terça-feira, novembro 21, 2017

The fall



Um homem bonito, inteligente, sedutor, psicólogo, pai de família e... serial killer que mata mulheres com um mesmo perfil: elas têm cerca de 30 anos e apresentam uma boa carreira profissional. Comecei hoje a ver The fall hoje. Assisti a três episódios e gostei muito. Algumas cenas me chamaram a atenção: a montagem entre as imagens de Paul (o assassino) observando uma vítima dormindo, então ouve-se um grito que conduz a outra cena - é a filha dele tendo mais um de seus episódios de terror noturno. A associação inusitada entre a figura do psicopata e a do pai de família se dá através da intuição da criança e é fabricada pela montagem, como na cena em que Paul lava com afeto os cabelos da filha e, paralelamente, surgem imagens do cadáver de uma vítima que está sendo examinado - a vitima de quem ele havia retirado alguns fios de cabelo como lembrança do crime. Paul tem o costume de entrar na casa de suas vítimas e deixar índices de sua passagem para elas, índices que aparecem para as personagens como sinais sombrios. Ele cria a sua narrativa que se repete e também a sua encenação feita para que ele seja um espectador de si mesmo. Numa cena, ele se posiciona pouco atrás de outra vitima que está próxima ao espelho e se regozija vendo a própria silhueta refletida, aterrorizante. Depois vai embora, pensando em retornar outro dia. O gozo do serial killer é o voyeurismo, o poder, a imagem. Como diz a detetive Stella Gibson no momento em que cria o perfil do assassino junto com sua equipe: "ele criou a sua própria pornografia".

quarta-feira, novembro 08, 2017

O pássaro das plumas de cristal (1970), Dario Argento


Um serial killer (um homem? Uma mulher? apenas uma pessoa?) mata mulheres com golpes de faca e canivete. A sua primeira vítima teria sido atacada logo após vender um quadro que representava um homem vestindo uma capa preta e esfaqueando uma mulher numa praça. Essa imagem é a obsessão do assassino. E se torna também a obsessão de um jornalista americano, Sam Dalmas, que, numa viagem à Itália, acaba sendo surpreendido ao ver um homem vestindo capa preta golpear uma mulher numa galeria – o cenário é composto por esculturas monstruosas, a trilha apresenta uivos de lobos, variações do ponto de escuta entre o interior da galeria e o exterior, onde Sam observa tudo através do vidro e preso entre dois portões, tornam a cena angustiante. No decorrer da investigação, o inspetor pede para que Sam rememore a cena. Ele diz que não consegue se lembrar de mais nada. No entanto, a cena se repete em vários momentos do filme sob o ponto de vista de Sam, trazendo novos enquadramentos, zooms, congelamento da imagem, como se as imagens fossem a expressão do inconsciente de Sam (agora consciente), como se fossem o exercício da busca por um inconsciente óptico do narrador numa temporalidade da cena estendida (quem sabe infinita). O pássaro das plumas de cristal (1970), de Dario Argento – que tem esse nome numa alusão ao ruído das plumas de cristal de um pássaro típico da Sibéria que aparecia nas gravações com ameaças às vítimas- joga com a identificação com a vítima e o algoz de modo bastante ambíguo, e transforma a imagem da cena do trauma que se repete infinitamente no próprio centro da narrativa e do estilo.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Quando ele chegou

Quando ele chegou, comprei um citotec por 500 reais
Mas não queria beber no bar pra não fazer mal ao meu bebê
Alisava minha barriga, nem havia começado a crescer
Mas eu jurava que ele estava lá
E o citotec no lixo joguei

O médico enfiou o aparelho do ultrassom transvaginal por entre minhas pernas como num estupro
Só havia um borrão na imagem, e eu podia ouvir o coração do bebê batendo, batendo, batendo
Da outra vez eu vi um bebê que cabia na palma da mão
ERA ELE! O meu bebê!
Eu estava sozinha
E chorava porque no mundo ele só existia para mim
E o mundo inteiro deveria ama-lo, sim!

Vomitava os cafés da manhã
Enjoava do café, do cheiro do café, do iogurte, da textura do iogurte
Tinha sono o dia todo, o meu corpo pesava uma tonelada e meia
Era corpo demais para carregar
Eram dois corpos, mas era só eu
Era só eu e a agulha na veia, o raio X

Era só eu e o meu medo, as minhas mágoas, a vida explodindo dentro de mim e eu sem suportar
Mas era também você se mexendo misteriosamente dentro de mim
A metafísica da física
Era você falando comigo, me ouvindo
Eu rezava a algum deus para que você não sentisse o que eu estava sentido

Eu já não aguentava mais carregar o peso
Eram textos sobre parto humanizado, parto em casa, parto na água
E tudo que eu queria era que acabasse logo
Pensava em marcar a cesárea
Sim, a mulher fraca

Até que me acordei num sobressalto e
Quando me levantei o líquido escorreu violentamente e fez no chão uma poça d’água
Era você querendo sair do meu corpo e pedindo para chegar ao mundo
E eu queria muito que o mundo fosse para você uma casa tão acolhedora quanto meu útero

Ouvi seu choro, você parou de chorar assim que te colocaram juntinho de mim
E começou a respirar mais calmo
Você conhecia o meu cheiro
Era o cheiro de quem te ama muito

Quando te segurei nos meus braços, eu não conseguia parar de te olhar e de te achar lindo
O bebê mais lindo do mundo
E diziam que a sua boca era igual à minha, os lábios carnudos
Admirava as mãozinhas cruzadas, os olhinhos fechados, os bocejos, você esticando os bracinhos com sono
Era você no meu colo, você que eu tanto esperei
Crazy little thing called love, “this thing called love, I just can’t handle it”
como naquela música do Queen

E até hoje quando você faz aniversário eu sinto como se uma parte de mim andasse por aí.







domingo, agosto 13, 2017

Elefante branco (2012), Pablo Trapero



Elefante branco é o nome de um grande hospital inacabado situado próximo a uma favela em Buenos Aires. E é também uma expressão que faz referência a uma coisa que é custosa de manter e sobre a qual pairam dúvidas sobre a sua real necessidade. É o espaço que diz muito dos personagens de Elefante branco (2012), de Pablo Trapero: Julian, um pároco enfermo que já não suporta mais o peso de carregar outras vidas nas costas; Nicholas, um voluntário belga que burla as regras do pároco e se aproxima cada vez mais de traficantes com o fim de obter a paz entre as gangues, além de manter um romance com uma assistente social que o coloca em crise sobre sua vocação. Ambos de origem rica e em busca de algum sentido espiritual ao levar uma vida franciscana. Um filme sobre manter-se vivo, sobre ser um sujeito que busca estar sempre para além de si mesmo, lançado ao mundo, mas num mundo hostil que destroça utopias. Um filme que mostra a favela sem glamour tarantinesco na montagem, sem bandidos e mocinhos, plano-sequência acompanhando um padre indo pedir a uma traficante o corpo do sobrinho do chefe de outra gangue para ser enterrado, câmera à distância mostrando dois padres lutando para que um policial não mate o menino que assassinou um policial infiltrado. Um filme que concilia questões existenciais e políticas, e que traz um olhar humanista - mas um humanismo que duvida de si mesmo diante da guerra e da luta pela sobrevivência.

