segunda-feira, junho 21, 2010

A estrada

O mundo às vezes parece tão distante de mim
que de repente paro e me dou conta de que não é o mundo que segue para longe
mas sou eu quem tomou rumo numa estrada infinita
que leva para não sei onde

Um dia acordarás

Um dia acordarás num quarto novo
Sem saber como foste para lá
E as vestes que acharás ao pé do leito
De tão estranhas te farão pasmar,
A janela abrirás, devagarinho:
Fará nevoeiro e tu nada verás...
Hás de tocar, a medo, a campainha
E, silenciosa, a porta se abrirá.

E um ser, que nunca viste, em um sorriso
Triste, te abraçará com seu maior carinho
E há de dizer-te para o teu assombro:

- Não te assustes de mim, que sofro há tanto!
Quero chorar - apenas - no teu ombro
E devorar teus olhos, meu amor...


Mario Quintana em Apontamentos de história sobrenatural

sábado, junho 19, 2010

A função do poeta é dar a ver


Atualmente tenho me debruçado sobre a obra de um grande escritor pernambucano: João Cabral de Melo Neto. E também sobre artigos, teses e dissertações a respeito dele, afinal, meu objetivo é levar adiante esses estudos sobre Cabral. E, apesar de alguns estudos sobre Cabral me ajudarem a compreendê-lo, é interessantes ver alguns equívocos a respeito de sua obra. Como um artigo que afirmava que Cabral via Sevilha como a cidade ideal e o Recife a partir da crítica social (que eu cheguei a citar), quando mais tarde encontrei indícios de problematização da sociedade sevilhana em Andando Sevilha.

Hoje eu estava pensando sobre o que me chamava tanta atenção neste poeta. Obviamente que, como muitos sabem, gosto muito do Recife, e já que é uma cidade constantemente representada na poesia de Cabral, isso me despertaria interesse. Mas não é só isso.

Apesar de no início Cabral ter se inspirado bastante no surrealismo na escritura de poemas como Pedra do sono, depois ele enveredou pelo racionalismo e pelo materialismo. Não que poetas irracionais e/ou transcedentais sejam inferiores a Cabral, mas é na sua poesia que eu acredito. Tenho ressalvas quanto à sua concepção da escrita do verso a partir do trabalho, entendimento esse que vai de encontro à ideia de que a poesia é produzida a partir da inspiração. Mas não deixo de concordar com sua crítica ao "mito da criação", da genialidade do artista, etc.

Mas o que eu mais admiro nele é o seu materialismo. Como ele mesmo disse, ele escreve sobre coisas como um copo d'água, e não sobre emoção ou saudade. Só que ele coloca a emoção justamente no bendito copo d'água. Ele CONCRETIZA. Certa vez ele afirmou que gostaria de ter sido cineasta. Pois ele tinha plena consciência de que um poeta, assim como um cineasta, trabalha com imagens.

Afirmou Cabral a respeito do poeta Murilo Mendes:
Sua poesia me ensinou que a palavra concreta, porque sensorial, é sempre mais poética do que a palavra abstrata, e que assim, a função do poeta é dar a ver (a cheirar, a tocar, a provar, de certa forma a ouvir: enfim, a sentir), o que ele quer dizer, isto é, a dar a pensar

Aos poucos vou descobrindo essa relação de Cabral com o cinema e a paisagem... Vamos ver no que dá esta pesquisa!

Imagem: documentário Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto, de Bebeto Abrantes.

A aventura de um roteiro

Hoje me dei conta de que existem várias coisas que eu queria aprimorar na minha vida, mas deixo encostadas de lado. Entre elas violão, artes marciais (que eu sequer tentei aprender) e ginástica olímpica (impossível a essa altura do campeonato e não sou magricela). Mas agora decidi tentar uma que eu não citei ainda: o roteiro cinematográfico. Percebi que vivi uma situação que dá um roteiro para um curtinha. E sei que meu professor de Roteiro afirmou que não devemos escrever sobre coisas que aconteceram com a gente, mas tão somente nos inspirar nelas. No entanto, não ligo patavinas para isso. E neste blog relatarei a minha aventura em construir um roteiro de cinema. Será inclusive uma forma de me cobrar a colocar esta ideia em prática.

