domingo, dezembro 31, 2006

Que fogo ein

Eu nunca tinha reparado em outros significados desta canção religiosa até que meu irmão me fez abrir os olhos, digo, aguçar os ouvidos...

"Vinde, assentai-vos à mesa
Corpo e sangue vos dou
Quero ver meu fogo arder..."

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Minha avó costura os segundos
que vão passando, passando...
Até que um pedaço da vida
transmuta-se em toalha de mesa

Ela reza o tempo
Com suas mãos envelhecidas,
Vovó segura o terço que segura as horas, as orações
que conta as horas, as orações

um pai-nosso
dez ave-marias
um pai-nosso
dez ave-marias
um pai-nosso
dez ave-marias
um pai-nosso
dez ave-marias
um pai nosso
dez ave-marias

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Então é natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez...

Não tem coisa pior do que passar a virada do ano com a família. Tenho péssimas recordações disso. Quando eu era guria, minha avó me obrigava a ir à uma maldita missa justamente na hora em que tava todo mundo bêbado e pulando ondinhas no mar. Eu ficava sentada ouvindo um padre imbecil que cantava mal pra caramba e falava durante três, eu disse três horas! Depois ia pra casa e comia arroz com frango, e dormia. Fora isso, eu já passei a virada do ano vendo Faustão e até dormindo! Alguém é mais loser do que eu aí? Tem condição não. Bom, hoje em dia vou à praia, e ó céus, ano passado teve show de Simone lá. Eu não aguento mais a Simone, que vão pro inferno todas as pessoas que têm aquele cd dela do natal!

domingo, dezembro 24, 2006

O bosque

Cara, eu adoro caminhar em parquinhos. Eu sei que isso é bobo, mas eu fico viajando que estou no meio da mais pura natureza, quando na verdade é só um parquinho. Eu gosto de caminhar no Parque da Sementeira, principalmente de passar por uma trilha. Andar em trilhas ouvindo o pé roçar a areia cheia de pedras é muito bacana. E no começo dessa trilha tem uma placa dizendo "Bosque". É só um caminho que passa entre pequenas árvores no parque, mas pra mim aquilo ali é um bosque.

sábado, dezembro 23, 2006

Intelectual de cult é rola

Muita gente me chama de pimba. Não é coisa que me incomode, na verdade, eu até zombo bastante disso e me auto-declaro pimba. Não que eu já tenha humilhado alguém, não que eu me ache mais inteligente do que os outros, não que eu já tenha dito que li algo sem ter lido, não que eu ande com livro debaixo do braço, mas pelo simples fato de eu gostar de ler e adorar filmes (dos mais variados tipos, e não somente os "de arte"), me chamam de pimba. Pois é, o país tem altos índices de analfabetismo, e se você gosta de ler ou você é intelectual ou você quer bancar um. Você não pode gostar de ler porque gosta, afinal, dizem por aí que ler é coisa muito chata.

Não acho. Como também não vejo problema em alguém não gostar de ler. Conheço muuuuitas pessoas extremamente inteligentes que dormem só de ver letrinhas em uma página. Ler é questão de gosto.

Tem gente que prefere colocar em prática coisas muito legais a ficar sentado numa cadeira diante de um livro, tem gente que adora números, tem gente que toca violão pra caramba. Não é preciso, é óbvio, gostar de literatura pra ser inteligente. E digo mais: gosto é que nem cu.

Mas tem gente que vive se incomodando com o cu dos outros e falando mal de quem é pimba, e blá blá blá. Falar mal é algo legítimo na minha opinião, eu falo, tu falas, eles falam. Mangar, blefar são uma arte. E quem se importa tá fudido, a vero.

O problema é que ódio puro é puro amor. Quem se preocupa demais com determinados grupos, tenho essa impressão, geralmente nutre alguma admiração reprimida. Do tipo, altos gays são homofóbicos, assim como muita gente que odeia pimba teve tentativas frustradas de ler certos livros e por isso, acreditem, existem pessoas idiotas o suficiente para invejar pimbas! Deus é mais!

Muitas pessoas que eu vi esculhambando pimbas revelaram um certo complexo de inferioridade. Já vi gente que vivia me chamando de pimba perguntar coisas pra mim como se eu tivesse a obrigação de saber, como se eu fosse mais inteligente. Vasculhando minhas notas e exigindo que eu tirasse as maiores da classe, que eu fosse a maioral.Dizendo que eram incapazes de fazer um mestrado porque não liam coisinhas "cult" (argh! odeio essa palavra!). Mas não li tanta coisa assim. E eu me pergunto, puta que pariu, o que tem a ver?

