E se a vida inteira nos ensinaram que o amor era união
quem nos convencerá de que o amor é também solidão?
quinta-feira, julho 30, 2009
sábado, junho 13, 2009
Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água!
Álvaro de Campos
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água!
Álvaro de Campos
terça-feira, junho 09, 2009
domingo, junho 07, 2009
Esse negócio meu de intuição, que até comentei num post recente, me pregou uma peça do caralho. Eu achava que uma coisa ia acontecer, e essa coisa de fato aconteceu, só que com um detalhe que mudava todo o sentido do fato. Ou seja, eu me achando a Mãe Dinah, e no fim das contas não podia prever mesmo porríssima nenhuma. É meio como se os deuses quisessem tirar onda com a minha cara. E foi uma onda bem feia. Aprendi a lição: do futuro eu não sei é nada. NADA.
sábado, junho 06, 2009
Yo soy brega

Hoje estava ouvindo a saudosa Elis Regina, a maior cantora brasileira de todos os tempos em minha humilde opinião, quando me dei conta do quanto sou brega. Isso mesmo: BREGA. Frases como "eu hoje me embriagando de whisky com guaraná, ouvi sua voz murmurando são dois pra lá, dois pra cá!" me comovem. Já dizia Fernando Pessoa: todas as cartas de amor são ridículas. E há toda uma magia envolvida nessa breguice sem fim. Acaso me perguntarem qual Chico Buarque eu mais gosto, o político ou o romântico, digo sem um pingo de vergonha que sou apaixonada pelo Chico brega! Aquele que canta "devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu! Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade... na saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde!". Em se tratando de cinema, sou fascinada pelo Almodóvar e seus personagens de histórias de amor malucas, que carregam no peito uma paixão visceral. Aliás, o Godard, com todo aquele discurso contra a identificação com os personagens, e o papo de distanciamento bretchiano, não conseguiu me distanciar. Vai ver ele traz mesmo algo novo sobre o amor em filmes como Elogio do amor e Alphaville, num discurso que vincula o amor a uma crítica ao Estado. Só sei que no fim das contas, pra mim há poesia em nosso companheiro de Natal, o Roberto Carlos. O Roberto é gente da gente, ele canta "duvido que ele tenha tanto amor, e até os erros do meu português ruim, e nessa hora você vai lembrar de mim!". Sejam "intelectuais" ou "melosos", pra mim o importante é que eles sejam BREGAS. Porque o brega é sincero!
sexta-feira, junho 05, 2009
Desde que o avião da Air France desapareceu, não há quem tenha sossego com tanta notícia sobre o acontecimento. Vá lá no site da Folha de São Paulo e veja do que estou falando. Você tem que nadar pelo site pra ver se encontra algo que não fale da porra do avião. Só dá isso em tudo que é noticiário. Minha gente, quer dizer que esse avião caiu e o mundo parou?
Vi uma notícia sobre o aumento estupendo da audiência de algumas emissoras de TV, a exemplo da Rede Globo e TV Bandeirantes, após a desgraça. Até o orkut colocou um link logo na página inicial indicando uma comunidade em "solidariedade" às vítimas do evento.
Não sei quem é pior: quem enriquece às custas da miséria alheia, ou quem financia a pataquada. E depois quando digo que a GRANDE MAIORIA das pessoas é MEDÍOCRE, chamam-me de pessimista antipática. Apois!
Fico com o dizer de Saramago: Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo.
Vi uma notícia sobre o aumento estupendo da audiência de algumas emissoras de TV, a exemplo da Rede Globo e TV Bandeirantes, após a desgraça. Até o orkut colocou um link logo na página inicial indicando uma comunidade em "solidariedade" às vítimas do evento.
Não sei quem é pior: quem enriquece às custas da miséria alheia, ou quem financia a pataquada. E depois quando digo que a GRANDE MAIORIA das pessoas é MEDÍOCRE, chamam-me de pessimista antipática. Apois!
Fico com o dizer de Saramago: Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo.
segunda-feira, junho 01, 2009
Temporariamente em Worpswede, perto de Bremen, 16 de julho de 1903
O senhor é tão jovem, tem diante de si todo começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência com relação a tudo que não está resolvido em seu coração. Peço que tente ter amor pelas próprias perguntas,como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas. Talvez o senhor já traga consigo a possibilidade de construir e formar, como um modo de viver especialmente afortunado e puro; eduque-se para isso. Mas aceite com grande confiança o que vier, e se vier apenas de sua vontade, e se for proveniente de qualquer necessidade de seu íntimo, aceite-o e não o odeie. A carne é um fardo, verdade. Mas é difícil a nossa incumbência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério. Se o senhor reconhecer apenas isso e chegar a conquistar, a partir de si, de sua disposição e de seu modo de ser, de sua experiência e infância e força, uma relação inteiramente própria (não dominada pela convenção e pelo hábito) com a carne, então o senhor não precisa mais ter receio de se perder e se tornar indigno de sua melhor posse.
Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta.
Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta.
