domingo, maio 30, 2010

Cine(poe)ma: o Recife em O cão sem plumas e Recife de dentro pra fora


1- Documentário poético: dois gêneros de duas linguagens
Se na Antiguidade a poesia era cantada, mesmo nos versos escritos para serem lidos silenciosamente, no gênero lírico permanece uma confluência entre a palavra e a música através do ritmo, das rimas, dos refrãos, da sonoridade própria dos vocábulos (STALLONI, 2003 p.24). Essa conjunção entre música e poema se faz presente em O cão sem plumas através da musicalidade criada pela repetição de palavras, e é introduzida na estética do documentário Recife de dentro pra fora, de Kátia Mesel, que percorre as águas do Rio Capibaribe ao som do poema de João Cabral de Melo Neto cantado por Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Elba Ramalho.

No gênero lírico, “o poeta abandona o domínio da imitação da realidade em troca daquele da introspecção individual” (STALLONI, 2003 P.135). Ora, não é diferente no caso do documentário poético. Esse tipo de documentário vai de encontro às expectativas comuns em relação ao gênero cinematográfico definido geralmente em termos de objetividade. Tomemos a definição de Jacques Aumont e Michel Marie, no Dicionário Teórico e Crítico de Cinema: “o filme documentário tem, quase sempre, um caráter didático ou informativo, que visa, principalmente, restituir as aparências da realidade, mostrar as coisas e o mundo tal como eles são” (AUMONT e MARIE, 2003 p.86). Como observa Bill Nichols (2008, p.138-140), o documentário poético submete o mundo histórico às impressões subjetivas e fragmentadas do cineasta.

Apesar de imersos na dimensão subjetiva, tanto o poema quanto o documentário poético podem tratar de temas sociais. O documentário poético, aliás, herda do modernismo a relação lírica com o mundo histórico (NICHOLS, 2008 p.139). Vale ressaltar que João Cabral de Melo Neto é um poeta modernista e, segundo Angélica Soares (2007, p.26), “o lirismo moderno é de conteúdo explicitamente social”. Destarte, o lirismo moderno se afasta da definição de lirismo vinculada aos problemas individuais, que se distinguia assim na Antiguidade em relação à epopéia, a qual tematizava as grandes questões coletivas, para restaurar a dimensão social típica da epopéia no olhar subjetivo. Podemos observar tanto em Kátia Mesel quanto em João Cabral uma preocupação com as contradições de uma cidade como o Recife, repleta de desigualdades sociais e de dilemas entre o progresso e a natureza, a metrópole e a miséria.

O modo como o poeta João Cabral de Melo Neto observa essa realidade social é através da aproximação, assim como a cineasta Kátia Mesel chega mais perto do rio Capibaribe, do mangue, do Recife pelas lentes da câmera. Desde sempre o gênero lírico foi marcado pela “eliminação do distanciamento entre o eu lírico e o objeto cantado”, pois no lirismo ocorre tantas vezes a “fusão entre sujeito e objeto” (SOARES, 2007 p.24). Assim também ocorre no caso do documentário poético. Tomemos como exemplo o tipo de documentário designado por Jean-Claude Bernardet (2003) como modelo sociológico. Nessa forma específica de documentário, “os entrevistados são a amostragem – são o objeto da fala do locutor, que se constitui sujeito do saber” (BERNARDET, 2003 p.18). Mesmo que o documentário poético em questão não apresente entrevistados como donos da voz do filme, os moradores da periferia do Recife não são representados como exemplos de alguma verdade sociológica, nem a realidade em questão é submetida a avaliações que pretendam chegar a conclusões científicas, mas a obra busca tão somente poetizar o Recife e suas contradições sociais.

Mesel não acredita no dualismo que separa ficção e documentário, dicotomia essa que Leon Hirszman defendeu durante boa parte de sua carreira, segundo a qual a criação ficcional é produto da imaginação, ou seja, é fruto de um olhar para dentro, enquanto o processo de construção do documentário partiria de um olhar para fora (ESCOREL, 2005 p.260). A dualidade objetividade e documentário de um lado, e ficção e subjetividade de outro, não se faz presente no filme de Mesel, intitulado inclusive Recife de dentro pra fora.

Ao tentarmos distinguir o cinema e a literatura, diríamos numa primeira instância que o cinema é arte da imagem e a literatura arte das palavras. No entanto, o gênero lírico, mesmo que não apresente imagens diante dos espectadores como aquelas do cinema, brinca todo o tempo com imagens que ressoam na mente do leitor através de metáforas, comparações, metonímias (STALLONI, 2003 p.142). O processo metonímico está presente em O cão sem plumas na medida em que “não se fala mais aqui de rio, do Capibaribe, mas muito além, de todo um entorno, um modo de vida, de uma certa organização social”(GODOY, 2009 p.79). João Cabral utiliza procedimentos de derivação e transferência de significados entre vocábulos, como no modo em que rio e homens são igualados a um cão sem plumas (GODOY, 2009 p.84).

Essa união de signos que resulta em um novo significado lembra o modo como atua a própria montagem cinematográfica. Segundo Kulechov, um teórico do cinema na época da Revolução Russa de 1917, “o plano é um signo, uma letra para a montagem” (KULECHOV apud XAVIER, 1984 p.38). O chamado “efeito Kulechov” trata da forma como uma imagem absorve sentidos diferentes a partir da justaposição dos planos, posto que o significado de um plano cinematográfico é construído em sua relação com outros planos (XAVIER, 1984 p.38).

Através da confluência entre imagem e musicalidade, sujeito e objeto, da ficcionalização do real ou da realidade da ficção, da imersão no universo social por meio da própria subjetividade, Recife de dentro pra fora e O cão sem plumas poetizam o mundo histórico, ou seja, abordam-no sem perder de vista a dimensão subjetiva do olhar.

2- Rios, pontes e overdrives: manguebeat, João Cabral e cinema

“Rios, pontes e overdrives, impressionantes esculturas de lama”. Nesse trecho
da célebre música de Chico Science e Nação Zumbi vemos o espanto diante do progresso urbano e o elogio ao riquíssimo ecossistema mangue. O movimento manguebeat, surgido nos anos 90 e liderado pelas bandas Mundo Livre S.A. e Chico Science e Nação Zumbi, terminou por reanimar a auto-estima do pernambucano e influenciar também a sétima arte. No manifesto do movimento manguebeat, um press release enviado à imprensa, Fred 04, vocalista do Mundo Livre S.A. afirma:
Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex) cidade “maurícia” passou a crescer desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição dos seus manguezais. Em contrapartida, o desvario irresistível de uma cínica noção de “progresso”, que elevou a cidade ao posto de “metrópole” do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade (...) Mais da metade de seus habitantes moram em favelas e alagados. (ZERO QUATRO apud FONSECA, 2006 p.54)

De acordo com Gabriela Lopes (2009, p.112), os integrantes do manguebeat eram influenciados pela obra do sociólogo e médico Josué de Castro, segundo o qual o subdesenvolvimento não é a ausência de desenvolvimento, mas sim resultado das contradições, exclusões e desigualdades do próprio desenvolvimento. O manguebeat apresenta diversas referências ao bicho do mangue, o caranguejo, influência essa cara ao cientista Josué de Castro, que em sua obra Homens e caranguejos (1945) chega a afirmar que “no mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem ou a lama” (FONSECA, 2006 p.60). Não é à toa que na música Cidadão do mundo, do álbum Afrociberdelia, Chico Science grita: “Josué!”.

O movimento manguebeat, que mescla ritmos americanos a exemplo do rock e do hip hop com música popular tradicional, como o maracatu e o samba de coco, vai de encontro aos movimentos regionalista e armorial. Entre os integrantes do regionalismo estão autores como Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego. No manifesto regionalista, publicado em 1952, Gilberto Freyre critica o que ele chama de falso modernismo e mau cosmopolitismo, fazendo um elogio aos elementos tradicionais da cultura popular (FONSECA, 2006 p.24).

Influenciado pelo regionalismo, o movimento armorial é lançado no Recife durante a década de 70. Esse movimento liderado por Ariano Suassuna apresentava uma visão erudita da cultura popular, romantizava os seus aspectos mais tradicionais, e era contra quaisquer manifestações da cultura de massa (FONSECA, 2006 p.27). A proposta do manguebeat é completamente oposta ao movimento armorial, pois os armorialistas “não vêem com bons olhos os experimentos que traduzam essas manifestações a partir de uma roupagem contemporânea” (FIGUEIRÔA, 2000 p.116).

Tendo iniciado sua poesia com um caráter surrealista numa obra como Pedra do sono (1942), João Cabral de Melo Neto passa a compartilhar com os formalistas do modernismo da Geração de 1945 o rigor métrico e estético em sua poesia (BOSI, 1976 p.521). Segundo Alfredo Bosi, a Geração de 45 trata-se de

Uma literatura penetrada de pensamento, uma literatura que faz da auto-análise, da pesquisa do cotidiano (rústico, urbano, suburbano, marginal), do sarcasmo e da paródia o seu apoio para contrastar as ideologias dominantes; uma literatura que vive em tensão com os discursos da rotina e do poder; e que se faz e se refaz no nível da representação arduamente trabalhada da linguagem. (BOSI, 2003 p.225).

Herdeiro da poética de Drummond, sua poesia é prosaica e Cabral parece buscar uma nova dimensão do lírico “com a preocupação de desbastar suas imagens de toda ganga de resíduos sentimentais ou pitorescos, ficando-lhes nas mãos apenas a nua intuição das formas” (BOSI, 2003 p.521).

Expoente do modernismo, o poeta João Cabral de Melo Neto é tema de documentário de Kátia Mesel. Recife de dentro pra fora, no entanto, faz parte de um contexto de produções cinematográficas em Pernambuco bastante influenciadas pelo manguebeat, a exemplo de Baile Perfumado (1996), Paulo Caldas e Lírio Ferreira, Maracatu, maracatus (1995), Marcelo Gomes, Conceição (1999), Heitor Dhalia, e Amarelo Manga (2002), Claudio Assis. Como afirma Nara Aragão Fonseca (2006, p.56), “a escolha desse poema de João Cabral para representar a cidade através do rio vem da afinação do discurso do poeta com os mesmos preceitos”.

Numa tese bastante arriscada, Godoy (2009) filia o poema O cão sem plumas ao surrealismo fílmico. Se o próprio João Cabral de Melo Neto afirma “eu fui um falso surrealista”, apesar de produzir associações bastante inusitadas, o poeta não consegue mergulhar no irracionalismo e na aleatoriedade dos surrealistas, terminando por apresentar uma estranha espécie de surrealismo caracterizada pelo método e pelo sentido, mesmo que de forma peculiar. No cinema, o diretor, diferentemente do poeta, tem de lidar com uma série de aspectos que impedem uma produção ao acaso, a exemplo do extremo apuro técnico que as tecnologias utilizadas na sétima arte exigem e ainda o fato de o cineasta coordenar uma equipe, dividida inclusive em diversos setores, o que torna, assim, impossível a falta de racionalidade e método numa arte caracteristicamente industrial (GODOY, 2009 p.13). Dessa forma, Godoy (2009) tece uma relação entre o surrealismo fílmico e a associação de imagens, com a poesia de Cabral e suas associações de palavras.

3- O Recife segundo João Cabral de Melo Neto e Kátia Mesel

As cidades são as paisagens contemporâneas. O skyline de São Paulo visto do alto dos prédios alastra-se como o chão arcaico do Pelourinho. As praças de Belém circunscrevem o mesmo vazio de Brasília. As margens lamacentas do Capibaribe – diz o poeta- e o solo pedregoso de Sevilha. Manaus dos Igarapés e as cidades tomadas pela água e a bruma do pó. (PEIXOTO, 2004 p.11).

