sábado, julho 17, 2010

Simultaneidade

- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.

Mario Quintana

O mar não é de todos


Era um dia nublado e mesmo assim eu havia ido à praia com um queridíssimo amigo. Interessante que quase sempre que marcávamos de ir à praia, o céu se fechava contra nós. Mas mesmo assim nós seguiamos em frente. A praia com o céu nublado tinha um jeito diferente. Nada como conversar com pés aconchegados na areia macia, banhar-se na água gélida que estremece e desordena o corpo, abraçar-se na toalha para proteger-se do vento frio, e ao mesmo tempo senti-lo com ainda maior intensidade.

Até que o céu finalmente se torna crepuscular. Colocamos nossas sandálias e andamos em direção ao terminal. Somos daqueles banhistas proletários. Metemo-nos no ônibus repleto de suor, de hálitos de álcool e de batucada. Ao chegarmos na entrada do terminal, um mendigo se aproxima de mim.

- Moça, me dá um trocado pelo amor de deus!

Paro. Olho para ele por alguns segundos.

- Não tenho nada, moço. Tô quebrada.

- Pelo amor de deus!

- É sério, moço. Não devia nem ter vindo hoje... Gastar grana que nem tenho... Agora só tenho o dinheiro da passagem.

- Que vida ruim. Eu não tenho nada. Eu não posso me divertir.

Fiquei surpresa. Nunca esperava ouvir isso de um mendigo. Sempre esperei por "uns trocados, por favor". Não que eu achasse que mendigos não tinham alma. É que acreditava que eles sempre seriam um personagem mecanicamente interpretado quando pedem esmolas, como aqueles que eu costumava ver por aí. Mas aquela era uma grande revelação, o seu desabafo. E eu, que estava tão contente naquele dia, disse...

- O senhor tem o mar. O mar é de todos. Tome um banho de mar. O mar é a coisa mais linda que fizeram no mundo.

O mendigo sorriu entre os dentes que lhe faltavam e no meio de uma dor imensa cravada no seu rosto. O sorriso que, consumado no mais puro desespero, chegava a doer ao sair.

Eu queria terminar esta história contando que o mendigo foi correndo em direção ao mar. E que ele se banhou nas águas purificadoras do mar, num sublime momento de catarse. Mas não. Ele apenas me disse "vá com Deus", e seguiu com seu passo arrastado, a mão erguida com insistência lânguida, e a mesma e repetida fala, a mesma e repetida voz.

sexta-feira, julho 16, 2010

Pessoas comuns

- Você me odeia? Tudo o que a gente passou foi horrível assim?
- Não. Houve momentos bons. Não te odeio. Você é apenas um homem comum. Eu, uma mulher comum.

Le mépris


Le mépris ou O desprezo (1963) é um dos filmes de Jean-Luc Godard que mais gosto. E esta obra-prima apresenta uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema. Trata-se daquele momento esplendoroso em que a belíssima Brigitte Bardot está nua deitada na cama. Ela interpreta Camille Javal, esposa de Paul Javal, um roteirista de cinema. Mas a história desse filme não me interessa agora, e sim esta cena em particular. Nunca vi o corpo feminino representado com tamanha delicadeza pelos olhos de uma câmera. Pois se como afirma Laura Mulvey em seu célebre ensaio Prazer visual e cinema narrativo, o cinema costantemente representa o corpo feminino como objeto subjugado ao olho do poder masculino, neste filme o corpo da mulher deixa de ser objeto para se tornar uma verdadeira obra de arte a ser contemplada. Os travellings flutuam sobre o corpo de Brigitte Bardot, a música é como uma adoração a ela, a variação de cores nos atenta para uma certa impermeabilidade e inconstância da relação dos dois. O diálogo entre eles é simplesmente inesquecível. Ela então pergunta...