quinta-feira, maio 25, 2017

Get out (2017), Jordan Peele


Logo no começo de Get out!, um homem negro perambula por uma rua escura num subúrbio de classe média americano, procurando uma casa num lugar que lhe parece perigoso. Ele percebe que um carro diminui a velocidade e se aproxima dele, então muda de direção e conclui: “sabe como eles tratam gente como eu né”. Eis que um homem o agarra abruptamente, lhe dá uma chave de braço e o leva para o carro. Desde a primeira cena, o filme apresenta o olhar do negro inserido num ambiente hostil e em que os brancos são como "monstros” que estimulam sobressaltos no espectador. Quando a narração entra “em fase” com o olhar de um homem negro num lugar repleto de brancos, não é o negro que é o Outro, e sim o branco é o Outro. E é uma ameaça.

Numa cena, o irmão da namorada de Chris, o jovem negro que vai passar o final de semana na casa da família da sua namorada branca (Rose), afirma que se Chris treinasse luta iria se tornar um “monstro” devido à sua “carga genética” e ao seu porte físico. A monstruosidade do corpo negro criada pelo olhar racista é colocada em questão neste filme de forma, eu diria, oposta ao que ocorre em filmes como O som ao redor e Aquarius. Nos filmes de Kleber Mendonça, o olhar convocado é o do espectador branco, de classe média, que se assusta com a aparição de figuras negras (os meninos que pulam o muro da casa em O som ao redor, a empregada negra que furtava joias em Aquarius e que aparece num pesadelo). O objetivo de Kleber Mendonça parece expor as feridas abertas dos conflitos raciais, no entanto, esses filmes acabam reforçando o caráter “monstruoso” do corpo negro. Ao contrário, em Get out!, é a consciência do negro a respeito do olhar racista do branco que está em jogo.

Assim que Chris chega à casa dos pais de Rose, ele repara que os empregados, Walter e Georgina, são negros. E sua chegada é vista à distância, num plano filmado do ponto de vista de Walter com uma música de suspense, o que, de saída, o aproxima dos misteriosos empregados (não sem medo). Por mais que os brancos sejam “simpáticos”, por mais que o sogro afirme que “votaria em Obama pela terceira vez se pudesse”, há na encenação um conflito proeminente que resiste à falsa conciliação, presente inclusive em trocas de olhares intimidantes. Exemplo disso, no momento em que a mãe de Rose hipnotiza Chris, o ruído estridente e repetitivo da colher mexendo na xícara toma conta da cena da hipnose, e a sua amabilidade dá lugar a um controle ameaçador. Durante um leilão em que estão presentes muitos familiares, Chris ouve comentários como “negro está na moda”, ou perguntas sobre se por acaso sua performance sexual é de fato melhor, enfim, o lugar que lhe é dedicado é o do exótico e do objeto. Em tempos de “make America great again”, Trump e muros, Get out! é um filme que faz uma crítica incisiva à sociedade que jamais superou as heranças da escravatura e da Guerra de Secessão. Quando o irmão da namorada dá uma chave de braço em Chris, ele conta: “um Mississippi, dois Mississippi, três Mississippis...”, em referência ao estado americano que até os dias de hoje tem escolas onde estudam apenas brancos ou apenas negros.

Jordan Peele realiza um filme de autor (possibilitado inclusive pelo acúmulo de funções: diretor, roteirista e co-produtor) que lança mão dos códigos do suspense e da ficção científica, e elabora imagens que adensam o passado e o presente na crítica histórica sob a forma de uma atmosfera fílmica que dá a ver o “retorno do recalcado”, ou da presença do “fantasma”, esse passado que permanece assombrando o presente, mesmo que seja constantemente impelido para o esquecimento. Chris descobre que é parte de um experimento: a sua namorada o teria atraído para a propriedade da família com a finalidade de que ele fosse hipnotizado por sua mãe, uma psiquiatra, e fosse submetido a uma cirurgia realizada pelo seu pai, um neurocirurgião. Através da cirurgia, Chris perderia metade do seu cérebro, e, assim, o galerista cego da família iria finalmente enxergar “através dos olhos” de Chris. Ele descobre também que os empregados da casa tiveram seus corpos usados para conceder imortalidade aos avós de Rose. O passado do racismo científico e da eugenia é convocado aqui: áreas da ciência se desenvolveram às custas da exploração do corpo negro, considerado abjeto, a exemplo da ginecologia, que tem James Marion Sims, que realizou cirurgias em mulheres escravizadas sem anestesia, como “pai da ginecologia moderna”. Não há limites para a exploração e subjugação dos corpos dos negros pelos brancos.

Antes de ser levado para a cirurgia, Chris é amarrado numa cadeira que faz uma clara alusão à cadeira elétrica (a grande maioria dos condenados à pena de morte nos Estados Unidos é constituída por negros), e ele é colocado de frente para uma televisão em sessões de hipnose, e um cervo empalhado (numa referência ao cervo é morto após irromper abruptamente na frente do carro quando ele e a namorada estavam indo à propriedade da família). Ao final, Chris é salvo pelo seu amigo policial, mas antes temos medo do que irá acontecer a um negro encontrado vivo junto a diversas pessoas mortas, e nos perguntamos o que será de Chris após tudo isso. O grande número de negros que continuaram sendo mortos por policiais durante o governo de um homem negro (ou sobre os limites da representatividade), “black lives matter”, estão presentes aqui.