Para observar a representação do Recife no documentário Recife de dentro pra fora, inspirado no poema O cão sem plumas, utilizamos a metodologia da análise fílmica segundo Francis Vanoye e Anne Goliot Lété (2006). Os autores sugerem que a análise seja guiada por um foco do pesquisador na descrição e interpretação de determinados aspectos do material fílmico (GOLIOT-LÉTÉ e VANOYE, 2006 p.75), e no presente artigo consideramos como essencial o estudo do espaço, som e da montagem em Recife de dentro pra fora. Justificamos a escolha de tais elementos posto que a análise aborde a representação do Recife, ou seja, o espaço desvendado no filme é fundamental para a pesquisa; consideramos também o som tendo em vista que a música tocada no documentário é o próprio poema O cão sem plumas cantado por Elba Ramalho e Geraldo Azevedo; e, finalmente, a montagem é importante de ser investigada já que o processo metafórico no poema de Cabral é comparável à justaposição de imagens no curta de Mesel.

As primeiras imagens do documentário Recife de dentro pra fora apresentam João Cabral falando sobre sua relação com o rio Capibaribe. O poeta destrói alguns mitos que circundam a sua biografia, pois muitos acreditam que ele teria tomado banho nas águas do rio, que ele descreve como sujo, mangue, esgoto, enfim, inadequado para o mergulho. João Cabral ressalta que escreveu O cão sem plumas quando estava em Barcelona, o que evidencia sua visão memorialística do Capibaribe e do Recife.
Os espaços são conspícuos à obra de Cabral. A cidade penetra sua lírica de tal forma, que, muito mais do que mero cenário, adquire um significado essencial em seus poemas. Inclusive as cidades como Olinda e Sevilha são frequentemente sexualizadas pelo poeta, que fala delas iguais fossem mulheres (SARAIVA, 2002 p.334). Uma das imagens do documentário Recife de dentro pra fora mostra o corpo de uma mulher remando uma embarcação sobre o Capibaribe enquanto a música apresenta o seguinte trecho de O cão sem plumas: “Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras”.

Apesar de a poesia extremamente urbana de João Cabral percorrer as mais diversas cidades do poeta e diplomata, as cidades mais marcantes em sua obra são Sevilha, na Espanha, e a capital pernambucana (SARAIVA, 2002 p.329). Ao passo que o Recife é representado como um lugar de vida difícil, dados os diversos problemas sociais de uma cidade do Terceiro Mundo, enquanto que Sevilha é tematizada como lugar de vida alegre e harmoniosa, destacando-se o fato de pertencer a um país do Primeiro Mundo (SARAIVA, 2002 p.332-333). Se O cão sem plumas adota a perspectiva da denúncia social explícita, isso não quer dizer que o poeta apresente uma visão univocamente pessimista a respeito da metrópole pernambucana, pois

Apesar de parecer um pouco insatisfeito com alguns resultados desastrosos que a modernidade trouxe para o Recife, o poeta não se opõe abertamente ao desenvolvimento, desde que as relações humanas permaneçam intactas. (PINHEIRO, 2009 p.9).

O poeta não quer que os habitantes das cidades percam aquele olhar intimista dos que passeiam pelas ruas em busca de aventuras e de belas paisagens. Se Georg Simmel (1979), em seu célebre ensaio A metrópole e a vida mental, afirma que as grandes cidades são caracterizadas por uma vida econômica, ocupacional e social bastante atribulada, e seus habitantes são fustigados por uma sensibilidade marcada pelo bombardeio de estímulos, o que acaba gerando em muitos citadinos um olhar blasé, ou seja, impessoal diante dos lugares e acontecimentos. O poeta João Cabral quer recuperar a perspectiva mais pessoal, mais íntima dos que residem nas metrópoles.
É esse olhar intimista do qual fala João Cabral que Kátia Mesel recupera através das imagens do documentário Recife de dentro pra fora. As imagens do Capibaribe são em grande parte elaboradas a partir do ponto de vista do rio (FIGUEIRÔA, 2000 P.112). Mais parece que o filme segue o movimento do rio, assim como em O cão sem plumas.

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada (MELO NETO, 1985 p.44).

Assim como na poesia de João Cabral “a cidade exige deslocação – a pé, a cavalo, de carro e até de avião” (SARAIVA, 2002 p.6), o documentário de Mesel também é feito pela deslocação, produzida a partir da magia criadora do movimento de câmera, através dos travellings a partir do movimento do barco. A maioria dos movimentos de câmera do documentário são travellings laterais, que, segundo Marcel Martin (2003, p.48) têm geralmente um papel de descrição do espaço. Não obstante, em Recife de dentro pra fora e encontramos “o cinema como paisagismo” e encontramos, assim como em Godard, “uma arte da paisagem, não do espaço”, pois “paisagem tem alma” (PEIXOTO, p.43).

Segundo Nelson Brissac Peixoto (2004, p.25), num mundo em que as imagens midiáticas dominam a experiência sensorial e sobrecarregam a percepção com a visibilidade, “a literatura e a pintura perderam a paisagem”. Indo de encontro a essa tendência, o curta valoriza a dimensão literária, posto que o poema é cantado durante o filme, promovendo uma impureza da arte cinematográfica sendo contaminada pela literatura. No entanto, a poesia revela o que a descrição minuciosa tenta esconder – essa impossibilidade do esgotamento do real.

A poesia então nasceria da compreensão da incapacidade de as palavras darem conta da paisagem. Ela torna disponível à invasão das nuances, torna passível ao timbre: é a escrita da descrição impossível. Da mesma maneira, a metrópole. É um lugar desprovido de situação, não tem medida nem limites. Ela não tem interior, nem exterior, ali não se está dentro nem fora, tudo é estrangeiro e nada o é. (PEIXOTO, 2004 p. 37).

O modo como estrangeiro e familiar se confundem, como a vida no mangue e a metrópole se misturam é representado no documentário de Mesel. No filme, a imagem à distância dos grandes edifícios da cidade dá lugar à de um catador de caranguejo com os braços todos sujos de lama, como se ele mesmo fizesse parte da lama. O plano seguinte apresenta um caranguejo caminhando pelo mangue. Enquanto isso, são cantados os seguintes versos do poema

onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem. (MELO NETO, 1985 p.49).

A junção do plano do catador de caranguejo com a imagem do caranguejo percorrendo o mangue diz ao espectador o mesmo que afirma Josué de Castro, segundo o qual no mangue tudo é caranguejo, inclusive o homem e a lama. Esse processo de comparação, que inclusive está presente no poema de Cabral, é recriado no documentário de Mesel através do artifício da montagem cinematográfica. A montagem em Recife de dentro pra fora constrói o espaço e também produz significados mais profundos. Encontramos então a montagem desempenhando duas funções semânticas: a produção do sentido denotado, ou seja, da representação do Capibaribe e da sua relação com a cidade do Recife, e ainda a produção de sentidos conotados, isto é, “casos em que a montagem relaciona dois elementos diferentes para produzir um efeito de causalidade, de paralelismo, de comparação” (AUMONT, 1995 p.68).

A montagem e a música se encontram numa sintonia ao modo clássico, pois, como afirma Jacques Aumont (1995, p.60), “o filme clássico tem a tendência a apresentar sua trilha sonora e sua trilha de imagem como consubstanciais”. A música desempenha em Recife de dentro pra fora um papel lírico. O curta não apresenta um sentido óbvio nas imagens e na sua relação com o poema, e a música é uma espécie de música ambientação, como definida por Marcel Martin (2003, p.26), ou seja, ela funciona como totalidade e não se limita a ser um pleonasmo da imagem. Nessa totalidade, poema e documentário confluem no mesmo sentido a respeito da cidade do Recife. Tomemos o plano em que ouvimos os seguintes versos de O cão sem plumas:

Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor de rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água (MELO NETO, 1985 p.44).

Enquanto esses versos são cantados, vemos a imagem do esgoto desaguando no Rio Capibaribe. O rio da infância de João Cabral é bastante presente na temática do manguebeat, movimento musical com o qual o filme de Mesel dialoga, e ambos são preocupados com “a importância de preservar o estuário formado pelo encontro do rio Capibaribe com o mar” (ARAGÃO, 2006 p.54). O Capibaribe e os homens que habitam as suas margens são consubstanciais no poema. A vegetação negra é comparada ao homem negro e pobre que vive nas palafitas.

Abre-se em flores
Pobres e negras
Como negros
Abre-se numa flora
Suja e mais mendiga
Como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
De folhas duras e crespas
Como um negro.

A mesma comparação é produzida no documentário através da montagem: do plano da vegetação do mangue o filme conduz aos homens que moram nas palafitas na beira do Capibaribe. Esses homens são como cães sem plumas. Como diria Cabral, um cão sem plumas “é mais que um cão saqueado, é mais que um cão assassinado”. O cão sem plumas é o cão sem enfeite, sem nobreza, assim como os homens que vivem na miséria. E o filme termina com a imagem de um cão nadando a todo custo pelo rio Capibaribe.
“Como a vida que se luta cada dia, como a vida que se adquire cada dia”, dizia o poeta. Espesso como o real mais espesso. Ouvimos em Recife de dentro pra fora Elba Ramalho cantar “o que vive choca, tem dentes, arestas, é espesso”. Enquanto isso, a câmera percorre o rio Capibaribe com imagens em primeiro plano. Bem perto da sua vegetação, do fundo do rio, bem perto das flores da oferenda colocada no rio pelas mães de santo. A escolha estética do primeiro plano não é por acaso.

Entre o espetáculo e o espectador, nenhuma ribalta. Não contemplamos a vida, penetramo-la. Essa penetração permite todas as intimidades. Um rosto, sob a lupa, abre-se como a cauda do pavão, expõe sua geografia ardente... É o milagre da presença real,da vida manifesta, aberta como uma bela romã despida de sua casca, assimilável, bárbara. Teatro da pele. (EPSTEIN apud MARTIN, 2003 p.38).

4- Conclusão

Um olhar intimista diante das paisagens do Capibaribe. É essa perspectiva que Kátia Mesel e João Cabral trazem. Os lirismos do poeta e da cineasta nos levam para um olhar subjetivo sobre as contradições sociais da cidade do Recife. De dentro pra fora e de fora pra dentro, a direção do olhar é aquela que produz o encontro entre subjetividade e a realidade social.

A preocupação com a dialética entre desenvolvimento e miséria, progresso e natureza, temáticas bastantes presentes no movimento musical manguebeat, são o centro da representação do Recife em O cão sem plumas e Recife de dentro pra fora. A imagem de adolescentes pobres saltando da ponte para o rio Capibaribe em Recife de dentro pra fora enquanto um metrô, símbolo da metrópole, passa logo atrás deles, sintetiza essa contradição.

Se o poema de Cabral se conduz até os limites do sentido, ele revela o dilema da literatura de não conseguir dar conta da descrição das paisagens. É justamente por trabalhar com os limites da linguagem que a poesia expõe essa impossibilidade, ao passo que torna as descrições ainda mais enriquecedoras. De modo que o animismo das paisagens em Recife de dentro pra fora traz um novo olhar ao habitante da metrópole que havia perdido a capacidade de contemplar as paisagens. E essa contemplação, apesar de não ser pessimista, não deixa de ser extremamente crítica.

5- Referências bibliográficas
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FIGUEIRÔA, Alexandre. Cinema pernambucano: uma história em ciclos. Recife: Fundação de Cultura da cidade do Recife, 2000.
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GODOY, José Roberto Araújo. Dois cães como objeto: elementos surrealistas em João Cabral de Melo Neto. Aproximações com o cinema. Dissertação do mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2009. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-09032010-102922/ Acesso em: 3 de abril de 2010.
MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Trad. Paulo Neves; revisão técnica Sheila Schvartzman. – São Paulo: Brasiliense, 2003.
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NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Trad. Mônica Saddy Martins. – Campinas, SP: Papirus, 2005.- (Coleção Campo Imagético).
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SALDANHA, Gabriela Lopes. Geração árido movie: o cinema cosmopolita dos anos noventa em Pernambuco. Dissertação do mestrado em Multimeios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Campinas, 2009. Disponível em: http://libdigi.unicamp.br/document/?code=000470271 Acesso em: 10 de março de 2010.
SARAIVA, Arnaldo. A cidade real e a cidade ideal na poesia de João Cabral de Melo Neto. Revista da Faculdade de Letras “Línguas e Literaturas”, vol. 19. Porto, 2002. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4767.pdf Acesso em 5 de abril de 2010.
SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio Guilherme Velho (Org.). O fenômeno urbano. Trad. Sérgio Marques dos Reis. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
SOARES, Angélica. Gêneros literários. 7° Ed. São Paulo. Série Princípios. Editora Ática.
STALLONI, Yves. Os gêneros literários. Trad. Flávia Nascimento. – 2° Ed.- Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. (Coleção Enfoques. Letras).
XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. 2.ed.rev. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Trad. Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus. 4° Ed. 2006.

Eu tenho essa obsessãozinha por Beatrix Kiddo. Por que será? Meu sonho é ter minha Hattori Hanzo!

Como um dia de domingo

Muita gente reclama que domingo é uma bosta. Dizem que é um dia devagar, não tem nada pra fazer, só morgação. A verdade é que eu acho o domingo fantástico justamente por isso.

Nos tempos em que eu trabalhava dia de sábado (ninguém merece), o domingo me parecia um dia ainda mais especial. Era o ÚNICO dia que eu tinha pra ficar sem fazer ABSOLUTAMENTE NADA. Eu acordava já pensando: que maravilha, que dia maravilhoso, que alegria, eu não vou trabalhar hoje!

Domingo é dia de dormir o dia todo, de ouvir música, de ver filme... Uma letargia muito interessante!

sábado, maio 29, 2010

Os maiores gênios de todos os tempos

Apesar de a maior parte do tempo me comportar como ANTI-PAGA PAU, senti a necessidade em plena belíssima falta do que fazer no sábado (mentira,eu devia estudar), de elaborar uma lista com OS MAIORES GÊNIOS DE TODOS OS TEMPOS segundo eu mesma, claro...

E lá vai...

Thom Yorke - minha gente, podem passar séculos, mas eu, fã do Radiohead desde os 16 anos, não canso nunca de ouvir essa maravilhosa banda. E pra mim o grande gênio dela é o Thom Yorke. Sua voz é inconfundível, e ele e outros integrantes levaram o Radiohead a um experimentalismo que às vezes me assombra: eu não acredito que fizeram uma MÚSICA assim! Aguardo ansiosamente pelo próximo album e lamento não ter visto o show deles no Brasil. É um sonho que quem sabe um dia se torne realidade.

Chico Science - o cara foi um dos inventores do maravilhoso movimento manguebeat, que não se restringiu à esfera da música e chegou ao cinema em filmes como Baile perfumado, Maracatu, maracatus, entre outros. Indo além da dicotomia tradicional versus estrangeiro, o cara foi um nerd muito foda que misturou nerdice com rock and roll, o maracatu, às referências à cidade do Recife, e por aí vai.

Fernando Pessoa - ele criou o heterônimo Álvaro de Campos, que como ninguém compreende a minha alma. Vide Poema em linha reta e Passagem das horas. Versos marcantes: Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Almodóvar - Cores de tons avermelhados, bichas, personagens passionais, amores loucos, universo feminino. Eu só podia ser fã do cara mesmo.

João Cabral de Melo Neto - o poeta pernambucano que diz "não se deve escrever poesia sobre saudade ou emoção, mas sobre coisas concretas como um copo d'água", ao invés de ser frio e distante, ele termina por colocar emoção e saudade concretizadas num copo d'água. Sua linguagem se materializa nas coisas. "O amor comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome".

John Lennon - sim, ele é meu besourinho favorito. Os Beatles com certeza estão entre minhas três bandas favoritas, e John Lennon é fantástico também em sua carreira solo. Ele e Paul McCartney, por sinal, formam o melhor par perfeito de todos os tempos. As melhores músicas dos Beatles são frutos de parcerias dos dois.

Tarantino - um dia eu tive nojinho da violência de Tarantino. Hoje eu acho que o espetáculo que ele faz com a violência tem sempre uma crítica à própria violência por trás. Vide o final de Kill Bill 2 - a filha de Beatrix Kiddo vendo desenhos violentos -, o policial infiltrado que acaba levando um tiro de um mulher que usa a arma pra se defender em Cães de aluguel.. etc... Enfim, por essas e outras Tarantino é O CARA.

Kiarostami - esse diretor iraniano é simplesmente FODA. O cara fez uma puta mistura de documentário e ficção em Close up, filme que se envereda a respeito de discussões como o poder do cineasta, a relação de poder de um diretor e seu objeto, a legitimidade da fala dos entrevistados de um documentário, entre tantas questões. O debate que ele elabora sobre a morte e também a representação da morte é igualmente maravilhoso em O gosto da cereja e O vento nos levará.

Meu currículo tá na rede

Ontem numa palestra uma ex-professora minha afirmou que quando recebe currículo de alguém, a primeira coisa que ela vai olhar são as páginas pessoais dessa pessoa na internet. Isso me encucou. Afinal, apesar de às vezes escrever textos mais sérios, geralmente eu uso a internet pra falar abobrinha, pra descontrair, pra descansar das minhas atividades do dia a dia.

Não economizo palavrões nem sarcasmos politicamente incorretos. Aí a pessoa vai lá e vê tudo isso e, é claro, não me leva a sério. Nem por isso deixo de me comprometer com minhas atividades e etc.

A verdade é que tudo isso me lembra a seleção da Vale do Rio Doce. Lá eles perguntaram até como era a relação com a minha mãe. Uma psicóloga da organização me questionou se eu bebia e, depois que eu afirmei que bebo sim aos fins de semana, ela fez uma cara de reprovação.

Algumas instituições podem fazer bom uso dessa história de olhar perfis, blogs e etc, mas outras certamente são babacas. Uma entrevista como essa da Vale é idiota. A psicóloga contratada por eles mais idiota ainda. Tudo uma hipocrisia sem tamanho. Então só trabalha na Vale quem não bebe, não fuma? Eles só contratam straight edge? O fato de eu ir ao bar com meus amigos faz de mim uma pessoa INCOMPETENTE? Sem compromisso com meu trabalho?

Parece que as instituições querem encontrar as pessoas perfeitas de currículos perfeitos para trabalharem em suas empresas. Mas sinto muito, meus senhores, isso não existe não.
Um dia desse eu fiquei irritada com um menino porque ele disse "não sou positivista, e sim pessimista", o que me fez chegar à conclusão de que ele não fez Sociologia I na universidade. Só que isso me decepcionou tanto que me fez refletir sobre minhas exigências em relação aos homens nos últimos tempos. E acho que ultimamente eu cobro muito mais de um cara.

Será a idade? Estou no meio tempo entre os 20 e os 30, qualquer dia desse viro uma balzaquiana. Acredito que me tornei um tanto quanto intolerante à baboseiras em geral.

140 caracteres

O twitter e o trabalho prejudicaram meu blog. Explico. É que eu trabalho com escrita e ainda tenho que estudar, então só de pensar em escrever além de tudo isso, eu sinto uma enorme e avassaladora preguiça. Aí inventaram o twitter. Apenas 140 caracteres, mensagem rápida, direta, blá blá blá. Podem alguns fazerem bom uso do twitter, mas a verdade é que o utilizo porque tenho preguiça de escrever um texto de verdade além do que devo escrever no trabalho, ou estudando...

segunda-feira, maio 24, 2010

Eu queria acender um cigarro e desejo muito também que o cigarro acabe com meu sentimentalismo barato. Esse sentimentalismo que me fez não-sentimental. O sentimentalismo - maldita palavra repetida- que se afasta do que está a sua frente e se aproxima em vão do que sequer existe.

Eu ainda vou devorar a minha própria carne só pra ter certeza que existo. Se Descartes disse "Penso, logo, existo", eu existo porque meu corpo pulsa em mim...

quarta-feira, maio 12, 2010

Carlos

Carlos é um homem cuidadoso. Se eu tivesse que descrevê-lo em apenas uma palavra seria essa, cuidadoso. O meu amor por ele foi construído pelo tempo. Um amor terno, consciente, digno, delicado. Eu nunca passaria uma noite em claro, nem teria dores vertiginosas por ele. Jamais deixaria o meu amor próprio como prova de amor, pois Carlos não me faria perder o respeito que tenho por mim mesma. Ele me ama tanto, que até passei a me amar um pouco mais. Não obstante, o seu amor foi trabalhado na justa medida, pois não me tornei uma mulher que precisa do seu companheiro para amar a si mesma, mas, pelo contrário, descobri que nem ao menos necessito dele para ser feliz. A sua forma de amar é a mais bonita que já conheci justamente por isso: porque descobri que não preciso dele para ser feliz.

Quando conheci Carlos, eu estava, não diria amarga, porém racional o bastante para não me entorpecer, pois amar é, muito mais que uma entrega, também uma regressão à infância. Redescobrimos os deuses. Ser criança é ter um deus para cada palavra nova, cada sensação, um inebriar-se com o mundo novo a ser desbravado. Mas quando eu encontrei Carlos já era adulta demais. Hoje sei que o seu amor é para mim, em grande parte, o amor de um pai.

Carlos, desde sempre, ofereceu-se para tomar conta de mim. Ele não procurava alguém para aliviar a sua própria dor, mas sim alguém que necessitasse dos seus cuidados. E eu precisava de um anjo, embora não admitisse. Havia coisas demais guardadas dentro de mim, escondidas, soterradas para que ninguém, nem eu mesma visse. Mas Carlos não as trouxe à tona, para que eu arregalasse os olhos diante da minha prórpia desgraça. Ele apenas me colocou diante do espelho e me fez ver que eu era apenas aquilo que eu acreditasse que era. Nada em minha substância me tornava alguém ruim, ao contrário do que eu achava. Nada no mundo conspirava contra meus intentos. A minha história não era a história dos deuses, mas era feita com meus braços, e um pouco de acaso, sim.

E grande parte disso tudo eu devo a Carlos, homem que me incentivou a andar com minhas próprias pernas. Sei que o princípio do meu amor por Carlos foi o amor que ele dedicou a mim. Via nos seus pequenos gestos que ele me amava tanto, que a partir de então resolvi a ele corresponder. Havia felicidade no seu amor. Era como se eu pudesse me tornar muito mais feliz só por amar; concluia ao deparar-me com seu deslumbre por me ver surgir no horizonte dos seus olhos e tomando conta do seu mundo. Eu queria um pouco daquela alegria também, e percebi que para senti-la bastava me permitir ser amada. O ato de ser amada exigia alguma dedicação minha, um empenho no sentido de tornar-me um objeto de desejo terminava por me envolver no amor. Eu havia determinado uma condição: que só me entregaria, que só amaria novamente um homem depois que ele já me amasse. Essa suposta regra havia sido estabelecida sem aviso prévio, sem carta assinada, sem protocolo, um apelo antes inconsciente, agora sei. É que eu não acreditava em homens que não se encantassem por mim. Não acreditava, entenda-se: diferente de desconfiar, análogo a não comover-se. Era profundamente desinteressante, dava-me vontade de inventar qualquer desculpa para ir mais cedo para casa. Tal tédio que eu sentia por quem não se admirava com os meus pequenos detalhes, eu não consigo explicar. Não sei ainda se era por defesa ou pura vaidade.

domingo, maio 09, 2010

Criação cristã

Engraçado como cristãos dizem que perdoam, mas contam com o castigo de deus.

Não querem sujar as próprias mãos com a vingança e entregam tudo nas mãos divinas?

sexta-feira, abril 23, 2010

Veja que merda

Então estava eu no supermercado fazendo comprinhas de véspera de feriado à noite, quando me deparo com a revista VEJA e, sem conter meu espanto, berro: VEJA QUE ABSURDO!

A capa da Veja é simplesmente a foto de um Serra com cara de intelectual competente e meigo - o fato de ser da elite não tirou de seu semblante a doçura - e a legenda é: Serra e o Brasil pós-Lula. Pós-Lula, Lula lembra Dilma, Brasil pós-PT, país livre de petistas. Trocando em miúdos, segundo a Veja, Serra já ganhou as eleições!!!

Como se não bastasse, ainda consta na capa uma declaração do tucano que fecha com chave de ouro a propaganda eleitoral antecipada: "Me preparei a vida toda para ser presidente".

Depois a oposição reclama dos discursos eleitoreiros e promotores da Dilma em inaugurações de obras do PAC e dá-lhe processos do Tribunal Superior Eleitoral. Políticos!!!

Só digo uma coisa: minha gente, não que algum dia eu tenha acreditado em imparcialidade no jornalismo. Mas pelo amor de todos os deuses não sejam TÃO BREGAS!!!!

sexta-feira, abril 02, 2010

L'hypothèse du tableau volé (1979), Raoul Ruiz


Ver filme em feriado que apresenta céu nublado é algo que afaga muito a alma. Hoje assisti a L'hypothèse du tableau volé (1979), de Raoul Ruiz. Filme que se inicia com uma frase de Victor Hugo: A consciência humana está morta. Lançado justamente nos primórdios do que seria a tão falada pós-modernidade: para alguns, época do fim das ideologias, das metanarrativas, da História.

Fredric Jameson comenta a respeito desse filme em seu estudo As transformações da imagem na pós-modernidade. O filme de Ruiz, segundo Jameson, estaria entre tantos outros que propõem, diante da imensa quantidade de imagens publicitárias presentes na cultura midiática, o retorno ao Belo. A beleza aí é concebida em termos kantianos, que propõe a beleza em si, o estético como aquilo que está distante do cotidiano. A arte pela arte.

O filme de Ruiz apresenta um narrador inusitado que apresenta histórias sobre quadros que haviam sido furtados. Os quadros viram verdadeiros quadros vivos encenados pelos atores. Logo no início, ele retira bonecos da gaveta - que estavam sobre um mapa do corpo humano - e os dispõe sobre e sobre a mesa. Os atores se comportam como bonecos: são modelos e seus semblantes não nos dizem nada além do fato de que são fantoches.

Se o narrador transforma os quadros em narrativas, ele também se questiona sobre a recusa da história. E esse elemento caracteriza o filme como exemplar pós-moderno, como afirma Jameson. Podemos recorrer a Alberto Manguel para refletir sobre uma relação entre cinema e pintura, narrativa e espaço. Segundo Manguel, a pintura seria a arte do espaço, enquanto o cinema, a arte do tempo. O fato de o cinema ser uma arte do tempo o coloca em estreita relação com o romance, e assim os filmes apresentam narrativas. Só que as próprias pinturas na Idade Média apresentavam uma tentativa de continuidade de uma história dentro do espaço de um quadro. E mesmo que no quadro caiba apenas o espaço e o instante, o espectador comum atribui à imagem uma narrativa.

Só que o narrador declara no filme: por que devemos chegar ao tema? O tema não importa, o que importa é a forma!

Mas não seria o elogio à forma, à arte pela arte, uma maneira de elitizar arte? Ou mesmo afastá-la de seu contexto sócio-histórico?

Esta obra que me parece um lamento em relação à indústria cultural nada me diz, por exemplo, sobre o Chile, país de origem do diretor que fez o filme falado em francês.

terça-feira, março 30, 2010

Uma hora o que causava admiração e culto simplesmente perde a graça, deixa de fazer sentido.

"Eu gosto mesmo é de vida real"

quarta-feira, março 17, 2010

Sabe, não sei se com você já aconteceu, mas comigo sim... Viver uma coisa tão fodamente maravilhosa, e de repente se situar um pouco à distância, um tanto racionalmente, e perceber que se trata de um momento apenas. Que deve ser guardado na memória poética e nada mais.

Porque coisas assim não fazem parte dos dias.

O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.


João Cabral de Melo Neto em O cão sem plumas

domingo, março 14, 2010

A minha grande
A minha pequena
A minha imensa obsessão
A minha grande obsessão...
Descobri que a arte mais apaixonante pra mim não é o cinema. A arte mais linda pra mim, que mais do que paixão chega a ser vício meu de cada dia é a MÚSICA.

Eu preciso, eu necessito,eu não sobrevivo sem música, sem minha bossa nova a la Tom Jobim, meu rock and roll clássico a la Beatles e Doors, meu indie rock de menininha a la Travis, meu indie experimental a la Radiohead, meu rock brasileiro meio estrangeiro meio tradição a la Nação Zumbi, a poesia pura de Chico Buarque, aquela dor de cotovelo ou a viagem louca na voz de Tim Maia, o amor mais vagabundo na voz emocionante de Billie Holiday ou de Elis Regina ou da Gal, a beleza do folk em Beirut, do gótico em Smashing Pumpkins.

Não vivo sem. É poesia intensa, que entra rápido pelos ouvidos, que fala com profundidade em cinco minutos. Arte que povoa vida, trilha sonora dos momentos emocionantes, das pessas que marcaram a gente.

Eu AMO música e me arrependo loucamente de nunca ter me dedicado com afinco a nenhum instrumento musical.
Quando digo que Aracaju é uma cidade sem graça, dizem: então vá embora daqui, o que é que você tá fazendo aqui???

Respondo: mas é isso mesmo que eu vou fazer!
Acho que uma das coisas que eu mais odeio na vida é pobre que defende rico. Aaquele pobre que vê uma notícia no jornal falando da morte de um trabalhador, e diz que foi ele que não se cuidou e merecia morrer mesmo porque foi burro. Aquele pobre que reclama quando aumenta a passagem, mas ao ver alguém contestar, diz que merece mais é oacete da Tropa de Choque. Juro que odeio. Com todas as forças odeio pobre tapado assim.

terça-feira, março 09, 2010

Antes de eu ir à Recife, meu irmão vivia dizendo que eu ia amar a capital pernambucana. Segundo ele, por eu curtir coisinhas culturais lalala. Mas pra ele Recife é uma cidade feia, suja, desorganizada. Pra mim tudo isso é encantador.

Simplesmente porque eu adoro a sujeirinha de Recife, porque não é uma sujeeeira... é mais a cara de uma cidade bonita do Terceiro Mundo. Eu gosto do caos de Recife, de sentir que eu tenho coisas demais pra conhecer por aquelas bandas. Eu adoro a velhice de alguns prédios de Recife, aquele ar de metrópole pós-moderna, uma mistura de passado e presente... Gosto do mangue, das pontes... dos arranha céus...

Enfim, eu amo Recife! Se eu comparar com Olinda, acho que gosto mais de Recife. Olinda tem um ar de saudade, aquelas casinhas antigas, ladeiras... Uma imagem marcante de Olinda pra mim foi quando, assim que eu pus meus pés naquela linda cidade pela primeira vez, eu vi aquele montão gente subindo e descendo ladeira... Ouvi o maracatu, o frevo... Parecia um paraíso profano mesmo...

Saudades de Pernambuco!

quinta-feira, março 04, 2010

Eu podia escrever um texto agora. Podia. Mas tô com muita preguiça e trabalhei muito hoje. Corro o risco de ficar com LER.

Portanto, quem quiser textos "de verdade", arrume o que fazer e vá ler Caros Amigos, Observatório da Imprensa, um livro de James Joyce, sei lá.
Tão bom ter meu computadorzinho de volta. Não tem coisa mais triste pra uma pimba do que ficar sem seu acesso ilimitado à cultura kkkkkkkkkkkkkk!!!
Depois de ver Close up, eu só digo uma coisa: Kiarostami se tornou um dos meus diretores favoritos! E que venham mais filmes dele!

domingo, fevereiro 21, 2010

Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço - parte 1

Quando me disseram que eu ia me arrepender de fazer uma viagem assim tão rápida pra Pernambuco numa folga de três dias, eu achei muito absurda tal afirmação. Com meu espírito aventureiro, só por entrar no ônibus às 23h partindo para Recife, numa viagem de 8h de duração, eu já estava satisfeita, pois meu lugar é a estrada. E lá vamos nós!

O ônibus atrasa um pouco, uma agonia danada, poucas pessoas embarcando. Afinal, já era domingo de carnaval. Quem tinha que ter ido, já havia partido, certo? Errado! Lá estava eu, depois de dar duro trabalhando de repórter no sábado e no domingo o dia inteiro, indo embora ansiosa e encantada pra minha verdadeira cidade: Recife.

No escurinho do ônibus, tentava me ajeitar na poltrona pra ver se tirava um cochilo. Entre um cochilo e outro, olhava pela janela as paisagens desse Nordeste do tamanho do mundo, ou reparava nas minhas coisas, afinal, estava viajando sozinha. Mas minha grande paixão era a janela do ônibus. Tenho essa relação conspícua com os espaços. Vivo buscando o paraíso por aí.

Também havia a preocupação com a estrada. Dizem que é muito comum assaltar ônibus à noite com destino a Recife, que ali é uma estrada perigosa. Então quando ônibus parava, eu tinha um sobressalto, ficava atenta... ainda mais quando vi o motorista parar o ônibus e sair correndo na estrada no meio daquela escuridão sem casas... mas provavelmente ele só tinha ido ver algo no motor, não sei...

Enfim chego a Recife! Foi algo inusitado. Estava dormindo, quando alguém me cutuca. Era um mudo apontando para a janela do ônibus e mandando eu sair dali. Fiquei confusa. Afinal, me disseram que eram 8h de viagem, e eu tinha saído às 23h e ainda eram 5h30. Olhei em volta e vi o ônibus vazio. Desci e tive vergonha de perguntar ao motorista se ali era mesmo Recife. Então resolvi perscrutar ao redor, até ver uma placa da prefeitura de Recife, o símbolo da bandeira de Pernambuco espalhado por diversos lugares da rodoviária. Sim, eu estava na terra prometida!

Ao entrar no táxi, o motorista me perguntou: qual o seu destino, moça? Eu respondi: Várzea! Com o gosto de quem conhecia aquelas bandas, e não de quem não sabe ao certo pra onde vai. Eu vou pra Várzea, e é na Várzea onde vai tocar a Nação Zumbi!

Bati na porta com medo de ficar trancada do lado de fora. Eu sabia que ia encontrar bêbados de ressaca, e deduzia que não iam abrir a porta pra ninguém às 6h da manhã. Mas bastou uma batidinha na porta para um rosto desconhecido aparecer com cara de interrogação e eu ver mais colchões e mais gente do que eu esperava espalhada pelo pequeno apê. Ele não perguntou nada, apenas esperava que eu me explicasse. Tava com cara de quem tinha acabado de chegar do Recife Antigo.

- Cadê Anderson?

- Acho que tá dormindo. Pode entrar, entra aí.

A partir de então soube que Anderson era a senha de acesso. Diante de caras de estranhamento que me olhavam como se eu fosse uma intrusa, bastava eu citar o nome dele que logo recebia um abraço e ouvia um "ah, então você é amiga de Anderson!".

Ajeitei-me num cantinho de um quarto entupido de gente pra tirar um cochilo. Eu queria mais era já ir direto pra Olinda, mas sabia que não ia arrumar nenhum bêbado pra ir junto. E quando já estava pegando no sono, alguém me cutuca. Era um menino ruivo, cabelos crespos grandes e barba, me avisando em linguagem embriagada que aquele era seu cantinho. Eu me fiz de desentendida e voltei a dormir. Ele foi se deitar na cama de um menina, que ao vê-lo ali deu um piti.

- Não tenho culpa se meu lugar de dormir era ali e roubaram meu canto.

E cochilei, ignorando toda a muvuca da casa.

Ao me acordar, eu já sabia que era de tarde, e precisava ir com urgência para a cidade dos sonhos: Olinda.

sábado, fevereiro 13, 2010

Hora da razão

Coisa mais linda essa música que uma amiga descobriu pra mim...

Se eu deixar de sofrer como é que vai ser para me acostumar?
Se tudo é carnaval eu não devo chorar pois eu preciso me encontrar
Se eu deixar se sofrer como é que vai ser para me acostumar
Se tudo é carnaval eu não devo chorar pois eu preciso me encontrar
Sofrer também é mericimento
Cada um tem seu momento
Quando a hora é da razão
Alguem vai sambar comigo
E o nome eu nao digo, guardo tudo no caração

domingo, janeiro 31, 2010

Agora toca interminavelmente na minha cabeça aquela música da Nação Zumbi:

E quem não vai torcer
pro coração bater?
Dá-lhe viver!
Dá-lhe viver!
Eu gosto de ser repórter, de ir pra rua. Engraçado isso.

Dona Quixote

Tem hora que eu paro, olho pro mundo e penso: céus, como os meus desejos são incompatíveis com o meu mundo!!!

Já cantava Vinicius: sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão... sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão...

terça-feira, janeiro 12, 2010

O problema do remédio é que ele cura de uma coisa, mas tem as reações adversas. Então um remédio te cura da dor de cabeça, mas traz náuseas, tonturas, loucuras...

O problema do remédio é que não há cura. Cura-se de uma dor pra arrumar outra dor...

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Lula, o filho do Brasil (2009), Fábio Barreto


Dizer que Lula, filho do Brasil (2009), de Fábio Barreto, não tem nenhum mérito artístico é tão clichê quanto o próprio filme. Afinal, nem eu, nem ninguém (acredito) esperava um Terra em transe , nenhuma alegoria glauberiana da vida sobre os problemas de governabilidade do governo Lula. É claro que vanguardismo estético e político são totalmente opostos à obra feita pela Globo Filmes e patrocinada por empresas interessadas em eleger o PT novamente.

Ironicamente, o filme, que começa com a trajetória do pequeno Lula e sua família no sertão, é influenciado por Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, clássico do Cinema Novo. Da obra de Nelson Pereira baseada no livro de Graciliano Ramos, o filme de Fábio Barreto herda a incomunicabilidade da família, a presença de um cão que lembra a cadela Baleia, o tédio evocado pelas paisagens do sertão - tédio e incomunicabilidade que, se Nelson Pereira explora através da dilatação temporal, em Fábio Barreto a trama tem que andar logo e a passos largos.

O filme de Fábio Barreto, aliás, é repleto de situações conectadas de maneira extramamente forçada, empurrando a narrativa de maneira às vezes patética. Um dos centros da trajetória do herói Lula é a sua relação simbiótica com a mãe Lindu, a quem ele dedica a sua vitória nas eleições e a quem o diretor dedica o final do filme. Nisso Fábio me lembra o Bruno Barreto em Última parada 174 (2008), outro filme de narrativa muito densa e preocupado com a relação afetiva entre Sandro Nascimento e sua mãe. Em ambos os filmes o carinho materno é o elemento que retira o filme das problemáticas sociais e o puxa para o universo individual.

É a mãe de Lula quem mais se incomoda com o seu envolvimento com o sindicato. O drama familiar pelo qual passam os sindicalistas já havia sido abordado antes por Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman. O diretor Leon Hirszman dirigiu também o documentário ABC da Greve (1990); outros documentários sobre as greves no ABC paulista foram Linha de montagem (1982), de Renato Tapajós e Greve!(1979), de João Batista de Andrade, todos filmes financiados por sindicatos que, ao abordar as greves dos metalúrgicos realizadas em tempos de arrocho salarial da ditadura militar, terminam por deter-se sobre a figura de Lula como lider político carismático.

Esse líder que foi ovacionado por Pedro Bial quando na sua vitória nas eleições 2002 no Fantástico (programa da mesma Globo que produziu o filme em questão e que editou de forma manipuladora aquele debate, lembram?), é o Lula que, segundo João Moreira Salles, sempre foi o mesmo. O João Moreira Salles, que dirigiu o documentário sobre a campanha presidencial de Lula em 2002, Entreatos, afirmou certa vez que aqueles que afirmam que Lula mudou muito desde que abandonou a roupa e a barba de sindicalista e passou a usar o terno, na verdade entenderam tudo errado, pois Lula é o mesmo. Podemos ver isso claramente na cena de Entreatos em que Lula fala que detestava usar macacão de metalúrgico e só quem não sabe o quanto aquilo é quente e incômodo é que o critica por vestir terno.

Esse Lula aparece discretamente no filme de Fábio Barreto. A montagem situa duas cenas em sequência: uma em que Lula fala com aquela postura brava e a roupa suja, outra em que ele está mais brando e de terno. Por mais que reclamem que o Fábio Barreto não mostra a trajetória política de Lula pós-1979, incluindo a fundação do PT, esse Lula de terno falando que "o patrão não é inimigo nosso, afinal, é o patrão quem paga nosso salário", já é um prelúdio do Lula que ganhou as eleições presidenciais.

No mais, Lula, o filho do Brasil é até divertido (pelo menos foi pra mim), mesmo sendo um filme ruim, novelesco. Se a trilha sonora às vezes irrita de tão melodramática, vou confessar que adorei ouvir Tim Maia como tema do romance do Lula com a esposa (sou fã do Tim Maia, portanto, suspeita para falar). Mas eu juro que não merecia ver...

- A cena em que o personagem de Lula ganha o diploma de torneiro mecânico do SENAI diante de uma mãe emocionada e chorosa. Fica parecendo (é quase certo) que o SENAI, um dos patrocinadores do filme, mandou incluírem essa cena.

- Aquela fusão da imagem do rosto de Lindu/mãe de Lula/ Glória Pires com a carta que estava sendo lida para ela.

- O close da boca do Aristides/ pai de Lula/ Milhem Cortaz que salta para a imagem do rosto de Lula criança chorando, criando uma tosca alusão imagética ao alcoolismo do pai que provocava sofrimento na criança.

- O flashback produzido a partir da foto que a mãe de Lula contempla enquanto está doente, foto dos filhos pequenos no sertão. Flashback a partir de foto é o artifício mais manjado, utilizado pelos roteiristas de primeira viagem que não sabem contar uma história de outra maneira mais complexa.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz ano novo, que Iansã, Jesus Cristo, Xangô, Alá, Oxum, Baco, Che Guevara, Buda, Nossa Senhora do Socorro, Chico Xavier, Santo Expedito (meu santo favorito), Mestre dos Magos, John Lennon, sei lá quem, protejam a nós.

Vou lá curtir a virada do ano na CAÓTICA Orla de Atalaia. Passar uma eternidade num trânsito dos infernos pra ouvir uma música que não é nem lá essas coisas. Mas é isso mesmo, aqui eu sinto saudade de lá, lá sinto saudade de cá, já dizia Choppenhauer, o homem é incorfomado mesmo.
Dessa vez eu me surpreendi: me meti numa cocó de 2010 ainda em 2009!!!!!!!!!!!!!!!!

Senhor, livrai-me de todos os males. AMÉM.

kkkkkkkkkkkkkk

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Qualquer canção

Um amigo meu estava reclamando um dia desse que não se apaixona por ninguém e que às vezes inventa que está apaixonado, só que por ninguém, ou seja, uma pessoa inventada. Eu disse pra ele que ele estava, em verdade, apaixonado pela própria paixão! Que sei o que ele quer dizer, e que também escrevo versos como quem ama, mas não amo ninguém. E é pra ele e pra mim que dedico essa música do Chico:

Qualquer canção de amor
É uma canção de amor
Não faz brotar amor e amantes
Porém, se esta canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor e antes

Qualquer canção de dor
Não basta a um sofredor
Nem cerze um coração rasgado
Porém ainda é melhor
Sofrer em dó menor
Do que você sofrer calado.

Qualquer canção de bem
Algum mistério tem
É o grão, é o germe, é o gen da chama
E essa canção também
Corrói, como convém,
O coração de quem não ama.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Quando me dei por mim
por nós
um só lamento
que o nosso amor virou amor de arrumar a casa

terça-feira, dezembro 22, 2009

O corpo e o espírito

Hoje estava pensando
Que é injusto ter que sentir saudade
Que o que ficou foi só a lembrança do abraço
Há imagens de tato
E o vazio imenso entre a imagem do corpo
E o corpo
Entre a imagem do toque
E o toque
Não acredito nem na imagem, nem nas palavras
Uma imagem não diz mais que mil palavras
Palavras não dizem mais que mil imagens
Nem as palavras, nem as imagens podem ser signos da sua existência – só o tato
E agora tudo o que vejo é uma imagem fugaz do seu rosto
Tento recuperá-lo, às vezes ele se forma com mais precisão em mim
Não se trata de memória, mas de imaginação
Eu não lembro do seu rosto, eu o imagino
Sinto-o no meu corpo e no meu espírito
No fim, meu corpo e meu espírito são um
E a sua imagem é como um quadro para o qual eu olho
E descubro uma teoria mágica da visão
Lembro-me que o que havia de mais bonito
Era como os seus olhos me fitavam
E me mostravam
O segredo, o mistério, o milagre de ser vidente e visível
Ao infinito

domingo, dezembro 20, 2009

Lembro de um filme, o qual não me recordo o nome agora, que falava sobre uma mulher que gostava de ter aventuras amorosas com a seguinte condição: o romance tinha que ser intenso e efêmero, se não estou enganada devia durar um dia ou pouco mais que isso. Segundo ela, essa era a única maneira de ter amores perfeitos, posto que o tempo traz o tédio, e brigas e todas aquelas coisas que a gente já conhece. Ela preferia abrir mão da continuidade em nome da eterna lembrança de uma paixão intensa e perfeita.

Aí é que está a questão dos amores impossíveis (ou muito difíceis) que nascem e que encontram obstáculos para seu prosseguimento. A sensação é de que tudo é muito maravilhoso porque tudo poderia vir a ser assim assado. Há um vir a ser mesclado a uma lembrança, uma grande confusão entre passado e futuro. Esses impedimentos aumentam o desejo - o desejo é o que está suspenso, o que não é completamente realizado.

O amor é assim: tem que ter começo, meio e fim. Se o fim fica com cara de meio ou de começo, temos aí um amor mal resolvido. E tenho aquela velha teoria de que os únicos amores eternos são os amores mal resolvidos. Eternos, porém não são exatamente amores - não poderíamos, talvez, chamar tal sentimento de amor. Até o conceito é mal resolvido.

What a wonderful o quê?

Natal é festa de família e tal, tempo de ouvir Simone e etc. É sempre um saco. Principalmente pra mim, que não gosto de fazer a social. Hoje fui a uma dessas reuniões de família e tive o "prazer" de ouvir pessoas cantando Victor e Leo e aquela música "Buchecha sem Claudinho, sou eu assim sem você" ao violão. Coisas da vida. Quem sou eu pra julgar? Eu gosto de lambada! E de Los Hermanos! (mas não é só isso, minha gente). Enfim... Sei que nessa reunião ocorreu um fato inusitado, peculiar...

Primeiro que as pessoas diziam que iam acabar ficando bêbadas e não iam para a missa, e o padre respondia dizendo que ia excomungá-las. Segundo que o padre comia como a peste, e rolavam piadinhas de "gula é pecado capital". Até que o padre lançou a seguinte questão, olhando atento para um presépio situado na sala:

- E esse menino Jesus pretinho?

Então a anfitriã responde:

- Esse é adotado. O menino Jesus de verdade está no meu quarto e é branco.

*Ressoam as gaitadas*

Logo depois, as pessoas discutem a moda e como é difícil acompanhá-la.

Não sei o que é pior: isso ou ouvir Simone cantar aquela versão em português de What a wonderful world.

sábado, dezembro 19, 2009

Que bonito este poema de Vinicius de Moraes que encontrei num blog...

Sou fã de Vinicius de Moraes, um dos meus livros favoritos é dele, Para uma menina com uma flor.

Ó, meu amado
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus
Ó, meu amado
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus
Ó, meu amado
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus
Ah, meu amado
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Então encontrei este soneto no livro que comprei num sebo em Recife...

AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura de água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.


Pablo Neruda em Cem sonetos de amor

Errata

Uma amiga ficou indignada ao ler meu post que citava a banda que criamos em Recife no qual eu não menciono que ela faz parte da banda também kkk. Ficou parecendo que éramos apenas eu e meu colega que me recebeu lá. Mas não!!! Somos eu, Anderson e NINA.

Nossa banda: Os ets estão vindo aí...

Aguardem!

domingo, dezembro 13, 2009

Os pés

Meus pés no chão
como custaram a reconhecer o chão!
Por fim os dedos dessedentaram-se no lodo macio,
agarraram-se ao chão...
Ah, que vontade de criar raízes!


Mario Quintana em Apontamentos de história sobrenatural.

sábado, dezembro 12, 2009

Mais sobre Hellcife...

- Minha gente, what the hell, quantas pessoas de Aracaju! Até fazer rodinha em show da Naurêa eu fiz aqui... E hoje tem show da melhor banda de Sergipe e uma das melhores do Brasil: Plástico Lunar \o/ Pago pau mesmo!!! Eu tava tão doida ontem que o guri da Plástico, o qual não recordo o nome, perguntou a mim e ao meu colhéga anfitrião o que era que a gente tinha tomado pra estar tão legais haha. É o Exu Pitú!

- Durante esses momentos felizes criamos uma banda tosquíssima. Aguardem!!

- Eu vi Cláudio Assis, diretor de Amarelo manga e Baixio das bestas, (não o reconheceria, mas tenho um amigo paga pau dele que o identificou) totalmente louco, sem mal conseguir se segurar em pé, vestindo uma camisa de O poderoso chefão, lá na Torre do Malakoff. Tooooosco. haha.

- Melhores shows até o momento: Nação Zumbi e André Abujamra. Nação faz shows sempre fodas e o Abujamra é figura demais. Ah! Júpiter Maçã também foi DEZ!

- Que inferno: ontem havia trilhões de pirralhos emos paga pau de Pitty. Eca. E na noite que rolou Sepultura os merdaleiros, otários como sempre, ficavam mandando as bandas saírem pra dar lugar ao Sepultura. Pareciam os fãs de Aviões expulsando Cordel. Mas é assim né... seja você mesmo, mesmo que seja bizarro...

- Ah! Mais gente tosca hoje: haverá show de FRESNO. Shit!!!

- O centro da cidade de Recife à tarde é o Ó. Todo centro é um caos.

- Agora que me apeguei à cidade, em breve terei de partir. Já estava me sentindo em casa! é aquela coisa: aqui ou lá terei sempre saudades...

Em breve: Olinda.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Certa vez uma professora me passou um texto na universidade que falava sobre a concorrência entre empresas de não lembro mais o quê japonesas e americanas. Sei que as empresas americanas estavam perdendo para as japonesas. O motivo: as empresas japonesas tinham metas e objetivos muito maiores do que as americanas. As americanas eram "realistas". Já as japonesas tinham objetivos faraônicos. Como geralmente conseguimos um pouco ou muito a menos do que tínhamos em mente a cumprir, as japonesas ficavam na frente.

Essa é a dica: pensar capitalisticamente.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Conheci a praia de Boa Viagem. Bem, quem conhece Recife sabe que Boa Viagem é o bairro dos burgueses daqui, e mesmo quem não conhece já ouviu falar que a praia de Boa Viagem é um PERIGO, pois volta e meia um tubarãozinho ataca alguém. Então pense numa praia bem mais ou menos... As pessoas ficam na beiradinha pra tomar banho porque se passar das pedras... já viu né...

Fui pro show de Arnaldo Antunes e sei lá mais quantos ontem. Foi legal. Deu gente que só a gota. No final da madrugada fiquei esperando buzu (aí sabe ser quebrada), aí um morador de rua veio puxar papo comigo. Conversei um tempão com ele, gente fina, ele conhece Aracaju, e já viu muita coisa por esse mundão aí. Havia uns caras fumando crack logo atrás da gente e eles falaram que iam roubar a galera que estava ali quando o pessoal fosse pegar buzu. Quando a gente estava indo embora, o cara foi acompanhando a gente. Minha colega acha que ele fez isso pra nos proteger, porque ele gostou de conversar, etc.

Banzo - ando sentindo muita saudade de Aracaju. Não é exatamente a cidade, mas as pessoas de lá. Eu amo muita gente que mora lá. Saudades imensas desse povo!

Volto em breve!

Próxima semana tem Feira de Música \o/

sábado, dezembro 05, 2009

Sera que ele é?

Quem me conhece sabe que eu ADORO homens delicados e já relatei aqui no blog o fato de que eu me sinto atraída muitas vezes por homens gays ou mesmo estranhamente já recebi investidas de gays. Apois. Ontem estava no Recife antigo, mais precisamente no Garagem, quando um indivíduo me aborda e começa a conversar eternamente comigo.

Não sou muito de conversar com estranhos, PORÉM, quando bebo viro colega de todo mundo e falo mais que a preta do leite. Sei que esse indivíduo me parecia totalmente gay, para mim não havia dúvidas quanto a isso. Até que ele de repente, não mais que de repente, começa a se entrosar pro meu lado. Eu, tomada pelo Exu Pitu, não tive papas na língua.

- Como assim você está dando em cima de mim? Eu jurava que você é gay!

Aí ele me disse que era gay sim, mas estava se sentindo atraído por mim. Oi? Falou que até se surpreendeu ao sentir isso. Q! E disse que queria muito ficar comigo. o.O Aí eu continuei conversando com ele e disse que achava uma graça homens delicados. Aí percebi que ele ficava cada vez mais biba devido ao comentário. Foi aí que eu falei que aquilo era um desdobro que ele usava pra pegar mulher, essa de dizer que é gay e a guria é muito especial para fazê-lo se sentir atraído lalalala. Ele insistiu que não, que era gay mesmo.

Depois eu fiquei me perguntando: será que ele fica com muitas gurias usando esse desdobro?

segunda-feira, novembro 30, 2009

Conclusões por hora sobre Recife:

- Recife, segundo meu irmão é feia pra caralho. E suja. Já eu acho que Recife tem uma beleza que é feia, e uma feiúra que é bela - uma coisa assim meio dialética.

- O Recife Antigo é o lugar com maior concentração de pimbas por metro quadrado da face da terra.

- a UFPE é uma universidade bonita pra caramba. Tem laguinho, pista pra correr, vou lá todo santo dia. Fica aqui perto de onde estou.

Ainda não fui à praia, mas com certeza irei em breve. Quero conhecer Olinda também. Agora que finalmente fiz essa prova maldita dos infernos terei tempo pra curtir Pernambuco.

e...

ieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

segunda-feira, novembro 23, 2009

Em breve relatos sobre o fantástico mundo de Recife...

Quanto eu tiver paciência... e tempo!

sexta-feira, novembro 20, 2009

Sobre o Tratactus Logico-Philosophicus

O Tratactus Logico-Philosophicus propôs uma revolução na filosofia em 1912. Em uma alusão ao Tratactus Theologico-Politicus, de Spinoza, Wittgenstein redige um pretensioso tratado no qual afirma que resolveu todos os seus problemas da lógica, mas mostra o quanto eles eram desnecessários.

No Tratactus, o filósofo de Viena rebate as argumentações dos dois maiores filósofos da lógica de todos os tempos. Aristóteles, responsável pela criação da lógica formal, e que a fundamentava no silogismo, e Frege, que havia dado um novo passo fundamental através da sua lógica matemática ou logicista já no século XX.

O silogismo de Aristóteles falava da argumentação perfeita. Tal argumentação era formulada através de três proposições. Vejamos um exemplo:

Todo homem é mortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Como se pode perceber, a partir de uma verdade geral, “Todo homem é mortal”, que, no caso, seria a premissa maior, e relacionando-a ao singular, “Sócrates é homem”, a premissa menor, chegou-se ao termo médio, “Logo, Sócrates é mortal”. Assim, para Aristóteles, a tarefa da filosofia seria descobrir o termo médio que liga os extremos, o singular e o universal, a partir de verdades gerais, caracterizada pelo método dedutivo. Por conseguinte, o fundamental do silogismo é que A é verdade de B, B é verdade de C, e logo, A é verdade de C.

Só que, para Wittgenstein, A é verdade de B pode ou não ser verdadeiro. A proposição pode fazer sentido, mas nem por isso implica dizer que ela corresponde à verdade. Na proposição 2.0211, ele mostra que “se o mundo não tivesse substância, ter ou não ter sentido uma proposição dependeria de ser ou não ser verdadeira uma outra proposição”. Com essa afirmação, Wittgenstein mostra que o silogismo não conduz propriamente à verdade, e Aristóteles confundiu linguagem e realidade, como se para uma proposição fazer sentido, ela dependesse de que uma outra proposição se remetesse verdadeiramente a algo que está na realidade. Entretanto, vejamos um silogismo, a tal argumentação perfeita de Aristóteles em sua busca pela verdade, que faz sentido, mas não corresponde à realidade.


Todo homem é imortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é imortal.

Assim, Wittgenstein desubstancializa a linguagem. Em outra argumentação contra a substancialização da linguagem, Wittgenstein rejeita Frege. Com sua logicista, Frege argumentou que a filosofia fundamenta a parte aritmética da matemática, e tentou reduzir a matemática à lógica num conjunto mínimo de regras lógicas. Não obstante, para Wittgenstein, a filosofia não é ciência de entidades abstratas, no caso, de objetos lógicos que compõem a linguagem matemática. A matemática é ciência, e a filosofia, bem, é preciso colocá-la no seu devido lugar e não tentar formular linguagens perfeitas, já que a linguagem se modifica através de seus usos, e não de teorias filosóficas. Pois não existem proposições filosóficas.

Discutir o que é uma proposição, essa é a questão chave do Tratactus Logico- Philosophicus. Através de sete proposições que, segundo Wittgenstein, derivam em ordem de importância e são pseudo-proposições, o filósofo discorre a respeito do mundo, do caso ou fato, da figuração, do pensamento, da proposição, da forma geral e, por fim e o mais importante, opta pelo silêncio. A ordem dos elementos apresentados é mundo, lógica, e pensamento.

Na primeira proposição, Wittgenstein fala sobre o conceito de mundo. Esse mundo não se refere a um científico, mas trata-se de um conceito filosófico. O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. Pois não existem coisas isoladas, elas estão sempre vinculadas a outras, e formam estados de coisas.

Logo mais, a segunda proposição fala sobre o fato, que é um estado de coisas. Assim como não podemos pensar, lembra Wittgenstein, em objetos temporais fora do tempo, em objetos espaciais fora do espaço, não podemos falar de nenhum objeto fora da sua possibilidade de ligação com outros.

Todas as possibilidades devem estar previstas no objeto. A lógica não é casual, e não irá surgir uma situação nova que não estivesse prevista de acordo com as propriedades internas do objeto. Conhecer o objeto é conhecer as suas propriedades internas, as propriedades externas não interessam ao filósofo. Os objetos são incolores. A lógica não trata do objeto pela sua cor, mas que ele está num espaço de cores.

As possibilidades de ligação do objeto formam a estrutura do estado de coisas. Ela é a forma do objeto. A forma do objeto, para Wittgenstein, tem algo em comum com a forma lógica.

A forma lógica é a representação da estrutura do estado de coisas. As possibilidades de ligação das formas lógicas devem estar assim como as possibilidades de ligação das coisas. Esse algo em comum, a forma lógica, que a linguagem tem com a realidade, entretanto, é inexprimível. Essa é uma das passagens místicas do Tratactus, e a lógica, para Wittgenstein, é transcendental, nela também há o indizível.

Depois de discorrer sobre fatos, na terceira proposição Wittgenstein descreve a figuração. Uma figuração lógica dos fatos é o pensamento, e esse último é descrito na quarta proposição. Dessa forma, o pensamento diz respeito somente ao que faz sentido. Idéias desconexas, avulsas, que não apresentam nenhuma lógica, não constituem pensamento, pois não se pensa o que é ilógico, assim como não se diz o que não faz sentido, e o que não faz sentido pode apenas ser mostrado.

Os limites do sentido são a tautologia e a contradição. A tautologia é sempre verdadeira, irrefutável, e por isso não faz sentido, porque o que não pode ser questionado não precisa ser dito. A contradição, pelo contrário, é sempre falsa, e nada diz. A é não-A nunca é uma proposição verdadeira e, portanto, absurda.
Na quinta proposição, Wittgenstein discorre sobre a proposição. Ela é uma função de verdade, e a verdade da proposição complexa depende da verdade das proposições elementares. Tal análise é pensada a partir do modelo químico, segundo o qual analisar é decompor.

Para Wittgenstein, não existem proposições simples, mas proposições articuladas. Ele descreve o atomismo na lógica, que determina que cada proposição complexa dependa das proposições parciais. Wittgenstein afirma ainda que apesar de as proposições elementares existirem, ele não sabe como encontrá-las, mas de qualquer forma, para o funcionamento da linguagem é necessário haver proposições elementares.

Ainda na quinta proposição, ele mostra que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Os limites do mundo são os limites da lógica. O mundo é tudo que se possa conhecer, reconhecendo os limites da linguagem. O que está além desses limites, não faz parte do meu mundo. O meu mundo é do tamanho da minha linguagem. Basta olhar para um recém-nascido e ver que o mundo dele é bem menor do que o de um adulto.

É aí onde o solipsismo se mostra uma verdade. Entretanto, o erro do solipsismo é dizer essa verdade, enquanto Wittgenstein a mostra. Segundo o solipsismo, o mundo que existe é o meu mundo, mas para Wittgenstein isso não pode ser dito, pois ultrapassou os limites da linguagem. Quem poderá olhar além do seu mundo para afirmar tal coisa?

Ao falar sobre o eu filosófico, Wittgenstein mostra que ele não é o sujeito empírico abordado, por exemplo, na ciência. Não é a vontade enquanto fenômeno tratada pela psicologia. Wittgenstein fala da vontade no sentido do sujeito que articula a linguagem, e não do psiquismo. Ele não afirma propriamente o que seja o eu, apenas nega que ele seja objeto. O eu é limite do mundo, ele está para o mundo assim como nossos olhos estão para o que está ao nosso redor, pois vemos o que está ao nosso redor, mas não vemos nossos próprios olhos. E quem poderá ver no mundo o sujeito metafísico? O sujeito não pertence ao mundo, mas ele é um limite dele. Você alguma vez já viu o seu pensamento pairando pelo mundo?

Levado às últimas conseqüências, o solipsismo é idêntico ao puro realismo. O realismo considera que a linguagem imita a realidade e para o solipsismo o único mundo que existe é o meu mundo. Considerando que o meu mundo é formado pela minha linguagem, a linguagem imita a realidade no solipsismo, pois só há o meu mundo.
Na sexta proposição, Wittgenstein mostra a forma geral da função de verdade. E ao mostrá-la ele apenas descreve que ela não pode ser dita. Ele mostra que uma proposição é o resultado da aplicação de proposições elementares. Novamente, existem diversas possibilidades.

Para ele, nem as leis naturais determinam uma verdade necessária. Elas apenas mostram uma necessidade lógica. Que o sol vai ser nascer amanhã é uma necessidade lógica, mas não existe uma coerção para determinar que de fato ele vá nascer. Pois “o mundo independe da minha vontade”.

O mundo é o que é. O que está no mundo não tem nenhum valor. O meu mundo tem os meus valores, mas eles não estão no mundo. Logo, não deve haver proposições na ética, pois ela é inexprimível. A ética é transcendental para Wittgenstein. Faça isso, isso é o correto, não pode ser dito. É preciso respeitar a autonomia de cada um ao invés de estabelecer um conjunto de regras. Porque fazer algo porque está dentro da norma, para Wittgenstein, não é ético. Na ética, as conseqüências de uma ação não devem ser importantes, apenas a ação em si.

Não matar porque senão Deus irá infringir punições não constitui ética. E não se pode dizer Deus, porque Deus não se mostra no mundo. A eternidade da alma também não se mostra no mundo, mas é certo que a morte nunca acontece na vida. Você já viveu a morte? Ou já viu limites no seu campo visual? Esse eu que olha ao redor e é limite do mundo, vê o mundo, e mundo e vida são a mesma coisa. Assim como ele não vê limites no mundo que ele vê, ele também não vive a própria morte. Então Wittgenstein mostra: “se por eternidade não se entende a duração de tempo infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente”.

Se não podemos responder se há eternidade, também não devemos perguntar sobre isso. Há o Místico no mundo. O Místico é transcendental, e a metafísica do Tratactus se refere a tudo o que não é exprimível, é a chamada metafísica inefável.

Na última proposição, Wittgenstein opta pelo silêncio. “Sobre aquilo que não de pode falar, deve-se calar”, numa tentativa de silenciar na filosofia as superteorias que pretendem explicar a realidade, mas nada dizem, que tentam responder a questões de uma vez por todas, mas apenas confundem.

Nada mais pertinente do que optar pelo silêncio depois de mostrar que durante toda a história da filosofia houve verborragias demais. Wittgenstein não elabora uma tese, mas faz uma teoria negativa. Ele não diz, mas mostra. Ao final do Tratactus, Wittgenstein simplesmente mostra que quem entendeu as suas “proposições” sabe que elas não fazem sentido. Inteiramente de acordo com suas “proposições”, ele não chega ao fim, à metateoria, mas apenas usa a filosofia como meio. Pois a filosofia é método e não resultado. Então, ele mostra que suas proposições são como uma escada. Depois de usada, ela é deixada para trás.

terça-feira, novembro 17, 2009

Estava conversando com um amigo hoje depois de compartilhamos horas de estudo na biblioteca, quando chegamos ao assunto "mulheres e homens" (ham?) e ele soltou essa: a verdade é que vocês mulheres são reféns de nós homens. Eu disse: coitado, não mesmo!

Quando eu era bem mais nova, eu achava que eu tinha que esperar um homem vir até mim. Que não tinha o direito de ir até um homem. Que não era papel meu, que eu deveria ser escolhida. Só que hoje em dia tenho plena consciência de que eu tenho todo o direito de escolher! Pois boa parte do que vem até mim não me interessa! E se o que desperta meu interesse às vezes não vem até mim, eu vou até ele!

Meu amigo disse que uma mulher mais tradicional dá conforto ao homem por haver menor possibilidade de ser traído. Ledo engano, meus caros. Ele deveria estar preocupado com o caráter dela, se ela é uma pessoa honesta e sincera, e não se já abriu as pernas. Porque o caráter não está no meio das pernas e saiu correndo ao abri-las.

O problema de boa parte dos homens é querer estar no controle. E isso envolve ter uma sexualidade mais vigorosa do que a da mulher. Uma mulher que deseja, que age, não parece confiável. É uma ameaça à masculinidade, ao falo, porque atribui-se ao homem o papel ativo - de repente ele se sente sem falo.

É o que dizem: a maioria dos homens é assim assado. Adeque-se. Problemas! Eu não quero a maioria. A maioria não me atrai. A maioria é medíocre e eu não gosto da mediocridade.

segunda-feira, novembro 16, 2009

I've lost control again

And she showed up all the errors and mistakes
And said I've lost control again
But she expressed herself in many different ways
Until she lost control again
And walked upon the edge of no escape and laughed
I've lost control

quinta-feira, novembro 12, 2009

Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira

quinta-feira, novembro 05, 2009

Descobri um interesse muito grande pela cultura oriental recentemente. O budismo tem um pensamento interessante sobre a renúncia ao desejo como forma de evitar a dor e do bem estar através da disciplina - apesar de eu não acreditar em karma e etc e tal. Comecei a fazer yoga e acho fantástica a superação dos limites do corpo, o ganho de elasticidade, a busca pelo equilíbrio, respiração correta, pensamento correto. Quero também ver mais Mizoguchi e mais Kiarostami. Até aqueles filmes de ação japoneses que eu curtia quando criança. Espero conhecer mais sobre todas essas coisas tão legais...

segunda-feira, novembro 02, 2009

Uma amiga comentava sobre um rapaz que sempre mexeu e ainda mexe com ela, e a faz pensar que nunca deixará de sentir essa quedinha por ele.

Eu disse algo de supetão a ela que fez eu mesma refletir depois - que o único amor eterno é o amor mal resolvido.

Será?

sábado, outubro 31, 2009

Bye

Enjoei de Aracaju. O povo fala, mas ah, Aracaju é tranquila, e até tem coisas legais pra fazer ao contrário do que as pessoas falam lalalalalala.

Não importa. Enjoei. Talvez eu seja nômade!

quinta-feira, outubro 29, 2009

O que aconteceu com uma pessoa que não consegue mais escrever poesia? =/

quarta-feira, outubro 28, 2009

Saudade do tempo em que eu escrevia poesia (boa ou ruim).

Tô precisando de mais Manoel de Barros, mais Fernando Pessoa, Drummond, Vinicius de Moraes, Mário Quintana, Manoel Bandeira, tô precisando mais de todos eles na minha vida!

Música que ficou insistentemente na minha cabeça hoje: Somewhere only we know, Keane (a única música legal dessa banda).

Ah! E também Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo. Música pra quem sabe que está chegando a hora de partir...

O vento nos levará!


Ontem vi um filme fabuloso: O vento nos levará (1999), do diretor iraniano Abbas Kiarostami. O tema da dialética entre a morte e a vida, a reflexão sobre o dispositivo cinematográfico, as paisagens encantadoras permanecem nesse filme assim como ocorre em O gosto da cereja. Não estou num bom momento agora para organizar as minhas ideias. Sei que esse é um filme que me lembra o quanto a arte, especialmente o cinema, é importante na minha vida. Aquele filme que fica na cabeça da gente durante dias, que não se encerra quando o filme acaba, cujo tempo se dilata através da imaginação e da rememoração. É um filme que eu sinto, muito mais do que entendo - de maneira que o sentir se torna mais interessante do que compreender. A imagem fixa dos campos quando o herói passa na garupa da bicicleta do médico velhinho - é a imagem do próprio paraíso superando a morte que o cinema torna possível. Só me faz querer ver mais filmes do Kiarostami. Genial.

domingo, outubro 11, 2009

Bastardos inglórios (2009), Quentin Tarantino


A obra Guerra e cinema, de Paul Virilio, muito mais do que um livro sobre filmes que têm como temática a guerra, trata-se de um tese sobre a estreita relação entre o cinema e a guerra através de uma logística da percepção militar e a experiência cinematográfica. O autor fala da invenção de tecnologias como o fuzil cronotográfico por Étienne-Jules Marey, anterior ao cinematógrafo, e das estratégias de visão no campo de batalha, até o cinema de propaganda da guerra, como foi o cinema nazista, ou mesmo o cinema de Griffith e seu O nascimento de uma nação (1915), com sua defesa do Sul escravista da guerra civil americana, além de Rambo (1982), a vingança reaganista da Guerra do Vietnã, e a montagem de atrações do cinema de Eisenstein no clássico Outubro (1927), que apresenta a Revolução Russa de 1917. Cinema e guerra estiveram sempre muito próximos. E Tarantino tem consciência disso. E brinca com isso.

Quem estivesse esperando relatos verídicos sobre algum grupo que espalhava medo entre os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial certamente sairá decepcionado. Afinal, Tarantino faz questão de matar Hitler justo onde? No cinema!

Filme de pura metalinguagem, Bastardos inglórios fala sobre um grupo que queria dar fim ao alto escalão do Terceiro Reich durante a projeção do filme Orgulho da nação. O filme é sobre Frederick Zoller, herói de guerra que estrela seu próprio filme. Todo o encanto sobre a guerra, toda a áurea que envolve aqueles que morrem pela nação nos campos de batalha estão lá no filme do Tarantino, e nisso ele me lembra Tempo de guerra (1963), do Jean-Luc Godard. Nessa obra, Godard faz uma crítica feroz à ideologia divulgada pela propaganda de guerra, segundo a qual os vencedores serão todos os soldados que dão suas vidas por ela- mas que morrem em função dos interesses políticos e econômicos de outrem. Lembro-me de uma cena do clássico documentário de Leni Riefenstahl, O triunfo da vontade (1934), em que a cineasta apresenta um congresso do Partido Nacional Socialista, quando um soldado nazi grita diante da câmera com os olhos hipnoticamente esbugalhados, que, caso morresse, não estaria morto, mas vivo no futuro da pátria.

Mas muito mais do que morrer pela pátria, o coronel Hans Landa quer entrar para a história. É por isso que ele, conhecido como "O caçador de judeus", ao tomar consciência da Operação Niko, que daria fim ao Terceiro Reich numa sala de projeção, ao invés de acabar com a operação, decide entrar para a história como o homem que traiu os nazistas e foi responsável pelo término da Segunda Guerra Mundial. Só que além da operação, havia a judia, Shosanna Dreyfus, sob sua falsa identidade Emmanuelle Mimieux, que era dona do cinema onde seria exibido a estréia do filme de Goebbels, e que já havia armado um plano para incendiar o cinema usando nada menos do que filmes 35mm feitos de nitrato - altamente inflamáveis. É Marcel, seu amado companheiro negro, quem deveria lançar chamas aos rolos de filme. Marcel e Shosanna, o primeiro, representante dos povos colonizados, a segunda, do Holocausto.

A imagem extremamente metafórica de Shosanna na tela do cinema interrompendo a projeção do filme que estava divertindo Hitler e emocionando Gobbels diante dos elogios do füher, fala da voz dos que querem tomar de vez os rumos da história, e nenhum meio melhor do que o cinema para ser herói.

O novo filme do Tarantino é exemplar do chamado boom da memória na cultura contemporânea de que fala Andreas Huyssen, em que multiplicam-se museus, filmes e literatura de testemunho sobre o Holocausto, que levantam discussões sobre o porquê de nos voltarmos para um passado tão obscuro que parece nos falar sobre o fracasso do projeto iluminista da modernidade, no qual o desenvolvimento técnico findou não num progesso da "humanidade", mas em milhões e milhões de mortes. Alguns dos personagens de Bastardos inglórios, aliás, são representantes típicos dessa tal cultura contemporânea que desafia as fronteiras nacionais e a identidade nacional, com alemães que matam nazistas e fazem parte dos Bastardos inglórios. Mas não se enganem aqueles que ignoram a diferença cultural em nome de um tal descentramento do sujeito - vide a judia e o negro que incendiam o cinema cheio de nazistas pelo ódio àqueles que fizeram mal ao seu povo.

Hans pode até ter entrado para a história, mas o final dela não é nada ilustre, isso Tarantino faz questão de ressaltar. Na última cena, ele sofre nas mãos do bastardo inglório Aldo do mesmo jeito que todos os nazistas que passaram por ele - Aldo fixa o símbolo nazista em sua testa (haveria marca melhor de sua identidade?), e tira o seu escalpe. Esse fim inglório me lembra aquela historinha de que Dom Pedro I estava era montado num burro, com diarréia e foi cagar na moita no momento da nossa "independência". Porque a história, meus claros, a história é inglória.

sábado, outubro 10, 2009

Todo verbo que é forte
Se conjuga no tempo
Perto, longe o que for

quinta-feira, outubro 08, 2009

Two and a half man


Muitas vezes gosto de assistir TV durante o almoço. É a única hora em que eu sinto vontade de ver televisão. E como gosto de seriados americanos, ligo logo na Warner Channel. Nesse horário, o seriado que é exibido é Two and a half man, divertidíssimo, por sinal. Entretanto, não deixo de observar a maneira bizarra como esse seriado ultrapassa o machismo e chega mesmo a ser misógino.

Tratam-se dois irmãos e o filho de um deles que vivem juntos num apartamento perto da praia. Charlie é o típico cafajeste que dorme com muitas mulheres, é bom de cama, e acaba deixando-as apaixonadas sem, no entanto, corresponder aos seus sentimentos. Charlie vive de fazer jingles para campanhas publicitárias, ganhando um bom dinheiro com pouco trabalho. Enquanto isso seu irmão, Alan, é um quiroprático que tem essa profissão porque não conseguiu passar no vestibular para Medicina, e que mora na casa de Charlie após sair de mãos vazias do divórcio, no qual sua ex-mulher, Julie, obteve tudo o que eles tinham e ainda uma pensão muito boa. Jake é filho de Alan, um gordinho que só pensa em comer, jogar videogame e ver televisão, representando um estereótipo das crianças americanas nos tempos atuais.

As personagens femininas são bastante problemáticas: a mãe de Charlie e Alan, Evelyn, foi uma péssima mãe que não só ignorava os filhos mandando-os para internatos, como ainda foi responsável pela morte do pai deles ao lhe dar um peixe estragado que lhe causou infecção intestinal, tendo após a sua morte diversos maridos que também faleceram, surgindo algumas hipóteses de que ela seria uma espécie de viúva negra. As consequências de ter uma mãe como Evelyn foi Charlie se tornar um "garanhão insensível" e Alan, um homem submisso que vive tentando agradar as mulheres querendo obter o amor que não teve da mãe. Não bastasse a mãe ser uma "bruxa", a ex-mulher de Alan, Judith, é uma mulher amargurada, frígida, interesseira, aproveitadora, e de sexualidade "confusa" - não que ela seja bissexual, mas o seriado a representa como se ela realmente não soubesse o que quer.

Para completar, Rose é uma mulher extremamente carente que, após ter uma noite de sexo com Charlie, gasta a sua vida perseguindo-o com o desejo de se casar com ele. Ela é o típico estereótipo da mulher que vive em função do amor,, que adora cafajeste e que se submete a qualquer coisa para conquistar o amado.

As mulheres com as quais Charlie sai são geralmente meninas novinhas de corpos esculturais que só têm dois neurônios: Tico e Teco. Como bom machista, Charlie tem um envolvimento maior com as mulheres que demoram um bocado para transar com ele: e geralmente não sabe lidar com mulheres inteligentes e maduras.

O próprio seriado certa vez fez uma brincadeira com a misoginia de Charlie. Depois de uma mulher chamá-lo de misógino, ele passou bastante tempo se questionando sobre o porquê de ele ser um garanhão que não consegue se envolver com nenhuma mulher e que fala frases do tipo "se eu tenho uma empregada pra limpar e cozinhar pra mim e mulheres para fazer sexo, pra quê eu vou querer uma esposa?". Nesse episódio, Rose, a mulher carente e apaixonada que também é psicóloga, diz que Charlie tem um complexo de Édipo mal resolvido com a mãe, que nunca foi boa com ele. Quando ele vai á casa da mãe, lá está ela fazendo exercícios em posições sensuais, de forma a deixar Charlie constrangido, e é aí que ele diz que ela o ensinou a ser um homem que não valoriza o amor e não confia em ninguém - até que ela diz estar orgulhosa por ele pensar assim e que a vida é isso mesmo.

A sensualidade da mãe de Charlie, Evelyn, é a sexualidade que ele e muitos homens não querem ver na mulher, especialmente a mãe. Evelyn é uma mulher que, desde jovem, sempre teve uma vida sexual bastante intensa, com parceiros diversos. Essa é a mulher que é a ameaça à sexualidade de um homem como Charlie. Eles a menosprezam e, em determinado episódio, lá está ela com a família que ela diz que é melhor do que a de sangue: um casal gay, constituído por um negro e um branco, que têm um filho adotivo chinês. E claro que Alan e Charlie os detestam. A ironia do seriado é que o filho chinês é uma criança prodígio de elevada cultura, enquanto Jake é um péssimo aluno e viciado em videogame. Mas não seriam as outras raças e as outras sexualidades incômodas inclusive na representação oferecida pelo próprio seriado? Na sala onde eles encontram Evelyn, o casal gay inter-racial e o menino chinês, lá estão as relações de gênero e de raça na sua forma conflituosa.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Stones taught me to fly
Love taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball


Damien Rice

domingo, agosto 30, 2009

A vida é um jogo, já dizia o senso comum


O poker tem me ensinado muito sobre a vida ultimamente. Sabemos que a arte de jogar poker é, antes de tudo, uma arte de jogar com as pessoas. Não há jogo que eu ache mais malandro do que o poker: afinal, você pode não ter nada na mão, ludibriar todos e ganhar tudo sem nem mostrar as cartas. Mas também é preciso saber a hora de blefar.

1- O bom jogador de poker não é emotivo. Não demonstra se a mão é boa, porque aí as pessoas não apostam, nem fica nervoso quando a mão é ruim, porque aí não consegue blefar. Pode reparar: quem faz enxame demais sobre as próprias conquistas ou sobre as derrotas só se fode.

2- O bom jogador acredita nas pessoas quando deve acreditar, e duvida quando deve duvidar (em geral, duvida). Se ele acha que a pessoa está mentindo quanto à mão, pode sair apostando e perder muito dinheiro. Se acredita em qualquer pessoa que aumente as apostas, perderá igualmente por desistir no meio da jogada.

3- O bom jogador não tem medo, e sim arrisca, mas arrisca com estratégia. Quem tem medo de apostar perde dinheiro e nunca recupera, porque mesmo quando está com uma mão boa não aumenta muito as apostas.

4- O bom jogador é ambicioso, mas não é tomado pela ganância. Depois de ganhar muito, é importante saber a hora em que o jogo não lhe promete mais nada para evitar a decadência. O mesmo pra vida.

Enfim, são muitas outras elocubrações de auto-ajuda adquiridas em mesas de jogatina. Se sou uma boa jogadora? Aí que está. Às vezes sim, às vezes não. Como na vida, a gente pode até saber a coisa certa a se fazer, mas nem por isso faz.

O advogado do diabo

Bom, dei uma paradinha nos estudos para vir aqui exercitar uma espécie de monólogo bloguístico em função dos pensamentos que tive hoje.

Eu acho o seguinte: quando uma pessoa está BUFANDO de raiva de algo/alguém, a melhor coisa a se fazer DEFINITIVAMENTE não é defender esse algo/alguém. Porque aí a coisa/pessoa odiada vai ser você.

É simples. As pessoas gostam de, às vezes, exercitar o ódio como manifestação autêntica de uma frustração, e se você inventa de dar uma de sábio, politicamente correto, você está tirando o direito da pessoa de ser insana e politicamente incorreta do jeito que ela está precisando ser pra desabafar ou sublimar certas coisas.

Portanto, é importante respeitar o ódio alheio no auge de sua maior ira. Quando a poeira baixar, aí sim você pode defender o que quiser.
Esse blog tá muito paradinho viu. Agora que tô atolada de coisa pra fazer, então, tá dando teia de aranha por aqui. Não fosse a saudade que guardo de textos passados, já tinha apagado o blog.
Chega um momento em que você sente que URGE a necessidade de separar o joio do trigo.

terça-feira, agosto 11, 2009

Simulando desmaios...

Uma vez vi uma comunidade no orkut chamada Simulando desmaios. Trata-se de um espaço para aqueles que, nas situações mais inusitadas e desagradáveis, fingem que desmaiam para se livrar da cocó. Eu achava que isso era um mero exagero até experimentar, assim sem querer, como é maravilhoso simplesmente apagar num momento desagradável. Você vai ver o que não quer, vai aguentar quem não quer, aí puf! Bye, bye. Ainda ouve todo mundo perguntando, mas e morreu foi? Apagou feio assim é? E você lá, sem mover UM DEDO sequer. Uma maravilha! Só depois me dei conta de que eu estava aderindo à técnica do "simulando desmaio"... Depois você passa a noite inteira dormindo feliz. Recomendo!