- Você vê meus pés no espelho?
- Sim.
- Acha que são bonitos?
- Sim, muito.
- E das minhas pernas, você gosta?
-Sim.
- E você gosta dos meus joelhos também?
- Sim. Realmente gosto muito dos seus joelhos.
- E minhas coxas?
- Também.
- Me vê pelas costas no espelho?
- Sim.
- Acha que minha bunda é bonita?
- Sim, muito.
- Quer que me ajoelhe?
- Não é necessário.
- E dos meus seios, você gosta?
- Sim, muitíssimo.
- Suavemente, Paul, não assim tão brusco.
- O que você prefere, meus seios ou meus mamilos?
- Não sei. Gosto igual.
- Gosta dos meus ombros?
- Sim.
- Acho que poderiam ser mais arredondados. E meus braços?
- Sim.
- E meu rosto?
- Também.
- Todo ele?
- Minha boca, meus olhos, meu nariz, minhas orelhas?
- Sim, tudo.
- Então me ama totalmente.
- Sim.
- Te amo totalmente, ternamente e tragicamente.
- Eu também, Paul.

quinta-feira, julho 15, 2010

A mulher de verdade

Hoje, enquanto estava preparando meu almoço (macarronada feita com molho parmegiana, sardinha, ervilha e queijo), coloquei a banda Cachorro Grande pra tocar. É de lei. Só cozinho ouvindo música pra começar bem o dia. Cachorro Grande, a mesma banda que certa vez eu fui a um show, tombei no chão e fui pisoteada por alguns segundos kkkkk. Aí o meu irmão chama a atenção para a letra da música.

- Olha só, Tati, mulher de verdade é essa aqui: E quando pensa em aprontar, ela vai e apronta antes.

Achei engraçado meu irmão dizendo isso. E prestei mais atenção na letra. Letra engraçada, como todas de Cachorro Grande.

Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove

Fina flor te disse, você é um amor
E disse algo que me entedia
E era isso que eu sentia
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes

E eu realmente não creio
Que de fina flor
O cangalho esteja cheio

E me disse esquisitices
E que também vai se guardar
Para quando o carnaval chegar
E me falou dos seus romances
E quando pensa em aprontar
Ela vai e apronta antes

Dia perfeito pára na esquina
E diz goodbye, flutua como uma nuvem
She's really have a groove

Espetáculo em torno da barbárie ou Por um jornalismo atrasado


Certa vez uma queridíssima amiga jornalista me contou que um colega seu todos os dias ia fazer a ronda e, "quando não encontrava nenhum presunto", voltava triste pra redação. A ronda é o jargão jornalístico que significa sair passeando pelo IML, Delegacia Plantonista, etc, em busca de cadáveres donos de histórias horrorizantes. Quanto mais bizarro o crime, melhor. Quanto mais requintes de crueldade, melhor. Rende uma manchete bombástica.

Mas o que eu quero aqui é chamar a atenção para o lado do jornalista, um trabalhador como qualquer outro. Inclusive muitas vezes mal pago, explorado pelo patrão. Esse jornalista certamente não deve gostar de viver num mundo repleto de violência. Mas nem por isso ele deixa de vibrar com uma boa manchete. Esse é o seu trabalho sujo. E é aquela coisa. Se ele não fizer, outros farão. Há uma fila de jornalistas desempregados logo ali na porta.

Nessas horas eu me pergunto por que diabos tanto interesse em torno da desgraça humana. Temos medo e queremos saber sobre a violência que nos ronda? Isso nos deixa mais seguros? Ou temos um prazer sádico diante do grotesco?

Quando eu estava trabalhando como repórter, eu sempre me perguntava em que porra eu estava contribuindo para um mundo melhor escrevendo que fulano deu mais de 60 facadas numa mulher. Ou até que ponto eu estava fazendo um desserviço.

Vi em certa entrevista coletiva cinegrafistas de uma TV local filmando bandidos acocorados de costas para a parede. Observei policiais humilhando criminosos. Jornalistas chamando-os de filhos da puta. E, por mais que eu não quisesse me bater com um bandido daqueles, eu não achava bonita a cena. Em verdade considerava totalmente desnecessária.

Mas aí estão todos correndo pra dar sua manchete. Tem que mostrar serviço. E mostrar serviço é dar o furo jornalístico, a informação quentinha, oferecer a desgraça maior. Com riqueza de detalhes. Em tempo real.