Um cinema monstruoso. A figura do monstro perde humanidade, o monstro é a diferença exposta em carne viva. O monstro traz à cena um “excesso de presença”, e em todo o filme Chris expõe a profunda consciência do seu “excesso de presença” perante brancos que lhe parecem, eles sim, monstros. Monstrum, do latim mostrar, advertir, tem a ver com presságio, com um perigo que está porvir (o perigo da distopia de uma sociedade que precisa de muros e novos apartheids?). O monstro é também algo fora da ordem do real: Get out! recorre à transgressão do real para falar alegoricamente sobre problemas muito reais. 

terça-feira, maio 23, 2017

Um método perigoso (2011), David Cronenberg


Quando eu digo que o cinema é uma arte misógina não é por acaso (e feita em grande parte por homens). Na maioria das vezes, ver filmes me proporciona a percepção mais aguçada do quanto mulheres são odiadas. É o caso de Um método perigoso (2011), do David Cronenberg. A paciente de Jung encontra a cura para a histeria através de transas masoquistas com ele. Sabina, que era espancada pelo pai desde os quatro anos de idade nua num quartinho, se regozija tendo sexo violento com Jung. Ela, que estuda Medicina, chega até a escrever uma dissertação em que defende que morte e sexo são duas faces de uma mesma moeda, e que o exercício da sexualidade é intrínseco à destruição do ego, mas paradoxalmente também fonte de potência e criação. Numa cena, ela está de quatro sendo espancada por Jung, e a câmera mostra a cena num plano diante do espelho. Sabina olha com prazer para a própria submissão, ela goza com o ritual da repetição da cena do trauma. Nas cenas em que Sabina narra suas experiências, seus gestos são excessivos e descontrolados, e a câmera se mantém distanciada, fixa, com Jung ao fundo do quadro observando-a de forma calma e altiva (o olhar de Cronenberg diante da mulher?). Ela sempre faz questão de ressaltar que ele foi a sua cura. É isso, mulheres que sofreram violências precisam de uns tabefes para se libertarem. É com prazer que Cronenberg filma o sofrimento de Sabina. Ela sorri ao ver a veste manchada de sangue após perder a virgindade com Jung: A imagem que sintetiza a morte e o sexo. A mulher deseja ou deseja aniquilar-se? Sabina deseja ou deseja ver-se como objeto no espelho?

Pequenas epifanias

"Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — “Tentação” — na
cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza
aprisionada. Ela, com sua infância impossível.” Cito de memória, não sei se correto. Fala no
encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também
ruivo, que passa acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o
puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos,
acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que
velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem
solitária do não pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado,
também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias
encravadas no dia a dia".

Pequenas epifanias, Caio Fernando Abreu.

domingo, abril 30, 2017

Paterson (2016), Jim Jarmusch


Paterson é o nome do protagonista do último filme de Jim Jarmusch, um introspectivo poeta e motorista de ônibus, e é também o nome da cidade onde ele vive, no estado de Nova Jersey. Paterson é a cidade e a cidade é Paterson, um lugar onde ele vive, e o lugar que vive nele. O filme acompanha a rotina de Paterson durante uma semana, e a montagem elabora uma narrativa banal e repetitiva, tal como o caminho que uma linha de ônibus faz todos os dias, tal como a vida.
De manhã cedo ele troca afagos com sua esposa, segue para o trabalho, ouve as reclamações de um colega no início do dia, dirige o ônibus, escreve poemas à beira de uma bela cachoeira por onde passa uma ponte, leva o cão para passear, bebe alguns corpos de cerveja no bar. No ônibus, as imagens se dividem entre o que ele observa atravessando a cidade e o que os passageiros conversam dentro do veículo (e ele os olha vez ou outra através de um espelho). Paterson parece estar sempre catando histórias por onde passa, e contempla as paisagens como belos quadros móveis criados pela janela do ônibus. A sua voz em off, relutante, pausada, letárgica, recita os versos e letras se inscrevem nas imagens de quedas d´água que brilham sob o sol.
Depois de ficar consternado após seu cão despedaçar o seu “caderno secreto”, Paterson ganha um caderno em branco de outro poeta que conhece de frente para a cachoeira. E ele volta a escrever. Os poemas não se perderam. A partir dessa comunicação entre o espaço do corpo do personagem e o espaço da cidade, o filme cria a sua própria poesia. Não é à toa que dizem que “o tempo passa”, como se houve uma passagem, um lugar que o tempo percorre. Essas passagens, Paterson transforma em palavras, e Jarmusch transforma em imagens.

Num dos poemas que ele escreve no seu “caderno secreto”, Paterson diz: “When you’re a child you learn there are three dimensions/ Height, width and depth/ Like a shoebox/ Then later you hear there’s a fourth dimension/ Time/ Then some say there can be five, six, seven…” (“quando você é criança, aprende que há três dimensões: altura, largura e profundidade/ como uma caixa de sapatos/ então depois você ouve dizer que há uma quarta dimensão/ Tempo/ Então dizem que pode haver cinco, seis, sete...”). Uma quarta dimensão, o tempo, desestabiliza as dimensões unicamente espaciais e traz à tona o cruzamento entre o tempo e o espaço. E é sobre essa matéria que o filme de Jarmusch trabalha, a partir de um espaço feito de memórias, perambulações e do encontro entre a cidade e o homem que nela vive. De um espaço feito de tempo, enfim. 

segunda-feira, abril 17, 2017

Dia dos mortos (1985), George Romero


A primeira cena de Dia dos mortos (1985), de George Romero, mostra a pesquisadora Sarah sentada observando um calendário que apresenta uma horta com alguns pés de abóbora. Ela se aproxima, toca a imagem com certo encantamento, até que mãos atravessam a parede e agarram o seu corpo. Essa cena mais parece uma síntese da temporalidade da narrativa fílmica e da relação a ser estabelecida com o espectador: em Dia dos mortos, não existe um tempo banal da vida que transcorre, mas somente o caos e o perigo da morte, e o olhar pertence a um corpo que está em constante ameaça de ser devorado.

A trama de Dia dos mortos se desenvolve num abrigo militar subterrâneo com uma crescente tensão entre militares e pesquisadores cercados por um apocalipse zumbi. Tal como em outros filmes da Trilogia dos mortos, como Noite dos mortos vivos (1968), em que grande parte da ação se dá numa casa no meio do nada, e Despertar dos mortos (1978), centrado no espaço de um shopping center, o terceiro filme da trilogia coloca seus personagens isolados numa espaço claustrofóbico em que parece não haver saída além da morte.

Em todas as cenas de ataques de zumbis, o ponto de vista da câmera está do lado de quem está prestes a ser atacado. E a montagem insere planos violentamente rápidos que tomam de assalto o espectador, como quando Sarah sonha que seu namorado, Miguel, havia se tornado um zumbi enquanto ela dormia. Os corpos são reduzidos à carne: vísceras, miolos, sangue, peles sendo arrancadas, tudo diante dos olhos atônitos dos personagens que assistem a si mesmos sendo devorados (tal como, em certa medida, o espectador).

Numa cena, o cientista Logan faz experimentos com um zumbi enquanto ele é observado pelos pesquisadores por trás de um vidro, que se sobressaltam quando pensam que ele iria atacar Logan. Dia dos mortos trabalha a partir das rupturas entre sujeito e objeto, de uma estética do espanto diante da possibilidade de não ser mais sujeito, de ser puramente objeto, um cadáver ambulante.
Como diz Logan, “zumbis são como nós”, e mostra o zumbi que havia sido militar, Bub, sabendo manusear uma arma, como um corpo que somente repete gestos e age instintivamente em busca de carne mesmo que não precise ser alimentado. Um filme feito no final da Guerra Fria e que mostra militares autoritários que acabam sendo devorados pelos mortos.