Todo mês é assim. É só chegar a minha menstruação que eu fico extremamente sensível. Não entenda isso como tristeza, mas como um aguçamento dos sentindos mesmo, da percepção do que está a minha volta. É um tal de chorar vendo filme, ouvindo uma música, lendo uma poesia... Às vezes sinto tanto as coisas, que dá até agonia. Ao mesmo tempo em que gosto desse estado de êxtase, penso que seria insuportável viver sempre desse jeito.
quarta-feira, maio 27, 2009
Entre civilização e barbárie

Assisti ontem ao programa Medical Detectives, do Universal Channel, e no episódio em questão uma garota havia sido assassinada pelo pai a facadas enquanto sua mãe a segurava pelo simples motivo de que a moça trabalhava numa lanchonete e tinha um namorado negro, o que era uma afronta à honra da conservadora família que morava nos Estados Unidos, mas era de origem palestina. O legista não comprovaria sua tese sobre o assassinato da moça, versão que parecia absurda ao lado do depoimento dos pais segundo o qual ela é que os havia ameaçado com uma faca após pedir cinco mil dólares para sair de casa, o que teria motivado o assassinato dela em legítima defesa pelo pai, não fosse a escuta que o FBI havia colocado bem antes do ocorrido em virtude de o pai da garota ser considerado um terrorista vinculado à OLP.
Na representação do programa, que já é apelativo, o caso adquire tons ainda mais sensacionalistas. Entenda-se sensacionalismo como atribuir o máximo de carga de emotividade a um fato chegando ao ponto de isolá-lo em sua singularidade, o que elimina o seu contexto sócio-histórico da construção da realidade.
O programa partiu de um pressuposto bastante simples para abordar o caso. A montagem paralela com imagens da Palestina em contraste com as imagens dos Estados Unidos é feita a partir de uma lógica que aponta para oposição Palestina/ barbárie e Estados Unidos/ civilização. Sabemos que tal discurso é o mesmo utilizado para justificar todo tipo de atrocidade que os Estados Unidos venham a cometer contra as populações do Oriente Médio motivadas por interesses político-econômicos. Essa é a mesma chave de compreensão para o caso da garota assassinada pelos pais.
Não que seja dito aqui que devemos inocentar o absurdo de um crime baseado numa tradição absolutamente machista segundo a qual o marido deve ser escolhido pelos familiares e a mulher não deve trabalhar, mas sim depender do marido. A questão aqui é a ética na representação do outro – o outro que, para boa parte dos estadunidenses, é atrasado e anti-democrático. Mas que democracia é a estadunidense? A democracia que gasta de trilhões de dólares na sua indústria de guerra? Falta auto-crítica.
Em uma determinada passagem do filme, uma mulher que escreveu um livro sobre o caso afirma que os pais da garota abusavam da receptividade dos estadunidenses, pois chegavam a dizer que gostavam dos Estados Unidos porque esse era um país fácil de enganar. Resta a pergunta: e todo o arsenal de vigilância para os imigrantes? E se os estadunidenses são tão ludibriáveis assim, como a escuta do FBI já estava na casa dos pais da garota?
No exato momento em que a voz over fala da relação do pai da vítima com o terrorismo surge a imagem de Yasser Arafat, e o locutor afirma que a organização em questão era a OLP. Através da imagem temos a elaboração de uma equação muito simples: terrorismo/ Yasser Arafat/ OLP. Podemos nem saber dos antecedentes históricos da OLP, mas de uma coisa estamos cientes: aqueles são terroristas, uma ameaça à democracia, aos países civilizados. Nós nunca somos uma ameaça a eles. O princípio no presente texto não é indicar mocinhos e vilões, mas tão somente lembrar que a realidade social é repleta de lutas de poder, de defesa dos próprios interesses tanto de um lado quanto do outro. A questão é que um dos lados é mais forte.
Na problemática da representação, a estética de Medical Detectives pode ser identificada como demasiadamente sensacionalista. Temos o uso de câmera na mão com teleobjetiva (com perda de profundidade de campo e acentuado tremor na imagem), a utilização de uma voz over, ou voz de Deus, típica do documentário expositivo que tem nessa voz um poder sobre a interpretação das imagens. Entretanto, a voz over de Medical Detectives apresenta um tom macabro, que ressalta o parentesco com o cinema policial presente nesses programas sobre crimes. A narrativa dos episódios traz essa herança do cinema policial, com ambigüidade dos personagens e pistas falsas a respeito da resolução do mistério. Entretanto, nesses programas há pouca sutileza, e somos levados de forma escancarada a desconfiar de um personagem ou de outro.
Os mínimos detalhes da perícia e da representação do crime levam o espectador a achar que desvendou toda a verdade. Não restam dúvidas a respeito do poder da ciência e da imagem. Ao final, o programa apela para uma enorme carga de emotividade, mostrando aqueles que sentem falta da vítima em prantos. Lamentamos a perda da vítima e ficamos indignados com o abuso de autoridade de valores de uma civilização do Oriente Médio. Já o abuso de autoridade vinculado a certos valores dos Estados Unidos, esses são mandados para debaixo do tapete.
sábado, maio 23, 2009
Ultimamente uns acontecimentos me fizeram perceber que eu tenho uma intuição muito forte. O engraçado é que só agora eu vim me dar conta de que vivo "prevendo" coisas. Estou sempre atada a um estranho exercício de imaginar o futuro. E geralmente eu acerto. Não que eu diga, ó, isso e isso vai acontecer, mas eu examino as condições de uma situação e faço uma linha dizendo onde vai dar. Minha colega disse que isso é praga. Eu acho que é intuição. Meu amigo chama de dedução lógica.
terça-feira, maio 19, 2009
Algo que me deixa muito triste às vezes é a impressão de que a hierarquia entre o sexo masculino e feminino nunca vai acabar. Explico. Muito mais do que uma ligação meramente econômica, ou seja, de que a igualdade entre os sexos viria a partir do momento em que a mulher se insere no mercado de trabalho, a dominação masculina se relaciona com a problemática da ameaça ao pau. Isso mesmo. O homem tem de proteger o seu pau a qualquer custo.