Aí vem a pergunta: você quer filmar? Sim, sim! Como eu ainda não sei, mas tenho certeza de que quero dirigir também. Mas isso é problema pra depois de o roteiro estar finalizado.

O primeiro passo é pensar nas referências. E posso dizer que minha protagonista é a la Fassbinder (especialmente o filme Fear eats the soul, que não sei como é o título nem em alemão nem em português), e o curtinha merece uma atmosfera de Fellini e Almodóvar. Por isso vale rever Fassbinder, Fellini e Almodóvar e também assistir a filmes deles que ainda não vi.Mãos à obra!

sexta-feira, junho 18, 2010

Este quarto...

Hoje resolvi abrir aleatoriamente o livro Apontamentos de história sobrenatural, de Mário Quintana, para catar uma poesia buscando alguma mensagem dos deuses. Foi essa aqui que eu encontrei:

Este Quarto...

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa esse quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

Paul


Hoje é aniversário do Paul McCartney e eu não poderia deixar de fazer minha pequena homenagem a ele! Porque ele fez a melhor parceria de todos os tempos: Lennon e McCartney! Porque eu amo muito, muito, MUITO os Beatles, e me sinto eternamente feliz ouvindo obras-primas como I'm only sleeping, Because, You've got to hide your love away, I'm so tired... Porque TODOS os albuns dos Beatles são LINDOS, inclusive eu gosto também dos discos da fase iê iê iê e ninguém tem nada com isso kkk, e não tem coisa melhor do que ouvir Beatles de manhã, e os álbuns mais fodas são White Album, Rubber Soul, Abbey Road, ou será que são todos? Salve, salve!
Um dia difícil.. tentando me concentrar pra focar nos meus objetivos, pra colocá-los em prática. Sensação de "é o começo"... Tentando ser o mais forte possível também.

Tentanto reconstruir

É difícil imaginar um mundo longe do lugar onde você sempre morou, da sua família, daquela sensação de estar protegida. Mas, ao mesmo tempo, sinto que é cada vez mais necessário "me reconstruir". Sinto que tudo o que está aqui já não pode me render mais frutos, não haverá grandes novidades. Eu preciso de outro lugar, outra atmosfera, conhecer outras pessoas. E sempre me imagino interpretando uma personagem diferente neste outro mundo. Como se eu mesma quisesse ser outra pessoa. Assim como uma fugitiva mesmo.

quinta-feira, junho 17, 2010

Cadê minha banda de rock?

Eu vivo dizendo que meu sonho mesmo é ter minha banda de rock. Tá, eu não toco tão bem assim pra ser guitarrista de porra nenhuma. Mas enfim... Imagina só viver viajando, tocando... Claro que eu queria que minha banda fosse mais ou menos famosa. Como assim? Mais ou menos famosa po! O suficiente pra eu e minha galera descolar uma graninha, mas não tão conhecida que a gente tivesse que aturar pessoas enchendo o saco. E outra que acho style tocar em palquinho, em lugar pequeno cheio de fumaça e com alguns bêbados ao redor. É.. mas não daria pra sobreviver assim ne? Sobreviver... Esse sempre foi o problema em VIVER!

domingo, junho 13, 2010

Um céu de estrelas (1996), Tata Amaral


Se a violência contra a mulher é geralmente abordada em termos de uma dicotomia mulher=vítima versus homem=algoz, o filme Um céu de estrelas (1996), de Tata Amaral, vai de encontro a qualquer elaboração maniqueísta da relação entre Dalva e Vitor.

Este é um filme que apresenta um ritual de violência e desejo, duas faces de uma mesma moeda. A cena de sexo entre Vitor e Dalva não é gratuita: ela evidencia que ambos concordam com o jogo, e que existe um forte prazer sado-masoquista na relação dos dois. Ao ponto de eles fazerem sexo logo após Vitor matar a mãe de Dalva. É por isso que Vitor afirma, quando Dalva grita desesperada que ele matou a mãe dela, que quem a assassinou "fomos nós". A ambiguidade dos papéis dos personagens é uma característica típica do gênero thriller que Tata Amaral soube aproveitar muito bem neste filme.