Por isso nessas horas eu defendo o jornalismo atrasado. Sim, isso mesmo. Não o jornalismo que informa minuto a minuto sobre as bombas no Oriente Médio e os números de mortos. E sim o jornalismo que apresenta informações aprofundadas e uma análise consistente, por exemplo, da ameaça dos Estados Unidos ao Irã. Não matérias de última hora sobre os desabrigados da chuva, como se a chuva fosse uma catástrofe natural, e as vidas de gente pobre colocadas em risco não fosse uma problemática social.

Reportagens mais consistentes são produzidas sim, inclusive na imprensa sergipana, mesmo que raramente. Às vezes nos espaços mais sujos de sangue. Mas eu, que gosto do jornalismo atrasado, não estou a fim de saber quantos corpos foram registrados no IML hoje. Essa informação pura e simples não contribui EM NADA para a minha formação humana.

quarta-feira, julho 14, 2010

Cegueira partidária


Observando o comportamento de muita gente, eu percebo que grande parte das pessoas que entram para um partido político sofre do que eu chamaria de "cegueira partidária". Defendem com unhas e dentes o seu candidato. Não suportam ver um jornalista falando mal do governo. Se uma matéria critica Fulano de Tal é manipuladora, está querendo eleger o outro da oposição. Se eu falo mal da esquerda, eu sou da direita. Perdi meu direito de criticar.

Nunca fui cega por essas coisas. Aliás, eu sou uma pessoa extremamante crítica. Comigo mesma inclusive. Por isso é que não vou colocar bandeira na minha janela, não vou pintar minha cara, não vou enfeitar meu orkut, meu twitter, meu msn, sei lá o que mais, com o número de um candidato. Jamás.

Eu já trabalhei num lugar, no tempo em que o DEM era PFL e mandava aqui em Sergipe, que queria me obrigar a participar de carreatas de campanha do candidato do PFL. Pediram até para eu ser fiscal do PFL no dia da eleição. Eu recusei TODAS as vezes que exigiram que eu fizesse isso ou aquilo pelo partido. E sabia que se eles ganhassem eu nunca teria as regalias que aqueles que o fizeram teriam. E até entendo quem se submete a essas coisas em tempos como esse, quando é tão difícil ter seu ganha pão.

No fim das contas eles perderam. Agora o governo aqui é PT. E por mais que odeie a direita, e especialmente o DEM, eu não morro de amores pelo PT. Eu critico sim senhor o governo do meu estado. E não vou de jeito nenhum fazer presepada defendendo o partido.

Não gosto da política feita como se fosse Copa do Mundo. Não gosto de falar de política do mesmo jeito que se fala de futebol. Política é coisa séria. Política trata da coletividade, lida com a vida, com a miséria, com o futuro de muita gente. Por isso deve ser discutida com seriedade e crítica, e não como se fosse Argentina X Brasil na Copa.

terça-feira, julho 13, 2010

Morangos mofados

Desta vez a minha querida madrugada de insônia não é regada a filmes. Nestas horas solitárias ao som dos grilos e com a janela da varanda fechada, pois o tempo é frio (frio como às vezes a vida pode ser), eu estou cá com Caio Fernando Abreu e seu Morangos mofados. Acho que vou até de manhã com o Caio. Como demorei tanto para lê-lo,meu deus? Há tanto tempo Morangos mofados estava aqui neste computador esperando para ser lido. Aí o Caio me diz para ler ouvindo Erik Satie. Coloco pra tocar. É lindo demais sentir o que estou sentindo agora. Um escritor visceral. Eu gosto disso. Muito. Olha só o trecho que estava lendo agora...

