quarta-feira, maio 31, 2006

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

sábado, maio 27, 2006

Tem dias que eu fico pensando na vida

Hoje eu me fiz umas perguntas estranhas andando pela cidade. Sabe, aquele clima estou num clipe dos Rolling Stones, e bate até uma vontade de fumar um cigarro. É, mas eu fumo raramente, e a cidade não era feia ao ponto de ser underground, nem era bela para dar o ar de elegância. Era apenas Aracaju, e Aracaju é sem graça.

Enquanto fitava o meu sorvete de graviola com cobertura de chocolate, combinação estranha por sinal, eu me lembrei de um filme. Em Pierrot le fou, um homem pergunta a Ferdinand se ele estava ouvindo uma música. Ferdinand diz que não. Ele insiste, como é possível!, e manda Ferdinand chamá-lo de louco se não ouvia nada mesmo. Ferdinad diz que ele era louco. O homem se exalta, ergue os braços, até colocar as mãos na cabeça como um vencido. Ele havia ouvido aquela música durante a vida inteira e ela simplesmente não existia?

E você, já se sentiu alguma vez assim? A gente vive de crenças, há pessoas que se matam porque não acreditam em mais nada, há aqueles que se vestem com bombas porque crêem num céu cheio de virgens. Então imagine você acreditar numa coisa e, pá, ela não passa de uma mentira, ou coisa que ninguém aceita, ou algo impossível de se realizar. Pô, como eu sou idiota, ah, mas eu devo ser muito, muito idiota mesmo!

Depois eu me lembrei do Mefistófeles, o demo. Ele fez a seguinte proposta a Fausto: se em algum instante Fausto se sentisse plenamente feliz ao ponto de querer que ele fosse eternizado, Mefistófeles tomaria a sua alma. Eu fiquei matutando no ônibus, hum, me deixe ver, tem algum momento que eu faria pára, pára tudo, aqui tá bom, eu quero ficar assim pra sempre? Lembrei de coisas muito boas, e é incrível como a idéia de eternidade não me incomodava, eu não pensava poxa, saco isso, tá, eu tô feliz, mas dá pra mudar o disco? Eu aceitaria ter aquelas coisas eternizadas, só não prometeria a minha alma a ninguém por isso.

Sei lá, coisas da vida. É nessa hora em que a gente deixa a conversa pra lá e volta a falar de qualquer coisa. Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão...

sexta-feira, maio 26, 2006

Cinema e sonho


Freud trata o sonho como um lugar do desejo, da identificação, e da projeção. O cinema também é. No sonho, a projeção se dá no fato de todos os personagens terem relação intrínseca com o indivíduo que sonha, pois é ele quem elabora as ações deles por processos psíquicos inconscientes. Na situação fílmica, o espectador se projeta nos personagens do filme, e às vezes torce por eles. Se no cinema o espectador se projeta e se identifica com personagens representados na tela, no sonho o indivíduo se projeta e se identifica com personagens criados por ele mesmo.

A situação fílmica tem um caráter de narcisismo e de voyeurismo. O espectador se coloca enquanto personagem principal e sujeito daquelas imagens, como se o olhar na tela fosse o seu olhar, e não o da câmera. Ele é voyeur, pois contempla o filme como se espiasse uma realidade com sua lente onipresente. Binóculos a postos, o espectador se mete em todas as situações e sabe o que o assassino está tramando, mesmo que os personagens do filme não façam a mínima idéia.

A sucessão das imagens na tela se assemelha à forma como as representações do pensamento fluem. Um olhar no interior sobre fantasias, lembranças, idéias, se desenvolve como um filme elaborado pela psique. Um filme que nós inventamos com nossa memória, recriando os acontecimentos de acordo com nossa subjetividade, ou quando realizamos desejos que não estão ao nosso alcance na realidade imediata. A diferença entre o olhar do sonho e o do cinema é que na situação fílmica o indivíduo entra em contato com um material perceptivo real, enquanto no sonho ele desenvolve representações mentais. No cinema ele olha para a tela, no sonho ele vê de olhos fechados as figuras do seu inconsciente.

Tanto no sonho quanto na situação fílmica, os indivíduos podem vir a confundir realidade e fantasia. Parafraseando Guy Debord, o espetáculo é real, e o real é espetáculo. Alguns fecham os olhos por não suportar ver o sangue, outros gritam de medo, há aqueles que choram na sala do cinema. Saber que está vendo uma película não impede que o espectador confunda o real com o imaginário no momento em que ele se encontra envolvido com o filme. Seria como quando um indivíduo de repente descobre que está sonhando, mas se deixa levar pelos seus desejos, fenômeno chamado por Freud de sonho dentro do sonho.