Pois então. Adoro quem faz gozação pelo livre exercício do sarcasmo, quem não leva muita coisa a sério e não tá nem aí pra porra nenhuma. Eu falo mal de pimbas com pessoas que me chamam de pimbas e eu as chamo de pimbas, e somos felizes eternamente. Agora se você tentou ler aquele livro e não conseguiu e odeia quem lê, porra, você é paia pra caralho!

sexta-feira, dezembro 22, 2006


No cinema, entre imagens de sonhos,lembranças, fantasias, e outras da rotina dos personagens, as cenas em que os espectadores são mais iludidos são as que mostram os personagens no lugar comum da vida.

- E agora, isso é um sonho ou é de verdade? - perguntam no escurinho do cinema.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Amor é questão de costume

Aí de repente você percebe que o amor não nasce do nada,
nem nos toma de sobressalto sem nos permitir defesa.
Ele não é místico, transcendental, ele é construído.

Então gente vê que poderia amar sei lá quantas pessoas nesse mundo,
e não apenas nosso marido,
nosso namorado,
aquele ou aquela a quem acreditamos todo o amor de uma vida inteira
O amor poderia ser dedicado a qualquer outra pessoa a quem a gente apenas...
se acostumasse!

Amor é questão de costume
E tudo depende da nossa vontade,
Porque a gente só ama quando quer amar
Afinal, amar é uma decisão, e uma decisão de quem sente falta.

sábado, dezembro 16, 2006

É claro que ele é!

Dona A. é uma típica vizinha. Ela pede sal quando tá faltando na sua casa, e oferece sopa quando acha que sua comida está muito gostosa. É uma velhinha muito magra e de pequena estatura que adora ir à igreja, sempre passa por mim cheia de compras de supermercado, e vez por outra faz um curso de artesanato. Uma velhinha feliz. Mas Dona A. não chamaria a atenção de ninguém não fosse o fato de ter dois filhos travestis, que atraem os olhos nas ruas com seus peitos siliconados como ímãs, e que escutam Madonna no máximo volume.

Os dois moram na Espanha e são endinheirados. São tranformistas por lá, e na Espanha dá pra ganhar muito, mas muito dinheiro com isso. Têm um carinho enorme pela mãe, telefonam, querem saber como ela tá, do que precisa, e quando estão aqui em Aracaju fazem questão de enchê-la de regalias. Compram móveis caros, decoram o apartamento para deixá-lo cada vez mais luxuoso.

Mas Dona A. seria uma satisfeita mãe de filhos gays não fosse a estranheza de certos comentários. Certa vez, minha mãe estava assistindo à novela na casa dela, quando ela se mostrou indignada com um personagem gay.

- Que coisa! Onde já se viu ein! Coitada dessa moça, ela não tá vendo que ele gay?! Virgem Minha Nossa Senhora, essa televisão de hoje né? É tão triste uma mãe ter um filho gay!

Minha mãe disse que ficou impressionada com a forma como ela falava de homossexuais como se fosse algo distante da realidade dela. Comentava com aquele típico puritanismo de dona-de-casa conservadora, reafirmava valores que, na verdade, no seu lar não faziam o mínimo sentido.

Talvez fosse uma forma de não ficar envergonhada diante das amigas, apesar de não haver vergonha nenhuma em ter um, digo, dois filhos gays. Já minha mãe acha que quem sabe ela não mente pra si mesma até hoje e acha que dois marmanjos siliconados que usam plumas e adoram Madonna não são gays.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


(...)E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)(...)



Trecho do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças


Quem nunca fez bico, birrou, teimou, mas não acatou a posição da mãe, da professora, etc? Pois é, eu também. Só que agora alguns psicólogos dão nome pra isso, um tal de Transtorno de Conduta e o Distúrbio de Déficit de Atenção.

O Transtorno de Conduta se refere aos problemas com autoridade, no caso, crianças que não lidam bem com ordens e regras. Já o Distúrbio de Déficit de Atenção ocorre em crianças hiperativas, que não conseguem ficar paradas, são impulsivas, explosivas, e com dificuldades de concentração. Dizem os especialistas que um transtorno está relacionado ao outro, pois as crianças com DDA têm dificuldades no âmbito das relações sociais, são continuamente rejeitadas, e acabam por desafiar ordens como uma forma de chamar a atenção.