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai- ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos. Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades,feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

Une femme est une femme

Eu podia amar essa mulher. Sim, tenho certeza disso. A sua beleza, desenvoltura, o seu sorriso de quem está de braços abertos pra me receber. Eu podia amar essa mulher. Estranho, achava que para mim só era possível amar um homem. Mas não. Eu a admiro não de uma forma fraterna, amigável, mas admiro com desejo e afeição. Porque ela parece estar explodindo o tempo inteiro diante dos meus olhos. Ela sai detrás das cortinas vermelhas e me mostra um mundo espetacular. Por ela eu nunca sentiria esse sentimento mesquinho que algumas mulheres sentem umas pelas outras. Mas adorava justamente o que fazia dela uma mulher, uma mulher como eu. Que podia chorar convulsivamente e dizer que queria morrer, mas não muito tempo depois já estava dando um riso debochado para a vida, e lutando pela vida, e dizendo na cara da vida que a ama assim cretina e ordinária do jeito que ela é. Eu podia amar essa mulher. Por que ela é assim? Por que diabos ela não ama ninguém e mesmo assim escreve e canta canções de amor? Eu podia amar essa mulher. Sim, e eu lembro dela quando escuto aquela música da Billie Holiday.

Me, myself and I
Are all in love with you
We all think you're wonderful
We do

Bom dia, dia!

Veja só que dia feio. Quanta chuva. Mas faz um frio gostoso.

Bem, amiguinhos, é hora de ir à luta. Chega de viagens, adeus farras homéricas. Agora só tenho olhos pra Deleuze, Certeau, Jameson, Stuart Hall, Jacques Aumont, Nelson Brissac Peixoto, etc etc. E já estava com saudade deles.

Na expectativa pelo dia de estudo de Matéria e memória, de Bergson, com minha querida amiga...

segunda-feira, julho 12, 2010

Num dia parti

Num dia parti sentindo saudade
No outro, náusea
Num dia a estrada parecia me levar para esquecer o inesquecível
No outro os quilômetros de distância me confortavam
Mas um dia eu ainda volto
Porque eu não amo o homem, e sim a cidade.

Olhos de ressaca

O célebre personagem Bentinho em Dom Casmurro em certo momento afirma que Capitu tinha "olhos de ressaca". Bentinho nunca conseguiu entender Capitu. Lembrei-me hoje que meus olhos de ressaca já deram muito o que falar. Olhos disso, olhos daquilo... Será que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, meu olhar está nos olhos de quem vê? Será que meu olhar muda de acordo com contextos específicos? A definição mais peculiar de todas foi essa aqui...

- Tati, você está sempre com o olhar de quem acabou de gozar.

terça-feira, julho 06, 2010

Ausência


Todo autor tem suas manias. E o cineasta japonês Yasujiro Ozu não poderia deixar de também ter as suas. É por isso que vi finais semelhantes em Viagem à Tóquio e Primavera tardia. O mesmo ator interpretando personagens diferentes e vivendo situações semelhantes: a velhice, a perda de sua única companhia, a experiência da solidão. Essa solidão Ozu nos transmite através da passagem de tempo no cinema. Em Viagem à Tóquio, com um personagem que contempla o horizonte após o falecimento da esposa, e em Primavera Tardia através de um senhor descascando uma maçã apresentando o semblante desértico depois da partida da filha que havia se casado. Porque o tempo, quando estamos sós, passa de um jeito diferente. E talvez Ozu esteja tentando nos fazer sentir sozinhos quando assistimos a um filme dele...

Amém

Durante muitos anos eu fui católica, muito católica. De rezar o terço todo dia, de ir à procissão, de passar a semana santa orando. Hoje em dia não me reconheço mais em nada disso. Mas estava pensando nesta madrugada, logo que terminei de assistir a Primavera Tardia (1949), do Yasujiro Ozu, (um desses filmes que me provoca uma sensibilidade tão sublime), que tantas orações que repeti com devoção fervorosa nada me dizem atualmente.

Lembrei da Ave Maria... algumas passagens me incomodam... "rogai por nós pecadores"... não gosto do dilema da culpa cristã, mesmo vivendo-o tantas e tantas vezes ainda hoje. E o Pai Nosso? "Não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal"... Também não aprecio referências a um mal externo...

Não obstante, recordei-me de uma oração em particular que até os dias atuais me emociona! A oração anônima atribuída a São Francisco de Assis, que sempre foi o meu santo predileto! Como é bela...

Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Ó Mestre,

fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!

segunda-feira, julho 05, 2010

Impacto fulminante (1983), Clint Eastwood


Esta madrugada está daquelas de vento frio, vento que faz zoadinhas sombrias na varanda. É mais uma madrugada em que permaneço acordada com insônia e a solução... Mooooovies!!! :D:D:D Aí hoje eu vi um filme do Clint Eastwood, Impacto fulminante, no canal TCM.

Quando olhei a sinopse da Sky e soube que se tratava de um filme sobre uma garota, Jennifer Spencer, que sai por aí matando um por um os homens que estupraram ela e sua irmã há 10 anos atrás, eu pensei logo: ADORO filme de vingança! E me lembrei de um dos meus filmes prediletos, Kill Bill 1 e 2, do genial Quentin Tarantino.

Certamente Tarantino bebeu da fonte desse filme pra realizar o Kill Bill. Há muito dos trejeitos de Jennifer Spencer em Beatrix Kiddo, protagonista do Kill Bill. Só que o filme de Eastwood não tem a maestria do Tarantino na condução da narrativa e apresenta flashbacks extremamente toscos e personagens malvados risíveis. Quando o Tarantino vai fazer um flashback tosco, ele brinca com isso e dialoga com linguagens como a dos quadrinhos. E seus personagens perversos são risíveis não por serem patéticos, e sim porque são muito sarcásticos.

Mas tanto Tarantino quanto Clint Eastwood se inspiraram e muito no mestre do faroeste, o John Ford. E o tira Hanry, de Impacto Fulminante, tem uma postura e uma visão de mundo de justiceiro do Velho Oeste, algo que lembra o querido ator de John Ford, o John Wayne. Ele não é um tira como qualquer outro, ele é um policial marginal. Mas ao contrário dos protagonistas de O homem que matou o facínora (1962), de John Ford, que buscam estabelecer os valores da Lei e a afirmação do poder do Estado na selva do Oeste, o tira Hanry costuma passar por cima das regras da sua profissão, agindo como justiceiro, e é um inconformado com a impunidade da Justiça. Esse sistema para Hanry é falido. Por isso ele é marginalizado entre os colegas de profissão. E perseguido pelos criminosos impunes.

Só que Hanry acaba sendo incubido de investigar o caso que envolve o assassinato de vários homens que receberam tiros nas bolas. A assassina? Ela, Jennifer Spencer. Aí está uma boa sacada de roteiro cinematográfico: tanto Hanry quanto Jennifer são revoltados com a impunidade e gostam de fazer justiça com as próprias mãos, mas estão em lados contrários da mesa.

Não obstante, eu fiquei com uma dúvida. Por que diabos uma mulher bissexual com jeito masculinizado foi a responsável por levar Jennifer e a irmã para serem estupradas por vários marmanjos num parque de diversões? Seria essa mulher a encarnação de uma fantasia do imaginário machista? Fica a pergunta.

Necessária solidão

Às vezes parece que ninguém entende. Sou constantemente criticada por ser uma pessoa afeita à solidão. Chamam isso de mania de instrospecção, medo de gente, esnobismo, egoísmo até.

Quantas e quantas vezes acharam que eu estava triste, quando em verdade só queria ficar no meu canto. Afinal, apesar de gostar muito da companhia de pessoas bacanas, eu também adoro estar só comigo. Porque sozinha eu sinto o mundo de um outro jeito e preciso deixar meus pensamentos irem longelongelonge...

É por isso que amo tanto este poema do Drummond...

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

domingo, julho 04, 2010

Pulp Fiction!


Perdoem-me os politicamente corretos, mas o meu humor negro desgraçado me faz vibrar quando assisto a Pulp fiction (1994), do Tarantino, um dos meus diretores favoritos, e vejo o Jules Winnfield, interpretado por Samuel L. Jackson, recitar o seguinte salmo antes de dar fim a alguém:

Ezequiel 25:17
"O caminho do homem justo esta bloqueado por todos os lados pelas iniquïdades dos egoístas e a tirania dos perversos. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, é pastor dos humildes pelo vale das sombras. Pois ele é o verdadeiro guardião de seus irmãos e salvador dos filhos perdidos. Exercerei sobre eles vingança terrível, furiosos castigos, aos que tentarem destruir meus irmãos. E ficarão sabendo que eu sou o Senhor quando eu executar sobre eles a minha vingança."