Ora, por que sempre há as equações homens=sexo e mulheres=compromisso? Exemplo. Se um cara come uma menina e liga pra ela ou manda mensagem no dia seguinte, ele é gentil e carinhoso. Se uma garota faz isso é uma grudenta sem amor próprio. Afinal, o cara é que tem que vir atrás. Hoje mesmo estava conversando com uma amiga e ela disse que deu seu telefone a um cara, e afirmou ainda que JAMAIS ligaria pro cara, pois poderia ser incoveniente. E por que o cara não seria inconveniente e ela sim? Isso pra mim não cheira a mulher difícil, e sim insegura.
Não são poucas as vezes que sei de história de um cara achar que a mulher tá na dele só porque ela ligou umas duas vezes. Enquanto há mulheres aos montes que recebem muitas ligações e continuam achando que o indivíduo "só quer sexo". Há também um forte tom de vitimização nessa frase: ele só quer me comer. É como se pelo fato de um homem querer vê-la, bater papo e transar sem namorar significasse que a mulher não passa de uma boneca inflável, quando, em verdade, é possível haver um certo afeto sem necessariamente haver paixão tanto de um lado quanto do outro.
Falando em paixão, às vezes penso que as pessoas detectam paixão com muita facilidade, vêem paixão em tudo. Existe uma linha tênue que separa amor de carência afeitva, e a diferença entre ambos só o amor próprio pode dar.
Ora, por que sempre há as equações homens=sexo e mulheres=compromisso? Exemplo. Se um cara come uma menina e liga pra ela ou manda mensagem no dia seguinte, ele é gentil e carinhoso. Se uma garota faz isso é uma grudenta sem amor próprio. Afinal, o cara é que tem que vir atrás. Hoje mesmo estava conversando com uma amiga e ela disse que deu seu telefone a um cara, e afirmou ainda que JAMAIS ligaria pro cara, pois poderia ser incoveniente. E por que o cara não seria inconveniente e ela sim? Isso pra mim não cheira a mulher difícil, e sim insegura.
Não são poucas as vezes que sei de história de um cara achar que a mulher tá na dele só porque ela ligou umas duas vezes. Enquanto há mulheres aos montes que recebem muitas ligações e continuam achando que o indivíduo "só quer sexo". Há também um forte tom de vitimização nessa frase: ele só quer me comer. É como se pelo fato de um homem querer vê-la, bater papo e transar sem namorar significasse que a mulher não passa de uma boneca inflável, quando, em verdade, é possível haver um certo afeto sem necessariamente haver paixão tanto de um lado quanto do outro.
Falando em paixão, às vezes penso que as pessoas detectam paixão com muita facilidade, vêem paixão em tudo. Existe uma linha tênue que separa amor de carência afeitva, e a diferença entre ambos só o amor próprio pode dar.
sexta-feira, maio 15, 2009
Divã (2009), José Alvarenga Jr.

Quando assisti a Divã, uma das primeiras impressões que tive é que minha mãe ia adorar. Sim, acredito que se trata de um filme dedicado às mulheres de meia-idade, especialmente as divorciadas.
Não por acaso Mercedes, nossa protagonista, tem um caso extraconjugal com Téo, interpretado por Reinaldo Gianechini. O romance dela com o ator global tem caráter totalmente evasivo – que coroa não ia querer namorar o Gianechini, aquele que namorava a Marília Gabriela? O filme também apresenta ingredientes como a figura da melhor amiga, do cabeleireiro gay, conversas sobre maquiagem, enfim, coisas que supõe-se que façam parte do chamado universo feminino.
Apesar de apresentar cenas bastante evasivas, Divã não oferece happy end. Aliás, esse é um filme que tem como tema a perda, a dor da separação das pessoas que amamos. Mercedes se divorcia do marido, Teo a abandona, sua melhor amiga morre, seus filhos crescidos se retiram aos poucos da sala de estar dizendo que vão sair e a deixam sozinha assistindo a Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra. A cena de Os cafajestes é justamente o famoso longo plano em que a personagem de Norma Bengell fica nua numa praia enquanto dois playboys que haviam roubado sua roupa rodeiam-na num carro, momento em que a câmera é agressiva com a personagem. Mercedes tem algo de Norma Bengell em Os cafajestes? Quem sabe a nudez como se mostra para nós espectadores, que invadimos sua privacidade em pleno divã.