Pais levam essas tais crianças "neuróticas" para os consultórios de psiquiatras e psicólogos e adivinha o que acontece? Eles passam anti-depressivos e obrigam a criança a ir toda semana ao divã para falar de suas "angústias existenciais".

Agora, eu me pergunto pra quê tanta doença. Dizem quem tá se dando bem com isso são as indústrias farmacêuticas. É tanto transtorno de qualquer coisa, que daqui um dia as prateleiras das farmácias vão ficar pertinho do chão no meio do supermercado pras crianças pedirem à mãe seu anti-depressivo, assim como fazem com brinquedos. Exagero, eu sei, mas com tanto guri tomando remédio punk por quê diabos ainda existe aquele aviso na embalagem "Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças"?

Coitadas das crianças! No mundo civilizado o que não faltam são normas, proibições, punições. Se elas não conseguem ficar sentadas decorando a tabuada em plena flor da idade, quando querem coisas interessantes e precisam de um aprendizado mais interativo, elas são doidas. Se elas ficam putas da vida de ter que ir pra escola onde desde o maternal escutam falar de vestibular, elas são doidas. São malucas e tristes, pobres coitadas!

Acabou-se a palmatória, mas agora elas são carinhosamente chamadas de sociopatas e engolem comprimidos que as deixam eufóricas e sonolentas todos os dias. E viva a (pós?)- modernidade!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

O tempo

Estava de manhãzinha tirando fotos com meus colegas no Mercado para a disciplina Fotografia e Iluminação, quando encontrei um senhor vendendo revistinhas de literatura de cordel, um homem muito conversador, cheios de histórias encantadas pra contar, um tal de João Firmino Cabral. Decidi comprar algumas revistinhas, uma delas, Os sofrimentos de Célia, de Manoel Pereira Sobrinho, e gostei muito muito desta frase:

O tempo é a fita trágica
Do cinema da matéria.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

No pátio da escola, antes repleto de crianças correndo em todas as direções, mas que haviam sido levadas pelos carros dos pais, eu aguardava ansiosamente pela chegada da minha mãe, pois sentia fome e já passava de meio-dia. Às vezes chorava quando ela demorava demais com medo de ela me deixar na escola e nunca mais voltar. Aos seis anos, eu era uma bolinha, e só pensava em comer e brincar de Barbie. Quando minha mãe chegou, apontei para minha colega e disse:

- Veja só, mãe, ah, como eu queria ser como ela.

- Pra quê, minha filha? Você é tão bonita.

- Não, ela sim é bonita. Ela é loira. Eu queria ser loira.

Às vezes eu ficava me auscultando no espelho e desejava que meus cabelos fossem amarelos, meus olhos, azuis. Queria tirar aquela negritude dos meus aspectos, queria que meu nariz fosse empinadinho, que meus lábios fossem finos. Eu me achava feia porque precisava ser mais branca, e arrancar de mim toda aquela mestiçagem. Queria ser como as bonecas e as atrizes da TV.

De minha avó recebia elogios por ser branca. Ela dizia que suspirou de alívio ao me ver recém-nascida nos braços de minha mãe. Deus me livre você nascer preta, dizia ela. Vovó mora nos confis do sertão de Sergipe, é descendente de índios e tem marido negro. Mas ela queria que eu puxasse ao outro lado da família, o lado da minha mãe, dos brancos.

Certa vez, ela veio me visitar depois de anos sem me ver. Chorou tanto, que cambaleava sem aguentar tamanha emoção. Queria-me assim, crescida e estudando na Universidade, distante das plantações, da seca, do sol que aperta os olhos de quem olha pro céu.

E ao me ver brincar com uma menina de cabelos encaracolados, uma prima que ela levara para me apresentar, vovó pediu para a menina ficar quieta. Disse que ela, diferente de mim, era pretinha, e pediu para a doce mocinha dos cabelos encaracolados parar de me incomodar. A menina mergulhou nos braços dela, e depois correu e foi brincar com meus irmãos, que corriam e gritavam, como livres, pela casa. E não adiantava minha mãe reclamar do barulho e que a roupa ia ficar suja.