O espectador que Dia dos mortos convoca é justamente aquele que se encontra num pesadelo: com imagens fortes, com um corpo que é um fantasma, mas que sente e sofre na pele a pungência das imagens.


sexta-feira, outubro 09, 2015

Que horas ela volta? (2015), Anna Muylaert



Não é à toa que a personagem Jéssica, no filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, saiu de Pernambuco para ir à São Paulo prestar vestibular para Arquitetura. A personagem, apesar de não admitir, tem plena consciência das relações conflituosas entre mundos e de como elas se tecem a partir de distintos lugares e funções destinadas aos corpos – lugares e funções que ela recusa, em plena rebeldia dos seus 17 anos de idade. Ela estranha o fato de sua mãe, Val, morar na casa dos patrões, e assim que chega à residência sai explorando o espaço, pega o livro da estante da sala emprestado, senta na cama do quarto de hóspedes e acaba indo dormir lá, em vez de deitar no colchão no chão do apertado e quente quarto de empregada, considerado pela mãe o seu “cantinho”. E Jéssica é o elemento que perturba o equilíbrio anterior existente na narrativa, e seduz os integrantes de uma família burguesa para desintegra-la defronte suas vidas vazias e fúteis, tal como o visitante misterioso de Teorema, de Pasolini (guardadas as devidas distinções).

A forma como Val se relaciona com o espaço da casa dos patrões é totalmente distinta, e é assim que ela entende e aceita os códigos da subalternidade. Nas primeiras cenas, Val dá tudo na mão de seus patrões, que sequer se levantam para buscar comida na geladeira, e, tanto na cena em que ela serve “doutora” Bárbara, assim como quando coloca a mesa para “doutor” Carlos, a câmera se situa na cozinha, com o vão da porta separando a câmera da ação. O distanciamento entre os personagens criado através do enquadramento desenha o lugar ocupado de fato por Val: o de subordinada, apesar de Bárbara referir-se a ela como “alguém da família”, depois de dar uma flor para desejar boas vindas à sua filha. Esse enquadramento lembra aquele que em Santiago, de João Moreira Salles, separava o diretor do documentário e o personagem do filme, seu mordomo Santiago – modo de enquadrar que o diretor, numa guinada reflexiva, analisa como distanciado e revelador de uma relação assimétrica. Além disso, o quarto de Val localiza-se na parte inferior e sua janela dá de frente para uma parede com uma grade; num plano em que ela conversa ao telefone, o quadro enfatiza a grade de forma a estruturar o espaço do quarto de Val como uma prisão.

Já Jéssica se diverte com o fato de o filho dos patrões, Fabinho, e o seu amigo jogarem-na na piscina. Nessa cena, a água toma conta do quadro de forma a ganhar textura, a expressar sensações que o corpo de Jéssica era privado de sentir. Ato de desobediência que lhe custou caro; depois de almoçar com o marido da patroa na sala de estar, mergulhar na piscina junto com o filho foi o cúmulo. O desconforto cresce a tal ponto que em certo momento a patroa determina que, enquanto elas não arrumam uma casa para alugar, Jéssica só pode utilizar o espaço “da cozinha pra lá”. Na verdade, a restrição ao espaço “da cozinha pra lá” já era uma realidade para pessoas como sua mãe e ela, a insubordinação de Jéssica apenas “forçou” a explicitação da hierarquia.

Progressivamente, a personagem de Bárbara ganha contornos de vilã no filme. No entanto, há algo no âmbito dos afetos que torna patroa e empregada semelhantes. O sentido do título do filme vem numa cena em que Jéssica conta que, depois que a mãe foi embora para São Paulo, sempre perguntava para sua tia que a criou “que horas ela volta?”. A mesma pergunta que Fabinho, na primeira cena do filme, teria feito ainda quando criança à Val, na espera pelo retorno da sua mãe. Assim, o filme de Muylaert revela-se não apenas uma narrativa sobre classes, mas também sobre relações familiares. Não há ali apenas algo do “conflito de classes” a partir da banalidade cotidiana como em O som ao redor, de Kleber Mendonça (que desse filme se afasta pelo tom revanchista), ou da dualidade entre afetos e relações de dominação de Doméstica, de Gabriel Mascaro, mas também o melodrama e a narrativa sobre culpa e perda que vimos em Jogo de cena, de Eduardo Coutinho.


Após muitos anos de resignação, Val ousa molhar os pés na piscina enquanto dá os parabéns por telefone à sua filha por ter passado no vestibular. O ruído da água da piscina que ela faz questão de mostrar à filha por telefone mais uma vez dá textura às sensações que Val não podia ter. A filha promove uma transformação fundamental na personagem, que já não cabe no quarto de empregada nos fundos da casa. Ela vai morar junto com Jéssica e pede para cuidar do filho que ela deixou em Pernambuco. O seu “happy end” foi ter finalmente o seu próprio espaço, o da casa inteira, e não mais “da cozinha pra lá”.

sábado, maio 24, 2014

Operação Cajueiro - um carnaval de torturas (2014), Fábio Rogério, Werden Tavares e Vaneide Dias


Imagino que realizar um filme da importância de Operação cajueiro não seja nada fácil: os documentaristas são confrontados com a grandeza do tema e a “responsabilidade”, por assim dizer, de ser uma voz solitária em meio ao silêncio da mídia local (no passado e no presente) sobre o episódio de repressão violenta da ditadura militar em Sergipe. As cobranças são muitas e elas vêm de todos os lados: o filme precisava abordar esse e aquele fato, como se fosse um “dever de casa” do documentário dar conta de uma totalização histórica. Por outro lado, existem também as exigências estéticas, que caracterizam o filme como “quadrado”, como se todo documentário tivesse que experimentar em termos de linguagem cinematográfica (o que considero questionável, mas isso não quer dizer eximir o documentarista de estabelecer um compromisso com a relação entre forma e conteúdo, entre estética e política).