Desassossego

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a
minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade
repugna; ou a ação, para que não nasci ou o sonho, para
que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum;
mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo
uma coisa com outra.


Fernando Pessoa em Livro do Desassossego.

Domingo

Tomar um café. Acender um cigarro. Ter aqueles pensamentos que a gente só tem quando está sozinha. Um domingo de vento gostoso que afaga a alma.

Hoje estive pensando no quanto a minha alma está quieta. E inquieta também. Mais quieta do que em outros tempos. Nessas horas eu só queria uma rede pra me balançar.

Andei refletindo sobre algumas atitudes que tomei. E eu nunca as entendi. Parece que eu estava fungindo de alguma coisa. Às vezes acho que sou uma eterna fugitiva.

Uma fugitiva que espera, espera, espera na sala de embarque. E que no desembarque sai às pressas toda atrapalhada com as malas nas mãos. Que não vê a hora de chegar em casa. E quando chega em casa se consola com as paredes de casa. Mas me inquieto de novo com as paredes de casa.

Agora, temporariamente, sinto-me bem com esta varanda, este vento, esta tarde de domingo...

quinta-feira, julho 01, 2010

Amor na tarde (1957), Billy Wilder


Aproveitei a perseguidora insônia para assistir nesta madrugada a Love in the afternoon , exibido no canal TCM. E tenho a impressão de que a protagonista Ariane está mais para Norma Desmond em Crepúsculo dos deuses (1950) do que para Phyllis Dietrichson em Pacto de sangue (1944), outros filmes de Wilder.

Explico. Em Crepúsculo dos deuses, Norma Desmond é uma atriz decadente de Hollywood que, no entanto, não deixou de viver a fantasia das estrelas do cinema. É uma mulher capturada pelo sonho da sétima arte. Já em Pacto de sangue, Phyllis é uma típica femme fatale: ela usa o amante, agente de seguros, para dar um golpe no marido.

Apesar de representar o papel de típica femme fatale para o Sr. Frank Flannagan , um milionário boa-vida que gasta seu tempo viajando por aí e tendo relações efêmeras com muitas mulheres, Ariane não passa de uma garota ingênua. E ela usa casaco de femme fatale, imita tais personagens do cinema noir no modo de falar, na postura, nos gestos, mente sobre casos e mais casos que teria tido com homens, tudo para ludibriar e conquistar o mulherengo rico.

Todas as histórias que ela narra são de casos investigados pelo seu pai, Sr. Chavasse, que é detetive em Paris. Temos a figura do detetive enquanto narrador, tão presente no cinema noir. Alguns podem classificar esse filme como comédia romântica, mas acredito que é uma visão equivocada da obra. Trata-se, em minha opinião, de um filme que revela tamanha maturidade de Billy Wilder na incursão pelo cinema noir, que ele chega a reverter os papéis típicos desse gênero cinematográfico.

Afinal, temos uma falsa femme fatale. Se a femme fatale é geralmente a mulher que engana os homens para mais tarde se revelar adúltera, interesseira, promíscua, Ariane faz o milionário crer que ela é tudo isso, para depois Flannagan descobrir que ela era apenas uma jovem sonhadora que toca violoncelo.

É por isso que acho que o filme de Wilder é sobre as espectadoras do cinema noir, aquelas "mulheres comuns" que viviam numa sociedade machista e encontravam na figura da femme fatale uma espécie de libertação. É como se Ariane fosse o equivalente cinematográfico de uma Madame Bovary, de Flaubert. E ela se encantou por essa personagem da mulher que desafia as convenções sociais perscrutando nada mais nada menos do que o arquivo do seu pai. Mas não seria o seu verdadeiro pai o próprio Billy Wilder?