Percebi, então, que os cabelos daquela menina lembravam os cabelos que eu tinha na infância. Logo ao vê-la andetrar na sala, reparei feito boba nos cachinhos e tive saudade dos meus caracóis. Como eu adorava meus caracóis e brincava com eles! Eles eram feitos pelo carinho da minha mãe, que enrolva meus cabelos com uma escova até formar os meus queridos cachinhos.

Isso foi engraçado. A menina que queria ser loira dos olhos azuis, vivia pedindo à mãe para fazer cachos nos seus cabelos. O que me chamou a atenção, o que me fez ter certo carinho por aquela mocinha, foram seus caracóis moldados pela sua negritude. Os caracóis que eu tanto cantava na infância, debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante! E ela corria com meus irmãos pela casa, e ali não havia nem negro nem branco, nem raça alguma. Só havia gente, bichos até.

terça-feira, novembro 28, 2006

Orgasmo ajuda a acabar com a guerra no mundo

Dois activistas da paz dos EUA planejaram a grande manifestação anti-guerra, que decorrerá no dia 22 de Dezembro. Querem que neste dia toda gente fique em casa.

A organização Orgasmo Global pela Paz foi criada por Donna Sheehan, 76 anos, e Paul Reffell, 55 anos. Dois activistas acham que o orgasmo vai ajudar a focar-se na paz mundial.

“O orgasmo provoca um sentimento incrível de paz durante e depois dele,” declarou Refell.

Os activistas estudaram psicologia e acreditam que a razão da guerra é o desejo do homem impressionar outro homem, quer dizer “o meu míssil é maior do que o teu,” segundo Reffell.

Reffell e Sheehan querem tentar transformar a energia sexual das pessoas em algo mais positivo.

Mas os activistas não são estranhos ao sexo e ao activismo social. Em 2002 Sheehan pediu a cerca de 50 mulheres tirar a roupa e gritar a palavra “Paz”.


Fonte: Site Pravda

Conversa de ônibus

Essa conversa eu ouvi ontem à noite a caminho da aula de Filosofia da Linguagem, que não tive. Eles falavam tão alto que não tinha como não ouvir...

- Um dia desses ela virou pra mim e disse "Eu te amo". Mas veja só, quando foi no sábado ela me ligou do celular umas 10 da noite e disse que estava na festa da Derrota. E que amor é esse?

- É né.

- Sabe, não tem como entender as mulheres.

- Ah, que nada. Vai ver que não é pra tentar entender.

- É? Vá nessa que quando você for se dar conta já vai estar com um belo par de chifres na cabeça.

- Que é isso, rapaz, você diz isso porque tá revoltado.

- Revoltado não, é verdade.

- Anram.

- E você com a Mariana?

- Tô bem.

- Você ama a Mariana?

- Anram.

- Você disse pra ela?

- Disse.

- E aí?

- Ela fez "anram".

- Poxa, se eu dissesse "eu te amo" pra alguém e essa pessoa me respondesse "anram"...

- Eu perguntei, "você me ama?", e ela disse "anram".

- As mulheres são incompreensíveis aos humanos.

- Aos humanos homens né?

- Sim, aos humanos homens.

O desapego

- Marthe, ele foi seu amante?

- Sim -disse ela- Mas estou interessada no filme.

Naquele dia, Mersault começou a apegar-se a Marthe. Ele a conhecera há alguns meses, atraído por sua beleza e por sua elegância. Um rosto um pouco largo, mas regular, os olhos dourados, e os lábios tão bem pintados que ela parecia alguma deusa de rosto desenhado. Uma tolice natural que brilhava nos seus olhos acusava, ainda, seu ar longíquo e impassível. Até agora, a cada vez que Mersault tinha com uma mulher os primeiros gestos decisivos, consciente da desgraça que determina que o amor e o desejo se expressem da mesma forma, ele pensava no rompimento antes de ter estreitado esse ser em seus braços. Mas Marthe acontecera num momento em que Mersault se liberava de tudo e de si mesmo. A preocupação de liberdade e de indiferença só é concebível num ser que ainda vive de esperança. Naquela época, para Mersault, nada contava. E, na primeira vez em que Marthe se descontraiu nos seus braços e que ele viu, nos traços que a proximidade tornara suaves, os lábios até então imóveis como flores pintadas, animarem-se e oferecerem-se a ele, não vislumbrou o futuro através dessa mulher, mas toda a força de seu desejo fixou-se nela e encheu-se com essa aparência. os lábios que ela lhe estendia pareciam-lhe a mensagem de um mundo sem paixão e inflado de desejo, em que seu coração se teria satisfeito. Isto ele sentia como um milagre. O coração batia com uma emoção que quase confundiu com o amor. E, quando sentiu a carne cheia e elástica sob os dentes, foi uma espécie de liberdade selvagem que mordeu furiosamente, depois de tê-la acariciado com os próprios lábios durante muito tempo. Tornou-se sua amante naquele mesmo dia.

A morte feliz, Albert Camus

sexta-feira, novembro 24, 2006

terça-feira, novembro 21, 2006

O quereres

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro
sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo
queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem
alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha
liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco, e onde queres
romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres
eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não
vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres
cowboy eu sou chinês
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres
ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo
eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres
tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu
sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos
dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e
rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor
me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não
queres como és
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres
romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o
inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um
canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres
coqueiro eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de
mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao
quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem
ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do
que não há em mim


Caetano Veloso

segunda-feira, novembro 20, 2006

Bandeira a dois


Internet tem cada coisa... Confira...

Sou taxista há 15 anos, 12 deles no mesmo ponto. Sou casado e tenho quatro filhas lindas. Minha esposa é muito dedicada. Tenho um caso com uma grã-fina há dois anos. Mas, para mim, isso não é traição. Traição seria se eu pagasse o motel e deixasse de colocar arroz e feijão dentro de casa. Como é ela quem paga o motel e a corrida até lá, então não acho que esteja traindo alguém. Ela sim trai o marido, pois paga com cheque de uma conta conjunta.

Ronaldo,Rio de Janeiro,RJ

domingo, novembro 19, 2006

sábado, novembro 18, 2006

Só Wittgenstein poderá nos salvar!

Eu sei que o título é de pimba. Mas, caro (a) leitor (a), dessa vez juro que não foi minha culpa. Essa frase foi dita aos brados pelo meu professor de Filosofia da Linguagem. Então o que quero falar neste texto? Bem, quero dizer que, de fato, percebi o quanto o pensamento de Wittgenstein poderá nos ajudar (não só eu, você também viu) a solucionar os problemas cotidianos de excessos de idéias desastrosas. Sabe aquele problemão que você arrumou? Tsc tsc, pode ser apenas um exemplo de mal uso da linguagem!

Você pode achar que estou brincando, mas estou falando sério sim. Veja bem, Wittgenstein dizia que houve na história da Filosofia uma série de pseudo-problemas. Filósofos se questionando sobre o tempo (ó), Deus (ó), e dizendo coisas aparentemente geniais, produndas, quando na verdade não diziam coisa com coisa! Wittgenstein vem botar ordem nessa bagaceira e manda esse povinho deixar de verborragia e reconhecer os limites do sentido. Do que não se pode falar, deve-se calar, diz o grande homem.

Ele fala de uma tal de "terapia gramatical". Trata-se de exercitar a crítica filosófica, de perceber até onde a linguagem pode ir, de reconhecer os diversos significados e, além do mais, ver que eles podem ser verdadeiros, mas sempre lembrando dos limites do sentido, afinal, não se pode olhar pra Monalisa e dizer "I like bananas". Agora veja como Wittgenstein pode ser de grande valia, muito melhor do que qualquer livro de auto-ajuda ou qualquer psicólogo.

Sabe aqueles pensamentos que a gente tem que não levam a lugar algum? Que só trazem preocupação? São apenas péssimos usos da linguagem! Isso mesmo! Você formulou que isso e aquilo, quando na verdade era uma questão trivial. Você não passa de um (a) filósofo (a) ruim, meu (a) caro (a).Além disso, algo que causa muitos mal-entendidos no cotidiano é essa história de achar que só o seu entendimento dos signos, das palavras, enfim, é válido. Não! É preciso entender como legítimas aquelas coisas que você acha absurdas, mas que podem ter sentido sim. Então caia na terapia gramatical!

Entendeu, né? Wittgenstein não explica, e assim é bem melhor. Entretanto, ele mesmo era um porra louca, que chega no final do Tratactus Logico-Philosophicus e diz: quem compreendeu o que eu disse no Tratactus, entende que tudo o que eu afirmei não faz sentido. Bem, entenda como quiser! E deixe de lado seus pseudo-problemas!