Primeiramente, não considero um problema um documentário como Operação Cajueiro ser um “talking heads” – aquele formato centrado nas entrevistas, mais preocupado com o que os personagens têm a dizer do que com o virtuosismo da imagem. Na verdade, se pensarmos que se trata de um documentário que aborda o terrorismo de Estado na sua face mais sombria, a tortura, os depoimentos dos personagens são realmente a matéria prima do documentário. Se a tortura é o meio que tem como fim último não fazer falar, mas sim calar, o documentário realiza um gesto político ao ir de encontro ao silêncio da repressão. Mas o problema é que neste filme a História se sobrepõe ao testemunho. Ou seja, a tentativa de abordar uma série de informações sobre o ocorrido prevaleceu sobre o que os personagens teriam para narrar. A tortura deixa marcas profundas na mente de quem a viveu, e o trauma exige o profundo respeito de uma escuta atenta, que abriga relutância, pausas, silêncios, reflexão. É extremamente necessária uma mise-en-scène documentária que acolha o testemunho dos personagens, que dê tempo para suas memórias emergirem. 

A montagem de Operação Cajueiro não concede aos personagens duração: suas falas se encontram fragmentárias, rasgadas por jump cuts (cortes no continuum espaço-temporal da tomada), embaralhadas com diversos outros depoimentos. Os personagens relatam acontecimentos dolorosos, chegam a chorar, e mesmo assim o corte os interrompe porque é necessário passar a outra coisa. Ressalto um problema: ouvi os diretores falarem em limitações temporais impostas ao filme (a obra deveria ter no máximo 30 minutos). O que me faz questionar sobre os danos que as imposições de editais podem infringir às obras audiovisuais. Mas outro problema, a meu ver, é o excesso de diretores: imagino a dificuldade de três diretores dialogarem para decidir o que entra e o que fica fora do filme, além da questão estilística, claro, considerando as diferentes concepções estéticas dos realizadores.

No que concerne à utilização das imagens de arquivo, este é o ponto forte do filme. O documentário se inicia com uma imagem de Geisel sendo ovacionado por uma matéria jornalística chapa branca da época, e ao seu lado o atual prefeito de Aracaju, João Alves (que foi prefeito biônico durante a ditadura militar), como também o ex-ministro do STF, Carlos Ayres Britto, e o senador Valadares. O filme utiliza a imagem de arquivo não como um documento histórico, uma comprovação de fatos do passado, mas usa a imagem de arquivo a contrapelo, pois subverte os significados da imagem produzida naquele contexto através da ironia e a atualiza colocando-a em choque com o presente. Vemos pessoas que apoiaram a ditadura militar e que, ainda hoje, têm um enorme poder político. As imagens de arquivo também são desviadas de seus sentidos propostos pela mídia da época no momento em que a montagem insere ao final do filme as imagens do carnaval que aconteceu paralelamente à Operação Cajueiro. Nesse sentido, o documentário é uma dura crítica ao apoio irrestrito da mídia à ditadura militar – não por acaso, o documentário Operação Cajueiro foi ignorado pela TV Sergipe na data de seu lançamento. No entanto, mais uma vez a montagem termina picotando as imagens do carnaval, fazendo-as perderem sua força desmanchando-se entre os créditos finais.


Entre problemas e virtudes, Operação Cajueiro – um carnaval de torturas é um filme necessário, como muitos disseram, e foi o que suscitou mais polêmica, e isso, por si só, já é um mérito.

quarta-feira, maio 14, 2014

La jetée (1962), Chris Marker


A primeira imagem que aparece em Sans soleil (1983), de Chris Marker, apresenta três crianças movendo-se de mãos dadas numa paisagem idílica na Islândia. A narradora, que lê as cartas do viajante Sandor Krasna (o narrador das imagens que surgem no filme), recita uma carta na qual o aventureiro afirma que gostaria de iniciar um filme com esta imagem, que seria, para ele, a imagem da felicidade. Ela deveria ser seguida por uma não-imagem, uma tela escura. Para o viajante, se os espectadores não conseguissem ver a felicidade na imagem das crianças na Islândia, ao menos eles veriam o escuro. Em La jetée (1962), Chris Marker também teria elaborado um personagem obcecado por uma “imagem da felicidade”: desta vez, a imagem de uma bela mulher num aeroporto, uma recordação que o protagonista acredita pertencer à sua infância.

Num mundo pós-apocalíptico, devastado pela Terceira Guerra Mundial, não há mantimentos, medicamentos, apenas cidades destruídas e radioatividade. Como não há nem presente e nem futuro possível, a única saída para os homens é o Tempo. No subsolo, alguns homens realizam experiências com a mente humana, e o protagonista do filme é escolhido para uma delas. Nesse experimento, o protagonista se envolve numa escavação pelas imagens de sua vida, criando um romance com a bela mulher no aeroporto. La jetée, intitulado como um foto-romance nos créditos iniciais do filme, apresenta uma decupagem tecida a partir de fotografias. Em Ontologia da imagem fotográfica, André Bazin propunha que se a morte é a vitória do tempo, a fotografia embalsamaria o tempo na tentativa de eternizar um instante visto na imagem fotográfica como uma recordação. Na concepção de Bazin, o cinema, por outro lado, seria uma espécie de “múmia da mutação”, pela sua capacidade de registrar imagens em movimento. Assim sendo, diante da impossibilidade do presente e do futuro num mundo pós-apocalíptico, o que resta são as imagens que remontam a um passado perdido, como numa fotografia, como nas fotografias que compõem a montagem do filme. A tentativa de lutar contra a morte e a catástrofe da guerra.

Vemos imagens de uma Paris em ruínas. Apesar da atmosfera de ficção científica que fala sobre o futuro (Terceira Guerra Mundial), o filme utiliza imagens documentais capturadas no passado, mais precisamente no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Marker cria uma diegese de ficção científica através da justaposição entre a narração da voz over em terceira pessoa e as imagens documentais de modo a tornar o apocalipse não uma imagem do futuro, mas tão somente uma imagem do passado.

Durante o experimento com sua mente, o protagonista vê imagens de plena beleza, como passeios feitos junto com a mulher do aeroporto. Temos, neste filme, um herói imobilizado, que aparece sentado numa cadeira com fios ligados seus olhos recobertos. Um personagem que não age, mas sim está entregue às imagens que o assaltam. Se lembrarmos do que Deleuze diz em A imagem-tempo, trata-se de um personagem vidente, não um actancial.

Se, por um lado, La jetée parece abolir o tempo das imagens cinematográficas e retornar à temporalidade própria da fotografia, a montagem se encarrega de conceder um ritmo às imagens e redimi-las com o movimento. Na sequência em que o protagonista retorna à cena em que o seu olhar observa atentamente a mulher no aeroporto, e então descobre que, na verdade, aquele teria sido o instante da sua morte, a montagem adquire um ritmo intenso, fazendo sucederem rapidamente, com campo e contracampo, e numa ordem progressiva as imagens da morte do personagem.