E é isso que aproxima Um céu de estrelas de uma obra como Veludo azul (1986), de David Lynch, em que também vemos uma vítima conivente com a violência do algoz, e a distancia de um filme como Dormindo com o inimigo (1981), de Joseph Ruben. Por mais que o "inimigo" de Julia Roberts no filme em questão seja extremamente sedutor, ela jamais é cúmplice da violência que sofre.

O filme de Tata Amaral tem algo da atmosfera de filmes sobre amores devastadores, a exemplo de obras de Truffaut, como A mulher do lado (1981) e Jules e Jim (1962), amores esses que levam ao limite a sua capacidade de destruição e findam em morte.

Inclusive o lado destrutivo do amor se faz bastante presente num cineasta como Almodóvar. E existe algo da personagem Kika, de filme homônimo de Almodóvar, em Dalva. As duas são cabeleireiras, as duas são feitas de refém, utilizam figurinos semelhantes, e tanto Um céu de estrelas quanto Kika abordam o espetáculo televisivo em torno do trágico.

E o último plano do filme, elaborado do ponto de vista da câmera da TV que acompanhava do lado de fora da pensão a operação da polícia para tentar prender Vitor, revela a ambiguidade da vítima, pois vemos Dalva segurar a arma ao lado de Vitor morto e ela apresenta um olhar perdido diante da câmera. Mas o plano do ponto de vista da câmera televisiva aponta também um outro pervertido além de Dalva e Vitor: o próprio espectador, o voyeur por trás da subjetiva da TV.

sábado, junho 12, 2010

Titicut Follies (1967), Frederick Wiseman


Um documentário que apresenta o cotidiano de um Instituto para Criminalmente Insanos de Bridgewaters, Massachussets, revela-se problemático partindo-se do princípio da ética da representação. Vemos os maus tratos concedidos por guardas e a intolerância de médicos diante de pessoas consideradas esquizofrênicas, e também observamos essas pessoas viverem momentos em que sua dignidade é totalmente desrespeitada. Se falarmos em não expor os personagens do documentário em situações vergonhosas, esse filme não seria possível - ou talvez corresse o risco de esconder a crueldade de uma instituição como a de Massachussets.

O questionamento da ética deste documentário se dá também em virtude da escolha do método. Wiseman adota o modo observacional, aquele em que a câmera está ali escondida assistindo a tudo, concedendo um prazer vouyerístico de contato com o real.

De modo que o diretor adota o que eu vou chamar de uma estética do enfrentamento, na qual personagens estão envolvidos numa relação de poder entre si e com a câmera. A produção dessa estética de enfrentamento ocorre, por exemplo, na cena em que Vladimir, um homem aparentemente consciente da sua fala, afirma para um psiquiatra que não é louco e que estar naquele lugar só trouxe malefícios a ele. O psiquiatra a todo momento nega a sanidade de Vladimir, e a câmera acompanha a relação conflituosa entre os dois através de zooms rápidos e mudanças bruscas de foco, e também com uma câmera na mão com muito movimento.

O enfrentamento também se dá quando um homem que havia sido humilhado pelos guardas por ter sujado o próprio quarto marcha nu com passos fortes até se encostar num canto da parede e encarar a câmera. Não seria a câmera também opressora com aquele personagem? O olhar dele parece cristalizar uma revolta e enfrentar aquele que o observa.

Mas se vemos diversas cenas de maus tratos, também presenciamos momentos como aquele em que um velhinho canta sorridente perto de uma televisão "Chinatown, Chinatown". Não obstante, nada que nos faça esquecer por um instante sequer da brutalidade daquele lugar.

Apesar de o instituto parecer algo separado da sociedade, a instituição mental traz as marcas da sociedade onde ela existe. E é por isso que assistimos a um homem negro bradando dizeres nazi-fascistas contra os próprios negros. O clima político dos anos 60, aliás, está presente no filme através da fala de um interno que afirma: chamam a nós comunistas de criminosos, quando na verdade queremos fazer do mundo uma grande comunidade. Outro interno o contesta e brada que os comunistas são tão autoritários quanto qualquer outro governo.

E o autoritarismo do que Foucault chamou de sociedades disciplinares, aquelas que encontram no corpo um foco do exercício do poder, se faz evidente na cena em que Vladimir enfrenta uma banca de psiquiatras que avaliam o seu estado psíquico. Diante da afirmação de Vladimir, que contesta sua insanidade e afirma que o excesso de medicamentos está lhe fazendo mal, os médicos respondem concluindo que ele apresenta um quadro de esquizofrenia paranóica crônica, pois fantasia com a perseguição dos médicos, e receitam uma maior quantidade de tranquilizantes.