O psicanalista com quem Mercedes conversa não chega a aparecer na tela, e tudo o que vemos é a sua sombra. Enquanto Mercedes fala, a câmera nos coloca no ponto de vista do psicanalista, ou seja, essa é uma experiência metalingüística em que o filme fala da própria espectatorialidade e insere o espectador como voyeur na ação, um voyeur para quem a protagonista fala dos seus segredos mais profundos. Outro filme que faz uma reflexão sobre o voyeurismo no cinema é Kika (1993), de Pedro Almodóvar, no qual Almodóvar faz uma homenagem a Janela indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, outra película cheia de metalinguagem. Em Kika, a protagonista que dá nome ao filme maquia um morto que ressuscita. Já em Divã, a melhor amiga de Mercedes pede para que ela a maquie, pois está pálida e não quer que seu marido a veja assim, mas acaba falecendo ainda enquanto Mercedes passa pó no seu rosto. Não, Mercedes não pode ressuscitar os mortos - têm de lidar com a sua partida.
Após tantas perdas, o último plano do filme é de Mercedes sorrindo como uma mulher forte, que conseguiu superar todo o sentimento de ausência, sorriso que depois é eternizado numa fotografia. Ela não está com nenhum bonitão nem casou de novo, mas algo nos diz que a vida é assim: a gente ama, ama, pra depois um dia a pessoa ter que partir, de uma forma ou de outra.
domingo, maio 10, 2009
Não faça o que eu faço
Uma coisa que percebi há não muito tempo foi a minha paixão por personagens sem caráter ou problemáticos mesmo. Nada de personagens que estão ali para dar uma lição de moral, eu quero é ver nóias e sangue no olho. Enfim, eu adoro os pilantras ou aqueles que não sabem onde estão nem pra onde ir. Aí vai a lista dos meus preferidos.
Petra von Kant em As lágrimas amargas de Petra von Kant
Tyler Durden em Clube da Luta
Capitão Nascimento em Tropa de Elite
Michael Corleone na trilogia O poderoso chefão
Beatrix Kiddo em Kill Bill 1 e 2
Travis em Taxi Driver
Alvy Singer em Annie Hall
Clementine em Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Jules Winnfield em Pulp Fiction
Alma e Elisabeth Vogler em Persona
Carol Ledoux em Repulsa ao sexo
Lilica em Pixote
Lestat em Entrevista com o vampiro
Edward, mãos de tesoura
Catherine em Jules e Jim
Marie em Au hasard Balthazar
Nana em Viver a vida
Marianne em Pierrot le fou
Petra von Kant em As lágrimas amargas de Petra von Kant
Tyler Durden em Clube da Luta
Capitão Nascimento em Tropa de Elite
Michael Corleone na trilogia O poderoso chefão
Beatrix Kiddo em Kill Bill 1 e 2
Travis em Taxi Driver
Alvy Singer em Annie Hall
Clementine em Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Jules Winnfield em Pulp Fiction
Alma e Elisabeth Vogler em Persona
Carol Ledoux em Repulsa ao sexo
Lilica em Pixote
Lestat em Entrevista com o vampiro
Edward, mãos de tesoura
Catherine em Jules e Jim
Marie em Au hasard Balthazar
Nana em Viver a vida
Marianne em Pierrot le fou
sexta-feira, maio 08, 2009
Os pássaros (1963), Alfred Hitchcock

Três anos após o lançamento de Psicose (1960), Alfred Hitchcock nos apresenta outro filme que traz a problemática da relação mãe e filho em Os pássaros (1963). Se em Psicose Norman Bates assassina a mãe que havia arrumado um namorado após a morte do pai, e cria uma dupla personalidade, sendo que assume a pessoa da mãe como uma mulher ciumenta que mata qualquer mulher que se aproxime dele, em Os pássaros Lydia Brenner, a mãe de Mitch Brenner, procura afastar as mulheres que tenham envolvimento com seu filho, pois é viúva e teme passar o resto de seus dias sozinha.
Desde a primeira cena do filme nos é apresentado o elemento central da narrativa, os pássaros, e a responsável pelo desequilíbrio do meio, Melanie Daniels. Numa loja de pássaros Melanie se passa por vendedora para atrair Mitch Brenner, que propositalmente afirma que está procurando por periquitos, que não havia na loja, para presentear sua irmã. Mitch questiona: você não se sente mal diante dessas pobres criaturas presas em gaiolas? Melanie oferece-lhe um canário, e quando vai tirá-lo da gaiola acaba deixando-o escapar de suas mãos. Esse é o prelúdio da insurreição dos pássaros sobre os habitantes da pequena cidade de Bodega Bay após a chegada de Melanie, que viaja de São Francisco até Bodega Bay atrás de Mitch.
Logo após visitar Mitch, Melaine sofre o ataque de uma gaivota. Mais e mais ataques são realizados por diversas espécies de pássaros que vêm aos montes, sejam corvos, gaivotas, etc. Num primeiro momento, muitos não acreditam nos relatos dos ataques, posto que os pássaros não seriam tão inteligentes ao ponto de se unirem para uma espécie de insurreição, até que eles se tornam cada vez mais constantes. Partimos de uma situação inicial em que os pássaros estavam perfeitamente controlados, vendidos como coisas presos em gaiolas de uma loja, até vermos humanos presos em suas próprias casas reféns das investidas de centenas de pássaros.