Pouco antes, o protagonista teria ido ao futuro, um mundo harmônico e feliz, mas teria sido obrigado a retornar ao mundo em ruínas. Os habitantes do mundo do futuro, que tinham uma espécie de terceiro olho, disseram-lhe que os homens deveriam aprender com o passado. Do futuro ele não traz nenhuma imagem. Do mundo devastado, as imagens do pós-Guerra. E um personagem que se agarra a um instante que parece infinito. Seria essa a lição de Marker? O que nos resta são as imagens da felicidade no instante da morte? Como a imagem da felicidade em Sans soleil: num momento posterior do filme, Krasna afirma que aquela paisagem onde as crianças estavam teria sido arrasada por uma erupção vulcânica. A imagem da felicidade: um instante de pura beleza eternizado pela câmera numa luta contra a morte.

domingo, março 30, 2014

Ela (2013), Spike Jonze


Theodore, um homem que gosta de escrever cartas com histórias de amor e que frequentemente é invadido por imagens fragmentárias do seu finado casamento, caminha por Los Angeles repleta de arranha-céus e de pessoas passando pelas largas avenidas, aprisionado num quadro cinematográfico que engrandece uma paisagem fria de concreto e "blue", um homem solitário submerso em plena multidão. A metrópole, esse espaço que proporciona o encontro constante com a coletividade, também é o lugar por onde se anda numa massa amorfa de passantes indiferentes uns aos outros. No meio dessa paisagem azul e opressiva, lado a lado de andantes que conversam ao celular, Theodore surge como um ponto vermelho, a mais vibrante e emotiva das cores.

Neste filme, a relação entre cor e espaço é impregnada pelas emoções de Theodore. São comuns cores como vermelho, laranja, rosa, salmão, azul e amarelo ligadas a um personagem sensível e solitário, como se seu estado de alma contaminasse a visão de tudo ao seu redor. Tal como a personagem de Monica Vicci em Deserto vermelho (1964), de Michelangelo Antonioni, uma burguesa neurótica que vive o mal estar da grande cidade e perambula no meio de uma paisagem com alguns elementos de cores intensas em meio a uma imagem acinzentada, enevoada e desfocada de uma fábrica, as cores são também aqui empregadas em prol da adesão do filme ao modo de percepção de seu narrador personagem.

Após o fracasso de seu casamento, Theodore inicia um relacionamento com um sistema operacional. A voz (que sabemos pertencer a Scarlett Johansson) dá a si mesma o nome de Samantha, é espontânea, e entre eles dois se forma um perfeito entrosamento nos diálogos. Samantha representa uma relação entre tecnologia e esquecimento tal como a busca de Joe por apagar as lembranças da sua última relação numa clínica em Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004), de Michel Gondry. Esses dois filmes apresentam em comum a temática da angústia diante da efemeridade de relacionamentos descartáveis no contexto da (pós?)-modernidade, mas este filme particular apresenta uma contradição entre as tecnologias feitas para estabelecermos comunicação para além do tempo e do espaço, e a nossa dificuldade cada vez maior em nos comunicarmos aqui e agora. Aos poucos, Theodore vai se apaixonando por Samantha, e ela também começa a se envolver com ele, o que provoca dúvidas sobre a sua condição de mero sistema operacional, conduzindo a uma vontade de tornar-se humana. O antigo dilema das criaturas técnicas criadas pelos humanos e abordadas nos filmes de ficção científica: o sonho em ser algo além da técnica, a procura pelas linhas de fuga, o amor, o desejo.

Apesar da sua vontade de tornar-se humana, Samantha jamais toma corpo no filme, permanecendo enquanto um acúsmetro (ou personagem invisível presente apenas através da voz over). No entanto, se o acúsmetro no cinema é geralmente um personagem que tem um corpo, mas que não vemos, neste caso particular estamos em contato com uma voz sem corpo. O corpo, aliás, é abordado no filme como a essência da separação entre o humano e a máquina (mais precisamente, neste caso, um conjunto de dados abstratos). O corpo, o que nos torna seres ancorados num determinado espaço e condenados ao perecimento no decorrer do tempo. Num encontro entre Theodore e Samantha e um casal de amigos dele, Samantha afirma que, apesar de desejar se tornar humana, os sistemas operacionais têm a seu favor o fato de serem livres das amarras do tempo e do espaço.

A voz over no cinema assume a característica de ser uma voz desvinculada de um espaço determinado. Uma voz que ouvimos sem conhecer o seu locutor poderia se assemelhar a um deus (lembrando que Deus surge diversas vezes na Bíblia como uma voz, alguém transcendente e poderoso) ou poderia nos remeter à nossa primeira experiência de contato com o mundo exterior, quando ainda estávamos no ventre materno e ouvíamos a voz da mãe. Assim sendo, a voz de Samantha estaria muito mais próxima da representação do anseio de afeto que teríamos diante da voz materna. 


Numa sequência, Samantha conta que decidiu escolher uma música para que ela se tornasse uma "fotografia" dos momentos junto com Theodore. Ouvimos uma bela música de ritmo intenso nas teclas do piano, enquanto vemos imagens de Theodore deambulando pela cidade, olhando para os altos edifícios da janela de seu apartamento, observando o monumento de um avião num parque, comprando frutas num supermercado,  sempre conversando ao celular com Samantha. Através da música, Samantha torna-se imagem. A música, essa arte que provoca sensações no nosso corpo por meio do som, é por meio dela que a voz de Samantha, de certo modo, assume um "corpo". Já dizia Michel Chion em O som: "se, quando se trata de som, temos um mito em torno dele, é porque vinculamos, na palavra e no que esta evoca, o abstrato e o concreto, o espiritual e o material".

Aos poucos Samantha vai se afastando de Theodore, envolvendo-se com outras vozes e outros mundos, até que um dia ela se despede, contando sobre um misterioso desaparecimento de todos os sistemas operacionais. Numa cena, Theodore está desesperado após um breve sumiço de Samantha e depois finalmente ter ouvido uma voz fria e distante, ele questiona se ela estava falando com outra pessoa, e então observa, sentado numa escada de um metrô, as pessoas conversando ao celular, como se todos estivessem envolvidos em relacionamentos com sistemas operacionais. Nessa hora, me lembrei das vezes em que me irritei com pessoas que usavam whatsapp enquanto falavam comigo, ou quando fizeram o mesmo tipo de reclamação para mim. É nesses momentos em que vemos que a ficção científica, que apresenta elementos fantásticos envolvendo a tecnologia, não nos mostra nada além da mais pura realidade. 



domingo, novembro 17, 2013

Gladiador (2000), Ridley Scott


Gosto de ler críticas depois que vejo um filme. E ontem, depois de rever Gladiador li algumas críticas e constatei que as principais reclamações em torno do filme diziam respeito a uma abordagem política pífia. Fato. No coliseu onde lutam os gladiadores diante do povo e dos senadores, há muito da mitologia democrática americana que retorna à Roma antiga com um herói que fala inglês e defende com todas as forças o fim do império e a consolidação da República. Mas o que mais me chamou a atenção no filme foram as disputas de poder que se instauram numa cena, e as relações entre o espaço da plateia e o do espetáculo.