Os internos, no entanto, não são somente vítimas. Numa cena do documentário, observamos um interno relatar a um psiquiatra que abusou sexualmente de uma criança de 11 anos e também da própria filha. É como se o exercício de poder sobre o corpo estivesse em toda parte.

O corpo submetido ao poder pela disciplina é exposto nu no filme. É um documentário que coloca o corpo em evidência. Inclusive a cena em que um padre faz a extrema unção de um interno aponta isso. O padre lança água benta sobre a boca do paciente e diz: que Deus perdoe os pecados que você cometeu pela boca... e segue pelo resto do corpo. Este corpo que é o antro da impureza e do pecado, finalmente se separa do espírito na morte. Esse espírito é símbolo da pureza e é preparado para encontrar o mundo etéreo de Deus. Mas Wiseman mostra o caixão que contém o corpo sendo colocado numa gaveta para ser incinerado. Como diz o padre que realiza a extrema unção: "aquele que veio do pó, ao pó retornará".

A Folha é uma graça

Neste sábado acessei a página da Folha Online e encontrei uma manchete que não poderia deixar de me provocar risos. O título: PT fez dossiê com dados sigilosos de vice-presidente do PSDB. A matéria é apresentada na íntegra somente na versão impressa. O fato é que a reportagem afirma que a equipe de inteligência da candidatura de Dilma Roussef elaborou um relatório que aponta que o vice-presidente do PSDB, Eduardo Pereira, recebeu três depósitos no valor de 3,9 milhões de reais, além de outras informações sobre o seu Imposto de Renda.

A questão é: a Folha de São Paulo ressalta na matéria a ousadia da equipe de inteligência em obter dados SIGILOSOS, algo que é reforçado no título. Fora isso, consta um depoimento do próprio Eduardo Pereira declarando que trata-se de uma repetição do método do PT nas eleições.

Minha pergunta é: e se fosse o contrário? A manchete seria outra: VICE-PRESIDENTE DO PT RECEBEU TRÊS DEPÓSITOS DE QUASE 4 MILHÕES. No texto, um depoimento de algum tucano afirmando: "São esses ladrões que governam o nosso país".

Ainda falam em objetividade, neutralidade e imparcialidade no jornalismo. VOCÊ ACREDITA NISSO?

Leia aqui a matéria da Folha Online.

sexta-feira, junho 11, 2010

Certa manhã acordei com saudade

Hoje de manhã vi um documentário gravado no sertão, chamado Aboio, de Marília Rocha. O documentário acabou despertando em mim uma saudade imensa do sertão. Faz tempo que não vejo minha avó, faz tempo que não presencio aquele céu tão estrelado, nem sinto aquela noite que toca a pele de um jeito macio, aquele frio gostoso que faz a gente vestir um casaco e abraçar o próprio corpo. Saudade de tomar banho de rio, de deixar todos os males serem levados pelas águas do rio, de ser batizada pelo esquecimento do rio. Saudade de me perder nas estrelas enchendo o céu, que evidenciam a inifinitude do universo, como uma prova de que não conheço o sentido do mundo, somente os meus sentidos. Quanta saudade! Saudade sempre foi meu sentimento favorito...

quarta-feira, junho 09, 2010

No consultório médico

Eu não gosto de ir ao médico. Detesto ficar numa fila, passar horas esperando, essas coisas. Eu tenho que estar realmente MORRENDO pra ir a um médico. Ou, como foi o caso dessa tarde, tendo a obrigação de fazer exame admissional. E, para minha surpresa, a simpática senhora sentada ao balcão me revelou que a "doutora" só chegaria às 16h. Respondi que a consulta estava marcada para as 15h. A senhora então me contou que a tal médica estava em Carmópolis e só chegaria nesse horário.

Sentei-me. Estava cansada, havia caminhado muito hoje para resolver coisas. E quem não tem carro resolve coisas de um jeito muito devagar. A sala em frente ao consultório estava vazia. A simpática senhora então ergueu o controle e ligou a televisão com ares de tédio.

