no exercício dos cargos conseguidos na administração pública. Eles também costumam instrumentalizar o seu capital escolar, e vinculam o conhecimento de diversas ciências com a utilização prática.
Os militantes costumam se passar por desinteressados. Entretanto, sabemos que o interesse rege as condutas dos agentes sociais, é ele o elemento que dá sentido às atitudes desses agentes. O interesse nem sempre está vinculados a fins econômicos, e em determinados casos pode almejar um lucro simbólico. Alguns militantes encontram lucros simbólicos na sua passagem por movimentos sociais, ou mesmo lucros econômicos. A submissão aos ideais de universalização oculta o lucro simbólico obtido com o reconhecimento na sociedade obtido pela dedicação à causa, bem como a ascensão na hierarquia partidária. Quanto mais radicais são os ideais humanitários do militante, mais requintados são os eufemismos dos ganhos obtidos através da sua militância.
O capital militante pode ser convertido em capital político na medida em que os recursos acumulados na militância são potencializados com a entrada no partido político. O domínio da linguagem própria do espaço político, e a habilidade de falar em público são alguns dos recursos obtidos nessas experiências. Além disso, a militância em movimentos sociais é um dos fatores de peso para a ascensão na hierarquia partidária.
Na medida em que os militantes adentram nas instituições públicas, a tendência é o distanciamento dos movimentos sociais e o maior apego à manutenção do aparelho político. Apesar de os movimentos sociais constituírem uma espécie de iniciação em direção à política partidária, quanto mais envolvidos se encontram os profissionais da política com a administração pública, tanto mais se afastam das antigas “causas” e se afastam dos movimentos coletivos.
Referências Bibliográficas
GAGLIETTI, Mauro. PT: ambivalências de uma militância. Porto Alegre, 2003.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. RJ: Bertrand Brasil, 1998, 2° ed.
BOURDIEU, Pierre. Espaço social e espaço simbólico. Conferência proferida na Universidade de Todai em outubro de 1989.
BOURDIEU, Pierre. É possível um ato desinteressado? In: Razões práticas para uma teoria da ação. Tradução: Mariza Corrêa.
MATONTI, Frédérique e POUPEAU, Franck. O capital militante: tentativa de definição. Tradução: Ernesto Seidl. In: Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 155, 2004, p. 5-11.
CORADINI, O.L. Escolarização, militantismo e mecanismos de participação política. In: Como se fazem eleições no Brasil / organizadoras: Beatriz M. A. de Heredita, Carla Costa Teixeira, Irlys A. F. Barreira – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
Artigo produzido por Tatiana Hora Alves de Lima, graduanda em Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe.
sábado, outubro 13, 2007
Depois de alguns amores
De encontros e desencontros
Adiquiriu certa paranóia conceitual, linguística
Implicância patológica com terminologias
Palavras como amor, paixão, agora tinham uma nova significação
Dizia que paixão era uma ilusão, o amor uma invenção
- coisa criada por aqueles que fazem o cinema-
Mas não seria amor apenas uma palavra?
Palavra no lugar do medo
O medo no lugar da dor
- já dizia o Chico-
A dor no lugar do amor
O amor que parece nunca ter existido
E a palavra fica assim, vazia de sentido.
De encontros e desencontros
Adiquiriu certa paranóia conceitual, linguística
Implicância patológica com terminologias
Palavras como amor, paixão, agora tinham uma nova significação
Dizia que paixão era uma ilusão, o amor uma invenção
- coisa criada por aqueles que fazem o cinema-
Mas não seria amor apenas uma palavra?
Palavra no lugar do medo
O medo no lugar da dor
- já dizia o Chico-
A dor no lugar do amor
O amor que parece nunca ter existido
E a palavra fica assim, vazia de sentido.
quarta-feira, outubro 10, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Pânico de semi-conhecidos
Há pessoas com as quais eu até vou com a cara, mas evito falar. Não, um semi-conhecido é sempre uma tortura psicológica pra mim. Pode parecer uma atitude esnobe da minha parte, mas a verdade é que não gosto de parar pra falar na rua com quem mal conheço. Sabe aquela pessoa, amigo de um amigo meu, Fulano que vi tal dia naquela festa, etc etc. Eu fico nervosa, olho pro lado, desvio o caminho, finjo que não vi. Tudo isso pra não ter que falar "oi, tudo bem?", nem dar tchauzinho, nem conversar sobre o tempo.
Homens de preto

Muito ouvir falar no curso de inglês, no trabalho, na faculdade sobre o aclamado Tropa de elite, que apesar de ainda nem ter estreado no cinema, já foi visto por muita, mas muita gente. Tanto falaram, mas tanto falaram, que acabei vendo o filme por acaso na casa de uma amiga, quando eu ia apenas visitá-la e falar um pouco da vida. Mas foi uma boa surpresa: um filme é fantástico, certamente um dos melhores filmes brasileiros que já vi, junto com Amarelo Manga e O cheiro do ralo. Aliás, esses filmes estão incluídos na minha lista de filmes favoritos, mas vamos à Tropa de elite.
O que mais me chamou a atenção no filme foi a forma como ele fala do tráfico. Esse foi o grande mérito. Se os filmes costumam sempre mostrar os traficantes que eram meninos pobres versus os policiais filhos da puta que entram na favela atirando, dessa vez a perspectiva mostrada é a do policial fudido, que tem medo de morrer, que tem família, e tem que subir num morro correndo risco de vida e ainda ganha um salário de fome no fim do mês.
Resultado: toda obra é pemeada pela perspectiva do policial, e ouvimos pérolas do tipo Ricos com consciência social não conseguem entender que guerra é guerra, Homem de preto qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão!, ainda assitimos a uma cena em que um policial mata um traficante, para então perguntar ao estudante maconheiro:
- Quem foi que matou ele? Me diga, quem matou esse cara?
- Eu não sei, eu não vi...
- Me diga, porra, quem matou ele?
- Você.
- Eu? Eu? Quem matou foi VOCÊ. Seu maconheiro, viado, maconheiro, viado!!!!
É. De cara, eu achei o filme reacionário, afinal, parece que a violência na favela não tem jeito, e estamos numa guerra e acabou-se, e a culpa do mundo ser uma merda é de quem fuma um baseado. Mas pense bem: o filme é na perspectiva de um policial. E se você fosse um policial fudido que tem família, tem medo de morrer, e sobe num morro correndo risco de vida para ainda ganhar um salário de fome no fim do mês, certamente você pensaria numa coisa: traficante é bandido e merece morrer, e estudante maconheiro é filhinho de papai filho da puta que merece tomar uma surra.
Pra mim foi justamente por Tropa de elite não tentar ensinar o politicamente correto, mas sim mostrar o olhar do policial que entre "ser negligente, corrupto ou ir pra guerra, escolheu ir pra guerra". O filme conta uma história em que Capitão Nascimento, Mathias e Neto tentam lutar contra a corrupção da Polícia, e não conseguem porque há toda uma estrutra enraizada na falta de ética e nas relações de poder. Tropa de elite, ao invés de achar culpados e falar de bandidos e mocinhos, faz a gente pensar sobre as regras do jogo. E elas precisam ser modificadas.
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