Não sabemos ao certo o motivo de tal revolta. Aliás, esse não é um filme de respostas. A mãe de Mitch encontra um homem morto com os olhos arrancados, o que leva a polícia a acreditar que teria sido um crime, o que nos fornece uma pista falsa. Outra pista falsa seria o fato de Mitch ser advogado criminal, o que poderia conduzir a supor que haveria algum crime no decorrer do filme. Num determinado ataque, Mitch e Melanie, fugindo dos pássaros, encontram mulheres idosas reunidas numa casa, entre elas a mãe de Mitch, até uma delas afirmar que Melanie era má e por isso haviam ocorrido estranhos acontecimentos na cidade.
Temos que uma dessas senhoras entende bastante de ornitologia. Annie Hayworth, que antes havia se também envolvido com Mitch, fala para Melanie sobre outro ataque de pássaros ocorrido anteriormente, o que pode conduzir a imaginar uma relação entre aquelas senhoras solitárias e as investidas dos pássaros para afastar uma nova mulher. Sabemos que Lydia não está feliz com a aproximação entre o filho e Melanie, e ela chega a contar ao filho sobre um escândalo nos jornais a respeito da moça, filha de um dono de jornais, segundo o qual ela haveria tomado banho nua num chafariz em Roma, numa referência a La dolce vita (1960), de Federico Fellini. Entretanto, a hipótese da relação entre a mãe solitária e a nova namorada do filho, ou qualquer outra, não se confirma neste exemplar do cinema moderno, que é uma obra aberta, inacabada de maneira a deixar teorias sobre o filme a cargo do espectador.
Está aí uma diferença essencial entre Os pássaros e Psicose: se o segundo nos leva a um final de revelação surpreendente, o primeiro nos deixa sem respostas, apenas rodeados de mistérios criados pela narrativa.
Vale ressaltar a tensão provocada no espectador relacionada aos pássaros, especialmente na cena em que o plano geral desde o início destaca um cercado situado próximo à escola, e após Melanie sentar-se num banco para esperar Cathy sair, a irmã de Mitch, vemos a utilização da profundidade de campo provocar um efeito de tensão, pois observamos aquilo que a personagem não vê – ameaça do ataque dos pássaros, que vão chegando aos poucos logo atrás dela, até que finalmente Melanie vê repentinamente, num rápido campo e contracampo, o cercado repleto de corvos. Ficamos tensos durante a cena, que já nos indicava o decorrer da ação, o que não impede uma sensação de surpresa, quando do ponto de vista objetivo e onisciente da ação somos mandados para o ponto de vista da personagem, com destaque para a imagem repentina da enorme quantidade de pássaros e também para a câmera subjetiva voltada para trás enquanto a personagem caminha rapidamente até a escola.
Algo que particularmente me chamou a atenção no filme foi a relação do ser humano com a natureza. O desequilíbrio inesperado, o que parecia indefeso se torna ameaçador, a vida selvagem tomando conta de uma pequena cidade e afugentando os seus habitantes. Os pássaros tem uma paisagem onírica, ele mexe com o absurdo e apresenta imagens que realmente nos lembram um sonho, ao ponto de em certo momento ser possível esperar que um dos personagens acorde.
Sobre a natureza, lembro de uma frase de Wittgenstein: que o sol nascerá amanhã é uma necessidade lógica, mas não uma determinação da realidade. O sol pode simplesmente não nascer amanhã. Os ataques dos pássaros desafiam a nossa lógica sobre o mundo, o universo começa a parecer incompreensível. O filme não oferece uma compreensão do fenômeno, deixando-nos apenas esse contato com o Místico. A racionalidade e o poderio do homem sobre a natureza permanecem questionados.
Poderíamos também estabelecer uma oposição entre a metrópole São Francisco, lugar em que Mitch trabalha e onde conheceu Melaine e Annie, e a pequena cidade de Bodega Bay. São Francisco evoca a racionalidade das relações pessoais típicas da vivência das metrópoles, lugar onde o contato com a natureza é rompido através da construção de um ambiente criado, enquanto os ataques dos pássaros na pequena Bodega Bay nos remetem a um mundo onírico, ou seja, irracional, e onde a natureza ao final ocupa a cidade, repleta de pássaros que expulsaram seus moradores.
terça-feira, maio 05, 2009
Sopre aqui antes de fazer o login
Ontem entrei no msn bêbada e a quantidade de coisas sem noção que falei pras pessoas me fez amanhecer o dia me papocando de rir. Ainda bem, poderia ser pior, se eu ficasse com ressaca moral aí sim seria um problema. Mas de qualquer forma não eram coisas que eu deveria falar, enfim, o que me fez ter a idéia da necessidade de um bafômetro para MSN. Isso mesmo, amiguinhos. Não sei vocês, mas eu já me dei conta de que álcool e MSN formam uma combinação perigosa, bombástica até. O pior é que as pessoas sabem que você está alcoolizada e se aproveitam para arrancar todo tipo de verdade de você. Então pedi encarecidamente para um colega meu que estuda Informática para criar o maravilhoso bafômetro de MSN. É assim: assopre aqui antes de fazer o login. Se o PC detectar teor alcóolico abusivo, o bêbo fica sem poder conversar com os fellas. Meu colega se recusou a inventar o tal produto, e disse que iam linchá-lo na rua. PORRA, JÁ NÃO BASTA ESSA PARADA PRA CARRO, AINDA VEM UM FILHO DA PUTA E INVENTA PRo MSN.