A primeira sequência deste filme épico mostra a vitória de Maximus contra os bárbaros sob o olhar impávido do imperador Marcus Aurelius. A montagem justapõe dois espaços: o da luta de Maximus e o de seu observador, num jogo entre a cena e o espectador (jogo constante no espaço fílmico da obra em questão, como veremos adiante). Marcus Aurelius está próximo da morte, e termina escolhendo Maximus para sucedê-lo, com o objetivo de que ele torne Roma uma República. Mas o seu filho, Commodus, ao descobrir que o posto de imperador não lhe será transmitido, mata o pai. Toda essa sequência que mostra a decadência e morte do imperador apresenta uma belíssima composição de luz e cor. A paleta de cores apresenta a predominância do magenta e do azul acinzentado: o magenta, união das cores vermelho (o sangue e a violência), e azul (a virtude, o poder e a honra); e o cinza, que impregna o império com a decadência e a morte.

Commodus ordena a morte de Maximus que, no entanto, mata os seus algozes. Ele vai em busca de sua família para salvá-los, no entanto, ao chegar encontra a esposa e o filho mortos, queimados, pendurados na frente de sua casa. A montagem paralela reforça a tragicidade da cena ao unir a imagem do filho correndo pelo campo e gritando "papai!", acreditando que era seu pai quem estava chegando com a tropa, aos planos de Maximus correndo em busca de sua família.

Então, Maximus é encontrado e levado junto com homens escravizados, vendidos para serem gladiadores. O homem que os compra se auto-intitula um "entertainer", ou um "homem de entretenimento". Ele também havia sido gladiador, mas, após conquistar a plateia, teria conseguido a liberdade com um gesto do imperador Marcus Aurelius. Maximus, então, se dá conta do jogo estabelecido entre os dois espaços: o da cena e o da plateia, e, obedecendo aos brados do povo pedindo "Mate!Mate!", ele mata aqueles que cruzam o seu caminho na arena. Rompendo com a separação entre a cena enquanto um microcosmo, e a plateia enquanto o lugar da observação, ele lança uma espada para a plateia e grita: "Vocês estão se divertindo? Não é isso o que vocês querem?", tornando-se um verdadeiro show man. O seu inimigo, Commodus, como todo bom político totalitário, tem consciência da relação intrínseca entre o seu poder e o controle que exerce sobre a multidão. Por isso, em sua luta pela manutenção do Império contra a iminência da República, investe na conquista das massas através do fomento da política de pão e circo, oferecendo os espetáculos das lutas de gladiadores às multidões enérgicas e sádicas. Maximus, por outro lado, desafia aquele que matou sua família através do entretenimento das massas.

Lucius, o filho de Lucilla, a irmã de Commodus (este, obcecado pela irmã, vive sempre ansioso pelo incesto, não-realizado), se encanta pelas batalhas de gladiadores e tem Maximus como um herói, que na arena veste uma máscara e se chama Spaignard. O pai de Lucius provavelmente teria sido assassinado pelo ciumento cunhado. Quando Commodus decide encontrar o gladiador junto com Lucius para conhecer o gladiador que encanta as multidões e o seu sobrinho, ele descobre a verdadeira face de Maximus sob a persona criada para o público. Commodus pergunta o seu nome, e o gladiador responde que ele é Maximus, que servia ao verdadeiro imperador de Roma, e brada que ele havia sido assassinado pelo próprio filho. Eles, os espectadores do "teatro de gladiadores", não acompanham tudo isto; nós, espectadores de cinema, transportados para o interior da cena através dos mecanismos de projeção/identificação da decupagem clássica, estamos bem próximos da luta travada entre Maximus e Commodus. Para a próxima batalha, Commodus arma uma série de armadilhas para que Maximus morra na arena; no entanto, o gladiador vence diversos homens e ainda mata tigres. Ao final, abre mão de matar um dos seus adversários, e a plateia então brada: "Maximus, o piedoso!", ganhando, para infelicidade de Commodus, ainda mais prestígio junto às massas.

Então, Lucilla arma um plano para que Maximus lidere soldados para destituir o imperador, com o objetivo de que Gracco instaure uma República em Roma. Mas Commodus descobre a traição da irmã, tudo isso através da visão de uma cena. A montagem, mais uma vez, une os espaços da cena e da espectatorialidade. Lucius brinca de gladiador com uma espada, e brada que Maximus irá salvar Roma. Commodus assiste a toda a sua representação assombrado, e pergunta onde o sobrinho teria ouvido isto, descobrindo assim o plano de sua irmã.

Commodus mata os seus inimigos e prende Maximus, ferindo-o com um punhal para que ele lute contra ele diante do público, pois o seu único modo de matá-lo sem fazer dele um mártir era derrotando-o na arena. No entanto, mesmo cambaleando e ferido, Maximus vence e mata Commodus, e então morre. Nos seus últimos minutos de vida, o que obceca Maximus é uma imagem: uma porta fechada, um jardim, sua esposa esperando por ele, seu filho correndo ao seu encontro, o paraíso. A vidência da felicidade é a sua realização, a verdade do paraíso é essa imagem.

O filme finda com o amigo de Maximus, um negro escravo e gladiador, enterrando dois bonecos que representam o seu filho e a sua esposa, dizendo que agora é livre e um dia irá encontrá-los. O último plano é um travelling sobre o coliseu. A democracia, finalmente, se realiza, sob o estandarte do governo do povo e da liberdade. O sonho do imperalismo americano: os Estados Unidos, que defendem com unhas e dentes a mitologia democrática e seus princípios republicanos, por outro lado, se relacionam com o resto do mundo como um império. E Maximus, quer queira, quer não, conseguiu concretizar o sonho da democracia às custas do espetáculo, do poder exercido sobre as massas, ao modo do totalitarismo. E nós somos um pouco como a plateia que grita "Mate!" ao assistir às suas lutas. Não é isto o cinema americano dos blockbusters, enfim?

sexta-feira, outubro 18, 2013

Meu tio (1958), Jacques Tati

Os créditos iniciais de Meu tio apresentam os nomes dos integrantes da equipe de filmagem inscritos em placas numa fábrica, enquanto a trilha sonora traz ruídos de máquinas. Deste modo, neste filme em que Jacques Tati desenvolve uma sátira da vida mecanizada da classe média francesa, submetida ao reinado da técnica sobre as construções, objetos e até mesmo corpos, nem mesmo o cinema escapa da crítica do diretor. Jacques Tati nos lembra, logo de início, que o cinema, misto de arte e técnica, é uma arte que é também indústria e que, portanto, as imagens deste filme foram fabricadas no mesmo modo de produção dos produtos da fábrica Plastac, dirigida pelo Sr. Apler, chefe da família apresentada na obra.