- Assista aí uma TV pro tempo passar mais rápido.

E ela voltou-se para a tela do computador. Seu rosto tinha sabor de solidão. Aquela tarde tão vazia, nublada, letárgica e solitária. Comentei que não gostava de ver televisão. Eu disse ainda que estava muito cansada, e que em momentos como esse sentia muita falta de um carro. Ela então se mostrou bastante conversadeira e passou a falar sem parar.

Se num primeiro momento eu fiquei impaciente com a sua tagalerice, logo eu já estava bastante interessada nas suas histórias da vida. Eu gosto de ouvir as pessoas. Talvez por isso eu seja jornalista, talvez por isso eu tenha também pensado em cursar Psicologia - mas sou doida o bastante para saber que não cabe a mim essa função.

A simpática senhora começou me contando que morava com os pais e costumava ir à academia. Achei sua vida uma chatice. Ora, o que uma mulher com mais de 50 anos fez até então com um cotidiano como esse? Mas logo depois ela me revelou que morou durante mais de 10 anos nos Estados Unidos. Partiu para lá com o marido, com quem dividiu o teto, os pensamentos e o corpo durante 30 anos.

- Ele sempre dizia: quando você completar 50 anos, eu vou trocar você por duas de 25. Não gosto de mulher velha, eu gosto de meninas novas!

Ela me contou que sempre respondia afirmando que duvidava que alguma menina jovem quisesse um velho de 60 anos. Mas ele cumpriu a promessa: ela descobriu que ele tinha um caso com duas mulheres de 20 e poucos anos. "Uma chinesa e uma brasileira", ressaltou ela. Por fim ele largou a chinesa e se casou com a brasileira, com quem teve um filho.

A simpática senhora comentou que adorava a internet porque podia conversar sempre com seus filhos, seus netos, que estavam nos Estados Unidos. Ela me mostrou as centenas de fotos nos perfis do orkut deles cheia de orgulho. Comentou que sentia saudade, mas que agora sua missão era outra, pois seus filhos já estavam criados, casados, e agora ela tinha que cuidar de seus pais velhinhos.

Foram muitas fotos do seu netinho, que vivia pedindo para que ela não mandasse o presente por avião, mas trouxesse junto com ela, para ele poder vê-la lá nos Estados Unidos.

Das fotos do netinho, ela partiu para as fotos de quando ela morava numa casa de praia em Barra de São Miguel. Uma casa rústica, a foto em preto e brano, ela junto com os filhos e as marcas do passado sobre um negativo fixadas pela luz.

Depois uma foto da filha. "Essa era a minha filha". Perguntei de que ela havia morrido. Ela contou que sua filha morreu de leucemia aos 13 anos.

- Esse pano aqui na cabeça dela é porque ela já tinha perdido os cabelos, comentou com carinho de mãe que cuidou o quanto pôde, mas nada conseguiu fazer diante das fatalidades da vida.

Ao ver a imagem de uma criança tão bonita e com as feições pálidas, delicada, frágil, ao lado de uma mãe tão bela e forte como uma verdadeira fortaleza, eu não pude deixar de me emocionar. Contive as lágrimas nos olhos, não podia chorar por isso, a simpática senhora me acharia uma louca.

Após finalizada a consulta, fiz um gesto tímido de adeus para a simpática senhora assim que saí do consultório da médica. E parti, sem ao menos saber o nome dela.

segunda-feira, junho 07, 2010

I can't sleep

Quando eu tenho insônia é óbvio que é porque meus pensamentos vão a mil. Aí eu levanto e minha nerdice me conduz até o computador. Encontro outras pessoas com pensamentos a mil e resultado: os papos mais estranhos, crises existenciais, etc etc. E isso só contribui pra eu ficar mais acordada ainda. Vou deixar de assistir ao filme que eu veria de manhã cedo no Canal Brasil. Merda!

domingo, junho 06, 2010

Ó pai, ó


Hoje finalmente vi o tão falado Ó pai, ó, e devo dizer que achei o filme uma grande bosta! As inserções videoclípticas - um ar de musical a la MTV, a câmera na mão com excesso de cortes, as baianidades estereotipadas, a atuação excessiva que lembra o teatro... Mas o pior mesmo foi o final. A montagem alternada que mostrava a imagem de uma mãe que desmaia após ver os dois filhos pequenos mortos e saltava para planos do carnaval de Salvador me causaram uma séria repugnância. Acho que o filme não soube ter o devido respeito pela morte de duas crianças assassinadas por um policial. E me pareceu que o filme tentou apresentar ares de crítica social, todavia o desejo de oferecer um final feliz ao espectador acima de tudo suplantou qualquer reflexão mais profunda acerca de problemas sociais. E a representação acabou sendo desrespeitosa. Em nome de todas as crianças pobres que sofreram abuso de poder por parte dos aparelhos repressivos de estado.