segunda-feira, maio 04, 2009
Elephant (1986), Alan Clarke

Elephant (1986), de Alan Clarke, representa diversos assassinatos que não têm uma ligação lógica de maneira a estruturar uma narrativa. A câmera segue os personagens através de travellings, às vezes pára e deixa o personagem seguir em frente, percorre espaços de corredores, ruas, faz-nos andar junto com a vítima ou com o assassino (às vezes não sabemos se estamos atrás da vítima ou do algoz), de forma a nos lembrar Elephant (2003), de Gus Van Sant. Elephant, de Alan Clarke, de fato influenciou o filme de Van Sant, uma ficção sobre o famoso massacre na escola americana de Columbine, episódio que também deu origem ao documentário Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore.
Como um filme sem música, Elephant traz o silêncio das ruas e dos cômodos onde ressoam os passos dos personagens, até os tiros ecoarem violentamente contra o silêncio. A câmera nos coloca em posição de distanciamento em relação às vítimas e aos algozes, com planos abertos e pouco vemos dos seus rostos (em apenas dois assassinatos vemos o primeiro plano do semblante do assassino). Nos diversos assassinatos representados, há close sobre a arma no momento do tiro. Esse close evoca o poder que a arma proporciona aos assassinos, que diante da vida alheia comportam-se com uma indiferença e uma sensação de poder assustadoras.
Algo que se repete em todos os assassinatos do filme é que vemos o cadáver da vítima em plano geral com câmera fixa. Há um respeito na representação da violência, o próprio filme não banaliza a morte, ao contrário dos algozes. Ao optar por apelar ao espectador para que observe o cadáver, todavia utilizando o plano geral com câmera fixa, a câmera não espetaculariza a violência, mantendo uma postura respeitosa diante do corpo estendido ao chão.
Algumas cenas que me marcaram: o travelling para frente em plano geral segue duas pessoas fazendo caminhada pela manhã ainda cedo, rodeadas pela bela paisagem verde e o céu com neblina. A imagem bela contrasta com a violência que se segue, quando vemos um homem vindo na direção contrária ao fundo do quadro que atira em uma das pessoas, enquanto a outra corre e termina não sendo morta pelo assassino, que segue caminhando tranquilamente. Outra cena: a câmera faz um movimento de travelling para trás e acompanha homem andando por uma rua. O trabalho da profundidade de campo provoca suspense, pois ao fundo está um homem seguindo-o. O personagem adentra na sua casa e a câmera o segue em travelling para frente, até parar diante da porta da sala, quando o assassino adentra o quadro e atira no homem que seguia e num garoto que jogava videogame.
O filme termina seguindo dois homens vestidos com sobretudo preto, que depois encontram outro rapaz usando a mesma roupa, até pararem no que parecia ser um estacionamento. Um deles vira para a parede e é morto a tiros. O último plano do filme é do seu sangue escorrendo na parede. Fica a pergunta: será que os homens de preto da última cena faziam parte de algum grupo de serial killers que depois resolvem matar uns aos outros?
Nenhum dos crimes tem explicação. Todos os assassinos pegam as pessoas desprevenidas, tirando-nos da segurança dos crimes com motivos. Sabemos que em boa parte dos filmes de serial killers no final ele pára e explica para algum personagem e para nós espectadores o porquê de seus crimes. Elephant constrói um universo onde uma vítima da violência é vítima de um crime banal, é vítima do acaso. Tais quais os estudantes da Escola de Columbine.
quinta-feira, abril 23, 2009
Levando pro lado pessoal

Essa semana revi O poderoso chefão - parte I (1972), de Francis Ford Coppola, e, entre as váaarias cenas que me fizeram vibrar estava a que Michael Corleone pede permissão aos irmãos para matar o coronel McCuskley, que havia deixado o hospital vazio com o objetivo de facilitar a morte do pai de Michael, o mafioso Vito Corleone, e Michael afirma ainda que também gostaria de eliminar Sollozo, que estava doido pra levar Vito à cova depois de ele ter lhe negado apoio junto aos políticos corruptos para serem cúmplices do seu novo negócio, o tráfico de drogas. Após Michael explicar o seu plano, Sonny zomba de Michael dizendo que o irmão sempre havia se mantido afastado dos negócios da família e agora simplesmente queria tomar as rédeas da situação com mãos de ferro, e acusa Michael de estar levando para o lado pessoal os negócios após ter recebido um murro do coronel. Então Michael arruma uma justificativa para o assassinato de Sollozzo e McCuskley dizendo que a família poderia recorrer aos jornalistas que tinha no bolso, pois daria uma ótima manchete a morte de um policial corrupto como McCuskley. Daí é que ele vira pro Sonny e fala:
- You see, Sonny, that's not personal. This is business.
Cara, muito boa essa cena. Isso me faz lembrar do quanto é cretina a afirmação de que podemos não levar para o lado pessoal. Bullshit! Nas discussões acadêmicas sobre objetividade jornalística, eu via professores com posições contrárias simplesmente se odiarem por causa de ideologias diferentes. Fora o pessoal pró-aula versus Movimento Estudantil na UFS que viviam se digladiando não só em discussões políticas, como também se estranhando nos corredores da universidade. Na jogatina de mesa de bar, os jogadores uma hora ou outra se estranham pelo fato de estarem perdendo dinheiro. Nunca vi adversários políticos se amarem - a não ser quando convém para a campanha.
Enfim, negócios são negócios. E não são nada impessoais.
segunda-feira, abril 13, 2009
Depois de ver o sofrimento de minha avó diante de tantas lembranças dispersas em papéis avulsos sobre o chão, poesias, fotos, cartas, e a saudade que ela tinha do meu avô como sentimento onipresente, sentido do mundo talvez. Ela dizia que podia estar ali conversando com a gente, mas seu pensamento estava sempre nele. Ela o via em algum canto da casa, sentia sua presença romper os limites do mundo. Vovó, que cuidou durante quatro anos do meu avô, que deu banho, limpou suas feridas... Que acordou e dormiu com ele por 55 anos de sua vida. Que tomou surra do pai pelo preconceito contra a cor. Que descobriu o amor que a gente constrói a cada dia, que fica firme aos trancos e barrancos da imperfeição ou mesmo do tédio às vezes, mas que se renova a cada dia passado juntos, numa afirmação de que a vida não é fácil nem tão grandiosa, mas é gostosa no aconchego da intimidade e do tempo difuso do passar dos dias. Na saúde e na doença, muito mais do que promessa na frente do altar.
Nessas horas, penso que acredito no amor.
Nessas horas, penso que acredito no amor.
domingo, abril 05, 2009
Última Parada 174

Última Parada 174 (2008), de Bruno Barreto, conta uma história que todo mundo já conhece. Entretanto, o filme não busca ser fiel à realidade, apesar de logo no início nos lembrar que se trata de uma história baseada em fatos reais. Não haveria problema em não apresentar uma pretensa objetividade (há problemas bem maiores em querer abarcar o real em sua totalidade), caso a maneira como a história de Sandro Nascimento é contada não chegasse a ser canalha, devido à delicadeza do tema e a forma tola como o personagem é abordado.
O Sandro Nascimento do documentário Ônibus 174 (2002), de José Padilha, é um homem que é arrastado à violência através da violência. Ele vê a mãe ser esfaqueada aos sete anos, ele é sobrevivente da chacina da Candelária, ele passou pela FEBEM até chegar ao sistema prisional, onde conheceu nas entranhas a árdua justiça punitiva da sociedade. Há uma diferença primordial entre o Sandro de Ônibus 174 e o Sandro de Última parada – o primeiro é um produto da violência e das injustiças sociais, enquanto o segundo não passa de um desviado.
O Sandro de Última Parada chegou a ser internado no reformatório, mas nunca foi para a cadeia. O Sandro de Última Parada não assistiu à morte da mãe, pois quando ele chegou, ela já estava caída ao chão. O Sandro de Última Parada não tem vida própria - ele é sempre visto a partir de um olhar de pena. Vale lembrar de outro filme do cinema nacional que abordou a realidade dos “meninos de rua”, Pixote – a lei do mais fraco (1981), de Hector Babenco. Uma das qualidades que faz do filme de Babenco uma obra-prima é o fato de os seus personagens, especialmente Pixote, serem sujeitos com vontades e histórias suas. Eles não estão ali como coitadinhos ou meninos perturbados que precisam de ajuda, justamente a representação que Última Parada termina oferecendo.
Ainda em comparação a Ônibus 174, a ficção deixou totalmente de lado o que o documentário abordou com ênfase – o desejo de visibilidade de Sandro levado até as últimas conseqüências e o espetáculo midiático que terminou criando um monstro. O mérito do documentário de Padilha foi ter ressaltado em seu filme a maneira como a encenação que Sandro fez para as câmeras era uma revolta diante da sua invisibilidade social. O ponto fraco do documentário de Padilha está no fato de o parentesco com o jornalismo ter deixado tal relação ser elaborada numa forma muito simplificada – por exemplo, ele simplesmente pega imagens de meninos de rua ignorados pelos motoristas no sinal e insere a narração em off de um especialista, numa espécie de pleonasmo em que a fala repete o que já está presente na imagem. Já a ficção de Bruno Barreto deixa a canalhice da mídia de lado e pouco aborda a problemática questão da sociedade do espetáculo.
Nas cenas da ficção que representam o seqüestro do ônibus surge uma figura inusitada – no lugar do policial do BOPE que faz negociações com Sandro está André Ramiro, que interpretou Matias em Tropa de Elite (2007), de José Padilha, mesmo diretor de Ônibus 174. Coincidentemente, André Ramiro tem semelhanças físicas com o policial que conversou com Sandro e que deu entrevista para Ônibus 174. Não por acaso o personagem Matias, que é o policial mais bem comportado de Tropa de Elite, assume em Última Parada o papel de um policial que queria apenas reconciliar conflitos e receber Sandro de braços abertos. Ramiro, assim como em Tropa de Elite, interpreta um personagem que acaba ficando revoltado – só que em Última Parada ele se senta frustrado de cabeça baixa na rua, enquanto em Tropa de Elite ele atira na cara do espectador no último plano do filme.
Em Ônibus 174, Sandro Nascimento avacalha porque “não tem ninguém”, “não tem nada a perder”, e não quer voltar de maneira alguma para a prisão depois de ter conhecido o gostinho do inferno. Em Última Parada a prisão sequer existe – ela foi apagada da história de Sandro. O Sandro de Ônibus 174 está só e cercado por todos os lados. Já em Última Parada, a salvação está a sua espera, com a moça da ONG e a mulher que acredita que é sua mãe esperando-o aflitas logo ali perto do ônibus. Sandro não se redimiu, ao contrário da mulher que acredita que é sua mãe, e que de viciada em drogas passou a evangélica. O Cristo Redentor, que surge em planos do filme sobre a cidade do Rio de Janeiro, poderia ser uma representação dessa salvação mítica (seja numa ONG ou num lar) que terminou por não ser encontrada.
Ele termina sendo vítima trágica de um policial que de maneira impensada contribuiu para a morte dele e de sua refém, e inclusive esse momento apresenta decupagem da ficção semelhante à do documentário, com o uso de câmera lenta. E é aí onde tanto a ficção quanto o documentário sobre o evento do 174 trazem representações problemáticas na medida em que espetacularizam também o acontecimento que “fascinou” os brasileiros na frente da TV.
A narrativa de Última Parada 174, onde nenhuma cena tem uma beleza em si, mas apenas está ali para adiantar o andamento da história, onde os personagens à margem não têm vida própria, mas estão sempre sob o olhar de quem dá esmola na porta da igreja. Pra terminar, é claro que não podia faltar um happy end. Marisa, a mulher que na ficção acreditava ser mãe de Sandro, acaba encontrando seu verdadeiro filho pelas mãos do destino no enterro do falso filho que havia morrido no trágico episódio da linha 174.
segunda-feira, março 30, 2009
Blow up

Thomas, o personagem principal de Blow up (1966), de Michelangelo Antonioni, é um fotógrafo, mas poderia ser um cineasta. A obra é inspirada num conto de Julio Cortazar, mas é puro cinema. Thomas dirige impacientemente as modelos, como se dirigisse atrizes (embora as considere fúteis e elas poderiam ser comparadas às estátuas da loja de antiguidades que ele visita, quando afirma até que prefere paisagens a esculturas, mostrando o porquê de ele abandonar as modelos e correr para fotografar um parque), como também exerce um papel de "diretor" quando busca incansavelmente numa foto que tirou num parque em Londres o motivo do olhar angustiado da mulher que estava nos braços de um homem, dispondo em seqüência diversas ampliações da fotografia em questão como uma própria decupagem cinematográfica.
O dispositivo técnico da fotografia, neste caso, clama por independência em relação ao sujeito por detrás do aparelho que apreende a realidade. Thomas havia presenciado um crime, e até tirado fotografias, mas sem nada perceber, pois tudo o que vira foi um casal de amantes. Mesmo diante da inocência do seu olho, o dispositivo foi capaz de captar aquela realidade. André Bazin já havia falado sobre a grande novidade do cinema, como também da fotografia, que consistiria em, diferente das outras artes tão dependentes da perspectiva do artista, conseguir um realismo baseado na representação do espaço e da física dos objetos não absolutamente determinada pela subjetividade do artista, posto que haveria entre o olho e a realidade, a câmera.
Entretanto, se a imagem se revela na fotografia de Thomas, não é porque a máquina fotográfica seja capaz de uma pretensa objetividade. A imagem do assassino apontando a arma para a vítima se apresenta pouco visível, e o que seria o contorno do cadáver do homem assassinado na fotografia é definido pela colega de Thomas como semelhante a uma pintura já conhecida. Nem a fotografia reproduz fielmente o real, nem Blow up, pois o filme não responde às perguntas sobre os motivos do assassinato no parque ou do desaparecimento das fotografias de Thomas.
O fotógrafo, que havia visitado o parque à noite em busca da prova da veracidade da sua fotografia e encontrado o cadáver entre os arbustos, no dia seguinte volta ao local e não vê corpo algum. Thomas caminha desapontado pelo parque, e um grupo de mímicos, que antes havia aparecido nos primeiros planos do filme, ressurge como uma metáfora sobre a imagem e a espectatorialidade. Thomas observa atentamente o grupo de mímicos jogar tênis com uma bola invisível. Em certo momento, os mímicos simulam que a bola de tênis imaginária havia saído da quadra, e pedem para Thomas pegá-la. De forma magnífica, Antonioni decupa a cena de modo a inserir um travelling que segue a queda de uma bola invisível, brincando com o próprio espectador do filme. Depois, vemos Thomas estático, mexendo os olhos como se ainda seguisse o movimento da bola invisível no jogo imaginário, e um efeito sonoro insere o barulho da bola invisível.
Os índices dispostos ao longo da narrativa, e que no final convencionalmente deveriam nos levar à solução, apresentam problemas que permanecem insolúveis. Esta obra aberta, entregue à nós como um jogo de armar, está para nós assim como a bola invisível está para Thomas.
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