Por mais que um filme apresente imagens absurdas, ele sempre terá mais lógica do que um sonho. Em Um cão andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dali, as seqüências que pareciam ter alguma lógica eram refeitas para que as imagens tivessem um caráter onírico. Buñuel e Dali eram surrealistas e, portanto, tinham intenções claras de promover a libertação do homem reprimido pelos ditames da civilização, e buscavam a contestação da racionalidade e exaltação da irracionalidade. Mas essa busca pela falta de lógica não seria uma outra forma de lógica ao invés da ausência dela?

Ver um filme é algo semelhante a sonhar acordado. Sonhos são espécies de filmes produzidos pela nossa inconsciência, e filmes são como sonhos exteriores a nós. Então acaba o filme, as luzes se acendem, demoramos um tempo para nos recuperarmos da hipnose das imagens, e saímos da sala como se estivéssemos acordando.

Imagem: Um cão andaluz, 1929.

quinta-feira, maio 25, 2006

E eles descansaram

Eu procurei os espaços nas estrelas
Pra eu caber dentro de mim
Você entrando no meu corpo
E a grama arranhando meu corpo
Com a ardência sutil da terra
Eu sou da terra
A mulher de barro
Sou seu peito, seus braços, muito mais que sua costela
Você sendo arranhado como um desgraçado pelas minhas mãos
Para no big bang do orgasmo
Explodirmos numa nova criação

quarta-feira, maio 24, 2006

Uma canção que parece lembrança da infância

Quando você precisar
Ligue pra mim pra conversar
E se eu algo te machucar
Vê se toca um violão
E toque aquela canção
Que parece com lembrança da infância

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

Quando parecer que não há
Faça um cafuné em quem você ama
Não pense em você
Olhe pro mundo
Veja que o mundo é bonito e injusto
Então faça alguma coisa pelo mundo

Eu nunca vou deixar você se entregar assim
Você pode até não gostar de você
Ah, mas eu te gosto muito, sim

terça-feira, maio 23, 2006

Aula de Português

Diga se quando você era guri não fez isso...

A professora- Cê a, ca, cê e, ce, cê i, ci...

Guris- hihihi

A professora- cê o, co, cê u...

Guris- Cuuuu!!!

segunda-feira, maio 22, 2006

Da História

Ele deu um passo à frente e parou junto à mesa. Seu maxilar inferior pendeu um pouco para o lado em dúvida. É isso a velha sabedoria? Ele espera ouvir alguma coisa de mim.

- A história- disse Stephen – é um pesadelo do qual estou tentando despertar.

Do campo de esporte dos meninos ouviu-se um grito. Um apito estridente: gol. O que aconteceria se esse pesadelo desse um pontapé de volta na gente?

- Os caminhos de Deus são os nossos- disse o Sr. Deasy.- Toda a história da humanidade se move em direção a um grande alvo, a manifestação de Deus.

Stephen sacudiu seu polegar em direção à janela, dizendo:

- Isso é Deus.

Hurra! Ai! Rrhiiiii!

- O quê?- o Sr. Deasy perguntou.

- Um grito na rua- respondeu Stephen, sacudindo os ombros.


Do capítulo Nestor, de Ulisses, de James Joyce.

Essa é, certamente, uma das passagens mais bonitas do livro. Não se trata para mim de um livro difícil e grande que esnobo ter lido. Mas de uma obra que me fez rir (sim, rir, há coisas engraçadas!), chorar, que me emocionou como nenhuma outra. E não acredito que só uns poucos privilegiados “intelectuais” possam lê-la. Basta ter sensibilidade e se envolver com um narrador que brinca com você. Porque assim como a história não é feita somente pelos grandes personagens, pela classe dominante, mas é feita por todos nós, como afirma Stephen, a arte não pertence a uma elite, senão não é arte, é propriedade. A arte é libertação. Recomendo.

domingo, maio 21, 2006

Mesmo que seja bizarro

Quando eu era mais novinha, uma amiga que eu achava o máximo vivia dizendo pra eu ser mais falante, pra marcar presença, pra eu ser mais legal, porque eu era uma pessoa bacana, mas não tinha muitos amigos.

No começo eu concordava com esse modelinho idiota. Mas, mesmo tendo em mente como eu deveria agir, eu simplesmente travava. Tinha aquele impulso de falar e... sabe? Chegava numa festa e não conseguia me entrosar com os amigos dela porque não fazia a mínima idéia do que eles estavam falando. Era tão dissonante que eu não tinha referência nenhuma sobre um assunto pra tratar. Também não era interessante, pelo menos pra mim. Então eu me encostava num canto e começava a conversar com alguma pessoa que também estivesse sozinha olhando pro horizonte segurando um copo de bebida e encostada na parede mais próxima. Conheci pessoas maravilhosas assim.

Minha amiga ficava com os carinhas mamãe-sou-bonitinho-veja-só-que-fofo-toco-numa-banda-sou-cabeludo-e-tenho-carro, e eu ficava na minha. Ela dizia que pra ficar com um cara “massa” era pra eu rir do que ele falava. Oxe, minha fia, ria, o cara se liga quando a menina fica rindo demais, ah, sabe, isso quer dizer alguma coisa. Às vezes eu a via rindo o tempo todo enquanto conversava com um carinha que ela mesma dizia que era paia. E depois fiquei me perguntando como é possível achar que só porque eu tô rindo eu tô a fim de alguma coisa? Também fiquei preocupada, afinal, eu vivo rindo. Pelo menos a minha forma de rir é escrota o suficiente para ser broxante.

Aí um dia eu mandei pra tonga da mironga do kabuletê. Sabe de uma coisa? Quem disse que uma pessoa tem que viver falando com todo mundo? Sabia que existem pessoas tímidas quietinhas no seu canto e com poucos amigos que são muito legais? Caramba, eu sempre fui amiga dos gordinhos, dos feios, dos gays encubados com vergonha de si mesmos, dos negros isolados na escola que só tem branco, e os adorava. E, não sei, mas a idéia de rir forçado de qualquer merda que um imbecil metido a besta fala pra mim me incomoda bastante.

Comecei a achar paias as pessoas que ela dizia que eram legais. Depois refleti melhor e pensei que eles também deviam me achar paia, então, quem tava com a razão? Sei lá, paia é um conceito relativo. Cada um na sua, e o importante é que você seja você mesmo, mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro, que nem naquela música insuportável da Pitty.

Moral da história:
Pessoas excluídas são mais legais?
Pessoas pops são paias?
No mundo só tem gente paia?

Não tem moral. Todos somos bizarros.

Pensamento do dia:

Feliz aquele que fala muita merda e joga dominó.

sábado, maio 20, 2006

Compre batom, compre batom

Eu no supermercado quando tinha uns seis anos...

- Paaaiii, eu quero essa Barbie!

- Não vai dar, filha.

- Por quê?

- Tô sem dinheiro.

- Tem cheque?

quinta-feira, maio 18, 2006

Um corpo que cai


Isso pode parecer loucura ou seja o que for, mas eu sempre sonho que estou caindo. Sempre. É uma coisa que me incomoda muito, porque fico assustada e acordo completamente desnorteada.

Eu acordo com a sensação de que ia cair de algum lugar, mesmo que esse lugar simplesmente não exista. Eu fico "caindo sobre a cama", mas já estava nela. Dizem que essa sensação é provocada por um estranho fenômeno. A minha alma teria ido passear e, quando retorna, provoca a sensação de uma queda no momento em que está entrando no meu corpo. Estranho né?

Realmente sinto algo parecido com isso. Sim, apesar de como é possível dizer que tal coisa parece uma alma entrando no corpo? (sem piadinhas infames, hehe, alma não tem pau, suponho). É como quando a gente come alguma coisa ruim e diz que tem gosto de merda, mesmo sem nunca ter comido merda.

Eu não acredito nessa história da alma não, mas vou fingir que acredito porque assim é mais divertido.

quarta-feira, maio 17, 2006

Life is not a party

Chega um tempo em que tudo na vida é suado e só se consegue as coisas com muito esforço.

Por que as pessoas têm que construir alguma coisa?

Isso é uma merda. Eu quero mais é dormir.

Sabe de quem eu sou fã? Dos poetas vagabundos, dos jecas que deitam na rede, dos índios, dos hippies. E daí se você lutou pra caramba pra construir o seu império? Foda-se.

Tudo que eu quero é sossego!
Tudo que eu quero é é sossego!

Senhor cidadão


Emily - O que as pessoas vão pensar?

Kane - O que eu quiser que elas pensem.


Diálogo entre Charles Kane, dono de um império de meios de comunicação de massa, e sua esposa, Emily, sobrinha do presidente dos EUA, em Cidadão Kane, de Orson Welles.

terça-feira, maio 16, 2006

Ser e sentir

Às vezes por sentir demais
Eu não existo
A vasta distância entre mim e tudo mais
É a aproximação intensa dos sentidos

Ser não é sentir
Sentir não é ser
Ser é estar no mundo
Sentir é ser o mundo
O meu mundo
Que vive das mortes do meu ser

Esse ser que é muito mais do que existir
Mas não está
Apenas é qualquer lugar que não existe

segunda-feira, maio 15, 2006

Algum lugar

Não me venha fazer promessa
Que história é essa?
De dizer que não há vida sem mim
Você sabe que quando uma história começa
Com muita pressa
Num instante chega ao fim

Cada coisa no seu lugar
Cada palavra no seu tempo
Esteja agora onde você está
Não vá procurando outros momentos

Não venha falar que me ama
Você só ama
A mulher com vontade de existir
Pode brincar com os lençóis da cama
E os travesseiros
Só não pode me olhar assim

Eu nunca esperei você chegar
Você apareceu como se sempre fizesse falta por aqui
Estou indo embora pra onde você não está
Mas em todo lugar
Tem algo de que você gosta e que te fazia rir

Nos sinais
Nas árvores
No outro lado da rua
Nos braços
No toque
No outro lado da lua

sexta-feira, maio 12, 2006

Com a palavra, Vinícius de Moraes


A tonga da mironga do cabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
*
A terra prometida

Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz
*
Em algum lugar

Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz

segunda-feira, maio 08, 2006

Amor- pois que é palavra essencial


Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clítoris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, maio 07, 2006

Saló


Não há volúpia mais lisonjeante do que o privilégio de classe.

Filme de Pier Paolo Pasolini

Boa viagem

Ela jogou o lenço
Disse adeus
Ergueu os braços
Chorou segurando o terço

Há tanta gente
Toda essa gente que veio
Olhavam para ela
Ela sentiu que eram desejos de felicidade
E boa viagem!

Ali meu marido
Minha mãe
Meu pai
Meu filho
De quem se despede
Moça de vermelho?

De todos, não está vendo?

sábado, maio 06, 2006

Não é fácil

não é fácil
nunca foi fácil
entregar as coisas que revestem os sonhos da gente
procurando as partes em volta do mundo
como fragmentos perdidos nas causas sem rumo
não é fácil
nunca foi fácil
ser o outro e ser alguém mais
e ter certeza de que tudo isso já trás
tanta felicidade

e bem, não é verdade
mas isso a gente só descobre quando tudo se desfaz
mas é que a gente se desfaz
porque antes havia na gente mais outra pessoa
mas ela agora vive à toa
e a gente fica à toa
sem saber o que é andar
eu que nunca soube o que era o certo
fico com o destino incerto
nunca sei o que me traz

talvez a vida seja boa
entre afetos e desafetos
entre afagos e lágrimas tolas
mas assim olhar pra trás
e ver a frente como o vasto túnel
onde a gente teme o que não conhece
e uma luz dá medo do que virá

não sei, não sei
mas não é nada fácil
construir tantos afetos que depois são desafetos
e desvanecem como o sol por cima dos tetos da manhã
quando não quero ficar acordada
e puxo o lençol por cima da casa

porque pra ter amor
a gente tem sempre uma dor
e alguns se abraçam entre amor e dor
e as feridas têm que cicatrizar
ah não é fácil, amar nunca foi fácil
porque todos os outros são infernos
e a gente quer manter o céu certo
mas à custa do inferno de não ser capaz

e de céu e inferno a gente vive
e acaba no abraço do amor e da dor
de amar sempre um pouco a menos ou um pouco a mais.

quarta-feira, maio 03, 2006


Nada vos oferto
Além destas mortes
De que me alimento

Caminhos não há
Mas os pés na grama
Os inventarão

Aqui se inicia
Uma viagem clara
Para a encantação

Fonte, flor em fogo,
Que é que nos espera
Por detrás da noite?

Nada vos sovino:
Com a minha incerteza
vos ilumino

Ferreira Gullar

segunda-feira, maio 01, 2006

O novo mundo


E no primeiro dia, ela disse:

-Faça-se o amor.

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos

Dalton Trevisan