Isn't ironic, don't you think?

Uma vez um menino fantástico - legal, bonito, faz meu tipo, inteligente e engraçado- me disse que tempos antes do seu relacionamento (que dura até hoje) sempre reparava em mim, e inclusive era a fim de mim. Só que eu nunca reparei nele. Quando eu finalmente prestei atenção nele, ah, já era tarde!
Às vezes eu enjôo de alguns amigos. Dizem: excesso de contato dá atrito. Quando isso acontece, o melhor mesmo é passar um tempo distante. Tempo e distância são santos remédios.

sábado, junho 05, 2010

Jornalismo ruim, público pior

Uma coisa que me emputecia muito na minha vida de redação de jornal era a tal corrida pela manchete.Quem vai dar a notícia da bomba e EM PRIMEIRÍSSIMA MÃO. No mundo do jornalismo isso vale muito mais do que uma reportagem aprofundada sobre algum tema. Não que uma reportagem bem feita e com um olhar diferenciado não tenha seu valor. Mas, repito, uma bomba em primeira mão faz muito mais efeito.

E aí que na maior parte do tempo o que um jornalista procura é DESGRAÇA, dizer coisas negativas sobre o mundo. E os assessores, do outro lado, se irritam com as investidas dos jornalistas de redação. Já vi assessor ser mal educado, mandar tirar informação da matéria, mentir descaradamente, entre tantas outras práticas deploráveis. Uma coisa que eu percebi: a grande maioria dos assessores daqui do estado não sabe lidar com jornalistas. Eles são emotivos demais, tomam as dores demais, e sabem pouco sobre o assessorado. Tirando algumas raras e ilustríssimas exceções que são pessoas educadíssimas, bem informadas, ágeis e prestativas.

Mas não é só a maioria dos assessores que é imatura. A maioria dos jornalistas também. Ficam tão loucos atrás de ferrar os outros, que tantas e tantas vezes faltam com a ética, desferem acusações imprecisas, tudo isso porque estão doidos atrás da tal MANCHETE. Eslcarecimento não dá Ibope. Escândalo sim.

E no meio disso tudo, eu ainda acho que o público poderia pensar melhor sobre o que quer da mídia. Se a mídia é assim assado é porque o público contribui com isso TAMBÉM. Uma reportagem aprofundada... iiih, passa... UMA NOTÍCIA BOMBÁSTICA E SENSACIONALISTA... uau! essa sim... Aí não dá né?

terça-feira, junho 01, 2010

Justiça



Recentemente assisti ao documentário Justiça, de Maria Augusta Ramos, e, seguindo a minha típica mania de ler críticas após ver filme, eu li diversos ataques com relação ao documentário. O foco era uma suposta representação maniqueísta dos personagens do filme.

Isso porque uma juíza é representada como uma mulher fascista, que acredita que a solução para os problemas do mundo está em prender ladrões de galinha. No final do filme, a juíza chega ao posto de desembargadora, numa cerimônia em que ela é elogiada por livrar a sociedade dos tais bandidos.

As análises que eu li criticavam justamente o fato de o documentário não expor nada que a torne mais "humana", pois, ao contrário do que faz com a defensora pública, o filme nunca chega à intimidade da juíza.

Só que a pergunta que eu faço é: será mesmo que a cineasta tem a OBRIGAÇÃO de apontar o lado "bom" de uma mulher que, diante de um homem na cadeira de rodas, não cansa de acusá-lo de ter cometido um assalto e PULADO UM MURO? Será?

Será que a cineasta não tem mesmo o direito de dispensar a construção psicológica de um personagem no documentário em nome da representá-lo como signo de algo muito maior?