A casa da família Apler é um cenário impessoal e frio, onde prevalecem as formas geométricas, as cores metálicas, os vasos com visual "moderno", e no entanto sem flores, além de muitos aparatos tecnológicos. Já a casa do Sr.Hulot, o tio que dá nome ao filme, é uma simples residência localizada num cortiço num bairro pobre, onde vemos feiras, cachorros vira-latas e vendedor de doces. É lá onde o menino Gérard, filho do casal Apler, tem seus momentos de diversão, até voltar para casa todo sujo, tendo que limpar os pés muitas vezes antes de entrar em casa.

A crítica à vida mecanizada empreendida por Jacques Tati é feita especialmente através do trabalho da direção de arte, realizada por Henri Schmitt. Em Meu tio, o que vemos é uma verdadeira casa-máquina: a Sra.Apler aperta um botão parar abrir a porta da frente, e em seguida liga um chafariz, que tem um formato de peixe, para impressionar as visitas (mas, em certo momento, ao ver que quem tocou a campainha foi o feirante, ela automaticamente desliga o chafariz, revelando uma clara distinção social através do cenário); numa cena, a Sra.Apler prepara o jantar de Gérard tendo à sua disposição todo um maquinário na cozinha, apenas para entregar ao seu filho um ovo cozido e um sanduíche, enrolado num plástico, o que ressalta a artificialidade do ambiente e das relações; em outra cena, a Sra.Apler mostra o presente de casamento ao seu marido: uma porta de garagem que se abre através de um censor - no entanto, após o cachorrinho de estimação passar na frente do censor, o casal fica preso na garagem, de modo que Jacques Tati ridiculariza os indivíduos que se tornam reféns da própria técnica.

Ao final, o pai enciumado manda o tio para o interior, longe do sobrinho, após as tentativas desastrosas de tornar Hulot um "homem exemplar", e assim o pai redescobre a espontaneidade infantil fazendo peraltices com o filho na fábrica. Ao recorrer a um humor simples e ingênuo, e, no entanto, muito ácido e sagaz, Meu tio é permeado por uma exaltação de uma espécie de devir-criança, de uma vontade de tornar-se menor, como tática para se contrapor à racionalidade técnica que domina a vida humana.

As pessoas pensam sempre em um futuro majoritário (quando eu for grande, quando tiver poder...). Quando o problema é o de um devir-minoritário: não fingir, não fazer ou imitar a criança, o louco, a mulher, o animal, o gago ou o estrangeiro, mas tornar-se tudo isso, para inventar novas forças ou novas armas.
Diálogos, Gilles Deleuze e Claire Pernet.


domingo, julho 24, 2011

Os sonhadores


Assistir hoje a Os sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, pela segunda vez foi uma experiência bastante inusitada. Já faz mais de uma hora que o filme acabou e ele ainda está aqui comigo. Cá estou eu ouvindo I'm a spy in the house of love, I know the dream that you're dreamin on..., depois de algumas músicas da Janis Joplin.

Dessa vez o filme Os sonhadores teve outro significado pra mim primeiro porque vi bem mais filmes do que na primeira vez em que o vi, e reconhecia imagens como aquela do final do filme e que pertence a Mouchette (1967), de Bresson. Ou mesmo entrava na brincadeira dos personagens, como quando Theo, o personagem interpretado por Louis Garrel, pergunta qual o personagem que morre em cima da sombra de uma cruz e eu logo reconheci o plano de Scarface (1932), do Howard Hawks. E inclusive me lembrei do filme do Phillippe Garrel lançado dois anos depois, Amantes constantes.

Mas a identificação definitivamente não para por aí. Todo aquele climão de anos 60, revolução cultural, Vietnã, bandas de rock, e etc, me fizeram rememorar a minha adolescência. Claro que eu não vivi essa época, mas digamos que na minha adolescência eu tinha uma pequena obsessão pelos anos 60. Movimento hippie, The Beatles, The Doors, Janis Joplin, Led Zeppelin me encantavam muito.

Lembro que eu andava por aí com o cabelão e uma camisa onde havia escrito Break on through to the other side. Claro que havia muito mais, mas minha vida era tomar vinho com meus amigos, tocar violão na Sementeira e bater cabeça em show de rock.

Recordo como hoje da experiência louca que foi passar uma semana na aldeia hippie de Arembepe andando quilômetros sobre dunas com uma mochila imensa nas costas, tomando banho em rio, esperando uma hora pro miojo ficar pronto esquentando num fogo improvisado. De um lado a praia, do outro o rio, no meio dunas, casas rústicas, um mundo à parte. Como se a gente tivesse criado uma diegese, uma ficção.

Tudo isso me dá muita saudade. E na verdade até hoje insisto em ser meio moleca. Não sei quando é que eu vou ter um estilo de adulta, se é que isso vai acontecer algum dia. É que a juventude é gostosa demais.

Como diria Jim Morrison: You're lost little girl...

segunda-feira, junho 27, 2011

Metade

Hoje uma amiga comentou no meu facebook perguntando se eu tinha abandonado o blog. Daí resolvi escrever este post.

Desde que cheguei aqui em Belo Horizonte, minha vida entrou num ritmo muito intenso. Muita gente nova, muitos lugares novos, algumas belas experiências, outras muito ruins. Em geral, uma dificuldade muito grande de lidar com o novo e o desencanto com alguns moinhos de vento...

Uma coisa engraçada é que eu só me tornei nordestina quando cheguei aqui. Para as outras pessoas, não tenho uma "identidade sergipana", mas sou vista como nordestina. Dizem que meu sotaque é carregado. Gosto disso. Apesar de ter pego algumas manias mineiras, como falar uai e nó, minha fala ainda é muito nordestina.

Sinto falta especialmente da praia. Na minha mente muitas vezes vem a imagem do mar, o barulho das ondas. Acho que quando eu observar o mar em Aracaju finalmente me sentirei em casa.

Gosto de Belo Horizonte, mas não me sinto em casa. Não sei se isso é passageiro, ou se é Belo Horizonte que é passageira na minha vida.

Amo muito o que estudo. Uma coisa interessante é ver como evolui, como minha pesquisa mudou completamente (até mesmo o objeto de pesquisa), e foi se tornando mais complexa, mais bonita. Dá trabalho, passei por muitas críticas e leituras, mas é gostoso ver as coisas mudando pra melhor.

Mas uma coisa da qual sinto falta é o tempo para leituras não-obrigatórias. Como essa aqui:

Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também

Ferreira Gullar


sábado, junho 25, 2011

Se te queres

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos