domingo, outubro 11, 2009

Bastardos inglórios (2009), Quentin Tarantino


A obra Guerra e cinema, de Paul Virilio, muito mais do que um livro sobre filmes que têm como temática a guerra, trata-se de um tese sobre a estreita relação entre o cinema e a guerra através de uma logística da percepção militar e a experiência cinematográfica. O autor fala da invenção de tecnologias como o fuzil cronotográfico por Étienne-Jules Marey, anterior ao cinematógrafo, e das estratégias de visão no campo de batalha, até o cinema de propaganda da guerra, como foi o cinema nazista, ou mesmo o cinema de Griffith e seu O nascimento de uma nação (1915), com sua defesa do Sul escravista da guerra civil americana, além de Rambo (1982), a vingança reaganista da Guerra do Vietnã, e a montagem de atrações do cinema de Eisenstein no clássico Outubro (1927), que apresenta a Revolução Russa de 1917. Cinema e guerra estiveram sempre muito próximos. E Tarantino tem consciência disso. E brinca com isso.

Quem estivesse esperando relatos verídicos sobre algum grupo que espalhava medo entre os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial certamente sairá decepcionado. Afinal, Tarantino faz questão de matar Hitler justo onde? No cinema!

Filme de pura metalinguagem, Bastardos inglórios fala sobre um grupo que queria dar fim ao alto escalão do Terceiro Reich durante a projeção do filme Orgulho da nação. O filme é sobre Frederick Zoller, herói de guerra que estrela seu próprio filme. Todo o encanto sobre a guerra, toda a áurea que envolve aqueles que morrem pela nação nos campos de batalha estão lá no filme do Tarantino, e nisso ele me lembra Tempo de guerra (1963), do Jean-Luc Godard. Nessa obra, Godard faz uma crítica feroz à ideologia divulgada pela propaganda de guerra, segundo a qual os vencedores serão todos os soldados que dão suas vidas por ela- mas que morrem em função dos interesses políticos e econômicos de outrem. Lembro-me de uma cena do clássico documentário de Leni Riefenstahl, O triunfo da vontade (1934), em que a cineasta apresenta um congresso do Partido Nacional Socialista, quando um soldado nazi grita diante da câmera com os olhos hipnoticamente esbugalhados, que, caso morresse, não estaria morto, mas vivo no futuro da pátria.

Mas muito mais do que morrer pela pátria, o coronel Hans Landa quer entrar para a história. É por isso que ele, conhecido como "O caçador de judeus", ao tomar consciência da Operação Niko, que daria fim ao Terceiro Reich numa sala de projeção, ao invés de acabar com a operação, decide entrar para a história como o homem que traiu os nazistas e foi responsável pelo término da Segunda Guerra Mundial. Só que além da operação, havia a judia, Shosanna Dreyfus, sob sua falsa identidade Emmanuelle Mimieux, que era dona do cinema onde seria exibido a estréia do filme de Goebbels, e que já havia armado um plano para incendiar o cinema usando nada menos do que filmes 35mm feitos de nitrato - altamente inflamáveis. É Marcel, seu amado companheiro negro, quem deveria lançar chamas aos rolos de filme. Marcel e Shosanna, o primeiro, representante dos povos colonizados, a segunda, do Holocausto.

A imagem extremamente metafórica de Shosanna na tela do cinema interrompendo a projeção do filme que estava divertindo Hitler e emocionando Gobbels diante dos elogios do füher, fala da voz dos que querem tomar de vez os rumos da história, e nenhum meio melhor do que o cinema para ser herói.

O novo filme do Tarantino é exemplar do chamado boom da memória na cultura contemporânea de que fala Andreas Huyssen, em que multiplicam-se museus, filmes e literatura de testemunho sobre o Holocausto, que levantam discussões sobre o porquê de nos voltarmos para um passado tão obscuro que parece nos falar sobre o fracasso do projeto iluminista da modernidade, no qual o desenvolvimento técnico findou não num progesso da "humanidade", mas em milhões e milhões de mortes. Alguns dos personagens de Bastardos inglórios, aliás, são representantes típicos dessa tal cultura contemporânea que desafia as fronteiras nacionais e a identidade nacional, com alemães que matam nazistas e fazem parte dos Bastardos inglórios. Mas não se enganem aqueles que ignoram a diferença cultural em nome de um tal descentramento do sujeito - vide a judia e o negro que incendiam o cinema cheio de nazistas pelo ódio àqueles que fizeram mal ao seu povo.

Hans pode até ter entrado para a história, mas o final dela não é nada ilustre, isso Tarantino faz questão de ressaltar. Na última cena, ele sofre nas mãos do bastardo inglório Aldo do mesmo jeito que todos os nazistas que passaram por ele - Aldo fixa o símbolo nazista em sua testa (haveria marca melhor de sua identidade?), e tira o seu escalpe. Esse fim inglório me lembra aquela historinha de que Dom Pedro I estava era montado num burro, com diarréia e foi cagar na moita no momento da nossa "independência". Porque a história, meus claros, a história é inglória.

sábado, outubro 10, 2009

Todo verbo que é forte
Se conjuga no tempo
Perto, longe o que for

quinta-feira, outubro 08, 2009

Two and a half man


Muitas vezes gosto de assistir TV durante o almoço. É a única hora em que eu sinto vontade de ver televisão. E como gosto de seriados americanos, ligo logo na Warner Channel. Nesse horário, o seriado que é exibido é Two and a half man, divertidíssimo, por sinal. Entretanto, não deixo de observar a maneira bizarra como esse seriado ultrapassa o machismo e chega mesmo a ser misógino.

Tratam-se dois irmãos e o filho de um deles que vivem juntos num apartamento perto da praia. Charlie é o típico cafajeste que dorme com muitas mulheres, é bom de cama, e acaba deixando-as apaixonadas sem, no entanto, corresponder aos seus sentimentos. Charlie vive de fazer jingles para campanhas publicitárias, ganhando um bom dinheiro com pouco trabalho. Enquanto isso seu irmão, Alan, é um quiroprático que tem essa profissão porque não conseguiu passar no vestibular para Medicina, e que mora na casa de Charlie após sair de mãos vazias do divórcio, no qual sua ex-mulher, Julie, obteve tudo o que eles tinham e ainda uma pensão muito boa. Jake é filho de Alan, um gordinho que só pensa em comer, jogar videogame e ver televisão, representando um estereótipo das crianças americanas nos tempos atuais.

As personagens femininas são bastante problemáticas: a mãe de Charlie e Alan, Evelyn, foi uma péssima mãe que não só ignorava os filhos mandando-os para internatos, como ainda foi responsável pela morte do pai deles ao lhe dar um peixe estragado que lhe causou infecção intestinal, tendo após a sua morte diversos maridos que também faleceram, surgindo algumas hipóteses de que ela seria uma espécie de viúva negra. As consequências de ter uma mãe como Evelyn foi Charlie se tornar um "garanhão insensível" e Alan, um homem submisso que vive tentando agradar as mulheres querendo obter o amor que não teve da mãe. Não bastasse a mãe ser uma "bruxa", a ex-mulher de Alan, Judith, é uma mulher amargurada, frígida, interesseira, aproveitadora, e de sexualidade "confusa" - não que ela seja bissexual, mas o seriado a representa como se ela realmente não soubesse o que quer.

Para completar, Rose é uma mulher extremamente carente que, após ter uma noite de sexo com Charlie, gasta a sua vida perseguindo-o com o desejo de se casar com ele. Ela é o típico estereótipo da mulher que vive em função do amor,, que adora cafajeste e que se submete a qualquer coisa para conquistar o amado.

As mulheres com as quais Charlie sai são geralmente meninas novinhas de corpos esculturais que só têm dois neurônios: Tico e Teco. Como bom machista, Charlie tem um envolvimento maior com as mulheres que demoram um bocado para transar com ele: e geralmente não sabe lidar com mulheres inteligentes e maduras.

O próprio seriado certa vez fez uma brincadeira com a misoginia de Charlie. Depois de uma mulher chamá-lo de misógino, ele passou bastante tempo se questionando sobre o porquê de ele ser um garanhão que não consegue se envolver com nenhuma mulher e que fala frases do tipo "se eu tenho uma empregada pra limpar e cozinhar pra mim e mulheres para fazer sexo, pra quê eu vou querer uma esposa?". Nesse episódio, Rose, a mulher carente e apaixonada que também é psicóloga, diz que Charlie tem um complexo de Édipo mal resolvido com a mãe, que nunca foi boa com ele. Quando ele vai á casa da mãe, lá está ela fazendo exercícios em posições sensuais, de forma a deixar Charlie constrangido, e é aí que ele diz que ela o ensinou a ser um homem que não valoriza o amor e não confia em ninguém - até que ela diz estar orgulhosa por ele pensar assim e que a vida é isso mesmo.

A sensualidade da mãe de Charlie, Evelyn, é a sexualidade que ele e muitos homens não querem ver na mulher, especialmente a mãe. Evelyn é uma mulher que, desde jovem, sempre teve uma vida sexual bastante intensa, com parceiros diversos. Essa é a mulher que é a ameaça à sexualidade de um homem como Charlie. Eles a menosprezam e, em determinado episódio, lá está ela com a família que ela diz que é melhor do que a de sangue: um casal gay, constituído por um negro e um branco, que têm um filho adotivo chinês. E claro que Alan e Charlie os detestam. A ironia do seriado é que o filho chinês é uma criança prodígio de elevada cultura, enquanto Jake é um péssimo aluno e viciado em videogame. Mas não seriam as outras raças e as outras sexualidades incômodas inclusive na representação oferecida pelo próprio seriado? Na sala onde eles encontram Evelyn, o casal gay inter-racial e o menino chinês, lá estão as relações de gênero e de raça na sua forma conflituosa.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Stones taught me to fly
Love taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball


Damien Rice

domingo, agosto 30, 2009

A vida é um jogo, já dizia o senso comum


O poker tem me ensinado muito sobre a vida ultimamente. Sabemos que a arte de jogar poker é, antes de tudo, uma arte de jogar com as pessoas. Não há jogo que eu ache mais malandro do que o poker: afinal, você pode não ter nada na mão, ludibriar todos e ganhar tudo sem nem mostrar as cartas. Mas também é preciso saber a hora de blefar.

1- O bom jogador de poker não é emotivo. Não demonstra se a mão é boa, porque aí as pessoas não apostam, nem fica nervoso quando a mão é ruim, porque aí não consegue blefar. Pode reparar: quem faz enxame demais sobre as próprias conquistas ou sobre as derrotas só se fode.

2- O bom jogador acredita nas pessoas quando deve acreditar, e duvida quando deve duvidar (em geral, duvida). Se ele acha que a pessoa está mentindo quanto à mão, pode sair apostando e perder muito dinheiro. Se acredita em qualquer pessoa que aumente as apostas, perderá igualmente por desistir no meio da jogada.

3- O bom jogador não tem medo, e sim arrisca, mas arrisca com estratégia. Quem tem medo de apostar perde dinheiro e nunca recupera, porque mesmo quando está com uma mão boa não aumenta muito as apostas.

4- O bom jogador é ambicioso, mas não é tomado pela ganância. Depois de ganhar muito, é importante saber a hora em que o jogo não lhe promete mais nada para evitar a decadência. O mesmo pra vida.

Enfim, são muitas outras elocubrações de auto-ajuda adquiridas em mesas de jogatina. Se sou uma boa jogadora? Aí que está. Às vezes sim, às vezes não. Como na vida, a gente pode até saber a coisa certa a se fazer, mas nem por isso faz.

O advogado do diabo

Bom, dei uma paradinha nos estudos para vir aqui exercitar uma espécie de monólogo bloguístico em função dos pensamentos que tive hoje.

Eu acho o seguinte: quando uma pessoa está BUFANDO de raiva de algo/alguém, a melhor coisa a se fazer DEFINITIVAMENTE não é defender esse algo/alguém. Porque aí a coisa/pessoa odiada vai ser você.

É simples. As pessoas gostam de, às vezes, exercitar o ódio como manifestação autêntica de uma frustração, e se você inventa de dar uma de sábio, politicamente correto, você está tirando o direito da pessoa de ser insana e politicamente incorreta do jeito que ela está precisando ser pra desabafar ou sublimar certas coisas.

Portanto, é importante respeitar o ódio alheio no auge de sua maior ira. Quando a poeira baixar, aí sim você pode defender o que quiser.
Esse blog tá muito paradinho viu. Agora que tô atolada de coisa pra fazer, então, tá dando teia de aranha por aqui. Não fosse a saudade que guardo de textos passados, já tinha apagado o blog.
Chega um momento em que você sente que URGE a necessidade de separar o joio do trigo.

terça-feira, agosto 11, 2009

Simulando desmaios...

Uma vez vi uma comunidade no orkut chamada Simulando desmaios. Trata-se de um espaço para aqueles que, nas situações mais inusitadas e desagradáveis, fingem que desmaiam para se livrar da cocó. Eu achava que isso era um mero exagero até experimentar, assim sem querer, como é maravilhoso simplesmente apagar num momento desagradável. Você vai ver o que não quer, vai aguentar quem não quer, aí puf! Bye, bye. Ainda ouve todo mundo perguntando, mas e morreu foi? Apagou feio assim é? E você lá, sem mover UM DEDO sequer. Uma maravilha! Só depois me dei conta de que eu estava aderindo à técnica do "simulando desmaio"... Depois você passa a noite inteira dormindo feliz. Recomendo!

quinta-feira, julho 30, 2009

O amor

E se a vida inteira nos ensinaram que o amor era união
quem nos convencerá de que o amor é também solidão?

sábado, junho 13, 2009

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água!


Álvaro de Campos

terça-feira, junho 09, 2009

Eu quero ir embora, eu quero dar o fora!!!!!!!!

domingo, junho 07, 2009

Esse negócio meu de intuição, que até comentei num post recente, me pregou uma peça do caralho. Eu achava que uma coisa ia acontecer, e essa coisa de fato aconteceu, só que com um detalhe que mudava todo o sentido do fato. Ou seja, eu me achando a Mãe Dinah, e no fim das contas não podia prever mesmo porríssima nenhuma. É meio como se os deuses quisessem tirar onda com a minha cara. E foi uma onda bem feia. Aprendi a lição: do futuro eu não sei é nada. NADA.

sábado, junho 06, 2009

Yo soy brega


Hoje estava ouvindo a saudosa Elis Regina, a maior cantora brasileira de todos os tempos em minha humilde opinião, quando me dei conta do quanto sou brega. Isso mesmo: BREGA. Frases como "eu hoje me embriagando de whisky com guaraná, ouvi sua voz murmurando são dois pra lá, dois pra cá!" me comovem. Já dizia Fernando Pessoa: todas as cartas de amor são ridículas. E há toda uma magia envolvida nessa breguice sem fim. Acaso me perguntarem qual Chico Buarque eu mais gosto, o político ou o romântico, digo sem um pingo de vergonha que sou apaixonada pelo Chico brega! Aquele que canta "devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu! Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade... na saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde!". Em se tratando de cinema, sou fascinada pelo Almodóvar e seus personagens de histórias de amor malucas, que carregam no peito uma paixão visceral. Aliás, o Godard, com todo aquele discurso contra a identificação com os personagens, e o papo de distanciamento bretchiano, não conseguiu me distanciar. Vai ver ele traz mesmo algo novo sobre o amor em filmes como Elogio do amor e Alphaville, num discurso que vincula o amor a uma crítica ao Estado. Só sei que no fim das contas, pra mim há poesia em nosso companheiro de Natal, o Roberto Carlos. O Roberto é gente da gente, ele canta "duvido que ele tenha tanto amor, e até os erros do meu português ruim, e nessa hora você vai lembrar de mim!". Sejam "intelectuais" ou "melosos", pra mim o importante é que eles sejam BREGAS. Porque o brega é sincero!

sexta-feira, junho 05, 2009

Desde que o avião da Air France desapareceu, não há quem tenha sossego com tanta notícia sobre o acontecimento. Vá lá no site da Folha de São Paulo e veja do que estou falando. Você tem que nadar pelo site pra ver se encontra algo que não fale da porra do avião. Só dá isso em tudo que é noticiário. Minha gente, quer dizer que esse avião caiu e o mundo parou?

Vi uma notícia sobre o aumento estupendo da audiência de algumas emissoras de TV, a exemplo da Rede Globo e TV Bandeirantes, após a desgraça. Até o orkut colocou um link logo na página inicial indicando uma comunidade em "solidariedade" às vítimas do evento.

Não sei quem é pior: quem enriquece às custas da miséria alheia, ou quem financia a pataquada. E depois quando digo que a GRANDE MAIORIA das pessoas é MEDÍOCRE, chamam-me de pessimista antipática. Apois!

Fico com o dizer de Saramago: Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo.

segunda-feira, junho 01, 2009

Temporariamente em Worpswede, perto de Bremen, 16 de julho de 1903

O senhor é tão jovem, tem diante de si todo começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência com relação a tudo que não está resolvido em seu coração. Peço que tente ter amor pelas próprias perguntas,como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas. Talvez o senhor já traga consigo a possibilidade de construir e formar, como um modo de viver especialmente afortunado e puro; eduque-se para isso. Mas aceite com grande confiança o que vier, e se vier apenas de sua vontade, e se for proveniente de qualquer necessidade de seu íntimo, aceite-o e não o odeie. A carne é um fardo, verdade. Mas é difícil a nossa incumbência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério. Se o senhor reconhecer apenas isso e chegar a conquistar, a partir de si, de sua disposição e de seu modo de ser, de sua experiência e infância e força, uma relação inteiramente própria (não dominada pela convenção e pelo hábito) com a carne, então o senhor não precisa mais ter receio de se perder e se tornar indigno de sua melhor posse.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta.
Todo mês é assim. É só chegar a minha menstruação que eu fico extremamente sensível. Não entenda isso como tristeza, mas como um aguçamento dos sentindos mesmo, da percepção do que está a minha volta. É um tal de chorar vendo filme, ouvindo uma música, lendo uma poesia... Às vezes sinto tanto as coisas, que dá até agonia. Ao mesmo tempo em que gosto desse estado de êxtase, penso que seria insuportável viver sempre desse jeito.

quarta-feira, maio 27, 2009

Entre civilização e barbárie


Assisti ontem ao programa Medical Detectives, do Universal Channel, e no episódio em questão uma garota havia sido assassinada pelo pai a facadas enquanto sua mãe a segurava pelo simples motivo de que a moça trabalhava numa lanchonete e tinha um namorado negro, o que era uma afronta à honra da conservadora família que morava nos Estados Unidos, mas era de origem palestina. O legista não comprovaria sua tese sobre o assassinato da moça, versão que parecia absurda ao lado do depoimento dos pais segundo o qual ela é que os havia ameaçado com uma faca após pedir cinco mil dólares para sair de casa, o que teria motivado o assassinato dela em legítima defesa pelo pai, não fosse a escuta que o FBI havia colocado bem antes do ocorrido em virtude de o pai da garota ser considerado um terrorista vinculado à OLP.

Na representação do programa, que já é apelativo, o caso adquire tons ainda mais sensacionalistas. Entenda-se sensacionalismo como atribuir o máximo de carga de emotividade a um fato chegando ao ponto de isolá-lo em sua singularidade, o que elimina o seu contexto sócio-histórico da construção da realidade.

O programa partiu de um pressuposto bastante simples para abordar o caso. A montagem paralela com imagens da Palestina em contraste com as imagens dos Estados Unidos é feita a partir de uma lógica que aponta para oposição Palestina/ barbárie e Estados Unidos/ civilização. Sabemos que tal discurso é o mesmo utilizado para justificar todo tipo de atrocidade que os Estados Unidos venham a cometer contra as populações do Oriente Médio motivadas por interesses político-econômicos. Essa é a mesma chave de compreensão para o caso da garota assassinada pelos pais.

Não que seja dito aqui que devemos inocentar o absurdo de um crime baseado numa tradição absolutamente machista segundo a qual o marido deve ser escolhido pelos familiares e a mulher não deve trabalhar, mas sim depender do marido. A questão aqui é a ética na representação do outro – o outro que, para boa parte dos estadunidenses, é atrasado e anti-democrático. Mas que democracia é a estadunidense? A democracia que gasta de trilhões de dólares na sua indústria de guerra? Falta auto-crítica.

Em uma determinada passagem do filme, uma mulher que escreveu um livro sobre o caso afirma que os pais da garota abusavam da receptividade dos estadunidenses, pois chegavam a dizer que gostavam dos Estados Unidos porque esse era um país fácil de enganar. Resta a pergunta: e todo o arsenal de vigilância para os imigrantes? E se os estadunidenses são tão ludibriáveis assim, como a escuta do FBI já estava na casa dos pais da garota?

No exato momento em que a voz over fala da relação do pai da vítima com o terrorismo surge a imagem de Yasser Arafat, e o locutor afirma que a organização em questão era a OLP. Através da imagem temos a elaboração de uma equação muito simples: terrorismo/ Yasser Arafat/ OLP. Podemos nem saber dos antecedentes históricos da OLP, mas de uma coisa estamos cientes: aqueles são terroristas, uma ameaça à democracia, aos países civilizados. Nós nunca somos uma ameaça a eles. O princípio no presente texto não é indicar mocinhos e vilões, mas tão somente lembrar que a realidade social é repleta de lutas de poder, de defesa dos próprios interesses tanto de um lado quanto do outro. A questão é que um dos lados é mais forte.

Na problemática da representação, a estética de Medical Detectives pode ser identificada como demasiadamente sensacionalista. Temos o uso de câmera na mão com teleobjetiva (com perda de profundidade de campo e acentuado tremor na imagem), a utilização de uma voz over, ou voz de Deus, típica do documentário expositivo que tem nessa voz um poder sobre a interpretação das imagens. Entretanto, a voz over de Medical Detectives apresenta um tom macabro, que ressalta o parentesco com o cinema policial presente nesses programas sobre crimes. A narrativa dos episódios traz essa herança do cinema policial, com ambigüidade dos personagens e pistas falsas a respeito da resolução do mistério. Entretanto, nesses programas há pouca sutileza, e somos levados de forma escancarada a desconfiar de um personagem ou de outro.

Os mínimos detalhes da perícia e da representação do crime levam o espectador a achar que desvendou toda a verdade. Não restam dúvidas a respeito do poder da ciência e da imagem. Ao final, o programa apela para uma enorme carga de emotividade, mostrando aqueles que sentem falta da vítima em prantos. Lamentamos a perda da vítima e ficamos indignados com o abuso de autoridade de valores de uma civilização do Oriente Médio. Já o abuso de autoridade vinculado a certos valores dos Estados Unidos, esses são mandados para debaixo do tapete.

sábado, maio 23, 2009

Ultimamente uns acontecimentos me fizeram perceber que eu tenho uma intuição muito forte. O engraçado é que só agora eu vim me dar conta de que vivo "prevendo" coisas. Estou sempre atada a um estranho exercício de imaginar o futuro. E geralmente eu acerto. Não que eu diga, ó, isso e isso vai acontecer, mas eu examino as condições de uma situação e faço uma linha dizendo onde vai dar. Minha colega disse que isso é praga. Eu acho que é intuição. Meu amigo chama de dedução lógica.

terça-feira, maio 19, 2009

Algo que me deixa muito triste às vezes é a impressão de que a hierarquia entre o sexo masculino e feminino nunca vai acabar. Explico. Muito mais do que uma ligação meramente econômica, ou seja, de que a igualdade entre os sexos viria a partir do momento em que a mulher se insere no mercado de trabalho, a dominação masculina se relaciona com a problemática da ameaça ao pau. Isso mesmo. O homem tem de proteger o seu pau a qualquer custo.

Ora, por que sempre há as equações homens=sexo e mulheres=compromisso? Exemplo. Se um cara come uma menina e liga pra ela ou manda mensagem no dia seguinte, ele é gentil e carinhoso. Se uma garota faz isso é uma grudenta sem amor próprio. Afinal, o cara é que tem que vir atrás. Hoje mesmo estava conversando com uma amiga e ela disse que deu seu telefone a um cara, e afirmou ainda que JAMAIS ligaria pro cara, pois poderia ser incoveniente. E por que o cara não seria inconveniente e ela sim? Isso pra mim não cheira a mulher difícil, e sim insegura.

Não são poucas as vezes que sei de história de um cara achar que a mulher tá na dele só porque ela ligou umas duas vezes. Enquanto há mulheres aos montes que recebem muitas ligações e continuam achando que o indivíduo "só quer sexo". Há também um forte tom de vitimização nessa frase: ele só quer me comer. É como se pelo fato de um homem querer vê-la, bater papo e transar sem namorar significasse que a mulher não passa de uma boneca inflável, quando, em verdade, é possível haver um certo afeto sem necessariamente haver paixão tanto de um lado quanto do outro.

Falando em paixão, às vezes penso que as pessoas detectam paixão com muita facilidade, vêem paixão em tudo. Existe uma linha tênue que separa amor de carência afeitva, e a diferença entre ambos só o amor próprio pode dar.

sexta-feira, maio 15, 2009

Divã (2009), José Alvarenga Jr.


Quando assisti a Divã, uma das primeiras impressões que tive é que minha mãe ia adorar. Sim, acredito que se trata de um filme dedicado às mulheres de meia-idade, especialmente as divorciadas.

Não por acaso Mercedes, nossa protagonista, tem um caso extraconjugal com Téo, interpretado por Reinaldo Gianechini. O romance dela com o ator global tem caráter totalmente evasivo – que coroa não ia querer namorar o Gianechini, aquele que namorava a Marília Gabriela? O filme também apresenta ingredientes como a figura da melhor amiga, do cabeleireiro gay, conversas sobre maquiagem, enfim, coisas que supõe-se que façam parte do chamado universo feminino.

Apesar de apresentar cenas bastante evasivas, Divã não oferece happy end. Aliás, esse é um filme que tem como tema a perda, a dor da separação das pessoas que amamos. Mercedes se divorcia do marido, Teo a abandona, sua melhor amiga morre, seus filhos crescidos se retiram aos poucos da sala de estar dizendo que vão sair e a deixam sozinha assistindo a Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra. A cena de Os cafajestes é justamente o famoso longo plano em que a personagem de Norma Bengell fica nua numa praia enquanto dois playboys que haviam roubado sua roupa rodeiam-na num carro, momento em que a câmera é agressiva com a personagem. Mercedes tem algo de Norma Bengell em Os cafajestes? Quem sabe a nudez como se mostra para nós espectadores, que invadimos sua privacidade em pleno divã.

O psicanalista com quem Mercedes conversa não chega a aparecer na tela, e tudo o que vemos é a sua sombra. Enquanto Mercedes fala, a câmera nos coloca no ponto de vista do psicanalista, ou seja, essa é uma experiência metalingüística em que o filme fala da própria espectatorialidade e insere o espectador como voyeur na ação, um voyeur para quem a protagonista fala dos seus segredos mais profundos. Outro filme que faz uma reflexão sobre o voyeurismo no cinema é Kika (1993), de Pedro Almodóvar, no qual Almodóvar faz uma homenagem a Janela indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, outra película cheia de metalinguagem. Em Kika, a protagonista que dá nome ao filme maquia um morto que ressuscita. Já em Divã, a melhor amiga de Mercedes pede para que ela a maquie, pois está pálida e não quer que seu marido a veja assim, mas acaba falecendo ainda enquanto Mercedes passa pó no seu rosto. Não, Mercedes não pode ressuscitar os mortos - têm de lidar com a sua partida.

Após tantas perdas, o último plano do filme é de Mercedes sorrindo como uma mulher forte, que conseguiu superar todo o sentimento de ausência, sorriso que depois é eternizado numa fotografia. Ela não está com nenhum bonitão nem casou de novo, mas algo nos diz que a vida é assim: a gente ama, ama, pra depois um dia a pessoa ter que partir, de uma forma ou de outra.

domingo, maio 10, 2009

Não faça o que eu faço

Uma coisa que percebi há não muito tempo foi a minha paixão por personagens sem caráter ou problemáticos mesmo. Nada de personagens que estão ali para dar uma lição de moral, eu quero é ver nóias e sangue no olho. Enfim, eu adoro os pilantras ou aqueles que não sabem onde estão nem pra onde ir. Aí vai a lista dos meus preferidos.

Petra von Kant em As lágrimas amargas de Petra von Kant
Tyler Durden em Clube da Luta
Capitão Nascimento em Tropa de Elite
Michael Corleone na trilogia O poderoso chefão
Beatrix Kiddo em Kill Bill 1 e 2
Travis em Taxi Driver
Alvy Singer em Annie Hall
Clementine em Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Jules Winnfield em Pulp Fiction
Alma e Elisabeth Vogler em Persona
Carol Ledoux em Repulsa ao sexo
Lilica em Pixote
Lestat em Entrevista com o vampiro
Edward, mãos de tesoura
Catherine em Jules e Jim
Marie em Au hasard Balthazar
Nana em Viver a vida
Marianne em Pierrot le fou

sexta-feira, maio 08, 2009

Os pássaros (1963), Alfred Hitchcock


Três anos após o lançamento de Psicose (1960), Alfred Hitchcock nos apresenta outro filme que traz a problemática da relação mãe e filho em Os pássaros (1963). Se em Psicose Norman Bates assassina a mãe que havia arrumado um namorado após a morte do pai, e cria uma dupla personalidade, sendo que assume a pessoa da mãe como uma mulher ciumenta que mata qualquer mulher que se aproxime dele, em Os pássaros Lydia Brenner, a mãe de Mitch Brenner, procura afastar as mulheres que tenham envolvimento com seu filho, pois é viúva e teme passar o resto de seus dias sozinha.

Desde a primeira cena do filme nos é apresentado o elemento central da narrativa, os pássaros, e a responsável pelo desequilíbrio do meio, Melanie Daniels. Numa loja de pássaros Melanie se passa por vendedora para atrair Mitch Brenner, que propositalmente afirma que está procurando por periquitos, que não havia na loja, para presentear sua irmã. Mitch questiona: você não se sente mal diante dessas pobres criaturas presas em gaiolas? Melanie oferece-lhe um canário, e quando vai tirá-lo da gaiola acaba deixando-o escapar de suas mãos. Esse é o prelúdio da insurreição dos pássaros sobre os habitantes da pequena cidade de Bodega Bay após a chegada de Melanie, que viaja de São Francisco até Bodega Bay atrás de Mitch.

Logo após visitar Mitch, Melaine sofre o ataque de uma gaivota. Mais e mais ataques são realizados por diversas espécies de pássaros que vêm aos montes, sejam corvos, gaivotas, etc. Num primeiro momento, muitos não acreditam nos relatos dos ataques, posto que os pássaros não seriam tão inteligentes ao ponto de se unirem para uma espécie de insurreição, até que eles se tornam cada vez mais constantes. Partimos de uma situação inicial em que os pássaros estavam perfeitamente controlados, vendidos como coisas presos em gaiolas de uma loja, até vermos humanos presos em suas próprias casas reféns das investidas de centenas de pássaros.

Não sabemos ao certo o motivo de tal revolta. Aliás, esse não é um filme de respostas. A mãe de Mitch encontra um homem morto com os olhos arrancados, o que leva a polícia a acreditar que teria sido um crime, o que nos fornece uma pista falsa. Outra pista falsa seria o fato de Mitch ser advogado criminal, o que poderia conduzir a supor que haveria algum crime no decorrer do filme. Num determinado ataque, Mitch e Melanie, fugindo dos pássaros, encontram mulheres idosas reunidas numa casa, entre elas a mãe de Mitch, até uma delas afirmar que Melanie era má e por isso haviam ocorrido estranhos acontecimentos na cidade.

Temos que uma dessas senhoras entende bastante de ornitologia. Annie Hayworth, que antes havia se também envolvido com Mitch, fala para Melanie sobre outro ataque de pássaros ocorrido anteriormente, o que pode conduzir a imaginar uma relação entre aquelas senhoras solitárias e as investidas dos pássaros para afastar uma nova mulher. Sabemos que Lydia não está feliz com a aproximação entre o filho e Melanie, e ela chega a contar ao filho sobre um escândalo nos jornais a respeito da moça, filha de um dono de jornais, segundo o qual ela haveria tomado banho nua num chafariz em Roma, numa referência a La dolce vita (1960), de Federico Fellini. Entretanto, a hipótese da relação entre a mãe solitária e a nova namorada do filho, ou qualquer outra, não se confirma neste exemplar do cinema moderno, que é uma obra aberta, inacabada de maneira a deixar teorias sobre o filme a cargo do espectador.

Está aí uma diferença essencial entre Os pássaros e Psicose: se o segundo nos leva a um final de revelação surpreendente, o primeiro nos deixa sem respostas, apenas rodeados de mistérios criados pela narrativa.

Vale ressaltar a tensão provocada no espectador relacionada aos pássaros, especialmente na cena em que o plano geral desde o início destaca um cercado situado próximo à escola, e após Melanie sentar-se num banco para esperar Cathy sair, a irmã de Mitch, vemos a utilização da profundidade de campo provocar um efeito de tensão, pois observamos aquilo que a personagem não vê – ameaça do ataque dos pássaros, que vão chegando aos poucos logo atrás dela, até que finalmente Melanie vê repentinamente, num rápido campo e contracampo, o cercado repleto de corvos. Ficamos tensos durante a cena, que já nos indicava o decorrer da ação, o que não impede uma sensação de surpresa, quando do ponto de vista objetivo e onisciente da ação somos mandados para o ponto de vista da personagem, com destaque para a imagem repentina da enorme quantidade de pássaros e também para a câmera subjetiva voltada para trás enquanto a personagem caminha rapidamente até a escola.

Algo que particularmente me chamou a atenção no filme foi a relação do ser humano com a natureza. O desequilíbrio inesperado, o que parecia indefeso se torna ameaçador, a vida selvagem tomando conta de uma pequena cidade e afugentando os seus habitantes. Os pássaros tem uma paisagem onírica, ele mexe com o absurdo e apresenta imagens que realmente nos lembram um sonho, ao ponto de em certo momento ser possível esperar que um dos personagens acorde.

Sobre a natureza, lembro de uma frase de Wittgenstein: que o sol nascerá amanhã é uma necessidade lógica, mas não uma determinação da realidade. O sol pode simplesmente não nascer amanhã. Os ataques dos pássaros desafiam a nossa lógica sobre o mundo, o universo começa a parecer incompreensível. O filme não oferece uma compreensão do fenômeno, deixando-nos apenas esse contato com o Místico. A racionalidade e o poderio do homem sobre a natureza permanecem questionados.

Poderíamos também estabelecer uma oposição entre a metrópole São Francisco, lugar em que Mitch trabalha e onde conheceu Melaine e Annie, e a pequena cidade de Bodega Bay. São Francisco evoca a racionalidade das relações pessoais típicas da vivência das metrópoles, lugar onde o contato com a natureza é rompido através da construção de um ambiente criado, enquanto os ataques dos pássaros na pequena Bodega Bay nos remetem a um mundo onírico, ou seja, irracional, e onde a natureza ao final ocupa a cidade, repleta de pássaros que expulsaram seus moradores.

terça-feira, maio 05, 2009

Sopre aqui antes de fazer o login

Ontem entrei no msn bêbada e a quantidade de coisas sem noção que falei pras pessoas me fez amanhecer o dia me papocando de rir. Ainda bem, poderia ser pior, se eu ficasse com ressaca moral aí sim seria um problema. Mas de qualquer forma não eram coisas que eu deveria falar, enfim, o que me fez ter a idéia da necessidade de um bafômetro para MSN. Isso mesmo, amiguinhos. Não sei vocês, mas eu já me dei conta de que álcool e MSN formam uma combinação perigosa, bombástica até. O pior é que as pessoas sabem que você está alcoolizada e se aproveitam para arrancar todo tipo de verdade de você. Então pedi encarecidamente para um colega meu que estuda Informática para criar o maravilhoso bafômetro de MSN. É assim: assopre aqui antes de fazer o login. Se o PC detectar teor alcóolico abusivo, o bêbo fica sem poder conversar com os fellas. Meu colega se recusou a inventar o tal produto, e disse que iam linchá-lo na rua. PORRA, JÁ NÃO BASTA ESSA PARADA PRA CARRO, AINDA VEM UM FILHO DA PUTA E INVENTA PRo MSN.

segunda-feira, maio 04, 2009

Elephant (1986), Alan Clarke


Elephant (1986), de Alan Clarke, representa diversos assassinatos que não têm uma ligação lógica de maneira a estruturar uma narrativa. A câmera segue os personagens através de travellings, às vezes pára e deixa o personagem seguir em frente, percorre espaços de corredores, ruas, faz-nos andar junto com a vítima ou com o assassino (às vezes não sabemos se estamos atrás da vítima ou do algoz), de forma a nos lembrar Elephant (2003), de Gus Van Sant. Elephant, de Alan Clarke, de fato influenciou o filme de Van Sant, uma ficção sobre o famoso massacre na escola americana de Columbine, episódio que também deu origem ao documentário Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore.

Como um filme sem música, Elephant traz o silêncio das ruas e dos cômodos onde ressoam os passos dos personagens, até os tiros ecoarem violentamente contra o silêncio. A câmera nos coloca em posição de distanciamento em relação às vítimas e aos algozes, com planos abertos e pouco vemos dos seus rostos (em apenas dois assassinatos vemos o primeiro plano do semblante do assassino). Nos diversos assassinatos representados, há close sobre a arma no momento do tiro. Esse close evoca o poder que a arma proporciona aos assassinos, que diante da vida alheia comportam-se com uma indiferença e uma sensação de poder assustadoras.

Algo que se repete em todos os assassinatos do filme é que vemos o cadáver da vítima em plano geral com câmera fixa. Há um respeito na representação da violência, o próprio filme não banaliza a morte, ao contrário dos algozes. Ao optar por apelar ao espectador para que observe o cadáver, todavia utilizando o plano geral com câmera fixa, a câmera não espetaculariza a violência, mantendo uma postura respeitosa diante do corpo estendido ao chão.

Algumas cenas que me marcaram: o travelling para frente em plano geral segue duas pessoas fazendo caminhada pela manhã ainda cedo, rodeadas pela bela paisagem verde e o céu com neblina. A imagem bela contrasta com a violência que se segue, quando vemos um homem vindo na direção contrária ao fundo do quadro que atira em uma das pessoas, enquanto a outra corre e termina não sendo morta pelo assassino, que segue caminhando tranquilamente. Outra cena: a câmera faz um movimento de travelling para trás e acompanha homem andando por uma rua. O trabalho da profundidade de campo provoca suspense, pois ao fundo está um homem seguindo-o. O personagem adentra na sua casa e a câmera o segue em travelling para frente, até parar diante da porta da sala, quando o assassino adentra o quadro e atira no homem que seguia e num garoto que jogava videogame.

O filme termina seguindo dois homens vestidos com sobretudo preto, que depois encontram outro rapaz usando a mesma roupa, até pararem no que parecia ser um estacionamento. Um deles vira para a parede e é morto a tiros. O último plano do filme é do seu sangue escorrendo na parede. Fica a pergunta: será que os homens de preto da última cena faziam parte de algum grupo de serial killers que depois resolvem matar uns aos outros?

Nenhum dos crimes tem explicação. Todos os assassinos pegam as pessoas desprevenidas, tirando-nos da segurança dos crimes com motivos. Sabemos que em boa parte dos filmes de serial killers no final ele pára e explica para algum personagem e para nós espectadores o porquê de seus crimes. Elephant constrói um universo onde uma vítima da violência é vítima de um crime banal, é vítima do acaso. Tais quais os estudantes da Escola de Columbine.

quinta-feira, abril 23, 2009

Levando pro lado pessoal


Essa semana revi O poderoso chefão - parte I (1972), de Francis Ford Coppola, e, entre as váaarias cenas que me fizeram vibrar estava a que Michael Corleone pede permissão aos irmãos para matar o coronel McCuskley, que havia deixado o hospital vazio com o objetivo de facilitar a morte do pai de Michael, o mafioso Vito Corleone, e Michael afirma ainda que também gostaria de eliminar Sollozo, que estava doido pra levar Vito à cova depois de ele ter lhe negado apoio junto aos políticos corruptos para serem cúmplices do seu novo negócio, o tráfico de drogas. Após Michael explicar o seu plano, Sonny zomba de Michael dizendo que o irmão sempre havia se mantido afastado dos negócios da família e agora simplesmente queria tomar as rédeas da situação com mãos de ferro, e acusa Michael de estar levando para o lado pessoal os negócios após ter recebido um murro do coronel. Então Michael arruma uma justificativa para o assassinato de Sollozzo e McCuskley dizendo que a família poderia recorrer aos jornalistas que tinha no bolso, pois daria uma ótima manchete a morte de um policial corrupto como McCuskley. Daí é que ele vira pro Sonny e fala:

- You see, Sonny, that's not personal. This is business.

Cara, muito boa essa cena. Isso me faz lembrar do quanto é cretina a afirmação de que podemos não levar para o lado pessoal. Bullshit! Nas discussões acadêmicas sobre objetividade jornalística, eu via professores com posições contrárias simplesmente se odiarem por causa de ideologias diferentes. Fora o pessoal pró-aula versus Movimento Estudantil na UFS que viviam se digladiando não só em discussões políticas, como também se estranhando nos corredores da universidade. Na jogatina de mesa de bar, os jogadores uma hora ou outra se estranham pelo fato de estarem perdendo dinheiro. Nunca vi adversários políticos se amarem - a não ser quando convém para a campanha.

Enfim, negócios são negócios. E não são nada impessoais.

segunda-feira, abril 13, 2009

Depois de ver o sofrimento de minha avó diante de tantas lembranças dispersas em papéis avulsos sobre o chão, poesias, fotos, cartas, e a saudade que ela tinha do meu avô como sentimento onipresente, sentido do mundo talvez. Ela dizia que podia estar ali conversando com a gente, mas seu pensamento estava sempre nele. Ela o via em algum canto da casa, sentia sua presença romper os limites do mundo. Vovó, que cuidou durante quatro anos do meu avô, que deu banho, limpou suas feridas... Que acordou e dormiu com ele por 55 anos de sua vida. Que tomou surra do pai pelo preconceito contra a cor. Que descobriu o amor que a gente constrói a cada dia, que fica firme aos trancos e barrancos da imperfeição ou mesmo do tédio às vezes, mas que se renova a cada dia passado juntos, numa afirmação de que a vida não é fácil nem tão grandiosa, mas é gostosa no aconchego da intimidade e do tempo difuso do passar dos dias. Na saúde e na doença, muito mais do que promessa na frente do altar.

Nessas horas, penso que acredito no amor.

domingo, abril 05, 2009

Última Parada 174


Última Parada 174 (2008), de Bruno Barreto, conta uma história que todo mundo já conhece. Entretanto, o filme não busca ser fiel à realidade, apesar de logo no início nos lembrar que se trata de uma história baseada em fatos reais. Não haveria problema em não apresentar uma pretensa objetividade (há problemas bem maiores em querer abarcar o real em sua totalidade), caso a maneira como a história de Sandro Nascimento é contada não chegasse a ser canalha, devido à delicadeza do tema e a forma tola como o personagem é abordado.

O Sandro Nascimento do documentário Ônibus 174 (2002), de José Padilha, é um homem que é arrastado à violência através da violência. Ele vê a mãe ser esfaqueada aos sete anos, ele é sobrevivente da chacina da Candelária, ele passou pela FEBEM até chegar ao sistema prisional, onde conheceu nas entranhas a árdua justiça punitiva da sociedade. Há uma diferença primordial entre o Sandro de Ônibus 174 e o Sandro de Última parada – o primeiro é um produto da violência e das injustiças sociais, enquanto o segundo não passa de um desviado.

O Sandro de Última Parada chegou a ser internado no reformatório, mas nunca foi para a cadeia. O Sandro de Última Parada não assistiu à morte da mãe, pois quando ele chegou, ela já estava caída ao chão. O Sandro de Última Parada não tem vida própria - ele é sempre visto a partir de um olhar de pena. Vale lembrar de outro filme do cinema nacional que abordou a realidade dos “meninos de rua”, Pixote – a lei do mais fraco (1981), de Hector Babenco. Uma das qualidades que faz do filme de Babenco uma obra-prima é o fato de os seus personagens, especialmente Pixote, serem sujeitos com vontades e histórias suas. Eles não estão ali como coitadinhos ou meninos perturbados que precisam de ajuda, justamente a representação que Última Parada termina oferecendo.

Ainda em comparação a Ônibus 174, a ficção deixou totalmente de lado o que o documentário abordou com ênfase – o desejo de visibilidade de Sandro levado até as últimas conseqüências e o espetáculo midiático que terminou criando um monstro. O mérito do documentário de Padilha foi ter ressaltado em seu filme a maneira como a encenação que Sandro fez para as câmeras era uma revolta diante da sua invisibilidade social. O ponto fraco do documentário de Padilha está no fato de o parentesco com o jornalismo ter deixado tal relação ser elaborada numa forma muito simplificada – por exemplo, ele simplesmente pega imagens de meninos de rua ignorados pelos motoristas no sinal e insere a narração em off de um especialista, numa espécie de pleonasmo em que a fala repete o que já está presente na imagem. Já a ficção de Bruno Barreto deixa a canalhice da mídia de lado e pouco aborda a problemática questão da sociedade do espetáculo.

Nas cenas da ficção que representam o seqüestro do ônibus surge uma figura inusitada – no lugar do policial do BOPE que faz negociações com Sandro está André Ramiro, que interpretou Matias em Tropa de Elite (2007), de José Padilha, mesmo diretor de Ônibus 174. Coincidentemente, André Ramiro tem semelhanças físicas com o policial que conversou com Sandro e que deu entrevista para Ônibus 174. Não por acaso o personagem Matias, que é o policial mais bem comportado de Tropa de Elite, assume em Última Parada o papel de um policial que queria apenas reconciliar conflitos e receber Sandro de braços abertos. Ramiro, assim como em Tropa de Elite, interpreta um personagem que acaba ficando revoltado – só que em Última Parada ele se senta frustrado de cabeça baixa na rua, enquanto em Tropa de Elite ele atira na cara do espectador no último plano do filme.

Em Ônibus 174, Sandro Nascimento avacalha porque “não tem ninguém”, “não tem nada a perder”, e não quer voltar de maneira alguma para a prisão depois de ter conhecido o gostinho do inferno. Em Última Parada a prisão sequer existe – ela foi apagada da história de Sandro. O Sandro de Ônibus 174 está só e cercado por todos os lados. Já em Última Parada, a salvação está a sua espera, com a moça da ONG e a mulher que acredita que é sua mãe esperando-o aflitas logo ali perto do ônibus. Sandro não se redimiu, ao contrário da mulher que acredita que é sua mãe, e que de viciada em drogas passou a evangélica. O Cristo Redentor, que surge em planos do filme sobre a cidade do Rio de Janeiro, poderia ser uma representação dessa salvação mítica (seja numa ONG ou num lar) que terminou por não ser encontrada.

Ele termina sendo vítima trágica de um policial que de maneira impensada contribuiu para a morte dele e de sua refém, e inclusive esse momento apresenta decupagem da ficção semelhante à do documentário, com o uso de câmera lenta. E é aí onde tanto a ficção quanto o documentário sobre o evento do 174 trazem representações problemáticas na medida em que espetacularizam também o acontecimento que “fascinou” os brasileiros na frente da TV.

A narrativa de Última Parada 174, onde nenhuma cena tem uma beleza em si, mas apenas está ali para adiantar o andamento da história, onde os personagens à margem não têm vida própria, mas estão sempre sob o olhar de quem dá esmola na porta da igreja. Pra terminar, é claro que não podia faltar um happy end. Marisa, a mulher que na ficção acreditava ser mãe de Sandro, acaba encontrando seu verdadeiro filho pelas mãos do destino no enterro do falso filho que havia morrido no trágico episódio da linha 174.

segunda-feira, março 30, 2009

Blow up


Thomas, o personagem principal de Blow up (1966), de Michelangelo Antonioni, é um fotógrafo, mas poderia ser um cineasta. A obra é inspirada num conto de Julio Cortazar, mas é puro cinema. Thomas dirige impacientemente as modelos, como se dirigisse atrizes (embora as considere fúteis e elas poderiam ser comparadas às estátuas da loja de antiguidades que ele visita, quando afirma até que prefere paisagens a esculturas, mostrando o porquê de ele abandonar as modelos e correr para fotografar um parque), como também exerce um papel de "diretor" quando busca incansavelmente numa foto que tirou num parque em Londres o motivo do olhar angustiado da mulher que estava nos braços de um homem, dispondo em seqüência diversas ampliações da fotografia em questão como uma própria decupagem cinematográfica.

O dispositivo técnico da fotografia, neste caso, clama por independência em relação ao sujeito por detrás do aparelho que apreende a realidade. Thomas havia presenciado um crime, e até tirado fotografias, mas sem nada perceber, pois tudo o que vira foi um casal de amantes. Mesmo diante da inocência do seu olho, o dispositivo foi capaz de captar aquela realidade. André Bazin já havia falado sobre a grande novidade do cinema, como também da fotografia, que consistiria em, diferente das outras artes tão dependentes da perspectiva do artista, conseguir um realismo baseado na representação do espaço e da física dos objetos não absolutamente determinada pela subjetividade do artista, posto que haveria entre o olho e a realidade, a câmera.

Entretanto, se a imagem se revela na fotografia de Thomas, não é porque a máquina fotográfica seja capaz de uma pretensa objetividade. A imagem do assassino apontando a arma para a vítima se apresenta pouco visível, e o que seria o contorno do cadáver do homem assassinado na fotografia é definido pela colega de Thomas como semelhante a uma pintura já conhecida. Nem a fotografia reproduz fielmente o real, nem Blow up, pois o filme não responde às perguntas sobre os motivos do assassinato no parque ou do desaparecimento das fotografias de Thomas.

O fotógrafo, que havia visitado o parque à noite em busca da prova da veracidade da sua fotografia e encontrado o cadáver entre os arbustos, no dia seguinte volta ao local e não vê corpo algum. Thomas caminha desapontado pelo parque, e um grupo de mímicos, que antes havia aparecido nos primeiros planos do filme, ressurge como uma metáfora sobre a imagem e a espectatorialidade. Thomas observa atentamente o grupo de mímicos jogar tênis com uma bola invisível. Em certo momento, os mímicos simulam que a bola de tênis imaginária havia saído da quadra, e pedem para Thomas pegá-la. De forma magnífica, Antonioni decupa a cena de modo a inserir um travelling que segue a queda de uma bola invisível, brincando com o próprio espectador do filme. Depois, vemos Thomas estático, mexendo os olhos como se ainda seguisse o movimento da bola invisível no jogo imaginário, e um efeito sonoro insere o barulho da bola invisível.

Os índices dispostos ao longo da narrativa, e que no final convencionalmente deveriam nos levar à solução, apresentam problemas que permanecem insolúveis. Esta obra aberta, entregue à nós como um jogo de armar, está para nós assim como a bola invisível está para Thomas.

domingo, março 29, 2009

Michael Corleone sempre me liga


Hoje recebi uma mensagem muuuito estranha. Não conhecia o número, que tinha prefixo de Santa Catarina, e eu não conheço ninguém de lá, não que eu me lembre... Segue o texto:

Imagina se eu fosse da máfia? Dio Santo!

Só consegui imaginar que se tratava de alguém que sabe que sou fã da saga da família Corleone em O poderoso chefão, do Coppola. Ou algum bandido mesmo o.O

Sei que liguei pro tal número e um cara atendeu com aquele típico sotaque do sul do país. Perguntei quem era, ele fez a mesma pergunta. Eu falei que tinha recebido uma mensagem hoje, e ele só falou que devia ser engano, sem mais...

Se foi engano, haja coincidência! Daqui a pouco recebo mensagem de gente falando dos Beatles. Aí já é demais!

terça-feira, março 24, 2009

Corações sensíveis, corações fiéis
que culpam o amor leviano
Cessem suas queixas cruéis:
É um crime mudar?
Se o amor tem asas,
não é para voltear?

Citação de Le mariage de Figaro em La règle du jeu, de Jean Renoir. Esse texto me lembra algo que ocorreu recentemente. Claro que é segredo.

Love

Love is real, real is love
Love is feeling, feeling love
Love is wanting to be loved

Love is touch, touch is love
Love is reaching, reaching love
Love is asking to be loved

Love is you
You and me
Love is knowing
We can be

Love is free, free is love
Love is living, living love
Love is needing to be loved

John Lennon

domingo, março 15, 2009

House!


Minha mãe agora virou fãzona de um seriado americano, aquele do médico sarcástico House. Ela sempre adorou seriados envolvendo medicina, como também aqueles que trazem investigações sobre crimes bizarros. Esse em particular me chamou a atenção pelo fato de o cara ser muito, mas muito irônico, ter tiradas geniais, ser frio e calculista, e ainda conseguir fazer os diagnósticos mais difíceis.

Antes eu havia ouvido falar de House. Pessoas me disseram que ele era perverso, mas que mesmo assim, gostavam de ver o médico em ação. Quando assisti ao seriado, não vi nada de maldade nele. Muito pelo contrário. Está certo que assisti a poucos episódios, entretanto, pelo que pude ver, ele é muito mais dedicado ao trabalho do que váaarios médicos folgados de que minha mãe fala. Está certo que o que está em primeiro lugar para ele não é o paciente, mas o jogo que envolve descobrir o diagnóstico correto, todavia nunca vi o cara fazer nada anti-ético na função que cumpre.

Até disse uma vez que se fosse para escolher entre ser atendida por aqueles médicos que usam nariz de palhaço e contam piadinhas para o paciente ficar feliz ou House, eu escolheria House. É simples: eu DETESTO palhaços. Desde criança nunca gostei. Nas festas de aniversário corria dos palhaços que me davam vergonha alheia ao invés de me fazerem rir. São que nem as freiras que querem orar pelos doentes. Quem disse que todos os doentes querem orações? Ou palhaçadas?

Na hora da necessidade, eu ia era pedir pela ajuda de um bom médico!

E outra: adooooro o sarcasmo de House! ;)
CHEGA DE "BELEZA INTERIOR".

quinta-feira, março 12, 2009

Estava ontem assistindo ao documentário de João Moreira Salles, o Entreatos, com certeza um ótimo filme, quando me lembrei de um fato curioso: o cineasta em questão é filho do dono do Unibanco, assim como seu irmão, Walter Salles.

Certa vez, em uma aula eu afirmei que "assim é fácil ser cineasta". Acho que o professor não gostou muito da minha observação, talvez tenha interpretado como se eu estivesse subestimando a competência artística do João Moreira Salles, o que definitivamente não é o caso, mas a questão é que fazer cinema é um troço complicado e que envolve grana, mas muita grana. Às vezes reclamo do dinheiro que certos editais oferecem, e as pessoas falam como se eu fosse ficar milionária caso ganhasse um concurso desse. Parece que elas não têm a mínima dimensão do trabalho e do gasto que envolve um filme. Está certo que o João Moreira Salles, não fosse o cineasta que é, poderia fazer muita besteira com o dinheiro do Unibanco, todavia, o seu caminho até a realização é muito menos complicado do que qualquer outro pretenso realizador brasileiro.

Diante das adversidades, hoje em dia quando penso no que faria caso ganhasse na loto, entre outras coisas, eu certamente faria um filme. Um filme modesto, sem muitos gastos, um curta, que não se achasse a última peça de vanguarda, mas em que eu tivesse liberdade artística simplesmente pelo fato de ser a dona do dinheiro. É, cinema tem dessas coisas...

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Nunca tive um carnaval decente

Isso mesmo, amiguinhos. Nada de Olinda, terra oficial do carnaval de rua e da putaria generalizada, nem Rio de Janeiro, com seus carros alegóricos colossais e mulheres desavergonhadas. Não, nada disso.

A única vez que participei de uma festa de carnaval foi em 2007, quando fui a Neópolis. Cheguei lá toda animada, afinal, finalmente eu ia viver um carnaval de verdade! Doce ilusão...

Logo no primeiro dia, no momento em que eu estava me preparando para sair da casa onde eu e meus colegas ficamos hospedados, o amigo S. alertou-me de que não seria adequado pular no trio Zé Pereira usando óculos. Relutei e argumentei que eu sou ceguíssima, não enxergo bufulhas sem óculos, e não ia andar por aí tropençando nas pessoas em pleno carnaval.

Não demorou muito para que um filadaputa qualquer aleatório da vida jogasse com a maior força do mundo uma melequeira azulada bem na minha cara, e meus óculos foram lançados diretamente para a casa do caralho. Olhei para trás na esperança de pegar os meus óculos, e me deparei com uma multidão avassaladora me empurrando para frente (e possivelmente pisando nos meus queridos óculos).

Você não sabe o que é estar cega no carnaval. E no carnaval de Neópolis, onde jogam tudo que é melequeira na sua cara... ki-suco, café, farinha de trigo, etc etc etc. Eu simplesmente não tinha como me defender. Como era visível pela minha cara de perdida que eu estava vulnerável, então eu era um alvo e tanto. Eu era a pessoa que chegava à casa com mais sujeira no corpo.

Para completar, faltou água na casa. Ou seja, eu ficava toda melada e não havia onde tomar banho. Aí tinha que ir me lavar num chuveiro que ficava nos fundos da casa, que era aberto para o mato. Como se não bastasse, não muito distante do chuveiro havia um chiqueiro, pessoal, isso mesmo, um CHIQUEIRO, éeee, com porquinho e tudo. Nada contra os porquinhos, mas não me agrada a idéia de conviver com um. Mas isso não é tudo. Havia também um maldito moleque em tempos de "descoberta da sexualidade" que ficava o tempo todo querendo me ver tomando banho, e eu tinha que ficar ligada e dar aqueles berros SAI DAÍ, GURI.

Ainda não é tudo. Está certo que eu bebo sim, e estou vivendo, mas o pessoal daquela casa era bizarro. De manhã cedo me acordavam com umas cornetas dos infernos, e já iam me oferecendo uma latinha de Skol. No café da manhã, meu querido colega D. chegou ao cúmulo de colocar cerveja no cuscuz (quem não aguenta, come cuscuz com leite). Outro amiguinho simplesmente vomitava e, logo depois, abria uma latinha. Nessa brincadeira, com falta de água, houve momentos em que não havia uma gota de água sequer e eu tive de matar a sede tomando cerveja. O carnaval, que era para ter durado uma semana, acabou sendo de apenas dois dias, pois no terceiro pedi arrego e fui embora logo depois do almoço.

Esse ano me perguntaram se eu não queria ir para Neópolis. Eu disse O QUÊ, mas nem morta! Vou ficar por aqui mesmo, nerdando em Buracaju City.

Musicoterapia


É incrível: toda vez que escuto Beatles eu me sinto mais feliz. Uma vez meu professor de inglês pediu para a gente escrever uma redação sobre os 10 mandamentos para uma pessoa se sentir bem no dia-a-dia. Lembro que um dos meus mandamentos era Listen to The Beatles in the morning. O professor achou engraçado. Mas é verdade!
Sei lá, há bandas que a gente escuta uma época e depois deixa pra lá. Beatles não, Beatles é pra sempre!


segunda-feira, fevereiro 09, 2009


Não canso de plagiar no meu dia-a-dia kkkk

And now, if any of you son of bitches got anything else to say, NOW IS THE FUCKING TIME!

domingo, fevereiro 08, 2009

O que é isso, companheiro?


Um dos maiores problemas do cinema brasileiro é a vontade de ganhar o Oscar. Essa necessidade de obter o aval estrangeiro pode produzir pérolas como O que é isso, companheiro? (1997), do diretor Bruno Barreto. O filme relata o sequestro de um embaixador americano, Charles Elbrick, por um grupo de militantes comunistas em plena ditadura militar no Brasil. Charles termina por ser a figura mais carismática do filme: um democrata bonzinho, apaixonado pela esposa, que não fazia a mínima idéia de que representantes do governo dos Estados Unidos davam aulas de como torturar comunistas. O embaixador, segundo o que ele próprio afirma no filme, queria apenas ter relações diplomáticas com o Brasil.

O filme faz uma defesa de valores de liberdade, com todo aquele discurso choroso sobre democracia e etc, com pretensões de documento histórico, justamente como o júri do Oscar adora. É uma obra que exibe também a linguagem clássica de Hollywood - fica bem na fita ver como os brasileiros aprenderam a fazer filme do jeito deles, tanto é que o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Muito diferente da ousadia estética buscada pelo Cinema Novo, que teve como manifesto a Estética da Fome, lançada pelo cineasta Glauber Rocha. Se Bruno Barreto traz sua linguagem limpinha, exemplar do modelo do Cinema da Retomada, e representa os comunistas como malucos que se metiam num mundo violento, Glauber fazia um elogio à violência como manifestação libertadora dos oprimidos. Deus e o diabo na terra do sol é um marco no elogio à violência como revolta dos subordinados.

Bruno Barreto vai de encontro à essa violência, o que não consistiria um problema caso sua crítica não fosse tão rasa quanto um pires, e sua visão da realidade social um verdadeiro conto da carochinha. Logo no começo da obra, vemos o trabalho da direção de arte elaborar uma tiração de sarro com a tradição cinemanovista: no quarto dos jovens, que mais tarde irão se empenhar na luta pela revolução, encontra-se pendurado um pôster do filme Deus e o diabo na terra do sol, como também do mártir Che Guevara.

Ora, em que consiste a sacanagem do Bruno Barreto com os comunistas e também com uma tradição do cinema brasileiro? É que, por mais que o diretor tenha a pretensão de apresentar um filme não-ideológico, a visão de mundo impregnada na obra em questão coincide surpreendentemente com a de um dos personagens do filme. Quem? O torturador Henrique. É Henrique quem afirma que a grande maioria dos jovens comunistas era formada por meninos sonhadores e ingênuos manipulados por líderes iníquos que queriam tomar o poder.

Não é por acaso que os jovens comunistas são representados exatamente assim na obra - como meninos que vivem no mundo da lua, colocando o comunismo e o Cinema Novo, presentes em pôsteres no quarto dos comunistas, também como projetos nefelibatas. E também não é por acaso que o único personagem de fato autoritário e perverso da obra é o líder comunista Jonas, tratado como um manipulador pelo filme.

Só que Bruno Barreto tenta aparecer bem na fita com um pretenso filme politicamente correto e isento de ideologias políticas, todavia, no fim das contas, terminou representando a realidade de acordo com um personagem torturador. A tortura não doeu tanto assim para os comunistas, segundo Bruno Barreto. Tanto é que, numa das cenas do filme, torturadores falam sobre um sargento que se casou com uma vítima que sentia gozo pela tortura. Sem dúvida deve ter sido extremamente prazeroso para muitas mulheres serem estupradas e receberem choques elétricos na vagina nos porões da ditadura.

Numa versão tola da idéia de Rousseau, segundo a qual "o homem é bom, mas o meio o corrompe", os indivíduos aparecem no filme todos como seres humanos bons, exceto o líder comunista Jonas. Os personagens são arrastados até a violência por uma força maior que eles. O filme estabelece laços afetivos entre os comunistas e seu refém, o embaixador, o que poderia constituir uma maneira complexa de tratar a realidade, sem o típico maniqueísmo vítima e algoz, porém termina retirando a discussão política em prol de uma parábola sobre homens levados à violência por forças estranhas. A luta contra as injustiças sociais ou a defesa do fascismo não se relaciona diretamente com as motivações dos personagens, pois os problemas sociais permanecem fora da diegese, Henrique pratica a tortura apenas porque é seu trabalho, e o embaixador sequer sabe sobre a relação dos EUA com a tortura no Brasil.

Os personagens pertencem a outro mundo, pois enquanto eles ficam metidos com discussões sobre a coletividade, as pessoas comuns tentam levar suas próprias vidas. A partir do momento em que os jovens comunistas escolhem a guerrilha, eles perdem suas identidades (são chamados por nomes falsos), e afastam-se da família e dos amigos. O filme os mostra como se estivessem cegos. Na cena em que eles vestem máscaras para esconderem seus rostos do olhar do refém, o embaixador, o plano destaca a imagem de uma tesoura cortando o pano para fazer buracos na região do capuz que ficaria sobre os olhos, numa referência clara à "cegueira" dos personagens comunistas.

Eles estão cegos desde a cena em que o amigo de César e Fernando, que decidiu levar sua própria vida fazendo teatro, sai de quadro e, num jogo de campo e contracampo, segue um outro mundo e um outro caminho, separando-se dos seus colegas. O filme poderia apontar uma crítica, já que em outro momento Fernando e o amigo ator se reencontram, e Fernando afirma que é melhor estar envolvido com suas lutas do que vivendo no faz de conta de uma peça de teatro.

Só que segundo O que é isso, companheiro? parecia haver dois Brasis nos tempos de chumbo: um das primeiras imagens que aparecem no filme, com fotografias documentais da praia de Copacabana ao som de Garota de Ipanema, como também o Brasil que surge ao final, com Maracanã lotado de torcedores eufóricos num jogo de futebol, e outro Brasil país dos militantes e torturadores se digladiando entre si, como se não houvesse em nenhum lugar um Brasil que passasse fome.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Sobre cinema e passado


Assisti hoje ao filme O sexto sentido (1999), do qual eu não havia gostado na época de seu lançamento nos cinemas, apesar de todo o estardalhaço que fizeram em torno do filme, mas que hoje descobri uma belíssima obra do M. Night Shyamalan. O que mais me chamou a atenção no filme dessa vez, no entanto, não foi o final surpreendente, e sim a sua temática e a maneira como elabora uma reflexão sobre o próprio cinema.

O psicólogo Malcom Crowe, que quer ajudar Cole, um garoto atormentado por visões de pessoas mortas, mesmo "problema" de outro paciente, Vincent, que chegou a adentrar na sua casa e lhe dar um tiro acusando-o de não tê-lo ajudado, só passa a acreditar no sexto sentido de Cole após ouvir uma fita com gravações de consultas com Vincent, quando este ainda era criança, e que continha a estranha voz de um homem que gritava em espanhol que não queria morrer. É através de um suporte tecnológico que Malcom obtém a confirmação da realidade das visões de Cole. Em outro momento, Cole mostra ao pai de uma menina, Kyra, que havia falecido, durante o velório dela, uma fita que ela havia lhe entregado para que ele desse ao pai dela. Tratava-se de uma gravação que a menina havia feito de uma brincadeira sua de teatro de bonecos, em que coincidentemente a mulher que tomava conta dela aparecia para lhe dar comida e o video mostrava-a contaminando a refeição da garota.

Essa fita de uma mensagem póstuma nos serve como uma reflexão sobre o próprio cinema. Ora, quem além de nós, espectadores, não vê em Cole apenas um garoto alucinado? Nós vemos o que ele vê, e o processo de identificação é construído de tal maneira que compartilhamos até do seu medo diante do sobrenatural, presenciamos as assustadoras aparições de fantasmas no seu quarto à noite, e encaramos os personagens que ignoram o seu dilema como cegos, ignorantes, negligentes até. Nós somos testemunhas oculares da realidade que Cole vicencia. Entretanto, no final o filme nos mostra que o cinema também pode nos pregar peças - que toda realidade é uma perspectiva, e que um ponto de vista pode ser enganador.

Outro ponto forte do filme, em minha opinião, é a maneira como ele fala sobre a relação do ser humano com o passado, o desejo de acertar as contas, seja pela culpa por uma falha cometida, ou seja pelo desejo de vingança. De uma forma ou de outra, todos somos como os mortos que perambulam pelas ruas diante dos olhos de Cole - temos esse impulso que nos conduz de volta ao passado, tornando o presente tão incerto, e, diante do mundo que insiste na mudança, vemos apenas aquilo que queremos ver, como Cole falou sobre os fantasmas (they see only what they want to see). A obra pode falar também sobre como as pessoas fazem projeções do passado em outras pessoas - a exemplo de um pai que quer que o seu filho seja o que ele não conseguiu ser, ou de alguém que quer ajudar uma pessoa da maneira como não ajudou outra. O filme também traz uma interessante visão a respeito da figura do psicólogo, aquele incubido de compreender profundamente a alma humana e desvendar o motivo de suas mais complexas angústias. Nesse filme, nós descobrimos que ele não é tão são e nem está tão distante assim das outras pessoas angustiadas que visitam o quarto de Cole à noite. Há uma inversão de papéis, e um menino tido como problemático termina por ficar num impasse entre os lugares de "paciente" e de "terapeuta", assim como o próprio psicólogo.

domingo, fevereiro 01, 2009

A religião do século XXI

Em mesa plena mesa de bar, o pessoal conversava sobre ateísmo. Um colega ateu, que tem uma capacidade olímpica para desenvolver teorias cretinas e piadas bestas, falou-nos sobre a fabulosa Religião dos Adoradores do Unicórnio Rosa Invisível. Isso mesmo, amiguinhos.

Tal religião consiste numa mescla de ciência e fé. Ora, por quê? Digamos que seus seguidores acreditam por meio da fé que trata-se de um unicórnio rosa, e, de acordo com a ciência, que ele é invisível, já que ninguém pode vê-lo.

E quem quiser que diga que essa religião é mentirosa!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Mulher gosta de apanhar

Um amigo meu comentou um dia desse que mulher gosta mais é de se foder. Segundo ele, o cara nunca deve tratá-la tão bem assim, nem ser tão atencioso. Eu digo: quem muito malandro se acha, acaba corno!!!

É o seguinte, amiguinhos. Está certo que uma boa parte das mulheres não suporta homens grudentos, que ficam declamando poesias eternamente, ligando de madrugada, etc etc, mas pra tudo tem limite. Insegurança é algo muito importante em qualquer relacionamento, afinal, o medo de perder é o que sustenta o amor, no fim das contas. Mas se o cara pega pesado e simplesmente some, não dá carinho e atenção, como toda mulher precisa, além de outras cositas más, aí ele se ferra. Sem erro.

Tá aí uma coisa que já vi acontecer muito - homem tomar ponta por não comparecer. Mulher carente é um perigo, mon cher. Se ela tá lá sozinha e aparece um cara minimamente pegável, e o namorado querido dela não liga há três dias e não a come há um mês, ela não só agarra o indivíduo como ainda no dia seguinte olha pra cara do namorado rindo internamente. Agora, se o namorado é bonzinho, a história é outra. A não ser nos casos em que a mulher não presta mesmo, ela vai pensar que o namorado é um doce, bom de cama, atencioso e não merece aquilo.

Por isso que digo. É preciso ter cuidado ao ser grudento, e mais cuidado ainda ao ser um imbecil. Não tem corno mais ridículo do que o corno "esperto".

terça-feira, janeiro 27, 2009

Cinema, coisa de outro mundo

Desde a exibição pública de A chegada do trem à estação, dos irmãos Lumière, no Grand Café de Paris, o cinema foi visto como coisa do outro mundo. Dizem que os espectadores se assustaram diante da imagem do trem vindo em sua direção, imaginando que a qualquer momento ele ia atravessar a tela e invadir a sala. Ao mesmo tempo em que o cinema parece advir de uma espécie de universo paralelo, ele adentra nossas vidas assim como o trem do filme dos Lumière.

O cinema é coisa de outro mundo principalmente se estivermos falando de Terceiro Mundo, Brasil, menor estado do país. Aqui não temos o direito de fazer cinema. Filmes são para serem feitos em grandes estúdios, com máquinas de propaganda monstruosas, e para serem exibidos no lugar favorito das classes mais abastadas - o shopping.

Arte cara feita para quem pode pagar por ela. Se um filme não passa de uma ilusão elaborada diante de nossos olhos e projetada numa tela, ele se torna ainda mais distante se lembrarmos que as pessoas comuns podem compor música, escrever poesias, mas de maneira alguma realizar filmes. Os que fazem música e poesia podem morrer anônimos, mas pelo menos a eles foi reservado o direito de produzir sua arte. E o filme do realizador, que vive apenas na sua cabeça, é um filme?

Os filmes são feitos por deuses, não pelas pessoas comuns. Na tela, os deuses do star system reinam absolutos. São rostos de uma beleza acima dos mortais, e com semblantes onipresentes, vidas estampadas em capas de revista, seres humanos que se transmutaram em pura imagem - ícones que se desvencilharam de sua própria materialidade.

Esse cinema que é feito por estrelas, ele nos aparece como vindo de um universo paralelo também porque em grande parte ele é falado em outra língua. Ele tem a cara de outro lugar. E é inconcebível ele ser filmado com gente da gente, na rua da esquina e na nossa língua.

Dizem até que se uma obra audiovisual só em cinema se filmada em película. Um filme só é um filme se utiliza filme. O que é gravado em video não tem o direito de ser cinema, de ser chamado de filme. O cinema é confundido com rolos de filme.

Se já nos tempos do neo-realismo italiano, com o avanço técnico de equipamentos mais leves e menos caros, ousaram falar em sair dos estúdios e em realizar um cinema possível, o cinema ainda hoje não deixou de ser impossível. Mesmo com o video de celular, o cinema de verdade é aquele que tem Julia Roberts e passa no shopping. Quem sabe lá se um dia isso vai mudar.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Odeio cinema

Quando eu digo que gosto muito de cinema, logo muita gente conclui que adoro ir ao cinema. Pode parecer meio óbvia essa dedução lógica, mas não é. Nesse sábado fui assistir a Repulsa ao sexo, do Polanski, à meia-noite em pleno Pré-Caju, e lembrei-me exatamente do porquê de eu quase nunca ir ao cinema.

Primeiro: o valor do ingresso.

Segundo: a qualidade dos filmes exibidos nas salas de cinema multiplex. Os mesmos blockbusters de sempre. Muito raro ver um filme como Repulsa ao sexo sendo exibido num multiplex.

E terceiro, e o mais importante, em se tratando de cinema eu sou COMPLETAMENTE anti-social. Pra mim cinema é pra estar com os olhos e os ouvidos totalmente dedicados ao filme. Em salas de cinema muitas pessoas parecem não entender isso.

Durante a exibição de Repulsa ao sexo não faltaram engraçadinhos com comentários brilhantes a exemplo de "essa é daquelas que gostam de apanhar" e "ela curte ser esTRUpada", falando da personagem principal do filme. Havia um cara que não cansava de mostrar todo a sua FLUÊNCIA da língua inglesa, e insistia em dizer "olha, ela disse I can't, I can't... agora ela falou I'm afraid, ela tá com medo de alguma coisa". E eu que achava ruim a tradução simultânea de Joe Feitosa e daqueles tradutores do Oscar tentando acompanhar as piadinhas sem graça dos famosos "estonteantes"(cerimônia chatíssima per si).

Agora me diga: se eu posso baixar filmes maravilhosos da internet e vê-los no mais completo silêncio, pra quê diabos eu vou assistir a Xuxa não sei o quê lá no cinema e ainda aguentar "críticos" na projeção do filme?

Black and beck

Estávamos conversando sobre maconha e etc, quando o irmão de um amigo meu disse que não quer andar com pessoas que fumam maconha.

- Preconceituoso! - disse uma amiga que adora puxar um beck.

Não era bem isso. Nosso colega contou que, quando estava voltando de uma farra, deparou-se com três bacolejos. Em todos eles, os policiais revistaram apenas ele, que é negro. Sorte do seu amigo branquinho, que estava com dois baseados na cueca.

E há quem diga que não há racismo no Brasil...

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Tristeza não tem fim, MSN sim

Eu tenho medo de pessoas felizes no msn. Juro. Aquele povo que tipo "luau do nana foi ótimoooo", "fim de semana maravilhoso com amigos dez", etc etc. Eu nunca vi gente de "feliz de verdade" sentindo a necessidade constante de provar pra todo mundo que está muito bem, obrigado (a). Há personas por aí que tomam pé na bunda, ficam acabadas, e colocam no msn, na maior cara de pau do universo, frases a la "sou praieiro, sou guerreiro, tô solteiro, quero mais o quê". Há também os cheios de dizeres místicos que querem compartilhar uma sabedoria de Dalai Lama com todos. Pra mim não passam de farsantes querendo aparecer pra todo mundo ou enviar um recado pra alguém em especial.

Quem diabos é Jun?

Há não muito tempo um tal de Jun está deixando comentários em posts daqui do blog. Pelo que fala, ele parece acompanhar não só o meu, como o blog de uma amiga minha há um certo tempo. Agora tanto eu quanto ela estamos numa "investigação" para desvendar quem diabos é Jun. Há alguns suspeitos, mas dois deles são descartados porque Jun citou uma letra de Smiths (e esses suspeitos não gostam da banda). Agora resta só um que poderia gostar de Adorno e Smiths.

Será que Jun é uma pessoa que conhece a gente de vista? Ou quem sabe ele nem sequer mora em Buracaju? Ele nos odeia? É um espião da CIA? E outra: com esse nick, pode até ser uma mulher.

Mistério...

terça-feira, janeiro 20, 2009

Pré-Caju

Vem aí a MAIOR prévia carnavalesca EVER, minha gente! Já comprei meu abadá, e vou beijar um, beijar dois, beijar três, e beijar mais uma vez!

No way!

Moro em Buracaju, mas nunca fui nem pretendo ir ao Pré-Caju. Não sei quantas pessoas nessa cidade nunca chegaram a se esbaldar na avenida. Mas devem ser poucas.

Mas ora ora, por quê? É simples. Eu não sinto a MENOR vontade de agarrar um monte de filhinhos de papai que adoram deixar o som do carro a todo volume em posto de gasolina. E se eu tivesse um pênis, ele brocharia ao ver um abadá.

Fora que a música é péssima, e a pessoa tem que estar MUITO travada pra achar o máximo axé da Bahia. Ou seja, ir a uma festa pra beber pra esquecer que está numa festa. Não, obrigada.

Boa sorte pra quem curte essa desgraça!
Um dia desses um colega comentou que eu me exponho demais no blog. Eu digo que engano todo mundo. Os poucos leitores que tenho (na verdade não sei quantos) ficam achando que estão total por dentro da minha vida, quando isso aqui não passa de ficção que brinca com a realidade. Eu minto na internet, e não é pouco.

Um amigo me perguntou se eu estava apaixonada há um tempo atrás, só porque eu estava escrevendo uns textos meio melosos. Apaixonada? I said no, no, no. Tudo farsa. É que às vezes sinto falta do meu lado sentimental, e só.

Em outra ocasião, certa pessoa achou que um texto meu do blog era uma mensagem pra ela. Nada a ver. Era sobre algo que aconteceu há anos atrás. E havia no meio mentira, muita mentira.

Ou alguém acha que eu ia relatar minha vida todinha assim num blog?

Pobres daqueles que levam a internet a sério.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Quedinhas eternas...

Não sei se você entende do que eu estou falando, mas as quedinhas eternas tratam-se daquelas pessoas com quem você namorou ou ficou que, por mais que o tempo passe e a distância persista, é só reencontrar aquele antigo caso pra bater a vontade. Essas quedinhas são motivos de ciúmes insanos de atuais... Afinal, fica muito na cara que você sente desejo pelo ex-affair. E não dá outra: basta um namoro acabar, e o destino trabalhar a favor de os dois se reencontrarem pela vida, que eles terminam ficando uma vez ou outra.

Coisa mal resolvida ou apenas vontade de relembrar os velhos tempos, essas quedinhas podem durar muitos e muitos anos. Namoro, casamento, tudo passa, mas as quedinhas permanecem. Atire a primeira pedra quem nunca teve a sua.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O problema de uma história que não começa é que ela não acaba... se esvazia.

domingo, janeiro 04, 2009

Noites de Amsterdã

A Holanda é o país da putaria e das drogas, certo? Lá todo mundo é muito "moderninho", as pessoas podem fumar maconha à vontade e até há uma lei que permite que elas trepem no parque. Não é bem assim. Ontem eu estava vendo aleatoriamente a GNT (nome de canal com o qual dá pra fazer trocadilhos escrotos, tipo GNT de GENITÁLIA), e estava passando lá um programa cujo nome, se não estou errada, era Noites de Amsterdã. Trata-se de uma atração em que dois policiais durões saem "botando ordem" na night da famosa capital holandesa.

No episódio em questão, tais policiais repreenderam um turista e uma prostituta que estava fazendo um blowjob nele num beco escuro. Pelo tom da conversa, os policiais ressaltavam sempre que ele era um turista (pessoa legal que vem gastar muita grana no seu país) e ela era a maldita vagabunda. Eu fiquei besta com a abordagem dos caras. Houve um momento em que ele perguntou "você é prostituta né?", e ela respondeu que não, aí o tira disse "mas vai se tornar uma! fazendo isso no meio da rua!".

Depois de ser extremamente agressivo, o policial vinha com um papo de protetor, deu todo um discurso de que ela não deveria fazer aquilo, e pras câmeras afirmava que pobres garotas vendiam o próprio corpo em troca de cocaína. De acordo com o programa de televisão, os policiais não acharam nenhuma prova contra o turista. Mas eu quero saber é porque um policial que se acha um missionário da moral e dos bons costumes berra com uma mulher e fala, na maior grosseria do mundo, que se ela não é uma puta vai virar um dia. E pior, um canal de TV acha isso tudo muito bonitinho.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Do you know what it feels like for a girl?

Em plena virada de ano estava conversando com uns amigos à la plage, quando um colega meu soltou uma dessas frases "pára o mundo que eu quero descer!":

- Você se comporta como um homem!

Não, eu não coço o saco ou qualquer coisa que macho men idiotas fazem.

- Sabe o que é? É que você não se preocupa muito com o que vai dizer e é uma mulher de atitude.

Ah, certo, estou começando a entender...

- Você assusta os homens!

- E é?

- Claro! Pelo menos a mim sim! Não assusta a você também? - e ele virou-se na direção do outro homem que estava na roda, que preferiu permanecer neutro - Bom, assusta pelo menos a mim, que tive uma determinada criação e fui acostumado com mulheres assim sabe... daquele jeito... sabe como é! Você intimida... um homem que queira ficar com você tem medo de você.

Para minha surpresa, uma moça que eu acabara de conhecer se aproximou da roda e concordou com tudo o que meu colega disse. Segundo ela, era notável o que ele afirmou sobre minha pessoa "pela minha postura e meu jeito de falar".

- Eu acho que me fodo às vezes por causa disso...

- Você é inteligente, menina, lembre disso.

Quando me despedi dela, a garota novamente insistiu no que havia dito. Parecia haver notado em mim um certo incômodo pelo meu jeito de ser, e queria de alguma forma me dar uma força para eu continuar sendo eu mesma.

And so it is...

E o orkut me manda essa mensagem em pleno primeiro de janeiro de 2009:

Sorte de hoje: A pessoa que lê sua sorte desapareceu e nosso chefe está furioso.

Thanks!